N/A: Espero que gostem!

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Gambit observou a nave se aproximar e tomou sua decisão.

"Eu preciso voltar" ele anunciou.

Vampira se virou rapidamente na sua direção, no rosto uma expressão que fazia perplexidade e incredulidade se confundirem. Relanceou o Pássaro Negro, que pousava no campo a cerca de cem metros deles, e voltou a encará-lo.

"Por quê?" ela perguntou quase sem fôlego como se um soco no estômago tivesse lhe cortado a respiração.

Com o rosto levemente pálido e a lividez do hematoma abaixo do seu olho direito, Gambit parecia anormalmente vulnerável. "Você está a salvo agora. Vá para o Pássaro—"

"Remy, por que você quer voltar?" ela reiterou, respirando ruidosamente. A agitação da corrida e o impacto das emoções fizeram seu coração acelerar a ponto de fazer seu peito doer.

Ele titubeou antes de responder, olhando por cima dos ombros dela a nave que pousava. "Tem algo que eu preciso fazer" ele a segurou pelos ombros, olhos penetrados nos dela. "Eu vou voltar."

Ela prendeu a respiração e sentiu as pernas vacilarem. "Remy..." disse fracamente. Bem quando achou que haviam escapado daquele inferno, ele queria voltar voluntariamente. Apesar de querer arrastá-lo para o Pássaro Negro, para longe dali, para longe daquele monstro. Sentiu-se como uma boneca de pano sendo partida ao meio.

"Prometo que vou voltar" ele reiterou olhando nos olhos dela com uma intensidade que implorava para que ela acreditasse.

Vampira o olhou nos olhos e finalmente assentiu. Se ele estava decidido, argumentar serviria apenas para atrasá-lo. Assistiu-o sumir antes de correr em direção à nave que acabara de pousar. Havia percorrido metade da distância quando Kurt apareceu ao seu lado e a transportou sem aviso para dentro do Pássaro. Devido às circunstâncias, Vampira sentiu um mal-estar e o estômago embrulhar mesmo estando acostumada com as caronas do irmão. Kurt a ajudou a manter o equilíbrio ao não soltar o seu braço.

Wolverine a olhou de cima a baixo, com o cenho franzido. Qualquer um que não conhecesse o canadense deduziria erroneamente que seu semblante era de cólera. Vampira, por sua vez, conhecia aquele olhar, sabia que significava preocupação.

"Você está bem, guria?" sua voz era tensa, entre dentes trincados.

Ela fez que sim. "Estou bem."

"Onde estão os outros?"

"Ainda estão lá dentro" ela respondeu, atordoada. Uma nova onda de indisposição a acometeu e ela se sentou para se recompor.

Hank se aproximou para olhá-la de perto, examinou a dilatação nas suas pupilas. Vampira não estava aparentemente ferida a não ser pelo antebraço. Ele entregou a ela um comprimido ao notar que sua pressão havia caído. Pediu para lhe trazerem água e a mandou baixar a cabeça, para aumentar a circulação até sua pressão voltar ao normal. "Assim que trouxermos os outros, vou examiná-la apropriadamente. Kurt, fique aqui com ela" o elfo assentiu.

Vendo que Vampira ficaria bem, Wolverine bradou impacientemente. "Vamos!" antes de sair em disparada. Tempestade voou atrás dele.

Hank ergueu o Professor nos braços. "Pronto. Kurt?"

"Eu já volto, mana" Kurt disse a Vampira antes de se transportar levando o Professor, Hank e Kitty a tiracolo. Voltou em questão de segundos e se sentou ao lado dela. "Você chegou a ver os outros?"

Vampira bebeu mais da garrafa de água que Kurt havia lhe dado antes de responder. "Eu e Remy tentamos encontrá-los antes de fugir, mas não conseguimos."

Kurt fez uma leve careta à menção de Gambit, afinal, o Cajun sabia que Vampira estava em risco antes de tudo acontecer, e, por seus próprios motivos, omitiu essa informação. Indagou-se por que Gambit não estava com ela, mas decidiu não perguntar. "Você acha que o Scott e a Jean estão bem?"

Vampira o encarou de soslaio antes de responder com franqueza. "Eu não sei, Kurt. Acho que pode ter alguma coisa errada com a Jean."

Kurt engoliu em seco ao perguntar: "Por que diz isso?"

