Capítulo 24: Um tempo sozinho
Hermione ficou aguardando Snape sair do quarto durante toda a manhã, mas ele não o fez. Já estava na hora do almoço e ele ainda não havia descido. Então a jovem arrumou uma bandeja com comida e rumou para o quarto de Severus, não importava-se que ele fosse grosseiro com ela, ele precisava alimentar-se, havia saído do hospital há apenas quatro dias.
Hermione respirou fundo e bateu na porta, mas não aguardou permissão para entrar, só bateu como um aviso de que estava entrando.
Hermione percorreu os olhos pelo aposento, encontrou Snape sentado em uma poltrona que ficava próximo à janela. Seu olhar parecia melancólico e perdido. A jovem percebeu que Snape parecia, novamente, o homem taciturno de alguns anos atrás. Ela suspirou, foi difícil criar um laço com Snape, esperava que esse laço se mantivesse firme, mesmo depois de Snape voltar a mergulhar nas profundezas de si mesmo.
— Severus, — chamou Hermione — eu trouxe seu almoço
Ele apenas virou seu rosto na direção de Hermione por alguns segundos, mas não disse uma palavra. Retornou seu olhar para a janela.
Hermione entendeu que ele ainda desejava ficar sozinho, então saiu do quarto e fechou a porta novamente, não iria forçar uma conversação, não naquele momento.
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No início da tarde, Rony e Harry foram até a casa de Snape.
— Vimos, hoje pela manhã, a reportagem absurda que Rita Skeeter fez sobre Snape, mal pude acreditar que ela foi capaz de escrever aquelas coisas sobre ele. — Disse Harry.
— Sabemos como a Skeeter pode ser cruel, Harry. Ela já fez isso conosco também, mas não com a mesma malícia que usou ao escrever sobre Severus. — Disse Hermione.
— Como Snape ficou depois de ler a matéria do Profeta Diário? E como ele está agora? — Perguntou Rony.
— Ele está calado desde que subiu para o quarto, após ler a matéria. Passou a manhã inteira sozinho. Quando subi para levar o almoço, ele aparentemente estava bem, mas não trocou nenhuma palavra comigo. — Respondeu Hermione tristemente.
Rony aproximou-se e abraçou-a.
— Vai ficar tudo bem, Mione. Tudo vai voltar ao normal, só dê um tempo para Snape.
— Farei isso, — disse Hermione — já esperei por sete anos, mais alguns dias não serão um problema. — A jovem estava com os olhos marejados.
Assim que Rony soltou Hermione, Harry abraçou-a e falou:
— Acredito que entendo, em parte, como Snape se sente. Skeeter já fez tantas matérias cruéis sobre mim que sei como as palavras dela são ferinas e tocam em nosso ponto mais sensível. — Falou Harry. — Mas as palavras dela já foram esquecidas por mim e não me entristecem mais. Ao final, tudo acabou bem. Acredito que com Snape também será assim. Fique tranquila. E como disse Rony, só dê um tempo a Snape, ele deve estar organizando seus pensamentos nesse momento.
Harry soltou Hermione de seu abraço.
— Certo. — Respondeu Hermione e depois dirigiu-se aos dois rapazes. — Obrigada por virem aqui, vocês sempre estão comigo quando preciso.
— É para isso que servem os amigos, — falou Rony.
Hermione deu um sorriso, era muito bom ter os dois ali com ela naquele momento, pois não era fácil administrar toda aquela situação sozinha, às vezes ela também desejava apoio.
Os trio conversou por mais alguns minutos antes de Harry e Rony avisarem que tinham que retornar ao trabalho. Hermione acompanhou os rapazes até a porta, despediu-se dos dois e depois agradeceu por eles terem passado ali.
— Até breve Hermione, — disseram os rapazes em coro enquanto caminhavam até um local onde já fosse possível aparatar.
— Até breve, — respondeu Hermione enquanto via os dois desaparecerem.
