Capítulo 13: Uma discussão

Hermione respirou fundo e buscou sua coragem, afinal, ela tinha sido aluna da Grifinória, não poderia deixar-se amedrontar. Ela então iniciou a conversa com seu antigo mestre.

— Pedi ajuda a Harry para localizar as propriedades que estavam em seus registros no Ministério. Então, o que ele encontrou foi apenas uma propriedade registrada em seu nome. Após descobrirmos a localização exata, nós fomos até local para verificar seu estado de conservação.

Snape gostaria de saber a quem aquele "nós" dito por Hermione se referia, mas não iria perguntar, não tinha o direito de intervir na vida de Hermione e nem de saber com quem ela estava.

Focou sua atenção apenas em sua casa, queria saber se sua ela ainda estava habitável, isso era algo imprescindível naquele momento.

— E em que estado encontra-se minha casa atualmente? — Perguntou Snape.

Hermione sorriu ao responder.

— Por mais incrível possa parecer, sua casa está em ótimo estado. Muito bem cuidada, organizada e limpa. Você imagina porque ela está assim?

Snape pensou um pouco. Até cogitou a hipótese, mas era difícil crer.

— Foi Madel? — Quis saber o homem.

— Sim, — disse Hermione — ela encarregou-se de tudo. Ela disse-me que continuava a esperar por você, a esperar o retorno do mestre dela.

Snape não conseguia acreditar que Madel havia mantido sua casa por sete anos. Ele havia dito para a elfa partir se ele demorasse mais de dois meses para retornar. Ele pediu que ela abandonasse a casa e fosse viver em Hogwarts, mas ela não havia obedecido. E ele estava grato por ela não ter seguido suas ordens.

Snape não demostrou, mas estava feliz em saber que ainda tinha uma casa. Era um problema a menos para resolver.

— Sobre suas economias, fui até Gringotts e pedi que me passassem o valor que havia em seu cofre, entregaram-me este pergaminho com as quantias. — Hermione entregou um pequeno pedaço de papel para Snape, o mesmo que ela havia recebido dos duendes, no banco.

O homem leu cuidadosamente o que estava escrito.

"Cofre 49755

Titular: Snape, Severus Prince.

Galeões: 60

Nuques: 100

Sicles: 996"

Sua atual situação financeira não era tão ruim, mas ao pagar uma pessoa para acompanhá-lo durante trinta dias sairia bem caro, só ainda não sabia quanto. Resolveu tirar essa dúvida com Hermione.

— A senhorita conseguiu contratar alguém para ficar o período de observação acompanhando-me? Quantos galeões essa pessoa irá cobrar semanalmente?

— Primeiramente, contratar uma enfermeira para te acompanhar durante sua observação, sairia pelo menos quinze galeões semanais, o que totalizaria em sessenta galeões em um mês. Foram estas as informações que as enfermeiras, aqui do hospital, passaram-me. É um valor relativamente alto por ser um trabalho em que há necessidade de disponibilidade vinte e quatro horas diárias. — Falou Hermione.

Snape ponderou, gastaria todos os seus galeões, ficaria apenas com alguns nuques e sicles. Logo após terminada sua observação teria que buscar um novo emprego, urgentemente. Não tinha escolha. Era uma situação complexa, mas jamais iria pedir a ajuda a alguém, seu orgulho não permitiria, também não queria a pena nem a caridade de ninguém. Odiava que o mirassem com olhares penosos. Ele daria seu próprio jeito.

— Então a senhorita já encontrou alguém para acompanhar-me. — Disse o homem.

Hermione estava nervosa, mas não havia como desistir agora. Ela teria que falar.

— Bem...sim, — Hermione respondeu — eu encontrei uma pessoa disposta a te acompanhar.

— E quanto essa pessoa vai cobrar pelo seu trabalho? — Perguntou Snape.

— Nada. — Respondeu Hermione.

O homem não entendeu, de que forma uma enfermeira iria trabalhar um mês todo e não cobrar absolutamente nada.

— Não entendo, senhorita. Deve haver algum engano. — Falou Snape.

— Não há engano algum. — Respondeu ela.

— E quem seria essa bondosa alma que faria esse imenso ato de caridade por mim? — Perguntou Snape, sua fala estava carregada de sarcasmo.

