Disclaimer: Harry Potter não me pertence e tudo que vocês reconhecem pertence a J.K. Rowling. Essa história também é inspirada em "A Shattered Prophecy", do Project Dark Overlord.

Chapter Forty One – Fathers and their Sons

(Pais e Filhos)

Voldemort atravessou a soleira da porta de Godric's Hollow, sorrindo maliciosamente enquanto James era empurrado contra a parede por seus Comensais da Morte. Ao menos dez varinhas estavam sobre ele até que fosse desarmado. Os outros vinte Comensais encheram o corredor estreito antes de adentrarem os cômodos, garantindo que não havia aurores ou membros da Ordem presentes. Lily foi a única que encontraram.

Voldemort sorriu quando viu a reação que o grito de surpresa de Lily causou em James. Os olhos avelã ardiam de fúria, aprofundando a raiva já presente. Um rosnado escapou dele e o homem lutou em pânico contra os Comensais da Morte.

"Deixe-a em paz!" gritou ele.

Voldemort riu.

"Relaxe, Potter," ele olhou para a porta que dava para a sala de estar, "não precisa ficar tão nervoso."

Voldemort atravessou o corredor e entrou na sala, vendo seus homens forçar a mulher de cabelos ruivos a se ajoelhar. Sua varinha estava sobre a mesa de café, fora de alcance e completamente inútil. O bruxo se aproximou e a pegou, examinando-a levemente.

"Varinhas são coisas úteis," zombou ele, "deve sempre mantê-las consigo. Nunca se sabe quando pode precisar delas."

Seu sorriso desapareceu quando Lily ergueu a cabeça para encará-lo. Seus olhos quase o fizeram soltar a varinha. A semelhança era tal que, por um momento, parecia que Harry estava olhando para ele com terror.

O bruxo desviou o olhar.

Ele partiu a varinha e jogou-a descuidadamente para o lado. O gemido de dor de Lily se perdeu nos grunhidos de James, enquanto ele era arrastado para a sala. Ele levou chutes nas pernas e caiu bruscamente de joelhos, virando a cabeça na direção da esposa imediatamente. Seu olhar, em completo pânico, percorreu-a. Lily engoliu as lágrimas e assentiu, sinalizando que estava bem. James rosnou para os homens que a seguravam.

"Tirem as mãos dela!"

"Não há necessidade." Voldemort sinalizou para seus homens, que seguravam James e Lily.

Assim que os Comensais da Morte os soltaram, Lily e James se levantaram e correram um para o outro. James a segurou firmemente em seus braços enquanto os Comensais da Morte os cercavam, as varinhas apontadas para suas cabeças.

Voldemort fez cena andando pela sala, parando diante dos porta-retratos sobre a lareira. Ele estendeu a mão e pegou a pequena imagem de um Harry bebê, sorrindo e gargalhando, tentando sair de seu berço. O bruxo olhou ao redor para os Potter e viu que o encaravam, em uma mistura de terror e raiva.

Sorrindo, Voldemort largou a foto e passou para a próxima. Um pequeno bebê de cabelos escuros e olhos castanhos sorriu para ele dos braços de Lily. Outra tinha o menino de olhos castanhos sentado em uma pequena vassoura. O resto das fotos eram do mesmo garoto, em vários estágios de sua juventude.

"Fizeram um bom trabalho o mantendo em segredo," disse Voldemort a James, "eu não sabia sobre seu filho até alguns anos atrás." Seu sorriso se aprofundou. "Aprendeu a não confiar segredos aos seus amigos?"

James deu um passo adiante, com os punhos cerrados, a boca torcida em um grunhido. Foi o aperto de Lily que o impediu, antes que os Comensais da Morte pudessem usar a desculpa para torturá-lo. Voldemort apenas riu enquanto se aproximava deles.

"Vamos, James, não seja assim," brincou ele, "certamente consegue apreciar o humor?"

James não respondeu.

"Bem, talvez daqui a alguns anos você aprenda a rir do passado," disse Voldemort, "especialmente se sua sanidade já o tiver deixado há algum tempo." Lentamente, Voldemort foi até o sofá e sentou-se. Ele gesticulou para o sofá diante dele. "Venha, sente-se," disse a James, "precisamos conversar."

James olhou para ele, incrédulo, mas não se mexeu. Em seguida, Lily estava sendo arrancada de seus braços por dois Comensais da Morte.

"Não!" gritou James, tentando segurá-la, mas vários braços tinham agarrado os dois, separando-os.

"James!" gritou Lily enquanto era arrastada para um lado da sala pelos Comensais da Morte.

"Não! Soltem ela!" gritou James.

Um chute rápido fez James se dobrar enquanto dois Comensais o seguraram e um terceiro ficou à sua frente. Um aperto brutal em seu cabelo ergueu sua cabeça para que pudesse olhar para o rosto mascarado.

"Quando o Lorde das Trevas diz para você se sentar, você senta," rosnou o homem.

Os olhos de James se estreitaram.

"Avery," sussurrou ele.

Tudo que recebeu em troca foi outro golpe, desta vez no rosto, chicoteando sua cabeça para o lado.

"Não!" berrou Lily, lutando para se libertar. "Deixe-o em paz! Não toque nele!"

James foi puxado para que pudesse se endireitar e em seguida foi empurrado no sofá. Voldemort estava sentado calmamente, observando a cena com um meio sorriso. Ele tornou a gesticular para a cadeira.

"Sente-se, Potter."

Desta vez, quando James hesitou, Lily foi jogada no chão e três varinhas foram apontadas para ela.

"Cruc...!"

"Não!" gritou James, levantando as mãos em sinal de rendição. "Está bem!" Ele olhou de volta para Voldemort. "Está bem." James se dirigiu ao assento oferecido e, lentamente, sentou-se.

Voldemort riu.

"Viu? Não foi tão difícil, foi?" perguntou ele.

James não respondeu. Nunca em sua vida achou que poderia se sentir tão desconfortável em sua própria casa. Ele olhou à volta e viu o Comensal da Morte agarrar o cabelo de Lily e colocá-la de joelhos. James teve que se forçar a ficar parado. Seus olhos ardentes sustentaram os de Voldemort.

"Diga-lhes para deixá-la em paz," disse ele, falando diretamente com Voldemort pela primeira vez naquela noite. "Seja o que for que esteja aqui para fazer, faça comigo, deixe Lily fora disso."

"Se for um bom anfitrião," respondeu Voldemort, "pode descobrir que só estou aqui para conversar, e, nesse caso, será apenas com você." Seu olhar rubi cintilou para Lily, "não tenho qualquer desejo de falar com tal imundície."

Mesmo ajoelhada, o cabelo sendo puxado pelo homem de pé atrás dela, o olhar marejado de Lily pegou Voldemort desprevenido. O rosto era de Lily, mas os olhos... os olhos eram de Harry. Voldemort desviou o olhar, concentrando-se em James, o que obviamente também não ajudou. James era a cara de Harry.

"Conversar?" perguntou James, incrédulo. "É por isso que está aqui? De alguma forma, acho difícil de acreditar."

"Já acreditou que se sentaria diante de mim em Godric's Hollow?" perguntou Voldemort, com tanto prazer que escorria a cada sílaba.

James fez uma pausa, olhando para Voldemort através dos olhos apertados.

"Como conseguiu romper minhas proteções?"

"Romper?" perguntou Voldemort. "Eu não rompi, James. Seria uma pena destruir escudos tão poderosos e bem elaborados." Ele se inclinou para frente, sorrindo. "Eu fiquei particularmente impressionado com as proteções de sangue. Um trabalho muito minucioso."

James parou, a cor drenada de seu rosto. Os escudos de sangue permitiriam que qualquer descendente deles entrasse em Godric's Hollow. Lentamente, ele olhou ao redor da sala, de um Comensal da Morte mascarado para o outro, procurando por cabelos bagunçados ou olhos verde-esmeralda por trás de uma máscara.

A risada sombria de Voldemort chamou sua atenção de volta.

"Não, não," ele balançou a cabeça, "Harry não está aqui." Ele sorriu e relaxou na cadeira. "Harry não..." ele parou para pensar na palavra certa, "aprovaria isso." O bruxo acenou com a mão para os Comensais da Morte. "Ele tem... digamos... uma abordagem diferente. Prefere enfrentar os inimigos um a um."

"Isso se chama código moral," respondeu James, "mas o que você sabe sobre isso?"

Voldemort levantou a mão para impedir que vários de seus homens azarassem James.

"Ele é jovem," disse o bruxo, referindo-se a Harry, "tem tempo para crescer, para mudar de abordagem."

Ele tirou um pequeno frasco do bolso e ergueu-o, mostrando a James o fino tubo de vidro com algumas gotas carmesim manchando seu fundo. James sabia, sem dúvida, que o sangue era de Harry. Foi como Voldemort conseguiu entrar em Godric's Hollow.

