Ainda atordoados e zonzos com a viagem que haviam feito, como também pelos gritos, cada vez mais altos que ecoavam de dentro da residência, o grupo vislumbrou uma sombra indo em direção a eles. Ao firmarem seus olhos para o vulto, antes desfocado, notaram que Sagitta carregava as duas pequenas irmãs pela mão. Seu olhar era triste e dizia algo para acalmar as menores que choravam baixinho. Na verdade, era notório que gostaria de abraça-las e se permitir, igualmente, prantear e expor o seu sofrimento. Aquela cena foi suficiente para partir o coração de Severus, ainda mais, ao perceber os dois meninos próximos à porta de entrada sem saber como agir.
Era fortemente identificável o quanto se encontravam perdidos com tudo aquilo. Se questionava e ponderava quanto ao que reparava… não podia ter se enganado tanto e, intimamente, se preocupava com o que poderia suceder dentro da casa. Sua mente enfatizava que, por mais metido a valentão que Sirius fosse, jamais demonstrara qualquer sinal de agressividade com relação às mulheres. Tampouco, agira de modo bruto com Narcissa nas vezes em que os viu juntos. Sempre romântico, compreensivo e galanteador, a cobrindo de afeto e gentilezas. Entretanto, todas as considerações caiam por terra quando, no seu entorno, só enxergava semblantes desolados.
Com um gesto, mandou que os rapazes fossem para junto dos demais e se afastassem dali. O melhor era que se mantivessem com os irmãos e evitassem qualquer cena mais forte, se caso houvesse. Em nenhuma hipótese permitiria que saíssem emocionalmente machucados em todo aquele cenário nada agradável. Sobretudo, no tocante ao desentendimento dos pais e o quanto temiam ser os responsáveis por mais um atrito entre eles. Com isso, o homem de cabelos negros, com passos lentos, lançou em direção à morada um Abaffiato… para impossibilitar que prosseguissem sendo feridos com as palavras ácidas e duras, acompanhadas de acusações cada vez mais pesadas, a quietude seria um consolo.
Do pouco que compreendera, naquele misto de vozes refreadas pelo vento frio e cortante que quase assoviava, a desavença fora iniciada por conta do que acontecera no Castelobruxo com as crianças. A bruxa loira responsabilizava o marido por ter sido o causador de toda aquela briga entre os filhos. Pois, em todas as circunstâncias, sempre deixara claro as suas predileções e prioridades. Além de, por várias vezes, ter comentado coisas a respeito de Lucius na frente dos filhos. Em algum instante, o tatuado em meio àquela confusão, ressaltara algo que fez com que a paciência da esposa se esgotasse… era sobre levar Harry para viver com eles na Inglaterra e, aquilo, serviu como um estopim para que a querela se tornasse mais séria do que já se desenhava.
Antes de adentrar, olhou rapidamente para trás, analisando os jovens conversando, com gestos e posturas que expunham o quanto se achavam impacientes e aflitos com aquele contexto. Sem chamar a atenção, respirou fundo e entrou apressando o passo pelos corredor que dava acesso à sala. Quanto mais próximo, seu caminhar se transformou em algo leve para que os ruídos não fossem escutados de dentro do cômodo, parando próximo à parede para atentar o que ali ocorria de fato. Vagarosamente, deixou que a varinha descesse pelo seu antebraço, percorrendo a manga de suas vestes, ficando presa entre os dedos. Barulhos de coisas caindo no chão, quebrando ou se partindo em mil pedaços, lhe traziam lembranças horríveis da sua infância. Em especial, quando os berros de Sirius fizeram-se cada vez mais altos.
- Você é louca? Quer me matar? Porque ainda insiste nesse assunto, Narcissa? Qual é o seu problema, mulher? - esbravejava, indignado quanto a alguma acusação recebida e que se perdera pelo caminho. Mormente, com o fato de que ela estava tão revoltada que não parava de arremessar coisas tentando o atingir.
- Não se faça de vítima! Você sempre amou a Bella e eu me pergunto, todos os dias, o que ainda faz aqui? Porque não fugiu com ela? Você teve a oportunidade de viver o seu lindo sonho de amor impossível! - retorquiu segundos antes de algo estourar contra a porta de acesso ao aposento.
