CAPÍTULO 9
Harry Potter tem a aparência de um homem, e ponto final.
Francamente, Hermione, você já devia saber que não seria muito útil me pedir para descrever outro homem. Ele tem cabelos castanhos. O que mais eu poderia dizer?
Além disso, para o seu governo, mostrei o seu retrato para todo mundo. Sei que você muitas vezes gostaria que eu fosse mais carinhoso, mas a
verdade é que eu a amo muito, minha querida, e tenho muito orgulho de ser seu irmão. Ademais, graças a você, posso me gabar de ter a correspondente mais prolífica de todo o batalhão, e devo dizer que me regozijo muito com a inveja de todos os outros soldados.
Harry, em particular, é azucrinado pelo monstro verde da inveja sempre que chega o correio. Ele tem três irmãos e uma irmã, mas, em termos de correspondência, você supera todos eles – juntos.
(Carta de Dan Granger à irmã, Hermione)
Três horas depois, Hermione ainda se sentia assombrada pelas palavras de Harry.
"Estamos casados."
"Temos a vida inteira pela frente."
Sentada à escrivaninha no canto de seu quarto no hotel Devil's Head, ela enterrou o rosto nas mãos. Tinha que contar a ele a verdade. Tinha que confessar tudo.
Mas como?
E – a questão mais premente – quando?
Convencera-se de que era necessário esperar o término do encontro com o major Weasley. Bom, o encontro tinha acabado de acontecer, mas então parecia que Harry havia piorado. Ela não podia correr o risco de deixá-lo irritado, não com ele naquele estado. Ele ainda precisava dela.
"Ah, Hermione", teve vontade de dizer em voz alta. "Pare de mentir para si mesma." Harry não precisava dela. Ela poderia estar contribuindo para que a recuperação dele fosse mais agradável, e talvez mais rápida, mas ele continuaria melhorando se ela desaparecesse de sua vida.
Enquanto Harry estivera inconsciente, precisara, de fato, de Hermione. Uma vez acordado, contudo, ela deixara de ser tão essencial.
Hermione olhou para Harry, que dormia tranquilamente na cama. Os cabelos escuros caíam numa franja que cobria suas sobrancelhas. Precisava de um corte, mas ela percebeu que gostava dele com os cabelos bagunçados. Davam-lhe um certo ar lascivo, um contraste delicioso com sua natureza conscienciosa. As madeixas revoltas lembravam-na de que aquele homem honrado era também dono de um senso de humor ácido e de que, às vezes, a frustração e a raiva levavam a melhor sobre ele.
Ele não era perfeito.
Era uma pessoa de verdade.
E, por algum motivo, isso fazia com que ela se sentisse ainda pior. "Ainda vou compensá-lo por isso", jurou ela. Faria de tudo para merecer o perdão de Harry.
Contudo, ficava cada vez mais difícil imaginar que isso fosse acontecer. A moral inabalável de Harry – a mesma que havia convencido Hermione a não confessar sua mentira antes da conversa com o major Weasley – era justamente o que a colocava em um novo dilema.
Aos olhos de Harry, ele havia manchado a reputação dela.
Por mais que não estivessem dividindo a cama, estavam dividindo um quarto. No instante em que descobrisse que ela não era sua esposa de verdade, Harry acabaria insistindo para que se casassem. Ele era, acima de tudo, um cavalheiro, e sua honra jamais lhe deixaria alternativa.
E embora Hermione fosse incapaz de se conter (pegava-se, de vez em quando, devaneando sobre um futuro em que ela era a Sra. Potter de verdade), ela nunca mais seria capaz de se olhar no espelho se o prendesse a um casamento forçado.
Ele viveria com rancor dela. Não: ele a odiaria.
Ou talvez não a odiasse, mas nunca a perdoaria.
Ela suspirou. A verdade era que, de qualquer maneira, ele nunca a perdoaria.
– Hermione?