"Porque eu senti."

Quando sua tontura passou, Vampira se pôs em pé e olhou para fora em silêncio.

Em um frenesi, Wolverine tomou a dianteira e disparou à frente, guiado por seus sentidos apurados. Havia captado o cheiro de Jean e nada o pararia até que a encontrasse. Tempestade conseguiu acompanhá-lo apenas em voo. Vendo Wolverine correr desenfreado, as garras em riste e o corpo curvado em posição de ataque, Tempestade se viu aliviada por ninguém atravessar o seu caminho, pois qualquer um que atravessasse terminaria morto.

Em pulos altos e aterrisagens leves, Fera avançava rapidamente, mesmo trazendo o Professor nos braços, enquanto Lince Negra corria desesperadamente atrás deles, temendo perdê-los de vista. O Professor havia lhe dito que a guiaria telepaticamente, mas a última coisa que a garota queria era se encontrar sozinha naqueles corredores estéreis. Wolverine e Tempestade estavam longe de vista, mas Xavier os seguia por telepatia. Havia uma força descomunal vinda de onde sentia a presença de Jean e Scott, uma força que o intrigava e preocupava.

"Força bruta não vai adiantar, Logan" disse o Professor assim que chegou ao destino e viu Wolverine usando suas garras de adamantium freneticamente contra uma parede invisível aos olhos.

"É a Jean, não é?" perguntou Wolverine.

"Deixe-me tentar" respondeu o Professor após abanar a cabeça afirmativamente. Contudo, instantes antes de usar seus poderes para transpor a barreira, ela evaporou. O grupo correu para dentro sem hesitação.

Jean estava literalmente em chamas, flutuando com asas de fogo que incendiavam o laboratório. Labaredas lambiam tudo ao redor, indiscriminadamente. Os X-Men assistiram à cena boquiabertos.

O Professor foi o primeiro a sair do torpor, tentou se comunicar com Jean telepaticamente, mas foi bloqueado. Arfou ao sentir uma pontada dolorosa na cabeça. Notando que o Professor surpreendentemente não conseguiu alcançá-la, Ciclope berrou o nome dela. A criatura de fogo ainda era a Jean, ele ainda sentia seu link telepático. Ela pareceu ouvir o chamado e voltou o rosto na direção de Ciclope. As chamas começaram a diminuir.

Do outro lado do laboratório, Sinistro notou que ela enfraquecia, sentiu o controle sobre ele diminuir e encontrou sua chance de escapar. Ao mesmo tempo, Wolverine saltou na sua direção, mas os Carrascos entraram no caminho. Enquanto estes lhe davam cobertura, Sinistro correu para uma abertura do lado oposto a qual os X-Men haviam entrado e desapareceu. Seus capangas fizeram o mesmo. Wolverine e Tempestade tentaram impedi-los, mas uma porta maciça se fechou atrás dos vilões em fuga. As garras de Wolverine arranharam a porta até rasgá-la. Do outro lado havia um corredor curto e outra porta, tão resistente quanto a anterior. Wolverine e Tempestade se entreolharam. Era tarde demais.

"Chame-a novamente, Scott" clamou o Professor, percebendo que a resistência de Jean definhava.

O rapaz assentiu e novamente gritou o seu nome. Mais uma vez, as chamas pareceram diminuir, e então se apagaram de uma vez. Jean voltou a ser ela mesma e desfaleceu. Ciclope correu para ampará-la, mas sem a ajuda dela, seus poderes descontrolados retornaram. Girou o rosto para o chão e com esforço conseguiu fechar os olhos.

"Acho que você precisa disto aqui" Ciclope ouviu Kitty dizer ao lhe entregar os seus visores.

"Obrigado."

"Agradeça ao Hank."

Ele agradeceu com um aceno de cabeça e amparou Jean, que havia caído ao chão. O Professor fez uma nova tentativa de penetrar a mente dela e, aliviado, constatou que ela havia voltado ao normal, embora estivesse fraca.

Neste ínterim, Tempestade usou os seus poderes para fazer chover e extinguir o fogo. Agindo com rapidez, Hank e Kitty analisaram o que restava dos computadores, na tentativa de salvar qualquer coisa, mas foi em vão. O que não estava queimado, estava molhado ou faltando. Hank se indagou se Sinistro teve tempo de levar amostras e informações consigo em meio ao caos.

