Seu corpo doía.
Os pássaros cantavam e o sol descia sobre ele, quente, aconchegante. Mas ele não conseguia se sentir feliz. Uma aura negra pairava sobre ele, escurecendo o seu humor e o fazendo se sentir pesado como uma pedra.
Os músculos se moviam violentamente e ele podia sentir sua própria energia vibrando com irritação e frustração. Ele se sentiu batendo contra as pedras, deslizando por elas mesmo quando tentava se segurar com as garras longas. Sem sucesso. De novo.
Uma energia diferente dançou não muito longe. Era pequena, tímida, temerosa, era tão fraca que era uma surpresa ele ter sentido. Pelo menos era melhor do que a outra que tinha sentido, muito mais confortável, embora desconhecida.
A energia dançou com o que parecia uma comunicação, de surpresa, choque e medo.
E quando ele ergueu os olhos, se encontrou encarando um rosto pálido, cheio de marcas escuras e com dois grandes olhos verdes, que refletiam os mesmos sentimentos da energia.
E demorou um tempo para Soluço perceber que o rosto que ele encarava, era o seu próprio rosto.
...
Soluço acordou violentamente, ouvindo um choro alto e longo ecoando em seus ouvidos.
Mas não era um choramingar humano, era um som diferente, de um outro ser.
"Banguela..." Um arrepio subiu pelas costas do rapaz, e seu ombros formigava tão violentamente que ele sentia como se estivesse pegando fogo.
Aquele sonho... Não podia ser um sonho.
Aquele era o momento em que Soluço e Banguela haviam se encontrado no cânion pela primeira vez, mas dessa vez, ele estava vendo tudo pelos olhos do dragão.
Soluço hesitou, sem saber o que fazer ou o que pensar.
Ele podia jurar que o que tinha acontecido na madrugada anterior tinha sido um sonho, mas não, tudo tinha acontecido de verdade.
Primeiro ele falava com dragões, agora ele sonhava como um dragão...
Aqueles sonhos então eram sonhos com Banguela. Os dragões negros, os voos, os três olhos ameaçadores... Ele estava vendo o mundo de Banguela, embora não tivesse a mínima ideia do que aqueles momentos representassem para o dragão.
Aquela mordida era mais do que um modo de abrir comunicação entre ele e os dragões e só tinha um jeito de descobrir mais sobre isso.
Ele tinha que ir ver Banguela.
Agora.
Soluço rapidamente empurrou os cobertores de pelo para o lado e se sentou na cama, se arrependendo logo em seguida.
"Ai..." Ele passou a mão pela barriga, sentindo a dor se espalhar por seu torso. "Ah é, o Pesadelo Monstruoso..." Ele ergueu a camisa, soltando um grunhido ao ver a grande marca escura que estava começando a aparecer em sua pele. Pelo menos ele ainda estava vivo.
Mas ele não podia deixar aquela dor o impedir de sair, ele conseguia aguentar.
Soluço pegou as botas e deu uma olhada nos apetrechos de voo. Ele hesitou. Mas após alguns segundos de reflexão, ele colocou seu colete de voo sobre a camisa verde. Ele não planejava voar, mas sentia falta da sensação... Do vento nos cabelos, o sol quente em seu rosto e a vista de Berk lá do alto...
Tenho certeza que Banguela também sente falta disso..., Soluço pensou com um sentimento de culpa. Sim, só tinha passado praticamente três dias, mas como ele pode deixar o pobre dragão que não podia voar, sozinho naquele cânion? Soluço tinha ido embora tão rápido que ele nem chegou a tirar a sela do dragão!
Tal pensamento só o dava mais vontade de se encontrar com Banguela.
Ele saiu pelo corredor, novamente com as botas nas mãos para não fazer barulho, mas parou no meio do caminho.
A casa não estava vazia como ele esperava. Biscoito ainda estava ali, sentada frente ao fogo com uma expressão séria.
Soluço se encolheu no topo da escada para não ser visto.
-oo-
Biscoito suspirou, atiçando o fogo.
Stoico e Valka estavam ajudando a arrumar o estrago que os dragões haviam feito na vila, enquanto Soluço dormia no andar de cima. Então, sozinha, Biscoito se pôs a pensar.
Soluço havia acordado e saído da casa no meio da noite, antes do ataque de dragões. Biscoito não era boba, assim que a trombeta havia sido tocada, ela tinha corrido para checar o irmão e para manda-lo ficar na casa, em segurança. Mas ao entrar no quarto do irmão, ela encontrou a cama vazia.
