No dia seguinte, o vento frio e o céu nublado anunciavam o novo dia que acabara de se iniciar. Severus caminhava pelo Centro Histórico de Porto Alegre, observando o vagar rápido e desatento das pessoas pelo Mercado Público da cidade. Conversas, risos, discussões quanto ao preço e a variação dos valores dos alimentos, o ir e vir apressado daqueles que iniciavam mais um dia de trabalho. Era um lugar que vivia e respirava o caos organizado de uma capital com ares de interior. Analisava cada detalhe, notando que, como se estivesse em um distrito de Londres, o frescor gélido das gotículas guiavam os passos dos seus habitantes. Outra semelhança, com a atmosfera invernal do Velho Mundo, era que os muggles em sua ignorância segura, mal sabiam que aquele local era um espécie de portal entre os dois mundos. Tal qual a estação Kings Cross, uma das entras do prédio antigo e marcado por uma enchente, possibilitava transitar entre ambos os lados… bastava somente ler os sinais.
Com as mãos dentro dos bolsos do casaco, para se proteger da baixa temperatura, respirou fundo e continuou… seu vaguear errante desnorteavam seus pensamentos. O diálogo com Sirius dominava lhe ocupava a mente e o deixava inquieto. Sem dúvidas, a decisão tomada o levaria ao imenso desafio de ficar sob o mesmo teto que aquele outro homem, a quem detestava mais do que conseguiria admitir. Contudo, faria um esforço, mesmo que hercúleo. Ajudar Narcissa lhe dava forças suficientes para suportar tais adversidades. Sua presença a auxiliaria a decidir o que queria para a sua vida e, principalmente, confessar a si mesma os seus reais sentimentos com relação ao marido. O curso que o vento tomava, os significados das palavras inaudíveis sussurradas pela ventania, eram a direção que deveria tomar para ir em frente. Ignorando qualquer revés, chegou ao pequeno hotel e arrumou os seus pertences. Julgou melhor passar alguns dias na casa dos Black.
Após pagar a estadia e o que havia consumido, voltou para a rua encarando o céu cinzento que se carregava. A chuva não tardaria a vir e escureceria mais cedo, mesmo que os raios pudessem iluminar o firmamento. Por alguns minutos, percorreu a Rua da Praia com o seu calçadão preto e branco, atravessando a Praça da Alfândega com seus prédios longevos. A ventania na Mauá, chicoteava as suas orelhas e movimentava os seus cabelos lisos em uma dança sem fim… o lago, visto de longe, parecia ser tão limpo e cheio de mistérios. Quadras depois, se questionando porque a pólis virara as costas às suas águas, encontrou um local adequado para desapartar em segurança. Embora quisesse chegar, imediatamente, ao seu destino, optou por desaparatar perto do Veleiros do Sul e andar até a residência. Minutos percorreram como se deslocassem o seu corpo. Quando deu por si, se viu parado na frente da casa enorme, examinou o pátio de entrada atentamente. A piscina ao fundo, a extensão do terreno com várias árvores frutíferas, refletiam os seus questionamentos internos. Valeria a pena, realmente, deixar tudo aquilo para trás e retornar à Inglaterra? Certamente, aquela família foi muito feliz e vivenciaram muitas experiências boas ali. Olhando, mais uma vez, o seu entorno e meditou como era triste o fim.
Com passos lentos, entrou na residência e averiguou os pormenores do ambiente. Sem precisar de muito, constatou a presença de Hermione muito concentrada lendo um livro para as irmãs caçulas. Deu um pequeno sorriso ao contemplar as crianças tão atenta ao que ouviam. Certamente, seriam duas novas sabe-tudo que lhe infernizariam a vida com inquirições intermináveis ou mãos balançantes para responder as perguntas feitas nas aulas. No entanto, não querendo atrapalhar o precioso instante, rumou para outro cômodo apressuradamente para reencontrar Narcissa. Apesar de planejar isso, suas intenções foram interrompidas por uma voz doce que o chamava:
- Senhor?! - repetiu a jovem, o levando a se virar levantando uma das sobrancelhas para encará-la. Internamente, conjecturava como os olhos da castanha sempre o fitavam com um misto de curiosidade e alegria incontida. Brilhavam como estrelas resplandecendo o céu noturno e sombrio de uma noite de Lua Minguante. Sem dizer mais nada, a menina lhe lançou um sorriso aberto de felicidade e o abraçou forte. Aquela reação o deixou sem saber como reagir ou como se portar.
- Me dê licença, senhorita Black. Vim para resolver um tema sério e, portanto, estou ocupado - declarou, retirando os braços da bruxa de si, se afastando. Sem falar mais nada, girou o corpo e prosseguiu o seu trajeto. Antes de sumir pelo corredor, apenas deu um rápido aceno para cumprimentar as miúdas, que lhe sorriram e acenaram.
- Desculpe… eu não queria atrapalhar - sussurrou, com a voz saindo como se dependesse de um fio invisível para se propagar, enquanto encarava os próprios pés. Ao vê-lo desaparecer, sentiu o seu coração apertado e uma angustia gigantesca por conta da rejeição.
