– A arte da oclumência é magnífica, e exige muita concentração. O Lorde das Trevas é exímio em legilimência, então se algo sair do planejado é crucial que esteja preparada. – ele falava, sério, enquanto Hermione assentia freneticamente.
– Vou penetrar sua mente agora e quero que tente me impedir. – disse, com a varinha em punho. – Um, dois, três – Legilimens!
Os cabelos volumosos atraíam olhares zombeteiros, e sua única preocupação parecia ser os livros em seus braços, os quais ela agarrava contra o peito. Ela aparentava indiferença e empinava o nariz enquanto seguia para a biblioteca, mas os comentários a afetavam. Em outro momento ela já estava um pouco mais velha, e sua gargalhada ecoava enquanto os amigos falavam algo engraçado. Depois, Hermione procurava um livro na sessão restrita da biblioteca... Conversava alegre com seus pais, enquanto tomavam chá...
– Pare! – ela gritou, com lágrimas nos olhos, arfando.
– Não se controlou o suficiente, Granger. Concentre-se antes que eu penetre sua mente, depois fica mais difícil recuperar a energia necessária para me impedir. Eu vi muita coisa. – disse, tentando controlar a impaciência e soar mais educado.
– Sinto muito, vamos tentar de novo.
– Pronta? – perguntou, pegando a varinha. Hermione assentiu, e ele já estava em sua mente de novo.
Hermione preparava a Poção Polissuco no banheiro feminino... Sua pele coberta de pelos... Ela voando com Bicuço depois de terem salvo Sirius... E, enfim, uma escuridão.
– Melhor. – ele disse, demonstrando uma certa satisfação que ele escondeu tão rápido que Hermione jamais perceberia.
– Isso cansa um pouco... – ela disse, ajeitando-se na cadeira, enquanto tirava alguns mechas de cabelo que grudaram na testa suada.
– Tem que praticar, Granger. Vocês, grifinórios, são muito sentimentais e se ligam facilmente às emoções. E essa é a arma que será usada contra você se não esvaziar a mente. Fui claro?
– Sim, senhor. Vamos tentar de novo... – ela disse, já renovada, ganhando um olhar do mestre de poções. – Disse alguma coisa errada, senhor? – perguntou, já pela força do hábito.
– Não, Granger. É que se fosse o Potter já teria me pedido para descansar na segunda tentativa. Mas continuemos. Pronta? – e sem esperar resposta, ele agiu.
Desta vez, Snape só conseguiu serpentear pela mente da menina, e toda vez que ele tentava aprofundar em alguma lembrança, Hermione bloqueava. Ele apelou então para as emoções, onde certamente você-sabe-quem se ateria. E como Snape previa, ela teve mais dificuldades em bloqueá-lo. Viu a jovem lançar o feitiço nos pais e sair de casa... Viu o enterro de Dumbledore... A despedida de Harry e Rony N'a Toca...
– Por favor, pare! – ela pediu, ofegante. E ao se dar conta, estava ajoelhada no chão amadeirado do laboratório, enquanto Snape a olhava com uma expressão... preocupada? Sim, preocupada. Mas Hermione estava tão temerosa quanto a sua reação, que se apressou nas desculpas.
– Eu sei, eu sei. Não precisa dizer que fui fraca... Mas o senhor buscou pensamentos muito íntimos e que eu venho tentando esquecer. – declarou, transparecendo tristeza.
Snape queria dizer que sentia muito, que não precisava tê-la forçado tanto. Mas estava tão acostumado à frieza e indiferença que as palavras escapavam sem que tivesse controle.
– Precisa ser mais forte, Granger. É exatamente nestas lembranças que ele vai te enfraquecer, até chegar nas que realmente o interessam. Concentre-se mais, faça jus ao título de sabe-tudo – exigiu, pesadamente.
Hermione estava com raiva da atitude de Snape, e ao contrário do que aconteceu com Harry, tal sentimento a auxiliou ainda mais na concentração. Agora a sua motivação para aprender oclumência era ainda maior: mostrar para o seu antigo professor que ela conseguia.