Mas o que ele estava fazendo fora da cama a essa hora, antes de um ataque de dragões sequer acontecer...?
Biscoito sabia que Soluço vivia sumindo para experimentar sua "roupa voadora", mas fazia um bom tempo que ele não falava sobre sua invenção.
Isso não era normal. Sempre que ele criava alguma coisa, Soluço não conseguia parar de falar sobre aquilo, principalmente para a irmã gêmea.
Mas se ele não estava cuidado de sua roupa voadora... O que diabos ele estava fazendo?
Com um barulho suave a porta da cabana abriu.
"Enguia?" Valka disse.
(Soluço se encolheu ainda mais no topo da escada)
"Oi, mãe." Biscoito murmurou sem erguer os olhos do fogo, ignorando o seu nome verdadeiro.
"Onde está seu irmão?" Valka perguntou.
"Na cama, onde mais?"
"Mas que humor, hein?" Valka riu levemente, sem se importar com o tom de voz da filha enquanto baixava a tina que carregava no chão.
Biscoito observou sua mãe enquanto essa tirava as roupas de dentro da tina, separando-as entre roupas que ainda podiam ser arrumadas e usadas, e farrapos queimados que podiam ser usados para outras coisas.
Valka era uma mulher forte e corajosa, mas sua aparência lhe dava um ar mais delicado e franzino. Pessoas que não a conheciam, normalmente subestimavam seu poder.
Ambos, Soluço e Biscoito, tinha puxado o tamanho pequeno e magro da mãe, mas Soluço tinha mais dela do que sua irmã. Biscoito vez ou outra dava uma olhada em seu reflexo no espelho de metal da família e podia notar que talvez tivesse puxado um pouco mais o lado de seu pai.
Os movimentos de Valka eram decididos, mas delicados, precisos e quase graciosos, até mesmo enquanto separava farrapos que seriam divididos com outros vikings que precisavam deles. Eram os mesmos trejeitos de Soluço. Valka usava seus movimentos delicados em batalha, mas Soluço... Não.
Biscoito se lembrou do que viu entre o seu irmão e o Pesadelo Monstruoso; do modo como esse segurou o machado com força, antes de lança-lo para longe. Soluço tinha dito algo, como se estivesse falando com o dragão, mas Biscoito não tinha conseguido ouvir com o caos que estava ao seu redor.
Fazia ela se lembrar daquela noite em que os dois tinham se encontrado cara a cara com um Fúria da Noite. Soluço se colocando entre ela e o dragão, pedindo baixinho que o dragão não os machucasse.
Pelo jeito algumas coisas não mudavam muito... Então porque tudo indicava que Soluço tinha se tornado uma pessoa tão diferente?!
"Mãe, você não acha estranho?" Biscoito finalmente falou.
"O que?" Valka disse sem levantar o olhar
"O sucesso que o Soluço está tendo na Arena!" Biscoito exclamou exasperada.
"Bem..." A matriarca sorriu levemente. "Ele é filho do seu pai."
"Isso não responde minha pergunta..."
"Você não está feliz por ele?" Olho sérios e azulados se ergueram para a filha, encarando outros olhos da mesma cor.
"Não!" Biscoito exclamou sem pensar, sentindo o olhar da mãe ficar mais pesado, a fazendo tremer levemente. "Q-quero dizer, sim! Não, eu... Ugh..." Ela grunhiu, balançando a cabeça.
Valka soltou um som suave, vindo do fundo de sua garganta, e deixou as roupas de lado por um momento. E Biscoito se sentiu desconfortável. Era sempre mais fácil falar com seu pai do que com sua mãe. Com Valka sempre havia tantas camadas... Com Stoico era só falar o que pensava e seu pai respondia do mesmo jeito!
"Você está com inveja?" Ela disse simplesmente.
"Sim." Biscoito admitiu. "Estou." E suspirou. Honestamente, sentir inveja de seu irmão era quase pior do que a própria inveja em si. "É só que... Soluço nunca foi desse jeito antes! Ele nunca mostrou que podia... Você sabe... Encarar dragões e sempre sair vencendo! Eu é que sempre fui assim!"
