Severus caminhou a passos lentos, com seu terno e mochila nas costas, por aqueles corredores. Algo lhe dizia que não voltaria mais ao Castelobruxo e, muito menos ao Brasil, após sua partida para a Inglaterra e, depois, Escócia. Era um sentimento profundo de abandono, como se, uma vez mais, estivesse solitário em frente ao universo de possibilidades e caminhos indefinidos. No seu íntimo, chegara a conclusão de que não bastaria mais a promessa de raios de sol e um céu límpido como o mar. A dor e a culpa apenas cresciam e o consumiam aos poucos pelas eternas noites solitárias em que refletia os reais motivos de suas ações. Quando toda a verdade viesse à tona, Hermione o perdoaria? Ou se o Elo não os ligasse, existiria amor entre os dois? Passando as mãos para arrumar os cabelos e afastar os maus pensamentos, respirou profundamente. Refletia o quanto ficara feliz em reencontrar aquela menina de cabelos castanhos revoltos e os demais jovens da família Black. Todos, sem exceção, sempre se mostravam muito orgulhosos de quem eram e dos pais que tinham. Mesmo Luna, que era sobrinha de Narcissa e, consequentemente de Sirius, se esta informação não fosse conhecida, seria vista como filha dos dois. Eram traços, gestos, pequenas nuances no porte e como se expressavam… tudo os definia como membros daquela família.
No entanto, analisava detidamente como a jovem de olhos de âmbar era divergente a que por tantos anos sonhara ao vê-la na Penseira. O rosto idêntico, o obrigava a buscar ligações, semelhanças ou qualquer pormenor que lhe explicasse e possibilitassem a força motriz que o impulsionaria ao recomeço. Aquele convívio por duas semanas o levou a romper a ilusão que ainda o torturava. Agindo contra o vento que o jogava contra os rochedos do medo, decidiu se libertar e examinar a si próprio. Mais uma vez, se questionava como esperava que a bruxa fosse a mesma, quando ele já não o era. Não passavam de dois estranhos, lutando em um caminho escuro e desconhecido, criado pelo lento mecanismo e o girar as engrenagens do acaso. Um curioso emaranhado de casualidades que formam a vida, lhes causava hematomas na alma e no coração. O universo queimava as suas veias, expondo o quanto o mundo estava contra tudo aquilo. Embora permanecessem unidos pelo feitiço de sangue, que entrelaçava as suas almas, a cruel realidade, os afastava através de um insólito e sádico objetivo. Obrigando, assim, a que ambos mergulhassem em um processo lento, intenso, repleto de adversidades ou incertezas… quando o amor permanecia forte, mas não sanava nenhuma das dúvidas, só restava o sofrimento.
Severus deu um meio sorriso ao constatar que, aquilo, não passava de outro ponto, entre tantos outros, que lhe exigiriam tudo. Os deuses nunca foram piedosos ou atenderam aos seus pedidos, portanto, não criava falsas esperanças. Sem qualquer probabilidade de saber se venceria ou perderia em combate ao destino, todo o rumo tomado parecia incompleto. Como um dia dissera, Hermione era a sua estrela Polaris, resplandecendo e o guiando novamente para casa. Seu coração era um barco à deriva, perdido no mar agitado de ausências e presenças quase espectrais. Se continuasse assim, enlouqueceria e não reencontraria mais o seu curso, retomando às rédeas de toda a situação. O que o fez ponderar, por uma fração de segundos, o quanto seria maravilhoso dizer o quanto a amava, que era importante e sempre foi somente ela que esteve em seu coração. Entretanto, não mentiria para alguém cujos olhos expunham toda a confiança que depositava nele e em suas palavras. A menina bruxa ainda estava na idade de acreditar nas grandes promessas e paixões avassaladoras. Tal fato, o estimulava a sempre adotar uma postura honesta na sua presença. Sem jogos ou comprometimentos, não apressaria o desenvolvimento da relação que teriam futuramente. Tampouco, faria algo tão vil e baixo, quanto cercá-la para garantir que fosse sua futuramente. Tudo o que mais presava era que a jovem rainha fosse livre para que fizesse as suas próprias escolhas… sem imposições ou cobranças.
