Desde o momento da briga até aquele instante, os segundos se arrastaram lentamente. Era como se o tempo abrigasse os grilhões da culpa que sufocava Sirius por cada palavra dita. O frio cortante do minuano, contrastava com as lembranças dos lábios macios de Narcissa estão incendiando os seus, nas noites em que lhe jurava amor eterno. Aquelas memórias o cortavam por dentro como se mil lanças invisíveis atravessassem o seu peito, ao mesmo tempo que o clima gélido o congelava até a alma. Caminhava sem rumo pelo calçadão, recém construído no bairro Ipanema, com o pensamento longe… quisera ele morar na Tristeza para que o nome do bairro definisse o seu estado de espírito. Dando um longo e pesado suspiro, olhou para o lago de águas calmas e se perguntou por quais razões a machucara tanto? O que o levou a ferir a quem amava tão cruelmente? Sua esposa sempre fizera o melhor pelos dois, como se coordenasse os elementos para que fossem sempre felizes. Fosse com palavras, ou com os seus silêncios respeitosos, nunca o abandonara. Porém, após os insultos, sua postura mudara para a de uma dama indiferente aos seus apelos. Por mais que implorasse por perdão, não recebia em troca nada além de olhares imperturbáveis e apáticos. A bruxa estava o ignorando completamente, nos últimos dias, como se fingisse não notar a sua presença dentro da casa.
Sua mente girava rapidamente levantando novas hipóteses de como deveria agir diante do problema que criara. Narcissa se mostrava firme em sua decisão de seguir em frente e entrar com o pedido de divórcio. Promessas longas se esvaiam como lágrimas na chuva ao se chorarem com o sofrimento que lhe causara e a sua assídua ausência era algo torturante. Sob outra perspectiva, se perdera na espera de um segundo que fosse para reconquistá-la e não perder a quem tanto amava. Entretanto, parecia impossível… quando não ouvia mais o seu nome ser chamado para regressar para o lar. Ou quando seu juramento de segui-la aonde quer que fosse fora esquecido. Por horas vagou absorto em suas conjecturações mais profundas. Sem perceber, luzes e sombras se partiam no horizonte, expondo um novo amanhecer. Por entre as árvores, via o sol de inverno, o seu farol de amor o fazia retornar e evitar a chuva fina que caía do céu.
Ao entrar em casa, andou pela sala, analisando os móveis e os quadros como se buscasse respostas as suas perguntas internas. Vendo que ela cruzava pelo corredor para ir a um dos quartos, sentiu como se o seu coração saltasse e um incêndio deixasse marcas profundas em sua pele. Era como se todos os cristais a sua volta virassem cinzas e seus olhos apenas fossem capazes de distingui-la em meio a tantas outras belezas que houvessem no mundo. Duvida que voltasse a enxergar novamente a luz, quando o que mais via era a escuridão da saudades e o vazio na alma. Se interrogava se conseguiria ser feliz longe dela ou se esqueceria o seu nome circunscrito em seu coração? Ainda mais quando estava convicto de que a eternidade só era possível se acompanhasse os seus passos diariamente. Com isso, buscou conversar com a loira, esperando receber uma resposta que fosse. A bruxa retorquiu expondo o essencial para resolver o tema levantado. Tão logo concluiu, se retirou do cômodo para não manter qualquer diálogo. Antes de seguir para o andar de cima, avisou que, no dia seguinte, sairia com os filhos e, se acaso quisesse, poderia acompanhá-los no passeio por São Paulo.
O tempo voou ao sabor do vento e dos raios que cortavam o céu, Sirius ria com os filhos comentando sobre algumas coisas que fizera na juventude. Olhava para Narcissa vez ou outra, procurando por um mísero sinal da aprovação… encontrava naquele mar azul profundo uma clara e extrema decepção estampada. Se afogaria neles se isso a fizesse o agraciar com um sorriso. De todas as vezes que errara na sua vida, aquele era um dos piores pesares que carregava. Duvidara e desconfiara de alguém que lhe dera amor e, aquilo, era uma verdadeira morte em vida.