– Um, dois – Legimens!
Era o Baile de Inverno, no quarto ano. Hermione ria ao tentar ensinar Krum ao pronunciar seu nome corretamente. E escuridão.
– Consegui, professor! – ela disse, alegremente, com os olhos brilhando. Snape, no entanto, estava visivelmente irritado. – Não foi rápido o suficiente? – ela perguntou, em dúvida.
– Não, Granger. Não foi. Absolutamente decepcionante. – É claro que havia sido brilhante, a bruxa havia conseguido se concentrar de maneira exímia para um primeiro dia de aprendizado. Mas vê-la sorrir para o Krum lhe causou alguma coisa estranha... – Está dispensada, Granger. – disse, virando-se de costas para a menina, claramente irritado.
– Mas senhor, mal começamos!
– Granger, não-discuta. – sibilou Snape, com os olhos negros faiscando, deixando uma Hermione confusa sair em silêncio do laboratório.
– O que eu fiz dessa vez? – murmurou Hermione para si mesma, batendo a porta.
...
Hermione lia com afinco a coleção dada por Dumbledore em testamento quando Snape se aproximou silenciosamente. Fingindo que não viu, ela não desprendeu os olhos do livro, apenas esperando o que ele faria. Com a habitual carranca e os braços cruzados em frente ao peito, Severo sentou-se na poltrona.
Ele parecia deslocado, parecendo querer dizer algo que simplesmente não saía da sua garganta. Divertida, Hermione apenas levantou uma sobrancelha enquanto um sorriso ensaiava sair.
– Posso saber o que é tão divertido, Granger? – perguntou, mal-humorado. Hermione, que não mais se intimidava com as grosserias de Snape, olhou-o confiante depois de fechar o livro.
– Pode sim... – respondeu, calma – Estava observando o senhor e sua tentativa frustrada de me falar alguma coisa... Fiquei realmente com medo de entalar com as palavras que estão tentando sair da sua boca.
– Ora mais! Criaturinha malcriada! – disse, nervoso, enquanto se levantava abruptamente. – Não me surpreende que seja amiga do Potter e do Weasley... – começou em tom professoral, sendo interrompido por uma raivosa Hermione.
– Não! – gritou, com o dedo indicador em riste – Pare de me tratar assim! – o ex mestre de poções a olhou tão assustado que Hermione quase riu diante a reação dele. Mas tão logo recompôs-se e continuou – A sua máscara de professor Snape não me engana mais! Quando vai enxergar isso?! Estamos juntos nessa, caso ainda não tenha percebido... – concluiu, gesticulando ao seu redor.
Severo estava, no mínimo, abismado. Hermione sabia ser firme sem deixar de ser doce. E isso era uma combinação adorável na opinião dele. Mas como ela ousava afrontá-lo assim? Ninguém jamais ousou.
– Como ousa... – começou, aproximando-se perigosamente.
– Falar assim? – interrompeu ela – Bem, pelo que eu saiba estamos em posição de igualdade, e tenho todo o direito de falar como quiser. Então, sugiro que zelemos um acordo de paz, porque não vou sair desse chalé. Sei o quanto aprecia sua solidão, mas terá que me engolir aqui, Severo. – e se virando como uma criança mimada, ela rumou para o quarto, batendo a porta.
Snape não tinha reação, pois jamais imaginara que algum dia um bruxo teria tanta audácia. 'Como ela pôde, simplesmente...', brigava consigo mesmo, sem conseguir finalizar. Era uma fúria misturada com surpresa. Ela de fato não o temia. E ele gostava disso.
E era a segunda vez que ele ouvia seu nome saindo da boca dela. Nas duas eles estavam brigando, claro, mas não deixava de ser uma sensação deliciosa. 'Merlin!'.
...