Já constatara, a algum tempo, que muitas das sensações que o dominavam ocasionalmente, sem qualquer explicação plausível, vinham de Hermione. Um vulcão que jorrava um mar de lava incandescente em sua corrente sanguínea, nada mais era que o poder inesgotável do fogo da magia elemental dela. Tão forte e pujante, capaz de originar um campo de força no seu entorno ou de destruir tudo quando se via acuada. A potência calorosa se interligava à veemência com que amava, se deixava dominar pela impulsividade típica de uma adolescente. Seus 14 anos ainda eram um fator importante para analisar a imaturidade e a violência de suas decisões. A paixão, a dor, o ódio, o carinho, a decepção… tudo era desmedidamente feroz e aniquilador, a comandando e provocando um descontrole sem precedentes. Intimamente, se culpava pela angústia da menina. Sobretudo, por erguer barreiras intransponíveis para impedi-la de se aproximar. Pois, mesmo que estivesse diante da perfeita personificação do doce encanto que protegeu a sua alma por anos, não era o que ou quem esperava. O que fazia com que, parte de si, sempre se julgasse completamente indigno de receber qualquer afeto ou olhar carinhoso da dona daquele par de olhos preciosos.
Com tais ponderações, se aproximou da porta do escritório da diretora para se despedir. Nunca imaginara que aquele trajeto fosse tão longo e tenso. Independentemente de qualquer problema pessoal ou descontentamento com algumas especificidades, queria agradecer a estadia, o livre acesso aos laboratórios e à biblioteca. Da mesma forma que, ficara profundamente feliz de receber a oportunidade de conhecer pessoas tão afetuosas e que não o analisavam com pré-julgamentos. Parou naquele ponto por alguns instantes, oportunizando que, antes de anunciar a sua presença, ouvisse o tema que era tratado no interior do cômodo. O choque inicial causado pela voz de Dourado, deu espaço para uma imensa preocupação. Temia ter certeza do que começará a cogitar como os reais motivos para o desencadeamento de tais problemas.
Com pesar, a bruxa mais velha, relatava as estranhas causas que levaram Carla à morte. Segundo o que narrava, aos professores que ali se encontravam, a professora de Poções adquirira uma estranha infecção interna que destruiu todos os seus órgãos. Era tão perturbadora a visão que, quem a visse naquele estado, a impressão era a de que algo a destroçava por de dentro para fora. Nenhum feitiço ou poção revertera a evolução rápida do quadro de septicemia, em que se encontrava… aquilo, manifestamente, era magia das trevas movida por ódio. Seus gritos de dor eram ensurdecedores, como se a alma fosse arrancada, corrompida e devorada aos poucos. Em meio a frases desconexas e confusas, seu corpo foi se deteriorando até a vida se extinguir completamente. As conclusões que chegaram eram a de que, antes de acusarem qualquer pessoa, investigariam as causas. Ainda mais, quando o modo em que falecera era extremamente suspeito. Morrer com os olhos vidrados, encarando um espelho, era um sinal de que à escuridão, que tanto temiam, se aproximava a cada passo. O retorno das sombras, evidentemente, era uma questão de tempo.
- Eu não acredito que ela fez isso… a única das três que controlava isso era a Andrômeda - sussurrou antes de bater a porta e solicitar permissão para que entrasse na sala. Cumprimentando a todos com um simples aceno, reiterou o convite de Dumbledore quanto aos intercâmbios entre as instituições de ensino. Ao concluir, foi informado do falecimento da colega docente, o que o fez adotar sua melhor expressão de surpresa. Disfarçando, desse jeito, as suas desconfianças quanto a autoria do crime.