Logo se apressaram para fora dali. Jean precisava ser levada para a mansão o mais rápido possível. Guiada pelo Professor, Kitty atravessou paredes levando todos consigo. Mesmo que precisasse ser em turnos, seus poderes de intangibilidade encurtaram o caminho de volta exponencialmente. Assim que avistou o grupo, Noturno os levou de volta à nave em duas viagens.

"E o Remy?" Vampira perguntou, assim que embarcaram, levantando-se do seu lugar com um pulo. Tinha esperanças de que Gambit voltasse com o restante do grupo.

"Não o vimos" respondeu Hank.

Aflita, ela recorreu ao Professor, que procurou por ele. "Gambit ainda está lá dentro."

"Por que ele ainda não voltou? Ele está ferido?"

"Não sei" Xavier tentou ver, mas Jean o deixara mentalmente exausto, sem falar que Gambit nunca fora fácil de espiar.

"Vamos embora" mandou Wolverine.

Vampira o encarou, magoada, e ele fingiu não ver, fugiu dos seus olhos. "Não deixamos nenhum dos nosso para trás, Logan."

Wolverine rosnou, se segurando para não dizer que Gambit não era um deles. A cada segundo que desperdiçavam, mais tempo os três jovens ficavam sem cuidados médicos. Não poria a vida deles em risco em prol de um garoto larápio que conseguiria se virar sozinho. Independentemente do que Vampira podia sentir por ele, Gambit era um ex-Acólito que havia ocultado informações essenciais por motivos que Wolverine estava convencido de que eram egoístas; nunca caíra na sua conversa de boas intenções.

De qualquer forma, o Professor interveio. "Não, não deixamos, mas não podemos todos ficar."

"Eu vou ficar" Vampira se adiantou enquanto ia resignadamente em direção à saída da nave.

"Nem pense nisso, guria" Wolverine ameaçou.

Ela fingiu não ouvir, não tinha tempo para brigas, porém parou ao ouvir Hank, que era sempre ponderado e sensato. "Vocês três devem ir para a enfermaria assim que chegarem à mansão."

"Eu fico" disse Tempestade, deixando seu posto de piloto – havia outros que poderiam pilotar a nave. Flutuou para fora, mas parou poucos metros depois ao avistar Gambit.

Vampira olhou para Kurt com olhos suplicantes, e ele sumiu, deixando apenas um rastro de enxofre para trás.

Apareceu ao lado de Gambit, que se sobressaltou. Tentava correr, mas devido à dor forte no abdômen, apenas claudicava. "Precisando de carona, mein freund?" deitou o braço sobre o ombro dele e os dois desapareceram.

Com todos a bordo, a nave decolou com Tempestade novamente no posto de piloto. Fera tomava o pulso de Jean, constatando que embora lento, estava constante.

Gambit se escorou na parede próxima à porta da nave assim que ela se fechou. Vampira se aproximou dele e lhe tocou o braço de leve. De perto, viu que havia borrões negros de fuligem na roupa e na pele dele.

"Eu disse que ia voltar" ele falou com um sorriso, tentando tornar a situação mais leve, contudo Vampira o encarava com preocupação. Ele estava pálido, ofegante e curvado de dor. Desajeitada devido às luvas largas que havia tirado do capanga, Vampira ergueu a camiseta de Gambit e viu um hematoma roxo que se estendia pelo abdômen.

"Eu estou bem" ele garantiu. "Já tive ferimentos muito mais graves. Ossos do ofício" acrescentou, encolhendo os ombros de leve.

"Por que você voltou lá, afinal?"

"Eu não podia perder a chance de vasculhar o lugar."

"Você podia ter morrido" ela não conseguiu deixar de dizer antes de rapidamente trocar de assunto. "Encontrou alguma coisa pelo menos?"

"Encontrei isto em uma espécie de escritório antes que fosse tomado pelo fogo" retirou uma porção de papéis amassados, escondidos nas costas, presos ao elástico da calça. "Podem ser úteis."

"Tão úteis quanto as informações que escondeu de nós?" Wolverine indagou com a voz desnecessariamente alta. Vira os dois confabulando e se aproximou para ouvir. "Estava pensando em esconder isso também?"

"Não sei do que você está falando."