- De onde vem esses absurdos? - a questionou, se esquivando para não ser atingido pela fúria que a queimava.
- Ah, eu estou delirando, Sirius Black III? Você sempre correu atrás dela, como um belo cachorro que lambe o chão em que a dona pisa! Se humilhou e rastejou para receber um pouco de atenção e carinho - vociferava quase perdendo a voz, possuída pela raiva que assolava os seus nervos impiedosamente. Aquele era um tema sensível e que sempre a deixava doente e cega de ciúmes. O odiava por ver que ainda amava a morena e se ressentia de falar sobre isso.
- Você me traiu, esse é o motivo! Foi tão baixo que o fez quando as crianças tinham só dois meses… mostrando a todos o quanto nunca se importou comigo ou me respeitou minimamente. Às vezes, eu suspeito que nos casamos, porque você sentia pena da minha condição. Porque não confessa logo que foi com a minha irmã? Porque ainda insiste em me negar a verdade? - as primeiras lágrimas grossas começaram a escorrer pelo rosto de porcelana, a deixando com as bochechas em uma coloração vermelho tomate. Aquelas frases o golpeavam mais do que os chicotes em brasa que a sua mãe conjurava ou as inúmeras sessões de Cruciatus, as quais foi submetido, para ser castigado por suas rebeldias quando criança.
- Não enganei você! Pela última vez, não foi com a Bella… nós nem nos falávamos mais. Você sabe, melhor do que qualquer outra pessoa, que eu só a via quando conseguia pegar a Hermione para passar o dia comigo. Além disso, quem sempre esperou por migalhas foi você, querida prima! - disse em um tom de voz baixo se aproximando para encará-la, sua dor e vergonha seriam compartilhadas. Suas desconfianças e ciúmes o rasgavam por dentro, fazendo com que ficasse perturbado pela inveja que experimentava ao ver a sua esposa sorrindo para qualquer outro homem que não fosse ele.
- Uma mulher tão bonita se rebaixando para ganhar carinho de um morto de fome, ensebado… você é digna de pena, Narcissa. A sua degradação foi terrível! - sorriu tristemente, falar aquelas coisas lhe doíam mais do que ter sido tratado como lixo no passado. Nada no mundo era pior do que, um dia, ter observado a intimidade e o carinho que a bruxa ofertava para Severus. Todavia, nada foi tão inesperado ou se comparável ao tapa que recebera no rosto. Jamais cogitara que a loira, um dia, lhe agrediria fisicamente. Ainda mais, quando sempre foi alguém que se destacava por sua gentileza e elegância no modo de agir e de se comportar.
- Acha que eu nunca reparei como olhava para o Snivellus? Crê que eu sou cego? Quem me garante que as gêmeas não são filhas do Snape? - gritou, a segurando pelo pulso com força, para que não intentasse atacá-lo novamente. Sua postura era implacável, enquanto os seus olhos a atravessavam como se estivessem rasgando a sua alma. A amava muito, tanto que lhe doía o peito e cada injúria o torturava profundamente.
- Não ouse inverter as coisas ou supor que as suas filhas são bastardas! Eu não transei com nenhum outro homem depois que nós iniciamos o namoro. Eu sempre fui fiel! Ou você julga que, quando o Lucius me estuprou, foi minha culpa? Quem sabe eu inventei isso para passar noites tórridas de amor com ele, não é mesmo? Diga, Sirius! - a loira soluçava tentando se desvencilhar, ao mesmo tempo em que o socava com o punho esquerdo para que a soltasse. Ao se ver livre, suas costas ficaram retas, na sua melhor postura heráldica. Seu olhar superior e decepcionado, o afrontava de maneira inexplicável.
- Eu aceitei toda a sua irresponsabilidade, sua imaturidade excessiva, seu egoísmo latente… mas, jamais vou concordar que coloque a minha honra em dúvida! O que mais quer sugerir, amor? Quer me acusar, igualmente, de ter fodido com o seu amigo lobisomem e o seu irmãozinho? - sua voz saia gélida, queimando pelo ressentimento e ojeriza, a cada inquirição levantada. Não queria crer que seu marido a julgava daquela forma repulsiva.
