Parte III

I wish that I could wake up with amnesia

Forget about the stupid little things

Like the way it felt to fall asleep next to you

And the memories I never can escape

'Cause I'm not fine at all

(Amnesia - One Direction)

.oOo.

(Um ano depois)

Draco espiou por cima do livro que lia, estranhando o silêncio do filho. Scorpius estava debruçado sobre sua lição. Parecia inocente o suficiente, mas Draco o conhecia bem demais para acreditar nas aparências. Ele recortava algumas letras do jornal com a ponta da língua para fora e as colava no pergaminho em seguida, tornando a folhear o jornal para encontrar a próxima letra.

Finalmente convencido de que não havia nada de suspeito na atitude do garoto, Draco voltou os olhos para seu livro novamente. Mas não sem alguma dificuldade de concentração. Seus olhos estavam pesados de sono e ele lutava para não deixar o cansaço transparecer para o filho. Consultou o relógio de pulso. Ainda faltavam algumas horas para Astoria aparecer para pegá-lo.

Não que estivesse impaciente para se livrar de Scorpius. Gostava de passar as horas com o filho, mas já fazia alguns dias que não vinha dormindo direito e estava ficando cada vez mais difícil fingir que estava bem.

"Terminei!" Scorpius anunciou, se levantando. "Terminei, papai! Podemos voar agora?"

Draco abaixou o livro com um suspiro.

"Deixe-me ver o que você fez."

Scorpius pegou os papeis de cima de sua escrivaninha e levou até o pai, todo orgulhoso. Draco analisou o primeiro, onde Scorpius recortara e colara seu próprio nome.

"Muito bem," Draco parabenizou. "Só trocou estas duas letrinhas aqui." Ele apontou para as duas últimas letras, cuja ordem estava trocada. "Está escrito 'SU' ao invés de 'US', de 'Scorpius'".

"Ah..." Os ombros de Scorpius caíram levemente. "Tudo bem, vou arrumar..."

O garoto pegou a folha e voltou para a escrivaninha enquanto Draco examinava o restante da tarefa passada pela professora. A Sra. Halder também dava aula para os sobrinhos de Astoria, filhos de Daphne. Além dos recortes, Scorpius havia escrito seu nome em letra cursiva com a ajuda de alguns traços e algumas palavras começadas com a letra "T", ilustrados pela própria professora de inglês. Uma palavra em particular chamou a atenção de Draco.

"Quem é Tommy?" Perguntou, imaginando se Scorpius tinha algum novo amiguinho.

"É um amigo da mamãe," Scorpius esclareceu sem levantar os olhos.

"Amigo?" Draco levantou uma sobrancelha.

"Sim. Ele foi jantar na casa do vovô e da vovó Greengrass na semana passada e me deu chocolates."

"Chocolates, é?" Draco murmurou, encorajando o filho a continuar.

"Sim. Uma caixa cheia deles! Das outras vezes ele só tinha me dado bombons."

"Das outras vezes? Quer dizer que ele já foi jantar na casa dos seus avós mais vezes?"

"Não, essa foi a primeira vez. Das outras vezes, ele apenas levou a mamãe para jantar. Pronto!" Ele levou o exercício corrigido para o pai. "Podemos ir agora? Ops!" Ele abaixou-se rapidamente para pegar algo que havia caído detrás do papel, mas Draco foi mais rápido.

Primeiramente, Draco achou que se tratava de um recorte de uma matéria qualquer de jornal, mas quando virou o verso da folha seu semblante se fechou. Tratava-se de uma matéria encabeçada pela foto que saíra no Profeta Diário da semana passada, onde Harry posava ao lado da namorada. Ou melhor, noiva, se o que a matéria sugeria fosse verdade.

"Isso é meu, na verdade," Scorpius falou com a mão estendida, aguardando que o pai lhe devolvesse a foto.

"Posso saber por que você está guardando isso?" Draco perguntou, encarando o filho com desconfiança.

"Porque faz tempo que ele não me escreve," Scorpius admitiu desviando os olhos. "A última vez foi no meu aniversário. Estava pensando em pedir para a mamãe ler a matéria para mim."

"Não tem nada que preste nesta notícia, Scorpius. Você sabe que eu..."

