Um Sol na Escuridão da Noite
TK P.d.v.
Patamon... Eu... Eu simplesmente não sei o que fazer...
Fazem horas desde que partimos daquela clareira nas costas de Qinglongmon, o sol está quase nascendo e ainda assim não consigo dormir... Não é só culpa que estou sentindo, é... Algo a mais...
A Kari está sumida, e eu quero tanto salvar ela e dizer que está tudo bem, que as coisas vão melhorar... Eu sempre senti que eu deveria estar lá pra ela, e que isso seria suficiente para sermos felizes, mas nada aconteceu da forma que deveria ter acontecido. Como posso pensar num futuro com tudo que aconteceu?
A Mirato, o Davis, a viagem, a gravidez... A Mirato... O Davis... Até você, Pata... De novo, foi você quem teve que se sacrificar. Quando você fez isso contra o Devimon, eu fiquei com muito medo e muita dor, mas hoje me lembro com orgulho o que você por todos nós, e serei eternamente grato por isso.
Mas o que aconteceu ontem... Eu nunca poderei lembrar daquilo com orgulho. Eu permiti que você se transformasse num monstro e se rebaixasse ao nível deles. Ele pode estar morto, mas Metamormon com certeza ganhou.
Não importa o que aconteça, Pata, nunca mais vou permitir que minhas emoções tomem o controle de mim dessa forma. Não só permiti que isso machucasse a Kari, o Davis e até mesmo a Mirato, mas agora a você também. E prometo que nunca mais isso acontecerá, Pata, eu juro...
-TK.
-Hum? Tai? Que você está fazendo acordado? – os olhos dele estão inchados, com olheiras... Acho que não sou só eu que não consegue dormir.
-Você pode me acompanhar? Quero falar com você...
Posso ver no rosto dele... Mesmo em pé, parado atrás de mim, o cabelo cobrindo quase que todo o rosto por causa do vento, é possível ver como ele está exausto de tudo isso... Olho rapidamente para os outros, eles continuam dormindo; até os digimons estão finalmente descansando, eles merecem, depois de tudo que aconteceu.
Eu me levanto e acompanho o Tai até a cabeça de Qinglongmon. Não me importo que ele ouça nossa conversa, apesar de achar que com esse vento todo, ele não deve conseguir ouvir direito. O Tai se senta encostado no chifre, e eu bem em frente a ele. Eu sabia que essa hora chegaria, e não posso hesitar, chega de hesitar.
-TK... Eu sinto muito pelo Patamon...
-Foi minha culpa... Eu deveria ter me controlado, o plano de Metamormon funcionou... Não tinha por que as coisas acontecerem daquela forma, a gente tinha ele cercado e ainda assim... O Davis e o Patamon...
-Ele foi inteligente, e agora temos que tomar cuidado pra que isso não aconteça mais...
-Tai – consigo ver nos olhos dele que, mesmo que ele não tenha superado nada disso, não foi pra falar sobre isso que ele me chamou – Queria pedir perdão pelo que causei na vida da Kari... Se eu pudesse voltar no passado, pode ter certeza que eu tentaria impedir a gente de fazer aquilo, nunca... Nunca foi nossa intenção...
Ele não falou nada, então acho que ele quer saber como e porque tudo isso aconteceu. E foi o que eu fiz. Contei tudo, contei sobre nosso distanciamento, nossa conversa, sobre o vinho, sobre as mentiras, sobre minha covardia; contei tudo que eu poderia contar. Menos... Menos o que o Davis disse... Isso acredito que é com a Kari que preciso conversar antes...
Ele não me interrompeu em momento algum, mas percebi que ele analisava cada movimento que eu fazia, cada piscada de olho, cada pausa que eu tomava pra contar as partes mais difíceis. E quando eu finalmente acabei, ele continuou inexpressivo. Parecia que ele não estava satisfeito, mas era tudo que eu podia contar.
-TK, você não falou tudo ainda. E quanto à Mirato? Que você tem a dizer sobre isso?
-É MENTIRA! – eu não consegui não gritar. Espero não ter acordado ninguém, mas dei uma rápida olhada pra trás pra confirmar – Tai, eu juro pra você por tudo que é sagrado, eu não tenho nada a ver com essa história do filho dela! A gente nunca sequer teve esse tipo de relação! Eu não sei como ela ficou sabendo da gravidez da Kari e não tenho ideia de quem era o filho dela... E acho que nunca vamos saber a verdade...
