Após um longo tempo de silêncio, os raios de sol invadiram o quarto, iluminando o semblante pensativo de Severus que observava a respiração lenta de Hermione. Tudo parecia ter se normalizado após a menina ter adormecido pelo cansaço causado pelo seu estado emocional abalado. No fundo, se sentia extremamente culpado por ela estar assim. Não julgava que o Elo se manifestaria de modo tão violento e feroz em alguém ainda tão jovem. Lamentava tanto o sofrimento gerado em um coração inocente, que começava a ponderar se o mais correto não seria ficar afastado da jovem até que ela amadurecesse. Era doloroso demais se deparar com tamanha angústia e a tristeza refletidas naqueles olhos de âmbar… destroçava o seu cerno observá-la tão desolada e desesperançosa.
Simultaneamente, refletia quanto as várias hipóteses levantadas, em sua mente, sobre como retirá-la dali sem que todos a vissem. Temia que presumissem e criassem falsas teorias com relação ao que ocorrera entre os dois. Em especial, a ideia de que alguns cogitariam que fora capaz de abusar de uma criança… era assim que ainda a enxergava. Uma linda princesa bruxa de cabelos revoltos, pura, inocente e casta, a qual respeitaria cegamente e jamais se utilizaria de subterfúgios para se aproximar. Nunca lhe passara pela cabeça seduzi-la ou a cercar para garantir que fosse sua parceira futura. Ela sempre seria livre para decidir o que desejava para o seu futuro e, no que dependesse da vontade do mestre em Poções, se preservaria intocada até a idade adulta.
Suas profundas elucubrações foram interrompidas pela obviedade de que um novo dia se iniciara no Castelobruxo e algo havia de ser feito com a máxima urgência… com isso, se levantou do sofá e seguiu até o banheiro para tomar um banho rápido. Lá permaneceu alguns minutos, permitindo que a água corresse pelo seu corpo, o auxiliando a organizar suas ideias e as ideias relativas aos últimos fatos. O tempo passou depressa e, ao sair, iria buscar um dos Black para levá-la. Com tal constatação, terminou todo o seu processo de higienização, se vestiu e saiu do banheiro. Antes de cruzar a porta e rumar pelos corredores, deixou um bilhete avisando que era para aguardar o seu retorno.
Apressadamente percorreu cada passadiço, galeria e passagens, vasculhando todos os cantos a procura de quem o ajudasse. Todo passo o deixava mais ansioso pela imperiosidade em resolver o problema. Assim, longos minutos se arrastaram, transcorrendo como se fossem horas, atrasando os seus movimentos. Quando estava prestes a se deixar dominar pela apreensão, localizou Pictor vagando com um olhar inquisitivo e inquieto… o menino tentava encontrar a irmã desaparecida.
- Dia, tio! O senhor, por acaso, viu a Mione hoje? - perguntou com toda a aflição que o controlava. Temia que algo ruim tivesse sucedido durante a madrugada e ela estivesse correndo perigo.
- A senhorita Black, suponho, teve um ataque de pânico ou ansiedade, e, está no meu quarto adormecida. Quero que vá, imediatamente, pegar roupas para que possa se deslocar sem olhares curiosos - respondeu com o semblante sobrecarregado pela tensão do momento. Qualquer pessoa que não o conhecesse estaria aterrorizada com a expressão sisuda e grave que apresentava.
- Claro, eu já vou fazer isso! Mas, tio… está tudo bem? A Mione se machucou ou algo parecido? - questionou ignorando a carranca e o olhar significativo de que se calasse que lhe fora lançado. Aquela postura emburrada funcionava com muitos, menos com aqueles que o conheciam o suficiente para captar que seu humor soturno era um traço importante da sua personalidade. Além de que, o seu melhor disfarce era conservar a sua fama de mal-encarado e grosseiro com quem ousasse cruzar o seu caminho. Isso servia para esconder os seus reais sentimentos e afastar a todos os que não lhe interessavam. Severus somente desdenhava, com veracidade, de quem não gostava ou era totalmente indiferente. O que não era o caso quando se tratava daquele grupo com quem convivera por um curto período de tempo.