"Que você não lê as páginas de fofocas, eu sei." Scorpius rolou os olhos. "Mas queria saber por que ele não tem escrito."

Ao contrário do que dizia para o filho, Draco lia a coluna social do jornal. Ou pelo menos as matérias que mencionavam Potter. Não porque acreditasse em tudo que Skeeter dizia, mas porque era o mais próximo que poderia chegar de saber alguma coisa a respeito do que acontecia com ele.

Aparentemente, Potter e a garota, uma colega do Quartel General dos Aurores, haviam sido fotografados na saída de um restaurante procurado pelos casais em ocasiões especiais por causa do seu romantismo. A auror chamava bastante atenção por sua simpatia e beleza inquestionáveis e, aparentemente, a opinião geral era de que eles haviam nascido um para o outro e teriam filhos maravilhosos (havia, inclusive, alguns desenhos de crianças projetando os traços de ambos misturados para comprovar). Draco não deveria ter ficado tão surpreso e magoado com a notícia. Potter parecia bastante contrariado no momento da foto, mas a garota exibia um sorriso misterioso, mantendo uma pose altiva enquanto segurava a mão dele possessivamente, puxando-o para mais perto. Conforme ela se mexia, a luz dos flashes refletia num anel brilhante que ela trazia na mão direita. Draco suspirou e devolveu a foto para o filho.

"Talvez você devesse escrever para ele, então. Ele provavelmente só está ocupado demais com o trabalho."

"Acho que sim... Você escreve para mim, então?" Scorpius se empolgou.

"Tenho uma ideia melhor," Draco falou, já se levantando. "Por que você não pede para sua mãe escrever a carta mais tarde? Assim nós podemos voar um pouco enquanto ela não chega."

"Ótima ideia!" Scorpius aprovou. "Vou pegar nossas vassouras!"

"Espere. Deixe que eu resolva isso..." Draco alcançou a varinha no bolso da capa e convocou as vassouras, mas houve apenas um estalido e um jorro de faíscas vermelhas.

"Ops..." Scorpius murmurou, disfarçando um sorriso.

"Mas o que..." Draco examinou melhor a varinha e olhou para o filho em seguida, estreitando os olhos. "Scorpius..."

"Vou buscar as vassouras!" Scorpius gritou, rindo enquanto se afastava, e Draco já estava se preparando para mandar que ele voltasse quando soltou o ar dos pulmões e meneou a cabeça.

Não era a primeira vez que Scorpius pregava essa peça no pai, substituindo sua varinha pela de brinquedo que ganhara de Potter no seu aniversário de quatro anos. E havia ainda outras travessuras, como trocar sua xícara de chá por uma Morde Nariz e substituir seu pente pelo Penteie um Camaleão e fazer com que Draco passasse boa parte da manhã recebendo olhares estranhos dos seus elfos domésticos antes de se olhar no espelho e perceber que estava ruivo. Seu primeiro impulso naqueles momentos era o de repreendê-lo. No lugar de Scorpius, Draco teria recebido um memorável castigo caso se atrevesse a pregar qualquer peça no próprio pai. Lucius Malfoy jamais aceitaria aquele tipo de humilhação do próprio filho. Porém, aquele mesmo pensamento fazia com que Draco abandonasse a ideia.

Sabia que Scorpius não fazia aquilo para humilhá-lo ou desafiá-lo. Ele era uma criança educada e obediente nos momentos que mais importavam. Mas também era solitário e Draco se viu obrigado a ter que exercer o papel de pai e amigo ao mesmo tempo. Não era nada fácil, mas também não era impossível.

Draco olhou ao redor e localizou sua varinha escondida dentro da mochila do filho. Pegou-a e deixou a varinha de mentira no lugar. Pensou por um momento antes de se decidir por uma retaliação à altura da travessura do filho. Lançou um feitiço colante na varinha de brinquedo para que ela ficasse presa na mão de Scorpius quando ele a pegasse e sorriu para si mesmo.

"Aqui estão!" Scorpius voltou com uma vassoura em cada mão, fingindo que nada de extraordinário acontecera. "Vamos?"

"Vamos."

