"O mundo não é preto e branco, Hermione. Você se surpreenderia com a quantidade de tons de cinza quer existem por aí."

Quando chegaram ao ponto de discutir moral e ética, Hermione se surpreendeu com a quantidade de conhecimento que ele tinha de filosofia trouxa. Ela sabia que era um assunto perigoso, era como se estivessem caminhando pela beirada de um precipício e estivesse ventando bastante. Não demoraria muito e começariam a falar da guerra e ela não queria isso.

"Se as pessoas abandonarem todos os princípios da moral então nós simplesmente caímos no mais absoluto caos!" – ela tentou argumentar.

"Você quer saber o que é o mais absoluto caos?" – ele sussurrou com um olhar perigoso, inclinando-se sobre a mesa.

Ela arregalou os olhos em expectativa.

"Peixe cru enrolado em algas!" – ele jogou os braços pra cima dramaticamente.

Hermione riu. Ela insistiu que eles jantassem em um restaurante japonês dessa vez, ainda na marina da Cidade do Cabo, mas ele não tinha gostado da experiência.

"Eu não acredito que você nunca tinha experimentando sushi antes." – ela balançou a cabeça em descrença. "Coma somente os fritos então."

"E eu não acredito que você está abrindo mão de explorar suas próprias capacidades mágicas por causa de uma restrição do Ministério da Magia." – ele suspirou descrente usando um garfo para espetar um camarão empanado.

"Eu não quero entrar em conflito com o Ministério. Por mais que eu tenha minha descrença em relação à instituição, com que moral eu poderia pedir auxílio quando necessário se eu ignorar as imposições que eles fazem agora?" – Hermione explicou.

"Deixe-me ver se entendi." – Snape limpou os cantos da boca com um guardanapo. "Você só está obedecendo às regras porque vê a possibilidade de no futuro se beneficiar de gente com uma influência que você não tem?"

Quando ele colocava daquele jeito soava bem imoral mesmo, mas eles estavam à beira de uma guerra. Talvez ele tivesse razão e o mundo não fosse nada além de um turbilhão de tons de cinza.

"Eu falei sério quando disse que queria tentar as coisas do jeito sonserino." – ela sorriu sedutoramente.

"Cuidado, Hermione Granger. Você pode de repente se encontrar fundo demais para conseguir sair se mudar de ideia." – ele molhou os lábios antes de continuar. "Porém suponho que não seja a primeira vez que a princesa grifinória quebra as regras para benefício próprio. Eu lembro de alguns anos atrás ter que cozer uma poção reversiva bem específica para alguém que se acidentou brincando com poção polissuco."

Droga! Ela sempre suspeitou que ele soubesse que ela tinha roubado ingredientes do estoque dele e feito poção polissuco em seu segundo ano. Mas como eles foram inteligentes o suficiente para cobrir os próprios rastros ele nunca pôde provar e, portanto, puni-los. Ela respirou fundo.

"Suponho que ainda estejamos em um encontro, então você é apenas Severo Snape." – ela cerrou os olhos na direção dele.

Ele acenou afirmativamente, a encorajando a prosseguir.

"Sim, eu roubei de seus estoques e cozinhei uma poção polissuco eficiente o suficiente para..."

"Eu sabia!" – ele a interrompeu dando um soco na mesa. "Conte-me exatamente como fez e o que aconteceu de errado. Eu nunca acreditei naquela sua história de que as folhas do livro estavam grudadas e você misturou duas receitas em uma só."

"Harry e Ron te distraíram durante uma aula e eu me esgueirei pra dentro dos estoques e peguei os ingredientes faltantes. Meu único problema foi que o cabelo que eu usei na minha poção na verdade era pelo de gato e não cabelo humano. No entanto, eu gostaria de deixar bem claro que a minha poção funcionou perfeitamente para..." – ela parou por um momento incerta se deveria prosseguir. "Naquela altura achávamos que Draco era o herdeiro de Sonserina e que ele tinha aberto a câmara secreta. Estávamos investigando."

"Bem, não foi a primeira vez que o trio de Sherlock Holmes da Grifinória suspeitou de alguém que no final das contas não era o culpado, não é mesmo?" – ele tinha um tom acusatório.

"Lúcio Malfoy planejou tudo, não estávamos tão longe assim." – ela se irritou levemente. "Eu quase morri por causa disso, vamos mudar de assunto."

"Exatamente. Você quase morreu e o Ministério não fez nada. No entanto, você segue cegamente o que quer que te instruam desde que seja sob a premissa de 'seguir as leis'."

Eles estavam brigando? Parecia mais uma discussão do que uma conversa e ela não estava gostando disso. Os dois estarem juntos era pra ser algo que iria aliviá-los do estresse, não causar mais dor de cabeça.

