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Atena
Passado
Pela 4ª vez naquela manhã ela achou que desmaiaria. O Sol forte a fizera perder a noção do tempo, ou talvez fosse o cansaço da longa viagem de barco. Observou o casal que a acompanhava na subida íngreme e se sentiu culpada. Eles jamais andariam naquele ritmo lento. Correriam. Provavelmente já estariam lá em cima há horas se não fosse por ela. Queria não ser tão fraca assim, mas o que podia fazer? Ser carregada naquela alta velocidade a deixava mais enjoada do que cruzar o mar:
- Espero que seja a última vez que eu precise vir até aqui... – ouviu a loira sussurrar e quase pediu desculpas. Não, na verdade, quase respondeu que também desejava o mesmo.
- Você está esquecendo algo... – o rapaz apontou para a paisagem lá embaixo e imediatamente a expressão da jovem rabugenta se suavizou. Quando a criança se virou, entendeu o motivo. As diversas montanhas pareciam competir qual teria o verde mais vívido e o mar ao horizonte ganhava um tom diferente naquela distância. Estavam muito mais longe do porto, muito mais alto do que esperava. Ele a fitou e sorriu – Muito diferente de Olímpia, não é?
A criança apenas acenou um sim com a cabeça, tentando não demonstrar o quanto já estava com saudade do lugar que por tantos anos chamou de lar. Desde que Aiolos lhe contara sua origem, ela sabia que eventualmente teria que deixar tudo aquilo para trás, mas nada disso aliviava sua vontade de chorar. Em poucos dias, teve que se afastar da cidade que cresceu, dos amigos que fez, do senhor que a acolheu como uma neta. E teve que aceitar que agora nunca mais a chamariam do nome que Aiolos lhe dera. Agora ela seria apenas:
- Atena. É melhor você beber mais água – a amazona disse e lhe entregou a pequena bolsa de couro. – Se quiser, podemos parar um pouco também.
- Eu posso voltar a te carregar, sem correr, se você quiser.
Atena engoliu a água sem conseguir olhar para os dois. Um era um cavaleiro jurado a Apolo, a outra uma amazona jurada a Artêmis. O quão ridículo seria isso: ela, uma deusa, preciva da ajuda física de guerreiros jurados aos seus irmãos? Aiolos lhe explicou que seus poderes ainda estavam se desenvolvendo, mas não fazia sentido. Os deuses a enviaram como um presente. Presente? Por tudo o que lhe contaram, ela virou um fardo:
- Sinto muito. Eu deveria ter falado do enjoo assim que saímos do barco, vocês poderiam ter trazido os cavalos e..
Shaina se ajoelhou a sua frente e deu um sorriso gentil, um que nunca dava em respostas ao guerreiro que a acompanhava:
- Nós estávamos afoitos para chegar, deveríamos ter pensado melhor. Mas tudo bem, toda essa terra é protegida por Sisifos, aqui estamos seguros.
- E é aqui que vamos ficar?
- Ficar? – Sisifos indagou – Você diz morar?
- Sim.
- Bem, tem um templo só seu aqui, mas ele não é exatamente um lar É pequeno e sem conforto algum.- ele olhou para Shaina e a troca de olhares do casal revelou a incerteza sobre esse assunto, mais ainda assim Sisifos continuou a especular - Talvez depois você possa ficar com as amazonas, caso a guerra se intensifique mais e ...
- Nós podemos te treinar – Shaina disse e sua voz demonstrava uma crítica velada a sua fraqueza. Sisifos arqueou as sobrancelhas – O que foi? Nós podemos sim, por que não? Ela não é Demeter, Selene, Afrodite, Hera... É A-t-e-n-a, a deusa da Justiça, ela haverá de ser tão boa quanto o deus da guerra, esse é o desejo de Artêmis, tenho certeza.
- Pensei que você não gostasse de oráculos. Mal chegamos em Delfos e é você quem está declarando a verdade dos deuses? – ele falou de forma suave, muito mais sereno do que Aiolos. Apesar de serem parecidos, Sisifos mantinha a quietude com mais facilidade do que seu irmão mais velho.