Ela se sobressaltou.
– Você acordou.
Harry abriu um sorriso preguiçoso.
– Há controvérsias.
Hermione se levantou, percorrendo a curta distância que a separava da cama. Harry adormecera totalmente vestido, mas, cerca de uma hora depois, ela achara que ele parecia desconfortável e removera o lenço de seu pescoço. Ele mal se mexera, o que atestava a qualidade do láudano.
– Como está se sentindo? – perguntou ela.
Ele franziu o cenho, ponderando, e Hermione achou que era um bom sinal que ele não respondesse sem pensar.
– Estou bem – disse ele, corrigindo-se logo em seguida, com um sorrisinho torto: – Quer dizer, estou melhor.
– Está com fome?
Ele também teve de pensar sobre essa pergunta.
– Estou, sim. Mas não sei se meu estômago receberia bem a comida.
– Tente tomar um pouco de sopa. – Hermione se levantou para pegar uma pequena tigela que trouxera da cozinha não fazia nem dez minutos. – Ainda está morna.
Ele se sentou na cama.
– Dormi muito tempo?
– Umas três horas. O láudano foi certeiro.
– Três horas – repetiu ele, surpreso.
Seu cenho se franziu, e ele piscou algumas vezes, pensativo.
– Está tentando concluir se ainda está com dor de cabeça? – perguntou Hermione, sorrindo.
– Não – respondeu ele, sem rodeios. – Não preciso pensar para saber que está doendo.
– Ah. – Sem saber o que dizer, Hermione apenas acrescentou: – Sinto muito.
– Mas é uma dor diferente agora.
Ela pôs a tigela na mesa de cabeceira e se sentou ao lado dele.
– Diferente como?
– Menos lancinante, parece. Está mais branda.
– Isso há de ser um sinal de melhora.
Ele tocou de leve a têmpora, murmurando:
– Imagino que sim.
– Precisa de ajuda? – perguntou Hermione, referindo-se à sopa.
Ele respondeu com a sugestão de um sorriso.
– Acho que consigo tomar sozinho, mas uma colher seria de grande valia.
– Ah! – Hermione se levantou de pronto. – Sim, é claro. Desculpe. Acho que se esqueceram de me dar os talheres.
– Tudo bem. Posso beber a sopa direto da tigela.
Ele levou a vasilha aos lábios e sorveu.
– Está boa? – perguntou Hermione em resposta ao suspiro de satisfação que ele soltou.
– Muito boa. Obrigado por trazê-la.
Ela esperou que ele tomasse um pouco mais, e então disse:
– Você está com um aspecto muito melhor do que antes, durante a conversa com o major Weasley. – Então, para que ele não achasse que ela estava prestes a tentar convencê-lo a levá-la logo ao Haarlem, apressou-se em dizer: – Mas não o suficiente para uma jornada ao norte da ilha amanhã.
Ele pareceu achar graça.
– Talvez depois de amanhã.
– Provavelmente também não – admitiu ela, suspirando. – Tive tempo de pensar no nosso encontro com o major Weasley. Ele afirmou que fará perguntas acerca da enfermaria do Haarlem. Eu ainda prefiro visitar o lugar, mas por ora a palavra do major vai ter que bastar. Serei paciente. – Ela suspirou fundo, sem saber se dissera aquelas palavras para tentar consolar Harry ou a si mesma.
Que outra escolha lhe restava?
Harry pôs a tigela de sopa na mesa e pegou as mãos dela.
– Quero encontrar Dan tanto quanto você.
– Eu sei.
Hermione olhou para as mãos de ambos, os dedos entrelaçados. Era curioso como o encaixe era perfeito. As mãos de Harry eram grandes e quadradas, a pele bronzeada e maltratada pelo trabalho. Já as dela, bem, as mãos de Hermione não estavam mais tão alvas e delicadas, mas ela se orgulhava dos novos calos.
