Capítulo 11 – Uma elfa e algumas fotos

O coração de Hermione falhou uma batida, Snape havia falado dela. O que ele havia dito, seriam coisas boas ou ruins. Hermione desejava muito saber, mas não foi necessário perguntar, a pequena elfa revelou prontamente.

— O mestre sempre disse que a senhorita era brilhante. — A pequena criatura deu um grande sorriso.

Hermione corou. Harry e Rony ficaram confusos com a situação, queriam saber por que Snape havia falado de Hermione para sua elfa doméstica, mas não tiveram tempo de perguntar, pois a elfa continuou a falar. Mas agora ela estava respondendo à pergunta que Hermione havia feito anteriormente.

— Me chamo Madel, e sirvo ao mestre Snape.

Hermione comoveu-se com a situação, a pequena elfa continuou a fiel a seu mestre, mesmo ele não estando ali. Mas Madel era, aparentemente, livre, por que continuava na casa aguardando Snape? Era o que iria perguntar.

— Madel, você está usando roupas bem bonitas. Significa que seu mestre te libertou, por que continua aqui, esperando pelo retorno dele? — Perguntou Hermione.

Madel sorriu ao responder.

— Madel continua aqui por que o mestre é bom, nunca maltratou Madel. Gosto de viver com o mestre. Mesmo livre, quis ficar. O mestre permitiu. O mestre até me deu um monte de roupas, um salário e um quarto.

Hermione compreendeu que o sentimento que motivava Madel era a gratidão. Não culpou a pequena elfa por permanecer com seu mestre, apesar das muitas mudanças, o mundo bruxo ainda podia ser cruel com os elfos domésticos. Não era ruim ela querer manter-se protegida ao lado de um mestre que era bondoso com ela.

— Madel, como sobreviveu sozinha por tanto tempo, como se manteve sem seu mestre? O que fez nesse período em que esperou pelo retorno de Snape? — Harry se pronunciou pela primeira vez desde que a elfa aparecera.

Madel olhou para o homem de olhos verdes, reconheceu a cicatriz na testa dele.

— Harry Potter, o menino que sobreviveu. — Disse a pequena criatura sorrindo levemente. — O filho da senhora Lily.

Harry surpreendeu-se, não por ter sido reconhecido, mas pela elfa saber o nome de sua mãe. Assim como Hermione, Harry não precisou perguntar nada para obter respostas, a elfa as entregou prontamente.

— O mestre falava em você, um menino encrenqueiro. Mas que tinha os olhos da senhora Lily. O mestre protegeu você, por muito tempo, em nome da memória da senhora Lily.

Harry tinha os olhos marejados, sabia que Snape havia feito muito por ele, mesmo odiando seu sobrenome e tudo o que ele significava. Snape o havia protegido, por amor à sua mãe. Tudo havia sido em nome dela. Harry era muito grato a aquele homem.

A elfa, pareceu não perceber o tipo de sentimento que provocou em Harry, pois continuou a falar normalmente, respondendo os questionamentos iniciais de Harry e fazendo seus próprios.

— Usei o dinheiro que o mestre tinha dado para comprar o que Madel precisava. Ainda tenho muito dinheiro que o mestre deu. — A elfa tirou um pequeno saco de moedas de seu bolso e o abriu, dentro havia dois galeões e alguns nuques e sicles. — Madel ficou esperando, enquanto esperava, tricotei muitas roupas e muitas meias, quando o mestre voltar Madel vai dar as roupas para ele levar para Hogwarts, tem muitos elfos lá.

A pequena criatura apontou para um grande monte de roupas coloridas próximas a lareira. Ela sorria, parecia muito orgulhosa de seu trabalho. Então a expressão da elfa mudou, ela pareceu dar-se conta de algo muito importante.

— Se estão aqui, vocês sabem onde está o mestre? — Seus grandes olhos agora tinham um brilho esperançoso. — O mestre disse para nunca sair para procurar por ele, que era perigoso e que eu deveria esperar na casa. Madel ficou aqui, esperando.

Hermione sorriu complacente e respondeu.

— Sabemos onde está seu mestre, eu estou cuidando dele. Ele esteve no hospital por muitos anos. Mas agora está bem e logo vai voltar para casa. Tenho certeza de que ele vai ficar muito grato em saber que você cuidou de tudo para ele.

Madel deu um grande sorriso ao ouvir as palavras da jovem mulher.

— Estamos aqui para ver se a casa e os pertences de seu mestre estão em bom estado. Viemos aqui apenas para verificar isso. Como está tudo em ordem, em alguns dias ele vai poder voltar para casa. — Falou Rony.