- Sua irmã não se feriu, fique tranquilo. Apenas necessita sair do quarto sem que nenhuma junta de fofoqueiros comentem as suas atividades - falou respirando fundo para não se irritar com o mais jovem. Conseguia ver refletido nos seus olhos a preocupação e evitaria ser descortês gratuitamente… pelo menos não com ele.
- Minha mãe pode fazer isso… ela acabou de chegar aqui e quer ver todos os filhos. Eu já a encontrei e comentei que não vira a Mione. Salvo que… - antes que pudesse seguir com a sua explicação e relatasse como Narcissa havia o beijado, abraçado e mimado em poucos minutos, foi interrompido. O bruxo de cabelos negros o apressava com uma fachada de desagrado.
- O que sucede nos verdes campos de Salazar, Pictor, para que não me escute? Cissa não ficará satisfeita em ser advertida de que a sobrinha está dormindo no meu quarto e eu não quero esse tipo de aborrecimento inútil. Quando eu me deparar com ela, conversaremos sobre este assunto e a sua irmã fará o mesmo. Estamos entendidos? - inquiriu afirmativamente. Com o rosto próximo ao do rapaz, pode constatar que, o mesmo, concordava com o que lhe era dito.
- Sim, tio… eu já volto! - assentiu e saiu correndo em direção ao quarto de Hermione. Não se demorou, pois, decorrido um breve intervalo de tempo, retornou, acompanhado por Luna, carregando uma muda de roupa íntima e o uniforme para que pudesse se entrajar.
A castanha se banhou apressuradamente, arrumando os cabelos e colocando o vestuário, para acompanha-los ao café da manhã. Desta forma, não haveria razões para que os outros pudessem dizer qualquer coisa que depusesse contra o seu caráter. Os três sussurravam como cúmplices o que contariam aos demais. Para todos os efeitos, passara a noite com a irmã e, consequentemente, este era o único motivo que fizera não se encontrar em seu cômodo pela manhã. Draco seria comunicado do que, de fato, ocorreu quando as atenções se voltassem aos seus próprios interesses e o foco saísse da castanha.
Em outro ponto do castelo, Narcissa aguardava na sala da diretora Dourada para tratar sobre o conteúdo da carta que recebera abordando o comportamento da filha nos últimos dias. Durante a espera, sentou confortavelmente, e, dedicou o seu tempo a analisar os detalhes do ambiente. Sua expressão de profundo tédio expunha o seu claro desapontamento e a aversão que sentia por estar ali. Considerava tudo aquilo de péssimo gosto e a sensação era de puro constrangimento ao constatar que seus filhos, jovens Black, estudavam naquele colégio. Concomitantemente, meditava todos os aspectos do infortúnio ao qual Hermione se envolvera e no modo que resolveria tudo em poucos minutos. Era inadmissível ser chamada para debater acusações contra sua princesa e uma iminente ameaça de expulsão. Seu aborrecimento e desgosto somavam com a indignação de ver que a regente da escola se atrasara e, apenas cerca de meia hora depois do combinado, adentrou circundada por alguns professores. Isso fez com que a bruxa de cabelos loiros adotassem a sua melhor postura arrogante e soberba. Jamais se rebaixaria diante daquelas pessoas.
Após ouvir, com um total desinteresse tudo o que lhe disseram, iniciou uma forte discussão com a professora de Poções. Se irritara visceralmente com as atitudes da mesma ao descrever a conduta da jovem castanha. Nunca admitiria que quem quer que fosse, expusesse a sua menina daquela maneira tão pejorativa e discriminativa. Sobretudo, quando escutara enfatizar o quanto era fundamental o envio de uma denúncia ao Ministério da Magia e à Federação. Defendendo, essencialmente, o irrevogável afastamento de Hermione do convívio escolar.
