Will you hold the line?
When every one of them is giving up or giving in, tell me
In this house of mine?
Nothing ever comes without a consequence or cost, tell me
Will the stars align?
Will heaven step in? Will it save us from our sin? Will it?
'Cause this house of mine stands strong
(Natural - Imagine Dragons)
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Felizmente, Harry conseguiu trocar seu dia de folga com um colega do Quartel General para que pudesse chegar à Sorveteria Florean Fortescue no horário marcado. A sorveteria havia sido reaberta recentemente por um parente distante do antigo dono e não se parecia em nada com a que Harry costumava visitar durante sua estadia no Caldeirão Furado, mas a homenagem era válida.
Estava um pouco adiantado, mas olhou ao redor para ter certeza de que fora o primeiro a chegar. Havia alguns grupos de jovens e famílias com crianças no local, por isso Harry escolheu um lugar mais afastado para se sentar, de onde pudesse ter uma visão mais estratégica de quem chegasse. Só então retirou o feitiço que lançara sobre si mesmo, um recurso muito útil que aprendera para fazer com que as pessoas não reparassem nele. Era um truque simples que não funcionava com todas as pessoas, apenas com as mais distraídas, mas servia ao seu propósito, na maior parte do tempo.
Assim que retirou o feitiço, um atendente pareceu notá-lo e se aproximou, sendo acompanhado por um bloquinho flutuante e uma pena de repetição rápida.
"Em que posso ajudá-lo, senh..." O rapaz se interrompeu assim que o focalizou, empalidecendo imediatamente.
"Olá... err..." Harry se preocupou com a expressão chocada do bruxo, preparando-se para o caso de ele desmaiar. Puxou uma cadeira. "Quer se sentar?"
Aquilo pareceu fazer com que o rapaz acordasse do seu estupor, piscando rapidamente e corando violentamente.
"Sinto muito, eu... Sr. Pott..."
"Shhh," Harry pediu colocando a mão sobre os próprios lábios. "Eu agradeceria se você falasse mais baixo, por favor."
"Ah, claro, claro..." O rapaz abaixou-se para sussurrar, olhando ao redor conspiratoriamente. "Sr. Potter, sinto muito pela minha reação, mas é que... Uau! Eu... Me desculpe." Ele tornou a se recompor, limpando a garganta e entregando-lhe o cardápio. "É um prazer tê-lo em nosso estabelecimento, Sr. Potter. Já conhece nosso cardápio? Se quiser alguma dica, temos alguns sabores especiais que fazem muito sucesso!"
"Obrigado. Estou esperando alguém, na verdade..."
"Ah... Oh! Sim, sem problemas. Se precisar de algo, é só chamar. Meu nome é Maicon Acker. Maicon, com 'i', A-C-K-E-R, você sabe, só para o caso de você se sentir tentado a escrever uma dedicatória num guardanapo de papel..." Ele saiu apressado e Harry sorriu, meneando a cabeça.
Mal tivera tempo de checar todo o cardápio antes que Astoria chegasse com Scorpius ao seu lado. Ignorou a decepção por não ser Draco a acompanhar o garoto. Sabia que a possibilidade daquilo acontecer era mínima, mas não conseguira se impedir de ter esperanças. Harry acenou quando Astoria olhou em sua direção.
"Harry!" Scorpius exclamou, correndo para se jogar nos braços de Harry e atraindo atenções indesejadas. Houve um burburinho entre os fregueses da sorveteria, que só então repararam na sua ilustre presença.
"E aí, rapaz? Como vai?" Harry bagunçou os cabelos do garoto antes de se endireitar. "Você cresceu bastante! O que anda comendo?"
"Verduras e legumes!" Scorpius falou, estufando o peito. "Não é verdade, mamãe?"
"Claro, querido."
"Srta. Greengrass," Harry cumprimentou com um aceno de cabeça, tentando não se lembrar da última ocasião em que a vira da lareira do escritório de Draco em Hogwarts.
"Me chame de Astoria, por favor, Sr. Potter," a mulher falou polidamente e Harry pensou ter visto um pouquinho de cor lhe tingir as bochechas.
"Só se você me chamar de Harry. Por favor," Harry indicou as cadeiras vagas ao seu lado e aproveitou para se sentar de costas para os demais fregueses para desencorajar qualquer tentativa de aproximação. Normalmente as pessoas respeitavam mais seu espaço pessoal quando ele estava acompanhado, mas era melhor prevenir que remediar.
"Antes que eu esqueça, obrigado pelo presente, Harry," Scorpius falou solenemente, pelo que ganhou um olhar de aprovação da mãe.
No aniversário de cinco anos de Scorpius, Harry comprara uma miniatura do expresso de Hogwarts com um trilho montável. Dera o mesmo presente para Teddy e este ainda conservava o trem montado em seu quarto na casa da avó, apesar de jurar que usava apenas como enfeite agora que completara treze anos.
"Você gostou?"
"Eu adorei!" Com os olhos brilhando de excitação, o garoto deu pulinhos em sua cadeira voltando a parecer uma criança de cinco anos. "Aprendi a montar o trilho sozinho! Papai diz que faz muito barulho e pediu que eu deixasse na casa da vovó Evelyn. Mamãe deixa que eu brinque todas as noites depois do jantar. Mas só se eu fizer toda a tarefa que a Sra. Halder passa, e eu sempre faço!"
