CAPÍTULO 8
Ora, pelo amor de Deus, Dan, eu sei que não tenho um nariz bisonhamente grande. Eu só estava ilustrando o meu argumento. Não se pode esperar honestidade do Sr. Potter quando se trata da irmã de um amigo. Ele é obrigado a me elogiar. Acho que é uma regra implícita entre os homens, não?
Mas e o tenente Potter, como ele é?
(Carta de Hermione Granger ao irmão Dan)
Quando eles desceram ao salão de refeições, às cinco e meia da tarde, ou os principais Weasley já estavam esperando por eles, ocupando uma mesa junto à parede com uma caneca de cerveja e uma bandeja com pão e queijo. O principal é criar para receber e Harry ou cumprimentá-lo com uma mesura impecável. Os dois homens não tinham servido o exército juntos, mas os seus caminhos já tinham se cruzado mais de uma vez. A maior era uma espécie de administrador de guarnição inglesa em Nova York, sendo, sem dúvida, o melhor ponto de partida na busca de um soldado desaparecido.
Harry sempre acha que Weasley oferece demais para o seu gosto, mas isso é acompanhado de uma rígida tendência de ordem e ao cumprimento das regras, qualidades muito aplicáveis em um administrador militar. E, sendo sincero, Harry nunca investiu em uma função do sujeito.
Assim que eles são enviados para mesa, Hermione não perdeu tempo.
- Alguma notícia do meu irmão?
Quando o major Weasley voltou para ela, Harry não teve condescendência em seu olhar.
- O campo de batalhas é imenso, minha cara - disse ele. - Não pode esperar que consigamos encontrar um homem tão rápido assim. - Então, acene para o prato no meio da mesa. - Uma senhora gosta de queijo?
Por um instante, Hermione ficou perplexa com uma mudança de assunto, mas logo se recompôs.
- É do exército que estamos falando - protestou ela. - O exército inglês.
Afinal não somos uma força mais evoluída e organizada do mundo inteiro?
- Naturalmente, mas ...
- Então, como é possível que o exército tenha perdido um homem? Harry pousou a mão no braço dela com delicadeza.
- O caos da guerra é capaz de colocar no xeque até o mesmo como melhores configurações. Eu mesmo passei meses desaparecido.
– Mas Dan não estava desaparecido quando desapareceu! – lamentou-se ela.
Weasley soltou uma risadinha abafada, achando muita graça do uso confuso de palavras de Hermione.
– Ah, essa foi boa – disse o major, cortando uma fatia grossa de cheddar. – "Não estava desaparecido quando desapareceu." Rá, rá. O coronel vai adorar essa.
– Foi uma frase infeliz – falou Hermione, secamente.
Harry, irritado com tamanha insensibilidade por parte do major, observava Hermione com atenção. Chegou a pensar em intervir, mas ela parecia estar no controle da situação. Bem, talvez não da situação, mas estava no controle de si mesma.
– O que eu quis dizer – prosseguiu ela, com um olhar gélido que tinha a
intenção de deixar o major apavorado – foi que Dan estava aqui em Nova York. No hospital. E que então desapareceu. Não é como se estivesse no front, ou espionando atrás das linhas inimigas.
"Espionando atrás das linhas inimigas"... Harry franziu o cenho enquanto a frase ecoava em sua cabeça. Será que era isso que ele tinha ido fazer em Connecticut? Parecia o cenário mais provável. Mas por quê? Não se lembrava de já ter desempenhado aquele papel antes.
– Bom, a questão é justamente essa – tornou o major Weasley. – Não encontrei registros de que seu irmão tenha dado entrada no hospital.
– O quê? – O olhar de Hermione corria entre Harry e o major. – Não é possível!
Weasley deu de ombros, indiferente.
– Meu auxiliar verificou tudo pessoalmente. Temos um registro com o nome e a patente de cada soldado que é trazido ao hospital. Anotamos a data de entrada e a data de, hã, saída.
– Saída? – ecoou Hermione.
– Alta... ou morte. – Weasley pelo menos teve a decência de ficar um pouco desconfortável ao mencionar a possibilidade. – Seja como for, o nome do seu irmão não está nesse registro.