"Sherlock Holmes? Seu conhecimento de literatura trouxa me impressiona." – ela tentou mudar de assunto. "Eu nunca pensei que você seria do tipo que curte romances policiais."

"Eu sou uma caixinha de surpresas." – ele provocou rindo.

"Falando de literatura trouxa... Você conhece o mito da caixa de pandora?"

Snape soltou uma risada longa e quase musical. Isso respondeu à pergunta dela. A ideia de que ele era uma caixa de "surpresas" que quando aberta desencadearia todos os males do mundo parecia diverti-lo. Voltaram sua atenção à refeição e o clima parecia consideravelmente mais agradável depois que retornaram ao natural estado de comentários provocativos.

"Planos para as férias de Natal?" – ele perguntou limpando a garganta.

"Eu estava planejando comparecer ao jantar de Natal do Professor Slughorn na noite do dia 23 e no dia 24 pegar o trem para a casa dos meus pais. Porque?"

"Pensei que talvez," - ele parecia hesitante – "pudéssemos passar uma noite inteira juntos. É meio incômodo ter que me preocupar todas as vezes com o horário que você tem que voltar pro dormitório ou se alguém vai acabar te pegando saindo do meu escritório."

"Nós podemos pensar em algo." – Hermione respondeu contente. "A não ser que... Você já tenha pensado em algo?"

"Podemos passar o feriado juntos." – ele corou e Hermione pensou em como as bochechas vermelhas lhe convinham. "Ou pelo menos alguns dias, se você quiser ir pra casa dos seus pais depois..."

"Parece um bom plano. Direi pra Harry e Ron que vou passar o feriado com meus pais e para eles direi que tenho deveres de monitora a cumprir na primeira semana e posso visitá-los depois do ano novo, antes do trimestre escolar começar."


"Você sabe porque eu estava falando de Magia da Terra com você hoje no jantar?" – ele perguntou com a respiração entrecortada.

"Severo," - Hermione disse arrancando as meias dos pés – "eu não queria discutir com você no jantar," - ela o ajudou a desabotoar o cinto – "e agora muito menos." – ela finalizou se virando de costas para que ele descesse o zíper do seu vestido.

"Eu senti aquele dia," – ele explicou passando a mão pelas costas despidas dela – "nos meus pés, quando você usou a Magia da Terra." – ele apoiou as mãos nos ombros dela e a virou de frente para ele. "E eu sinto todas as vezes em que a gente está... Assim."

Ela deslizou as alças do vestido pelos ombros e depois a peça inteira pelos quadris. Sentou-se na cama só de calcinha.

"Você tem tanto potencial, eu sinto que você está no seu limite quando estamos juntos. Não seria difícil para você canalizar essa energia a seu favor. E eu sei que você fez a sua escolha em relação à guerra..."

"Combinamos não falar sobre isso." – ela o interrompeu.

"Então eu te peço permissão para falar, só dessa vez."

Ela acenou afirmativamente. Ele não esperava que ela concordasse tão facilmente e parecia não conseguir encontrar as palavras corretas para expressar o que queria dizer.

"O que te impede de tentar?" – ele perguntou. "Além da negativa do Ministério."

"E se eu for horrível e não conseguir fazer nada?" – ela suspirou cruzando os braços sobre os seios nus.

Snape se controlou para não rir dos motivos dela. Ele estava literalmente ajoelhado na frente dela, informando-a de que ela possuía um poder que a maioria dos bruxos e bruxas matariam para alcançar e ela tinha medo de não ser suficiente. Hermione Granger era uma bruxa deveras fascinante.

"O que você tem a perder?"

"Meu orgulho e dignidade?" – os olhos dela se encheram de lágrimas.

"Eu não menti naquele dia, realmente não posso te ajudar. Mas posso pelo menos agir como um incentivador, porque eu acredito em você." – ele segurou o rosto dela, usando o dedão para limpar uma lágrima que caiu sobre sua bochecha.

Então ele se levantou e revirou a pilha de papéis sobre a mesinha de chá perto da lareira. Encontrando o pedaço de pergaminho que procurava ele voltou-se a ela e lhe entregou.

"É um formulário assinado para retirar da Seção Proibida da biblioteca os dois volumes que a escola tem sobre Magia da Terra. São livros do século passado e muito provavelmente já estão datados, mas acho que já seriam um bom começo."

Os olhos dela escanearam as informações do pergaminho e ela levantou o rosto pra ele com os olhos brilhando. Se era por causa das lágrimas ou pelo que ele tinha feito, Snape não sabia.

"Obrigada, Severo." – ela disse dobrando o formulário e suspirando. "Agora... Onde estávamos?"