"Muito bem," Harry parabenizou. "Aliás, reparei que você já sabe escrever seu nome!"
"Sim! Ah, bem, às vezes eu troco algumas letras e a Sra. Halder fica brava comigo... Mas mamãe disse que em breve vou conseguir escrever minhas próprias cartas para você!"
"Mal posso esperar! Então, o que acha de pedirmos nossos sorvetes e depois você me conta sobre o que mais você tem aprendido com a Sra. Halder?"
Eles tomaram algum tempo escolhendo seus sorvetes dentre tantos sabores disponíveis, alguns um tanto excêntricos. Maicon apareceu para anotar seus pedidos, que foram rapidamente atendidos enquanto conversavam. Scorpius não precisava de muito incentivo para falar, pelo que Harry logo percebeu. Além das mudanças físicas durante aquele ano em que ficaram sem se ver, o garoto parecia muito mais solto, sorridente e comunicativo. Ele contou sobre suas lições, as brincadeiras com os primos, os voos com o pai e os mimos dos avós maternos. Em nenhum momento ele mencionou os avós paternos, mas deu a entender várias vezes que estava mais próximo do pai, a quem agora se referia como 'papai'.
"Posso pegar um bichinho, mamãe?" Scorpius perguntou ao terminar seu sorvete, apontando para uma caixa de vidro parecida com uma máquina de garra trouxa, porém com mini-pufes vivos dentro ao invés de bichinhos de pelúcia.
"Para você deixar fugir, como o outro?" Astoria reprovou.
"Mas não fui eu quem deixou Snowball fugir! Foi o Ethan!" Scorpius choramingou. "Por favor, mamãe... Prometo que vou cuidar direitinho dele..."
Astoria suspirou, porém entregou algumas moedas ao filho e ele correu até a máquina antes que outra criança tivesse a mesma ideia.
"Como ele está?" Harry perguntou para a mãe do menino, apesar de ambos terem os olhos voltados para o garoto. Scorpius se divertia tentando pegar os bichinhos, que corriam da garra mágica.
"Scorpius?" Astoria perguntou, apenas para confirmar, porém sem encará-lo. "Ele está ótimo. De nós três, foi o que reagiu melhor. Nem parece que passou por tudo aquilo." Astoria suspirou. "A bruxoterapeuta deu alta para ele há alguns meses, apesar de ter deixado bem claro que nós devíamos entrar em contato com ela caso percebêssemos qualquer mudança no comportamento dele."
"Isso é ótimo." Harry assentiu. "Fico muito feliz. Sinto muito por não ter mantido contato durante todo esse tempo."
Astoria lhe lançou um pequeno sorriso antes de voltar a encarar o filho.
"Você não tem nenhuma obrigação de manter contato."
"Mas não faço por obrigação!" Harry atalhou, baixando os olhos para as próprias mãos. "Eu realmente me importo com ele. Só achei que Draco não ficaria feliz caso eu continuasse me correspondendo com o filho dele."
Na verdade, aquele não era o único motivo. Os aurores eram desencorajados a criar ou manter vínculo com as pessoas às quais salvavam para deixar que elas vivessem suas vidas e evitar o nascimento de qualquer dependência. Afinal, eles estavam a serviço e não estavam fazendo mais que sua obrigação. Porém, Harry acabara se convencendo de que Scorpius não se enquadrava naquela situação, uma vez que não estava a serviço quando fez sua intervenção. Além do mais, já havia criado um vínculo com o garoto muito antes de tudo aquilo acontecer.
"Draco não se importa," Astoria assegurou. "Na verdade, foi ele quem deu a ideia que Scorpius escrevesse para você esta semana."
"Sério?" Harry perguntou, admirado.
"Ele fala em você o tempo todo," Astoria continuou um tanto distraída, e o coração de Harry teve um sobressalto ao supor que ela ainda falava de Draco. Porém logo ficou claro que não era o caso. "Ele sempre se gaba para os primos e quem mais quiser ouvir sobre como conhece você e como vocês dois são amigos. No começo, achamos que seria algo passageiro e nem desconfiamos quando ele parou de mencionar você durante algumas semanas. Pelo menos até eu descobrir que ele vinha colecionando artigos do Profeta Diário sobre você."
"Oh..." Harry soou alarmado, mas Astoria o tranquilizou com um gesto da mão elegante, que ela havia livrado das luvas de cetim para tomar seu sorvete.
"Não se preocupe, ele ainda não sabe ler. Na verdade, ele ficava olhando as fotos e inventando um monte de histórias de aventuras a seu respeito."
"Ah..." Harry sentiu o estômago afundar. Não imaginava que Scorpius pudesse ter sentido tanto a sua falta.
