Capítulo 16 – A vida depois de você

Sua mão estava cansada de tanto bater naquela porta. Mas ele ia insistir, bateria quantas vezes fossem necessárias, gritaria e chamaria o nome dele até que sua voz sumisse. Tinha que falar com ele, precisava e nem que dormisse naquele corredor sendo ridicularizado pelos sonserinos que assistiam sua humilhação conseguiria a atenção dele.

- Severus, por favor, abre a porta. Não é o que você pensa. Deixa eu explicar. Por favor. - Implorou encostando a testa na porta. Era o terceiro dia que ia até ali e chamava por ele, em nenhum momento a porta se abriu, mas Harry continuava batendo sabendo que em algum momento ele tinha que voltar para suas tarefas.

- Harry.

Hermione o chamou com cuidado e encostou em seu ombro fazendo o jovem a olhar, seus olhos não estavam marejados, mas traziam a tristeza de quem estava quase desistindo. A menina odiava ver o amigo daquela forma, mas dessa vez não tinha nada para fazer que pudesse ajudá-lo e Harry sabia disso, ele sabia que a culpa era sua e apenas sua. Nem mesmo adiantava questionar-se o porque fizera aquilo, pois nenhuma resposta mudaria o fato de que beijara Gui e Severus viu, só queria não ter desmaiado e ter corrido atrás do professor pedindo seu perdão.

- Harry, ele não está.

- Eu sei, eu sei Mione, eu sei. Mas eu preciso continuar, eu preciso que ele saiba que não tem nada entre eu e o Gui e que eu o amo.

Dois sonserinos estavam passando por ali naquele momento e balbuciaram algo olhando para os grifinórios. Harry ergueu a varinha fazendo-os recuarem para a parede.

- Estão rindo do que seus idiotas? – Bradou Harry. – Por que eu disse que amo Severus Snape? Eu amo mesmo e amo com todas as minhas forças e vou amaldiçoar todos que rirem de nossa relação, entenderam?

- Harry abaixe essa varinha, agora! – Exigiu Hermione entrando na frente da varinha do amigo e mandando os alunos continuarem seu caminho, os dois olharam assustados para Harry e saíram correndo. – Entendo sua dor Harry, mas você não pode ameaçar os alunos dessa escola, independente de serem da Sonserina ou não.

Os olhos de Hermione eram ameaçadores, Harry olhou para o distintivo de monitora chefe que estava preso em sua capa e engoliu o orgulho baixando a varinha, ela estava certa e só estava contra sua explosão por estar fazendo seu trabalho e claro, por estar certa.

- Onde ele está, Mione?

- É sobre isso que eu vim te procurar, McGonagall quer te ver.

Harry acenou com a cabeça e acompanhou a menina pelo corredor olhando uma última vez para a porta dos aposentos que por tantas noites fora cumplice de sua relação. Hermione o levou até a porta do escritório da diretora, se despediu e foi em direção ao salão principal. Harry respirou fundo e bateu na porta sendo convidado a entrar logo em seguida.

- Mandou me chamar diretora?

- Sim, senhor Potter, por favor entre e sente.

McGonagall aguardou o jovem se sentar e o observou com cuidado, ele tinha os ombros tensos, olheiras fundas e o rosto triste. Lamentou vê-lo assim, era realmente muito triste quando duas almas destinadas a estarem juntas se separam.

- Potter, te chamei aqui por um assunto chato.

- Onde ele está? – Perguntou Harry de supetão.

- Severus está de licença a meu mando, ele não queria e insistiu que o que aconteceu no dia dos namorados não afetaria seu desempenho, mas eu insisti e como diretora tenho mais voz de comando, ele se ausentou da escola na mesma noite enquanto o senhor estava na ala hospitalar se recuperando da bebedeira.

- Ele foi embora então. Nem mesmo me deu a chance de explicar que não tenho nada com Gui.

- Harry. – Chamou McGonagall aproximando-se da mesa e olhando atentamente nos olhos esmeralda. – Não posso dizer pelo senhor, mas eu conheço muito bem o Severus. Essa deve ter sido a primeira vez que ele se abriu e deu chance a ele e a alguém para amar e ser amado. Tente entender como ele viu tudo. Primeiro Sibila, que infelizmente, não sabe segurar as coisas na boca e não tem noção de inconveniência, depois o senhor beijando o professor Weasley. Pense como ele se sentiu traído.