Cansado dos joguinhos do Cajun, Wolverine resolveu jogar tudo ao vento. "Nós encontramos as fichas que você escondeu sobre Vampira, Jean e Scott serem alvos de Sinistro."

Mesmo Ciclope, absorto com Jean em seus braços, levantou a cabeça, perplexo. "O quê? Você sabia que éramos alvos e não nos contou? O que você ganhou ao esconder isso de nós? Jean está ferida por sua culpa."

"Não vamos apontar dedos" interpelou o Professor. "Teremos tempo de conversar sobre isso mais tarde, de cabeça fria."

"Eu também sabia" Vampira confessou, ignorando o conselho do Professor. Fugiu da expressão magoada de Scott, preferindo encarar os próprios pés, embora soubesse que suas bochechas queimavam.

"Non. Eu a convenci a não cont–"

"Não, Remy. Não precisa mentir por mim. Eu soube e concordei em não contar" ela bravamente olhou para Scott. Não se arrependia de não ter contado, ainda assim, se sentia culpada. "Saber foi um tormento, e mesmo assim eles me levaram também. Não saber lhes poupou sofrimento" ela então se calou, embora soubesse que seus argumentos eram demasiadamente fracos.

Ciclope chacoalhou a cabeça com a cara fechada. "Você não tinha o direito" disse antes de voltar a atenção para a garota no seu colo.

A cabeça de Vampira pendeu de vergonha e derrota por um momento, então ela mudou de postura e seu tom de voz se tornou mais forte e incisivo. "Se o Gambit não tivesse trazido aquelas informações sobre o Sinistro, nem saberíamos que estávamos em perigo, estaríamos completamente no escuro e sem pistas sobre quem nos raptara."

As palavras de Vampira surtiram o efeito esperado, e ela se calou. Ninguém mais disse palavra. Observando o rosto de Gambit, ela não conseguiu compreender sua expressão.

De volta à mansão, Jean foi levada às pressas para a enfermaria. Mesmo exausto, Scott recusou ajuda e carregou Jean nos braços. Deitou-a na cama da enfermaria com cuidado quase excessivo e viu a cabeça dela tombar para o lado. Fez um movimento brusco para a frente, mas Hank lhe tocou o braço de forma apaziguadora, compreendendo o que o rapaz sentia.

"Ela está apenas desacordada, Scott" afirmou o doutor. Sabia que Jean respirava, mas sabia também que seus batimentos estavam lentos, por mais que ela estivesse fisicamente incólume. Pacientemente convenceu o rapaz a deixar o quarto. Ainda assim, Ciclope hesitou. Wolverine, que assistia a tudo da porta, entrou e impulsionou o rapaz para fora, fechando a porta atrás deles. Para os padrões de Wolverine, os empurrões foram gentis.

"Espere aqui" mandou Wolverine ao entrarem no quarto ao lado, anexo à enfermaria, onde havia outras duas camas simples de hospital, ocupadas por Gambit e Vampira. A enfermaria propriamente dita havia sido dedicada à Jean. Sentada na cama mais próxima à porta, Vampira se afastou para dar espaço para Ciclope se sentar. "Vou providenciar outra cama" disse Wolverine ao se retirar, não sem antes lançar um olhar de antipatia direcionado a Gambit.

Fatigados e abalados, os três esperaram enquanto Jean era atendida, naquele momento ela era a prioridade. Permaneceram em silêncio e cabisbaixos. Enquanto isso, Hank e Xavier cuidavam dela, de sua integridade física e mental, respectivamente.

Com a ajuda de Noturno, Wolverine levou a cama prometida, posicionando-a contra a parede, oposta às outras duas. Ciclope, que havia permanecido em pé, andando de um lado para o outro, acabou se rendendo e despencando sobre a cama, com as costas recostadas na parede.

Wolverine manteve sua fachada bravia, mesmo que estivesse grato por tê-los de volta. Embora Jean ainda estivesse desacordada, os três estavam de volta sob o teto do Instituo. Wolverine passara os dias anteriores remoendo os eventos que os levaram até ali. Não fosse pela camaradagem e união do grupo, ele teria se deixado corroer pela culpa. Houve momentos em que o desânimo e a impotência voltaram seus pensamentos para os piores desfechos.