– Mas ele foi ferido – protestou ela. – Nós recebemos uma carta. – Ela se voltou para Harry, inconformada. – Meu pai recebeu uma correspondência do general Moody que informava que Dan tinha sido ferido, mas que o ferimento não fora mortal, e que ele estava se recuperando no hospital. Existe algum outro hospital?
Harry olhou para o major Weasley.
– Não nesta parte da ilha.
– Nesta parte? – reagiu Hermione, atenta à escolha de palavras do major.
– No Haarlem existe uma espécie de enfermaria – respondeu Weasley, com um suspiro que indicava que preferia não ter que falar sobre o assunto. – Eu não chamaria aquilo de hospital. – Deu uma olhada sugestiva para Harry. – Eu mesmo não gostaria de dar entrada lá, se é que os senhores me entendem.
Hermione ficou lívida.
– Pelo amor de Deus – vociferou Harry –, estamos falando do irmão desta dama!
O major se virou para Hermione com uma expressão arrependida, e disse:
– Queira me desculpar, senhora.
Ela aquiesceu muito sutilmente, engolindo em seco – o que tornou o gesto ainda mais melancólico.
– A enfermaria no Haarlem é, na melhor das hipóteses, rudimentar – prosseguiu o major Weasley. – Seu irmão é um oficial, senhora. Não teria sido levado a um lugar daqueles.
– Mas se fosse o pronto-socorro mais próximo...
– Se a ferida dele não era fatal, era para ter sido transferido logo depois.
Harry odiava a ideia de soldados alistados sendo forçados a se recuperar em instalações inferiores apenas por conta de sua baixa patente, mas havia poucos leitos no hospital da área em que se encontravam, ao sul da ilha de Manhattan.
– Ele está certo – disse Harry a Hermione. – O exército sempre transfere primeiro os oficiais.
– E se Dan tivesse um motivo para se recusar a ser transferido? – sugeriu ela. – Se estava com os seus homens, talvez tenha preferido continuar ao lado deles.
– Mas isso teria acontecido meses atrás – falou Harry, odiando-se por ser obrigado a acabar com a esperança dela. – Mesmo se tivesse ficado com os homens, a esta altura ele já estaria de volta ao sul.
– Ah, com certeza – declarou o major Weasley. – Não existe possibilidade de ele estar no Haarlem.
– Aquele lugar mal faz parte da cidade – disse Harry a Hermione. – Além da Mansão Morris, só o que há por lá é uma coleção de instalações coloniais abandonadas.
– Mas não temos homens de guarda lá?
– Sim, mas só o suficiente para impedir que o território volte para as mãos do inimigo – explicou o major Weasley. – Há também boas terras agrícolas. Nossas plantações estão quase prontas para a colheita.
– Nossas? – Harry teve que perguntar.
– Os fazendeiros do Haarlem são leais ao rei – afirmou o major, com firmeza.
Harry não tinha muita certeza daquilo, mas não era a hora apropriada para uma discussão acerca de alinhamentos políticos.
O major Weasley se esticou para pegar mais um pedaço de pão e queijo, torcendo o nariz quando o cheddar se esfarelou ao contato com a faca.
– Analisamos os registros do hospital dos últimos seis meses – falou, trazendo a conversa de volta ao assunto principal. – Não encontramos nenhuma menção ao seu irmão. Parece até que ele nunca existiu.
Harry reprimiu um resmungo. Meu Deus, o homem não tinha nenhum tato.
– Mas o senhor vai continuar a investigar? – perguntou Hermione.
– Mas é claro, é claro. – O major olhou para Harry. – É o mínimo que podemos fazer.
– O mínimo do mínimo – resmungou Harry.
O major recuou.
– Perdão, o que disse?
– Na semana passada, quando conversou com a minha esposa, por que não deu a ela todas essas informações? – perguntou Harry.
O major ficou paralisado, a comida a meio caminho da boca.
– Eu não sabia que ela era sua esposa.
Harry teria estrangulado o homem de muito bom grado.
– E que diferença isso faz?
O major Weasley só olhava para ele.
– Sendo ou não minha esposa, ela ainda é irmã do capitão Granger. Merece respeito e consideração, independentemente de seu estado civil.