Uma semana de total silêncio e gelo entre os dois se passara. Naquela manhã nublada, se levantar no quarto de hóspedes decidido a resolver a questão de uma vez por todas. Caminhou por todos os aposentos, declinando de fazer o desjejum, a localizou treinando feitiços. A bruxa prestava atenção a cada movimento feito pelo boneco de treinamento, desviando das investidas e lançando maldições contra ele impiedosamente. Até então, a frondosa macieira era a sua única espectadora, sofrendo algumas consequências por permanecer no trajeto. Seu semblante concentrado e o suor que começava a fazer com que a sua franja colasse na testa, deixava Sirius admirado. Sorriu ao constatar tamanha presteza e agilidade com que se movia. Na sua opinião se tratava de uma mulher fantástica e impossível, extremamente poderosa e com talentos múltiplos. Pois, por mais que se dedicasse tanto aos filhos, jamais abdicara de suas qualidades e sapiência. Mesmo que não confessasse, a mulher de cabelos loiros se esforçava tanto para se superar para demonstrar às suas crianças como poderiam ser melhores no que faziam. Avistando o seu observador, Narcissa se virou para o marido com um ar arrogante e altivo, dando um meio sorriso, como se estivesse disposta a conversar.
- Deixando a modéstia de lado, eu sei que sou muito boa em tudo o que eu faço, querido. Quem sabe você também tenta? - disse calmamente o desafiando com uma voz sedutora, enquanto o encarava com o canto dos olhos. Aquilo sempre o deixava desconcertado e essa era a sua melhor arma para obter a confissão que tanto aguardava. Segundo a sua concepção, o marido deveria admitir o quanto se equivocara. Percebendo que o bruxo de cabelos castanhos respirava fundo, continuou a proposta de um duelo de talentos:
- Claro que não se importara que eu admire toda a sua óbvia manifestação de masculinidade, não é? Ora, não se acanhe, meu primo querido! - suavizou as frases para torná-las ainda mais aprazíveis e aceitáveis ao seu aficionado oponente.
- Certamente, minha amável e linda priminha! Não vou me opor a deixá-la espantada com tudo o que eu posso executar com a minha varinha em riste - falou em um tom maliciosamente solene, a levando a erguer uma das sobrancelhas e expressar a negação diante daquele argumento impertinente.
- Oh, sim… eu estou convicta de que me excitará muito tudo isso, Sirius. Indubitavelmente, você nunca deve ter me contado todos os seus segredos mais obscuros - comentou com os seus olhos fixos no boneco, analisando as tentativas do homem em derrubá-lo falharem uma a uma. Sobretudo, a impaciência que se aclarava em seu semblante tenso. Como o bruxo perdera a paciência e estava prestes a agredir fisicamente o fantoche, para descontar todas as suas frustrações, a loira colocou a mão em seu ombro, dizendo em meio a uma gargalhada:
- Coragem, amor! É imprescindível um completo desassombro para romper os nossos medos confidenciar o que escondemos tanto - assegurou o encarando.
- Foi meramente uma distração que eu tive diante dos seus encantos - respondeu com a sua melhor postura galanteadora, mesmo que seus olhares apontassem as incertezas que circundavam a sua mente naquele instante. Qualquer equívoco que cometesse daquele ponto em diante, a afastaria definitivamente. Todo o cuidado era pouco.
- Sirius, eu já passei há muito tempo da idade de crer nas suas grandes promessas e gestos corteses. Por favor, não se esforce tanto para tentar me seduzir - o encarou séria, com um semblante expondo um misto de descontentamento, dor e mágoa.
- O que eu posso realizar para que me perdoe? Ou lhe provar o contrário do que imagina? - questionou a segurando pelas mãos para evitar que lhe desse as costas e partisse. Não suportaria vê-la ir embora, mais uma vez, o deixando ali sozinho.
- Tente… teoricamente, essa pode ser a sua última alternativa, não é? - retorquiu ainda o defrontando, soltando a respiração pesada que não lembrava de ter prendido.
- Narcissa, eu sou um nada diante da tua sombra e me arrependo de todos os absurdos que disse - a puxou para que ficasse mais próxima a ele, para dar seguimento as suas justificativas:
- Não existe dia em que a culpa me abandone. Tudo o que peço é que me perdoe! Eu juro que jamais se repetirá… tanto que a minha atitude ridícula de a enganar não teve ecos ou reprises - se ajoelhou, ainda com as mãos buscando entrelaçar os dedos nos dela.
- Já cogitou que pode estar confundindo amor com um mero apego? Você, certamente, se acostumara a viver comigo - falou com uma postura rígida e impassível diante daquele que se humilhava aos seus pés.
- Não… eu asseguro que a única certeza que eu tenho é a de que eu amo e adoro você - retorquiu encostando o queixo na barriga da esposa para olhá-la e constatar quais eram as suas reações perante o que dissera.
- Sirius, vamos analisar friamente o que ressalta neste momento… você me diria isso se a Bella voltasse e lhe garantisse amor? Ou, com palavras doces, se comprometesse a ser compassiva aos seus desejos? - perguntou dando alguns passos para trás, o obrigando a soltar suas mãos e, assim, retornar para o interior da residência.
