Capítulo 16: Um Pouco de Rotina e Uma Despedida

A vida na casa de Snape era calma, pelo menos os dois primeiros dias que se seguiram foram assim. A rotina resumia-se em algumas ações, pela manhã Hermione ia até o quarto de Snape, para checar seus sinais vitais. Depois o ajudava a descer as escadas e caminhavam até a cozinha, para tomar café da manhã, junto com Madel, apesar da elfa se recusar terminantemente a sentar na mesa com eles.

Após o café da manhã, Hermione e Snape sentavam-se na sala de estar para conversar ou ler. Próximo do horário do almoço, Madel deixava Hermione ajudá-la um pouco na cozinha. Hermione e Snape almoçavam na sala de jantar, pois Madel fazia questão.

Após o almoço, Hermione ficava com Snape, passeavam pelo terreno da casa ou ficavam no jardim. Depois disso ficavam na biblioteca, Snape lendo e Hermione continuando suas pesquisas para o hospital. Os livros que Snape possuía eram muito úteis a jovem, Snape educadamente permitiu que Hermione os usasse para suas buscas.

Tanto Hermione quanto Snape estavam usufruindo ao máximo a companhia do outro, tudo parecia tão certo e tão perfeito. Nenhum dos dois ousava questionar aquele pequeno pedaço de paraíso que haviam criado.

No quarto dia, pela manhã, Zabini veio até a casa para realizar os exames de rotina em Snape, como havia sido combinado no hospital.

Hermione foi quem abriu a porta.

— Bom dia, Hermione? Está sobrevivendo bem? — Perguntou Blaise.

Hermione revirou os olhos antes de responder.

— Sinceramente, Zabini, você nem merece uma resposta.

— Quanta hostilidade pela manhã, acho que passar tempo com Snape não está lhe fazendo bem. — Blaise falou as últimas palavras quase em um sussurro.

— Entre logo, Zabini. — Falou Hermione. — E só para lhe deixar informado, eu estou maravilhosamente bem!

— É bom saber disso. — Disse Blaise com um sorriso sincero nos lábios. — Agora, vamos deixar de conversa, me leve até meu paciente.

— Claro, Dr. Zabini. — Disse Hermione em tom irônico.

Zabini acompanhou Hermione, seguindo seus passos pela casa. Hermione parou em frente ao quarto de Snape, no segundo andar, e deu leves batidas na porta.

— Snape, Zabini está aqui para vê-lo. — Falou a jovem mulher.

A porta foi aberta por Severus, que agora já tinha força suficiente em suas pernas para levantar-se e caminhar sem precisar de auxílio.

— Senhor Zabini, entre. — Falou o homem com sua voz grossa.

Zabini obedeceu as ordens do homem.

Snape continuou na porta, voltou seu olhar para Hermione.

— A senhorita importa-se de não acompanhar-me nesse momento, é um pouco... — Snape pigarreou — constrangedor.

Hermione deu um leve sorriso complacente e falou:

— Espero vocês na sala de estar.

— Obrigada, senhorita. — Disse o homem, enquanto fechava a porta de seu quarto.

Hermione deu as costas e desceu até a sala de estar, confiava em Zabini, tinha a certeza de que ele era um médico competente e que não faria nada para prejudicar Snape.

Quase uma hora depois os dois homens desceram as escadas. Hermione os aguardava ansiosa.

Zabini aproximou-se de Hermione e alcançou a ela um pedaço de pergaminho.

— Como pode ver, em minhas anotações sobre os exames que realizei, Snape está perfeitamente bem. Sua saúde está ótima. — Blaise falou enquanto sentava-se em uma das poltronas da sala de estar.

Hermione olhou para o amigo, havia um lindo sorriso em seus lábios.

— Isso é ótimo!

Depois voltou sua atenção para Snape, ainda com um sorriso nos lábios.

— É extraordinário saber que está bem. Me deixa tão aliviada.

Snape apenas acenou afirmativamente com a cabeça.

Blaise ficou na casa por mais alguns minutos, deixou Hermione atualizada sobre o andamento das pesquisas no hospital e sobre o desenvolvimento de um novo soro.

— Está tudo correndo muito bem e Malfoy não tem atrasado com nenhuma entrega, não que ele esteja chegando cedo, — Zabini disse debochado — mas tem trazido todas as poções.