– Não estamos acostumados a ter que lidar com o interrogatório de familiares – respondeu o major, com aspereza.
Harry tinha pelo menos seis respostas diferentes na ponta da língua, mas decidiu que seria contraproducente provocar a antipatia do major. Em vez de responder a ele, voltou-se para Hermione.
– Trouxe a carta do general Moody?
– É claro. – Ela enfiou a mão no bolso do vestido. – Carrego-a comigo o tempo todo.
Harry pegou a folha, desdobrando-a. Leu em silêncio, estendendo-a, então, para o major Weasley.
– O que houve? – perguntou Hermione. – Qual é o problema?
O major franziu as sobrancelhas espessas e, sem nem tirar os olhos da carta, respondeu:
– Isso não parece nada com o general Moody.
– Como assim? – Aflita, Hermione se voltou para Harry. – Do que ele está falando?
– Tem algo errado com essa carta – respondeu ele. – Ainda não consigo dizer o que é.
– Por que alguém me mandaria tal coisa?
– Não sei.
Harry apertou as têmporas, que estavam começando a latejar. Hermione percebeu o movimento no mesmo instante.
– Você está bem?
– Estou.
– Nós podemos...
– Estamos aqui para falar de Dan – cortou ele. – Não de mim.
Ele respirou fundo. Iria terminar aquela reunião. Talvez tivesse que voltar direto para a cama, e talvez chegasse até mesmo a aceitar aquela dose de láudano com que ela o ameaçara mais cedo, mas ainda conseguiria terminar uma maldita reunião com o major Weasley.
Ele não podia estar tão fraco assim.
Ao erguer os olhos, viu que tanto Hermione quanto o major o observavam com uma expressão preocupada.
– Espero que seu ferimento não esteja incomodando excessivamente – falou o major, sem muito jeito.
– Está doendo para diabo – disse Harry, com os dentes trincados –, mas
pelo menos estou vivo. Prefiro me concentrar em me sentir grato por isso.
Hermione o olhou, surpresa. O que era compreensível, pensou ele. Harry não costumava ser tão ácido.
Weasley pigarreou, dizendo:
– Entendo. Bem, em todo o caso, fiquei muito aliviado quando soube que o senhor tinha sido trazido de volta são e salvo.
Harry deu um suspiro e falou:
– Peço desculpas, major. Fico com os nervos à flor da pele quando minha cabeça começa a latejar mais do que o normal.
Hermione se inclinou para perto dele e sussurrou:
– Será que não é melhor eu levá-lo de volta lá para cima?
– Não precisa – murmurou Harry, perdendo o fôlego ao sentir mais uma pontada na cabeça. – Ainda não.
Harry voltou sua atenção de novo para Weasley, que estava relendo a carta do general com o cenho franzido.
– O que foi? – perguntou Harry.
O major coçou o queixo.
– É improvável que Moody fosse... – Balançou, então, a cabeça. – Deixe para lá.
– Não – atalhou Hermione. – Por favor, continue.
O major Weasley hesitou, como se estivesse pensando na melhor maneira de se expressar.
– A escolha de informações contidas nessa carta me parece curiosa – falou, enfim.
– Como assim? – perguntou Hermione.
– Não é o que normalmente se escreveria em uma carta para a família de um combatente – explicou o major, olhando para Harry como quem pede validação.
– Talvez – respondeu Harry, ainda esfregando a testa, gesto que não estava ajudando muito a aliviar a dor, mas que ele parecia incapaz de parar de fazer. – Eu mesmo nunca tive que escrever esse tipo de missiva.
– Mas você mesmo disse que havia algo errado com a carta – lembrou
Hermione.
– Não consigo ser tão específico quanto o major – respondeu Harry. – Só sinto que algo não cheira bem. Conheço o general Moody. Isso não parece algo que ele teria escrito, mas não consigo precisar o porquê.
– Eu, por outro lado, já escrevi muitas cartas como essa – falou o major Weasley. – Inúmeras.
– E...? – insistiu Hermione.
Ele soltou um suspiro profundo.