- Eu não sugeri nada disso… - os dedos de Sirius pararam em seus cabelos por alguns minutos, começando a se movimentar lentamente, a fazendo fechar os olhos e permitir que as lágrimas descessem novamente.
- Sempre a adorei como um sol. Até mesmo quando ainda era incapaz de admitir os meus sentimentos, eu a vi como a estrela mais brilhante em toda a constelação dos Black - sussurrou ficando com o corpo rente ao de Narcissa, cheirando os fios loiros com aroma de jasmim com rosas que o enfeitiçavam.
- Só diz isso, porque supõe que há fraqueza em mim… eu sou apenas conveniente aos seus desejos e impulsos sexuais. Você não me ama, Sirius, essa é a verdade - argumentou com um fio de voz, ainda sem abrir os olhos. Não queria mirá-lo, porque a sua coragem ia se esvair em segundos.
- Ser uma das poucas pessoas na nossa família capaz de ter sentimentos genuinamente humanos, não significa ser débil e, muito menos, a coloca como alguém meramente oportuno. Cissa... se fosse só uma questão de luxúria, nosso casamento teria terminado quando eu fui preso - respondeu, colocando a mão no queixo da esposa para obrigá-la a olhar em seus olhos. Sua vontade era a de gritar, correr, queimar todas as coisas no seu entorno, ao mesmo tempo, queria sentar no chão e abraçar os próprios joelhos. Tudo o que identificava em cada célula do seu corpo era medo, um pavor tão profundo que o transformava em um completo covarde, diante da possibilidade de perdê-la para sempre.
- Porque você mente tanto, Sirius? Porque não admite que me machucou? Se não foi com a Bella, com quem foi? - perguntou sem desviar por um segundo que fosse a sua mirada fixa no semblante aflitivo dele.
- Qual a diferença isso faz agora? - retorquiu franzindo o cenho sem entender a dimensão daquele questionamento. Era capaz de ver o quanto aquilo ainda a feria, porém não assimilava o quanto. Intimamente, era uma espécie de adeus silencioso, que ecoava como um pequeno zumbido no coração.
- Que isso nunca mais voltará a acontecer, quem sabe? Ou que você pare de me aquilatar, supondo que eu seja capaz de ser tão baixa - sua voz era firme e segura, ao mesmo tempo que no seu íntimo, só observasse novas distâncias e ausências que, aos poucos, os separavam. Sirius retribuiu somente com um sorriso espontâneo e cheio de dúvidas. Antes que alegasse qualquer coisa, o homem de cabelos castanhos, respondeu:
- Claro que não se rebaixaria ao meu nível... você é a princesa dos Black, Narcissa. O seu dom é o de gerenciar os fatos e as ações dos outros, distorcer tudo ao seu favor e, principalmente, aos seus propósitos. Você não cria os problemas, apenas reage diante das circunstâncias que a cercam - respirou fundo a segurando pelos ombros para que não pudesse se afastar ou deixá-lo falando sozinho.
- Seus atos são muito inteligentes e impiedosamente calculados para garantir que sempre, sem a menor dúvida, esteja confortável e inegavelmente adorada por quem a cerca. Eu a conheço, Narcissa! Fomos forjados pela mesma brasa que destrói a alma de cada um dos Black - concluiu. A bruxa revirou os olhos e desviou a sua atenção. Não queria mais discutir. Sua vontade era a de ir embora e nunca mais encontrá-lo, contudo, parecia ser impossível. Sua dúvida era de que não sabia se era melhor seguir amando-o em vão ou matar esse sentimento. Contudo, constatava que não haveria dia em que não sentiria a sua falta ou deixaria de pensar em como estava. A sua maldição era essa, estar irremediavelmente apaixonada por alguém que não lhe retribuía.
- Tudo bem... você tem razão, Sirius. Se eu não tivesse me casado, agora estaria sozinha e pobre. Certamente, o meu destino era o de ser jogada na Travessa do Tranco ou o de ser, diariamente, surrada pelo Lucius - disse estremecendo um pouco com a exasperação começando a retornar a sua voz. Se magoava com aquele comportamento egoísta e prepotente com o qual o marido lidava com todo o problema ali apresentado.