Draco respirou fundo e seguiu Scorpius para enfrentar o calor da tarde de início de junho.

.oOo.

Draco estava suando, suas mãos estavam escorregadias, mas ele precisava segurá-lo, ou então...

"Não... Por favor, não..." Draco implorou por entre os dentes cerrados, tentando segurá-lo com todas as forças enquanto evitava olhar para aqueles olhos azuis vítreos e sem vida. Se pelo menos conseguisse puxá-lo para cima, quem sabe ainda haveria algum meio... "Por favor..." Draco soluçou e então foi vencido pelo peso morto do corpo de Dumbledore, que despencou torre abaixo enquanto Draco não podia fazer nada senão assistir.

Então foi virado violentamente e encarou os olhos de Harry, cheios de raiva.

"Olhe o que você fez! Você o matou!" Harry dizia enquanto o sacudia e Draco só queria que tudo aquilo acabasse, que aquela angústia tivesse um fim.

"Por favor," ele implorou mais uma vez e foi milagrosamente atendido quando Harry o empurrou pela murada da Torre de Astronomia e Draco se sentiu flutuar antes de também despencar, puxado pela gravidade para longe da raiva nos olhos de Harry e de todos os outros membros da Armada de Dumbledore que olhavam para ele da amurada. Mas aquilo logo estaria terminado. Em breve, nada mais importaria... Preparou-se para o impacto e então finalmente poderia descansar...

Draco acordou de um sobressalto, a respiração alterada e o suor escorrendo da sua têmpora. Em poucos segundos, sentiu o alívio do sonho ser substituído por um pânico crescente pelo que tudo aquilo significava. Nada mudara, Dumbledore continuava morto. Pessoas haviam morrido por sua causa e outras ficaram gravemente feridas. De repente, sentiu uma dor profunda na caixa torácica e tentou puxar o ar, mas era como tentar respirar num saco plástico. Sentia cada martelar do seu coração como o tique-taque de um relógio enlouquecido. Scorpius poderia estar morto se não fosse por Potter e... Potter em breve se casaria. O pensamento lhe provocou náuseas e Draco tentou se levantar, mas não conseguia. O mundo estava girando e Draco não conseguia respirar... Precisava respirar...

Draco fechou os olhos com força e se concentrou em tentar puxar o ar para dentro dos pulmões, sem muito sucesso a princípio. Empurrou para fora da mente todos os outros pensamentos e tentou novamente, daquela vez conseguindo um pouco mais de ar. Então mais um pouco até que seus pulmões pareceram se descontrair e Draco pôde respirar novamente. Ficou imóvel por um momento, tentando acalmar a respiração, trêmulo e suado.

Não soube precisar quanto tempo se passara desde que acordara, se horas, minutos ou segundos. Abriu os olhos e encarou o teto escuro do quarto. Tateou o criado em busca da varinha e fez um feitiço Tempus. Quatro horas da manhã. Suspirou.

Sentou-se na cama, acendeu uma vela e trouxe um pesado livro de Alquimia para o colo, abrindo na página marcada com as mãos ainda trêmulas.

.oOo.

Draco agradeceu ao elfo doméstico pela xícara de chá e se acomodou em sua confortável poltrona, terminando de ler o jornal enquanto aguardava. Em menos de um minuto de espera, as chamas da lareira ganharam vida e a cabeça da Dra. Rost apareceu em meio a elas.

"Sr. Malfoy," ela cumprimentou, ao que Draco acenou com a cabeça, colocando o jornal de lado. "Então? Como tem passado?"

"Não está funcionando," Draco falou secamente, ao que a bruxoterapeuta levantou as sobrancelhas.

"Oh... Entendo. Você prefere que eu vá até aí para podermos conversar melhor?"

"Não será necessário. Apenas me mande novas receitas com doses cavalares, por favor," Draco pressionou a ponte sobre o nariz.

"Calma, Sr. Malfoy. Me diga, o que você está sentindo? Perda do sono ou do apetite...?"

"Tudo. Estou sentindo tudo de novo," Draco interrompeu-a, irritado. "É exatamente como antes! Os mesmos pesadelos, ataques de pânico, o mesmo vazio de sempre... Tudo! Não durmo nem faço minhas refeições direito há semanas!"