Achava que indicavam que ela era uma mulher capaz, senhora do próprio destino. Reconhecia nas próprias mãos uma força que jamais suspeitara ter.
– Nós vamos encontrá-lo – disse Harry.
Ela ergueu o rosto para olhar para ele.
– Talvez não.
Os olhos dele, que àquela luz tênue assumiam um tom mais próximo do azul-marinho, encontraram os dela.
– Preciso ser realista – concluiu ela.
– Realista, sim – retrucou ele. – Fatalista, não.
– Não. – Hermione se esforçou para dar um pequeno sorriso. – Isso eu não sou.
Pelo menos, ainda não.
Passaram alguns instantes sem dizer nada, e o silêncio, que começara como um ato de cumplicidade, foi ficando pesado e estranho conforme Hermione se dava conta de que Harry estava pensando na melhor maneira de abordar um assunto desconfortável. Por fim, depois de pigarrear várias vezes, ele disse:
– Eu gostaria de saber mais sobre o nosso casamento.
Ela sentiu o coração subir à boca. Sabia que mais cedo ou mais tarde aquele momento chegaria; mas mesmo assim, durante um breve instante, Hermione ficou sem ar.
– Não que eu esteja duvidando de sua palavra – falou ele. – Você é irmã de Dan, e espero que perdoe a minha ousadia, mas preciso dizer que, depois de ler suas cartas para ele, sinto que já a conheço bem.
Hermione não conseguiu sustentar o olhar de Harry.
– Mas eu gostaria de saber como tudo transcorreu – determinou ele. Hermione engoliu em seco. Tivera vários dias para bolar uma história, mas nutrir uma mentira na mente era muito diferente de enunciá-la em voz alta.
– Foi por vontade de Dan – disse ela.
O que era verdade. Ou pelo menos ela supunha que fosse verdade. Seu irmão haveria de querer vê-la casada com seu melhor amigo.
– Ele vivia preocupado comigo – acrescentou ela.
– Por causa da morte de seu pai?
– Ele ainda não recebeu a notícia – respondeu Hermione, com sinceridade. – Mas eu já sabia havia tempos que ele vivia preocupado com o meu futuro.
– Dan chegou a dividir as preocupações dele comigo – confirmou Harry.
Ela ergueu os olhos, surpresa.
– É mesmo?
– Queira me desculpar. Sem querer desrespeitar os mortos, mas Dan me segredou que seu pai estava mais interessado no próprio presente do que no futuro da filha.
Hermione engoliu em seco. O pai fora um homem bom, mas também era incorrigivelmente egoísta. Apesar disso, ela o amava. E sabia que ele também a amava, à sua maneira.
– Eu dava certo conforto à vida do meu pai – disse ela, escolhendo as palavras como se estivesse caminhando em um campo cheio de flores; tiveram bons momentos, e era entre eles que ela buscava colher as melhores palavras. – E ele me dava um propósito.
Enquanto ela falava, Harry a observava com atenção e, quando ela arriscou um olhar na direção dele, o que viu nos olhos dele foi orgulho. Misturado, decerto, com uma dose de ceticismo. Ele sabia que ela não estava sendo inteiramente sincera, mas a admirava por ter dito aquelas palavras.
– Enfim – retomou ela, tentando imprimir mais leveza à própria voz –,
Dan sabia que meu pai estava mal de saúde.
Harry inclinou a cabeça para o lado.
– Se bem me lembro, você não disse que a morte dele foi repentina?
– E foi, de fato – ela se apressou em dizer. – Quer dizer, acho que, muitas vezes, a morte chega dessa forma. Vem se aproximando mas chega de surpresa.
Ele não comentou nada.
– Ou talvez não – argumentou ela. Por Deus, estava parecendo uma pateta, mas não conseguia calar a boca. – Não tenho muita experiência com a morte. Aliás, nenhuma, exceto pelo meu pai.