Hermione sorriu.

— Malfoy nunca vai mudar, sabe disso.

Zabini também sorriu, ele sabia que Draco jamais mudaria esse hábito terrível de não acordar cedo.

— Preciso voltar para o hospital agora, vejo vocês em alguns dias. — Blaise falou já colocando-se em pé.

Snape apertou a mão de Zabini ao despedir-se e Hermione o levou até a porta.

— Acredito que em dois dias eu volte para os novos exames, depois você sabe que Alden que vai assumir a tarefa. — Falou Blaise.

— Sei disso, mas não quero me preocupar com essa situação agora. — Disse a castanha.

Zabini abraçou Hermione e disse:

— Até logo, se precisar de qualquer coisa me mande uma coruja, venho o mais rápido que puder.

— Até logo, e pode deixar, se precisar de algo eu irei avisar sim. — Disse a jovem mulher.

Assim que ela retornou a sala de estar Snape perguntou:

— Vamos tomar nosso café da manhã?

— É claro — falou Hermione, já caminhando ao lado de Snape em direção à cozinha.

Naquela tarde, Snape aproveitou seu tempo livre, na biblioteca, para escrever algumas cartas. Precisava certificar-se de alguns assuntos e também de pedir um favor a uma antiga colega de trabalho, Minerva McGonagall.

Hermione, que vagava pela biblioteca à procura de livros, vez ou outra, deixava seu olhar perder-se em Snape. Seus gestos eram tão precisos e contidos, sua caligrafia era deveras perfeita. A jovem mulher, por vezes, acabava esquecendo-se do título que buscava, tamanha era a concentração que dedicava aos gestos do mestre de poções.

Mas ela não era a única naquele aposento a perder sua concentração. Snape, por três vezes, teve que trocar o pergaminho que usava para escrever, pois sua atenção estava voltada para a linda mulher que circulava a sua volta, naquela biblioteca. Snape a admirava tanto, Hermione além de linda era extremamente inteligente, as questões que ela fazia agora já não lhe perturbavam mais, na verdade, adorava respondê-las e ver o brilho que provocava naquelas orbes castanhas.

Ambos ainda amavam-se em silêncio, mas o amor que sentiam um pelo outro só crescia, a cada dia que passavam lado a lado o amor fortalecia-se. E em breve, chegaria o momento de revelá-lo.

Os dois haviam ficado a tarde toda na biblioteca, mal dando-se conta de como o tempo havia passado rápido. Quando Madel os chamou já estava na hora do jantar.

Snape e Hermione jantaram calmamente, conversando trivialidades, como se aquela situação fosse cotidiana. Após o jantar, Hermione ajudou Snape a subir as escadas, apesar de estar movimentando-se muito melhor, as escadas da casa ainda eram um desafio.

Snape abriu a porta de seu quarto, mas antes de entrar decidiu falar algo a Hermione.

— Senhorita Granger, foi uma tarde encantadora, a sua companhia é muito agradável.

Hermione corou, não esperava ouvir aquelas palavras de Snape. Ela mal sabia como responder, mas aparentemente ele estava aguardando uma resposta.

— Sua companhia também foi muito agradável, obrigada por ter me ajudado, por ter respondido tantas de minhas questões sobre poções. — Falou Hermione não conseguindo olhar diretamente nos olhos de seu ex-professor.

— Sempre que precisar de mim estarei disponível, preciso me retratar do tratamento que dei a senhorita quando estava em Hogwarts. — Snape deu um sorriso quase imperceptível ao ver que Hermione havia ficado ainda mais corada. — Boa noite, senhorita, até amanhã.

Hermione respondeu a única frase que conseguiu formular naquele momento.

— Boa noite, Snape.

O homem entrou e fechou a porta de seu quarto.

Hermione virou as costas e entrou em seu quarto também, este ficava em frente ao de Snape. Ao entrar, logo que fechou a porta, escorou-se na mesma e colocou as mãos sobre o peito, seu coração estava saltitante. Não conseguia acreditar nas palavras que ouviu saírem da boca de Snape, foram palavras tão simples, mas a tocaram de uma forma intensa.

Hermione, depois de alguns minutos tentando normalizar seus batimentos cardíacos, chegou à conclusão de que seria impossível conseguir dormir aquela noite.

