Capítulo 23: A Manchete do Profeta Diário
Na manhã seguinte, Draco Malfoy foi até a casa de Snape, ele precisava entregar as poções que havia prometido.
Mas, também, queria mostrar ao seu padrinho a manchete que estampava a capa do Profeta Diário, se é que ele ainda não havia visto.
Draco bateu na porta da casa, quem a abriu foi uma sorridente Hermione.
— Draco, — disse uma espantada Hermione — o que faz aqui tão cedo? Aconteceu alguma coisa?
— Que péssima mania vocês tem de achar que, só por que eu chego cedo em algum lugar, aconteceu alguma coisa. — Respondeu o Malfoy fazendo uma careta de desgosto, mas a afirmação de Hermione não era de todo mentira.
— Seus hábitos me fazem acreditar nisso. — Respondeu Hermione rindo.
Draco notou que ela parecia tão feliz, então não quis estragar a felicidade dela logo na chegada, achou melhor deixar o assunto do Profeta Diário para mais tarde.
— Eu estou aqui para entregar as poções que prometi para Snape. Ele precisa tomar pela manhã, não? — Disse Draco de modo presunçoso, fez seu melhor para ocultar sua inquietação.
— Sim, Draco, você tem razão. Snape precisa tomar a poção pela manhã. Fico feliz que você tenha se esforçado para acordar cedo e vir aqui entregar. — Disse Hermione de modo sincero.
Hermione convidou Draco para entrar, assim que ele entrou, alcançou um embrulho para a jovem mulher.
— Tem quinze frascos da poção no embrulho, eu acredito que Snape não precisará de mais do que isso. — Disse o loiro.
Hermione retirou um dos frascos do embrulho e o alcançou a Draco.
— Pode levar até Snape? Ele está sentado no jardim. Eu vou guardar as poções restantes e já encontro vocês. — Falou Hermione.
Draco prontamente acatou o pedido de Hermione e seguiu até o jardim, à procura de Snape. Ele encontrou o padrinho sentado em um dos bancos que ficavam à sombra, Snape tinha um livro em mãos.
— Bom dia, padrinho. — Disse Draco ao aproximar-se. — Como o senhor tem estado esses dias após a alta?
— Bom dia, Draco. — Respondeu Snape. — Estou me sentindo perfeitamente bem.
— É bom saber que está melhor. — Disse Draco.
O jovem Malfoy entregou um pequeno frasco a seu padrinho e disse:
— Eu trouxe as poções que havia prometido ao senhor. As outras doses eu entreguei à Hermione, ela pediu que eu viesse lhe entregar esse frasco enquanto ela guarda os demais.
Snape agradeceu a seu afilhado e logo depois bebeu todo o conteúdo do pequeno frasco que ele havia lhe alcançado.
Draco observou seu padrinho por alguns momentos, ele parecia tão sereno, provavelmente não havia visto o jornal ainda. Ele sentiu-se péssimo por ser o portador de notícias ruins, mas Snape precisava ver o que aquele jornal trazia como manchete de capa.
Severus notou que Draco estava observando-o.
— Diga logo o que quer, Draco. Sei que está tentando contar-me algo.
O loiro sorriu internamente, seu padrinho o conhecia bem o suficiente para saber quando ele tentava esconder algo. Draco então respirou fundo e iniciou a conversa:
— Padrinho, o senhor viu o Profeta Diário de hoje?
Snape estranhou a pergunta de Draco.
— Não, eu não recebi meu exemplar essa manhã. Mas, por que a pergunta?
Draco realmente era o portador das notícias ruins. Ele suspirou pesadamente, retirou do bolso de seu casaco um amassado exemplar do jornal bruxo e o passou para as mãos de Snape.
Snape ainda um pouco desconfiado pegou o jornal e o abriu.
O que encontrou ali, naquele pedaço de papel, mexeu com ele de uma forma indescritível.
O jornal trazia, na capa, uma grande foto sua e a seguinte manchete:
"De Comensal a Herói: Severus Snape receberá o prêmio 'Ordem de Merlim – Primeira Classe'. Será ele merecedor?"
Abaixo do título tendencioso, havia um enorme texto, que ocupava toda a primeira página, relatando o passado dele como Comensal da Morte. Havia muitos fatos listados, mas foi dado grande destaque para o assassinato de Dumbledore.
Snape, ao ler a seguinte frase, sentiu um aperto enorme no peito: "O ex-Comensal da Morte, Severus Snape, receberá o mesmo prêmio que Alvo Dumbledore, uma das vítimas que definharam em suas mãos.".
Em seguida estava escrito "Será que o Ministro Shacklebolt está em seu juízo perfeito? Oferecer esse prêmio a um ex-Comensal da Morte é uma afronta a todos que sofreram em suas mãos e também à memória de Dumbledore."
O jornal também deixava claro seu posicionamento de que não acreditavam na inocência do ex-Comensal e advertiam a comunidade bruxa: "É deplorável que alguém com a Marca Negra ganhe o prêmio da Ordem de Merlim, é um desrespeito com todos que já recebem essa honra."