Eles ficaram em silêncio durante algum tempo apenas observando enquanto Scorpius perseguia os bichinhos, colocando a língua de um lado e do outro conforme direcionava a garra. As feições do garoto haviam mudado um pouco, seu rosto se tornando mais alongado e os traços mais definidos. Daquele ângulo, Harry achou ter visto alguma semelhança no formato do rosto dele com o da mãe. Astoria, aliás, era encantadora. Ela não tinha uma beleza estonteante, mas seu rosto era agradável e seu porte era de uma verdadeira dama. Devia ter sido difícil para Draco não conseguir amá-la mesmo com todas as qualidades que ela parecia ter.
"E quanto a Draco?" Harry finalmente formulou a pergunta que vinha se segurando para fazer. "Como ele está?"
Agora que o divórcio de Draco e Astoria havia finalmente se concretizado, os Malfoy haviam saído dos holofotes da mídia para o semi-esquecimento novamente, o que fizera com que Harry ficasse totalmente no escuro quanto a vida do loiro. Sentia falta de quando bastava um olhar para o Mapa do Maroto para saber onde ele estava e o que estava fazendo. A última notícia que tivera fora de quando um carregamento destinado a Draco havia sido detido pela alfândega da importação. Os investigadores alegavam que haviam recebido uma denúncia anônima quanto à origem duvidosa da carga, porém logo liberaram a mercadoria, que na verdade não passava de alguns livros raros e antigos. Todos os títulos tinham autorização para comercialização e não fora encontrado nenhum vestígio de artes das trevas ou qualquer outra ilegalidade.
"Ele está bem," Astoria falou, porém sua breve hesitação para responder fez com que Harry duvidasse. A mulher lhe lançou um olhar de esguelha e pareceu interpretar corretamente sua incredulidade, pois suspirou. "Ele estava indo muito bem, na verdade. Tinha melhorado bastante e insistia que já estava curado. Há cerca de dois meses, logo depois que a Dra. Rost deu alta para Scorpius, ele anunciou que suas doses de medicamentos haviam sido reduzidas e que em breve estaria livre do tratamento. Mas, de lá para cá, ele piorou novamente e... Meu Deus, não devia estar falando isso para ninguém, muito menos para você." Ela passou uma mão pelo rosto, parecendo arrependida. "Mas não tenho mais ninguém com quem conversar e Draco sabe ser teimoso quando quer..."
"Ei, está tudo bem," Harry tranquilizou-a. "Você também precisa desabafar com alguém. Não é nada fácil carregar esse fardo sozinha e fico feliz que você tenha me escolhido para dividi-lo."
"Mas não me entenda mal, Sr... Harry. Não estou cobrando nada de você. Você não tem responsabilidade nenhuma..."
Harry soltou o ar pelo nariz.
"Como se ele fosse me permitir aproximar dele novamente..." Harry disse, meneando a cabeça.
Astoria pareceu prestes a dizer algo, mas conteve-se. Ela levantou mais o queixo de maneira altiva antes de voltar a falar.
"Eu li sobre o fim do seu noivado. Sinto muito." Ela parecia mais fria e distante que antes e Harry encarou-a.
"Nunca fiquei noivo de Amabel," Harry falou com veemência, ao que Astoria o encarou num escrutínio. "Foi tudo um grande mal-entendido."
"Você não estava namorando aquela Auror, então?" A mulher perguntou ainda desconfiada, ao que Harry passou uma mão pelos cabelos desconfortavelmente.
"Estava," ele admitiu. "Mas foi um erro eu ter voltado com ela. Nós já tínhamos tentado antes e não deu certo. Mas então meus colegas ficavam nos jogando um para cima do outro e todo mundo parecia achar que formávamos um casal tão perfeito que devíamos estar predestinados a estarmos juntos, ou algo assim... Então eu pensei, por que não dar outra chance?" Ele suspirou, meneando a cabeça. "Foi muito desgastante. Para nós dois, imagino."
Amabel vivia dando indiretas sobre seu relógio biológico estar avançando, que ela sempre imaginou que estaria casada àquela altura da sua vida e sobre o quanto gostaria de ter filhos logo... Harry se fingia de desentendido e prometia para si mesmo que precisava acabar com aquilo o quanto antes, parar de iludi-la. Porém sempre que tentava abordar o assunto, ela conseguia dissuadi-lo, dizia que ele só precisava de um tempo e que ela não tinha intenção de pressioná-lo. E Harry se deixava enrolar, porque a perspectiva de voltar a ficar sozinho não era nada tentadora. Por mais que eles tivessem suas desavenças e que Harry às vezes se irritasse com algumas das suas manias, ela era divertida e leal…. embora Neville tivesse suas desconfianças a respeito do caráter da garota, principalmente depois do último incidente envolvendo um anel de brilhantes - herança de família de Amabel - e um bando de paparazzi.
"De qualquer forma, está tudo acabado, agora," Harry concluiu. "Definitivamente."
Astoria assentiu e baixou os olhos por um momento, umedecendo os lábios.
"Ele sente sua falta," ela acabou falando. "Apesar de não admitir, claro."
"Sim, eu o conheço muito bem," Harry tentou responder com naturalidade, apesar de seu coração ter disparado com a declaração e a esperança que ela trazia. "Também sinto a falta dele," admitiu. "Não devia ter deixado ele escapar. Fui tão idiota..."