- Ora, sabemos aqui que é de suma importância que o Ministro seja informado do ataque contra os Caiporas e, particularmente, a alunas inocentes. Todos nós vimos o que ela é capaz e, me desculpem, mas não duvido que, essa… moça, esteja envolvida com a intitulada Brigada dos Amaldiçoados - argumentou, enfaticamente, em um tom acusatório e difamador. Encarava, a cada palavra, Narcissa que lhe retribuía o olhar com um ódio genuíno. Como vira que iria alcançar o seu objetivo, continuou sorrateiramente:
- Benedita, querida, isso deve ser hereditário… é só nos atentarmos para quem são os pais dela! Imaginem, quando no Castelobruxo pensamos em abrigar filhos de presidiários? Ainda mais de Comensais da Morte?! - deu um sorriso ladino ao arguir, sendo, imediatamente, interrompida:
- Carla, nós já discorremos quanto a isso anos atrás. A menina cometeu um erro e deve ser punida, isso é inevitável! Entretanto, não aprovo que seja vista como uma criminosa ou culpabilizada pelas decisões de outras pessoas - contra-argumentou a mais velha, se virando para a loira que, silenciosamente, investigava as intenções de todos os que ali se encontravam. Como constatara que sustentaria sua quietude crítica, intentou abordar possíveis repreensões para que a menina pensasse nos seus atos. Dessa forma, acabou por abrir precedentes para que a professora seguisse com a ofensiva.
- Eu ainda me sinto insultada com tal decisão… é uma cunhatã de temperamento incontrolável e má índole! Isso só pode ter vindo dos seus progenitores ou da sua família de degenerados - sorriu satisfeita com o seu próprio veneno derramado nas frases proferidas indiscriminadamente.
- Mensure muito bem o que diz no tocante a minha família e, acima de tudo, no que concerne os meus filhos. Eu não faço a menor ideia do que signifique cunhatã, porém, esteja convicta de que Hermione foi muito bem criada! Não é parte da escória ou do lixo de onde a senhora deve ter saído - garantiu, assentando o seu olhar agressivo na mulher a sua frente, deixando clara toda a raiva que crescia no seu íntimo. Sem permitir que falasse prosseguiu:
- Ela é doce, gentil, educada e extremamente inteligente. A minha boneca jamais seria capaz de algo com tamanha magnitude ou sordidez. Ademais, quem pensa que é para atacar uma criança inocente desse jeito tão vil e baixo? - questionou, tempestuosamente, sem alterar um tom sequer da sua voz. Intimamente, não duvidada que a jovem bruxa fosse capaz de executar feitiços muito piores do que os que foram narrados e que, se quisesse, incendiaria aquele castelo aniquilando a todos. Todavia, negaria até a morte tal fato.
- Sua sobrinha nos pôs em perigo e a senhora a defende? - esbravejou indo em direção à Narcissa. Ela, por sua vez, ergueu a sobrancelha a arrostando.
- Minha cara senhora, eu detesto ser repetitiva! Contudo, reiterando, Hermione é minha filha. Se refira deste modo ou a chame de senhorita Black… visto que, minha linda bonequinha, não nasceu em uma boca de esgoto como a sua "adorável pessoa" - salientou, acidamente, permanecendo com uma postura inabalável e aristocrática. Depois de respirar fundo, declarou com toda a sua altivez:
- Se o fez, certamente, foi porque este lugar não lhe fornecesse segurança suficiente. Portanto, teve de se defender sozinha.
- Era só o que me faltava… - começou a atacar a alegação. No entanto, a loira a impossibilitou de desenrolar as suas arguições com apenas um aceno de mão.
- Eu digo o mesmo! Uma professora, ao invés de se dar ao respeito e buscar orientar os seus alunos, fica aqui feito uma obcecada procurando meios escusos para vituperar uma menina inocente?! Acredita que está falando com quem, sua mestiça imunda e insignificante?! - retorquiu, segurando firme a varinha, avançando para onde Carla se encontrava. Antes que alguém tentasse se envolver na querela, Narcissa se voltou para a diretora. Sua revolta era palpável para toda a gente que ali estava. Ainda mais, quando nada fizeram para evitar as malsinações que foram proferidas. Contra aquele sossego colaborador aos malfadados libelos verbais que eram levantadas, afirmou:
- Esta certa de que meus filhos só ficarão nesse ambiente até o final da próxima semana. Após as férias, faço questão de tirá-los daqui. Finalmente, eles vão estudar em uma instituição de ensino em os os Black são respeitados e não vítimas de acusações infundadas. Sobretudo, as que são oriundas do que alguns aqui chamam de arraia-miúda - saiu da sala bufando, preservando o seu caminhar imponente, como se nada de importante tivesse sucedido. Não deixaria passar aquelas frases redarguitivas gratuitamente. Carla pagaria caro pelo o que fez…
Demorou mais que alguns segundos para que seu plano pudesse ser posto em prática. Avistando a professora sair animada e cruzar os corredores, olhou para os lados constatando que as duas estavam sozinhas. Seus passos se tornaram apressados até alcançá-la e, assim que emparelhou, antes de dobrarem a galeria seguinte, a segurou pelo braço a empurrando contra a parede. A mulher se assustou profundamente com a mirada colérica que recebera, imaginando o que Narcissa seria capaz. Os pensamentos da loira se colidiam e se alimentavam da fúria que dominava cada célula do seu corpo. Não permitiria que alguém se atrevesse a chegar perto do que pertencia a sua menina linda. Particularmente, quando a pessoa estava com claríssimas intenções de prejudicá-la, tensionando se aproximar e seduzir um indivíduo que já era comprometido. Em segundos, recordou como o seu coração se partiu ao ter que abrir mão de Severus em benefício da felicidade de Hermione… tal memória a orientou e lhe deu coragem suficiente para colocar a varinha no pescoço da outra ameaçadoramente.