Hermione respirando profundamente e ignorando o sarcasmo na voz de seu antigo professor, respondeu:

— Eu vou acompanhar você em sua licença.

— O quê? — Perguntou o homem incrédulo. — Eu não estou pedindo sua complacência, senhorita, não quero caridade. Não faça isso por pena. — Snape estava consternado ao responder.

Ele não queria ser visto como alvo de piedade, muito menos por Hermione.

Hermione olhou indignada para Snape.

— Por pena?! Acha que estou fazendo isso por pena, Snape! Você não entende, estou fazendo isso por que você é importante para mim e quero que tenha os melhores cuidados possíveis. Como você pode ser tão cego?! — Hermione jogou os braços para o alto, em sinal de frustração. — Não é por pena ou por caridade, é por que EU QUERO! Eu quero cuidar de você. Eu quero continuar cuidando de você.

Snape impressionou-se com o modo como Hermione "explodiu" e disse tudo que o acabou de ouvir.

Mas Snape não queria que Hermione cuidasse dele por compaixão. E ele tinha certeza que era por isso que ela ofereceu ajuda, ela provavelmente compadeceu-se de sua triste situação financeira e quis ajudá-lo. Ele, definitivamente, não queria esse tipo de sentimento vindo dela.

Snape estava frustrado e magoado. Ele não queria que Hermione ficasse ao seu lado dessa forma. Se fosse assim, preferia ela longe.

Seu coração estava tão ferido com suas próprias suposições que ele não conseguiu segurar as palavras que disse a seguir.

— Por que quer cuidar de mim? Para concluir sua "missão" de salvar o morcego das masmorras? Ou existe algum peso em sua consciência que queria abrandar ao ajudar um ex-professor com uma situação financeira terrível?

Hermione olhou incrédula para ele.

— Eu não acredito que disse isso para mim, Snape.

Os olhos dela marejaram rapidamente.

Hermione virou-se e foi em direção a porta do quarto o mais rápido que pode.

Snape, ao ver a expressão de Hermione, arrependeu-se terrivelmente por ter dito aquelas palavras.

— Senhorita Granger, espere! Senhorita, por favor! — Snape estava realmente arrependido de suas palavras tão rudes. — Hermione, me perdoe!

Só quando Hermione ouviu seu primeiro nome saindo dos lábios de Snape que ela se deteve. Não virou-se, continuou de costas, mostrando que não o perdoava ainda, mas que estava ouvindo suas palavras.

Snape entendeu que Hermione o escutaria e dependo de suas palavras o perdoaria. Ele respirou fundo antes de começar a falar.

— Senhorita Granger, me perdoe pelas minhas rudes palavras. Eu...as disse sem pensar. Me perdoe, eu fui um grande idiota. Acabei de ser um grande estúpido com a pessoa que lutou por anos para salvar minha vida.

Hermione ouvia atentamente enquanto Snape lembrava-se de uma situação de seu passado.

Snape recordou-se de como havia conseguido afastar Lily, há muito tempo, quando ainda eram jovens. Lily só havia tentado ajudá-lo, assim como Hermione o fazia agora. Snape repetiu seu erro.

Havia feito com Hermione a mesma coisa que um dia fez com Lily, havia afastado a pessoa que ama por não controlar o próprio sarcasmo, orgulho e insegurança. Como ele havia sido idiota, pensava. Hermione certamente só queria ajudá-lo e ele reagiu daquela forma.

Mas tantas coisas passaram por sua cabeça, ele não conseguia acreditar que Hermione tinha outros motivos, além de compaixão e pena, para estar ajudando-o. Quais outras razões uma mulher linda e inteligente como ela teria para ficar ao seu lado, um homem velho e sem perspectiva de futuro.

Snape acabou jogando todo seu descontentamento e insegurança em cima de Hermione. Ele amava aquela mulher, mas ele não a merecia, não merecia nem a indiferença dela.

Mas Snape descobriu-se muito egoísta quando se tratava dela, mesmo acreditando que não a merecia, ele a queria.

Mas agora poderia ser muito tarde, poderia ter perdido Hermione para sempre, não achava que poderia suportar. Sua alma já tão machucada não suportaria uma nova perda dessa magnitude.