– E eu jamais diria à família que um homem se feriu, mas que seu ferimento não oferece risco de vida. Não há como garantir isso. Leva mais de um mês para que as cartas cheguem à Inglaterra. Nesse meio-tempo, qualquer coisa pode acontecer.
Hermione aquiesceu, e o major continuou:
– Já vi muito mais homens sucumbindo à infecção do que perecendo, de fato, dos ferimentos de guerra. No mês passado, perdi um homem por causa de uma bolha. – Ele olhou para Harry, com uma expressão desolada de incredulidade.
– Uma bolha.
Harry lançou um olhar rápido para Hermione. Ela estava conseguindo se conter, era a personificação do estoicismo britânico. Mas havia pesar nos olhos dela, e Harry teve a terrível sensação de que, se a tocasse – mesmo o mais suave toque de um dedo no braço dela –, ela se estilhaçaria em mil cacos.
Ainda assim, ele estava morrendo de vontade de abraçá-la. Queria abraçá-la com força, para impedir que ela se despedaçasse. Abraçá-la por tanto tempo quanto fosse necessário para que as preocupações e os medos dela se transferissem para ele.
Ele queria absorver a dor de Hermione. Queria ser a sua força.
E iria conseguir, jurou ele. Iria se recuperar. Convalescer. Seria, enfim, o
marido que ela merecia ter. O marido que ele merecia ser.
– Foi no pé, a bolha – prosseguiu o major, sem nem se dar conta do sofrimento de Hermione. – As meias devem ter causado muito atrito. O homem estava marchando pelos pântanos. É impossível manter os pés secos nessas condições, sabe?
Hermione ainda conseguiu aquiescer, com um olhar de compaixão.
O major Weasley pôs a mão no caneco de cerveja, mas não o levantou da mesa. Ficou um pouco soturno, ainda afetado pela lembrança.
– A maldita bolha deve ter se aberto em algum momento, porque no dia seguinte ele já estava com infecção e, na semana seguinte, estava morto.
Hermione engoliu em seco.
– Meus pêsames.
Ela olhava fixamente para as próprias mãos, entrelaçadas em cima da mesa, e Harry teve a distinta sensação de que ela estava tentando impedir que tremessem, como se a única maneira de conseguir aquela proeza fosse continuar fitando os dedos, evitando transparecer qualquer sinal de fraqueza.
Ela era muito forte, a esposa dele. Ele ficou se perguntando se ela sabia disso.
O major pestanejou, surpreso ao receber aquelas condolências.
– Obrigado – respondeu, meio sem jeito. – Foi uma perda... Bem, foi uma perda dura.
– Todas sempre são – disse Harry, baixinho.
Por um instante, ele e o major, que tinham tão pouco em comum, se uniram na fraternidade militar. Finalmente, o major Weasley pigarreou e perguntou:
– Posso ficar com isto aqui?
Ergueu a carta do general Moody.
Hermione nem se mexeu, mas Harry viu a aflição contida por trás de seus pálidos olhos verdes. Ela retraiu o queixo em um leve vestígio de reação e seu lábio inferior estremeceu antes que o contivesse com os dentes. A carta do general era sua única conexão com o irmão, e estava claro que ela relutava em entregá-la a outra pessoa.
Quando ela olhou para Harry em busca de orientação, ele disse:
– É melhor deixar a carta com ele.
Por mais que Weasley fosse um grosseirão, ele era um bom soldado, e aquela carta iria ajudá-lo na busca por Dan.
– Eu a guardarei com muito cuidado – assegurou Weasley, guardando a
missiva no bolso interno da casaca e dando duas batidinhas. – Eu lhe dou minha palavra, senhora.
– Obrigada – falou Hermione. – Peço perdão se pareço mal-agradecida. Na verdade, fico muito grata pela ajuda.
Um gesto gracioso, pensou Harry, ainda mais considerando que, até aquele momento, a cooperação do major fora nula.
– Certo. Bem, preciso ir agora. – O major Weasley se levantou, meneando a cabeça educadamente para Hermione, e então virou-se para Harry. – Estimo melhoras, capitão.
Harry respondeu com um aceno, dizendo:
– Queira me perdoar por não me levantar, major.