De braços cruzados, escorado na parede, Wolverine observava os três jovens em silêncio, cada um sentado ou deitado em uma das camas, com os semblantes cansados e aflitos. Seus olhos, que circulavam ao redor do quarto, paravam sobre Gambit por tempo demais e com muita frequência. Entendia por que o rapaz permanecia no Instituto, mas não gostava tampouco concordava com sua presença. Sua birra pelo Cajun, que havia diminuído com o tempo, havia sido reavivada ao descobrir os documentos ocultados. Não importava que esses documentos não fossem imprescindíveis ou não tivessem mudado o desfecho; Gambit havia mentido para eles, abusado de sua confiança ingênua. O passado como Acólito e sua vida de ladrão não eram os únicos ou sequer os principais motivos para o desdém que Wolverine sentia por Gambit (seu próprio passado e ofício eram ainda mais questionáveis), mas sim saber que não poderia confiar nele. O garoto mentia bem demais, era esperto e safo demais, e, no centro de tudo, havia seu interesse por Vampira. Se ela saísse magoada, Wolverine estaria disposto a caçá-lo e acabar com sua raça.

Sem jeito, ele se aproximou dos pés da cama de Vampira. Sentada meio encolhida, ela ergueu os olhos para ele e lhe ofereceu um sorrisinho fraco. Logan não admitiria, mas ficou aliviado, pois achou que Vampira estivesse com rancor pelo que ele havia dito no Pássaro Negro. Vampira estava abatida, mas parecia bem. Sabia o quanto a garota era forte e se orgulhava dela, a treinara para ser confiante e autossuficiente. Um dos motivos de nunca ter aprovado a sua aproximação com Gambit. Odiava imaginá-la vulnerável nas mãos manipuladoras do rapaz.

Antes de se retirar, Wolverine não conseguiu reprimir outro olhar de desdém endereçado a Gambit. Vampira notou e baixou os olhos, achando que Wolverine soubesse o que havia acontecido entre eles. Entretanto, deduziu que era a sua imaginação. Wolverine era desconfiado por natureza, e, por mais que o respeitasse, o que acontecera entre ela e Remy não dizia respeito a ele, menos ainda quando se mostrava tão tendencioso e inflexível.

Pouco depois, Kurt se juntou ao grupo, sua presença tranquilizadora amenizou o clima denso. "Vocês precisam de alguma coisa?" perguntou o elfo, sempre prestativo.

"Um banho" respondeu Vampira, com um sorrisinho, em uma tentativa meio patética de fazer uma piada, que se perdeu em meio à seriedade. Haviam sido instruídos a esperar por Hank, que logo viria cuidar dos ferimentos nos pulsos.

Kurt sumiu e voltou com uma jarra d'água e sanduíches. Tomaram a água rapidamente, percebendo então que estavam sedentos, porém não tocaram na comida.

Foi uma espera de pouco mais de vinte minutos até Hank finalmente poder ir vê-los. Ciclope se levantou com um movimento rápido e brusco, que, somado com a expectativa, o deixou levemente zonzo.

"Jean não está ferida fisicamente" assegurou o doutor. Ela sequer tinha o ferimento no braço como os outros, o que intrigava Hank.

"E a mente dela?" perguntou Scott, receoso. Seu elo mental com Jean estava intacto, porém silencioso, como quando ela estava adormecida.

Hank retirou os óculos meia-lua com ar cansado e soltou um suspiro antes de responder: "Xavier não encontrou nada de errado com Jean. Acredita que ela esteja apenas esgotada, que uma noite de descanso seja o bastante para despertá-la."

"Posso vê-la?"

"Xavier está cuidando dela. Preciso examiná-lo primeiro, meu caro Scott."

Hank pediu para Kurt buscar Kitty, que havia prontamente se voluntariado para ajudar o doutor e imitar seus gestos. Assim, o dr. McCoy e sua assistente limparam os ferimentos, aplicaram remédio, e, com uma pinça fina e delicada, Hank extraiu o que havia restado dos chips, depositando-os em um prato metálico. Analisou o dispositivo diminuto na ponta da pinça, intrigado.

"Não sei como" disse Vampira, em voz baixa, enquanto tinha o braço enfaixado pelo doutor, "mas isso inibiu nossos poderes. Você vai estudá-lo, Hank?" ele fez que sim com a cabeça e ela perguntou timidamente, olhando para baixo, não mais que em um murmúrio: "Acha que ainda funciona?"