"Nem sempre." Valka disse e observou enquanto a filha tentava pensar no que falar. Após alguns segundos, a garota desistiu, cruzando os braços e virando os olhos para o fogo. Valka suspirou e se levantou, só para sentar ao lado da garota. "Biscoito, Soluço decidiu finalmente seguir o caminho que seu pai uma vez já percorreu, assim como você. Ele só demorou um pouco mais." Ela brincou com o cabelo vermelho da filha, prendendo uma mecha solta atrás de sua orelha. "Não acha que é melhor ter uma companhia do que estar sozinha?"
"Talvez..." Biscoito deu de ombros. "Mas... Eu não acho que isso faça sentido. Soluço não é um matador de dragões."
"Talvez não fosse. Mas agora..." Valka sorriu.
Biscoito ergueu os olhos para mãe, examinando-a silenciosamente. Valka pareceu fazer o mesmo, ainda mantendo o sorriso.
"Porque você está feliz com isso, mãe?" A garota disse enfim. "Não era você que sempre pedia pelo fim da violência ou coisa assim?"
O sorriso de Valka esmaeceu e ela pareceu ter dificuldade em encontrar uma resposta.
"Eu acredito... Que violência gera violência..." Ela começou. "Mas infelizmente é só isso que os vikings de Berk conhecem." E balançou a cabeça, mostrando um sorriso que até o viking mais cabeça oca reconheceria como forçado. "Então é melhor que meus filhos aprendam a se defender desse modo..."
Biscoito assentiu, entendendo bem o raciocínio da mãe. De fato, era melhor Soluço aprender alguma coisa para poder se defender, do que correr perigo por não saber fazer nada.
"Você tem orgulho do Soluço?" Biscoito perguntou.
"Você não?" Valka jogou a pergunta de volta para ela.
E novamente Biscoito não sabia o que falar. Stoico nunca jogaria uma pergunta desse jeito no meio de uma conversa, a garota não estava acostumada com aquilo. Ela pensou em falar sobre o que tinha visto e sobre como Soluço falava como ela, mas decidiu se manter calada.
"Venha, me ajude a levar essas coisas para o Grande Salão." Valka disse, dando um leve tapinha nos ombros da filha, e Biscoito se levantou para ajudar.
Ela não mencionou isso novamente, mas continuou ruminando tais pensamentos. Ela tinha que descobrir qual é a do seu irmão gêmeo.
-oo-
Soluço permaneceu em seu "esconderijo" até as duas se retirarem, completamente o ignorando como se ele não estivesse ali.
Ele suspirou. Doía um pouco ouvir sua irmã confirmando estar com inveja e ficar calada ao ser questionada se tinha "orgulho" do irmão. Especialmente porque Soluço tinha inveja da irmã, mas também tinha orgulho dela. Ele se lembrava da garotinha medrosa que ela era (assim como ele), e de um modo ou de outro era incrível o modo como ela tinha mudado em alguns anos.
Ele tinha mudado, sim, tinha, mas não do jeito que outros achavam. No fundo, ele ainda era o mesmo Soluço de sempre. O Soluço que ninguém sentia falta...
Mas não era um momento para filosofar sua própria existência, ele tinha um lugar para ir.
O garoto passou despercebido dos outros vikings que estavam mais preocupados em arrumar o estrago deixado pelos dragões. Soluço não notou, porém, quando alguém o acompanhou por entre as samambaias, embora os passos da pessoa não fossem nada quietos. Mas fosse quem fosse, não chegou até o cânion com ele.
Soluço passou pela entrada apertada como costumava fazer, mas parou antes de descer até o centro da campina secreta. Ele suspirou, sentindo-se em casa naquele lugar, mas faltava uma coisa para ele realmente sentir como se tudo estivesse perfeito.
O cânion estava silencioso, tudo o que ele conseguia ouvir era o som suave da água na lagoa e os pássaros que acabavam de acordar, cantando nas árvores. A luz do sol que começava a nascer ainda não atingia o lugar, o mantendo em uma sombra.
Banguela não estava em lugar nenhum.
"Banguela...?" Soluço chamou, descendo para o meio do cânion. Ele se lembrava de todas as vezes que Banguela tinha brincado de esconde-esconde com ele, mas dessa vez, entrar na pequena campina secreta e a encontrar sozinha, apenas deixou o garoto mais desconfortável.
E de repente ele foi lançado ao chão por uma forma grande e quase cor da noite.