"Você teve que sangrá-lo para chegar até aqui?" perguntou James. "Deve ter inventado uma grande mentira sobre o motivo de precisar de seu sangue." Seus olhos ficaram mais duros. "Afinal, você é ótimo em contar mentiras."

Voldemort tornou a guardar o frasco.

"Essa é a questão sobre ter um filho obediente," respondeu ele, "ele fará o que você quiser sem sequer perguntar o motivo."

James teve que enrolar as mãos em punhos, pois tremiam muito.

"Tanto esforço para chegar aqui," disse ele, forçando-se a manter a voz firme e livre de raiva, "que levanta a questão do porquê."

Um sorriso brincalhão cruzou os lábios de Voldemort.

"Você tem algo que Harry quer," disse ele, "e o que Harry quer, Harry consegue." Ele sorriu de novo, os olhos brilhando de diversão. "Sabe como é, James, você é pai também," provocou ele, "você dá ao seu filho o que ele deseja, sem se importar com as... inconveniências."

As unhas de James cravaram com tanta força nas palmas das mãos que estavam tirando sangue.

"Você não é pai dele," sibilou James.

"Estranho." Voldemort sustentou o olhar irritado com uma facilidade irritante. "É assim que ele se refere a mim."

"Porque você o roubou!" vociferou James. "Você o tirou dos pais dele, da casa dele!"

"Tirei," a confissão de Voldemort pegou James de surpresa, "mas isso não muda nada. Harry é e sempre será meu filho."

James sacudiu a cabeça.

"Harry é meu filho!" ele precisava dizer isso, queria gritar a plenos pulmões. "Ele pertence a mim!"

Voldemort sorriu.

"É mesmo?" perguntou ele. "Tudo bem, então," ele se inclinou para frente "aqui está o que vamos fazer," começou ele, os olhos vermelhos brilhando, "vamos trazer Harry e colocá-lo no meio dessa sala. Você fica num canto e eu no outro," seu sorriso se aprofundou, "você o chama e eu farei o mesmo. Aquele para o qual ele for, será seu pai."

"Faça piada disso, se quiser," disse James, "mas não pode mudar a verdade."

"A verdade é você que faz," falou Voldemort. "Eu tenho o poder, Potter. Harry fará o que eu mando, independentemente da verdade." Ele olhou para Lily e sorriu. "Se eu o mandasse tirar a vida daquela sangue-ruim imunda, ele faria isso em um piscar de olhos, mesmo sabendo que essa mulher é sua mãe biológica." Ele ergueu a cabeça. "Essa é a verdade. Harry não considera vocês como família. Eu sou a família dele. A mim e somente a mim ele é leal."

James sacudiu a cabeça.

"Diga o que quiser," disse James, "faça o que quiser. Mate-me hoje, mate minha esposa, queime minha casa, mas não pode mudar o fato de que Harry é meu filho," afirmou, "mande Harry tirar nossas vidas. Não mudará a verdade de que o sangue que ele derramaria seria o dele. Faça sua magia negra e torne Harry parte de sua linhagem sonserina, mas toda vez que olhar para ele, verá meu rosto. Olhe nos olhos dele, serão o olhas verdes da mãe dele que encontrará." James permitiu que seus lábios se curvassem em um pequeno sorriso. "Faça o que quiser, Voldemort, Harry sempre será um Potter."

Voldemort não estava mais sorrindo. Seus olhos vermelhos estavam queimando agora e James sabia que atraíra a ira do Lorde das Trevas, mas não se importava. Se morreria hoje, daria seu último suspiro lembrando a Voldemort de que ele era uma farsa. A única maneira de conseguir que Harry o chamasse de "pai" era por mentiras e enganos.

Quando Voldemort falou em seguida, suas palavras foram medidas e rígidas.

"Eu quase tinha esquecido de como você é tolo e ousado, Potter," disse ele, "tal desrespeito não pode ficar impune."

Um simples gesto dele e o Comensal da Morte segurando Lily a jogou no chão com tanta brutalidade que quebrou seu nariz.

"Crucio!" gritou o Comensal da Morte.

"NÃO!" James saltou da cadeira e se colocou de pé, correndo na direção da esposa que convulsionava violentamente, mas três Comensais da Morte o bloquearam, segurando-o.

James se debatia loucamente, gritando e o tempo todo encarando Lily enquanto ela se contorcia no chão em pura agonia. Ele conseguiu puxar um braço e se virou, atingindo um dos Comensais. O homem mascarado grunhiu, mas seu aperto não vacilou. Antes que James pudesse dar outro golpe, ele foi jogado no chão e vários Comensais o derrubaram. James estava agora no mesmo nível que Lily e, torcendo a cabeça para cima, ainda podendo vê-la convulsionando sob a maldição da tortura.

"Pare! Pare!" gritou ele desesperadamente. "Deixe-a em paz! Solte-a, seu desgraçado!" gritou ele para o homem mascarado, que lançou a maldição. "Quer usar seu poder? Use em mim, não em uma mulher indefesa! Lute com um homem, seu covarde!"

Mas não importava o que dissesse, o quanto xingasse e ofendesse, o Comensal da Morte continuava torturando Lily. Ele só parou quando Voldemort fez um gesto para ele. Lily ficou sem fôlego, enrolada no chão, gemendo de dor. O sangue continuava a fluir de seu nariz quebrado, manchando os lábios e o queixo de vermelho.

James estava em prantos. Ele lutou com todos os músculos de seu corpo, mas não conseguia sair do aperto dos Comensais. Eles o mantinham preso ao chão, com os braços para trás, com tanta força que estavam quase deslocando seus ombros. De repente, foi colocado de pé, forçado a ficar de pé com os braços ainda para trás.

A essa altura, Voldemort havia se levantado. Ele se aproximou dois passos para encarar James.

"Aprenda a segurar sua língua," ele avisou, "ou sua esposa terá a dela arrancada."

James se obrigou a ficar em silêncio.

"Por mais divertido que seja," disse Voldemort, dando uma olhada na forma trêmula de Lily, "estou começando a ficar inquieto." O bruxo olhou para James. "Me dê o que eu quero, e pode viver para ver o amanhã."

"O que é que você quer?" vociferou James.

"A varinha de Harry," veio a resposta. "Você está com ela e Harry quer de volta."

James ficou chocado. Não podia acreditar que Lily passou por tudo aquilo pela varinha de Harry.

"Não está comigo," veio sua resposta instintiva.

"Não entre nesse jogo, Potter," advertiu Voldemort, "é você que perderá tudo."

James parou, olhando para Lily novamente. Ele olhou de volta para Voldemort e engoliu em seco.

"Tudo bem," disse ele. "Está lá em cima."

Voldemort estalou os dedos e dois Comensais da Morte imediatamente agarraram punhados do cabelo de Lily e a puxaram de pé.

James se debateu contra os homens que o seguravam.

"O que estão fazendo?!" gritou ele.

"Sua esposa pode ir buscar," respondeu Voldemort.

"Deixe-me ir," disse James, "deixe-a em paz. Eu vou buscar."

"Não," Voldemort sorriu novamente, "ela vai pegar." Ele traçou o queixo de James com a varinha, "você vai ficar bem aqui."

Lily foi empurrada na direção da porta, os dois Comensais da Morte atrás dela.

"Não que esteja em condições," Voldemort chamou por ela, interrompendo-a no meio do caminho, "mas tente qualquer coisa e estará juntando os pedaços do seu marido pelo tapete por um mês."

Lily encontrou os olhos de James e deu um aceno de cabeça trêmulo. Um empurrão por trás e ela desapareceu pela porta. James não podia fazer nada além de ouvir a esposa e os dois Comensais da Morte subirem as escadas.

"Há uma lição em tudo isso," disse Voldemort, trazendo a atenção de James de volta para si, "não deve brincar com fogo. Sempre sairá queimado." Ele sorriu e se aproximou, descansando a ponta da varinha no peito de James. "Não devia ter remexido nas coisas. Se tivesse deixado Harry em paz, se não tivesse planejado capturar meu Príncipe das Trevas, nada disso teria acontecido."

A promessa feita por James de não falar, de não dar àquele monstro outra razão para machucá-los, derreteu com a ira que subiu dentro dele.

"Foi você que começou isso," sibilou ele, "você destruiu minha família! Levou meu filho embora! Acha mesmo que não vou tentar recuperá-lo?"

A diversão nos olhos vermelhos evaporou e uma escuridão os encheu, uma que fez James sentir arrepios. A varinha em seu peito cravou sua pele, entrando na carne.

"Não tente nada de que vá se arrepender, Potter," alertou Voldemort, "siga meu conselho, deixe as coisas como estão. Se tentar levar Harry embora de novo, vou destruir tudo que tem!"

James parou, reconhecendo o olhar que espreitava naqueles olhos impiedosos e aquilo minou toda sua raiva, deixando-o em estado de descrença.

"Você não quer perdê-lo?" perguntou ele, sentindo o insuportável desejo de expressar seus pensamentos. "Por quê? Obviamente não se importa com ele. É porque não quer perder um valioso soldado?"