- Se você diz… - o bruxo comentou insolente. Não admitiria estar errado, no seu ponto de vista, foi a loira quem começou toda aquela discussão desnecessária e sem propósito. No corredor, Severus não podia mais suportar todo o absurdo que escutara até aquele momento. As acusações que eram feitas, como a inaptidão de Sirius em reconhecer o quanto a maltratava com suas atitudes infantis, o encheram de ódio. Isso foi suficiente para que a sua fúria explodisse como enxofre entrando em combustão. Seu sangue fervia e a sua visão ficava turva pela cólera que o dominava e, com a mesma velocidade que a lava vulcânica atinge a superfície, ele partiu para cima do tatuado. Não dando tempo para nada, à moda muggle, distribuiu diversos socos no rosto do outro, que decidira revidar.
- Você pode não ter dito claramente, Black… mas, o fez. Para sua informação, cachorro burro, não há como as suas filhas serem minhas. Se você tem complexo de corno ou não respeita a sua esposa, quero que fique claro que eu nunca desestimei a minha amiga! - enfatizava cada sílaba, como se estivesse desenhado as palavras, para o homem que limpava o sangue que escorria pela boca.
- Aquele dia, na minha casa, Narcissa dormiu por exaustão. Se encontrava emocionalmente abalada pela morte da mãe e por ter sido quase sequestrada. Só na sua cabeça doentia, uma mulher nessas condições psicológicas, estaria desesperada para transar com o primeiro que aparecesse - esbravejou, agarrando o outro pela gola da camisa o erguendo do chão, para que o encarasse. A sua vontade era a de arrastar o rosto de Sirius pelo chão até que se comportasse de maneira decente com a esposa e parasse de agir feito um babaca completo.
- O que faz aqui, seu idiota? - perguntou empurrando o mestre em Poções para longe. O odiava profundamente e, ao longo dos anos, esse desprezo crescera exponencialmente a ponto de execração. Se tivesse uma oportunidade que fosse, iria matá-lo apenas para que deixasse de existir.
- Não é da sua conta… você deveria pedir perdão de joelhos à Narcissa, pulguento desgraçado! - respondeu apontando a varinha para o peito do bruxo, que ria dele afrontosamente.
- Não me meta em um assunto que não lhe diz respeito, porco canalha! Como eu não vou pensar isso, quando você abandonou a Bella grávida?! - gritou, desviando do feitiço estuporante que quase o atingira. Em um movimento rápido, deu um murro no nariz do mestre em Poções, que cambaleou.
- Black, a sua internação em uma ala psiquiátrica é urgente… a Delphine não é nada minha! Aquela insuportável é filha de outro - percebendo que receberia outro golpe, se deslocou agilmente e ordenou:
- Estupefaça! - Sirius caiu desacordado, quase batendo a cabeça em um móvel e, Narcissa, o encarava surpresa. Não assimilava como aparecera ali, do nada, e iniciado uma troca de insultos e socos com o seu marido. Ao se aproximar dele, o segurou pelo pulso para que abaixasse a mão. O olhar que recebera do homem era de uma profunda raiva.
- Severus, o que faz aqui? - questionou. O fitava com um estranho semblante de nojo, típico de quando detestava alguma coisa, soltando lentamente o ar pesado que prendera em seus pulmões.
- Eu trouxe os filhos de vocês que, agora, estão do lado de fora da casa assustados com o espetáculo com o qual foram recepcionados. Você não tem vergonha de viver dessa forma? - bufou permanecendo com os olhos fixos nela, analisando a expressão de censura que lhe era dedicada.
Do lado de fora, Hermione andava de um lado ao outro. Seu nervosismo era palpável, deixando o espaço ainda mais pesado e de difícil coexistência. Particularmente, as coisas se tencionaram ainda mais, quando os gritos e as ofensas, simplesmente, pararam. O silêncio sufocante e aterrador tomou conta de todo o jardim, os deixando profundamente tensos. No fundo, não conseguia imaginar por quais razões os pais brigavam daquele jeito. Não assimilava nada daquilo, tudo era muito confuso e, o pedido de divórcio vindo de Narcissa, a devastava. Seus pensamentos desconexos, giravam e enfatizavam o quanto se amavam. Isso a impulsionou a tomar um atitude e, sem refletir quanto ao que faria, caminhou até a residência. Sem atinar ao certo se as conjecturações fechavam os seus ouvidos ou apenas fingia não escutar os pedidos dos irmãos para que não entrasse, seguiu em frente.