"Semanas? Espere... Na última semana, você disse que estava bem! E na anterior..."

Draco fez um som de desprezo.

"Obviamente, eu menti."

"Sr. Malfoy..." A mulher suspirou, colocando os óculos e folheando suas anotações. "Já faz dois meses que reduzimos sua dose. Você deveria ter me avisado antes..."

"Estou avisando agora. Você poderia, por favor, me mandar as malditas receitas?"

Uma vez fora de Hogwarts, Draco não tivera mais acesso aos ingredientes controlados que costumava ter como Professor de Poções e passara a ter que comprar suas poções como qualquer outra pessoa.

"Os mesmos sonhos, você disse?" A Dra. Rost falou, aparentemente pouco impressionada com a atitude do seu paciente.

"Basicamente," Draco falou.

"E acordado...?"

Draco fechou os olhos. Deus, aquilo era humilhante. Como odiava aquela mulher por se intrometer daquele jeito nos seus pensamentos mais íntimos e ainda cobrar por aquilo.

"Ontem..." Draco começou, ainda que contrariado, "eu estava voando com meu filho e não conseguia parar de pensar em como seria se eu acidentalmente... caísse lá do alto."

"Acidentalmente?"

"Sim, acidentalmente," Draco repetiu por entre os dentes cerrados. "Também imagino algo acontecendo com Scorpius o tempo todo. Acidentes horríveis… Na maior parte das vezes por minha causa." Engoliu em seco tentando afastar as lembranças caóticas de tudo que se passava em sua cabeça na maior parte do tempo.

"Certo, certo." A Dra. Rost fez algumas anotações. "Você mencionou 'o vazio' também. Se importa em descrevê-lo novamente para mim?"

Era evidente que Draco se importava, mas achou desnecessário dizer aquilo.

"A maior parte do tempo, não sinto nada. É como se as coisas estivessem acontecendo com outra pessoa, não comigo. A cada dia é mais difícil levantar da cama. Não sinto vontade de fazer nada o dia todo, nem mesmo ler. Isso melhora quando Scorpius está por perto, mas quando ele vai embora..."

"Entendo." A bruxoterapeuta fez mais algumas anotações. "Mais alguma coisa?"

"Você está achando pouco?"

Aquilo fez com que a mulher levantasse os olhos de suas notas e o encarasse, retirando os óculos.

"Sr. Malfoy, isso não é o fim do mundo. Sei que não é fácil depender de poções, mas a maioria das pessoas precisa delas, por um motivo ou outro, hoje em dia. E isso não significa que será assim para sempre."

"Hnf..." Draco bufou, incrédulo, porém a Dra. Rost não lhe deu atenção.

"Vamos voltar com o tratamento e então mais para frente tentaremos novamente. E de novo, se for preciso."

Draco passou uma mão pelos cabelos engolindo um monte de respostas mal educadas para aquelas observações vazias.

"Vou receitar novamente as doses iniciais e uma poção para ajudar você a dormir até que o tratamento volte a fazer efeito. Durante o dia você pode tomar uma dose de Poção Calmante também, se achar necessário. Apenas tome cuidado para não abusar dos paliativos... Ah, me desculpe." A bruxoterapeuta meneou a cabeça para si mesma diante do olhar desdenhoso do seu paciente. "É claro que você já sabe disso. Às vezes me esqueço que estou falando com um Mestre em Poções. Mas lembre-se de que nem tudo depende dos medicamentos. Se seu filho faz com que você se sinta melhor, então procure passar mais tempo com ele. Faça coisas que você gosta, mesmo que você não consiga sentir prazer nelas no momento. Procure não se isolar. Mantenha as pessoas que se importam com você por perto. Há quanto tempo você não fala com seus pais?" Ela perguntou, porém não esperou que Draco respondesse. "Experimente alguma atividade física. Faça aqueles exercícios para acalmar a respiração. Medite. Qualquer coisa que funcionar para você."

"Está bem," Draco concordou, cansado demais para discutir.

"Vou mandar as receitas num minuto. De qualquer forma, estou à disposição a qualquer momento que o senhor precisar conversar. E o senhor já sabe, se sentir qualquer impulso incomum não hesite em me chamar a qualquer hora do dia e da noite."