"É porque não quero que quinze anos de esforço sejam desperdiçados," respondeu Voldemort. Ele se aproximou. "Entenda uma coisa e entenda bem, Potter," disse ele, "para mim é interessante que Harry permaneça ileso." Seus olhos queimaram de repente e a varinha pressionada no peito de James começou a esquentar. "Mas se tentar recuperá-lo, ou se tentar virá-lo contra mim, eu juro por Salazar Slytherin que prefiro colocar Harry a seis palmos do chão a vê-lo voltar para você."

James não disse nada. Sua mandíbula estava apertada, para que pudesse conter o grito de dor enquanto a varinha lentamente o queimava. A porta se abriu e Lily reapareceu, com os dois Comensais da Morte no encalço. Em sua mão ela segurava a varinha de Harry. Voldemort afastou a sua e atravessou a sala, pegando a varinha de Lily com um sorriso triunfante. Ele guardou a varinha de vinte e oito centímetros, azevinho e pena fênix antes de se virar para a ruiva.

"Agora, uma última questão e irei embora."

Um aceno de cabeça e os Comensais da Morte atrás de Lily a agarraram, torcendo seus braços para trás.

"O que está fazendo!?" James gritou. "Já tem o que veio buscar!"

"Eu sei," respondeu Voldemort, "mas não posso simplesmente ir embora, não é?" perguntou ele com um sorriso. "Quando Lorde Voldemort sai, deixa o rastro de morte."

James lutou de novo, sem se importar em deslocar os braços. Não ficaria parado assistindo Lily morrer.

"Não!" bradou ele. "Você disse que se conseguisse o que procurava, nos deixaria vivos!"

"Não, eu disse que te deixaria vivo," corrigiu Voldemort, "não disse nada sobre a sangue-ruim."

Ele se virou para Lily, ignorando os gritos de James e sua luta para se libertar.

"Antes de chegar aqui, já tinha escolhido matar você hoje à noite," disse ele a Lily em uma voz enganosamente calma, "tenho que corrigir a ordem natural. Sangues-ruins não devem existir."

Lily, com o rosto ainda manchado de sangue, ergueu a cabeça, os olhos verdes brilhando.

"Se vai me matar, ande logo," disse ela, "esses monólogos dramáticos estão ficando um saco."

Por uma razão que ninguém entendeu, Voldemort sorriu em vez de ficar com raiva.

"Eu adoraria te matar," disse ele, "na verdade, acho que seria muito divertido." Sua mão agarrou o rosto de Lily e ele inclinou seu queixo para cima. "Mas não quero ver a luz deixar esses olhos," disse ele a ela baixinho.

Ele a empurrou para longe e recuou.

"Então, acho que teremos que achar uma alternativa." Ele se virou para contemplar as fotos orgulhosamente exibidas na lareira antes de sorrir de volta para Lily.

"Onde está seu garoto?"

A coragem de Lily sumiu e o medo brilhou em seus olhos. Voldemort sentiu James lutar mais ferozmente atrás dele e seus gritos de pânico ficarem mais altos.

"Não!" gritou James. "Não se atreva!"

"Por favor!" gritou Lily. "Não, por favor, não..."

"Onde ele está?" repetiu Voldemort.

"Ele... ele não está aqui!" disse ela.

"Eu já disse para não fazer esse jogo comigo," lembrou Voldemort.

"É verdade!" gritou James por trás. "Damien não está aqui."

Voldemort virou-se para seus homens.

"Não há mais ninguém na casa, milorde," respondeu um deles.

Voldemort olhou para James.

"Para onde você o enviou?"

"Para o quartel-general," mentiu James, "o guardião do segredo é Dumbledore, então, se quiser a localização, terá que perguntar a ele."

"Não se preocupe," respondeu Voldemort, "eu perguntarei."

Ele se virou de novo para as fotos, os olhos vermelho-rubi fixos no rosto sorridente de Damien.

"Acho que terei que procurar o jovem Potter outro dia."

"Quer matar alguém?" rosnou James. "Me mate! Eu sou seu inimigo, por que descontar nos outros? Me mate, estou bem na sua frente!"

Voldemort andou na direção de James.

"Se eu fosse matar você, já teria feito há muito tempo." Ele encarou James nos olhos, um sorriso cruel nos lábios. "Mas Harry quer te matar. E, como eu já te disse, o que Harry quer, Harry consegue."

Voldemort se virou e foi embora, gesticulando para seus homens saírem com ele.

"Até a próxima," ele despediu-se enquanto caminhava até a porta.

Os Comensais da Morte segurando James e Lily os jogaram no chão antes de sair correndo atrás do restante.

Mas James estava muito distraído para ir atrás deles.

"Lily!" gritou ele, levantando-se desajeitadamente. Ele cambaleou em direção à esposa, aconchegando sua forma trêmula e manchada de sangue em seus braços.

Lily se agarrou a ele, respirando com dificuldade.

Eles ficaram assim por longos minutos, segurando um ao outro nos braços, enfrentando o fato de que ambos haviam sobrevivido a Lorde Voldemort.

xxx

Dumbledore passou pelas portas duplas, correndo pelo corredor até o quarto ao final dele. Curandeiros e enfermeiros olhavam surpresos para ele, mas saíam do caminho sem dizer uma palavra. Não era comum ver o sempre calmo e equilibrado Albus Dumbledore tão preocupado e aborrecido.

O bruxo abriu a porta apressadamente, sem bater, e entrou no quarto. Lily estava sentada na cama, com James ao seu lado e Sirius e Remus em pé ao redor deles. Todos olharam para o recém-chegado.

"James, Lily," Dumbledore correu até eles. "É verdade?"

Lily, parecendo bastante pálida, assentiu.

"Ele deixou vocês dois?" perguntou Dumbledore, confuso com a generosidade incomum de Voldemort em não matar ninguém.

"Ele queria matar," falou James com uma voz rouca, "mas não o encontrou em casa."

Dumbledore fechou os olhos, uma mão subindo para esfregar a testa.

"James," sussurrou ele, "eu sinto muito."

"Se Damien estivesse em casa," Lily balançou a cabeça, "eu não... eu não posso nem imaginar..." Ela fechou os olhos, segurando a cabeça entre as mãos.

Remus esfregou a mão por suas costas, parecendo extremamente chateado.

"Não deixe sua mente vagar pelo que poderia ter acontecido," disse ele, "Damien não estava em casa, é nisso que deveria se concentrar."

"Graças a Molly," disse Sirius, "se ela não tivesse te forçado a mudar de ideia, Damien não teria ficado n'A Toca." Ele balançou a cabeça, os punhos cerrados. "Não posso acreditar que Voldemort entrou em Godric's Hollow."

"As proteções são especificamente projetadas para manter Voldemort e seus Comensais da Morte longe," disse Dumbledore. "Como conseguiu entrar?"

"Os escudos de sangue," falou James em uma voz oca. "Eles praticamente derrubaram todo o resto." Ele olhou para Dumbledore antes de desviar o olhar. "Voldemort usou o sangue de Harry para entrar."

Dumbledore mais uma vez parecia não saber o que dizer, como oferecer conforto. Ele colocou a mão no ombro de James.

"Não se preocupe, James," disse ele, "vamos tomar providências imediatas. Vou enviar Sturgis com uma equipe e seus escudos serão trocados hoje à noite. As proteções sanguíneas serão retiradas..."

"Não," James o interrompeu.

Dumbledore parou de falar.

"Perdão?"

"Pode mudar os escudos," explicou James, "mas as proteções sanguíneas permanecem."

"Prongs?" Sirius puxou James pelo ombro, fazendo-o se levantar. "Do que está falando?"

"As proteções sanguíneas foram o que permitiu Voldemort entrar," disse Remus, "elas sempre permitirão sua entrada enquanto ele tiver o sangue de Harry."

"Eu sei disso," respondeu James, "mas as proteções sanguíneas permanecem como estão."

"Por quê?" perguntou Sirius.

"Retirá-las é como bater a porta na cara de Harry," disse James. "Não vou fechar a porta para meu filho. Elas ficam... assim Harry pode voltar para casa."

Os homens trocaram olhares entre si.

"Lily," começou Dumbledore.

"James está certo," ela o interrompeu, "não vamos tirar as proteções de sangue."

"Vocês dois são loucos?" gritou Sirius de repente. "Foi pura sorte vocês dois sobreviverem esta noite!" Ele agarrou James bruscamente pelo ombro. "Voldemort torturou Lily na sua frente! Ele teria matado Damy se ele estivesse em casa na hora! E vocês dois não vão tirar as proteções que deram acesso a ele? Qual é o problema de vocês?!"

"Sirius," Remus o afastou de James, "fique calmo."

"Calmo?" Sirius estava cuspindo de raiva. "Calmo? Como devo ficar calmo quando meus amigos são completos suicidas?"

"Você não entende," disse James baixinho.

"Faça-me entender, então!" bradou Sirius.