"Tenho certeza que ele não facilitou as coisas também," Astoria deixou transparecer uma pontinha de sarcasmo. "Bem, se alguém perguntar, você não ficou sabendo disso por mim, mas ele costuma levar Scorpius a uma doceria bastante discreta situada na Londres Trouxa, em sábados alternados. Chama-se Doce Encanto e Scorpius adora a torta de caramelo de lá."
Harry se lembrava de Scorpius ter mencionado algo em suas cartas a respeito daquela famosa torta de caramelo que, aparentemente, havia sido descoberta pelo seu pai. De fato, o garoto fora bastante enfático ao dizer que Harry precisava experimentá-la.
"Alguém falou torta de caramelo?" Scorpius voltou para junto deles, com um mini-pufoso vermelho berrante tremendo nos braços. "É meu doce favorito!" Ele declarou.
"É um belo pufoso que você tem aí," Harry comentou, adiantando-se para passar a mão no bichinho, que se encolheu ainda mais. "Já tem um nome para ele?"
"Ainda não sei. Acho que vou chamá-lo de Amora, o que acha?"
"Acho que combina perfeitamente com ele."
"Muito bem," disse Astoria, tornando a vestir as luvas. "Agora despeça-se de Harry, pois já estamos de partida."
"Ahh..." Scorpius lamentou e Harry segurou seu queixo, fazendo com que ele levantasse os olhos.
"Ei, quem sabe não podemos fazer isso outras vezes? Nas próximas semanas meu afilhado estará de volta de Hogwarts então poderemos sair juntos. O que acha?"
Scorpius pareceu um tanto ressabiado com a possibilidade de ter que dividi-lo com outra criança, mas acabou concordando e despediu-se sorrindo.
"No outro sábado, sem ser o próximo," Astoria cochichou rapidamente quando se despediam. "Por volta das cinco horas da tarde. Doce Encanto, não se esqueça."
Harry assentiu e fez questão de pagar a conta, deixando um bilhete de agradecimento ao atendente, Maicon Acker.
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"Por que você nunca me trouxe aqui antes?" Teddy tinha as mãos apoiadas na vitrine repleta dos doces mais variados e o nariz a centímetros do vidro.
"Porque eu não conhecia," Harry respondeu. "E tire as mãos do vidro, sim?"
Teddy reclamou, mas se afastou.
"Então, o que vão querer?" Perguntou a atendente, uma bruxa de meia-idade com um sotaque estrangeiro que Harry não soube identificar. Ela não demonstara nenhum sinal de reconhecimento ao vê-lo, pelo que Harry se sentiu grato.
Teddy pensou e repensou, escolheu e mudou sua escolha até enfim se decidir por uma torta de chocolate com morango. Harry optou pela torta de caramelo, ganhando um rolar de olhos do afilhado.
"Tão previsível." Teddy meneou a cabeça.
"Ora, e você foi muito original no seu pedido, não?"
"Esse é só o primeiro, se você quer saber." Teddy encolheu os ombros. "Minha meta é de seis pedaços."
"Boa sorte com isso. Mas depois não quero ouvir sua avó reclamando que você passou mal."
"Claro que ela não vai reclamar, porque vou dormir na sua casa hoje."
"E sua avó sabe disso?"
"Eu disse que foi você quem convidou."
Harry abriu a boca para protestar, porém acabou meneando a cabeça.
"Está bem. Mas depois vamos conversar melhor sobre isso. E vamos ter que estabelecer algumas regras básicas, como não assaltar minha despensa no meio da noite nem ficar mandando Kreacher fazer coisas idiotas."
Teddy deu de ombros, ocupado em devorar sua torta de chocolate. Harry tinha escolhido uma mesa próximo da porta, longe dos demais ocupantes do lugar, e saboreava seu doce sem pressa olhando para a rua a todo momento. Apesar de ser um estabelecimento bruxo, a doceria ficava num bairro nobre de Londres e era uma porta de entrada para uma galeria repleta de lojas destinadas a alta sociedade bruxa, com roupas e calçados extravagantes e preços exorbitantes. Uma proteção antitrouxa impedia que pessoas desavisadas entrassem e uma placa ao lado da vitrine de doces indicava que bichinhos de estimação de clientes em compras ganhavam tratamento especial para os pelos/penas/couro/escamas na Hipogrifo Mimoso.
"Então a diretora McGonagall vai se aposentar?" Harry perguntou, puxando conversa.
"Sim," Teddy suspirou. "Ela anunciou para a escola toda no último dia de aula."
"Por que o suspiro?"
"Porque não sei se fico feliz com a notícia. Quero dizer, McGonagall é bem severa, mas pelo menos eu já conheço ela. Agora, quanto a essa Prof.ª Vector que vai assumir o lugar dela, não tenho ideia de como ela é. Você a conhece?"
"Sim. Ela é bastante séria, mas é ótima."
Teddy rolou os olhos.
"Não sei porque perguntei. Você sempre defende todos os professores. Até Malfoy..."
"A propósito," Harry mudou de assunto. "O que você achou dos novos professores?"
"Já disse o que achei deles nas milhares de cartas que escrevi durante o ano."
"Então refresque minha memória," Harry incentivou, ao que seu afilhado começou a contar e recontar sobre seu segundo ano em Hogwarts.