Draco concordou e se despediu, deixando instruções para que os elfos o avisassem assim que ela enviasse as receitas. Enquanto isso, foi até seu escritório - o antigo escritório de Lucius Malfoy - desesperado para se distrair com alguma coisa, apesar do cansaço opressivo. Sabia que dormir não era uma opção no momento. Entretanto, não conseguiu se concentrar em nada do que lia.

"Draco?" Astoria bateu à porta do escritório chamando sua atenção. "Atrapalho?"

"Não, claro que não." Draco colocou o livro de lado e se levantou para cumprimentar a ex-esposa com um beijo em cada face.

"Scorpius não veio?" Ele indicou para que ela se sentasse numa das confortáveis e elegantes poltronas dispostas no aposento.

"Daphne o chamou para passar o dia com os primos. Mas ele deixou um recado para você. Disse que passar cola na varinha dele foi golpe baixo."

Draco sorriu e Astoria fez o mesmo, retirando as luvas.

"Vou aproveitar para resolver algumas coisas no Beco Diagonal. Aliás," Astoria estendeu um papel para Draco, "isso acabou de chegar para você."

"Ah, sim... Obrigado." Draco reconheceu a assinatura mágica da Dra. Rost. Dobrou o papel rapidamente e o enfiou no bolso das vestes para o caso improvável de Astoria não ter bisbilhotado.

"Estou indo para o Beco Diagonal, quer que eu passe no boticário para comprar seus remédios?" Ela perguntou inocentemente e Draco revirou os olhos.

"Não será necessário. Vou mandar um pedido via coruja."

"Já sei! Por que você não vem comigo?" Astoria convidou, animada.

"Não, obrigado."

"Draco..." A animação de Astoria morreu tão subitamente quanto nascera. "Vamos, por favor... Quando foi a última vez que saímos juntos? Aliás, quando foi a última vez que você saiu de casa?"

Draco grunhiu alguma coisa em resposta, fingindo estar ocupado com as anotações das suas pesquisas.

"Draco..."

"Astoria," Draco interrompeu-a, "não estou interessado em ir ao Beco Diagonal. Você sabe como odeio aquele lugar."

"Tudo bem, esqueça o Beco Diagonal, então. Por que não vamos para algum outro lugar? Talvez uma livraria? Ou uma sorveteria! Está um dia bastante quente hoje, ideal para..."

"Para ficar dentro de casa, onde é mais fresco, exatamente."

Astoria suspirou e ficou em silêncio por um momento. Longe de ficar aliviado com aquilo, Draco se preparou para o que viria a seguir. Astoria não era de desistir tão facilmente.

"Você leu o Profeta hoje?" Ela perguntou por fim.

"Apenas os assuntos mais relevantes," Draco falou, evasivo.

"Claro, por que você não tem tempo a perder com fofocas." Ela chamou um elfo doméstico e pediu que ele trouxesse o jornal.

"Astoria..." Draco tentou impedi-la, mas ela não lhe deu ouvidos.

"Isso rendeu uma edição extra do Semanário das Bruxas, mas é claro que você não assina a revista, então vamos nos ater ao Profeta..." Astoria falou no breve intervalo de tempo necessário para que o elfo aparatasse de volta, entregando-lhe o jornal. "Qual matéria você prefere que eu leia primeiro? Problemas no Paraíso: fim do curto noivado d'O Salvador do Mundo Bruxo ou Solteiras de plantão, o maior partido da atualidade está novamente disponível... Ei!"

Draco havia se levantado e arrancado o jornal da mão dela.

"Uma leitura desse monte de besteiras já é suficiente," ele falou jogando o jornal no lixo.

"Ah, então você admite que leu," Astoria falou, satisfeita.

"É claro que li. Mas não entendo qual é o seu interesse no assunto. Por acaso está interessada a se candidatar para a vaga?"

"Ah, querido... Se ao menos eu tivesse alguma chance." Astoria se abanou. "Aliás, você nunca me disse como ele é na cama..."

Draco se limitou a encará-la, impassível. Sabia que ela só estava dizendo aquilo para provocá-lo, afinal era educada demais para ser indiscreta àquele ponto.