– Nem eu – disse Harry. – Pelo menos, não com a morte natural.
A escuridão se apossou dos olhos dele.
– Não considero natural a morte no campo de batalha – prosseguiu ele, com a voz séria.
– Não, claro que não é.
Hermione não queria nem pensar nos horrores que ele teria visto. A morte de um jovem na flor da idade era muito diferente da morte de um homem velho como o pai dela
Harry tomou mais um gole de sopa, e Hermione tomou o gesto como um sinal de que ela deveria retomar a história.
– Então o meu primo pediu a minha mão em casamento – disse ela.
– Pelo seu tom de voz, presumo que o pedido não tenha sido muito bemvindo.
Ela contraiu os lábios.
– Não.
– E seu pai não o desencorajou? Espere... – Harry ergueu a mão com o indicador em riste, como quem quer fazer um contraponto em uma conversa. – Isso foi antes ou depois da morte de seu pai?
– Antes – respondeu ela.
Ela sentiu um embrulho no estômago. Era assim que as mentiras começavam. Até a morte do pai de Hermione, Horace nunca fora uma ameaça, e Dan nunca soubera que o primo a estava pressionando para se casar com ele.
– É claro. Então deve ter sido porque... – Harry franziu o cenho, soltando a mão dela para coçar o queixo. – Talvez minha mente esteja meio devagar, mas não estou conseguindo acompanhar a ordem dos fatos. Acho que seria melhor escrever tudo para mim.
– Como preferir – disse Hermione, sentindo a culpa vibrar como um tambor em seu peito.
Pensou, incrédula, que estava permitindo que ele achasse que a história
parecia complicada por conta da própria confusão mental. Tentou sorrir, mas não conseguiu produzir muito mais do que um estremecimento nos lábios.
– Eu mesma mal consigo acreditar.
– Perdão?
Ela devia ter adivinhado que precisaria explicar aquela observação.
– É que eu mal consigo acreditar que estou aqui. Em Nova York.
– Comigo.
Ela olhou para o homem íntegro e generoso que ela não merecia.
– Com você.
Ele pegou a mão dela, levando-a aos lábios. O coração de Hermione se derreteu, embora sua consciência estivesse em prantos. Por que aquele maldito homem tinha que ser tão encantador?
Ela respirou fundo.
– Segundo as regras sucessórias de Marswell, se algo acontecer a Dan, a propriedade passará a ser de Horace.
– Foi por isso que ele a pediu em casamento?
Erguendo a sobrancelha, ela disse:
– Não acha que ele pode ter sido conquistado por meu charme e minha beleza?
– Acho, mas certamente esse foi o motivo pelo qual eu a pedi em casamento.
– Um sorriso nasceu nos lábios de Harry, mas logo se dissipou, dando lugar a um esgar. – Eu a pedi em casamento, certo?
– Mais ou menos. Hã... – O rosto dela ardia. – Foi mais um, bem... – Ela se agarrou à única resposta possível. – Na verdade, quem tomou todas as providências foi Dan.
Harry não pareceu nada feliz ao saber desse desdobramento.
– Não havia outra forma possível de conduzir o processo – acrescentou ela.
– Onde você assinou os papéis?
Ela parou para pensar.
– No navio.
– É mesmo? – Ele parecia verdadeiramente perplexo com a coisa toda. – Então como eu...?
– Não sei ao certo – respondeu Hermione.
– Mas se você estava no navio, quando foi que eu...?
– Logo antes de viajar para Connecticut – mentiu Hermione.
– Eu assinei os papéis três meses antes de você?
– As duas assinaturas não precisam ocorrer ao mesmo tempo – pontuou
Hermione, sentindo que estava se enterrando cada vez mais. Tinha preparado mais desculpas – pensou em dizer que o vigário de seu vilarejo teria se recusado a realizar um casamento por procuração, ou que ela não queria ter que fazer os votos até que se tornasse absolutamente necessário, para permitir que Harry pudesse desistir do casamento se mudasse de ideia. Mas, antes de conseguir contar mais uma mentira, ela se deu conta de que ele estava acariciando o dedo dela, no ponto onde o anel deveria estar.