"Ah! Banguela!" Soluço ignorou a dor em seu corpo ao atingir o chão, mais preocupado em proteger seu rosto de uma língua longa e bifurcada. "Ah-Hahaha! Para! Para, Banguela!" Mas o dragão não obedeceu, apenas continuou, como se cobrir o garoto de saliva fosse a missão mais importante de sua vida. "Haha... Ai..."
Banguela se afastou ao ouvir o som de dor. Ele soltou um choramingo alto que tremeu seu corpo inteiro e Soluço reconheceu o mesmo choro que tinha ouvido antes. O garoto quase sorriu com a preocupação.
"Tá tudo bem, Banguela, eu só tô meio batido..." Soluço sorriu, mostrando que não tinha com o que se preocupar.
O dragão o examinou dos pés à cabeça com os olhos, cheirando o ar antes de soltar um rosnado baixo. Ele se aproximou com cuidado, apertando o focinho contra o peito do garoto e Soluço não conseguiu se impedir de tremer levemente com o contato.
Ele não sabia porque seu corpo reagiu desse jeito. Parte dele pensava que era porque ainda tinha medo, mesmo sabendo que a mordida não tinha sido feita com o intuito de machucá-lo. Mas parte dele tinha certeza que ele só tinha sentido falta daquilo, do contato, de sentir o calor do dragão contra ele. Afinal, quantas horas ele já tinha passado ao lado de Banguela?
Agora, finalmente junto ao dragão, Soluço se perguntou como diabos ele tinha conseguido ficar mais de um dia longe.
Banguela reagiu ao tremor, mas o humano ergueu a mão para impedi-lo de se afastar.
"Eu também senti sua falta, amigão..." Soluço sorriu, afagando em baixo da boca do dragão, arrancando um ronronado suave desse. Sabendo que o garoto permitia o contato, Banguela se apertou contra ele, esfregando a cabeça contra a do humano, que rapidamente envolveu seu pescoço com os braços. "Me desculpa por te deixar sozinho..."
Banguela soltou mais um choramingo, se inclinando contra o toque do humano. Soluço não conseguiu deixar de sorrir levemente com aquilo. Banguela era tão fofo, era como se ele tivesse sentido tanta falta da presença do pequeno viking quanto Soluço tinha sentido dele.
O garoto se sentiu mal, imaginando o que tinha se passado pela cabeça do dragão nesses últimos dias. Sozinho, sem ninguém. Soluço sabia que ele tinha sido injusto com Banguela, mas ele estava assustado. Ele se perguntou quantas vezes Banguela tinha sentado ao lado da entrada do cânion, esperando por ele...
"Aliás..." O garoto disse e as barbatanas do dragão se ergueram levemente, mostrando que estava ouvindo. "Eu gostaria que você me explicasse melhor o que essa mordida aqui faz. Porque não foi nada legal descobrir sozinho..."
Banguela se afastou assim que Soluço parou de falar e soltou um ronronar grave, que fez o próprio corpo do garoto tremer. O garoto observou enquanto o dragão se movia, mexendo a cauda para os lados e mudando a posição de suas patas de modo animado – era quase o mesmo tipo de movimento que ele fazia quando queria brincar.
Mas...
Nada.
Soluço piscou um ou duas vezes, instintivamente virando a cabeça para o lado, como se isso fosse ajuda-lo a ouvir a energia de Banguela.
O dragão parou de ronronar, bufando e virando a cabeça na mesma direção.
"Ah, Banguela, qual é..." Soluço revirou os olhos. Era bem a cara de Banguela fazer uma coisa dessas, o impedindo de ouvi-lo. "Para de brincadeira. Eu consigo ouvir vocês, então pode falar comigo, tá tudo bem...!" Ele sorriu, mostrando que falava a verdade.
O Fúria da Noite soltou um trinar tentativo, mas nada aconteceu. Nenhuma informação, nenhum sentimento ou "palavra".
Soluço conseguia sentir o que ele acreditava ser a energia de Banguela. Era uma presença fraca e difícil de descrever, ao contrário da energia dos outros dragões que o rapaz havia conhecido e que ele poderia descrever até nos mínimos detalhes.
Por um momento Soluço se lembrou do estranho momento de silêncio que tinha conseguido criar no meio do caos de algumas horas atrás. Era como se uma parede tivesse sido criada entre ele e as outras presenças draconianas.
Por algum motivo, aquela mesma parede estava presente entre os dois, mantendo a energia de Banguela longe.
"Eu não entendo..." Ele balançou a cabeça, ouvindo o dragão choramingar mais uma vez. "Porque... Porque eu não consigo ouvir você?"