De repente, estava se sentindo um tanto nauseado e com a terrível impressão de que, se tentasse se levantar, acabaria pondo para fora tudo o que tinha no estômago.
– Claro, claro – respondeu o Weasley, com seu jeito bronco de sempre. – Não há problema.
– Espere! – interrompeu Hermione, levantando-se depressa quando Weasley fez menção de ir embora.
Ele voltou o rosto para ela.
– Senhora?
– O senhor me levaria ao Haarlem amanhã?
– O quê?
"Dane-se o estômago revirado", pensou Harry, levantando-se no mesmo
instante.
– Eu gostaria de visitar a enfermaria sobre a qual conversamos – disse ela ao major.
– Posso levá-la – interrompeu Harry.
– Acho que você não está em condições...
– Vou levá-la.
Weasley correu os olhos de Harry para Hermione, escondendo um traço de diversão, antes de responder, dando de ombros.
– Não posso contrariar a vontade do seu marido.
– Mas eu preciso ir – protestou Hermione. – Dan pode estar...
– Nós já deduzimos que é extremamente improvável que ele esteja no
Haarlem – falou Harry.
Ele se agarrava com força à borda da mesa, torcendo para não demonstrar que estava sentindo desconforto. Ao se levantar de forma tão repentina, havia desencadeado uma forte onda de vertigem.
– Mas ele pode ter passado por lá – insistiu Hermione. – E, nesse caso, alguém há de se lembrar dele.
– Eu vou levá-la – insistiu Harry
O Haarlem ficava a menos de vinte quilômetros dali, mas desde que os ingleses tinham perdido (e reconquistado) o território em 1776, o lugar deixara de ser o antigo vilarejo holandês e se assemelhava mais a um posto selvagem.
Não era lugar onde uma dama devesse se aventurar sozinha e, embora não duvidasse de que o major Weasley fosse plenamente capaz de cuidar de Hermione, Harry estava convencido de que acompanhar a esposa e zelar por sua segurança era o seu dever como marido.
– Com sua licença, senhora – despediu-se o major Weasley, fazendo, outra vez, uma mesura para Hermione.
Ela fez um breve aceno com a cabeça. Contudo, Harry tinha certeza de que o alvo da rispidez dela não era o major. De fato, assim que Weasley se foi, ela se virou para Harry de queixo erguido e disse:
– Eu preciso ir a essa enfermaria.
– E você vai. – Ele voltou à cadeira, sentando-se devagar. – Só não será amanhã.
– Mas...
– Nada vai mudar em um único dia – interpôs ele, exausto demais para discutir com ela. – Weasley está investigando. Tenho certeza de que ele
conseguirá informações junto ao secretário do general Moody, muito mais do que nós obteríamos nessa viagem ao norte da ilha.
– Creio que seria melhor perseguir as duas possibilidades – rebateu ela, sentando-se também ao lado dele.
– E eu não refuto este argumento.
Harry fechou os olhos por um instante, tentando lutar contra a onda de fadiga que se apossava dele. Com um suspiro profundo, prosseguiu:
– Nada se perderá em um ou dois dias. Eu prometo.
– E como pode me garantir isso?
Céus, ela era dura na queda. Se não estivesse se sentindo tão mal, Harry até elogiaria a maldita tenacidade da esposa.
– Está bem! – exclamou ele. – Não tenho como garantir nada. Segundo consta, nada impede que o exército continental ataque amanhã e que morramos todos, perdendo, assim, a chance de investigar a tal enfermaria. Mas posso assegurar que, considerando tudo o que sei, o que pode não ser muito, mas ainda é mais do que você sabe, alguns dias não farão diferença.
Ela o encarou, perplexa. Harry pensou que talvez não tivesse sido prudente se casar com a dona de olhos tão extraordinários. Pois, sob o escrutínio do olhar de Hermione, ele precisava de toda a força de vontade que possuía para não se remexer na cadeira.
Se ele fosse um homem metafísico, poderia jurar que ela era capaz de
perscrutar a alma dele.
– O major Weasley poderia ter me escoltado – argumentou ela, com um traço de enfrentamento na voz.
Ele reprimiu um grunhido irritado.
– E você quer mesmo passar um dia inteiro com o major Weasley?
– Claro que não, mas...