- Eu só vou lhe dar um único aviso e espero que preste muita atenção. Está ouvindo? - pressionou mais o bastonete de ébano contra a jugular até receber como resposta um aceno afirmativo.
- Não perca o seu tempo visando entrar no caminho alheio, compreendido? O Sevie já tem dona e não há mulher que o faça desistir de quem ele ama. Quanto mais uma prostituta barata e decrépita, igual a você! - advertiu com todo o furor que percorria a sua corrente sanguínea naquele instante. Sua magia elemental oscilava de um jeito assustador, criando uma atmosfera fria no entorno das duas.
- Veremos se eu não o terei? Aquele homem lindo vai ser meu e não vai ser uma vadiazinha ou uma piranha velha que me impedirá de conquistar o que eu quero! - Carla cuspiu cada sílaba de uma maneira debochada a afrontando. Sem medir as consequências, riu abertamente até ter a sua zombaria encerrada por uma bofetada. Em um átimo, passou a experimentar a claustrofóbica sensação de que era esmagada de encontro ao chão e o ar se transformava em um tipo de gás venenoso que a asfixiava. Só ouvia sussurros que deduzia serem partes do Verbis Diablo, a deixando aterrorizada.
- Não tente me enfrentar… eu mato você, como faria a qualquer verme da sua laia, sem pensar duas vezes! - se retirou, com o andar vagaroso, apreciando os gritos de dor causados pelos espasmos fortes, ocasionados pelas maldições ali lançadas contra a mulher. A tortura e o sofrimento durariam por dias, se explanando lentamente por todo o corpo, feridas com aspecto putrefato tomariam cada milimetro de pele… imaginar a cena de deterioração e horror, fez com que Narcissa abrisse um sorriso sádico. Realmente, não era uma boa ideia desafiar uma bruxa da tríade da inevitável tríade das Black.
Mirando para as sombras, que se formavam pelo piso, constatou que faltavam poucos minutos para o intervalo entre as aulas e, assim, conseguiria conversar com os filhos. Sentou em um dos bancos que contornavam o pátio interno da escola, tão absorta em seus devaneios e elucubrações, que não reparara que era vigiada de longe. A figura oculta se esgueirou, demoradamente, se afastando dali, sem desviar a mirada. Contudo, não poderia se alongar, porque avistara Leo e Sagitta avançando, de um modo completamente irrefletido e afobado, mostrando a clara intenção e esforço em se esconder ou fugir da mãe. Tal afinco foi em vão… Narcissa os observava e se ergueu, arrumando o vestido, se direcionando aos dois.
- Dia, dois dos meus amores! Como estão? - cumprimentou, avaliando a forma que reagiram a sua presença. Pareciam duas crianças assustadas ao serem pegas em flagrante fazendo bagunça e buscavam argumentações para se defender.
- Dia… tudo bem, mãe. E a senhora? - responderam, quase que conjuntamente, preocupados com o que viria. No fundo, tinham um claro pressentimento que Hermione contara do desentendimento que tiveram e as ofensas que foram ditas. Certamente, Narcissa se desapontara e ficara furiosa com tais atitudes. Estavam perdidos sem saber o que fazer.
- Estou ótima. Fico feliz que os encontrei primeiro… creio que temos assuntos para tratar, não é? - perguntou, seriamente, à dupla que apenas assentiu e sentaram ao lado dela, sustentando os olhos abaixados.
