O final de semana iniciou com alunos animados pelos corredores, o ir e vir apressado dos jovens, que falavam ao mesmo tempo. Era inegável que esbanjavam felicidade a cada palavra dita. O motivo de tamanha empolgação, embora fosse confuso distinguir o tema dos assuntos que se sobrepunham uns aos outros, era que o sábado amanhecera ensolarado e o passeio para o El Dorado não seria adiado. Grupos já se formavam para o uso das Chaves de Portal distribuídas, planos, sorrisos e travessuras ecoavam pelas paredes e se estendiam ao Salão Principal. Ali muitos se reuniram para fazer um rápido desjejum antes de partir para a aventura entre os Incas.
A satisfação clara e contagiante para muitos ali, não se estendera a todos… Fernando era a exceção. Com um semblante fechado, o rapaz expunha o quanto se inconformava pelo término do namoro. Principalmente, quando o fim veio acompanhado de um soco dado por Leo ao avistá-lo segurando o braço de Hermione grosseiramente. Sua outra mão ainda se mantinha no ar para agredí-la, quando tudo ficou escuro. A revolta era palpável e deixava o ar pesado no seu entorno. Se julgava um verdadeiro pária ao não ser ouvido quanto ao que ocorrera e os seus motivos. Além de odiar a castanha por tê-lo xingado e, minutos antes de toda a confusão, colocado fogo nas suas roupas. Os gritos irados dela, os chutes que lhe foram dados nas costelas, ainda ecoavam na sua mente. Na sua opinião, isso não ficaria assim… aquela menina lhe pertencia, não tinha o direito de ordenar que se distanciasse e, essencialmente, era a sua chave para o livre acesso à fortuna dos Black. Já havia garantido aos pais que se casaria com uma das irmãs e a sua família ascenderia socialmente no mundo bruxo.
Enquanto isso, Severus acordara e seguira para o seu demorado banho matinal. Não esquecera da promessa feita à jovem bruxa e acompanharia os Black no passeio. A questão não era exclusiva ao invite, como também a sua curiosidade de conhecer o lugar lendário. Muitos morreram em uma busca cega e desenfreada pelas pedras preciosas e os prazeres ofertados por aquela velha montanha. O brilho do ouro, o tilintar dos ornamentos de prata, o resplandecer do imenso lago que espelhava o céu e dava a sensação de que o viajante caminhava nas nuvens… tudo fora projetado para enfeitiçar a todos aqueles que nela adentrassem à procura de fortunas infindáveis. Os poucos que a localizaram, enlouqueceram ou morreram antes de entregar a sua exata posição geográfica. Foi refletindo a respeito disso que, o mestre em Poções, seguiu pelos passadiços, entrando no salão para o café da manhã. Passados alguns poucos minutos, foi em direção aos adolescentes que o aguardavam. Eles serviriam de guias turísticos, mostrando todas as áreas que a cidade era dividida, para o mais velho.
Com a velocidade da imaginação chegaram atravessaram o túnel escuro que os levou à claridade. Leo tomou à frente da conversa e explicava para Severus toda a área agrícola que se expandia diante dos olhos e se perdia no horizonte. Era um lugar sagrado, dedicado a Los Guardianes Superiores e Inferiores, por ser uma sociedade em que a profunda ligação do homem com a terra era inexoravelmente respeitada. O cultivo era fonte de alimentação, do transitar entre as estações e material de troca entre os habitantes. O metal era visto apenas como um presente dos deuses para enfeitar as casas e espelhar os raios do sol em todos os cantos. Notando o quanto o bruxo se interessava com a exposição detalhada que o menino lhe ofertava, os demais partiram para a área urbana. Lá comprariam doces, livros, presentes e reservariam um local para almoçarem e jantarem. Visto que, necessitariam de uma mesa para um grupo de sete pessoas e, em um dia de visitas ao povoado, não era uma tarefa fácil de realizar.