"Eu não posso retirar as proteções," começou James, "se eu as retirar, Harry..."

"Pelo amor de Deus!" interrompeu Sirius. "James, Harry não vai voltar para casa!"

A sala de repente parou.

James e Lily olhavam para Sirius.

"Não," avisou James, "não diga isso."

"Eu preciso dizer," disse Sirius, sua voz quase vacilando, "você precisa ouvir isso, vocês dois." Ele se dirigiu a Lily. "Isso é difícil para mim também, acredite, tudo que eu quero é que Harry volte," disse ele, "mas a realidade é que ele pode jamais voltar."

"Ele voltará," argumentou James teimosamente, "assim que souber a verdade. Quando descobrir o que Voldemort fez com ele..."

"E se ele não se importar?" perguntou Sirius. "E se Harry ainda escolher ficar com ele mesmo depois que a verdade aparecer?"

"Ele não fará isso," disse Lily, "não pode fazer isso."

"Lils," a voz de Sirius tremeu quando suas emoções o atingiram, "como você sabe?" perguntou ele. "A verdade é que não sabemos nada sobre Harry. Não sabemos nada sobre o que ele pode ou não fazer." Ele olhou para James. "A única coisa que sabemos com certeza é que ele apontará a varinha para vocês dois e tirará suas vidas sem sequer hesitar." Ele caminhou até James e o segurou pelos ombros. "Abra os olhos, Prongs," implorou, "por mais doloroso que seja, você precisa se proteger não apenas de Voldemort, mas de Harry também. Agora você sabe no que ele acredita, viu como ele considera que foi sua infância." A primeira lágrima rolou pela face de Sirius. "Por favor, retire as proteções, bloqueie Harry também."

James empurrou as mãos do amigo para longe.

"Não," respondeu ele, "não vou fechar a porta para Harry."

"James," começou Remus.

"Não," implorou James, "você também não, Moony." Ele tornou a olhar para Sirius. "Eu sei que as probabilidades estão contra mim. Sei que fazer Harry ver a verdade pode ser impossível. Mas é a única coisa que me permite continuar. A crença de que um dia a verdade será revelada e Harry..." James vacilou, sua voz quase sumindo. "Harry vai voltar para mim, voltar para nós." Ele apontou para Lily. "Essa crença é a única coisa que me mantém vivo. Não tire isso de mim, Sirius, por favor. Não tire isso de mim."

Olhando para James através dos olhos úmidos, Sirius perguntou.

"O que planeja fazer se Voldemort bater na sua porta de novo?"

"Desta vez, estarei preparado. Ele não vai me pegar desprevenido." Ele acenou para Lily. "Damien e Lily ficarão no quartel-general por tempo indeterminado."

Sirius assentiu, mas Lily falou imediatamente.

"Ficarei onde você ficar, James," ela olhou para Sirius, "mas Damy fica com você."

"Eu levaria o filhote mesmo se não tivessem dito nada," respondeu Sirius.

"James, Lily," interrompeu Dumbledore, "vocês dois junto com o jovem Damien deveriam ficar no quartel-general até Harry ser recapturado."

"É um bom plano." Sirius deu um pequeno sorriso.

"De acordo," interveio Remus.

"Não deixarei Godric's Hollow," disse James.

"Tudo bem," disse Remus antes que alguém pudesse argumentar, "então ficarei com você."

"Eu também," acrescentou Lily.

"Contem comigo," disse Sirius, "se vai ficar lá esperando Voldemort atacar, então também estarei lá, protegendo seu traseiro idiota e suicida."

"Vocês ficarão no quartel-general, cuidando de Damy," falou James para os três.

"Acho que não, amigo." Remus sorriu, "Os Marotos ficam juntos, lembra?"

A porta de repente se abriu e Damien entrou correndo. Molly e Arthur, junto com Bill e Ron, seguiram atrás. O olhar arregalado e amedrontado de Damien atravessou a sala, procurando pelos pais.

"Mãe! Pai!" ele correu para Lily, abraçando-a depressa. "Ah, graças a Deus! Graças a Deus vocês estão bem!"

Lily o beijou, abraçando-o apertado. Quando estava com os Comensais da Morte, tinha quase certeza de que nunca mais o veria novamente. Só aquele pensamento foi o suficiente para quase matá-la.

Damien se afastou e a segurou, tocando seu rosto com as duas mãos, certificando-se de que ela ainda estava ali.

"Quando eu soube... eu pensei no pior," disse Damien.

James atravessou a sala para chegar ao lado dele. O menino ficou de pé imediatamente e abraçou o pai.

"O que aconteceu?" perguntou ele, afastando-se para ficar diante de James. "Ele... ele foi mesmo?"

Molly e Arthur se aproximaram também. Molly abraçou Lily, seus olhos normalmente brilhantes estavam cobertos de preocupação enquanto olhava para a amiga.

"Sim," respondeu James, "ele foi mesmo."

"Como isso pôde acontecer?" perguntou Arthur. "Os escudos...?"

"Ele usou as proteções sanguíneas," explicou James.

"Proteções sanguíneas?" Molly pareceu confusa por um momento antes que a compreensão os atingisse.

"Ah, Deus!" Damien parecia prestes a desmaiar. "Ele... ele estava lá?" perguntou o menino. "Harry...?"

"Não," interrompeu James, "Harry não estava com eles. Voldemort usou um pouco do sangue dele para ter acesso."

Damien não parecia melhor.

"Vocês dois estão bem?" perguntou Molly.

James e Lily trocaram um olhar. O que passaram era aterrorizante, uma lembrança que os assombraria até o fim de seus dias.

"O que ele fez?" perguntou Damien, pálido. "Mãe?" Ele se virou para ela, sentando ao seu lado, e estendeu a mão para tocar seu braço.

"Eu estou bem," insistiu ela de imediato. "O curandeiro já me examinou. Estou perfeitamente bem. Só estou esperando que me liberem e então voltarei para casa."

Damien olhou para baixo, onde manchas de sangue secaram em suas roupas. Um ruído chocado escapou dele ao olhar horrorizado para as marcas acastanhadas.

"Não é nada, Damy," Lily tentou consolá-lo. "Eu... eu quebrei o nariz, mas o curandeiro consertou e estou perfeitamente bem agora. Sem dor, sem inchaço, nada." Ela sorriu para ele, abraçando-o. "Eu estou bem. Na verdade, estou perfeitamente bem." Mas lágrimas, que não conseguiu conter, se formavam lentamente em seus olhos.

Molly estendeu a mão, uma das mãos sobre Lily e a outra na nuca de Damien, enquanto ele se aconchegava em seus braços.

O menino podia ter apenas treze anos, mas sabia que não havia como sua mãe e seu pai não terem sofrido nas mãos de Lorde Voldemort e seus cruéis Comensais da Morte. Ele suprimiu um soluço quando em sua mente surgiram todas as coisas horríveis e assustadoras que os pais deviam ter passado. De repente, viu-se imaginando se Harry sabia o que Voldemort e seus Comensais tinham feito naquela noite. Se Harry descobrisse que sua mãe havia sido torturada, seu pai fora ferido, o que faria? Damien sentiu lágrimas quentes deslizarem por sua face quando percebeu que ele provavelmente não se importaria.

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Uma simples batida e a atenção de Harry saiu do livro em seu colo para a porta. Ele franziu a testa com a visão, mas sentou-se, jogando as pernas para o lado do sofá de modo que pudesse se sentar.

"Pai?" O garoto colocou o livro sobre a mesa. "O que houve?"

Voldemort entrou, um leve sorriso no rosto.

"Por que acha que aconteceu alguma coisa?" perguntou ele.

"Você veio me ver em vez de mandarem me chamar," respondeu o jovem, "parece que está acontecendo algo."

Voldemort sorriu.

"Muito perspicaz," respondeu ele, "sempre gostei disso em você. Mesmo quando era mais jovem, sempre estava muito atento."

Harry se levantou, um olhar intrigado no rosto.

"Algo deve estar acontecendo," disse ele, "você está agindo... estranho."

"São as pílulas calmantes," confessou Voldemort, "ajuda a manter as emoções bloqueadas." O bruxo estava tomando medidas extras para manter as emoções sob controle. Não causaria hemorragias nasais em Harry, não até que tivesse descoberto como pará-las.

Harry sorriu de repente.

"Ah, é por isso que está tão..." ele procurou pela palavra certa, "drogado."

Voldemort levantou uma sobrancelha.

"Estou calmo, não bêbado," corrigiu ele.

"Com você, parece que não há muita diferença entre os dois," brincou Harry, "então, qual é a missão?"

"Missão?" perguntou Voldemort.

"Você tomou calmantes antes de vir me ver," explicou Harry, "isso significa que ou você está realmente animado para me enviar a uma missão, ou as coisas estão bagunçadas, como de costume, e precisa que eu as resolva. De qualquer maneira, está prestes a ficar animado ou irritado, e é por isso que está drogado."

"Calmo," corrigiu Voldemort.