Ao atravessar o passadiço, que levava até o jardim, encontrou Hermione, Draco e Luna o aguardando com os seus malões para que os acompanhasse na viagem de volta. O mestre em Poções prestava atenção no que o rapaz lhe contava e, após muita insistência, concordara em passar alguns dias na residência dos Black. Enquanto isso, a castanha olhava com um semblante tristonho para cada detalhe que veria pela última vez. Sentiria saudades dos amigos, das conversas, do aprendizado, de cada momento vivido… a irmã apenas ficava ao seu lado, respeitando o seu silêncio e dor. Não interromperia aquele isolamento necessário, ainda mais quando o mesmo era parte essencial da sua jornada de autoconhecimento e aceitação. Sua quietude foi interrompida ao vislumbrar Rumi a mirando de longe. Sem ponderar o que lhe sucederia ou temer que a atacasse, recebeu da jovem loira um gesto de concordância para que fosse até o chefe dos Caiporas. Entre lágrimas, implorou para que a perdoasse, expondo todo o seu arrependimento. Seus soluços eram de partir o coração, contudo, ele se mostrava irredutível. A confiança depositada nos seus poderes e intenções foi rompida e, os guardiões da floresta, não lhe consideravam mais como uma amiga sincera.
Entretanto, a indulgência veio junto ao fato de que jamais retornaria aos terrenos da escola. O horror, o caos, o padecimento causado e os assassinatos, que protagonizara, foram suficientes para que quisessem distancia. Após aquele dia, as profundezas de sua alma foram descortinadas, revelando o abismo que a chamava para as trevas. Elocuções sombrias e amargas, passavam a se tornar doces e gentis nos seus jovens lábios, como o beijo de um amante. Se tornando intensas, particularmente, após a chegada daquele homem de vestes e cabelos negros como uma noite de lua nova. A obscuridade de Severus a guiou, passo a passo, para o precipício. Sussurrando ao seu ouvido que a única maneira de tê-lo era vagando pelas sombras ao seu lado. Cortesias, inteligência inegável, o porte de um lorde, juntamente a sua imaginação que o definia como um príncipe, a fizeram esquecer todas as lições recebidas. Quantas vezes suas tias enfatizaram que as brumas eram mais sedutoras quando comparadas às luzes? Não recordava… os olhos de ônix eram uma elegia cheia de lirismo macabro e envolvente. Sem lhe prometer nada ou dar qualquer esperança de que retribuiria os seus sentimentos, somente com ele experimentava a liberdade que tanto imaginara.
Desde que o viu, literalmente, se materializar diante de seus olhos, passara a ter a impressão de que era capaz de mover as estrelas com o agitar dos dedos. Ao mesmo tempo, se afastara de todos, não queria ninguém por perto ou atrapalhando a oportunidade de estar próxima. Isso a deixava sozinha e submersa aos seus sonhos mais profundos, como se procurasse pela perfeição abstrata… tudo para ser digna daquele bruxo inatingivelmente soturno. Os trilhos do caos e da moralidade duvidosa, ou tentar utilizar a via sinistrae e a via dexterae, era mais difícil do que considerava. A vida se transformava em algo abstrato e incompreensível, a medida em que tomava decisões. Era como se a gravidade a jogasse contra o chão todas as vezes que contemplava se sobressair. Seu peito apertava com a angustia forte que se apoderava dos seus instintos, quase como um pedido mudo para que retornasse à realidade e percebesse retirasse o véu da ilusão de seus olhos. O ar, em um átimo, se ausentara de seus pulmões… a sensação de impotência a assustava e as brasas internas rompiam os seus pulmões. Sua magia queria entrar em ebulição, em meio ao impulso cego que murmurava palavras de ordem. Mas, como se jogaria no desconhecido com os olhos fechados?