Banguela ergueu as barbatanas-orelhas, o encarando com curiosidade, parecia tão confuso quanto o humano. Soluço permaneceu parado no lugar enquanto Banguela se aproximava, cheirando a camisa do garoto ou, mais precisamente, seu ombro coberto.
Um arrepio subiu pelas costas de Soluço e as cicatrizes formigaram novamente. Ele já tinha se acostumado com aquilo, mas por algum motivo o torpor que tomou seu ombro foi mais forte do que o normal.
Banguela bufou novamente, erguendo os olhos para o humano, que o encarou com determinação. Era como se Soluço esperasse conseguir alguma informação ao encarar aqueles olhos brilhantes de verde-amarelados.
Ele se lembrou da primeira vez que os dois se encararam assim, de tudo que passou por sua cabeça e tudo o que ele sentiu naquele momento.
Ele tentou encontrar alguma coisa, um palavra, um sentimento, uma imagem, qualquer coisa! Soluço queria saber como era a energia de Banguela, era a única energia que lhe importava, mesmo depois de conhecer como eram as de outros dragões.
Seria ela obscura e misteriosa como a aparência do Banguela? Talvez fosse mais amigável, já que os dois eram mais próximos. Talvez fosse tão quente quanto o próprio Fúria da Noite. Talvez...
Mas não havia nada, apenas o eco do que seria uma presença poderosa de dragão.
Não fazia sentido
"Eu pensei... E-eu pensei que você tivesse me mordido para que a gente pudesse se entender!" Soluço exclamou exasperado e Banguela soltou um arrulho pesado, se afastando do viking com uma careta e se sentando na base da cauda. "É, digo o mesmo!" O dragão ergueu uma barbatana. "Ou melhor, eu diria! Se soubesse o que você está pensando, isso é!"
O ruivo balançou a cabeça.
"Você sabe que loucura eu passei ontem, Banguela?" Ele exclamou, se levantando de rompante quando uma energia exasperada e irritada tomou conta de seu corpo. "Eu- Eu nem sei explicar! Foi como se tudo – tudo – estivesse passando pela minha cabeça ao mesmo tempo! E agora quando eu venho aqui... Sabe, né? Esperando informações! Eu-Eu ganho nada! Nada!" Ele suspirou, passando as mãos pelos cabelos. "Isso não se faz, Banguela!"
Banguela revirou os olhos e soltou um rosnado grave.
E mesmo sem palavra alguma, Soluço não gostou do tom do dragão.
"Não me olhe desse jeito! Eu tenho todo direito de reagir desse jeito!" Ele exclamou, cruzando os braços e desviando o olhar como uma criança.
Banguela trinou baixo, se colocando nas quatro patas de novo e se esticando até o humano. Soluço suspirou ao sentir o dragão apertar a cabeça contra suas costas, chamando sua atenção. Ele se virou, encontrando grandes olhos de dragão o encarando de baixo.
E, embora não houvesse energia alguma dançando entre os dois, Soluço continuava capaz de entender o que se passava pela mente de Banguela.
Confusão, tristeza... Medo talvez...
Era como se Banguela não precisasse expor sua energia para mostrar o que sentia.
"Você está tão confuso quanto eu, não é, amigão...?" Soluço sorriu um pouco, pousando uma mão na cabeça do dragão, que ronronou novamente, se apertando contra o viking. "Desculpa, por isso..."
Banguela simplesmente trinou agudo, como um pássaro cantando, e era quase como se dissesse que estava tudo bem.
Ainda era estranho a falta de energia que existia entre eles. Soluço ainda conseguia sentir ela vibrando em algum lugar, mas estava longe, fora de seu alcance. Ele não sabia se aquilo o fazia se sentir mais desconfortável do que ter todas aquelas presenças diferentes dançando em sua mente.
"Você conhece os dragões da arena?" Banguela virou a cabeça para o lado, encarando o humano sem expressão. "Ah, claro, você nem sabe bem o que é a 'arena'..." Soluço balançou a cabeça. Banguela se inclinou para o viking, como se quisesse mais informações. "Ah, nada não, deixa pra lá... Ai..."
Um movimento errado fez com que a dor em seu corpo voltasse de repente, antes de sumir tão rápido quanto chegou. Banguela não gostou de ouvir aquilo de novo, soltando um choramingar baixo e cheirando o ar em volta do garoto.