Todos temiam que a castanha perdesse o controle novamente e acabasse sendo a responsável por uma tragédia dentro da casa. Adentrando o ambiente, ouviu uma parte do desentendimento entre a tia e Severus, que discutiam ferrenhamente sobre um tema ao qual não captou direito o conteúdo. Em parte, não se importava com o que diziam, pois a sua preocupação era a estranha mudez do pai. Essa dúvida foi sanada no exato instante em que seus olhos pousaram no cenário de caos que se visualizava na sala. Sirius ainda se encontrava desmaiado no chão e, o homem de vestes negras, se mantinha com a varinha apontada em direção a ele. Aquilo foi suficiente para deixá-la atordoada e sem reação... nada além de correr até o pai e o abraçar, tentando reanimá-lo.
- O que o senhor fez? Porque o machucou? - inquiria, se erguendo do chão como se saltasse. Indignada foi de encontro ao mais velho, juntando todas as forças dos seus braços para empurrá-lo para longe. Como se estivesse saindo de um transe, os olhos de ônix brilharam de um modo indecifrável, ao mesmo tempo em que a encarava e examinava todo o desespero estampado em sua face. Hermione, novamente, se ajoelhava e sacudia o corpo desacordado.
- Pai… Pai… acorda, por favor! - dizia quase aos gritos, segurando as lágrimas o máximo que podia. A tia, vagarosamente, se aproximou dela, a abraçando para que se acalmasse. Não queria que perdesse o controle e se arrependesse depois dos seus atos impulsivos.
- Bonequinha… Sirius e Severus acabaram se agredindo. Seu pai ficará bem, eu prometo - garantiu lhe dando um beijo no topo da cabeça, enquanto acariciava os cachos revoltos que pareciam ter vida própria.
- Mãe, não vá embora. Não me abandone! Eu não quero ficar sozinha - retribuiu o abraço deixando que as primeiras gotas salgadas saíssem. O soluço se tornava mais audível, se somando ao pranto, a medida em que a jovem apertava a tia entre os seus braços, como se buscasse impossibilita-la de fugir dali.
- Como pode achar isso, meu amor? Eu não irei a lugar algum sem vocês... prometo nunca te abandonar, minha linda filha - falou secando o rosto da menina, retribuindo o forte aconchego entre os braços para que se acalmasse e passasse a segurança do que afirmava. Severus assistindo àquilo, ficou sem chão. Não sabia como agir, quanto mais o que dizer. Nunca quis magoar a sua rainha e acabara por fazer da pior forma possível.
- Narcissa, se quiser, eu posso retirá-los daqui em segurança - falou calmamente, recebendo em troca os olhares de reprovação por parte de ambas. Embora não esperasse aquela reação, compreendia que ainda estavam compungidas com o que sucedera nas últimas horas.
- Não é necessário. Quando Sirius recuperar a consciência, conversarei com ele - o ar aristocrático e frio se mantivera diante da sua presença. Algo lhe afirmava, internamente, que a loira ainda se ressentia com todas as questões mal resolvidas entre eles e como a história havia acabado. Mas, não comentaria nada... não era o momento para que isso ocorresse.
- Olha, eu… - tentou argumentar, porém, foi interrompido imediatamente:
- Severus, eu o agradeço por sua intenção. Não obstante, meu marido nunca me machucaria e creio que o saiba. Se possível, faça o favor de chamar os meninos… ou vai deixá-los morrer congelados do lado de fora? - perguntou erguendo as duas sobrancelhas com o seu melhor semblante esnobe e indiferente. Isso bastou para que saísse indignado. Entrara naquela briga para defender a sua honra e recebeu como agradecimento o rechaço. Com os pensamentos conflitantes, rumou pelo corredor com passos rápidos e firmes. Ao encontrá-los no jardim conversando, mandou que entrassem e, imediatamente, aparatou com a ideia de não retornar mais.