"Ei, aquele não é...?" Teddy falou quando já estava em seu segundo pedaço de torta - daquela vez, de amora - e então gemeu, seus cabelos passando do azul elétrico para o castanho, como ele fazia quando não queria chamar atenção para si mesmo. "Ah, não..."
Harry levantou os olhos para onde o afilhado olhava e sentiu um friozinho de antecipação na barriga. Draco e Scorpius haviam surgido do corredor que dava acesso à galeria, nos fundos da doceria. O pai caminhava distraído com as mãos nos bolsos, mas os olhos atentos do filho logo o acharam.
"Harry!" Scorpius exclamou e então puxou a manga do pai, que já olhava ao redor com o cenho franzido. "Papai, é o Harry!"
"Scorpius..." Draco chamou, mas já era tarde. O garoto já corria em direção a eles, sorrindo.
"Olá, Scorpius!" Harry afastou a cadeira em tempo de receber um abraço.
"Harry! Que bom ver você aqui!" Scorpius comemorou e só então pareceu perceber Teddy. "Ah, oi..." Ele pareceu ficar tímido de um momento para o outro.
"Scorpius, esse é meu afilhado, Teddy Lupin," Harry fez as apresentações. "Teddy, esse é Scorpius..."
"Malfoy, eu sei," Teddy completou soando um tanto desdenhoso. "Já vi você no jornal," ele esclareceu.
"Muito prazer em conhecê-lo, Sr. Lupin," Scorpius falou estendendo a mão formalmente.
Teddy lançou um olhar questionador ao padrinho, como se perguntasse 'O que foi que deu nele?'. Harry limpou a garganta e fez um gesto de cabeça para que o afilhado aceitasse a mão do garoto.
"Me chame de Teddy. Afinal, somos primos."
"Primos?" Scorpius franziu o cenho.
"Primos distantes, na verdade." Teddy deu de ombros e deixou que os cabelos voltassem a cor azul e Scorpius arregalou os olhos.
"Como você fez isso? Você também tem um 'Penteie um camaleão'?"
Antes que Teddy desse alguma resposta mal-educada, entretanto, foram interrompidos pelo pai do garoto.
"Scorpius, quantas vezes eu já disse para você não sair correndo de perto de mim?" Malfoy havia se aproximado sem se preocupar em disfarçar a própria contrariedade.
Harry constatou com alívio que o loiro parecia bem, apesar do que Astoria dissera. Ele tinha mudado bastante desde a última vez que se viram. Seus cabelos estavam um pouco mais compridos e ele parecia ter ganhado alguma massa corporal, ou talvez fosse uma ilusão causada pelas vestes elegantes que ele trajava, com um corte que lhe favorecia perfeitamente. Harry levantou-se educadamente assim que Draco se aproximou e obrigou-se a parar de encarar antes que começasse a ficar óbvio.
"Sinto muito, papai." Scorpius pareceu envergonhado.
"Potter,," Draco cumprimentou com um aceno de cabeça. "Sr. Lupin."
Teddy acenou com a cabeça em cumprimento, tornando a baixar os olhos para seu doce.
"Por que vocês não se sentam conosco?" Harry convidou.
Draco abriu a boca, provavelmente para negar, porém Scorpius foi mais rápido em seu entusiasmo.
"Sim! Isso seria ótimo! Não é mesmo, papai?"
Draco franziu ainda mais o cenho, mas acabou cedendo.
"Venha. Vamos fazer seu pedido primeiro."
"Quero uma torta de caramelo," Scorpius exclamou seguindo o pai até o balcão.
"Ouch!" Harry reclamou ao ter sua canela chutada tão logo voltou a se sentar.
"Você sabia que eles estariam aqui, não sabia?" Teddy acusou. "Fez tudo de caso pensado! Eu devia ter desconfiado..."
"Ei, não é nada disso." Harry massageou a própria canela e rolou os olhos diante do olhar do afilhado. "Está bem, admito que sabia que existia a possibilidade de encontrá-los aqui. Mas não é como se tivesse marcado um encontro ou algo do tipo, ou teria avisado você."
"Quero uma torta de caramelo," Teddy imitou, de maneira jocosa. "Puxa saco..."
"Já chega, Teddy," Harry repreendeu firmemente. "Não vou admitir mais malcriações suas hoje, entendeu? Se você não se comportar, vou levá-lo direto para a casa da sua avó e ter uma conversa séria com ela."
Teddy bufou.
"Está bem. Vou me comportar."
"Bom para você."
Eles ficaram em silêncio enquanto os dois Malfoy se aproximavam. Scorpius escolheu o lugar mais próximo de Harry, o que fez com que Draco ficasse de frente para o auror, porém o loiro evitou encará-lo nos olhos, passando a folhear uma revista que pegara ao lado da banca de doces.
"Hmmm," Scorpius aprovou ao colocar o primeiro pedaço de torta na boca. "Não é a melhor coisa que você já comeu em toda sua vida, Harry?" ele perguntou assim que conseguiu destravar os maxilares.