"Bem, não precisa dizer, na verdade." Ela encolheu os ombros, a face ligeiramente corada. "Posso imaginar por mim mesma. Ainda sonho com as cenas que presenciei da sua lareira, ano passado..."

"E o que Tommy diria sobre isso?" Draco alfinetou, quase casualmente, fazendo com que Astoria abandonasse a encenação.

"O quê? Como você sabe...?" Ela se alarmou.

"Scorpius deixou escapar," Draco atalhou. "Quando você pretendia me contar, se é que pretendia?"

"Bem..." Astoria baixou os olhos, todo o seu despojamento anterior substituído por acanhamento. "Não é nada sério, ainda. Estamos apenas nos conhecendo melhor..."

"Engraçado, parece que Scorpius comentou alguma coisa sobre um jantar na casa dos seus pais... Isso soa sério o bastante para mim."

"Thomas é filho de um conhecido do meu pai," Astoria explicou rolando os olhos, como se aquilo concluísse o assunto. E se o Sr. Greengrass estava investindo no relacionamento, aquilo devia envolver uma herança volumosa. "Como eu disse, não é nada sério ainda..."

"Então por que deixou Scorpius se envolver nisso?" Draco finalmente deixou transparecer sua contrariedade.

"Draco, já disse o que penso a respeito dessa sua preocupação exagerada..."

"Não é uma preocupação exagerada! Scorpius tem cinco anos e já passou por muito mais problemas do que muitos alunos de Hogwarts! Não é certo fazer com que ele se apegue a alguém se você não tem certeza do que vai acontecer daqui para frente!"

"Como ele se apegou a Harry Potter?" Astoria ironizou e os músculos do maxilar de Draco travaram. "Draco..." Ela soou arrependida no instante seguinte. "Sei que você não tem culpa quanto a isso, mas... Não posso deixar de viver a minha vida pensando em todas as possíveis repercussões de cada passo que dou, como..."

Ela se interrompeu a tempo, mas Draco entendeu. 'Como você,' ela queria dizer. Draco caminhou até a janela do aposento fingindo olhar para fora, porém Astoria seguiu-o.

"Não podemos proteger Scorpius de tudo!" Ela continuou. "Ele é um garoto forte, tem lidado com tudo isso de maneira exemplar. Além disso, as sessões de terapia o ajudaram muito." Ela esticou o braço para segurar a mão do ex-marido. "Sinto muito por não ter contado antes sobre Thomas."

"Está tudo bem," Draco concedeu, apesar de ainda soar contrariado. "Você tem todo direito de tentar ser feliz."

"Você também, Draco..." Ela segurou-o mais firmemente quando Draco fez menção de se afastar do seu toque. "Querido, você precisa se dar mais uma chance!"

"Você não entende, Astoria..."

"Então me explique!"

Draco baixou os olhos para suas mãos entrelaçadas. Quantas vezes desejou poder amá-la... Não como uma amiga ou como uma irmã, mas como uma mulher. Mas naquele momento sentia dificuldade até mesmo de reconhecer todo o carinho que sentia por ela. Era como se seu peito estivesse adormecido.

"Tive minha chance," Draco acabou dizendo, encostando a testa no vidro e fechando os olhos. "Mas estraguei tudo."

Aquele era o resumo da sua vida, aliás.

"Não desista tão facilmente, Draco..."

"Ele seguiu em frente, Astoria! Ele pode estar solteiro novamente, mas isso não significa nada para mim."

Todo mundo havia seguido em frente. Até mesmo Astoria estava começando a conhecer outras pessoas, coisa que ela costumava dizer que nunca faria. Draco era a única pessoa que não mudava. Ainda sonhava com a mesma pessoa havia quinze anos! Lia todas aquelas matérias idiotas do jornal a respeito de Potter e fingia que não eram completos estranhos. Draco não queria que Astoria tivesse pena dele, mas percebeu que era exatamente aquele sentimento que transbordava dos seus olhos castanho-claros.