~ x ~

Na manhã do dia seguinte, após o café da manhã, Snape pegou sua correspondência para ler. Buscou se havia alguma resposta de McGonagall ao seu pedido. Ele logo a encontrou.

Abriu a carta e iniciou a leitura.

"Caro Severus Snape,

Certamente podemos e vamos receber Madel com prazer em Hogwarts, os demais elfos ficarão felizes em ter uma costureira, que se dedicará a fazer somente vestes para eles.

Madel receberá um salário justo pelo seu trabalho, assim como os demais elfos que trabalham no castelo, ela também receberá um bom alojamento para residir aqui. Tenho certeza que ela gostará de sua função no castelo.

Tomei a liberdade de mandar uma carta para Madel, fazendo eu mesma o pedido para ela vir residir em Hogwarts e criar roupas para os demais elfos.

Permaneço a disposição se necessitar de algo mais.

Cordialmente,

Minerva McGonagall

Diretora da Escola De Magia E Bruxaria de Hogwarts."

Snape havia escrito para Minerva no dia anterior, pedindo que ela encontrasse uma vaga para a elfa em Hogwarts. Ele havia descrito as habilidades de Madel e seu apreço por tricotar roupas.

Snape queria que Madel fosse o mais feliz possível, talvez em Hogwarts ela pudesse recuperar o tempo que perdeu aguardando pelo retorno de seu mestre. Certamente a elfa seria muito mais feliz criando roupas do que ficando presa a uma casa e a serviços domésticos.

Severus aproveitou aquele momento para contar suas intenções para Hermione, contou detalhadamente para ela o que havia planejado, então perguntou a opinião dela sobre sua atitude.

— O que a senhorita acha disso tudo?

— Eu achei a ideia fantástica, com certeza Madel será feliz tricotando roupas para outros elfos. É uma atitude muito bela de sua parte, Snape, pensar no bem estar de Madel. Agora, Madel só precisa aceitar.

Snape suspirou, essa era a parte mais complexa, será que a pequena criatura aceitaria?

~ x ~

Após o jantar, Snape e Hermione sentaram-se na sala de estar para tomar uma xícara de chá que Madel havia preparado. A pequena elfa serviu o chá e então com os olhos marejados, entregou um pergaminho a Snape.

— Mestre, a diretora de Hogwarts quer que Madel vá trabalhar com os elfos de lá. Madel quer ir, mas Madel também não quer deixar o mestre sozinho. Madel não sabe o que fazer, mestre. — Falou a elfa.

Snape deu uma olhada no pergaminho, era a carta que Minerva havia dito que escreveu para a elfa.

— Madel, vá para Hogwarts. Eles precisam de você mais do que eu. Não se preocupe comigo. Eu vou ficar bem. — Falou Snape.

— E ele não vai ficar sozinho, Madel. Eu cuidarei dele, não se preocupe. Seu mestre vai ficar bem. — Disse Hermione.

Grossas lágrimas escorreram dos olhos de Madel.

— O mestre então permite que eu vá? — A elfa quis confirmar.

— Madel você é livre, sabe disso. Mas se o que necessita é minha permissão, eu lhe dou. Eu permito que você vá viver em Hogwarts. — Disse Snape.

— Obrigada, mestre. Madel está muito feliz. — A elfa agradecia enquanto fazia reverências e retirava-se da sala de estar.

Snape apenas deu um sorriso mínimo, Madel agora poderia ter uma vida feliz em Hogwarts.

~ x ~

Na manhã seguinte, Madel ainda preparou o café da manhã antes de partir. Aguardou Snape e Hermione na cozinha, seus olhos já estavam cheios de lágrimas antes mesmo de começar a despedir-se.

Quando os dois entraram na cozinha, Madel não se conteve, deixou as lágrimas caírem. Hermione, vendo a situação da elfa, aproximou-se e segurou delicadamente suas mãos.

— Madel, por que chora? — Perguntou a jovem mulher.

— Madel está feliz por ter um mestre tão bom. E Madel também está feliz que vai morar com outros elfos livres. — Falou a elfa.

A pequena criatura demorou alguns minutos, mas conseguiu acalmar-se. Despediu-se então de Snape e Hermione, com a promessa de que viria visitá-los em breve.

Madel, então, aparatou para uma nova vida.

