Dianella bateu a porta da frente da casa, dando vazão à sua frustração.

Sentiu vontade de jogar a varinha para longe, mas controlou-se. Depois que a loja de Ollivander foi invadida e ele foi levado por Comensais da Morte, não teria um lugar para conseguir outra. Não na Inglaterra pelo menos.

Geralmente o varinhologista lidava apenas com três núcleos: pelo de unicórnio, pena de fênix e fibra de coração de dragão. Ele tinha dito que eram as de melhor qualidade no seu ponto de vista. Porém a varinha que lhe escolheu e foi dada por Lurch e Katrina era de pena de dedo duro. Pelo que Rolf lhe contou, era um pássaro que não emitia som a vida inteira, mas ao morrer imitaria de trás para frente todos os sons que já escutou.

"Memória de dedo duro" devia ser o ditado bruxo para substituir "memória de elefante".

O problema não era o cerne da varinha, mas a madeira que era feita. Varinhas feitas de espinheiro-alvo ricocheteavam feitiços que não fossem bem executados, e ela descobriu isso na prática. Ou seja, ela tinha acabado de ser lançada contra a parede porque aparentemente o seu Expelliarmus não era bom o suficiente. E não era a primeira vez que isso acontecia.

Ela talvez se preocupasse com o rastreador do Ministério, se ela não tivesse sido apagada dos registros por falta de manifestação mágica quando criança — toda a treta de obscurial e não ter recebido a carta de Hogwarts —, e ela não tivesse completado 17 anos seis meses antes.

Dianella tinha 15 anos quando Dumbledore a delegou aos cuidados da família Scamander. Tinha pensado que tinha sido deixada novamente de lado, exatamente como da outra vez, mas então no ano passado, o diretor voltou para visitá-la e ver como estavam as coisas. De qualquer forma, as coisas não eram como quando estava no orfanato.

Ela não era castigada por usar magia.

Aquelas pessoas pareciam realmente se preocupar com ela.

Não tinha muito contato com o avô de Rolf, ele parecia ter um pouco de dificuldade para lidar com as pessoas. Ela teve um colega na escola trouxa que era autista, se perguntava se o Sr Scamander também era assim. Considerava que seria grosseiro demais perguntar.

Sentia que devia estar fazendo alguma coisa, que deveria usar aquele obscurus para ajudar de alguma forma na guerra. Ela não tinha nada a perder mesmo. Não sentia que estava avançando no uso da magia. Todos diziam a ela que se ela aprendesse a controlar, a possibilidade era que o obscurus fosse sumindo pouco a pouco, mas não conseguia ver isso acontecendo.

Tudo o que sabia sobre o mundo bruxo era através dos jornais e dos livros, apesar de os jornais estarem escondendo muitas coisas naqueles tempos.

Sentou-se de costas para a casa em um tronco de árvore caído, observando a sua varinha em mãos. Era suposto que aquele objeto de madeira a ajudasse a controlar a sua magia, e não a usasse contra si mesma. Por que justo aquela varinha tinha lhe escolhido?

Escutou alguns passos abafados pela neve na floresta à sua frente. Segurou a varinha com força, levantando-se para estar preparada para se defender. Tom teria finalmente a encontrado?

— Me desculpe — uma garota apareceu por trás das árvores, erguendo as mãos para mostrar que estava desarmada — Nós queríamos saber se sabe para que lado fica Godric's Hollow.

Ela teria caído nessa, se não conhecesse Hermione Granger da outra dimensão.

— Sai daí de trás — ela disse séria, tentando não tremer a mão — Vocês três!

Mas só tinha dois.

Rony Weasley não estava com eles.

— Não queremos problemas, nós só queremos... — Hermione tentou dizer.

— Como posso saber que não são Comensais da Morte? — Dianella a interrompeu.

— Contou a Dumbledore sobre as horcruxes — Harry afirmou — Ele me mostrou a memória. E seu nome estava no testamento dele.

Sobre o testamento era algo que o Ministério poderia saber, já que eles tinham revisado o documento e feito a distribuição de bens, mas sobre a memória e as horcruxes... Tom poderia saber disso?

— Você não sabe quais são as horcruxes? — perguntou Hermione.

Eles pareciam completamente perdidos.