"Tanto faz."

Voldemort franziu a testa ligeiramente e sacudiu a cabeça.

"Não há missão alguma," disse ele. "Na verdade, eu só vim te entregar uma coisa."

Ele sorriu mentalmente ao enfiar a mão no bolso interno para retirar a caixa retangular de madeira. Podia imaginar como Harry ficaria feliz quando visse sua varinha novamente. Foi por isso que tomou os calmantes. Vê-lo feliz certamente provocaria uma reação nele e Voldemort não queria que Harry sentisse dores de cabeça, não em um momento alegre como aquele.

Harry olhou para a caixa com curiosidade. Ele se aproximou do pai e estendeu a mão para a tampa, abrindo-a. Seus olhos verdes se arregalaram com o choque ao ver o item pousado sobre um pedaço de seda verde.

"Minha varinha." Ele a pegou, silenciosamente saboreando a sensação da poderosa varinha sob seus dedos. O garoto olhou surpreso para o pai. "Como você...?" Ele fez uma pausa, seus olhos nublaram de repente e seus lábios se estreitaram. "O que você fez?"

"Nada," respondeu Voldemort.

"Pai?" insistiu Harry.

"Não foi nada," insistiu Voldemort. "Eu bati na porta de Potter. Ele respondeu. Eu educadamente pedi sua varinha e ele obedeceu."

Os olhos de Harry se estreitaram em fendas e ele soltou um assobio irritado.

"Pai!"

Voldemort sorriu.

"Quando sabe a resposta, por que você faz a pergunta?"

Harry deu alguns passos para trás, passando a mão pelo cabelo.

"Pelo amor de Deus, eu pedi para você ficar fora disso!"

"Eu fiquei fora. Não acabei com nenhum deles," respondeu Voldemort.

Harry parou, olhando atentamente para ele.

"Não?" perguntou ele.

"Não," respondeu Voldemort, "eu sei o quanto significa para você se vingar de Potter por tudo que ele fez. Eu não tiraria isso de você."

Harry o examinou com olhos desconfiados.

"Você deve ter feito alguma coisa," insistiu ele, "duvido que Potter tenha entregado a varinha facilmente."

"Não foi tão difícil," respondeu Voldemort, "eu só tive que comandar uma rodada de Cruciatus na sangue-ruim e Potter estava pronto para entregar tudo."

Algo cintilou no rosto de Harry. Algo que Voldemort não esperava ver. Foi bom o bruxo ter tomado uma dose generosa do calmante, senão o rapaz teria sentido a surpresa dele em sua cicatriz.

"Você a torturou?" perguntou Harry baixinho.

Voldemort o estudou atentamente.

"Você não aprova?" perguntou ele.

Harry deu-lhe um olhar penetrante.

"Sabe que não."

Sim, Voldemort sabia. Harry odiava a parte da tortura em qualquer ataque. Ele se recusava a fazê-lo. Para ele, era algo simples: perseguir, mirar e matar.

"Eu pensei que abriria uma exceção," disse Voldemort, cuidadosamente, "considerando quantas vezes ela te torturou."

Harry se eriçou, mas não disse nada. Ele se afastou, virando as costas para o pai enquanto caminhava em direção às janelas.

"Você o machucou?" perguntou ele, ainda de costas.

"Não," respondeu Voldemort, "ele é seu."

Harry se virou para olhá-lo com os olhos verdes sérios.

"Era por isso que queria meu sangue?" perguntou ele. "Para as proteções? Para entrar em Godric's Hollow?"

"Sim," admitiu Voldemort.

Harry desviou o olhar, balançando a cabeça.

"Não deveria ter feito isso."

Foi graças ao calmante que Harry não sentiu nada além de uma leve pontada na cicatriz. Pois sua simples afirmação fez ondas de raiva ardente atravessarem Voldemort.

"O que disse?" rosnou ele, dando um passo à frente.

Harry se virou para encará-lo.

"Você não deveria ter ido a Godric's Hollow," repetiu Harry, apesar da maneira como sua cicatriz queimava.

"Está me dizendo o que eu deveria ou não fazer?" perguntou Voldemort. "Quer morrer, filho?"

"Você poderia ter sido pego," explicou Harry. "Como sabia que Dumbledore não estava dentro da Casa dos Potter? Ou boa parte da Ordem? Ou até mesmo os aurores?"

"Deixe minha segurança em paz!" sibilou Voldemort. "Preocupe-se com a sua!"

"Pai," sussurrou Harry, "você correu um grande risco e para quê?" Ele ergueu a varinha. "Para isso? Isso não significa nada para mim comparado a você. Eu ficaria feliz em sacrificar milhares de varinhas como esta por você."

Voldemort se acalmou um pouco, mas seu aborrecimento ainda permanecia.

"Sua varinha é importante," disse ele, "é insubstituível. A irmã da minha. Ela pertence a você e eu não suportaria que ficasse na posse de pessoas como os Potter!"

Harry ficou quieto e deu um aceno lento, relutante.

"Você não matou ninguém lá?" perguntou ele novamente.

"Eu já disse," falou Voldemort, "os Potter são seus para matar, mutilar e fazer o que quiser."

Harry assentiu novamente e ficou em silêncio.

"Isso é tudo?" perguntou Voldemort. "Não tem mais nada a dizer?"

"O que quer que eu diga?" perguntou Harry.

"Um pouco de gratidão não faria mal."

Harry finalmente sorriu.

"Obrigado, pai."

Voldemort deu um aceno de cabeça firme.

"Assim está melhor." Ele alisou a frente de suas vestes, expirando devagar e reprimindo a irritação. "Deveria passar algum tempo treinando com sua varinha. Faz muito tempo que a usou."

Harry olhou para a varinha com evidente carinho.

"Sim, tempo demais."

"Câmara três em meia hora?" perguntou Voldemort.

Os olhos de Harry se arregalaram.

"Você vai treinar comigo?" perguntou ele. "Eu pensei que estivesse muito ocupado."

"Nunca muito ocupado para lhe ensinar uma lição, meu garoto." Voldemort sorriu.

Harry também sorriu.

"Pode vir, Lorde das Trevas," brincou ele, "faz tempo que eu não te mostro as vantagens de ser jovem e..." ele sorriu, "naturalmente talentoso."

"Ah, pretensioso e arrogante," Voldemort se virou para a porta com um sorriso, "vai ser divertido humilhar você."

"Veremos, pai," Harry sorriu, "veremos."

Voldemort deixou o quarto do garoto com um sorriso que quase ninguém além de Harry testemunhava. Ele foi para a terceira maior câmara de treinamento da mansão, ansioso para passar algum tempo com seu filho.

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James, Lily e Damien se instalaram no quartel-general. Sirius estava secretamente feliz por não estar sozinho durante o feriado de Natal. Ele só desejava que circunstâncias mais agradáveis tivessem trazido a família Potter para junto dele.

Godric's Hollow, apesar dos protestos de James, estava desocupada e sob vigilância constante da Ordem. Dumbledore, junto com Lily, Sirius e Remus não os deixaram voltar. James argumentou valentemente, mas no final foi o pedido de Damien que venceu a discussão e o fez ceder, prometendo ficar no Largo Grimmauld com eles.

Poucos dias antes do final do feriado, Dumbledore chegou à sede com a penseira de Harry.

"Dumbledore, se são mais memórias terríveis, eu não quero ver," disse James, enquanto olhava a substância prateada girando dentro do penseira negra.

"A memória pode ser terrível," respondeu Dumbledore, "mas é importante que veja isso."

Lily e James se posicionaram descontentes ao lado da penseira. Eles se inclinaram sobre a substância prateada e sentiram a sensação desconfortável de serem sugados. Quando atingiram o chão, quase perderam o equilíbrio, mas ele conseguiu mantê-los em pé. O casal olhou em volta.

Estavam em um cômodo enorme. Tinha uma cama grande o suficiente para quatro pessoas dormirem. No canto havia um enorme guarda-roupa de oito portas. Eram móveis muito caros, afogando o quarto em luxo.

Quando estavam começando a se perguntar onde Harry estava, a porta da suíte se abriu e um garotinho de cabelos pretos bagunçados apareceu. James e Lily olharam espantados para ele. Harry não tinha mais de seis ou sete anos de idade. Seu cabelo ainda estava bagunçado como de costume, mas seus brilhantes olhos esmeralda não estavam mais escondidos atrás dos óculos de armação preta. Seu rosto estava mais cheio do que na última lembrança que tinham visto. Ele parecia mais saudável e muito, muito mais feliz. Sua pele praticamente brilhava de saúde.

James e Lily observaram o menino caminhar até o guarda-roupa de oito portas e o abrir, procurando por sapatos para usar. Ele puxou um par marrom e os calçou, antes de pegar sua capa preta e sair do quarto. James e Lily saíram atrás dele, admirando o garotinho silenciosamente.

