HERMIONE
Depois que senti a coberta sendo estendida por ele tive a certeza que Snape era uma pessoa especial. Do contrário, ele jamais demonstraria esse zelo. De maneira alguma era superficial, e até os seus defeitos contribuíam para que minha admiração por ele aumentasse. Tudo nele era instigante, desafiador, complexo, misterioso... E eu adorava o resultado de toda essa mistura, de toda a contradição, que era Severo Snape.
Ele era a personificação de uma poção, do modo como elas são preparadas: tudo deve ser certeiro e comedido, pensado; as misturas são exóticas, e o resultado é sempre imprevisível... Não dá para saber se dará certo ou se tudo irá explodir. Assim como não dava para saber quando ele seria um idiota ou quando ele pegaria um cobertor para me aquecer. Fiquei sem reação, é claro, e fingi que ainda dormia. Mas quando o senti se afastar depois de ter estado tão perto reagi instantaneamente. Não o deixaria escorrer por entre os dedos.
– O que foi isso? – perguntei, já sentada, colocando o tecido que me cobria de lado. Ele não se virou e murmurou algo, provavelmente grosseiro, que não tive a mínima vontade de entender. Ele não sairia assim.
– O que é isso? – insisti, alcançando-o e fazendo-o me olhar.
– O que quer dizer, Granger? – ele estava realmente fingindo que nada tinha acontecido, e isso foi o estopim para o meu autocontrole.
– Para com isso! – disse, nervosa – Para de me tratar com indiferença! Não precisa ser assim...
– O que quer, Granger? – perguntou, estreitando os olhos – Como quer ser tratada? Com flores e palavras carinhosas? – ironizou.
– Não, Snape. Só acho que não precisamos de tanta formalidade... Vivemos sob o mesmo teto!
– E que diferença isso faz?! Ele não estava perguntando isso...
– Bom... toda?! Não precisa ser algo que não é, sei que a arrogância e a indiferença são tão intrínsecas ao senhor que não conseguiria se livrar delas mesmo que quisesse. – eu estava realmente muito irritada. Era impressionante como ele afetava meu humor, meu equilíbrio, tudo. – Mas pelo menos não seja tão distante... Me deixa te ajudar... por favor. Eu estou implorando para ajudá-lo? Devo estar louca. Confia em mim... - Sim, eu estava.
– Por que está fazendo isso? – perguntou, revelando uma angústia e uma necessidade que só me fez ter mais certeza do quanto eu queria estar com ele, ajudá-lo.
– Porque eu quero, porque não precisamos viver assim, porque já há tragédia suficiente lá fora... – respondi, mais calma – Os motivos são inúmeros, mas todos eles se baseiam exclusivamente no fato de que o senhor merece. Por favor, vamos nos dar uma trégua. – pedi sinceramente, assustando a mim mesma pela intensidade do pedido. E então ele cedeu, inacreditavelmente. Sentei-me pesarosa, como se estivesse próxima a um animal arisco que se afasta com um passo incerto, e esperei que ele começasse. Depois de muito tempo, e ainda sem olhar para mim, ele começou.
– Não tive uma infância fácil, Granger. A relação com meus pais era, no mínimo, desagradável, e eu era uma criança infeliz. Até que conheci Lílian... – ele parou, suspirando pesado. – Eu tinha nove anos. – seu olhar se perdeu no meio das chamas, como se estivesse em outro plano. E parecendo se recuperar do transe e das revelações ditas em voz alta, ele finalmente me olhou, colocando a velha máscara.
– Mas o que importa é que eu a decepcionei e fiz todas as escolhas erradas, e não há um só momento em que eu não me arrependa delas.
Desejei tanto que ele se abrisse, e quando enfim aconteceu eu não sabia o que dizer. Formulei e apaguei vários pensamentos até conseguir dizer alguma coisa.
– Todos fazemos bobagens enquanto jovens. 'Foi pra dizer isso que hesitei tanto?!', pensei, decidindo tarde demais que era melhor ter ficado calada. Até pareceu o Rony...
– Granger, não é possível que a cerveja amanteigada esteja fazendo efeito até agora... – disse, parecendo mais leve. Pelo menos para isso serviu meu comentário idiota. – E sim, as pessoas fazem besteiras enquanto jovens: se embebedam, criam feitiços idiotas para se divertirem... Mas não se aliam a um assassino e entregam profecias que induzirão à morte de uma criança! – ele continuou, voltando a ficar nervoso e aparentando uma palidez ainda mais anormal.
– O senhor não sabia que era a família dos Potter... Outro comentário idiota, Hermione! pensei, batendo na testa mentalmente.
Era de fato impressionante como que perto dele a minha visão lógica e todo o senso simplesmente desapareciam. Do que adiantavam todas as boas notas se perto dele eu só fazia/falava bobagens?
–E o que isso muda?! Poderia ser o Longbotton, e tirando seu desastre em poções ele é aceitável.
– Senhor...
– Não há justificativas, Granger. – ele cortou – Não precisa se esforçar. – sua voz não era mais carregada, demonstrava apenas uma frustação e cansaço extremos. Eu precisava dizer algo, e quando me dei conta as palavras já estavam saltando da minha boca.
– Sei que a minha opinião não faz a mínima diferença para o senhor, mas foi sincero comigo então também farei o mesmo. – e respirando fundo para tomar fôlego, disparei – O seu passado faz parte de quem é, mas não te define. E o senhor teve motivos mais do que suficientes para fazer as besteiras que fez. E se arrepender pode não apagar os fatos, mas mostra que nunca foi uma pessoa ruim. Egoísta, talvez, inconsequente e vislumbrado com as ofertas de Voldemort também. – ignorei a expressão que ele me dedicou ao dizer o nome de Voldemort – Mas não alguém ruim. Importa o que vem fazendo desde então, e o que vai fazer a partir de agora. Se afastar é a única atitude que pode me deixar brava no momento. O resto é passado. – e saí.
Nenhum dos dois dormiu aquela noite, abismados com a intimidade que haviam adquirido em tão pouco tempo, com poucas palavras trocadas. Mas agora não tinha mais volta, e fugir não adiantaria nada. Hermione saiu do quarto sem olhar para trás, com a cabeça erguida. No mesmo momento, Snape saiu do escritório, imponente, decidido a não se deixar intimidar por uma menina, mesmo sendo a que povoava e confundia seus pensamentos. Concentrados em suas divagações, acabaram trombando um no outro, e toda a pretensão que Severo tinha de ignorá-la foi pelos ares.
– Desculpe, senhor... – disse a jovem, contendo o riso.
– Não olha por onde anda, Granger?
– Nem o senhor, pelo que parece... – respondeu a afronta decidida a não se deixar afetar. Ela não permitiria que todas as confissões feitas na noite anterior o afastassem ainda mais. Ela teria paciência.
– Vamos iniciar nossas aulas hoje. Esteja no laboratório em uma hora. Não-se-atrase. – e saiu, no seu jeito tão característico de andar, como se sob os pés houvesse algo que o fizesse deslizar perigosamente pelos corredores.
Balançando a cabeça com um meio sorriso, Hermione desceu as escadas rumo a cozinha, pensando que não seriam palavras frias que a afastariam dele. Ele vai ter que se esforçar mais do que isso.
...