Hermione e Snape agora encontravam-se completamente sozinhos na casa, ambos deram-se conta disso rapidamente e ambos acabaram ruborizando-se, Hermione bem mais do que Snape.

Severus pigarreou.

— Acho que devemos tomar nosso café da manhã antes que esfrie. — Disse o homem aparentando estar um pouco constrangido.

— É claro, tem razão. — Respondeu Hermione, aparentando o mesmo constrangimento que havia atingido Snape. — Logo Zabini também estará aqui para realizar seus exames.

Ambos entraram na casa em silêncio e tomaram seu café da manhã, trocaram poucas palavras entre si durante a refeição. Assim que terminaram a refeição organizaram a cozinha e foram sentar-se na sala de estar.

Pelas nove horas da manhã, Zabini tocou a campainha. Snape atendeu. Os dois homens então foram até o quarto de Snape para realizar os exames.

Hermione ficou aguardando-os na sala de estar, como havia feito anteriormente.

Dessa vez os exames aparentemente haviam sido mais rápidos, cerca de trinta minutos depois os dois homens já estavam de volta a sala de estar.

Zabini foi até Hermione e mostrou-lhe suas anotações.

— A única irregularidade que percebi foi um aumento na frequência cardíaca. Mas, como sabe, isso não indica nada grave. Apenas deixei claro a Snape que não pode exaltar-se, isso vale também para situações que envolvam fortes emoções.

Hermione examinou atentamente aquele pedaço de pergaminho, realmente estava tudo bem com Snape.

— Certo. — Falou a jovem. — Observarei estas situações. Talvez o aumento da frequência cardíaca seja devido a despedida de Madel, a elfa doméstica, ela mudou-se para Hogwarts. Foi alguém que acompanhou Snape por muitos anos, pode ser que a despedida dela tenha causado a aceleração dos batimentos. O que acha Snape, pode ter sido esse o motivo? — Hermione olhava para o homem aguardando uma resposta.

— Certamente. Acredito que a senhorita tenha razão — respondeu o homem ocultando a verdade.

O que Hermione não sabia era que sua presença que havia acelerado os batimentos cardíacos de Snape, não exatamente a presença, mas a consciência de que eles estavam sozinhos na casa, apenas os dois. Snape não conseguiu evitar de pensar na situação, era algo quase surreal. Seu coração acabou acelerando ao imaginar-se nas mais diversas situações com a senhorita Granger, algumas dessas situações não eram nenhum pouco pudicas.

— Então descobrimos a origem da irregularidade na frequência cardíaca. —Falou Zabini, sem sequer desconfiar do real motivo. — Não é necessário nenhum tipo de preocupação em relação a isso então, apenas reitero que você, Snape, não pode passar por picos emocionais. Precisa descansar.

Snape apenas assentiu, confirmando que havia entendido as instruções médicas, mas não saberia se conseguiria cumpri-las à risca.

— Agora, eu preciso retornar ao hospital. Se necessitarem de algo, não hesitem em chamar-me. — Disse Blaise já pronto para ir.

— Certo, pode deixar. Eu o levo até a porta — disse Hermione.

Zabini despediu-se de Snape e acompanhou Hermione. Ao chegarem na porta o rapaz falou:

— Hermione, a próxima visita será feita por Alden, lembra-se disso, não é?

— Lembro sim. Vou fazer o máximo para que Snape não precise passar por nenhum situação desgastante ou constrangedora por minha causa. — Falou a castanha.

— Hermione, nada que venha das atitudes infantis do Alden é culpa sua, a culpa é inteiramente dele, que não soube aceitar sua rejeição. Não se esqueça disso, tudo bem? — Blaise falou seriamente para a amiga.

Hermione suspirou e respondeu:

— Tudo bem, não vou esquecer disso.

Os dois despediram-se com a promessa de que iriam ver-se em breve.

Mas as palavras de Zabini ainda ficavam ecoando na mente de Hermione "Snape não pode exaltar-se". Certamente assim que Alden descobrisse que era ela quem estava a cargo dos cuidados de Snape, haveria uma grande discussão. Hermione queria evitar que isso acontecesse, mas ainda não havia conseguido pensar em nada. Talvez devesse contar a Snape toda a verdade sobre Alden, certamente era sua melhor opção até o momento.