Harry andou pelo corredor e desceu as escadas com muita facilidade. Era evidente que estava acostumado com a enorme mansão e seus corredores escuros. Usando uma expressão pensativa, Harry se dirigiu à porta ao final do corredor.

Assim que estava prestes a abrir as portas de carvalho marrom, ouviu-se um leve grito, vindo das profundezas da mansão. Harry parou no meio do caminho, ouvindo com atenção.

"O que foi isso?" perguntou Lily com medo.

"Pareceu com..." James fez uma pausa quando outro grito fraco ao alcançou, "uma criança," disse ele, enjoado.

Harry foi imediatamente em direção ao som. Ele correu pelo corredor e parou diante de um grande retrato de uma imensa cobra de aspecto cruel, com as presas à mostra e uma língua preta bifurcada. O menino sussurrou algo e o retrato se abriu. James e Lily sentiram um arrepio na espinha. Era enervante ouvir alguém sibilando daquele jeito, mas ouvir uma criança falar a língua das cobras era absolutamente arrepiante.

Os dois pais preocupados o seguiram por uma passagem secreta e logo chegaram a uma pequena sala quadrada. Estava muito escuro, com apenas duas tochas iluminando o lugar. Harry entrou no quarto e se escondeu atrás de um barril do que parecia e cheirava a comida podre. A atenção do casal foi atraída para quatro pessoas em pé no final da sala. Todos usavam vestes negras e estavam amontoados em torno de alguma coisa.

Harry parecia aterrorizado ao observar os homens puxarem os braços para trás e baixá-los sobre o que quer que estivesse no chão. Um som alto de assobio antes de um baque ecoar na cela, seguido imediatamente por gritos baixos e guturais. James viu Harry tremer, abaixando-se ainda mais atrás do barril. Quando um dos homens de capa se afastou, James e Lily soltaram suspiros horrorizados. No chão, cercados pelos Comensais da Morte, havia duas crianças. Eles deviam ter cerca de dez ou onze anos de idade e estavam cobertos de vergões ensanguentados, com as roupas rasgadas. James deu um passo à frente para ajudá-los, momentaneamente esquecendo que não podia fazer nada.

"Esperem até que seus pais encontrem seus corpos mutilados," disse um dos Comensais da Morte, "então veremos se eles ficarão contra o nosso Mestre."

Só quando o homem cruel baixou a arma sobre as crianças que choramingavam novamente, foi que James percebeu o que seguravam. Ele ouviu o suspiro horrorizado de Harry quando o chicote rasgou a carne delas. As pobres crianças soltaram outro grito, implorando por misericórdia. James sentiu-se enjoado. Lily tremia e estendeu a mão para segurar a do esposo.

Mas a reação de James e Lily não foi nada comparada à do Harry de sete anos. Ele tremia e estremecia terrivelmente enquanto cada Comensal da Morte descia o chicote nas crianças seguidamente. O garoto mordia o lábio, os olhos fechados com força. James percebeu que a cena o fazia lembrar do abuso que sofreu e isso estava dilacerando Harry.

Os olhos de Harry se abriram e havia um flash de luz verde neles. Seus olhos pareceram escurecer por um momento. Ele puxou a varinha e apontou para os Comensais da Morte. Um jato de luz amarela atingiu um Comensal na mão. O chicote imediatamente caiu no chão e o homem uivou de dor.

"Nott! O que foi? O que aconteceu, Nott?" perguntaram os outros Comensais da Morte.

Nott estava com muita dor para responder, enquanto pulava em um pé só. James olhou e viu Harry apontando a varinha para outro Comensal da Morte. Um jato de luz vermelha atingiu o Comensal mais próximo das crianças. Ele caiu instantaneamente.

Lily olhou para o Comensal da Morte inconsciente.

"Ele acabou de...?"

"Sim," sussurrou James, surpreso. "Ele acabou de estuporar aquele Comensal."

O primeiro feitiço que Harry lançou foi uma Maldição Ferreteante. Uma criança de sete anos conseguir conjurar magias como aquelas com tanta precisão e com tal poder era simplesmente surpreendente.

Os dois Comensais da Morte restantes começaram a atirar feitiços aleatoriamente. Harry se agachou atrás do barril para se salvar. Quando teve certeza de que não havia mais maldições vindo em sua direção, o menino espiou pela esquina e derrubou outro Comensal.

Agora só restavam um Comensal da Morte e o machucado Nott. Harry se agachou um pouco à esquerda e lançou uma azaração da perna bamba no Comensal restante. O homem de cabelos loiros entrou em uma espécie de dança e acabou caindo sobre Nott, prendendo-o. Harry riu com a cena e até James e Lily não puderam deixar de sorrir com o que ele fizera. Outra azaração bem lançada e os dois homens ficaram imóveis.

Harry rapidamente se levantou e correu para as duas crianças no chão.

"Vocês estão bem?" perguntou Harry, e James sentiu como se fosse explodir de orgulho. Mesmo depois de ter uma infância tão horrível e apesar de viver com Voldemort, Harry ainda tinha uma compaixão incrível.

As duas crianças apenas choramingaram e gemeram.

"Vamos, vocês têm que se levantar." Harry ajudou os dois garotos a se levantarem, permitindo que mancassem atrás dele enquanto os conduzia para fora da cela.

James e Lily o seguiram enquanto ele corria para um quarto ao final do corredor. Era uma porta de madeira marrom com uma alça de bronze em forma de elfo doméstico. O casal não teve chance de estudar o puxador incomum quando Harry abriu a porta e correu para uma pequena lareira. Eles viram o tamanho da lareira e perceberam por que havia um elfo na alça. A lareira devia ser usada pelos elfos domésticos. Normalmente os elfos não saíam da casa em que trabalhavam, mas, se precisassem, usavam seu próprio sistema de flu, pois se perdiam no dos bruxos. Aquela lareira definitivamente pertencia aos elfos, já que era tão pequena que um adulto jamais seria capaz de passar por ela. No entanto, para uma pessoa pequena ou uma criança pequena, era possível usar a lareira.

As duas crianças usavam uma à outra como muletas, enquanto o seguiam. Mas Harry não pareceu notar. Ele corria pela sala, procurando por algo, que encontrou no cantinho do console da lareira. Harry apanhou o pequeno pote, puxou a tampa e pegou um punhado de um pó parecido com areia. Ao jogá-lo na lareira, ele fez surgir uma onda de chamas verdes, na qual empurrou os dois meninos sem dizer nada.

"Digam o nome da casa de vocês," instruiu ele.

As crianças que estavam nas chamas verdes olharam para ele com preocupação.

"Não se preocupem, essa lareira é especial, vai levá-los aonde quiserem. Agora digam o nome da casa de vocês, depressa!" disse Harry, olhando de volta para a porta, com medo que os Comensais da Morte pudessem entrar.

Um dos garotos gaguejou o nome com dificuldade.

"Largo K-Keroon."

O redemoinho de chamas verdes envolveu os irmãos, que estavam agarrados um ao outro com os olhos apertados. Eles desapareceram em um flash e as chamas morreram, deixando a lareira vazia.

Harry soltou um suspiro de alívio. James e Lily sorriram. Ambos desejavam poder abraçar o filho por seu incrível ato de bravura.

Harry se virou e saiu do cômodo. Assim que saiu, foi atingido no peito por uma luz branca. O menino de sete anos foi jogado para trás, aterrissando dolorosamente no chão duro. James se virou e viu o rosto lívido e irritado de Nott, apontando a varinha diretamente para ele.

O garoto ficou de pé, mas a cor sumiu de seu rosto.

"O que está acontecendo?" perguntou James. "Certamente os Comensais da Morte não machucariam Harry. Não têm medo do que Voldemort faria com eles?"

"James," sussurrou Lily, os olhos arregalados de medo e James logo entendeu.

Eles não sabiam sobre Harry.

Os Comensais da Morte só descobriram sobre Harry recentemente, depois que ele foi pego pela armadilha da Ordem. Ele se lembrou das reuniões da Ordem. Havia rumores de um Príncipe das Trevas, suposto filho de Lorde Voldemort. Mas ninguém o vira. Ninguém além de um grupo seleto do círculo íntimo.

James sentiu o coração afundar no estômago. Nott não tinha ideia de quem Harry era. O que significava que não havia nada o impedindo de machucá-lo.

"Quem é você?" vociferou Nott, confirmando os piores medos de James e Lily.

"Eu sou... eu... hum..." Harry se esforçou para responder. Seus olhos verdes correram para a porta, obviamente tentando tomar uma decisão; ficar e se explicar ou correr para a porta?

"Como chegou aqui?" continuou Nott, depois, com um sorriso sádico, acrescentou. "Não importa, não vai sair."

Harry se jogou para o lado, bem quando um jato de luz vermelha veio em sua direção. O garoto puxou a própria varinha, mas não foi rápido o suficiente contra o Comensal da Morte.

"Expelliarmus!" gritou Nott, e a varinha de Harry voou de sua mão.

Harry parecia aterrorizado.