"Aparentemente não sobrou nada além da carcaça. Sinto muito" completou, deitando a mão grande e azul no ombro dela. Hank compreendia, melhor que a maioria, a razão da pergunta. "Que tal aquele banho?" disse com uma piscadela.

Vampira assentiu, mas levou ainda alguns instantes até reunir forças para se levantar. Deixou o quarto com passos tortuosamente lentos, sentindo-se exaurida. Ciclope também hesitou, precisando de reafirmação antes de deixar Jean na enfermaria. Kitty os acompanhou escada acima, para apoio moral. Gambit permaneceu a pedido de Hank, já que, ao contrário dos outros dois, tinha outros ferimentos prementes.

"Seus hematomas" comentou Hank com bom humor "me diz que você deu trabalho para os agressores."

Quase inconscientemente Gambit deu um sorrisinho. Nunca tinha parado para pensar que estimava o doutor. Havia algo de simpático e apaziguador em seu tom de voz, e certa humanidade em seus olhos azuis, que contrastava com sua fisionomia animalesca. Assim como Ororo, Hank pareceu ter aceitado sua presença na mansão. Era um descanso dos olhos acusadores e maníacos de Logan.

"Desta vez não fui páreo" respondeu Gambit. "Não seria a primeira que que me meti com gente maior que eu" disse com leveza, lembrando-se de quantas vezes havia entrado em brigas com garotos maiores. Embora tivesse apanhado inúmeras vezes, os valentões também saíam sempre feridos.

Hank soltou uma risadinha compreensiva. "Entendo bem."

"Você, doutor?" Gambit não conseguiu reprimir o tom surpreso.

"Eu fazia parte do Clube de ciências, sim" respondeu, em tom de confidência, "mas também jogava futebol americano" completou com uma piscadela e um sorriso confiante antes de voltar ao tom profissional. "Seu rosto não vai precisar de pontos, mas você está com uma costela fraturada. Vou administrar medicação para aliviar a dor. Não vai poder se esforçar pelas próximas semanas."

"Não sei se é algo que posso garantir, doutor."

"Faça um esforço" disse Hank com uma piscadela simpática.

Gambit subiu para tomar banho e percebeu que até mesmo o movimento de erguer os braços para retirar a camiseta lhe causou dor. Olhando-se no espelho, viu o hematoma enorme, que já começava a mudar de cor. A água quente aliviou a dor, assim como os analgésicos. Quando Gambit voltou ao quarto ao lado da enfermaria, obedecendo às ordens do doutor, Vampira já havia retornado. Ela estava sentada na mesma cama de antes, assim como Scott, que parecia emburrado e desalentado por esperar ali ao invés de estar ao lado de Jean. O Professor lhe aconselhou a descansar e esperar que Jean acordasse na manhã seguinte, mas Scott não tinha certeza se conseguiria pregar os olhos apesar da exaustão.

Hank voltou para enfaixar o abdômen de Gambit e perguntar como eles estavam. O doutor extraiu uma amostra de sangue deles, desculpando-se ao ver as marcas de picadas nos braços de Vampira e de Ciclope. Embora sua saúde estivesse em ordem, os três passariam aquela noite em observação. Hank afirmou que estava confiante de que eles poderiam voltar aos seus quartos para a próxima noite, contudo, ficou implícito que a sua saúde mental seria assistida de perto.

Alguns colegas passaram pelo quarto para vê-los, mas logo se foram – Hank havia permitido visitas, mas apenas curtas, aconselhando que fossem evitadas. Também exaustos, Xavier e Hank foram descansar visto que qualquer mudança no estado de Jean seria transmitida para eles.

Enquanto Gambit e Vampira se resignaram a passar a noite ali, Scott, por outro lado, se mostrava impaciente e agitado, andava de um lado para o outro, nos poucos momentos em que conseguia se sentar na cama batia os pés no chão sem parar, não sabia o que fazer com as mãos e mudava de posição com frequência. Gambit e Vampira trocaram olhares, sabendo o que estava na mente dele. Após mais alguns minutos, Gambit resolveu partir o silêncio.

"Você deveria ir ficar com ela."

Ciclope ergueu os olhos e o encarou com uma expressão que parecia brigar entre raiva, vergonha e gratidão. Era o que precisava ouvir, mesmo que não quisesse ouvir de Gambit. Não se moveu.