- Eu não tenho nada com o Gui, eu nem sei porque fiz aquilo. Eu só, só... – Harry largou-se na cadeira olhando para sua própria mão, estava exausto emocionalmente. – Eu só queria ter a chance de me explicar.

- Dê tempo ao tempo, senhor Potter, as coisas se consertam.

- Não quero tempo, eu quero ele. Por favor, me diga onde ele está.

- Não posso. Eu prometi que não contaria e agora preciso te pedir outra coisa. – A diretora endireitou a coluna e desviou os olhos de Harry. – Sabe que devemos tudo a você por ter derrotado Voldemort e que Hogwarts sempre estará aberta para você. Mas infelizmente tenho que pedir que retorne para o Largo Grimmauld.

- O que? Por quê?

- Severus pode ser um homem bem crescido, mas é meu funcionário e eu preciso prezar pelo bem estar dele. Ele precisa voltar para a escola, para seu cargo e suas obrigações como professor e ele não fará isso enquanto o senhor estiver aqui e ainda mais batendo à porta dele todo dia.

Assim como fez com Snape, McGonagall se levantou, dirigiu-se até o lado da cadeira do menino e postou sua mão no ombro dele fazendo-o a olhar.

- Não estou banindo o senhor daqui. Hogwarts sempre será seu lar, apenas aguarde, deixe o tempo passar.

Harry assentiu, ele sabia que isso aconteceria. Sua estada na escola fora para ajudar Severus com sua recuperação e após isso, foi devido sua aproximação, agora não havia motivo para continuar ali e foi com um peso na alma que Harry constatou que Snape mandara todos os seus pertences que estavam nos aposentos do professor para o quarto que não usava há meses. Sentindo o coração arder guardou suas coisas com ajuda de Hermione e saiu dos terrenos da escola desaparatando diretamente no Largo Grimmauld.

Aquela casa estava vazia e fria, ainda que Monstro a mantivesse limpa e conservada, Harry sabia que não havia felicidade para ele ali. O grifinório subiu ao quarto que ocupava, o mesmo que era de Sirius, se jogou na cama e sem se importar em ser escutado chorou a dor da distância de Snape.

Snape que acabara de receber o patrono de Minerva dizendo-lhe que seu retorno era esperado dentro de uma semana, que poderia ficar onde estava por mais uma semana e que aquele não era um pedido de amiga e sim uma ordem da diretora da escola. Snape sabia que McGonagall usara essa carta apenas porque ele como professor e uma pessoa que sabia obedecer a hierarquia, jamais desobedeceria. A casa onde estava fora oferecida pela própria diretora após muita negação de sua parte. Por si mesmo nem teria saído da escola, continuaria seus afazeres normalmente. O que houvera com Potter seria resolvido rapidamente. Diria ao menino que tudo que acontecera entre os dois não passava de nada, exatamente nada. Não havia significado e então o tiraria de sua vida, o deixaria viver fosse com quem fosse, onde quer que fosse. Mas antes mesmo do dia raiar Minerva o mandou tirar uma licença e que ela resolveria a situação como se fosse uma criança que precisava da intervenção da mãe.

No fundo, lá no inconsciente onde sua razão não conseguia intervir, Snape sabia que não conseguiria encarar Harry após ver os mesmos lábios que recebera seu primeiro beijo, beijar os lábios de outra pessoa. Justo depois de tantos pedidos para que tentasse, para que se esforçasse, para que namorasse. Se negava a pensar nisso, mas sentia em seu âmago que fora traído por aquele a quem abriu seu coração como jamais abrira antes. Chegara algumas vezes a sonhar com um futuro, com a rotina monótona da monogamia a que teria escolhido viver junto ao grifinório. E em seus sonhos mais loucos ouvia até mesmo a risada de um pequeno menininho de cabelos negros e olhos verdes. Era nessas noites que seu braço apertava o corpo dele com mais força.