"Você vai pagar pelo dano que causou, seu pirralho!" cuspiu Nott. Ele olhou incisivamente para a mão ferida.

"Você não devia estar machucando aquelas crianças," disse Harry, sua voz um pouco trêmula, mas o tom era de autoridade.

James e Lily não puderam deixar de fitá-lo, admirados. Harry estava em uma posição aterrorizante, mas não tinha medo de se defender. Obviamente, o dano feito pelos falsos "Potter" havia sido corrigido por Voldemort naqueles poucos anos. Harry não era mais uma criança assustada, com medo de falar. Ele era confiante.

"Hunf! É o que acha, não é?" rosnou Nott. "Bem, adivinhe? Ninguém se importa com o que você pensa." Nott lançou a maldição cortante na criança.

Ele o atingiu no braço, fazendo-o cambalear para trás alguns passos. Harry sibilou com a dor, mas não gritou. James e Lily assistiram impotentes quando Nott lançou outro feitiço nele. Desta vez, Harry estava pronto e saiu do caminho. Mas o próximo feitiço de Nott o pegou, levantando-o no ar e jogando-o contra a parede.

James e Lily gritaram, mas não puderam fazer nada além de assistir com crescente horror. Nott se elevou sobre Harry, levantando-o pelos cabelos. Harry lutou, mas não conseguiu se libertar.

"Quem é você?" perguntou Nott, agarrando-o pela garganta.

Harry ficou sem ar, arranhando e rasgando a mão de Nott para se libertar, mas o Comensal da Morte apenas riu antes de golpeá-lo contra a parede. Ele o soltou e Harry caiu no chão, ofegando desesperadamente. Quando olhou para cima, viu Nott apontando a varinha para sua cabeça.

"Ah, Deus, Harry!" Lily estava aterrorizada. "Alguém o ajude, por favor."

Mas ninguém veio ao socorro de Harry.

E não houve necessidade.

Harry chutou, atingindo o Comensal da Morte na canela. Nott grunhiu de dor e recuou. O garoto não perdeu a oportunidade. Ele se levantou e saiu do canto. Harry correu pelo corredor, James e Lily correndo atrás dele. Assim que virou a esquina, deu de cara com um beco sem saída. Ele se virou e recebeu um soco no rosto. Harry bateu contra a parede. Nott estava parado lá, bloqueando o caminho, um olhar de ira em seu rosto.

"Você não vai a lugar nenhum!" vociferou Nott para ele. "Cruc...," mas ele foi interrompido quando Harry sibilou algo em língua de cobra, o que, por sua vez, puxou algum tipo de gatilho que abriu uma porta em uma das paredes. A porta se abriu e bateu em Nott, derrubando-o para o lado.

Harry subiu pela abertura, desaparecendo através dela. James e Lily correram atrás dele, emergindo através do que parecia ser uma espécie de abertura subterrânea para o exterior da mansão. Harry correu até a enorme porta no final da passagem subterrânea e a puxou com força, mas ela não se moveu. Era uma porta enorme, que só podia ser aberta por magia, James supôs.

Harry olhou ao redor desesperadamente, quase chorando. Ele notou alguns itens quebrados no canto da passagem, correu e tirou uma longa vara marrom, muito fina e frágil.

Harry passou uma perna por cima. James compartilhou um olhar preocupado com Lily. Certamente não havia como Harry voar em uma vassoura tão acabada, mas o queixo de James caiu quando o viu decolar e se aproximar da porta aberta, da qual haviam acabado de entrar. James seguiu e ficou mais do que impressionado com as excelentes habilidades de voo do filho.

"Merlin, ele só tem sete anos! Provavelmente nunca aprendeu a voar, é um talento natural!" exclamou James com um sorriso, enquanto perseguiam Harry.

"Sério, James? Isso é tudo que consegue pensar agora?" repreendeu Lily.

Harry voou diretamente sobre a cabeça de Nott, que se abaixou assustado. Logo o Comensal estava de pé, lançando feitiços e azarações em Harry, tentando pegar o garoto que voava. James e Lily correram atrás de Harry, observando-o se abaixar e mergulhar, balançando a vassoura de um lado para o outro, esquivando-se dos jatos de luz. Harry se aproximou das portas abertas, correndo pelo corredor. Ele estava prestes a voar pela porta que levava ao corredor principal da mansão, quando as portas se fecharam de repente.

Harry não conseguiu parar a tempo. Ele bateu nas portas fechadas e, com um grito, caiu no chão. James e Lily pararam ao seu lado, ajoelhando-se perto dele. Harry gemeu ao tentar se levantar. Pela maneira como segurava o braço, era óbvio que estava quebrado.

Lily chorava. Não havia nada que pudesse fazer, a não ser ver o filho sendo arrastado pelos pés por Nott.

"Fim de jogo! Eu ganhei, seu pirralho," sibilou Nott e empurrou Harry, fazendo-o bater contra a porta.

Usando o feitiço de levitação, Nott ergueu Harry no ar, elevando-o cada vez mais alto antes de cancelar o feitiço. Harry caiu no piso duro com um baque alto, batendo a cabeça no chão de mármore. De novo e de novo, Nott o levantou só para derrubá-lo, achando graça. Harry gritou, caindo sobre o braço já quebrado. Contusões apareceram em suas sobrancelhas e bochechas após as numerosas quedas.

James rangia os dentes de raiva, os punhos cerrados enquanto observava o Comensal da Morte torturar seu filho de sete anos de idade.

"Filho da mãe!" repetia ele, encarando Nott, que ria de alegria com a dor de Harry.

Ele derrubou Harry pela última vez, os olhos escuros brilhando de diversão quando o menino ficou imóvel, esparramado no chão, o sangue escorrendo pelo canto da boca.

"Foi o bastante?" perguntou Nott, com um sorriso doentio em seus finos lábios torcidos.

Harry só conseguia gemer, se remexendo um pouco.

"Vou aceitar isso como um sim," disse Nott apontando a varinha para a cabeça dele, "Avada Ke..."

Antes que Nott pudesse terminar, Harry em seu estado enfraquecido fez uma última tentativa de escapar. A vassoura quebrada estava por perto, tendo caído da mão dele quando colidiu com a porta. Esticando o braço, seus dedos se fecharam ao redor do cabo. Ele recuou e a enfiou na perna de Nott. A ponta afiada e quebrada cortou a carne da panturrilha do homem e ele uivou de dor. A varinha caiu da sua mão antes que ele também caísse no chão, agarrando a perna com a vara fina alojada nela.

Rangendo os dentes de dor, Harry se pôs de pé. Agarrando o braço quebrado no peito, Harry mancou até a porta e a abriu o suficiente para se espremer por ela. James e Lily seguiram preocupados atrás dele, vendo-o tropeçar e correr em direção à porta do outro lado do corredor.

Foi com grande esforço que Harry conseguiu alcançar o par de portas de carvalho. Ele as abriu e desabou no chão. Seguindo atrás dele, James e Lily congelaram ao ver as pessoas dentro da sala.

Voldemort se virou na cadeira, parecendo irritado. Ficou claro por sua expressão que não gostava de ninguém invadindo seus aposentos. Do outro lado da mesa, sentada no chão, estava Bellatrix Lestrange, com várias folhas de pergaminho espalhadas à sua frente. Parecia que estavam no meio do planejamento de um ataque.

Mas quando viram a forma machucada de Harry, tropeçando para dentro antes de cair no chão, tanto Voldemort quanto Bella pareciam atordoados. Mais rápido do que James ou Lily pensavam ser possível, Voldemort saiu da cadeira e estava ao seu lado. Ele pegou o menino do chão e o segurou em seus braços.

James sentiu tantas coisas ao ver seu filho nos braços de seu pior inimigo. A raiva e a ira que sentia eram imensas, mas também ficou surpreso, para não dizer chocado, com o quão paternal Voldemort parecia ao segurar Harry em seus braços. Havia preocupação genuína em seu rosto, em vez da habitual indiferença cruel.

"Harry? O que aconteceu?" perguntou Voldemort, enquanto o levava para o sofá e o deitava.

Bella correu para o lado de Harry, ajoelhando-se ao lado de sua cabeça. Voldemort se agachou sobre ele, examinando sua pequena forma com a varinha. Com a mão livre, ele tocou as contusões na bochecha do menino, tracejando o fino fio de sangue ao lado de sua boca. A preocupação em seus olhos vermelhos mudou para raiva quando seu feitiço de diagnóstico o informou sobre o dano infligido à criança.

"Quem fez isso?" sussurrou ele. "Harry? Quem fez isso com você?"

Harry gemeu, sua mão subindo para agarrar a cicatriz.

Bella estendeu a mão para tocar o cabelo de Harry, passando-a sobre seus cabelos escuros.

"Harry? Harry, o que aconteceu?" perguntou ela.

Lily estremeceu com a visão. Por um lado, queria azarar a bruxa maligna por tocar em seu filho. Mas, por outro lado, Bella estava oferecendo conforto ao seu filho ferido e machucado. Deveria odiá-la por isso? Lily honestamente não sabia.