"É muito boa mesmo," Harry concordou ao finalizar a sua, lançando alguns olhares de esguelha ao ex-sonserino, que parecia bastante entretido com sua leitura. "Obrigado pela dica."
"Viu só, papai? Eu disse que ele ia gostar, não disse?" Scorpius cutucou o pai, que limitou-se a grunhir.
Teddy bufou, mas logo fingiu tossir.
"Vou pegar mais um pedaço," o corvinal anunciou ao receber um olhar desconfiado do padrinho, se levantando. Seus cabelos se tornaram de uma tonalidade amarelo-esverdeada. "Acho que vou experimentar uma de limão, agora. Quer mais alguma coisa, Harry?"
"Não, obrigado. Estou satisfeito."
"Com licença," Teddy pediu, como o perfeito cavalheiro que não era.
"Como é que ele faz isso com o cabelo?" Scorpius perguntou, admirado, e Harry abriu a boca para responder, mas Draco foi mais rápido.
"Ele é um metamorfomago. Você já aprendeu sobre eles com a Sra. Halder, lembra?"
"Uau! Mas eu pensei que só haviam metamorfomagos adultos!" Scorpius exclamou e Harry sorriu.
"Metamorfomagia não é algo que se pega ou que se aprende. A pessoa nasce assim," Harry explicou.
"Então ele é assim desde bebê?" Scorpius perguntou, ao que Harry assentiu. "Legal!"
Depois daquilo, Scorpius pareceu se esquecer um pouco de sua obsessão por Harry e passou a fazer perguntas para Teddy. Para alívio de Harry, porém, Teddy pareceu satisfeito com a atenção do garoto e fez até algumas demonstrações bastante exibicionistas.
Harry aproveitou a distração dos garotos para analisar melhor o homem à sua frente. Ele estava com uma aparência cansada, com olheiras que Harry não reparara num primeiro momento. Mas ainda assim parecia muito melhor do que dois anos atrás, nos primeiros meses que Harry passara em Hogwarts.
"Você também joga quadribol?" Scorpius perguntou, maravilhado.
"Sim. Sou artilheiro." Teddy estufou o peito. "Mas na verdade gostaria de ser goleiro. Shaw vai se formar no ano que vem, então vou poder me candidatar à vaga."
"Legal! Papai e eu também jogamos quadribol, às vezes. Nós poderíamos jogar juntos qualquer dia desses! Você também joga, não é, Harry?"
"Ele não joga quadribol. Ele arrasa, em cima de uma vassoura!" Teddy se gabou, como se falasse de si mesmo. "Pergunte ao seu pai. Eles jogavam um contra o outro, não é mesmo?"
Harry abriu a boca para se defender, mas Draco se adiantou novamente, finalmente abaixando a revista.
"Scorpius, por que você não chama o Sr. Lupin para ver o aquário?"
"É mesmo!" Scorpius se empolgou, já se levantando. "Teddy, você tem que ver... É o máximo! Você vem também, Harry?"
"Vão indo em frente," Draco falou, também se levantando e depositando algumas moedas na mesa. "Potter e eu estaremos logo atrás."
Harry não perdeu tempo em segui-lo, deixando também sua parte em sicles.
"Teddy, sem correr!" Harry gritou conforme os dois garotos corriam à frente. "E nada de gracinhas!"
"Por acaso Scorpius o convidou para vir aqui hoje, Potter?" Draco perguntou quase casualmente enquanto caminhavam lado a lado rumo ao corredor repleto de lojas e boutiques. Ele tinha as mãos nos bolsos e mantinha uma distância respeitosa entre eles que Harry achou melhor não invadir.
"Não, não," Harry garantiu já preparado para aquela pergunta. "Ele mencionou que eu deveria vir aqui qualquer dia, mas não marcou dia nem horário."
"Hnf..." Draco soou um tanto cético, mas não insistiu no assunto.
Havia alguns bruxos e bruxas indo e vindo no corredor, com seus narizes empinados, roupas extravagantes e portes refinados. Vez ou outra, eles lançavam um olhar de esguelha na direção de ambos, mas pareciam não lhes dar muita atenção, como se estivesse abaixo de sua posição reparar em algo além de si mesmos.
"Então..." Harry puxou assunto depois de um breve silêncio. "Como estão as coisas?"
"Bem, Potter."
"Algum arrependimento por ter deixado Hogwarts?"
Draco soltou uma risada debochada pelo nariz e meneou a cabeça.
"E quanto a você?" O loiro devolveu a pergunta.
"Também não. É bom estar de volta à ativa. Mas sinto falta das pessoas. Algumas mais que outras..." Harry mordeu o lábio inferior e susteve o olhar de Draco quando este o encarou, questionador. O loiro desviou os olhos primeiro, seu maxilar se retesando, mas Harry achou ter visto seus olhos mais escuros que o normal.
"É aqui," ele apontou para a placa onde se lia 'Hiprogrifo Mimoso'. O letreiro era encimado por um desenho de um hipogrifo bastante ameaçador e, enquanto olhavam, um bruxo saiu de dentro da loja com uma iguana nos braços. Eles entraram no aposento iluminado por uma luz azul esverdeada e difusa que Harry logo descobriu emanar de um imenso aquário que ocupava toda uma parede e mostrava os tipos mais exóticos de peixes coloridos.