– Você nem tem um anel – disse ele.
– Não preciso de um anel – falou ela.
Ele franziu o cenho, e suas sobrancelhas formaram uma linha reta.
– Precisa, sim.
– Mas isso pode ficar para depois.
E então, em um movimento repentino que ela jamais teria esperado, dada a condição de saúde dele, Harry se inclinou para a frente e tocou o queixo dela.
– Hermione, me beije – pediu ele.
– O quê? – A resposta de Hermione saiu em um guincho.
– Por favor, me beije.
– Você perdeu a razão.
– É uma possiblidade – concordou ele –, mas acho que, para qualquer homem, querer beijá-la pode ser considerado um sinal de sanidade.
– Qualquer homem – ecoou ela, ainda tentando se situar.
– Ou não. – Ele se fez de pensativo. – Acho que posso apresentar certa tendência ao ciúme, então "qualquer homem" teria que pensar duas vezes, ou ele teria de se ver comigo.
Ela balançou a cabeça. Depois, revirou os olhos. E então fez as duas coisas ao mesmo tempo.
– Você precisa descansar.
– Depois de um beijo.
– Harry...
Ele imitou à perfeição a entonação dela:
– Hermione...
Ela abriu a boca, exasperada, para responder.
– Você está tentando fazer cara de cachorrinho pidão para mim?
– Funcionou?
"Sim."
– Não.
Ele soltou o ar, debochado.
– Você não mente bem, sabia?
Ah, mas ele não fazia ideia...
– Termine de tomar a sopa – ordenou ela, tentando, sem o menor sucesso, soar autoritária.
– Está insinuando que eu não tenho forças suficientes para beijá-la?
– Ai, meu Deus, você é terrível!
Harry ergueu a sobrancelha, formando um arco perfeitamente arrogante.
– Porque devo avisá-la de que eu adoro um desafio.
Ela contraiu os lábios, tentando reprimir um sorriso.
– O que aconteceu com você?
Ele deu de ombros, dizendo:
– Felicidade.
Aquela única palavra foi o suficiente para que Hermione perdesse o ar. Por baixo de sua aparência respeitável, Harry Potter era dono de um pronunciado senso de humor. Ela não deveria ter ficado tão surpresa com isso, considerando todos os indícios que já vira nas cartas dele.
Um pingo de alegria fora o suficiente para despertar todo o bom humor dele.
– Eu ainda quero um beijo – pediu ele outra vez.
– Você precisa descansar.
– Acabei de acordar de uma soneca de três horas. Há muito tempo que não me sentia tão descansado como estou agora.
– Um beijo – concedeu ela, embora sua mente a advertisse de que não deveria fazer isso.
– Unzinho só – concordou ele, acrescentando em seguida: – Estou mentindo, é claro.
– Não sei se ainda conta como mentira se você se entrega na mesma frase.
Ele deu duas batidinhas na bochecha, pedindo o beijo. Hermione mordeu o lábio. Um beijo não faria mal algum. Ainda por cima na bochecha. Ela se inclinou.
Então Harry virou o rosto, e os lábios dela tocaram os dele.
– Você me enganou!
Ele a segurou pela nuca.
– Enganei, foi?
– Você sabe que sim.
– Já percebeu que quando você fala assim tão pertinho de mim, é quase um beijo? – murmurou ele de maneira sedutora, com a boca colada ao canto dos lábios dela.
Ela se segurou para não soltar um gemido de prazer. Não tinha forças para resistir. Não com Harry agindo daquela forma – espirituoso, encantador e tão obviamente feliz por ter acordado e se ver casado com ela.