Ao observar que os irmãos partiram e que ficaram sozinhos, o convidou para se embrenharem pelos campos. Deste modo, apontaria para as construções, que se prolongavam por enormes espaços e se alinhavam, formando um complexo arquitetônico impressionante. Terraços, casas de pedra, pequenos templos voltados aos deuses que regiam o tempo… edifícios erguidos com o suor dos moradores que auxiliaram no transporte de grandes blocos rochosos e esmaltados. Suas minúcias chocavam e impressionavam, nenhum ponto fora deixado sem algum tipo de adorno em ouro e prata. O entorno se complementava com o verde da vegetação que se movimentava calmamente.
Era uma visão quase poética em que os campos esqueciam do tempo e brincavam com eras imemoriais. Quando tudo ainda era trevas, sob o reinado do coiote, a natureza lutava silenciosamente. O verde definia o amor desesperado pela esperança de reencontrar à luz, se reconectando com a pureza do universo. Escuridão e luminosidade ali se confrontaram, tocando com os seus pés encantados as pequenas folhas de capim ou grama. O vento massageava e brincava com os cabelos dos primeiros habitantes… tudo foi apaixonadamente composto por ascetas, místicos e desbravadores que descobriram a magia fluir em seu sangue. Líquido pulsante que vagava pelos canais do complexo sistema hídrico. Suor, água e sangue, regavam todos os pontos da cidade e facilitavam o enraizamento e, o posterior, crescimento das plantas ou os rituais que celebravam os deuses.
Atravessando prédios ornados por desenhos que narravam a história das colheitas e do nascimento do primeiro Inca, chegaram à área urbana. Alguns passos foram dados quando Leo se encheu de coragem e segurando o pulso de Severus.
- Eu quero me desculpar com o senhor… não sou um ignorante ou perverso que sai atacando os outros - começou a falar com os olhos fixos no homem que o analisava.
- Deve se retratar com a sua irmã e não comigo, Leo - assegurou virando o rosto para olhar as construções daquele local específico. Na urbe os templos pareciam intocados, como se os séculos não passassem. Com seus isódomos, surpreendia em sus blocos inexplicavelmente encaixados, abrindo pontos precisos para o surgimento de arcos e claraboias para ventilação ou iluminação.
- Eu já fiz isso… Hermione disse que está tudo bem - comentou fazendo um gesto com a cabeça para que seguissem em frente, expondo os locais em que se escondiam os archotes flutuantes. Estes serviam para manter os lugares abertos para a livre circulação em qualquer horário.
- Da minha parte, também é um assunto esquecido - Severus atestou, estudando as ruas planejadas com inúmeros pontos de fuga. Aquilo eram marcas silenciosas de guerras, assassinatos e o medo de invasões. Um povo marcado em sua alma pela constante luta pela sobrevivência e o temor da descoberta se apegava ao simbolismo regente unindo Cosmos e Terra, vida e morte. O vagar da humanidade não era cega… Centelhas, raios e trono; noite, terra e trigo ou sol, lua e estrelas, o mundo se resumia a tríades perfeitas, esculpidas de maneira escalonada e com simetria impecável, que o uniam.
- Eu posso voltar a chamá-lo de tio? - questionou com um semblante sério. Depois de conversar com a mãe, ficara bastante reflexivo quanto as suas atitudes e a forma que lidava com as pessoas ou aqueles tidos como inferiores. Severus apenas assentiu para dar espaço ao menino que, perceptivelmente, queria desabafar.
- Ótimo! Eu ainda quero ser um ótimo pocionista… porém, eu receio que o meu pai fique chateado comigo. Creio que ele queira que eu seja um Auror - argumentou soltando a sua respiração que, naquele instante, reparara que havia prendido.
- Minha irmã, sua prima Nymphadora, optou por essa profissão e ela é uma boa pocionista. Isso é um dos requisitos para que se seja um bom Auror. Quanto ao Black, acredito que estará orgulhoso do que decidir fazer da vida. Você sempre foi o sonhado leão dele… para desespero da Cissa - contra-argumentou dando um meio sorriso para o adolescente que o encarava com admiração.
- Obrigado, tio! - sem qualquer aviso, abraçou o mestre em Poções com força, no meio da rua.