Severus adentrou a cozinha orientado pelo cheiro do feijão e o barulho das panelas sendo mexidas sobre o fogo. A mulher de cabelos loiros andava de um lado ao outro, conversando com os elfos que a auxiliavam a cortar os ingredientes que faltavam e a cuidar o arroz para não queimar. Sua atenção era toda voltada, naquele momento, para o preparo de uma salada de agrião com tomate e molho de manga. Além de aprontar um elaborado suco de laranja, cenoura e beterraba, com um toque de hortelã, para os filhos. Absorta, nos pormenores que circundavam a organização dos pratos e experimentando o tempero colocado pelos seus ajudantes nos alimentos, ignorou o fato de que era admirada pela sua presteza culinária. Depois de um longo silêncio, no qual reparara que havia sido notado, o homem de vestes negras tentou iniciar uma conversa. Instantaneamente foi impedido de comentar qualquer coisa, somente pelo olhar que recebera. A bruxa, fingindo que ele não existia, apenas se abaixou para analisar o cozimento de um rosbife, enfiando um termômetro na carne para precisar o tempo de cozimento. Se sentindo preterido, decidira chamar a atenção da mesma:
- Narcissa… - proferiu o nome receoso com a reação que ela teria. Sem dizer qualquer coisa, parou e voltou o seu olhar indiferente afrontando os olhos de ônix.
- Severus, como vai? - o cumprimentou com um simples gesto para que se sentasse na cadeira. Dando algumas instruções aos elfos, se abancou de frente, aguardando para conhecer qual o motivo que o levara a estar ali.
- Aconteceu algo para ter vindo aqui? - questionou, estudando friamente as expressões que se manifestavam no rosto masculino. Algo lhe afirmava, profundamente, que as notícias eram preocupantes e deveria ser forte para lidar com o pior.
- Não exatamente… eu apenas fiquei preocupado após a última vez que estive aqui - alegou tranquilamente a investigando igualmente.
- Agradeço a sua gentileza. Conquanto, não há causas para que fique aflito. Creio que tenha enxergado que, logo, irei embora e levarei meus filhos comigo - expôs soltando a respiração pesadamente, por se tratar de algo que a incomodava.
- Ainda tenho que contar às crianças que me divorciarei do Sirius - concluiu olhando para os próprios dedos.
- Cissa… eu… - tentou segurar as mãos dela para passar confiança, reparando que se levantava para se distanciar.
- Severus, eu gostaria que me chamasse pelo meu nome e não por apelidos, se for possível. Você é meramente o padrinho do Draco… não há nada que nos leve a este grau de intimidade - o interrompeu firmando um semblante sério.
- Perdão, Narcissa… o que eu quero dizer é que relacionamentos, independente de quais forem, sempre terão brigas. A questão mais relevante é a de como cada um lida com as desavenças - justificou incomodado com a atitude hostil com a qual fora, novamente, recepcionado.
- Sinceramente, não quero debater isso… ainda por cima, com você - enfatizou, estabelecendo um silêncio aterrador no ambiente. Ambos ficaram totalmente desconfortáveis com tudo aquilo. Tentando quebrar o mal-estar, Severus retomou a palavra:
- Será mesmo? - se ergueu parando em frente a ela.
- Sim… isso já está terminado! Eu tenho uma ótima vida com o meu marido e os meus filhos - bufou se alterando, dando dois passos para frente para empurrá-lo para que ficasse longe.
- Interessante… pois, no exato ponto em que diz que quer o divórcio, creio que não é o bastante. Não é mesmo, senhora Black? - inquiriu, afrontosamente, para deixá-la indignada. Diante da quietude da loira, prosseguiu em um tom de exigência:
- É suficiente, Cissa? Me diga!
- O que veio fazer na minha casa? O que espera que aconteça, Severus? Aquela carta foi a conclusão de tudo! Toda aquela história foi o maior e pior erro da minha vida - declarou com os olhos queimando pelas lágrimas que queriam descer.
- Para a sua informação, eu sempre gostei de você muito mais do que imagina! Se tudo fosse diferente, teria me casado com você - informou impaciente e sem conseguir formular as frases como imaginara.
- Você proclama que foi um equívoco, asseguro que eu não me arrependo de nada! Porque sabe qual é o problema? Eu sempre pensei em como isso ia terminar e quando acabaria… porque, infelizmente, eu amo você! - garantiu assertivamente, a segurando pelos braços para que o encarasse.
- Da maneira que fala, parece que eu planejei tudo. Não esqueça, você me deve respeito! Nunca mais repita esse argumento absurdo… eu sou a mãe da sua esposa, seu desgraçado! - esbravejou se desvencilhando e o esbofeteando com raiva.
- Eu não estou a desacatando! - a sacudiu pelos ombros, impedindo que o agredisse mais e acabasse se ferindo. Se desprendendo do bruxo, sentou com as duas mãos no rosto soluçando.
Sem mensurarem a duração de toda aquela discussão e o constrangimento gerado pelas palavras ditas, a quietude taciturna prevaleceu ecoando pelos azulejos brancos. A guerra misteriosa, comedida e soturna foi interrompida por alguém que se introduzira no ambiente. Olhando para ambos, esperando o momento certo para falar, Hermione não teve tempo de dizer os motivos que a levaram a entrar ali. Por alguns segundos, Severus a olhou profundamente, se retirando por se ver como um intruso ali… Narcissa reconhecendo a tristeza intensa na fisionomia da sobrinha, esticou o braço para puxá-la e a prender dentro de um abraço.
- Não fique assim, minha bonequinha linda! Eu prometo que vai dar tudo certo - assegurou passando os dedos pelos cabelos da jovem e beijando o seu rosto manchado pelas lágrimas.