Gambit continuou. "Você está com medo que a Jean não acorde, é isso que está segurando você aqui. Vá ficar com ela, aproveite cada minuto que puder ao seu lado, ela vai sentir a sua presença."

Vampira, que observava Gambit, fascinada, forçou o rosto em outra direção. Engoliu em seco e esperou que seus olhos marejados secassem e que sua voz estivesse normal antes de falar baixo: "O Remy tem razão, Scott. A Jean precisa de você."

Scott tentou levantar os olhos até ela, mas hesitou. Prendeu a respiração por vários instantes e então soltou o ar ruidosamente pelo nariz e boca. Enfim, acenou com a cabeça timidamente e se levantou. Vampira o chamou antes que ele se retirasse; ele girou nos calcanhares.

"Me desculpa por não ter contado a vocês dois. Eu sei que eu não tinha o direito, mas... eu juro que só quis poupá-los da angústia."

Com complexão em branco, ele abanou a cabeça. Não sentia raiva tampouco rancor dela, na realidade, se sentia arrependido por ter injustamente culpado Gambit pelo que havia acontecido a Jean enquanto estava de cabeça quente. Mesmo assim não conseguiu dizer nada, sua garganta parecia fechada. Até mesmo depois que se sentasse na poltrona ao lado de Jean e segurasse a sua mão, levaria minutos até que conseguisse balbuciar confissões à namorada adormecida.

Os olhos de Vampira acompanharam Scott desaparecer porta afora antes de caírem sobre suas mãos deitadas no colo. Ela encolheu as pernas e as segurou com os braços. Da outra cama, em uma posição forçosamente relaxada, Gambit assistiu a cada movimento seu e a como ela evitava seus olhos, mais ainda agora que estavam sozinhos. Ele já conseguia senti-la se afastar, embora sutilmente. Ponderava se deveriam conversar ou se as palavras atrapalhariam. Ela relanceou na direção dele e então baixou os olhos novamente.

Ele se levantou com cuidado. Não deveria se mover, mas ficar preso à cama já estava o deixando impaciente. Desde criança detestava ficar encamado para se recuperar de ferimentos ou enfermidades. De qualquer forma, a dor o forçaria a se comportar, ele percebeu assim que uma pontada o atingiu ao tocar o chão, de meias. Vestia moletom completo, com o nome Instituto Xavier para Jovens Superdotados estampado no peito. Vampira trajava a mesma indumentária, com o acréscimo de luvas, que se encaixavam perfeitamente nos seus dedos esguios, e eram finas, para que o tato fosse minimamente prejudicado. Ela se afastou de leve para dar espaço para Remy se deitar ao seu lado. Ele esticou o braço e passou em volta do ombro dela, segurando um rincho de dor. Ele esperou, mas Vampira não relaxou nos seus braços.

"Vou precisar de cuidados especiais" ele murmurou, com um sorrisinho sugestivo e olhos cujos pálpebras estavam levemente caídas. Apesar do que dizia, estava ciente de que seus gestos eram tentativas desesperadas para fazer as coisas voltarem ao normal.

"Achei que já tivesse sobrevivido a situações piores" ela retrucou em provocação, com um sorriso que havia aprendido com ele. No entanto, o sorriso murchou rapidamente. Não conseguia manter a bravata por muito tempo. Estar tão próxima a ele sempre a fazia sofrer, agora muito mais que antes. Sentir o cheiro da pele dele, a calidez do seu corpo, os gestos carinhosos, seu hálito quente, sua voz... tudo a lembrava sombriamente do que não podia ter.

"Está dizendo que não vai cuidar de mim?" ele perguntou, novamente tentando fazer com que ela se soltasse. Mesmo que também sofresse por não poder lhe tocar a pele depois de tudo, ficar longe seria ainda mais tortuoso. Ela deitou a cabeça no ombro dele, mas nem assim foi capaz de relaxar os músculos.

Ela respirou fundo duas vezes, mas se acovardou antes de conseguir falar. Sentiu o aperto dos braços dele aumentar e finalmente foi capaz de dizer em tom baixo de confissão: "Depois que o Hank extraiu os chips do nosso braço, eu perguntei a ele se ainda daria para usar. Eu sou mesmo patética" completou, afundando o rosto entre o ombro e o peito dele.