"É lindo!" Harry exclamou. Teddy e Scorpius estavam muito próximos do vidro, apontando, falando e rindo.
"Scorpius adora vir aqui," Draco comentou, os olhos também fixos nos garotos.
"Ele está diferente." Harry voltou-se para Draco. O perfil do loiro refletia as tonalidades azuis e verdes da água. "Você também está diferente."
Draco engoliu em seco ainda sem encará-lo.
"Não me sinto diferente."
Harry não soube precisar se ele estava se referindo à doença ou aos seus sentimentos em relação a Harry. Resolveu arriscar. Afinal, não sabia quando teria outra chance como essa. O loiro provavelmente mudaria sua rotina para evitá-lo, depois dessa emboscada.
"Sabe, nós devíamos tomar um chá, qualquer dia desses. O que acha?" Harry perguntou, da maneira mais inocente possível, o que fez com que Draco finalmente o encarasse, os olhos cinzentos vasculhando os seus em busca de alguma evidência.
Harry já estava começando a se arrepender da abordagem repentina quando Draco finalmente respondeu.
"Talvez," Draco disse lentamente, o olhar escorregando para o peito do moreno, os lábios úmidos levemente entreabertos. Não tinha como Harry ter imaginado o desejo naquele gesto e ele se imaginou puxando o loiro pela nuca para um beijo, segurando-o pela cintura para aproximar seus corpos, fazendo com que ele se debruçasse na mesa mais próxima e...
"Em que posso ajudá-los, senhores?" Eles foram interrompidos pelo atendente da loja, um homem magro e alto com uma barba preta comprida.
Draco se recompôs num piscar de olhos e agradeceu polidamente, dizendo que já estavam de saída. Os quatro saíram da loja rumando para algumas lareiras no final do corredor enquanto os dois garotos comentavam sobre a aparência estranha dos peixes, cheios de excitação. Harry aproveitou um momento de distração dos meninos para sussurrar no ouvido de Draco.
"Entrarei em contato em breve."
Draco deu um curto aceno com a cabeça e eles se despediram. Harry deu um abraço em Scorpius e Teddy lhe ofereceu um aperto de mão. No instante seguinte, Harry e Teddy foram recebidos por Kreacher em Grimmauld Place.
"O mestre precisa de algo?"
Com o coração ainda acelerado pelo pico de emoção repentina, Harry deu instruções ao elfo para preparar o antigo quarto de Regulus Black para Teddy. O garoto comemorou e agradeceu ao padrinho por deixá-lo ficar, antes de se deitar no sofá sem se preocupar em tirar os sapatos. Harry não sabia o que o afilhado achava de tão interessante naquela casa velha, mas lembrou-se de também ter ficado fascinado com o lugar, quando adolescente.
"E então?" Harry perguntou empurrando os pés do garoto para fora do sofá para que pudesse se sentar. "Foi tão ruim assim?"
Teddy encolheu os ombros, fazendo pouco caso.
"É... Até que Scorpius não é tão chato para um fedelho."
Harry deu um peteleco na cabeça do afilhado, que mostrou a língua, mais divertido que chateado.
"Ele gostou de você," Harry falou, por fim.
"Harry? Tem certeza que você e o Prof. Malfoy são mesmo amigos?"
"Por que a pergunta?" Harry estranhou.
"Porque vocês não agem como se fossem amigos," Teddy ponderou. "Ele chama você pelo sobrenome e não parecia muito feliz em vê-lo. Pelo menos no começo."
"É só o jeito dele," Harry tentou soar casual.
"Sim, ele é um tanto estranho." Teddy fingiu um arrepio. "É meio assustador, na verdade."
Harry franziu o cenho.
"Você disse 'pelo menos no começo'?" Harry perguntou, como quem não quer nada.
"É. Depois ele ficou olhando de um jeito engraçado para você. Como se não quisesse que você visse que ele estava encarando." Teddy levantou a cabeça. "Ei, não tem nada para comer nessa casa?"
"Alguém já disse que você é um saco sem fundo?"
"Algumas pessoas," Teddy assentiu. "E eu nem pude atingir minha meta na doceria, já que vocês insistiram em ir embora cedo."
Harry suspirou.
"Vá tomar um banho que vou preparar alguma coisa."
"Alguma coisa do tipo panqueca doce com ovos e bacon? Daquelas que só você sabe fazer?"
"Suma logo daqui, garoto!" Harry enxotou-o, sorrindo.
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"Aqui. Está confortável assim?" Harry perguntou para a afilhada Rose, ao colocar um lençol sobre ela.
"Sim. Assim está bom," a garota assentiu. "Mas eu continuo sem sono," ela falou, apesar de seus olhos parecerem mais pesados a cada piscada. "Você não pode contar só mais uma história?"
Harry sorriu. Ele olhou para a outra cama onde Hugo respirava sonoramente abraçado ao seu dragão de pelúcia.
"Talvez amanhã." Harry deu um beijo na testa da afilhada. "Fique quietinha que o sono já vem, está bem?"
"Ok." Rose se ajeitou melhor nas cobertas e fechou os olhos.