Figuras andavam por todos os lados com suas roupas coloridas. Muitos trabalhavam com jardinagem, podando árvores, grama e flores das gigantescas praças. Outros, se dedicavam a manutenção dos mausoléus, pertencentes ao Inca. Ocupações que também se destinavam aos Alux que auxiliavam nestas tarefas do dia a dia. Os dois andaram até o restaurante, entrando no estabelecimento idealizado com um infinidade de salas quadrangulares. Cada uma possuía uma decoração específica de cenas da mitologia Inca e estátuas de outro. As mesas enormes, serviam para grandes banquetes ou reuniões de trabalho, complementadas por suas cadeiras trançadas com palhas de milho e suas cores variadas.
- Estou numa terra de mil milhos - pensou o homem de cabelos negros antes de sentar próximo a uma das janelas.
- Daqui a pouco, teremos o ritual do Sapa Inca - indicou Sagitta apontando para a distribuição de flores pelas ruas, para que o mais velho reparasse no que aconteceria em poucos minutos.
- Interessante… e no que consistiria? - a questionou ao ver que a menina era bastante interessada no tema. Gostaria de ouví-la falando, pois assim conseguiria desvincular a sua personalidade da tamanha semelhança física com a tia.
- O senhor não conhece, tio? - retorquiu franzindo um pouco o cenho, mais pela curiosidade daquela pergunta do que por estar reprovando ou se sentindo incomodada.
- Li algo com relação ao tema, entretanto, como se propuseram a ser meus guias turísticos… gostaria que me expusesse no que se baseia a cerimômia. Estou na condição de seu aluno neste momento, cara Sagitta - a mirou avaliando como se arrumava no assento para iniciar a sua explanação.
- O relevante é que o Sapa Inca se cobrirá de ouro em pó. Antes disso, retirara suas vestes, cocares e adornos, para entrar no lago e jogar pedras preciosas ao Inti - respondeu séria, ao mesmo tempo que Severus assentia, refletindo o que lhe era transmitido. De fato, não necessitaria de grandes explicações, quando assistiria todo o rito. No entanto, Hermione, decidiu esclarecer os pontos que considerava não ter ficado claros na explanação da irmã:
- Ele transitará por todos os pontos da cidades dentro de uma liteira, mostrando que é superior a todos os mortais e descende do Sol. O que a Sagi esqueceu de dizer é que o Inti é a divindade mais cultuada aqui. É o Deus Sol, como Rá para os egípcios ou o titã Helius para os gregos… - argumentou, detalhando os pontos que queria ressaltar, fazendo com que os irmãos revirassem os olhos por não compreenderem a sua constante auto-imposição de saber sobre tudo o tempo todo.
- Realmente, senhorita Black, este é um tópico relevante… como culturas diferentes celebram semelhantes divindades, nomeando de modos diferentes. Curiosamente, os helenos, representavam o Sol na figura de Apolo, para fazer uma contraposição a sua irmã gêmea, Artemis, a Lua - Severus ressaltou, transmitindo nas suas palavras todo o conhecimento que possuía quanto as mitologias e as lendas. Gênese e apocalipse não eram assuntos exclusivamente bíblicos, pois, todos os povos descreveram a criação até os segundos finais da hecatombe.
- Esta cerimônia é para manter o ouro negro abundante. Ou seja, o solo deve permanecer escuro, quase preto pelo húmus vegetal. Isso o deixa cada vez mais fértil para as plantações. Creio que o Leo deva ter lhe contado, padrinho, que aqui os metais não são vistos como moeda. Aqui a riqueza é o alimento e eles praticam escambo. Por isso, trouxemos tantas sementes de cacau para trocar - ressaltou Draco quase terminando de almoçar e se despedir de todos. Havia combinado de passear à tarde com uma menina e não demoraria mais tempo para encontrá-la.