- Leo, eu ainda me recordo tão bem do dia em que você e os seus irmãos nasceram… não pude vê-lo e isso me deixou triste. Havia medibruxos, parteiras e enfermeiras no seu entorno. Todos falando ao mesmo tempo. Apesar disso, a minha certeza de que estava ali lutando, me tranquilizava - iniciou, em meio a um longo suspiro, vendo que os filhos levantavam os olhos para prestar atenção no que narrava. Diante da quietude e da consideração demostrada, continuou com o seu relato:
- Sirius tinha os olhos marejados, porque era o primeiro filho que ele via nascer. Nunca contemplei tanto orgulho em seu rosto como naquele momento. Era algo comovente… principalmente, quando suas palavras garantiam que o nosso leãozinho brigava pela própria vida. Aquilo me tranquilizou tamanha a magnificência do amor que os seus olhos destinavam a mim - o semblante dela transparecia as emoções que quase transbordavam a cada frase. Aquelas eram lembranças muito fortes e preciosas e, imaginava que, naquele instante seriam relevantes. Era imprescindível que esclarecesse demandas que foram ignoradas ou abandonadas por anos.
- Quando eu o segurei em meus braços, seu lindo rosto era azulzinho por conta do cordão umbilical ter se enrolado no seu pescoço… eu o achei tão corajoso e forte por enfrentar a morte quando não passava de um ser tão pequeno e frágil. Tudo o que eu mais desejava era prendê-lo no meu abraço e não soltar até que tivesse condições de traçar o seu próprio caminho - se interrompeu para secar os primeiros sinais de choro que já fluíam pela sua face.
- Porque a senhora está mencionando isso, mãe? - Sagitta inquiriu inquieta com as sensações sentidas nos argumentos que escutava. Não assimilava os motivos que levavam àquilo ser exposto, justamente, em meio àquele diálogo. Ao mesmo tempo, Leo parecia imerso naquela história, totalmente inerte e centrado em si mesmo. Nunca nada foi tão intenso quanto saber que quase morrera sufocado antes mesmo de desbravar o mundo.
- Logo serão capazes de compreender o que eu estou lhes comunicando - asseverou, ainda desviando as lágrimas que insistiam em cair, retomando a sua postura sóbria e plena. Puxou o ar com força para os seus pulmões, acalmando as batidas do seu coração, como se pegasse partículas de bravura para dar seguimento ao tema. Foi assim que recuperou todos os fios que trançavam e costuravam o seu argumento:
- As dores voltaram e, você minha flecha, veio apressada e chorando alto. Parecia que ficara nervosa por tantas pessoas ficarem a sua volta a examinando e queria sair logo dali. Eu a amei intensamente! Tanto quanto adorava os meus dois meninos… o meu dragão e o meu leão. Seu pai, ficou igualmente feliz e encantado. Especialmente, pelo motivo que acreditamos que você foi a responsável por Pictor não demorar a chegar com a sua enorme tranquilidade - sorriu analisando os dois e passando a mão, carinhosamente, no rosto de ambos.
- Ah, meus bebês… me sinto fracassada ao não conseguir entender em que pondo eu errei tão profundamente para que chegassem nesse estado de atacarem os seus irmãos! Eu lhes devotei uma afeição gigantesca, procurei me desdobrar em seus para cobri-los com todo o carinho e amor. Não existiu um segundo em que eu deixei de colocar as suas necessidades como mais relevantes que as minhas - suas palavras cessaram pelo seu próprio soluço. Se culpava porque os filhos se insultaram e abriram feridas e fendas profundas na relação que possuíam. Algumas barreiras erguidas, se não fossem derrubadas e o perdão procurado, se converteriam em muros intransponíveis no futuro próximo.
- Por favor, mãe… não chora! Me desculpe… eu me sinto horrível pelo o que eu fiz. A senhora é maravilhosa, é perfeita e sempre fez o melhor pela gente - Leo a abraçava com força para que se acalmasse. Com a cabeça sobre o ombro do menino, ficou por alguns minutos até controlar as suas emoções.