Harry deixou o quarto fazendo o mínimo de barulho possível. Encontrou Hermione na cozinha, terminando de arrumar a louça do jantar.
"Dormiram?" Ela perguntou, baixando a varinha após o último prato flutuar para seu lugar na prateleira.
"Hugo desmaiou assim que encostou a cabeça nos travesseiros," Harry contou. "Rose foi mais dura na queda, mas também estava cansada."
"Sim, eles brincaram o dia inteiro com os primos." Ela sorriu e apontou para a sala. "Que tal nos sentarmos um pouco?"
"Já estou de saída. Teddy passou a noite em casa ontem e deixou tudo de pernas para o ar. Se eu não voltar logo, Kreacher vai acabar travado novamente tentando deixar tudo em ordem."
"Espere só mais um pouco," Hermione insistiu. "Ron está tomando banho. Ele vai ficar chateado se você sair sem se despedir."
Harry assentiu e se sentou no lugar que seus afilhados tinham apelidado de 'Poltrona do tio Harry', uma vez que ele sempre escolhia o mesmo lugar. Hermione se sentou à sua frente e encarou-o com seus olhos perscrutadores.
"Então..." ela falou. "Tem algo que você queira me contar?"
Harry rolou os olhos tentando não parecer tão apreensivo quanto se sentia.
"O que foi que saiu no jornal, dessa vez?"
"Na verdade foi uma matéria sobre Astoria Greengrass," ela falou e Harry desviou os olhos. "Mencionava algo sobre ela estar sendo vista com alguns cavalheiros recentemente, incluindo um jovem herdeiro de uma família influente e... bem, você. Não havia nenhuma foto, mas você tem andado ocupado ultimamente, então eu pensei..."
"Encontrei com ela e Scorpius na Florean Fortescue," Harry confessou.
"Oh..." Hermione assentiu, incentivando-o a contar mais e Harry espalmou as mãos.
"Não foi nada de mais. Eu queria ver Scorpius, só isso."
"Tudo bem, Harry. Não estou acusando você de nada." Ela levantou as sobrancelhas parecendo divertida com sua reação, o que fez com que Harry se sentisse irritado.
"Está bem, talvez eu esteja pensando em tentar novamente com Draco."
"Oh!" Daquela vez Hermione pareceu consternada. "Sério? Vocês têm se encontrado?"
"Não... Na verdade só ontem, numa doceria. Mas não era como se fosse um encontro nem nada. Eu estava com Teddy e ele com Scorpius. Astoria mencionou que ele costumava ir lá e eu fiz o encontro parecer acidental." Harry meneou a cabeça. "Não sei se ele acreditou muito, mas a verdade é que acho que ele também está interessado em voltar e, quer saber? Não posso culpá-lo por querer manter tudo em segredo entre nós. Quero dizer, veja o que aconteceu com Amabel..." Ele esfregou as mãos no rosto por baixo dos óculos. "Aquilo foi um pesadelo. E vai ser sempre assim, com qualquer pessoa que eu resolver me relacionar, pelo resto da minha vida..."
"Ei, não diga isso..." Hermione falou de maneira compreensiva. "Não é bem assim. Por mais que eu odeie admitir algo do tipo sobre outra mulher, é possível que Neville tenha razão sobre ela estar dando dicas para os paparazzi."
Harry encarou-a, chocado. Hermione sempre havia defendido Amabel das desconfianças de Neville.
"Sinto muito," ela ofereceu-lhe um sorriso compadecido. "As coisas devem estar bastante esquisitas no QG agora que vocês terminaram."
"Ela pediu transferência para outro departamento."
"Sério? Bem, pelo menos assim vocês não terão que se ver todos os dias."
"Sim," Harry concordou aliviado.
"Mas acho que você realmente devia seguir seu coração dessa vez, Harry," Hermione continuou. "As pessoas sempre vão tentar se meter, como aconteceu no caso de Amabel, e muitas vezes elas estão cheias de boas intenções, como foi o caso de Ron." Ela rolou os olhos, se referindo ao quanto Ron o incentivara a voltar com a Auror. "Mas ninguém sabe melhor o que faz você feliz do que você mesmo. E você merece ser feliz, Harry..."
"Obrigado, Mione," Harry agradeceu de todo coração.
"Ei, aí está você, cara!" Ron chegou, parecendo mais animado depois de um banho. "Que tal aquela partida de xadrez agora?"
Harry se desculpou dizendo que teria que ficar para outro dia e despediu-se dos amigos, voltando para casa. Por mais que Ron tivesse se mostrado compreensivo quanto ao seu caso com Draco no ano anterior, Harry sabia que ele ficara aliviado quando tudo terminou. E ainda mais aliviado quando Harry voltou com Amabel. Não pretendia esconder do amigo caso realmente voltasse a ver Draco, mas ainda não estava preparado para aquela conversa.
Assim que chegou a Grimmauld Place número doze, Harry consultou o relógio e debateu consigo mesmo se não estava tarde demais para colocar seu plano em prática, mas resolveu arriscar. Escreveu algumas palavras num pedaço de pergaminho e prendeu-o no pé da sua coruja, que saiu voando pela janela.
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