E então os lábios dele encontraram os dela, roçando de leve, um beijo que deveria ter sido casto. Mas não havia nada de inocente na maneira como o corpo dela se arqueava em direção a ele, querendo mais. Antes mesmo de conhecê-lo, Hermione já era meio apaixonada por aquele homem, e sentia seu corpo confessar o que a mente se recusava a admitir: ela o queria, desesperadamente, por inteiro.
Se ele não estivesse tão doente, se não estivesse tão fraco, só Deus sabe o que teria acontecido. Porque talvez ela não conseguisse reunir as forças necessárias para impedi-los de consumar um casamento que nem mesmo existia de verdade.
– Você é o meu melhor remédio – murmurou Harry, colado à pele dela.
– Não vamos menosprezar o poder do láudano – disse ela, tentando brincar.
Tinha que achar um jeito de aliviar a tensão do momento.
– Eu não menosprezo – falou ele, recuando só o suficiente para que os olhares dos dois se encontrassem. – Obrigado por insistir em que eu o tomasse.
Acho que realmente ajudou.
– Não precisa agradecer – disse Hermione, hesitante, tentando entender a repentina mudança de assunto.
Ele acariciou a bochecha dela.
– Na verdade, isso é parte do motivo pelo qual eu falei que você é o meu melhor remédio. Sabe, eu conversei com algumas pessoas no hospital. Ontem, depois que você foi embora.
Ela balançou a cabeça. Não estava entendendo aonde ele queria chegar.
– Eles me contaram que você cuidou muito bem de mim. Falaram sobre
como você insistiu para que eu recebesse um tratamento de primeira, o que talvez não tivesse acontecido sem a sua interferência.
– O-ora... – gaguejou ela.
Isso não tinha nada a ver com o fato de ser esposa dele ou não. Teria agido da mesma forma qualquer que fosse a relação entre eles.
– Um homem até me disse que achava que, se não fosse por você, eu nunca teria despertado.
– Tenho certeza de que isso não é verdade – falou ela, pois não podia aceitar o crédito por aquele feito.
E não podia permitir que ele se sentisse em dívida com ela.
– É curioso... – murmurou ele. – Não me recordo de ter muita vontade de me casar. E definitivamente não me lembro de pensar muito nisso. Mas acho que estou gostando.
Os olhos de Hermione se encheram de lágrimas. Ele as enxugou.
– Não chore – sussurrou ele.
– Não estou chorando – respondeu ela, embora estivesse.
Ele sorriu, compassivo.
– Acho que é a primeira vez que eu faço uma garota chorar com um beijo meu.
Ela recuou, sentindo a necessidade de colocar certa distância entre eles. Harry soltou o rosto de Hermione, mas sua mão deslizou para o ombro da jovem, passando então pelo braço até tomar a mão dela.
Não parecia inclinado a soltá-la, e ela sabia, do fundo do coração, que não queria que ele a soltasse.
– Está ficando tarde – comentou ele.
Ela olhou para a janela. As cortinas estavam fechadas desde cedo, mas pelas bordas dava para ver que o sol tinha se posto havia muito e que a noite já ia alta.
– Você vai dormir? – perguntou ele.
Ela logo soube do que ele estava falando. Ele queria saber se ela dormiria naquela cama.
– Não precisa ficar desconfortável – disse ele. – Não estou em condições de fazer amor com você hoje, por mais que eu deseje isso.
Hermione ruborizou. Não conseguiu disfarçar.
– Pensei que você não estava mais cansado – murmurou ela.
– E não estou. Mas você está.
Ele estava certo. Ela estava exausta. Teria sido mais inteligente dormir enquanto ele dormira, mas ela preferira ficar velando o sono dele. Mais cedo, quando o pusera na cama, Harry parecia muito mal. Quase pior do que quando estava no hospital.
Se algo de ruim acontecesse a ele, depois de tudo o que se passara… Hermione nem suportava imaginar.
– Você comeu alguma coisa? – perguntou ele.