— Dumbledore não contou a vocês? — ela questionou.

Eles negaram com a cabeça, parecendo bem frustrados por isso.

— Não, eu só sei que são sete — Dianella respondeu à pergunta de antes — Tom não...

— Você o chama de Tom — disse Harry.

— É o nome dele, não é?

Escutou a voz de Rolf gritar de dentro da casa por seu nome.

— É melhor vocês irem — ela disse e então apontou o dedo para trás deles — Godric's Hollow fica naquela direção, não tem como errar.

Harry hesitou, ele parecia querer falar mais alguma coisa. Era talvez por isso que tinham inventado aquela desculpa de não saber onde ficava Godric's Hollow. Ele devia saber quem ela era.

— Obrigada — agradeceu Hermione, também parecendo não saber o que fazer.

Ela rodeou o pulso do melhor amigo, puxando-o para a direção que Dianella indicou.

Assim que eles sumiram na floresta, Rolf saiu de casa e foi em sua direção, parecendo agitado.

— Estava conversando com alguém? — ele perguntou.

— Só queriam saber onde ficava Godric's Hollow — ela respondeu.

— Isso é péssimo. Vamos pra dentro.

De todos, ele era o mais protetor.

Ou deveria dizer paranoico.

— Está tudo bem? — Rolf ficou olhando para o seu rosto, procurando por alguma expressão.

— Eu só estou frustrada — disse Dianella — Queria que tudo isso acabasse.

Não sabia se estava falando sobre a guerra, sobre o obscurus, ou sobre tudo.

— Eu queria poder ajudar de alguma forma... — ela começou a dizer.

— Não, sem chance — ele a cortou — Você não é uma maldita mártir.

Olhou por cima do ombro, na direção da floresta, mas não havia sinal de presença humana. Perguntou-se se deveria ter dito algo a mais, ou feito algo. Era tão estranho, aquele era o seu irmão, mas eles nunca nem foram apresentados. Ele só sabia sobre ela por causa do testamento de Dumbledore.

Era estranho que o diretor estivesse morto, mesmo depois dos erros que cometeu. Ela não desejava a sua morte. Pensava que isso era impossível, mas depois que se afastou de Tom era como se ela sentisse menos ódio dentro de si. Só sobrava a sensação de vazio, de inutilidade. A sua existência não tinha um significado.

Ela no final das contas era só um fardo.

— Me mostre como estão os seus feitiços — disse Rolf, assim que chegaram à sala de estar da casa.

— Uma droga — ela resmungou.

— Tente, vamos.

Respirou fundo e então apontou a varinha para ele, que estava desarmado.

— Petrificus Totalus — pronunciou.

Não foi azarada, o que já era um avanço, mas nada aconteceu.

A sua magia estava para sempre trancada dentro de si, não tinha outra explicação.

— Tá, chega — Rolf a fez abaixar a varinha e então sentou-se no sofá — O que está acontecendo?

— O quê?

Ele indicou o lado ao seu e então ela sentou-se à contragosto.

— Não está se esforçando — disse.

— Como pode dizer isso? — ficou indignada — É só o que tenho feito há dois anos!

— Se você não está com raiva, o que te torna instável, você está sem força de vontade. Só o jeito que você disse "Petrificus Totalus" já prova isso.

Ela não gostava daquelas sessões de terapia.

Sabia que só estavam querendo ajudá-la, mas não achava que havia uma forma.

— Você não quer ser uma bruxa? — Rolf perguntou sem agressividade na voz — Você não quer praticar feitiços? Ou você tem medo?

— Eles não funcionam como deveriam — respondeu Dianella, sentindo-se uma criança de sete anos.

E o fato de ele ser alguns anos mais velho do que ela só a fazia sentir-se mais infantil ainda.

— É claro que não funcionam. Você reprimiu essa magia dentro de si por anos, não pode esperar que a sua magia aja normalmente. Mas é importante que você continue tentando, que você desestabilize essa força que está dentro de você.

Ela sabia disso, já tinham explicado várias vezes o porquê.

— Acha que as coisas seriam mais fácil se fosse um aborto? — perguntou Rolf.

— É, para começo de conversa eu não teria sido tratada como fui no orfanato — ela retrucou — E então eu poderia ter sido adotada, o que me impossibilitaria de ser sequestrada por Tom Riddle, e então eu...