Draco atravessou a sala rapidamente, queria explicações do que sucedera para que o padrinho tivesse partido com tanta pressa, sem se despedir, com sangue pelo rosto e com o nariz quebrado. Sua indignação era tanta, que acusou a todos de favorecer o ir e vir dos amigos e conhecidos dos demais, enquanto alguém a quem ele convidara, era mal tratado e agredido. Tentando contornar a situação, a mãe buscava tranquiliza-lo ressaltando que o mestre em Poções seria bem-vindo na residência e que tudo não passara de um mal entendido. Em meio a essa pequena discussão, ao qual os outros filhos também se envolveram, dando razão as reclamações que o menino loiro fazia, Sirius se levantou rapidamente com a varinha em riste. Olhava para todos os cantos buscando por qualquer sinal de que o outro ainda se encontrava na casa para continuar a briga.
- Não adianta procurá-lo, Severus já se foi... - Narcissa falou com um semblante cansado. Ainda mais que, os filhos, demonstravam claramente o quanto estavam decepcionados tanto com a briga, quanto com a atitude posterior dos pais.
- Snivellus, como sempre, agiu como um perfeito covarde! - disse rindo, complemente, seguro de si e dos seus atos. Não se importava, naquele instante, com a opinião daqueles que o cercavam. Afinal, via a si mesmo como dono da razão em tais circunstâncias.
- Não vou admitir que o senhor fale assim do meu padrinho, pai! - o tom desafiador do jovem fez com que o homem quase gargalhasse o encarando. Internamente, não esperava um ato de rebeldia vindo do menino loiro, pois aquilo sempre combinara mais com o gênio feroz de Leo. Fato este que transformava tudo em algo mais interessante.
- Vai fazer o que Dray? Me matar por acaso? Filho, não perca o seu tempo… Azkaban não é um bom lugar para os meninos criados como príncipes da mamãe - enfatizou sarcasticamente, mantendo os olhos fixos no rapaz, aguardando por qualquer ato irrefletido.
- Chega, Sirius… eu vou partir com os meus filhos. Sempre cuidei deles sozinha e não será agora que eu precisarei de você - Narcissa perdeu a paciência com tal postura e seguiu rumo ao quarto. Subindo as escadas, escutou os passos dele a perseguindo até o andar de cima, gritando para que voltasse. Mesmo que fosse incapaz de agredir a ela ou aos filhos, possuía o profundo dom de deixar a todos infinitamente irritados com o seu comportamento desproporcional.
- Nosso casamento acabou hoje! Eu não vou repetir o quanto eu quero o divórcio! Faça o que bem entender da sua vida… vá morar com aquele mestiço imundo, desenterre a vadia da mãe dele ou junte quantas vagabundas você quiser na rua! Mas, dos meus filhos, você pode esquecer da existência de cada um - berrou, batendo com força a porta, a trancando para impedi-lo de entrar.
- Que inferno! Porque toda a vez que discutimos acaba assim, Cissa? - gritava no corredor, enquanto chutava a madeira para tentar convencê-la a abrir. Como notou que era ignorado, lançou contra a mesma um Bombarda, a explodindo e adentrando no cômodo.
- O que foi isso? - se virou o olhando assustada e impossibilitando que a respondesse, continuou:
- Não é sempre a mesma coisa. Nunca é! Você passou de todos os limites ao me desrespeitar. Disse que as minhas duas princesas não são suas filhas! - cada palavra dita, ela o socava com raiva no peito.
- Adhara e Lyra tem os seus olhos, idênticos aos da tia Walburga… puxaram, inegavelmente, o seu lado da família! Eu quase morri para que você tivesse a chance de ser pai desde o dia em que elas nasceram. Pois, tudo o que eu queria era que pudesse acompanhar o crescimento das suas filhas, coisa que não pode fazer com relação aos outros. Porém você as renega porque puxaram o meu gênio e o meu modo de agir! - desabafou, ao mesmo tempo em que ele a apertava em seus braços. Não queria perdê-la e sentia medo de que fosse embora ao amanhecer. Aquelas frases o destruíam mais do que mil facas e se odiava por ter dito coisas absurdas a respeito daquela mulher a quem tanto amava e admirava pela força que possuía. Sobretudo, o temor de nunca mais tê-la ao seu lado, era uma prisão a qual nunca conseguira se libertar.