Depois da visita dos rapazes, Hermione foi novamente até o quarto de Snape para ver como ele estava. Ele a viu entrar, mas novamente não esboçou reação alguma, continuou com seu olhar perdido, em direção à janela.
Hermione percebeu que ele sequer havia tocado no almoço, ele não deveria ficar sem comer, precisava alimentar-se bem, mas aquele não era o melhor momento para repreendê-lo. Ela ouviria os conselhos dos rapazes e daria um tempo a Snape, então apenas pegou a bandeja e retirou do quarto.
Assim que saiu do aposento deu um grande suspiro, ela só não queria que depois dessa situação Snape se afastasse dela, ela só desejava poder permanecer ao lado dele.
~ x ~
Já estava na metade da tarde quando Zabini chegou à residência de Snape, Hermione o recebeu prontamente.
— Draco me avisou sobre a matéria no Profeta Diário, disse que havia ficado preocupado com Snape e pediu que eu viesse dar uma olhada no estado de saúde dele. — Explicou Blaise. — Como ele está?
— Ele aparentemente está bem, — respondeu Hermione — mas desde que subiu para o quarto não trocou nenhuma palavra comigo, também não comeu nada.
Zabini percebeu que Hermione também estava abalada com a situação, a conhecia bem o suficiente para perceber a mudança em seu semblante.
— E como você está, Hermione?
Ela deu um meio sorriso e respondeu:
— Eu estou bem. Não se preocupe.
— Claro que me preocupo, você é alguém importante para mim. — Disse Zabini. — Você me disse que está bem, mas tem alguma coisa te perturbando. Me diga o que é, talvez eu possa ajudá-la.
Hermione suspirou e disse:
— Meu único receio é que depois dessa situação Snape se feche em si mesmo outra vez e eu não consiga mais alcançá-lo.
Zabini foi até a amiga e abraçou-a.
— Hermione, se Snape realmente corresponde seus sentimentos, ele não fará isso, ele não irá te abandonar dessa forma. Mas você também precisa ser mais confiante, você o ama? Não? — Perguntou Zabini.
— Sim, é claro. — Respondeu Hermione.
— Então não deixe de lutar por ele, Granger! — Blaise foi enfático em suas palavras.
Hermione deu um pequeno sorriso enquanto Zabini a libertava de seu abraço.
— Farei isso, sim. Não vou desistir.
— É bom ouvir isso. — Falou Blaise. — Bom, agora eu acho melhor dar uma olhada em meu paciente, me leva até ele?
— É claro. — Falou Hermione já indo em direção às escadas, com Zabini em seu encalço.
Ao chegar em frente à porta do quarto, a jovem disse ao amigo:
— Acho melhor você entrar sozinho, Blaise. Se precisar de mim, pode me chamar, eu vou esperar aqui fora.
— Tudo bem, Hermione. — Concordou Zabini.
O jovem medibruxo deu algumas batidas na porta, mas não esperou uma resposta de Snape. Entrou em seguida.
— Snape, sou eu, Zabini. Draco pediu para que eu passasse que para ver seu estado de saúde. Como está sentindo-se? — Disse o medibruxo assim que entrou no aposento.
Severus não esboçou uma reação sequer, também não respondeu à pergunta de Zabini.
Blaise aguardou alguns minutos pela resposta mas, como percebeu que não obteria uma, resolveu insistir.
— Snape, sou seu médico, preciso saber como está se sentindo. Além disso, Hermione também está muito preocupada com você. Pelo menos responda-me como se sente, para que eu possa dizer à ela. — Disse Zabini seriamente.
A última coisa que Severus queria naquele momento era preocupar Hermione. Ela já tinha feito tanto por ele e ele estava sendo egoísta e causando problemas a ela outra vez. Snape não estava com vontade alguma de responder Zabini, mas achou que, pelo menos, Hermione merecia uma resposta.
Severus então respondeu à pergunta de Zabini:
— Diga à senhorita Granger que estou bem.
Zabini suspirou, tinha certeza de que as palavras de Snape não eram verdadeiras.