– E se vocês tiverem que passar a noite lá? Chegou a considerar essa possibilidade?
– Harry, eu consegui atravessar o Atlântico sozinha. Tenho certeza de que seria capaz de tolerar uma única noite no Haarlem.
– Mas você não deveria ter que passar por isso – persistiu ele. – Você é casada comigo, Hermione. Por Deus, deixe-me proteger você.
– Mas você não está em condições de fazer isso.
Harry recuou, deixando-se cair na cadeira. Ela falara num tom delicado, mas não teria sido capaz de produzir um golpe tão letal quanto suas palavras nem se tivesse acertado um soco em cheio no rosto dele.
– Desculpe – Hermione apressou-se em dizer. – Mil desculpas. Eu não quis dizer...
– Eu sei muito bem o que você quis dizer.
– Não, acho que não sabe.
Até então, Harry vinha conseguindo controlar o mau humor, mas, naquele momento, explodiu.
– Você está certa – disse ele, secamente. – Eu não sei mesmo. Sabe por quê? Porque eu não a conheço. Estou casado com você, ou pelo menos isso é o que me dizem...
Ela se encolheu.
– ... e embora eu seja capaz de imaginar uma série de motivos para tal união, não consigo me lembrar de nenhum deles.
Ela não disse nada. Ficou imóvel, exceto pelo tremor minúsculo nos lábios.
– Você é minha esposa ou não é? – perguntou Harry em um tom tão cruel que fez com que ele se arrependesse das palavras no mesmíssimo instante. – Perdão – murmurou ele. – Isso foi impróprio.
Ela o encarou por mais alguns segundos, e seu rosto enigmático não revelava nada de seus pensamentos. Quando falou, ela estava assustadoramente pálida:
– Eu acho que você precisa descansar.
– Eu sei que preciso descansar – cortou ele, irritado. – Por acaso acha que estou alheio ao que se passa dentro da minha cabeça? É como se alguém estivesse martelando o meu crânio de dentro para fora.
Ela estendeu a mão por cima da mesa, pegando a dele.
– Não estou me sentindo bem – confessou ele.
Foram palavras simples, porém difíceis de serem ditas por um homem. Mesmo assim, só por conseguir admitir sua fraqueza, Harry já começava a se sentir melhor.
Não, não exatamente melhor. Mas aliviado. O que, de certa forma, era uma maneira de se sentir melhor.
– Você está fazendo um progresso impressionante – observou ela. – Não se esqueça de que só faz um dia que acordou.
Ele estreitou os olhos, dizendo:
– Não venha me dizer que Roma não foi feita em um dia.
– De jeito nenhum – prometeu Hermione, e ele notou um tom divertido na voz dela.
– Essa tarde eu estava me sentindo bem – tornou ele baixinho, de forma quase infantil.
– Bem? Ou melhor?
– Melhor – admitiu ele. – Quando nos beijamos, por outro lado...
Ele abriu um sorriso. Quando eles se beijaram, ele se sentira quase curado. Hermione se levantou e pegou o braço dele com delicadeza.
– Vamos voltar lá para cima.
Ele não tinha energias para protestar.
– Vou pedir que levem o jantar no quarto – falou ela, enquanto subiam as escadas.
– Mas não peça muita coisa – advertiu ele. – Estou enjoado... Não sei se a comida ficaria no estômago.
Ela lhe lançou um olhar determinado. Talvez avaliando quão verde estava o rosto dele.
– Uma sopa, então – disse ela. – Precisa comer alguma coisa ou nunca vai conseguir recuperar as forças.
Ele concordou. Tomar sopa parecia uma tarefa possível.
– E talvez um pouco de láudano – tentou ela.
– Só se for muito pouco.
– Muito pouco, eu prometo.
Chegaram ao topo da escada, e Harry pegou a chave no bolso do casaco. Sem dizer nada, entregou-a a Hermione e se recostou na parede enquanto ela destrancava a porta.
– Vou ajudá-lo com as botas – avisou ela.
Ele então percebeu que ela o levara para dentro do quarto e o ajudara a se sentar na cama sem que ele se desse conta do que tinha acontecido.