"O que?" Banguela se aproximou, cheirando o tronco do garoto e bufando de modo violento. "Ah, espera, Banguela, o que-?"
Banguela rosnou, pressionando o focinho contra a barra da camisa do garoto, tentando puxá-la para cima.
"Tá bom, tá bom! Se você quer que eu tire a camisa, calma aí!" Soluço empurrou a cabeça do dragão para longe, surpreso com o jeito que esse estava agindo. Ainda assim ele retirou o colete de voo, removendo a camisa em seguida. "Aí, pronto, tá feliz agora?"
As barbatanas-orelhas de Banguela apertaram contra o topo de sua cabeça e ele soltou um choramingar baixo. Soluço assistiu enquanto o dragão se aproximava, cheirando o ar logo acima da marca escura que pintava a pele pálida do rapaz.
"Ah, é, foi do ataque de ontem, não se preocupa, eu tô bem." Banguela ergueu os olhos para o humano com um arrulho baixo que soava preocupado e Soluço quase sorriu. "É sério, Banguela."
Ele tentou ignorar como estava achando estranho o modo como o Fúria da Noite ficava encarando seu hematoma, o cheirando como se nunca tivesse cheirado antes.
Até que...
"AH! Banguela!" Soluço pulou quase um metro ao sentir a língua de Banguela apertar contra sua barriga. Ignorando a reação, Banguela lambeu a marca, da barriga até o peito desse. "Não! Não, não! Para com isso!"
Soluço rapidamente empurrou o dragão para longe, tremendo com o frio repentino graças à saliva que agora cobria sua pele.
Banguela bufou alto e balançou a cabeça de modo desgostoso, empurrando o humano delicadamente e fazendo-o se sentar na grama. E antes mesmo que Soluço pudesse reclamar, o dragão se sentou atrás dele, o envolvendo com o corpo inteiro e deitando a cabeça sobre suas pernas.
"Banguela, eu não posso ficar...!" O viking disse, mas não conseguiu deixar de sorrir para seu dragão. "Especialmente assim!"
Banguela ronronou, erguendo olhos brilhantes com pupilas bem dilatadas. Soluço conseguia ver sua própria imagem naqueles olhos. E ele sentia que, assim como Banguela não precisava usar de sua energia para dividir o que pensava, o dragão podia entender como Soluço se sentia sem ele precisar dizer uma palavra.
"´Tá, eu admito, eu quero ficar... Eu prefiro ficar com você do que com qualquer um, mesmo com meus amigos, ou com a minha irmã." Soluço admitiu, passando a mão pelas pequenas barbatanas no tipo da cabeça de Banguela, o que fez o dragão ronronar mais profundamente. "Nós ficamos longe um do outro por... Três dias..." O garoto se surpreendeu ao pensar nisso. "Mas durante todo esse tempo eu quis voltar para ver você, é sério."
Banguela suspirou como um humano fazia, mantendo a cabeça abaixada e encarando o humano de baixo. Soluço sentiu suas bochechas esquentarem por algum motivo desconhecido. Era estupido pensar assim, mas era quase como se o dragão estivesse o olhando de modo... Sonhador... Tipo o modo com que ele olhava para Astrid. Olhava. Fazia um bom tempo que ele nem sequer pensava na garota.
Ele empurrou aqueles pensamentos para longe.
"Mas já está tarde... Ou está amanhecendo, melhor dizendo..." Soluço ergueu os olhos para o céu, vendo os primeiros raios de sol da manhã clareando o céu. "Eu ia ter treino hoje, mas como teve um ataque ontem eu acho que eles vão adiar..." E sorriu para o dragão. "Mas eu prometo que assim que eu acordar amanhã, eu vou vir aqui pra gente voar, tudo bem?" Ao ouvir aquilo, o corpo inteiro do dragão se remexeu de animação. "Ack! Banguela! Eca! Dá pra parar com as lambidas?!"
Como resposta o Fúria da Noite novamente lambeu o rosto do humano, bufando alto quando esse riu e o afastou. Soluço observou enquanto Banguela descia o focinho para o seu ombro, cheirando a área enquanto um som grave fazia sua caixa torácica vibrar.
A mordida...
"Quem sabe... Amanhã eu consiga te ouvir...?"
Banguela soltou um arrulho baixo e se esfregou contra o viking. Soluço quase riu, notando como o dragão ainda não queria o deixar ir. Mas não teria problema ficar um pouco mais ali, não é?