"Ah, Draco..." Astoria tentou abraçá-lo, mas ele se afastou novamente, tornando a se sentar numa poltrona enquanto Astoria se sentava na outra. Eles ficaram em silêncio durante algum tempo antes que ela voltasse a falar. "Scorpius pediu que eu escrevesse para Potter ontem à noite. Disse que a ideia foi sua. Ele fez questão de assinar a carta e nem trocou as duas últimas letras do nome, como costuma fazer sempre." Ela sorriu. "Potter respondeu imediatamente."

Draco tentou disfarçar o interesse que aquelas palavras lhe despertaram, mas fracassou.

"O que ele disse?" Draco acabou perguntando, quando Astoria não voluntariou a informação.

"Ele pediu desculpas por não ter escrito. Disse que não havia nada que pudesse justificar deixar um amigo de lado e se comprometeu a tentar se redimir. Ele escreveu para mim logo em seguida, perguntando se nós dois tínhamos alguma objeção quanto a ele se encontrar com Scorpius no Beco Diagonal."

"E o que você respondeu?" Draco tornou a perguntar, ainda sem conseguir encará-la nos olhos.

"Não respondi ainda. Queria saber sua opinião primeiro."

Draco assentiu, mas demorou um pouco para responder.

"Não tenho nenhuma objeção."

"Está bem. Você quer responder à carta...?"

"Não," Draco falou rapidamente. "Ele endereçou-a a você. Por que eu responderia?"

"Tudo bem. Vou responder. Quer sugerir algum lugar ou horário...?"

"Não vou me encontrar com ele, Astoria," Draco disse categórico.

"Como quiser," Astoria concedeu, entendendo que seria inútil insistir no assunto. Ela se levantou e impediu-o de seguir seu gesto. "Não, não precisa me acompanhar. Sei muito bem o caminho." Ela se debruçou para beijar sua bochecha e acariciou sua face. "Cuide-se, está bem?"

Ela saiu, deixando-o imerso em seus próprios pensamentos.

.oOo.

Naquela noite antes de dormir Draco vasculhou um compartimento secreto do seu criado-mudo até encontrar a cópia que mantinha da fotografia daquele Dia de São Valentim, na qual um Scorpius mais novo sorria e acenava de cima dos ombros de um Harry Potter sorridente. Sentiu seu peito se contrair diante daquele sorriso sincero e descuidado.

Jamais admitira para a Dra. Rost que Scorpius não era o único capaz de arrancá-lo do seu torpor. Nem nunca admitiria. Astoria era a única pessoa que sabia sobre seus sentimentos e mesmo ela tivera que adivinhar a maior parte da história. Além de ser muito perceptiva e intuitiva, Astoria também fazia com que Draco se sentisse em débito com a ex-esposa diante de tudo que a fizera passar durante seu casamento fracassado. Não que ela cobrasse alguma retribuição. Ela não era o tipo de pessoa que se fazia de vítima. Mas ainda assim Draco sabia que não era correto o que fizera com ela.

Durante anos, Draco convivera com os sintomas da depressão. Nada daquilo era novidade para ele. Imaginava que tudo havia começado em seu sexto ano e piorara desde então, até atingir seu ápice quando Draco se casou. A angústia que sentia era tão devastadora que ele encarara a proposta de McGonagall de lecionar em Hogwarts como uma oportunidade de fugir de si mesmo. Desde então, sua vida não passara de algo mecânico. Levantar, se trocar, fingir que comia alguma coisa, dar aulas, repor o estoque de poções da enfermaria, caminhar pelo castelo até ser quase vencido pelo cansaço e rolar de um lado para o outro na cama até ser hora de levantar novamente.

Draco nunca gostara realmente de dar aulas e, apesar de sempre ter tido facilidade com Poções, dificilmente teria escolhido a profissão em circunstâncias diferentes daquelas. Porém sabia que teria enlouquecido rapidamente caso não tivesse aceitado o trabalho. Lecionar lhe dava um propósito, um motivo para se levantar da cama todos os dias. O estudo da Alquimia costumava fasciná-lo antes e a perspectiva de explorar a Sessão Restrita da Biblioteca de Hogwarts parecera tentadora a princípio, mas estava longe de fazer com que sentisse a mesma empolgação de antes. A maior parte do tempo, Draco não sentia absolutamente nada. Nada, exceto o pânico que o acometia nas raras ocasiões em que conseguia pegar no sono e sonhava com a guerra ou refletia sobre o péssimo pai que era para Scorpius.