Agora não havia o corpo quente de Harry ao seu lado na cama, estava vazia e fria.

Caminhou até diante da sacada do quarto e avistou a lua no céu, estava cheia e brilhosa, havia uma brisa gélida que bateu em seu rosto, esforçou-se para esquecer os momentos de frio onde se aconchegava nos braços quentes dele. Esforçou-se para esquecer a voz, a risada e o cheiro. Precisava esquecer Harry Potter. Deixá-lo do passado, apenas no passado.

Os dias passaram rápido, no fim aquela semana fora produtiva, conseguira se concentrar em leituras que sempre deixava para depois, além de seguir treinando sua magia que segundo Madame Pomfrey deveria ser sempre estimulada para seguir com sua pureza e força. Quando a licença terminou, Snape retornou para o castelo e para suas tarefas diárias. Os anos como comensal o ajudaram a conseguir guardar as emoções no fundo de sua alma, precisava seguir sem sentir, sem lembrar e sem sentir falta. Seguia a risca seus compromissos e então voltara a ser o mesmo professor ranzinza de sempre o que não tinha reparado que deixara de ser. Os alunos que se acostumaram a um Snape mais ameno foram pegos de surpresa com as três detenções que ele dera em uma de suas aulas, assim como as injurias e insultos que receberam.

O professor voltara a sua forma de antes, calado, sério e antissocial, nem mesmo Minerva conseguia chegar perto para trocar uma palavra com ele que não participava mais das refeições a mesa principal e nem nas reuniões com os diretores da casa para não se deparar com Weasley. Snape voltara a ser Snape.

Mas a verdade é que Snape jamais voltaria a ser o que era antes, pois algo havia mudado e a força de um amor como o que dera a Harry não ficava escondido sob um manto de escuridão, aquele amor vem à tona junto com as mágoas e tristezas. Minerva sabia disso e estava aguardando esse momento que chegou pela voz de uma enfermeira muito brava.

- Diretora, precisa dar um jeito nele. É o quinto aluno que recebo durante a segunda aula, não chegamos nem no horário do almoço, isso porque não estou contando os de ontem que ainda estão em observação. Severus não pode testar todas as poções nos alunos só porque citaram o romance entre ele e Potter. Isso precisa acabar. – Disse Papoula entregando o relatório das crianças que estavam em sua enfermaria. Minerva descansou o corpo em sua cadeira e olhou para a enfermeira sabendo que precisava tomar uma atitude com rapidez.

- Eu sei. Eu sei. Vou conversar com ele ainda hoje.

- Se me permite, diretora. – Falou Gui Weasley que estava em reunião no gabinete da diretora antes da enfermeira entrar de surpresa com reclamações. – Eu gostaria de conversar com o professor Snape.

- Acha mesmo uma boa ideia? Visto que foi você que Potter beijou.

- Com certeza não é uma boa ideia, mas eu preciso me esclarecer com ele de qualquer forma.

- Está bem, mas esteja avisado Weasley, Severus é bem intragável quando está da forma que está agora.

- Acho que consigo lidar com ele, com licença.

Quando o sinal tocou, os alunos saíram com a maior rapidez possível da sala de aula de poções. Snape estava em sua mesa catalogando as poções que os alunos deixaram ali antes de sair, sua expressão era de completo desprezo, não havia uma única poção decente dentro daqueles vidrinhos. A movimentação dos alunos saindo não lhe chamou atenção, mas seus olhos se moveram em direção a porta quando os cabelos compridos de Weasley passaram por ela.

- Professor Snape, será que podemos conversar? – Pediu Gui educadamente.

- Acredito que não tenhamos nada para conversar, professor Weasley, e o que tiver pode esperar a reunião de professores na próxima semana.

Gui deu um risinho baixo, realmente seria muito difícil dialogar com ele. Com um movimento de varinha fechou a porta da sala abafando o barulho que vinha do corredor.

- Snape, aquilo que viu não foi nada. Harry estava bêbado.

- Professor Weasley, suas intimidades com seja quem for não me interessam. Se me der licença, tenho muito trabalho péssimo para corrigir. – Disse Snape levantando-se e indo em direção a porta.