— Snape, realmente se sente bem? É importante que me fale a verdade.
A verdade? A verdade era que Severus estava sentindo-se como há alguns anos atrás, quando a sociedade ainda lhe mirava torto, ainda lhe julgava com os olhos, ainda desconfiava de seus atos e lhe tachava de monstro. Mas isso não dizia respeito a Zabini, seu médico não precisava saber das dores que carregava. Então ele, sem tirar seus olhos da janela, respondeu friamente:
— A verdade? Fisicamente eu estou bem. Não sinto nada estranho ou diferente.
Severus acreditou que essa resposta seria suficiente para Zabini, pois realmente estava falando a verdade. Mas seu médico ainda não pareceu satisfeito.
— E emocionalmente, como se sente? — Quis saber Zabini.
Como Severus se sentia? Não sabia ao certo, pois havia uma gama de sentimentos em sua mente. Então ele disse a primeira coisa que lhe veio à mente e que poderia ser considerado um resumo de como se encontrava naquele momento.
— Destruído. — Snape respondeu sem deixar transparecer nenhum tipo de sentimento em sua voz.
Zabini acabou admirando-se, não imaginava que Snape realmente iria responder sua pergunta.
— Quer falar sobre isso, Snape? — Perguntou o medibruxo.
Afinal, o bem estar emocional de seus pacientes também era parte de seu trabalho.
Snape não queria falar, não queria trocar mais nenhuma palavra com Zabini e nem com qualquer outra pessoa.
— Só quero ficar sozinho. — Respondeu o homem seriamente.
— Entendo. — Disse Zabini. — Se precisar de algo, não hesite em me chamar.
Zabini não obteve resposta, entendeu que Snape não falaria mais nada. Apenas despediu-se e deixou o quarto.
Assim que saiu, encontrou uma preocupada Hermione o aguardando.
— Está tudo bem com ele?
— De acordo com as palavras dele, fisicamente ele está bem. Então não há motivos para preocupar-se, Hermione. — Zabini não revelou tudo que Snape lhe disse, achou melhor poupar sua amiga, ela já aparentava estar sobrecarregada.
A jovem suspirou um pouco mais aliviada e deu um pequenino sorriso ao responder.
— Fico mais tranquila em saber que ele se encontra bem, pelo menos fisicamente.
Os dois conversaram por mais algum tempo na sala de estar, estavam aproveitando a visita de Zabini para debaterem sobre a poção que iriam usar no caso dos Longbottom.
Depois de cerca de uma hora de conversa, Zabini anunciou:
— Vou voltar para o hospital, depois dessa nossa conversa, acredito que preciso adicionar algumas anotações à nossa pesquisa.
Hermione levou seu amigo até a porta.
— Tente se distrair com alguma coisa, não fique remoendo suas preocupações. — Falou Blaise após se despedir da amiga.
— Farei algo produtivo com meu tempo, não se preocupe. — Disse ela.
Assim que Hermione viu o amigo aparatar fechou a porta e pensou em uma forma de distrair sua mente.
Ela realmente não queria ficar remoendo pensamentos negativos em sua mente. Então ela foi até a biblioteca, para ler mais alguns livros sobre usos de poções, afinal, isso ajudaria muito no processo de preparação da nova poção que seria administrada nos Longbottom.
~ x ~
Hermione ficou bastante tempo na biblioteca, realmente distraiu-se com a pesquisa, quando deu-se conta, o sol já começava a ser pôr no horizonte. Ela então recolheu os livros que havia usado, guardou-os em seus devidos lugares e deixou o aposento.
Foi até a cozinha preparou um lanche para si, comeu calmamente. Preparou o mesmo lanche para Snape, colocou em uma bandeja e novamente dirigiu-se ao quarto dele. Era a terceira vez que fazia isso naquele dia.
Entrou no aposento sem bater, encontrou Severus ainda na mesma posição, sentado na poltrona próximo a janela, seu olhar mirava perdido as nuvens, que cobriam o céu, naquele dia nublado. Partia o coração de Hermione ver Snape daquela forma, ele parecia perdido em si mesmo.