– Devo lembrá-lo de que você não deve se indispor – advertiu ela, tirando uma das botas –, mas eu sei que hoje todo o seu esforço foi em nome do Dan.
– E em seu nome também.
As mãos dela hesitaram, mas só por um instante. Talvez ele nem tivesse
percebido se não estivesse se deleitando tanto com o toque dela.
– Obrigada – disse ela.
Hermione pegou por trás do calcanhar da outra bota e deu um puxão forte, descalçando o outro pé de Harry. Ele se meteu embaixo das cobertas enquanto ela levava as botas para o canto do quarto.
– Vou preparar o láudano – afirmou ela.
Ele fechou os olhos. Não estava com sono, mas a cabeça doía menos quando ficava de olhos fechados.
– Talvez você devesse ter ficado mais uma noite no hospital...
A voz dela estava mais próxima, e ele ouviu o chacoalhar do líquido dentro de uma garrafa.
– Não – opôs-se ele. – Prefiro estar aqui com você.
Outra vez, percebeu que ela se deteve. Ele não precisava estar de olhos
abertos para saber.
– Aquele hospital é um lugar intolerável – continuou ele. – Alguns homens...
Harry não sabia se deveria continuar falando ou se ela mesma testemunhara o que ele estava prestes a dizer. Será que ela tinha passado as noites ao seu lado enquanto ele estava inconsciente? Será que ela também tivera que tentar dormir enquanto, do outro lado da igreja, um homem gemia de dor, chamando pela mãe?
– Concordo – disse ela, ajudando-o a se sentar mais aprumado na cama. – Este é um lugar muito mais agradável para convalescer. Mas, ao contrário do hospital, o médico não está aqui.
– Será? – perguntou ele, com um sorriso despontando. – Aposto que ele está lá embaixo agora mesmo, tomando uma cerveja. Ou talvez esteja na Fraunces. A cerveja lá é melhor.
– Falando em bebidas – tornou Hermione, com uma voz que misturava pragmatismo e bom humor de forma bem agradável –, aqui está o seu láudano.
– Um drinque consideravelmente mais potente que um caneco de cerveja – comentou Harry, abrindo os olhos.
O ambiente já não estava mais tão claro; Hermione tinha fechado as cortinas. Ela aproximou o copo dos lábios dele, mas Harry balançou a cabeça de leve, dizendo:
– Eu consigo tomar sozinho.
– A dose é bem pequena – prometeu ela.
– Você foi orientada pelo médico?
– Sim, e tenho certa experiência com remédios. Meu pai sofria de enxaqueca.
– Sinto muito... – murmurou ele.
– As crises não eram muito frequentes.
Ele bebeu o medicamento, fazendo uma careta por causa do gosto amargo.
– É horrível, eu sei – disse ela, sem qualquer traço de pena na voz.
– E eu que achava que o álcool ia deixar o gosto mais tolerável...
Ela abriu um leve sorriso.
– Creio que a única coisa que deixa o gosto tolerável é a promessa de alívio.
Ele massageou as têmporas.
– Hermione, está doendo muito.
– Eu sei.
– Eu só quero voltar a me sentir eu mesmo.
Os lábios dela estremeceram.
– Isso é o que todos queremos.
Ele bocejou, embora, pela lógica, ainda fosse cedo demais para que o opiáceo já estivesse fazendo efeito.
– Você ainda tem que me contar – seguiu ele, voltando a se deitar e acomodando-se nos cobertores.
– Contar o quê?
– Hum... – Ele fez um barulhinho agudo e engraçado enquanto pensava. –Tudo.
– Tudo, é? Acho que você está sendo muito ambicioso.
– Temos tempo.
– Temos?
Desta vez, era Hermione quem parecia estar se divertindo.
Ele concordou, e então percebeu que o remédio deveria estar fazendo efeito, porque sentiu algo muito estranho: estava exausto demais para soltar um bocejo.
Ainda conseguiu, porém, dizer algumas palavras mais recentes:
- Estamos casados. Temos uma vida inteira pela frente.
# Como coisas iniciadas a esquentar…. será que ela vai contar a verdade?
# Lembrando que toda a obra pertence a Julia Quinn e Personagens de JK Rowling