Os demais, aos poucos, foram seguindo os seus passos e se dissiparam pelas ruas para outras atividades ou interesses. Hermione e Severus ficaram para trás, engrenando uma conversa relativa ao surgimento dos homúnculosno mundo e como estes poderiam ser recriados em laboratório. Em meio ao debate das inúmeras variáveis, a jovem pediu para que servisse aos dois chocolate com pimenta ají amarillo. Contudo, não se lembrou que o mais velho não estava acostumado com aquele tipo de alimento. Não demorou muito para que se sentisse a queimação no seu peito. Aquela pimenta era uma das mais fortes existentes e não fazia ideia de como se livrar daquela sensação de estar sendo incinerado internamente. Observando a expressão do homem e como quase chispava fogo dos seus olhos, a castanha se assustou. Rapidamente, solicitou um copo de leite quase o obrigando a beber para que a ardência desaparecesse e, logo, se recuperasse.
O restante do dia passou depressa, com Hermione o acompanhando no restante da visita a cidade e o levando para passar pelo lago Michin. Essencialmente era ali que o céu e a terra se encontravam e a finitude se tornava abstrata. O caminho até lá era rodeado por árvores e uma profunda vegetação, que iam mudando de cor a medida que o sol se punha no horizonte. Em silêncio, chegaram lá e o cenário deslumbrante o deixou admirado. Foi a menina que quebrou a quietude que o cercava ao constatar que, em pouco tempo, retornariam ao Castelobruxo… para a última semana de aulas e os seus últimos dias na escola. Não somente retornaria a sua casa. Mudaria de país, de amigos, de planos e, praticamente, deixaria para trás a vida que conhecia até aquele exato instante.
- A sua esposa não sente saudades do senhor passar tanto tempo longe? - inquiriu ainda olhando para o sol desaparecendo e as primeiras estrelas se refletindo na água.
- Porque a pergunta, senhorita Black? - retorquiu a questionando. Não assimilara o sentido da interrogação e queria compreender o seu verdadeiro significado.
- No dia que o senhor chegou e passou pela cerimônia dos totens, eu reparei que carrega uma aliança presa a corrente que está no seu pescoço. Fiquei curiosa… me desculpe a intromissão - baixou os olhos chateada. Aquilo significava que não gostava de tratar a respeito do seu relacionamento com pessoas estranhas e, principalmente, jamais existiria espaço para outra pessoa em sua vida.
- Não há motivos para se retratar. Eu ainda não me considero casado. Todavia, creio que não tenha motivos para se ressentir da minha ausência - respondeu, espiando as suas reações com o canto dos olhos. Aquilo era mais um motivo para ter certeza de que, o melhor, era se afastar da jovem e manter uma distância segura entre os dois.
- Entendo, a sua namorada tem sorte… - suspirou, soltando a frase ainda ser conseguir fitá-lo. Sua postura era rígida, permanecendo com o seu olhar fixo em algum ponto específico.
- Sou eu que me julgo o homem mais afortunado do mundo. Mesmo ainda não tendo a pedido em namoro, sei que é tudo o que sonhei durante toda a minha vida - disse olhando para o céu e vendo as constelações que, aos poucos, se revelavam.
- Espero que sejam muito felizes… - sussurrou segurando as lágrimas que queria rolar por sua face.
- Seremos. Não haverá dia em que deixarei de me esforçar para isso, tenha certeza - retorquiu meditando no rumo que a conversa estava tomando. Vagava em um terreno pantanoso, cercado por inúmeros caminhos que levariam ao erro ou a apressar as coisas, sem ter a intenção de fazê-lo. Media cada sílaba que soltaria como se pesasse os ingredientes de uma poção perigosa.
- O senhor pode convidá-la para nos visitar. Sua namorada será muito bem-vinda! - sua voz oscilava entre um intenso desapontamento e a guerra interna para se mostrar decidida. Jogando o cabelo para o lado o encarou como se aguardasse a sua posição quanto ao convite feito.
- Eu não duvido, senhorita Black… - conjecturou analisando como lutava para esconder o ciúmes que se revelava no brilho dos seus olhos castanhos tempestuosos.
- Seu pai a conhece bem - prosseguiu com um leve sarcasmo que banhava a frieza com que encerrava a conversa.