- Eu não gosto do Harry. – Snape parou com a mão na maçaneta ao ouvir aquela frase. – Não dessa forma, nunca desejei Harry, ele é uma pessoa por quem tenho um carinho imenso, que cresceu na casa de meus pais, um amigo.

- Eu vi a intensidade de sua amizade.

- Ele o ama como nunca vi uma pessoa amar a outra. E sei que você o ama também.

- Tem sorte por ser um professor, Weasley, pois eu poderia fazer um favor a sua mãe fazendo sumir seus cabelos grandes junto com seu corpo.

- Com certeza poderia e não duvido de seu poder Snape. – Respondeu Gui com um sorriso nos lábios. – Mas sumir comigo não fará sentir menos amor do que sente. Pode se fazer de comensal o quanto for, eu sei que o ama, pois eu já amei uma pessoa como você amou a ele.

Gui se aproximou de Snape que o encarava com olhos perigosos.

- Você sente o cheiro dele ainda, sabe exatamente a textura da pele e seus dedos ficam estranhos tateando a cama vazia. O quarto não se ilumina mais como antes e as paredes são frias sem o som da risada reverberando. Você se sente pesado e vazio. A vida depois da entrada dele era muito mais gostosa. Não era? – Snape não se moveu, não respondeu, quase não respirava. – Eu passei por isso, quando Fleur me deixou. É como se nossa vida não valesse mais nada, como se nem valesse a pena viver, pois não dá para voltar ao antes. Fleur me deixou por amar a outro. Harry ainda ama você. Aquele beijo foi um momento de tristeza e bebedeira dele. Um que tenho certeza ele se arrepende amargamente. Não significou nada. Ele disse que deveria ter escolhido a mim por ser mais fácil, mas a verdade é que ele escolheu você. De todas as pessoas do mundo, ele escolheu você, escolheu te aceitar, amar e esperar.

- Palavras bonitas que não mudam nada.

- Harry está ficando na Toca a pedido de mamãe, pois ele não estava se alimentando, ele está se deprimindo e definhando. A culpa o está corroendo e não é do colo da mamãe que ele precisa. – Gui abriu a porta da sala e saiu para o corredor voltando a encarar o professor por poucos segundos. – Eu não tenho mais chance com Fleur, mas Harry ainda é completamente apaixonado por você. Não perca essa chance devido um erro.

Snape observou o ruivo andar pelo corredor e sumir na esquina seguinte. Tentando ignorar as palavras dita pelo diretor da Grifinória, arrumou os papeis necessários em seu braço e rumou para seus aposentos. Novamente não pediu o almoço, estava sem fome e agora estava completamente sem concentração para corrigir os trabalhos do quinto ano. Tudo que conseguia pensar era nos sentimentos que estivera escondendo e que agora estavam beirando sua mente, jogando imagens dele e de tudo que viveram desde que os olhos verdes o encontraram em ST'Mungus e então se prendeu na lembrança mais simples e linda que tinha em sua memória. Harry sentado na mesma poltrona de sempre o encarando e esperando que terminasse sua leitura, quando terminou o encarou de volta e viu um sorriso leve nos lábios vermelhos, o menino piscou levemente, o encarou e disse suavemente, quase um sussurro.

"Eu te amo, Severus"

Fora a primeira vez que ouvira aquelas palavras e ninguém jamais saberia como seu coração pulara dentro do peito. Pulara, pois sabia que era verdade, sentia que era verdade e pior ainda, sabia que sentia o mesmo. Não houve abraços ou beijos, nem ia para a cama, os dois permaneceram sentados de frente um para o outro apenas se encarando, sentindo no ar o amor que ambos tinham um pelo outro.

Seus dedos passaram pela poltrona que Harry sentara em sua lembrança, pôde sentir o tremer de sua energia. Respirou fundo liberando todas as amarras de sua mente e ofegou com a avalanche de sentimentos que vieram a tona. Percebera então que Harry estava em tudo, que jamais conseguiria tirá-lo de sua vida, pois agora sua vida era Harry.

A ultima coisa que pensou antes de bater a porta as suas costas era que precisava ter sua vida de volta.