Os dias se passaram sem que eles trocassem uma única palavra. Ambos orgulhosos, não cederiam a um primeiro passo. Snape já havia se tornado diretor de Hogwarts, mas não sabia como contar a Hermione. Dizia a si mesmo que não era da conta dela, mas no fundo ele tinha medo que Hermione não gostasse, que ela pensasse que ele poderia realmente fazer algum mal aos alunos. Sonserino que era, poderia passar todos os dias sem lhe dignar uma única palavra, pelo simples fato de não querer dar 'o braço a torcer'. Então foi Hermione quem decidiu acabar com todo aquele silêncio infantil.
– Não vai mais falar comigo?
– Nós nos falamos o tempo todo, Granger. A senhorita insiste em povoar essa casa com sua voz estridente.
– Há dias não trocamos uma única palavra. Você tem saído com mais frequência ultimamente. Aconteceu alguma coisa?
– Sim, aconteceu. Sou o mais novo diretor de Hogwarts. Pronto, está dito.
– O QUE? Há quanto tempo? – indagou ela, fazendo o professor suspirar entediado.
– Há algumas semanas... Mas já era previsto há algum tempo.
– E como não me disse antes?
– Eu ia te contar, mas... – 'Espera, estou dando satisfações a ela?' – O que importa é que poderá ver seus amigos de novo. Tenho uma tarefa para você e pelos céus, Granger, faça o combinado desta vez. – continuou, apoiando a testa no dedo indicador.
– Vê-los? Mas como? Onde estão? Estão seguros? Como não me disse antes! – questionou com a voz esganiçada.
– Escolha uma pergunta, Granger... – soltou impaciente.
– Onde eles estão? – perguntou finalmente, depois de se controlar para não azarar o homem à sua frente.
– No Largo Grimmauld. – respondeu, parecendo cansado.
– Na Mansão Black?! – ela perguntou, arregalando os olhos. Snape teve que se segurar para não responder a garota de forma insolente, e percebendo que não conseguiria evitar um comentário irônico decidiu apenas ignorá-la, prosseguindo.
– Quero que os instrua a pegar o retrato de Fineus Nigellus Black. – Hermione franziu a testa, em dúvida, mas rapidamente pegou o raciocínio.
– Ele pode perpassar do Largo até a sala de Dumbledore... – murmurou – Assim saberemos onde estão! – concluiu, animada.
– Sim, Granger. Mas não se empolgue, não poderá correr atrás dos dois o tempo todo.
– Sei disso, senhor.
– Ótimo. E mais uma coisa: não-demore. E digo sério, Granger, não me desobedeça dessa vez.
Hermione teve que ceder ao impulso de pegar sua varinha e estouporá-lo. Ele estava ainda mais irritante naquele dia e parecia ser proposital. Ele queria vê-la irritada, queria afastá-la, e o melhor jeito de fazer isso era assumir a máscara de professor Snape.
– Quando? – perguntou, levantando a sobrancelha e cruzando os braços. Espera, isso não é um trejeito dele?, pensou ela, rapidamente desfazendo da roupagem Severo Snape.
– Hoje. – respondeu, finalmente encarando-a. Hermione não pode conter um sorriso, que irritou profundamente Snape.
– Sei que não está se contendo para ver aqueles dois idiotas, mas preciso que se concentre no que vou falar agora. – disse, ganhando um olhar irritado da bruxa. – É muito arriscado o que estou permitindo que faça, Granger, mas não há outra forma. – continuou, estreitando os olhos, enquanto ganhava toda a atenção da menina – A casa está rodeada de comensais, e eu não vou conseguir confundi-los por muito tempo. Você tem apenas uma hora. Nem um minuto a mais. Fui claro?
– Sim, senhor. – assentiu a jovem de cabelos castanhos, apreensiva.
Os dois conversaram por um tempo considerável, e Snape recitava o plano secamente, alertando Hermione a todo instante de que nada poderia sair errado. Ela, por sua vez, escutava tudo com muita atenção, decidida a não desobedecê-lo. Pelo menos não desta vez.