No entanto, aquela bizarra rotina a qual Draco havia se acostumado mudara subitamente dois anos atrás, quando Potter voltou a entrar na sua vida. De repente, Draco começou a sentir novamente, ainda que inicialmente só sentisse irritação pelo altruísmo desmedido e a audácia do ex-grifinório, que não parava de se intrometer onde não era chamado. Tudo que Draco queria então era voltar a não sentir nada. Afinal, era tão mais fácil daquele jeito! Por que Potter tinha que aparecer e complicar tudo?

O Menino que Sobreviveu não se cansava de lembrar a Draco de tudo aquilo que ele tentava desesperadamente esquecer: sua própria versão mesquinha e mimada, com suas concepções equivocadas de mundo, a guerra, seu casamento de fachada, sua paternidade fracassada e principalmente sua sexualidade reprimida.

Durante todos aqueles anos, Draco achava que nunca mais seria capaz de se sentir atraído, desejar se aproximar de alguém, tocar, beijar, provar... A depressão afetara sua masculinidade, sua libido, sua autoconfiança, tudo que costumava fazer parte de quem ele era antes. Pelo menos até Potter aparecer em cena novamente, desfilando sua sensualidade como se a vestisse casualmente. Todos aqueles anos só haviam feito bem a ele, amadurecendo-o sem, contudo, fazer com que ele perdesse seu charme inocente.

Potter não tinha noção do quanto o afetava com seu jeito seguro de andar, seu olhar penetrante e seus sorrisos desconcertantes. Ele não poderia imaginar o rebuliço que causara dentro dele ao constatar que Draco era bonito, como quem repara numa única estrela brilhante no céu estrelado. Ou quando suspirava sensualmente ao comer uma simples torta de caramelo. Quando dormia descuidadamente em seu escritório usando um pijama pequeno demais para seu corpo bem esculpido. Quando pedia ajuda para uma simples torção no tornozelo, suado, depois de uma corrida, e fazia piadinhas sobre o formato sugestivo de uma planta. Quando arregaçava as mangas e desabotoava o colarinho da camisa por causa do calor do escritório de Poções...

Draco deixou a foto sobre o criado e vasculhou as demais gavetas até encontrar o colar que Luna Scamander lhe dera, um ano e meio atrás. O colar que deixara de usar assim que saíra de Hogwarts. O amuleto que, supostamente, concedia coragem, afastava o medo e ainda simbolizava virilidade.

Estivera usando aquele colar na noite em que beijou Harry pela primeira vez com um novo propósito em mente. Um propósito pelo qual Harry era o responsável. Estava cansado de viver de arrependimentos e oportunidades perdidas. Queria ser um pai para Scorpius, queria fazer as pazes consigo mesmo. E ninguém poderia entender o quanto aquilo era difícil para ele, que aprendera a olhar para si mesmo através de um espelho distorcido pela doença. Mas, de todas as pessoas, Harry pareceu compreender o que até mesmo Draco tinha dificuldade em entender e aquilo fez com que os sentimentos se acumulassem dentro dele até transbordarem num beijo desesperado que, tinha certeza, estava fadado ao fracasso.

E novamente fora surpreendido por Harry.

Draco se olhou no espelho. Ainda estava longe de ficar tão magro e pálido como um ano atrás, mas sabia que não demoraria muito a voltar àquele estado lastimável, caso continuasse daquele jeito. Colocou o colar e analisou o próprio reflexo novamente, procurando algo diferente, mas viu apenas a si mesmo, os olhos fundos e a aparência cansada de quem era assombrado pelos mesmos demônios. Por dentro, sentia-se o mesmo covarde de sempre.

Com um suspiro resignado, Draco tornou a guardar o colar e a foto e tomou suas poções. Queria não precisar delas. Queria ter forças para vencer aquilo sozinho, mas não confiava em si mesmo. E precisava melhorar por Scorpius, senão por si próprio. Deitou-se na cama e ficou encarando o teto até que a Poção Para Dormir Sem Sonhar fizesse efeito e suas pálpebras se fechassem lentamente.

.oOo.