Snape não estava errado em achar que os livros estariam datados.

"Bruxas não devem exercer trabalhos que exigem muito do intelecto. O acúmulo de sangue em sua barriga, que se prepara para o recebimento da semente de um bruxo, deixa pouco do fluído correndo no resto do corpo e consequentemente em sua cabeça. Assim elas não conseguem pensar direito e não devem ser culpadas por não conseguirem atingir os mesmos resultados que um bruxo, mesmo nas tarefas mais simples."

Hermione duvidava que conseguisse achar um texto mais antiquado do que esses livros. A única parte utilizável de todo o conteúdo dos livros era um capítulo curto sobre os quatro elementos da natureza e a predominância do elemento Terra sobre os outros três. No meio da página havia uma figura triangular que mostrava água, fogo e ar em cada vértice da figura e a terra no centro, como ponto de conversão e consequentemente de expansão. Para atrair o poder da Terra e canalizá-lo em forma de mágica era preciso dominar os outros três elementos igualmente.

Ela começou a fazer anotações. Decidiu que iria ao menos tentar trabalhar Magia da Terra, mas antes, ela precisava de um norte. No topo do pergaminho começou a anotar todos os tópicos que achava necessário pesquisar para um maior entendimento dessa parte dos quatro elementos. O resto era baboseira e ela não daria atenção por agora. A primeira coisa que faria era ter uma conversa com Professor Firenze sobre astrologia. Hermione era do signo de Virgem e na visão astrológica dos quatro elementos esse era um signo que caía sob o espectro do elemento Terra. Poderia isso ter a ver com o fato de ela conseguir canalizar magia da Terra? Ela nunca foi fã da matéria de Adivinhação, mas no que se dizia respeito ao currículo da matéria, astrologia era o aspecto que ela mais aceitava como possível de ser estudado com clareza.

"Hey Granger!" – uma voz melosa a chamou e ela levantou o rosto para ver Córmaco McLaggen se jogar no sofá ao lado dela.

"Hey." – ela respondeu voltando sua atenção para o pergaminho. Dobrou o que já tinha escrito e enfiou dentro do livro, não queria dar motivos para ele lhe questionar sobre esse assunto.

"Difícil te achar sozinha ultimamente..." – ele comentou de forma casual e Hermione juntou todas as suas forças para não virar os olhos.

"Muito ocupada estudando, inclusive eu tenho que ir pra biblioteca." – ela se levantou.

"Espera aí." – ele segurou o pulso dela. "Eu tenho uma coisa pra te perguntar... Você vai no jantar de Natal do Clube do Slugue?"

"Sim." – ela respondeu girando o pulso levemente e ele entendeu a deixa, soltando-a.

"Com alguém?" – ele levantou as sobrancelhas.

Droga! Ela tinha pensado em chamar Ron, mas com o namoro dele com Lilá ficando tão sério ele jamais aceitaria. A ideia agora era chamar Harry, embora ela também achasse que com Gina solteira e ele tão obviamente a fim dela, ele já a teria convidado... Droga! Droga! Droga! Droga!

"Sozinha." – ela suspirou.

"Você gostaria de ir comigo?" – ele perguntou corando levemente.

Por um momento ela sentiu um pouco de pena dele. Córmaco parecia estar se esforçando e ela não era o tipo de menina que tinha uma fila de rapazes a chamando para ser seu par em qualquer tipo de festividade. No entanto, ela tinha quase certeza que Snape participaria do jantar e que mesmo que os dois não tivessem nada que pudesse ser demonstrado em público... Ela não gostaria de vê-lo acompanhado de alguém.

"Sim, podemos ir juntos. Como amigos." – ela fez questão de esclarecer antes de sair do salão comunal pelo buraco do retrato.


Notas da autora:

O aniversário de Hermione Granger é no dia 19 de setembro, a título de curiosidade. Essa informação é relevante por dois motivos: o primeiro sendo o signo dela, que na minha história vai ter um papel interessante e o segundo para indicar que nesse momento da história (novembro de 1996) ela já atingiu a maioridade bruxa e portanto o relacionamento dela com Snape não enfrenta nenhuma questão legal. A data de aniversário da grande maioria dos personagens de Harry Potter está disponível para consulta seja no Pottermore ou em outros portais de informações da saga; mais datas importantes serão reveladas conforme o decorrer da história.

Embora eu não tenha nada contra (e inclusive consuma) fanfictions com a temática de BDSM e relacionamentos de sub/dom esse não é o caso aqui. O título desse capítulo foi pensado estritamente no sentido moral, e não sexual, dos tons de cinza.

Estou muito empolgada com o rumo que a Magia da Terra está tomando na história. O que vocês estão achando? Deixem um comentário!