- Eu expressaria as mesmas coisas, afiançando a você o meu amor. Do mesmo modo e com a exata intensidade com a qual fiz no dia em que casamos. No entanto, que diferença isso faz? - contestou contrariado, se erguendo do chão o mais rápido que pode, tentando alcança-la e a impedir de continuar, ao agarra-la pela cintura.
- Eu sinto que não seja capaz de perceber. Sirius, me solte, por favor - se manteve de costas evitando fitar o seu rosto.
- Pela última vez, eu amo você! Cissa, você é a minha vida! Não houve dia naquela maldita prisão em que não busquei lembranças bobas, que não me causassem tristeza ou felicidade… em todas você estava realizando algo que eu considero perfeito - sussurrou próximo ao ouvido a deixando arrepiada pela proximidade.
- Foram essas memórias que me mantiveram vivo e são, foi você mulher teimosa que me fez abrir mão de ser livre para correr o mundo… eu não via motivos se não pudesse tê-la ao meu lado - continuou cheirando os cabelos que tanto amava.
- Eu não acredito… sinto muito. Por isso, pedi o divórcio e você ficará solto para viver como quiser - se virou para ele, séria, colocando as duas mãos no peito do homem para afastá-lo.
- Isso é impossível, bruxa bonita! Eu estarei o tempo todo pensando em você e no quanto eu sou feliz ao seu lado. Enquanto com a Bella foi uma paixão avassaladora e completamente carnal, com você foi um sentimento que se construiu aos poucos e se intensificou a cada segundo que ficamos juntos - a abraçou o mais forte que pode, mesmo sentindo que era empurrado. Não queria perdê-la e começava a se desesperar por não enxergar amor nos seus olhos.
- Me desculpe, contudo nunca vi sob essa perspectiva… - se distanciou, constatando que seu pulso estava preso por ele. Antes que pudesse dizer alguma coisa ou tentasse puxar o seu braço para se libertar, notou que o bruxo colocava a varinha em sua mão. Aquilo significava uma prova muda de amor, visto que, apenas se o afeto fosse verdadeiro o bastonete responderia a alguém que não fosse o seu dono natural.
- Interessante… depois de quase 14 anos de casamento, você me entrega a extensão da sua força, da sua elegância e do seu poder - atestou olhando para o pedaço de faia com núcleo de fibra de coração de dragão que reagia ao seu toque. Era como se a madeira desse pequenos choques nos seus dedos relutando um pouco para aceitar as suas ordens… nada além dos medos de Sirius se desvelando um a um ante ao contato tão íntimo de sua estranha tão conhecida.
- Se não reagir a você, pode deixar de ser minha esposa. Porque não existirá amor em uma célula sequer do meu corpo e tudo terá sido uma mera conveniência. Nossa vida toda será um catálogo de erros e eu sou um completo desgraçado que deve morrer sozinho - alegou convicto de que a varinha não se recusaria a obedecer os comandos da loira. Enquanto ela erguia a varinha em direção ao boneco, persistiu nos seus argumentos:
- Tudo o que eu quero e enxergo é você, Cissa! Até o fim da minha vida eu quero ficar ao seu lado. Pare de ser orgulhosa e teimosa, minha linda.
- Fico satisfeita com toda a sua sinceridade, Sirius! Pode ser que eu tenha esperado tempo demais para ouvir isso - testificou lançando um feitiço que explodiu o boneco, deixando o bruxo com uma expressão de surpresa com a deflagração colérica que assistira ali.
Dias depois, andava apressado até um restaurante onde marcara uma reunião às pressas. Ainda não se dava por vencido e usaria todas as cartas para garantir o seu sucesso. Alguns minutos depois, o homem de vestes negras entrava no local indo em sua direção com um ar insolente.
- O que quer comigo, Black? Já estou com viagem marcada para a Inglaterra. Daqui dois dias estou partindo e já encontrei com o meu afilhado para me despedir - Severus o inquiriu com completa falta de paciência. Não via motivos para conversar ou sentar próximo a quem considerava detestável e digno de nojo.
- Eu quero que vá passar uns dias na minha casa. Você é padrinho do Draco, Snape - comentou lutando para não bufar e por tudo a perder. Um deslize e sairia uma briga sem precedentes entre os dois.
- Qual o seu interesse nisso? - se manteve na defensiva querendo descobrir quais eram as reais intenções por trás daquele convite.
- Quero que me ajude com a Narcissa. Você, embora seja um idiota, é amigo dela de infância… creio que possa colaborar comigo quanto a esse assunto - falou estendendo a mão para fechar o acordo com o outro que o analisava friamente.
- Farei em consideração a ela e não a você, Black - mencionou encerrando o cumprimento e saindo do estabelecimento.