– Sim.
Quando fora buscar a sopa dele, ela fizera uma refeição leve.
– Ótimo. Não queremos que a enfermeira vire paciente. Posso assegurá-la de que eu nunca conseguiria encontrar uma cuidadora tão formidável quanto você.
– A expressão dele ficou séria. – Você precisa descansar.
Disso ela sabia. Contudo, achava que nunca conseguiria repousar.
– Imagino que você ainda queira prezar pelo pudor – disse ele, deixando
transparecer um traço de desconforto.
Hermione se sentiu um pouco melhor ao saber que ele também considerava a situação um tanto irregular.
– Eu lhe dou a minha palavra de que vou me virar para o outro lado e não vou olhar – afirmou ele.
Ela o encarou, confusa.
– Enquanto você se troca para dormir – explicou ele.
– Ah. Sim, é claro.
Por Deus, ela era uma idiota.
– Posso até meter a cabeça debaixo das cobertas.
Ela se levantou, um pouco trêmula.
– Não será necessário.
Fez-se um silêncio pesado, e então, com uma voz rouca, ele disse:
– Acho que será necessário, sim.
Hermione ofegou, surpresa com a confissão dele, então não perdeu mais tempo: foi direto para o armário que continha o seu parco vestuário. Trouxera consigo uma única roupa de dormir, uma camisola simples de algodão branco, sem renda ou qualquer outro enfeite. O tipo de peça que uma dama jamais incluiria em seu enxoval.
– Vou me trocar ali no cantinho – disse ela.
– Já estou embaixo da coberta.
Ele de fato estava. Enquanto ela fora buscar a camisola, ele tinha se deitado na cama e puxara o cobertor para tapar cabeça. Se não estivesse tão envergonhada, Hermione até teria rido da situação.
De forma rápida e eficiente, ela tirou as roupas e se enfiou na camisola. A peça se estendia até os pés, cobrindo-a tanto quanto qualquer vestido normal, e era muito menos reveladora do que um vestido de festa, mas, ainda assim, Hermione se sentia exposta de uma maneira escandalosa.
Ela costumava escovar os cabelos cinquenta vezes antes de ir para a cama, mas naquele momento, com Harry enfiado embaixo das cobertas, o hábito lhe pareceu excessivo, de modo que ela apenas trançou os cabelos para dormir.
Quanto aos dentes... Olhou para a escova de dentes e o pó dentifrício que trouxera da Inglaterra, e então para a cama. Harry não tinha nem se mexido.
– Acho que, só desta vez, vou para a cama sem escovar os dentes – anunciou ela, na esperança de que isso fosse desencorajá-lo de querer beijá-la na manhã seguinte.
Guardou a escova de dentes de volta no armário e foi para o lado livre da cama. Com todo o cuidado, como se não quisesse remexer muito a coberta, ela deslizou para debaixo dos lençóis.
– Já pode abrir os olhos – falou.
Harry descobriu o rosto.
– Você está longe demais – queixou-se ele.
Hermione ainda estava recolhendo a perna direita para cima da cama.
– Melhor assim – sentenciou ela, inclinando-se para o lado e apagando a vela para permitir que a escuridão dominasse o quarto.
Contudo, ela continuava sentindo a forte presença do homem deitado ao seu lado.
– Boa noite, Hermione – disse ele.
– Boa noite.
Ela rolou para o lado, desconfortável, virando-se de costas para ele. Era assim que costumava dormir, virada para o lado direito, com as mãos sob a bochecha como se estivesse rezando. Contudo, naquele momento, a posição não estava cômoda e decididamente não parecia natural.
Ela achou que nunca conseguiria dormir. Nunca mesmo.
No entanto, apesar de tudo, logo adormeceu.
# mentiras, mentiras… quantas mentiras podemos contar?
# Lembrando que toda a obra pertence a Julia Quinn e Personagens de J. K. Rowling