- Tenho certeza que é esse o plano de minha mestra, ela jamais vai aceitar tantas crianças na vila das amazonas sem uma função. Nós podemos treiná-las.
- Crianças? Meus amigos poderão ir também?
Shaina a observou com impaciência e se levantou:
- Você acha que mentimos para você? Já te contamos como vai ser, eles virão com Aiolos. Eles são órfãos, nós acolhemos órfãos.
Atena sorriu, provavelmente o sorriso mais genuíno que deu em toda a viagem. Sim, ela já tinha ouvido aquilo tudo, mas não sabia como Seyia e Shiryiu se encaixariam em sua nova vida. Eles tinham alma de guerreiros, podia ver isso, podia sentir a cada treino que assistia deles com Aiolos. Se assegurar que poderia acompanhar esse desenvolvimento, ou melhor, que poderia talvez até treinar com eles, a fez sentir mais ânimo para continuar. Virou-se para o moreno:
- Acho que você pode me carregar agora.
- Sem correr?
- Pode correr.
Shaina sussurrou algo, provavelmente uma comemoração, e tirou um objeto da bolsa e colocou no rosto. Era uma máscara metálica.
- Isso é realmente necessário? – Sisifos questionou, um tanto surpreso.
- Ora, não precisamos mais fingir sermos camponeses viajando... e antes do pico do Sol estaremos em um templo lotado de cavaleiros e cidadãos vindos de toda a Grécia. Eles não precisam ver meu rosto.
A criança não entendeu muito bem o motivo da amazona esconder sua face, era para protegê-la em batalha? Continuou encarando o objeto até que Sisifos a puxou e a colocou no colo:
- Você quer continuar a ser espiã? Pensei que queria voltar para sua morada.
- E na Vila das Amazonas eu poderei tirar e estarei à disposição de novas ordens. Não sou eu que decido.
A criança sentiu pela respiração de Sisifos que ele protestaria, mas se conteve:
- Uma pena…- o cavaleiro murmurou e, antes que Shaina respondesse, ele deu alguns passos e começou a correr - Vamos?
Atena enterrou o rosto no peitoral do guerreiro e segurou firme em suas vestimentas. Aquilo não era necessário, contudo se sentia mais segura, no controle, fazendo isso. Manteve aquele aperto até que Sisifos parou e lhe mostrou o Santuário de Delfos. A paisagem era mais exuberante do que no início da subida, ela conseguiu até mesmo ver um rio que fluía entre as montanhas e desaguava no oceano. Os diversos templos e monumentos de pedra se harmonizavam com aquele cenário e emanavam a mesma energia que a garota sentia nos Templos de Olímpia. Era como se toda a natureza energia da natureza ficasse registrada naquelas pedras. Encantada, Atena demorou para perceber que haviam pessoas presentes, bem, muitos homens, presentes. Todos haviam parado o que estavam fazendo, para onde estavam indo. A observavam como se ela própria fosse a paisagem de Delfos, podia perceber o assombro em seus rostos.
Ignorando todo o silêncio que se instaurou no lugar, Shaina resmungou ao seu lado:
- Como assim uma pena? Uma pena que eu receba ordens ou eu esconder meu rosto?
Sisifos apenas riu e continuou a andar, seus passos firmes demonstravam que sabia em qual daqueles Templos ele era esperado. Ninguém o parou, ou o questionou, era óbvio que ali era respeitado e ela se questionou quando receberia aquele tipo de olhar. Não de assombro, mas um que demonstrava admiração por suas ideias e por sua liderança.
Uma sensação estranha lhe invadiu quando sentiu o cheiro de incenso no Templo de Apolo. Havia algo diferente no ar, algo que nunca sentira antes, não parecia ser uma erva ou flor, era algo que lembrava mais fogo, ou terra molhada e realçava os sentidos de todos os presentes. Era palpável o contraste dos que estavam ali dentro para os que vira do lado de fora. Todos exibiam coragem em suas posturas e expressões. Eram guerreiros como Aiolos. Um deles, o único que tinha duas pintas na testa, se aproximou e se ajoelhou
- Atena, é uma honra ter você entre nós.