Sentindo a mão de Bella em sua testa, Harry abriu os olhos, gemendo de dor.

"P-pai!"

James sentiu seu coração se despedaçar quando a palavra deixou a boca de Harry.

"Sim, Harry?" disse Voldemort.

"Eu tinha que... você...você entende, certo? Eles... eles estavam machucando eles. Não vai ficar bravo, não é?" perguntou Harry.

"Seja o que for que tenha feito, Harry, isso não importa agora," disse Voldemort, "diga-me quem é responsável pela sua condição."

"N-Nott," respondeu Harry com a voz fraca.

Voldemort se endireitou antes de se dirigir às portas. Seus olhos vermelhos pareciam queimar, como se realmente houvesse um fogo aceso dentro deles. Pouco antes de sair, ele se virou para Bella e sibilou para ela.

"Conserte-o! É melhor que não fique uma marca sequer! Não tolerarei isso!"

Bella se encolheu, mas assentiu para ele.

"Sim, milorde."

Lorde Voldemort deu uma última olhada em Harry, que estava esticando a cabeça para olhar para ele também. Assim que o bruxo se virou para sair, a sala começou a girar e James e Lily se viram perdidos em um borrão de cores que se movia rapidamente. Diminuiu a velocidade, mas eles estavam na mesma sala de antes, só que agora Harry não estava deitado no sofá. Ele estava sentado na mesa de Voldemort, perfeitamente curado e saudável. Parecia que Bella havia cumprido o desejo de seu mestre e o curado, sem deixar cicatrizes visíveis. James mentalmente zombou. Era um pouco hilário vindo de Voldemort o pedido de que Harry não deveria ter cicatrizes já que foi ele que o torturou dia e noite, ameaçando-o até de morte.

Lorde Voldemort estava sentado diante do garoto, e os dois estavam no meio de uma conversa.

"Não precisava agir de forma tão tola. Há muitas maneiras de lidar com essa situação," dizia Voldemort.

Harry olhava para Voldemort com um tipo estranho de calma.

"Não havia tempo, eles iam matá-los," respondeu Harry. Não havia tom de confronto na voz do garoto, mas a acusação se mostrou de qualquer maneira.

Voldemort suspirou e olhou atentamente para ele.

"Eu te disse que aquelas crianças foram trazidas sem minha permissão. Eu nunca ordenei que fossem capturadas, muito menos torturadas."

"Claro, você provavelmente queria que fossem mortas de imediato!" vociferou James em voz alta.

"Eu sei, pai," disse Harry, "só é... é difícil lidar com algo assim." A voz de Harry baixou um pouco e James e Lily novamente sentiram vontade de chorar. As lembranças do abuso que Harry sofreu realmente pareciam quebrá-lo.

"Eu entendo o que você fez e o porquê, mas deveria ter vindo me contar," respondeu Voldemort calmamente. "Eu teria resolvido tudo. Nunca mais quero que se arrisque assim. Por que não contou ao imbecil quem você era?"

Harry olhou para ele, surpreso.

"Porque você me disse para não fazer isso. Você disse que eu nunca deveria, sob nenhuma circunstância, revelar minha verdadeira identidade a alguém sem sua expressa permissão." O garoto recitou as palavras como se tivesse passado muito tempo as ensaiando.

James sentiu as lágrimas picarem nos cantos dos olhos. Harry tinha apenas sete anos de idade. Ele era apenas uma criança e essas palavras provaram isso. Ele era tão inocente e ingênuo que não contrariava as palavras do "pai" por medo de desapontá-lo. Mesmo que isso colocasse sua vida em risco.

Voldemort parecia surpreso.

"Da próxima vez que houver uma situação de vida ou morte, quero que revele sua identidade para se salvar. Entendido?"

Harry sorriu e assentiu com a cabeça.

"Sim, pai."

"No entanto, dito isto, quero que tome cuidado extra para manter-se longe de problemas," disse Voldemort, " espero que entenda a necessidade de você ficar escondido?"

Harry apenas acenou com a cabeça.

"Por que não pode simplesmente contar a todos sobre mim?" perguntou Harry, um tanto descontente.

"Quantas vezes eu tenho que explicar?" perguntou Voldemort, aborrecido. "Você não pode ser descoberto até que tenha idade e força suficientes para se defender. Há muitas pessoas lá fora que vão te machucar só por ser meu filho. Meus Comensais da Morte são tolos o suficiente para deixar essa informação vazar. Sabe que não confio neles completamente. Os que eu confio já sabem sobre você."

Harry sorriu, como se aquilo fosse uma piada particular. Ele franziu a testa de repente, como se acabasse de se lembrar de algo. O menino se inclinou para perto de Voldemort.

"Pai, o que você fez com Nott?"

Voldemort desviou o olhar e pegou sua pena.

"Não é da sua conta. Eu dei um jeito nele," respondeu o bruxo, olhando para o pergaminho diante dele.

"Vamos, pai, por favor, me diga," insistiu Harry, "minha cicatriz ficou doendo por muito tempo depois que você saiu. O que você fez? Acho que tenho direito de saber, já que ele tentou me matar e tudo mais."

Lorde Voldemort olhou para Harry com um sorriso torto nos lábios.

"Vamos apenas dizer que Nott tem sorte de ter um filho, já que não terá mais nenhum."

James e Lily arfaram alto. Mas Harry não entendeu. Ele inclinou a cabeça para o lado com os olhos apertados e olhou confuso para Voldemort.

"Você entenderá quando for mais velho," disse Voldemort em um tom que era muito paternal para James suportar.

A memória terminou e o penseira jogou James e Lily para fora, de volta à sala de estar do Largo Grimmauld, onde Dumbledore os esperava pacientemente.

"O que acham?" perguntou Dumbledore.

James e Lily sentaram-se, sentindo-se enjoados com tudo que tinham visto.

"Eu sinceramente não sei o que pensar," disse James.

"Voldemort demonstra considerável cuidado e preocupação em relação a Harry," disse Dumbledore com um suspiro profundo. "A razão pela qual eu queria que vissem isso era porque todos nós temos que entender o relacionamento que Harry e Voldemort têm. É vital que quando recuperemos Harry, possamos explicar a ele o que Voldemort lhe fez e o motivo." Seus olhos se entristeceram. "Quando falamos com Harry no passado, dissemos repetidamente que Voldemort queria matá-lo. Dissemos que ele foi tirado de casa por causa da profecia," o bruxo gesticulou para a penseira, "mas, como podem ver, Harry se lembra de uma história diferente. Não podemos alegar que Voldemort queria matá-lo, já que se lembra dele o salvando, como fez nesta memória. Só Merlin sabe se há memórias semelhantes ali," disse ele. "Temos que examinar as memórias dele para que possamos cuidadosamente entender sua infância. Essa é a única esperança que temos de entendê-lo. Sabemos que ele aprendeu magia com Voldemort e Bella, então isso explica as habilidades avançadas, mas quero ver as memórias de suas missões. Estou presumindo que essas são as que Harry de alguma forma trancou na penseira. Não será fácil, mas tenho certeza que posso desbloquear esses feitiços."

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Naquela noite, James não conseguiu dormir. Em sua mente, continuou vendo Harry conversando com Voldemort, chamando-o de pai e olhando para ele com nada além de profunda afeição. O jeito que Voldemort o levantara em seus braços. A maneira como ficou furioso com os ferimentos de Harry e o que fez com Nott por atacá-lo, tudo isso causou uma profunda dor dentro de James, fazendo-o sentir-se mal.

Ele se lembrou da ameaça de Voldemort. Jamais esqueceria disso.

'Não tente nada de que vá se arrepender, Potter, siga meu conselho; deixe as coisas como estão... Se tentar levar Harry embora de novo, vou destruir tudo que tem! Para mim é interessante que Harry permaneça ileso, mas se tentar recuperá-lo, ou se tentar virá-lo contra mim, eu juro por Salazar Slytherin que prefiro colocar Harry a seis palmos do chão a vê-lo voltar para você.'

James não tinha dúvidas de que Voldemort poderia matar Harry em um piscar de olhos. Sinceramente, acreditava que o bruxo preferia vê-lo morto a vê-lo voltar para sua legítima casa. Mas ele também sabia que Voldemort não queria perder Harry. Aquele monstro queria dominá-lo para continuar o usando. Voldemort não queria matar Harry, mas o faria caso se sentisse ameaçado. Era isso que o aviso significava, não é? Tamanha era a extensão da crueldade do bruxo, que ele poderia matar alguém como Harry, que feroz e verdadeiramente, de todo coração, o amava como um pai.

James virou para o lado, encarando a escuridão. Sabia que Dumbledore estava certo. Eles tinham que aprender sobre o passado de Harry, tinham que assistir suas memórias, mas James não sabia se ele poderia sobreviver a elas, especialmente se estivessem cheias de uma relação pai e filho com a qual ele só podia sonhar em ter com Harry.