Mas, dessa vez, Hermione não se afastaria, ela adentrou o quarto, largou a bandeja com o lanche em cima de uma cômoda e foi até Snape. Aproximou-se da poltrona, por trás, e então passou os braços sobre os ombros de Snape.
Snape sentiu o toque delicado de Hermione, era bom saber que ela continuava ali, ao seu lado. Deixou um pouco de lado suas lamentações e passou a dedicar seus pensamentos a ela, a linda mulher que havia dito amá-lo.
Severus, naquele momento, lembrou-se do dia em que Alden foi até a residência e ameaçou Hermione. Lembrou-se da sensação que havia em seu peito: "medo". Ele estava com um medo imenso de perder Hermione, sua Hermione. Ele teve tanto medo que reagiu e ameaçou aquele moleque abusado. Ele não podia perder Hermione.
A mesma sensação o havia invadido hoje pela manhã, teve medo outra vez, teve medo de que Hermione o deixasse, o abandonasse, quando ela se desse conta de quem ele realmente era, em Ex-Comensal da Morte.
Após esses pensamentos, Snape esboçou sua primeira reação a presença de Hermione, naquele dia. Afinal, se não queria perdê-la precisava fazer algo, mas precisava deixar claro quem ele era, ou foi.
Severus tocou a mão esquerda de Hermione com os lábios. A jovem entendeu isso como um aval para iniciar uma conversa.
— Como está se sentindo? — Perguntou ela.
— Eu ainda não tenho certeza. — Respondeu ele sinceramente.
— Ainda quer ficar sozinho? — Perguntou Hermione.
— Não, fique aqui comigo. — Disse Severus.
— Eu ficarei até que me peça para ir embora. — Falou Hermione.
Snape beijou a outra mão de Hermione. Então verbalizou parte daquilo que estava em seus pensamentos:
— Eu sou um homem com um passado terrível, Hermione. Eu carrego comigo muitos erros e culpas, atos egoístas e até cruéis. Sou um Ex-Comensal da Morte, eu sou uma péssima pessoa. Eu não quero magoar você e nem feri-la. Enfim, eu não sou capaz de fazer você feliz. Você deveria me deixar, ir embora, buscar sua felicidade.
Snape não queria que ela fosse, isso era óbvio. Mas ele precisava dar essa chance a ela, a chance de deixá-lo.
— Eu lutei muito por você. Mesmo quando estava desacordado no Saint Mungus, eu lutei. Eu conheço parte de seu passado e sei que não é um homem perfeito. — Falou Hermione seriamente. — Mas você é o homem que eu amo, você pode me fazer feliz, sim! Você é o único homem que pode me fazer feliz. Eu não vou embora, eu estive ao seu lado por sete anos e vou continuar.
Snape segura as duas mãos de Hermione entre as suas e diz:
— Eu não a mereço, você é boa demais para estar ao meu lado.
Hermione abaixa seu rosto e beija levemente o rosto de Snape.
— Eu não sairei do seu lado, não importa o que aconteça, eu continuarei aqui, com você.
Snape vira seu rosto e encara os olhos de Hermione, ele só consegue ver sinceridade naqueles brilhantes olhos castanhos.
— Sei que não a mereço, mas ainda assim, não sou capaz de deixar você ir. Mas você precisa estar ciente de que ataques, como esse do Profeta Diário, podem ser comuns. Viver ao meu lado não será simples e nem fácil. Tem certeza de que é isso que quer, Hermione?
— Sim, é isso que quero. Estar ao seu lado é meu único desejo, Severus.
Severus percebe que Hermione é firme em suas palavras, ela não sairá de seu lado e isso o conforma imensamente.
Agora ele tem a completa certeza de que Hermione não irá abandoná-lo. E, certamente, esse é o melhor momento de revelar o que sente por ela.
— Eu te amo, Hermione. Te amo muito. Obrigado por permanecer do lado por todo esse tempo.