- Sinceramente, não capto toda essa raiva. Como vocês lograram atacar a sua irmã mais velha dessa maneira? A questão não é ser ou não parecida com a Bellatrix… se o fosse, Sagitta é quem sempre foi idêntica a ela… porém, o fato de que a renegaram. Eu estou tão triste por perceber que são capazes de machucar tão profundamente quem os ama - disse se desvencilhando do jovem e transitando o olhar magoado de um para o outro. Em meio ao pranto, progrediu na repreensão que decidira elaborar e por em prática. Pois, por mais que lhe doesse censurá-los, era um mal indispensável. Teriam que admitir a gravidade dos seus atos e pesava o quanto eles estavam assustados em ser advertidos com tanto empenho. Principalmente, por alguém que sempre lhes destinou palavras doces e repletas de carinho.
- Me expliquem como enxergam a vida… alguma vez se colocaram no lugar da Hermione? Os pais dela estavam presos. O mais próximo de uma figura materna, que ela conhecera, era eu. Esperavam que eu a rejeitasse? Que a jogasse na casa da sua tia Andrômeda e argumentasse que não era meu problema? - inquiriu os dois extravasando toda a sua dor e frustrada.
- Gostando ou não, ela é filha do seu pai. Eu a amo e não admito que, quem quer que seja, sugira que não é tão minha quanto vocês! Sua irmã pode não ter saído do meu ventre ou existir um maldito documento em que o nome da Bella está como a mãe… porém, fui eu quem a criou e sou eu quem a conhece. - novamente foi obrigada a respirar fundo e continuou, perseverando na censura àquele comportamento:
- Aliás, eu os proíbo que digam qualquer coisa contra a tia de vocês. Os dois nunca a viram pessoalmente, não fazem ideia da mulher forte e admirável que é. Minha irmã tem uma ambição imensa e sempre foi atrás de tudo o que desejava… Eu, muitas vezes, almejei ter um pouco da força que ela possui - a cada momento, sentia que, aquele dia era o pior da sua vida em vários aspectos.
- Quanto ao Draco… o que eu vou lhes dizer? Por acaso, creem que ele esteja orgulhoso de carregar o sobrenome de um ser repugnante a abjeto como o Lucius? Caso queiram ser informados, ao contrário de vocês, seu irmão foi renegado pelo próprio pai. Imaginaram, um segundo que seja, se o Sirius o fizesse como se sentiriam? - interrogou os dois que baixaram a cabeça, profundamente envergonhados, sem ter palavras para justificarem ou se desculparem.
- Embora eu enxergue duas crianças inconsequentes, sei muito bem que já são capazes de interpretar a gravidade de algumas situações e atitudes… Draco quase foi assassinado quando ainda estava dentro de mim. Lucius, deliberadamente, decidiu que não queria ter um filho e tentou me forçar a abortá-lo. Ele me… eu tive que batalhar, com todas as minhas forças, para tê-lo e, acima de tudo, o manter em segurança - Narcissa colocou as mãos no queixo de cada um, os fazendo fitá-la, seus olhares transpareciam os sinais de um profundo arrependimento que se manifestavam também nas expressões fixadas nas suas faces.
- Eu não sei de onde tiram certas opiniões… francamente, me nego a aceitar a possibilidade que passa na minha mente! Me recuso a entrar no tema do quanto ofenderam a Luna sem se darem conta. Entretanto, solicito que se conscientizem e reflitam o peso das palavras - já se levantando para se despedir, ainda olhando para eles, argumentou:
- Estejam certos de uma coisa, se tivermos que repetir essa conversa, terei outra atitude. Por mais que me parta o coração, eu o farei - concluiu vendo os filhos repetirem o seu gesto e buscarem o seu abraço. Em meio a troca de afagos, se recordou do recado que Sirius pedira para que desse a eles:
- Antes que eu me esqueça… seu pai solicitou que lhes dissesse que tem muito orgulho dos filhos e que nenhum tem o direito de afrontar os demais. Além disso, deseja que sigam os seus próprios caminhos, sem se envolverem em questões que são de responsabilidade dele - asseverou. Não demorou para puxá-los novamente para um abraço apertado, cobrindo seus rostos de beijos. Queria deixar explicito o amor que destinava aos seus dois rebeldes.