Voltando a sua atenção ao que sucedia a sua volta, percebera que Draco e Luna decidiram rumar em direção oposta na embarcação. Deixando ela e o mestre em Poções sozinhos na popa, em meio a um remanso ensurdecedor. Por um longo tempo, permaneceram parados, fitando as águas serenas do rio e contemplando a fluidez do curso… Ambos pensavam no que fazer para passar o tempo, visto que, a viagem até Manaus seria demorada e envolta pela escuridão das matas. Severus se apoiara no ferro e estudava as outras embarcações mais a frente, com seus pequenos focos de luz vagando pelas mãos dos jovens que circulavam com lampiões encantados. Hermione, por sua vez, acenava de volta para as Iaras que se despediam. Observando que os botos continuavam desempenhando as suas tarefas de garantir a segurança dos barcos durante todo o trajeto. Em seus lugares, sentiam a brisa da noite contra as suas faces… o vento, pela velocidade atingida, jogava os cabelos da menina violentamente e lhe proporcionava leves tremores. Involuntariamente, abraçara o próprio corpo para impedir que fosse atingida. Isso somado ao cenário propiciado pela luminosidade contrastante da lua cheia e das estrelas, davam uma atmosfera interessante de descoberta do novo ou a apreciação do improvável. Aos poucos, desviando o foco das águas, voltando às constelações, se aproximou do mais velho até encostar a sua cabeça no braço dele.
Sem mover qualquer músculo ou tocar na jovem, a observou com o canto dos olhos. Notando que estremecia um pouco, tirou o casaco do terno e colocou em cima dos seus ombros, recebendo em troca um sorriso de agradecimento. Minutos se passaram vagarosamente, enquanto o bruxo se mantinha absorto na paisagem escura, até que decidira encará-la. A respiração de Hermione era lenta e tranquila, o levando a abraça-la de lado, impedindo qualquer eventualidade de que se ferisse durante o sono. Inconscientemente, tal gesto a fizera sorrir e soltar um suspiro baixo de contentamento. Mesmo que estivesse adormecida, sentir o cheiro dele a deixava feliz. Seu impulso foi o de o envolver com mais força em seus braços. Ao mesmo tempo, Severus, retirava os cachos de chicoteavam o seu rosto, acariciando com a ponta dos dedos, a raiz dos cabelos da menina aninhada em seu peito. Destarte, continuaram nessa posição incomoda, até que constatara já ser alta madrugada e se encorajar a se afastar da castanha. Temia que um gesto mais brusco a acordasse repentinamente e a assustasse, o impelindo a lentamente a se distanciar para conseguir se levantar. A segurando pelos ombros para que não caísse, ficou na sua frente e a ergueu no colo para deitá-la em uma das redes.
- Noite, menina boba e dorminhoca - sussurrou, segurando o riso ao testemunhar que ressonava e dizia algo incompreensível, se virando para o outro lado. Sem desviar os olhos, puxou para si uma outra rede, se sentando até se convencer de que não despertaria mais. Ao jogar o peso do seu corpo sobre o tecido grosso e trançado, rapidamente, se entregara ao sono também.
Os raios de sol e a animação dos passageiros anunciaram um novo dia e, principalmente, a chegada à cidade em que todos se dispersariam. Após alguns minutos de despedidas, trocas de endereço e conversas sem fim, seguiram para o ponto em que comprariam duas Chaves de Portal para casa. Os meninos não viam a hora de chegar em Porto Alegre e reencontrar os pais e as irmãs caçulas. O primeiro grupo, com os trigêmeos, logo desapareceu, deixando-o os outros quatro aguardando o momento exato em que poderiam utilizar a próxima. Para evitar acidentes, compraram os artefatos com diferença de 10 minutos, assim a viagem seria mais tranquila. Entretanto, ao colocarem os pés na avenida Guaíba, a paz se desfez como fumaça…
- Eu quero o divórcio, Sirius!