Os demais cavaleiros repetiram o gesto e então aconteceu sua primeira reunião como a Deusa da Justiça. Foi muito mais longa do que esperava e por mais que ela tentasse era difícil prestar atenção em todos os pormenores, até porque ela não entedia metade do que estavam falando. Nomes de líderes, terras, batalhas… muitas batalhas… em meio a tanta informação, Atena passou a decifrar a origem de cada um daqueles guerreiros. Queria saber seus nomes, entender seu cosmo. A qual deus tinham feito juramento e se herdaram alguma armadura sagrada.
As insígnias revelavam suas origens, contudo ela percebeu que algo em seu íntimo lhe contava a índole e os poderes de quem observava. O rapaz que "sorria com o olhos" lhe trazia acalento, harmonia, e atestou que seria o Cavaleiro de Libra. Ao seu lado, o jovem de expressão analítica seria o Cavaleiro de Aquário, o de postura reservada era o de Capricórnio. O loiro de voz indiferente era o Cavaleiro de Virgem, o de postura reservada o Cavaleiro de Capricórnio.
Um dos guerreiros dourados em particular lhe chamara muita atenção pela similaridade física com Aiolos e Sisifos. Deveria ser o irmão mais novo, o que seu guardião constantemente citava e era herdeiro de um presente de Apolo, a armadura de Leão. Notou que constantemente ele olhava para o cenário em busca de algo e só aquietou quando um guerreiro muito alto e moreno entrou no recinto. Esse foi fácil de identificar, ele ainda usava a armadura de Touro e viera com algumas amazonas. Todos do pequeno grupo usavam vestimentas sujas, pareciam até recém-saído de uma guerra. Pela expressão de alívio de todos presentes era isso mesmo, eles acabaram de sair de uma batalha.
Atena viu quando o Cavaleiro de Leão tocou o pulso de uma das amazonas ruivas, o cumprimento íntimo não a assustou, muito pelo contrário, ela parou e tocou em sua mão por um tempo como se o apaziguasse. Seu olhar era de uma caçadora, lembrava muito o de Shaina, e condizia com a insígnia prateada de Águia de sua armadura. A jovem se afastou e foi até o fundo do Templo e Atena se questionou se realmente seria treinada por aquelas mulheres.
As discussões continuaram até que mapas da Grécia e escritos sagrados começaram a se misturar em sua mente e ela… Acordou? Se viu em uma cama macia, o corpo todo inchado e dolorido. O quão patético era aquilo, todo aquele caminho, aquele trabalho para resgatá-la e na primeira reunião… Ela dormiu!
Inspirou profundamente o ar do Santuário de Delfos tentando em vão conter as lágrimas. Dormiu como a criança humana que era e não como a deusa que esperavam. Eles mereciam muito mais do que isso e então Atena se prometeu que faria de tudo para ser uma boa líder.
Presente
A garota de cabelo arroxeado sorriu para todos no recinto. Há muitos anos Atena não via tantos guerreiros reunidos e sabia que eles também estava felizes com aquele reencontro. Avistou Shaina e Sisifos adentrando o Templo de Quíron e seu sorriso se alargou. Todos mereciam aquele momento de paz.
Se naquela primeira reunião ela dormiu antes mesmo de falarem sobre a falta de Santuário, agora ela era quem conduziria o tema:
- Agradeço muito por todos estarem aqui… Sei da dificuldade da distância, do grande esforço que cada uma dessas viagens exige, e é exatamente por causa disso que pensei em uma forma de nos mantermos seguros, independente do que está acontecendo em toda a Grécia. Nós ampliamos o meu Santuário para que mais pessoas possam morar lá. Guerreiros, essa reunião é um convite.
Τα λέμε!