A reportagem também questionava a integridade de Snape, afirmando que todo o auxílio prestado à Ordem da Fênix, foi espionagem, feita a pedido de Voldemort, "Segundo testemunhas confiáveis, Severus Snape enganou aos membros da Ordem da Fênix e fingiu ajudá-los somente para obter informações sobre seus planos.".
O jornal ainda dizia que Snape era um homem de origem e índole duvidosas, "um bruxo de origem mestiça, mas que esconde suas raízes não deve ser um homem confiável, de acordo com nossas fontes de dentro Ministério da Magia, Severus Snape não tem praticamente nenhuma informação disponível, o que é muito suspeito para um homem considerado 'herói'."
O jornal afirmava ainda que Snape "deveria estar em Azkaban, não circulando em meio a sociedade e sendo visto como um herói de guerra". E que o ex-Comensal só havia se safado da prisão pois "caiu nas graças de Ronald Weasley, Harry Potter e Hermione Granger, o famoso Trio de Ouro".
A conclusão final, a que chegou o jornalista que escreveu a matéria, era que Snape "não era merecedor da Ordem de Merlim, pois um homem não muda seus princípios e certamente ele ainda era fiel às Trevas."
Assim que terminou a leitura Snape mal podia acreditar em tudo que estava escrito naquele pedaço de papel. Severus não conseguia crer que aquele maldito jornal estava revirando seu passado para novamente culpá-lo pela morte de Dumbledore e tantas outras coisas.
Snape precisou matar o único homem que já havia considerado um amigo, aquilo ainda o torturava diariamente, mesmo sabendo que Alvo morreria de qualquer forma, a morte dele ainda o assombrava. Não era preciso que o lembrassem disso, ainda mais publicamente, como o Profeta Diário havia feito. E ainda haviam envolvido Weasley, Potter e Hermione naquela situação.
Depois de tudo que ele havia feito pelo fim de Voldemort, depois de tudo que ele passou, das dores que carregou em silêncio, das torturas as quais foi submetido, as ações as quais foi obrigado a fazer, alguns ainda o viam como um monstro.
Até para Severus, esse era um fardo demasiado pesado para carregar nesse momento de sua vida, ser visto novamente como um monstro era algo muito doloroso de se aceitar.
— Padrinho, o senhor está bem? — Perguntou Draco preocupado.
Snape levantou seu rosto para o afilhado, enquanto segurava firmemente o jornal em suas mãos.
— Estou. — Disse Snape enquanto se levantava.
Severus suspirou, então completou:
— Eu só preciso de um tempo sozinho, Draco. — Snape andava em direção a casa enquanto falava com seu afilhado.
Assim que chegou a porta, seu olhar cruzou com o de Hermione, que estava indo até o jardim encontrar os dois homens.
Quando Hermione levantou seu rosto e mirou o rosto de Snape, logo percebeu que seu olhar carregava uma melancolia que não via nele há muito tempo.
— O que aconteceu, Severus? — Perguntou a jovem.
O homem alcançou o jornal para Hermione. Ela olhou a manchete de capa e rapidamente entendeu o que estava acontecendo com Severus.
— Eu vou até meu quarto, quero passar um tempo sozinho. — Disse ele à Hermione.
A jovem mulher apenas assentiu e deu passagem para Snape. Hermione voltou para o interior da casa e acompanhou, com o olhar, os passos de Snape escada acima.
Assim que escutou o barulho da porta do quarto fechando, no andar de cima, perguntou a Draco:
— Que absurdo é esse? — Hermione apontava para a manchete do Profeta Diário.
— Eu não faço ideia, Hermione. — Respondeu Malfoy. — Eu nem sabia se o que está escrito na manchete é real.
— Bem, Severus realmente recebeu uma carta do Ministro dizendo que ele havia recebido a "Ordem de Merlim". — Falou Hermione. — Mas ele se recusou a receber o prêmio, então ignorou a nomeação.
— Então é real, — disse Draco — mas de que maneira isso chegou até o Profeta Diário?
Hermione, que só havia dado uma olhada no jornal, dedicou alguns minutos para realmente ler o que estava naquela matéria. Assim que terminou, ela disse a Draco:
— Eu não sei como essa informação chegou até o jornal, alguém do Ministério pode ter vazado a informação, mas não posso afirmar isso. — E depois completou: — Eu só não entendo por que alguém espalharia a notícia de que Snape foi indicado a Ordem de Merlim, qual o interesse nisso? E por que as pessoas insistem em relembrar o passado Snape e ainda não acreditam na inocência dele, já foi provado que ele ajudou a Ordem e que a morte de Dumbledore foi planejada pelo próprio.
Draco suspirou antes de responder.