Não teria matado aquelas pessoas.

O que teria acontecido consigo se não tivesse viajado para a outra realidade?

Ela teria morrido consumida por seu próprio obscurus?

Sido mandada para Azkaban?

Morta por aurores em combate?

Harry teria sido capaz de tirá-la daquela alienação?

— Se você não quiser fazer isso, podemos achar um outro jeito — ele disse com suavidade.

Mas não tinha outro jeito.

— Eu acho que só não quero machucar as pessoas — murmurou, focando o olhar em sua varinha.

Rolf demonstrou surpresa.

— São feitiços defensivos.

— Me ensine algo que me defenda, mas não machuque outras pessoas — disse Dianella.

Ele demonstrou preocupação em silêncio. Ela sabia que um escudo não a protegeria de todos os feitiços e que não poderia escapar de um duelo real somente com feitiços básicos e padrões de terceiro ano, mas... Ela tinha que fazer algum feitiço, qualquer que fosse.

— Levanta.

Ela obedeceu.

— Você vai fazer uma linha reta de cima para baixo, entendeu? — Rolf instruiu e então fez o movimento para caso ela não tivesse compreendido — E você vai dizer "Protego" enquanto faz esse movimento. Ótimo, agora vamos pôr em prática.

Com certeza ela ia tomar uma surra.

— Um, dois, três... — Rolf posicionou-se à sua frente — Tarantallegra.

— Protego!

Um fino escudo de cor azul quase transparente posicionou-se à sua frente, absorvendo o feitiço e o impedindo de alcançá-la.

— Muito bom, Ella! — ele a elogiou.

— Eu consegui! — ela não pôde evitar pular, feliz — Vamos de novo!

Era março quando Dianella acordou no meio da noite sem conseguir respirar.

Ela viu uma presença escura em cima dela e por um momento pensou que fosse um dementador, mas ela não sentia tristeza, sentia apenas desespero.

Tateou a mesa de cabeceira à procura de sua varinha e então fez uma manobra arriscada: um feitiço não verbal. Nunca tinha feito um, mas ela não conseguia recuperar ar para falar. Sentia cada vez mais a sua consciência abandoná-la e então lançou um Bombarda contra a estante cheia de livros do quarto.

— Dianella!

Rolf foi o primeiro a chegar no quarto e lançou alguns feitiços para tentar afastar a presença, que era como uma fumaça que se desfazia no ar.

— Chama o meu avô! — ele gritou para a porta.

Katrina entrou no quarto apressada e pôs-se ao seu lado na cama.

— Dianella, só você pode fazer isso — ela pôs a mão na sua testa — Você precisa expulsar...

Ela não era capaz de controlar como eles pensavam.

— Sai da frente — Lurch afastou a esposa apressadamente e então fez a obscurial engolir uma poção.

— O que é isso? — perguntou Rolf, nervoso.

Eles nunca presenciaram uma crise como aquela, era a pior que ela já teve.

— Anapneo — o pai do garoto murmurou apontando a varinha para ela.

Eles esperaram por alguns minutos e então a fumaça se desfez e Dianella conseguiu voltar a respirar, mas ainda estava tonta pela redução do oxigênio e exausta por aquela tentativa de assassinato. Ou seria suicídio?

— Papai esteve desenvolvendo isso — Lurch explicou à família, indicando o frasco da poção — Se o obscurus é um parasita, então poções e plantas resolveriam melhor do que feitiços.

Katrina sentou-se no chão ao lado da cama, tentando recuperar o fôlego.

— E por que não usaram até agora? — ela perguntou.

— Não sabíamos que ia funcionar — ele murmurou, mas foi escutado mesmo assim.

Rolf saiu do quarto mudo, mas tão rápido que foi como se ele estivesse gritando.

— Vai lá — disse Katrina.

Lurch concordou com a cabeça, antes de sair atrás do filho.

— Quando isso vai acabar? — sussurrou Dianella, segurando a vontade de chorar.

— Logo, querida — a mulher segurou uma de suas mãos — Logo.

Ia demorar anos para que o obscurus a deixasse para sempre.

E mesmo assim, ela nunca seria a Dianella Potter que deveria ter sido se não fosse mandada para o orfanato Wool.