Sua mente estava muito confusa, muitos sentimentos se contradiziam. Mas havia um que se sobressaia a todos os demais, arrependimento. Arrependimento por ter deixado sua insegurança e seu orgulho o guiarem outra vez.

Lembrou-se das lágrimas nos olhos dela, lágrimas que eram culpa sua. Agora, não conseguia compreender, como pode cometer um erro tão grande.

Não poderia perdê-la. Resolveu então expor parte de seus sentimentos para que ela talvez entendesse o que estava se passando em sua mente.

— Senhorita, eu não quero que me acompanhe em meu período de observação... não quero que me acompanhe se o sentimento que tiver por mim for pena. Não suporto esse tipo de sentimento direcionado a mim, ainda mais vindo da senhorita. Seria insuportável para mim saber que tem pena de mim, me sentiria miserável ao seu lado.

Para Snape foi muito difícil expor esse lado débil de sua personalidade, mas desta vez não perderia um amor por orgulho. Continuou seu discurso, já que Hermione ainda lhe dava as costas.

— Eu não estou acostumado com as pessoas sendo gentis comigo, não estou acostumado a receber gestos de bondade. Isso tudo ainda é muito estranho para mim, pois aos meus olhos é tudo feito apenas por piedade, por caridade. Detesto ser visto como "necessitado", por isso me exaltei com a senhorita. Me arrependo do que fiz, imensamente. Novamente, me perdoe, senhorita Granger.

Snape falou muito, muito mais do que lembrava-se já ter falado com alguém. Esperava de todo seu coração que Hermione aceitasse seu pedido, não podia perdê-la também.

Hermione virou-se e encarou aqueles profundos olhos negros. Seu desejo era atirar-se nos braços dele, mas não podia fazer isso, pelo menos não antes de saber quais sentimentos Snape ainda nutria por ela. Respirou profundamente e finalmente falou.

— Não posso negar que realmente me magoou, suas palavras foram demasiado cruéis de ouvir. Eu estive por sete anos acompanhando seu estado e por cinco anos sendo responsável por seu tratamento. Eu jamais ofereceria algo por pena a você. Eu me ofereci para acompanhar sua observação pois, como eu já havia dito, você é importante para mim. E eu quero poder acompanhar de perto sua evolução. Jamais será por pena que ofereço algo a você, Snape, espero que compreenda isso.

Snape mal sabia o que responder ao ouvir as palavras de Hermione, eram tão cheias de sentido e também tão sinceras.

Mas, apesar disso, ela ainda não havia respondido se o perdoava ou não.

— A senhorita será capaz de me perdoar um dia?

Ela sorriu complacente, seus olhos ainda tinham o brilho das lágrimas que haviam brotado anteriormente. .

— Sim, eu serei capaz de perdoar você. Mas só o farei se aceitar que eu o acompanhe durante seu período de observação.

Snape encarou Hermione, ela não parecia estar brincando. Ele passou a mão pelos cabelos em sinal de rendição.

— Eu aceito, senhorita, com uma condição. Ficaremos em minha casa.

Hermione pensou por alguns instantes, realmente a casa de Snape era bem maior e mais cômoda que a sua, ele teria muito mais liberdade e se sentiria mais confortável.

— Certo. Ficaremos em sua casa. Venho buscar você amanhã pela manhã.

Hermione colocou a mão em seu bolso e tirou uma pequena mala, tocou com a varinha sobre esta que retornou a seu tamanho original. Ela entregou-a a Snape e disse:

— Imaginei que ao sair do hospital gostaria de fazê-lo com suas próprias roupas. Madel organizou a mala, eu apenas a trouxe. Espero que lhe seja útil.

Snape agradeceu a Hermione, ela realmente preocupava-se com ele, de uma forma que nunca achou que alguém o faria.

Hermione despediu-se e deixou o quarto de Snape. Ao sair, colocou a mão sobre o peito, seu coração estava disparado. Em um curto período de tempo ocorreu tanta coisa naquele quarto de hospital. Ela não sabia o que pensar, a única coisa que vinha à sua mente era que Snape havia aceitado sua proposta. E, a partir de amanhã, estaria vivendo ao lado dele.