Madel olhou para ele pela primeira vez desde que havia adentrado o recinto.

— Menino de cabelos vermelhos, você é Ronald Weasley? O menino atrapalhado? — Perguntou Madel.

Rony sorriu e confirmou.

— Pelo jeito Snape também falou de mim. — O ruivo estava um tanto sem graça.

Madel confirmou apenas com um aceno de cabeça.

Hermione ainda trocou mais algumas palavras com Madel, assim como Harry e Rony, antes de pedir para ver a casa.

— Madel, preciso pedir algo a você. Posso ver os demais cômodos da casa? Gostaria muito de conhecer o resto da residência de Snape e também preciso pegar algumas coisas para ele, para sua saída do hospital. Você pode me ajudar? — Hermione tinha certeza que Madel havia cuidado de tudo impecavelmente, não estava pensando em vistoriar a casa, como era sua ideia original. Agora estava apenas muito curiosa para ver o resto da casa, principalmente o quarto de Snape, ela condenava-se pela atitude infantil, mas era impossível resistir a curiosidade.

— Claro, Senhorita Granger. — Disse a pequena elfa. — É só me seguir.

Hermione virou-se para os rapazes e disse:

— Esperem-me aqui, eu já volto.

— Por que não podemos ir com você? — Perguntou Rony.

Harry deu uma cotovelada em Rony e disse:

— Pode deixar, esperamos sim. Vamos aproveitar e organizar os livros que tiramos do lugar.

Rony reclamou mas assentiu.

Hermione agradeceu e seguiu Madel escadas acima.

— Porque fez isso Harry? Não entendi. — Perguntou o ruivo a seu amigo.

— Apenas deixe ela fazer isso sozinha. Eu também ainda não entendo completamente, mas quando eu tiver certeza, pode deixar que será o primeiro a quem vou contar. — Respondeu Harry, que passou a desconfiar da natureza da dedicação de Hermione a Snape, depois que ela lhe contou que ficaria ao lado dele durante os trinta dias de observação.

Rony olhou confuso para o amigo, mas deu de ombros.

— Se você diz, mas não esqueça que terá que contar a mim primeiro.

Harry riu e respondeu:

— É claro, não vou esquecer. Agora me ajude a recolher e colocar esses livros de volta no lugar.

~ x ~

Hermione seguiu Madel pelas escadas e ouvia atentamente tudo que a pequena elfa lhe falava sobre os cômodos, todos eram de cores claras, com leves decorações em tons de verde, muito parecidos com a sala de estar.

A casa era maior do que aparentava, tinha até um cômodo com uma biblioteca relativamente grande. Na verdade, em praticamente todos os cantos da casa havia livros, sempre bem organizados em pequenas ou grandes estantes. Nesse aspecto a sua casa e Snape se parecia muito, pensou a castanha.

Hermione havia se distraído com seus pensamentos, só voltou a realidade quando Madel avisou-lhe que estavam indo em direção ao último cômodo daquele andar, o quarto de Snape. A jovem mulher estava muito curiosa para ver o aposento.

Madel abriu a porta dando passagem para Hermione, que entrou cuidadosamente no local.

No quarto, que estava perfeitamente arrumado, havia uma cama, uma grande estante com livros e mais alguns poucos móveis. Neste aposento, predominava a cor verde. Tanto nos móveis, como nas roupas de cama e cortinas.

Hermione caminhava pelo aposento olhando tudo com deslumbre, estava conhecendo o quarto da pessoa que amava, era fascinante para ela.

Queria poder descobrir mais sobre Snape olhando aqueles objetos que pertenciam a ele. Mas não era tão simples assim, não era pelos pertences que se conhecia uma pessoa e sim através da convivência.

A jovem se deteve por uns instantes em frente a estante de livros, passou a mão cuidadosamente sobre a lombada dos livros, pensava em Snape, em quantas vezes ele os havia lido, em quantas vezes os havia tocado.

Hermione suspirou, amava tanto aquele homem, queria poder dizer isso a ele, mas era tão difícil de juntar as palavras quando estava cara a cara com Snape, olhar naqueles profundos olhos escuros fazia com que todas as suas ensaiadas falas desaparecessem de sua mente e sua coragem se tornasse praticamente inexistente.

A jovem continuou andando pelo quarto, estranhou não encontrar um porta-retratos sequer, não havia foto alguma, em nenhum cômodo da casa. Não havia marcas de uma vida naquela casa, não havia registros de momentos, não havia nada.