Justamente ela que acreditava convictamente que soluções externas não passavam de ilusões mitigantes. Após superar as roupas góticas, ela compreendeu que aquele visual era apenas mais uma forma de intimidar as pessoas, uma carapaça para se enganar e se convencer de que não precisava de ninguém. Usar luvas era o máximo que se permitia. Certa vez havia dito para Kurt que, embora entendesse por que ele usava o dispositivo indutor de imagem fora da mansão, achava que em longo prazo serviria apenas para magoá-lo. Agora se encontrava desejando uma solução criada pelo inimigo se apenas pudesse ter mais momentos de normalidade, mesmo que por meio momentâneo e paliativo.

"Não é patético" Gambit disse, consolando-a enquanto afagava os cabelos dela. "Eu usei lentes de contato algumas vezes. Tive que mandar fazer, porque elas tinham que cobrir todo o meu olho, o que as tornava desconfortáveis. Normalmente eu usava óculos escuros durante o dia, mas eu queria algo para a noite. Aquelas lentes me fizeram me sentir normal, mesmo que por pouco tempo" os olhos que o marcavam como mutante não haviam surgido na puberdade, como os seus poderes, Gambit havia nascido com eles e sofrido por isso, desde provocações e surras quando criança até a antonomásia Le Diable Blanc. "Com o tempo eu aceitei. Mas o seu caso é diferente" disse e se moveu de modo a ficar de frente para ela. "Você não pode se resignar. Precisa encontrar uma forma de consertar os seus poderes."

"Talvez eles não tenham conserto."

"Eu não acredito nisso."

Ela retribuiu o sorriso que ele ofereceu. Desejou poder beijá-lo, mas se contentou com os lábios dele que tocaram sua cabeça, com os cabelos como escudo. Pouco depois, Gambit voltou para a outra cama, após o desconforto devido à sua costela machucada ter se tornado dor.

Apagaram as luzes e se acomodaram para tentar descansar. Vampira demorou, mas conseguiu adormecer. Acordaria apenas na manhã seguinte. Gambit, por sua vez, dormiu por algumas horas, mas despertou no meio da noite sentindo dores. O efeito dos remédios que o haviam ajudado a dormir já tinha passado.

A quietude da madrugada serviu para estimular sua mente. Seus pensamentos eram assombrados por perguntas para cujas respostas ele não possuía a chave. Caminhava em círculos e atingia muros altos. Permaneceu imóvel, com os olhos fixos no breu do teto. Estava então deitado de costas, mas havia mudado de posição várias vezes sem conseguir achar uma posição realmente confortável.

Espiando a cama ao lado, Vampira parecia adormecida, apesar de estar de costas para ele, sua respiração era regular e leve. Ele estendeu o braço e apanhou o seu celular, que estava sobre uma mesinha entre as camas ao lado dos remédios que Hank havia deixado para ele, e usou a luz fraca da tela para encontrar o correto para a dor. Mastigou um comprimido e se deitou imóvel esperando que a dor começasse a diminuir, mas mesmo depois disso acontecer, ele não conseguiu mais cair no sono.

Usando novamente a luz da tela do celular, ele tateou a blusa de moletom que havia retirado antes de tentar dormir, que então se encontrava nos pés da cama, até encontrar o que procurava no bolso da frente da roupa.

Gambit havia entregado a Xavier as folhas amassadas que havia recuperado antes que o esconderijo de Sinistro fosse consumido pelas chamas, mas, em cima da hora, desistiu de lhe entregar um item, algo que parecia menos relevante, uma mera fotografia.

Seus olhos observaram a fotografia em contemplação injustificada. Era uma foto muito antiga com a coloração sépia característica. Estava bem guardada e conservada, mesmo que indicasse falhas do tempo. Retratava uma família, um casal e uma criança pequena, com expressão séria nos rostos de quando tirar retratos era um processo demorado e dispendioso. O homem austero de cabelo escuro tinha os traços de Essex. A mulher era bonita, com os cabelos castanhos presos em um coque elegante e traços delicados no rosto fino, assim como o garotinho que aparentava não mais de quatro anos de idade. Atrás lia-se: Nathaniel, Rebecca e Adam, Londres, 1859.

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N/A: Pode parecer abrupto, mas o próximo capítulo provavelmente será o último.