— Nunca deixamos a Marca Negra para trás, Hermione. Ela vai estar conosco pelo resto de nossas vidas, mesmo que ela pareça desgastada, ela ainda vai estar ali e nos lembrar nosso passado. Eu sei muito bem disso. Não importa o quão bem eu faça meu trabalho ou quão talentoso eu seja em minhas poções, eu ainda sou um ex-Comensal, ainda irão me julgar pelo meu passado. Tenho certeza que a mesma coisa aconteceu a Snape, assim que descobriram que ele receberia um prêmio por sua coragem, reviveram seu passado e agora enxergam apenas o ex-Comensal, não o homem que ajudou a derrotar Voldemort.
Hermione compreendeu as palavras de Draco em relação a Snape.
Mas, o que ela não imaginava, era que o amigo também era julgado por ter sido um Comensal da Morte. Parece que não foi suficiente ter provado sua inocência na frente de um grande júri, que queria condená-lo com todas as suas forças.
Hermione sentiu muito por Draco, ele também carregava uma dor que escondia de todos os demais, assim como Snape.
— Por que nunca falou nada disso? Não precisava ter carregado esse fardo sozinho. Os amigos também servem para nos ajudar a carregar nossos fardos. — Disse a castanha colocando a mão sobre o ombro de Draco em sinal de conforto.
— Esse fardo eu tenho que carregar sozinho, Hermione. Mas, obrigado por estar sempre do meu lado. — Draco deu um sorrisse triste.
Hermione sabia muito do passado de Draco e como ele foi "o menino que não teve escolha" enquanto Harry era "o menino que sobreviveu". Draco foi obrigado a fazer muitas coisas das quais se arrependeu, mas não poderia negar-se, pois sua vida e a vida daqueles que ele amava estavam em jogo. Sabia que a mudança dele foi muito difícil e complexa, não era nada fácil abandonar todas as suas convicções repentinamente. Mas, ao final, Draco acabou ajudando na derrota de Voldemort e ficando do lado da luz.
Draco parecia pensativo, então Hermione perguntou:
— Você está bem?
— Estou. Não se preocupe. — Respondeu Draco. — Mas, mudando de assunto, o que podemos fazer agora?
Hermione olhou para o jornal outra vez e identificou um conhecido nome "Rita Skeeter".
— Eu imaginava! Só uma pessoa poderia escrever algo tão baixo e sensacionalista! Foi Rita Skeeter quem escreveu isso! — Disse Hermione ao dar-se conta do nome da pessoa que havia escrito aquela matéria sobre Snape.
— Foi a Skeeter quem escreveu isso? — Perguntou Draco. — Não posso acreditar. Como essa mulher ainda está trabalhando no Profeta Diário?
— Eu não sei, — disse Hermione — mas agora a situação se complica um pouco. Se formos até o Profeta Diário e pedirmos para retirarem essa matéria ridícula de circulação, provavelmente Skeeter fará mais uma matéria sensacionalista e dessa vez incluirá eu e você como defensores de Snape. Isso só irá piorar as coisas.
— Snape provavelmente será prejudicado pelas mentiras que estão nesse jornal, existe algo que possamos fazer? — Perguntou Draco.
— Acredito que não. Você sabe do que Skeeter é capaz, ela já prejudicou a mim, Harry, Ron, você e outras tantas pessoas. É melhor não fazermos nada nesse momento, pois Snape ainda não está completamente bem e o surgimento de uma nova manchete sobre ele pode piorar sua situação. Sabemos como Skeeter é vingativa. — Hermione suspirou pesadamente ao terminar de falar.
Draco entendia a perspectiva de Hermione, ela só estava preocupada com a saúde de Snape, não podia culpá-la por querer protegê-lo naquele momento. A única coisa que Draco poderia oferecer naquele momento era sua companhia.
— Hermione, você quer que eu fique aqui? Posso adiar algumas entregas, não há problema. — Falou Draco.
— Não é preciso, Draco. — Respondeu a castanha. — Sei que está preocupado com a situação de Snape, mas se ocorrer algo eu lhe aviso. Pode ir trabalhar tranquilamente.
Draco sabia que não adiantava insistir.
— Tudo bem então. Me prometa que vai me avisar se precisar de ajuda.
— Eu prometo, — disse Hermione.
Draco despediu-se da amiga e partiu até a zona de aparatação, mas antes de partir ele disse:
— Vou pedir a Zabini que passe aqui mais tarde, para ver Snape.
O Malfoy partiu sem esperar uma resposta de Hermione.
A jovem mulher apenas sorriu e disse em um sussurro:
— Obrigada por se preocupar.
Hermione fechou a porta e foi até a sala de estar, sentou na poltrona que Snape costumava ocupar, o cheiro do perfume dele estava impregnado no tecido, era tão bom senti-lo, era tão bom poder ficar perto de Snape, mas naquele momento ela imagina que ele desejava ficar sozinho. Hermione inspirou o perfume dele outra vez, já havia passado tantas coisas ao lado de Severus, ela só desejava alguns dias tranquilos para que pudesse aproveitar o tempo ao lado de Snape, mas aparentemente os dias tranquilos não pareciam tão próximos.