Hermione volta-se para Madel e questiona:

— Existe alguma foto, algum porta-retratos? De Snape ou da família, talvez de um amigo?

— Não tem nenhuma foto, o mestre não gostava delas. — Respondeu a elfa.

— É uma pena, gostaria de saber mais um pouco sobre seu mestre, ele é muito importante para mim. — Falou Hermione.

A pequena elfa olhou para Hermione, parecia indecisa, retorcia as mãos nervosamente. Até que finalmente falou:

— Mas Madel sabe que tem umas fotos em uma gaveta, Madel não deveria estar contando isso. Mas deixo a senhorita ver se prometer guardar as fotos de volta em seu lugar depois de olhar.

— Eu prometo, Madel. — Sorriu Hermione empolgada.

Madel foi até o criado-mudo que estava ao lado da cabeceira da cama de Snape, abriu a gaveta cuidadosamente e tirou dela um envelope pardo, que estendeu à Hermione.

A jovem foi até a elfa rapidamente e pegou o envelope, sentou-se na beirada da cama e então abriu-o. Havia umas poucas fotos no envelope, que pareciam bem antigas.

A primeira foto que Hermione pegou foi a de uma jovem muito bonita, aparentando ter cerca de 14 anos, de cabelos ruivos, que balançavam ao vento. Virou a imagem e atrás estava escrito "Lily Evans", logo ela percebeu de quem era aquela fotografia, era da mãe de Harry.

A segunda foto era de uma turma de sonserinos, Hermione logo encontrou Snape, uma figura que estava ao fundo da imagem, com uma expressão pouco amigável, aparentando ter cerca de dezesseis anos, virou a foto e estava escrito "turma de 1976 - Hogwarts".

A terceira foto era de uma mulher bonita com longos cabelos negros, mas com semblante triste, aparentando ter cerca de trinta anos, novamente Hermione virou a foto e, no verso, esta tinha os dizeres "Eileen Prince" escritos. Ela sabia quem era aquela mulher, era a mãe de Snape.

A quarta e última foto surpreendeu Hermione, era uma foto nova, se comparada as demais. E era uma imagem sua, com seus dezesseis anos, em Hogwarts, na imagem Hermione estava com um semblante irritado, fazia uma careta. Ela não gostava de tirar fotografias.

Havia sido um colega quem tinha tirado aquela foto, Hermione lembrava-se bem daquela ocasião. Colin Creevey estava tirando fotos de todos à sua volta incluindo ela, quando acabou, sem querer, tirando uma de Snape, que ficou extremamente furioso e recolheu sua câmera e todas as fotos que ele havia tirado.

Hermione riu levemente, seus olhos estavam marejados, jamais imaginaria que Snape tinha guardado uma foto sua, ainda mais junto a lembranças que aparentavam ser tão preciosas.

Ela suspirou, desejava imensamente que Snape ainda a amasse e com a mesma intensidade que havia visto em suas memórias.

Hermione guardou as fotos de volta no envelope e o entregou para Madel que o colocou exatamente no local de onde o havia tirado.

— Obrigada, Madel, por ter me mostrado isso. Foi muito importante para mim. — Disse a jovem mulher para a elfa.

A pequena criatura apenas sorriu.

Hermione, apesar de ainda estar emocionada, precisava ser prática naquele momento. Ela respirou fundo, passou as mãos pelo rosto e se dirigiu a Madel:

— Como seu mestre logo sairá do hospital, acho prudente também levar algumas vestes para ele. Você poderia arrumá-las para mim. Você provavelmente conhece o gosto dele melhor do que ninguém.

Madel assentiu e separou algumas peças de roupas, todas de cor preta, que estavam muito bem ordenadas no guarda-roupas e as colocou em uma pequena mala, que entregou à Hermione.

— Obrigada, direi a Snape que você me ajudou muito. — Falou a jovem sorrindo. — Agora, preciso ir, tenho mais alguns assuntos para resolver. Pode me levar de volta à sala de estar?

— Claro, senhorita. É só me seguir outra vez. — Respondeu Madel.

Hermione retornou a sala de estar, seus amigos estavam sentados no sofá, esperando-a. Quando a viram, ambos se levantaram.

— Tudo bem, Hermione? — Perguntou Harry.

— Tudo sim. Madel cuidou de tudo muito bem. — Disse a castanha aos amigos

Então, Hermione virou-se para Madel, para despedir-se:

— Obrigada por tudo, por ter me ajudado tanto. Se tudo der certo, a verei em breve.

Os rapazes também se despediram da elfa.

Então os três partiram de volta para Londres.