Ação esta repetida ao encontrar Draco e Luna, de quem igualmente sentia saudades. Se pudesse, faria com que todos os filhos ficassem em casa, para que pudesse mimá-los e protegê-los integralmente. Todavia, era impossível… sobretudo, quando notava que eram adolescentes e começavam a seguir com as suas próprias vidas. Era difícil aceitar que cresciam tão rápido e tomavam decisões sozinhos, no entanto, se conformava em ficar de espectadora ou os consolando quando algo os machucava. Cada um era um pequeno universo a ser cuidado e adorado profundamente e se sentia orgulhosa de vê-los tão perseverantes em suas qualidades e diferenças.
Logo depois de conversar longamente com eles, perguntou onde se localizava Hermione. Queria vê-la antes de retornar a Porto Alegre e relatar para Sirius tudo o que disseram com relação ao comportamento da menina na escola. Draco foi quem lhe avisou que, certamente, já se encaminhava para a aula de Ritos e Cultura Indígena. Isso fez com que a loira atravessasse os corredores o mais rápido que pode, seguindo as instruções do filho quanto ao local em que as aulas eram ministradas. Assim que dobrou o último passadiço, a castanha a viu e correu ao seu encontro, com um enorme sorriso no rosto. Por pouco, as duas não caíram com o impacto da jovem quase pulando contra o seu corpo.
- Mãe, eu estava com saudades! Eu.. eu sabia que a senhora viria para me ajudar - falou a abraçando o mais forte que conseguia. Mesmo que tivesse aprendido a esconder as suas emoções, ainda mais tudo o que fosse exagerado, e, evitasse revelar os próprios sentimentos publicamente, a proteção da loira a deixava tranquila. Isso era algo tão forte que derrubava as amarras sociais que as envolviam.
- Você tem um minuto para falar comigo, minha linda bonequinha? - questionou acariciando os cabelos crespos e sempre insubordinados da mais jovem.
- Sim… eu posso faltar a essa aula. A senhora reconhece que eu não gosto de fazer isso. Entretanto, estou com tantas saudades e queria tanto encontrá-la que não tem importância se me ausentar por um dia - revelou, quase sussurrando, para que ninguém a escutasse. Manteria a sua postura de aluna exemplar e desempenho irrepreensível.
- Compreendo… e me sinto mais do que honrada com tamanha consideração recebida - sorriu a levando pela mão. Enquanto caminhavam, Hermione explicava e apontava onde poderiam se sentar confortavelmente para conversar com calma. Ao chegarem em um jardim interno, bastante florido, sentaram. Não demorou para que a loira a puxasse para mais perto, a aconchegando no seu colo.
- Mãe, a senhora já deve ter sido comunicada de que eu fiz uma coisa horrível… - começou a contar, porém, a narrativa foi interrompida. No fundo, não queria falar a respeito daquele assunto e soltou um longo suspiro.
- Não importa o que aconteceu… você está bem e isso é a coisa mais valiosa dentro de todos os fatos - comentou enrolando os dedos nos cachos, os puxando levemente como se fossem pequenas molas. Aquele confortável silêncio entre as duas se prolongou por vários minutos. Narcissa, notando que a sobrinha nada diria, aproveitou o instante:
- Quando você era pequena e estava confusa ou nervosa, eu tinha o costume de cantar The unquiet grave para acalmar o seu temperamento. O interessante é que essa sempre foi a música predileta da Bella, que alegava que era uma canção de piratas selvagens. Quer ouvir? - questionou amavelmente, continuando com o zelo dedicado nos seus gestos e frases de afeto. Notando que recebera a aprovação, começou a cantar baixinho...
My breast is cold as clay (Meu peito é frio como argila)
My breath is earthly strong (Meu hálito cheira a terra forte)
And if you kiss my cold clay lips (E se beijar meus lábios gelados e cinzentos)
You days they won't be long (Seus dias não serão longos)
How oft on yonder grave, sweetheart (Quantas vezes lá no túmulo, querida)
Where we were want to walk (Por onde nós queremos andar)
The fairest flower that e'er I saw (A flor mais bonita que eu já vi)
Has withered to a stalk (Murchou até o pedúnculo)
when will we meet again, sweetheart (Quando nos encontraremos de novo, querida?)
When will we meet again? (Quando nos encontraremos outra vez?)
when the autumn leaves that fall from the trees (Quando as folhas de outono caem das árvores)
Are green and spring up again (Ficam verdes e a primavera venha novamente).