Eu não consegui evitar lembrar o que Metamormon mostrou... Mirato... Você... Você não merecia isso... Mesmo depois de tudo isso, eu nunca teria coragem de machucar você, então, eu imploro... Esteja onde estiver... Não acredite que fui em que fiz aquilo...
Tai fica em silêncio por alguns segundos, acho que deve ter visto como fiquei ao lembrar disso...
-TK, te conheço há anos, e conheço a Kari melhor do que ela gostaria de admitir, e quero que saiba que eu acredito realmente que vocês não planejaram que nada disso acontecesse. Mas eu tenho que admitir, muita coisa que você diz não faz sentido... – não... Tai, por favor, acredite em mim – Você voltou com a Mirato depois de saber que minha irmã ia ser expulsa de casa, e mesmo que não fosse isso, você mesmo admite que não tem nenhuma prova de que o filho dela não era mesmo o seu...
Prova? Por que isso de repente fez com que eu sentisse algum lampejo... Prova... Prova...
-É ISSO!
O Tai ficou olhando pra mim por alguns momentos como se eu tivesse enlouquecido, e mesmo depois de tudo isso, eu não posso evitar... Se eu estiver certo...
-Tai! É isso! O exame que a Mirato fez! O teste de paternidade! Foi o Joe quem fez! – o Tai demora um pouco pra entender que eu queria dizer, mas não deu alguns segundos e vi um sorriso esboçar em seu rosto – Ela só poder ter feito duas coisas: ou ela usou o cabelo da pessoa que engravidou ela, ou ela usou o meu! Se ela usou o meu, o Joe vai saber e melhor ainda, ele trouxe os resultados pro Digimundo quando a gente foi trazido pra cá, é só compararmos pra termos certeza que é meu DNA. Não só é a prova de que o filho da Mirato não é meu, mas também seria a prova de que sou o pai do filho da Kari!
Imediatamente, nós dois nos levantamos e fomos até o Joe. Ele estava encolhido com Pukamon nos braços, a baba dele não parava de escorrer. A gente tomou muito cuidado para acordá-lo sem atrapalhar o Pukamon e o levamos para onde estávamos conversando pra não acordar mais ninguém.
-Joe, desculpa te acordar, mas a gente precisa saber! Você está com os exames da Kari e da Mirato com você?!
-Hum? Deixa eu pensar... – tava bem claro que ele não gostou de ser acordado, mas foi só ouvir o assunto e ele já entendeu o porquê da pressa – Ah, ele está na minha maleta! Ele deve estar...
Ele ainda se virou pra ver se a trouxe, mas agora que parei pra lembrar, ele realmente não a trouxe...
-Sinto muito, gente... Acho que esqueci ela dentro de Xuanwumon... Devo ter deixado lá quando fomos procurar nossos parceiros...
-Tudo bem, Joe, não precisa se culpar.
O Tai tá certo... Não tem mesmo motivo pro Joe ficar mal. Eu seguro com força a mão do Tai com as minhas, pra deixar isso tão claro quanto possível.
-Tai, eu prometo, assim que resgatarmos a Kari e nos reencontrarmos com Xuanwumon; assim que tudo isso acabar, eu prometo, eu falarei com seus pais e nós vamos resolver tudo isso, e eu vou compensá-la por tudo que aconteceu!
Uma luz forte começa a nos cegar e no começo, eu acho que é o sol. Só que, alguns segundos depois, eu sinto um calor sobre minhas pernas e minha barriga. E na hora fica claro que não é o sol, é algo bem melhor...
-TK!
-Oi... – não consigo evitar que minhas lágrimas comecem a escorrer... É fazendo carinho nele que eu falo, a voz vacilando de felicidade – Bem vindo de volta, Poyomon...
...
-Diga ao resto deles que logo terão algumas horas de meu tempo, mas não no momento...
-Mas, senhor Justimon, eu tenho ordens...
Justimon estava deitado desleixadamente na cama de madeira em seu aposento, tentando descansar, mas já era a terceira vez que ele era perturbado.
As paredes de seu quarto eram todas de tijolos, assim como o chão. O local em si não era muito grande, contando apenas com a cama que ficava sob uma janela em arco gótico, alguns pesos e sacos de bater pendurados. Próximo à porta, havia um pedaço de madeira no qual uma grande variedade de molhos de chave estava pendurada.
-Diga a eles que vou logo mais, agora me deixe dormir.
Cannonbeemon evidentemente ficou desapontado com isso, mas sabia que insistir era perder seu tempo. Ele faz uma referência e se afasta, fechando a porta no caminho.
Assim que percebeu que estava sozinho, Justimon se ergue da cama e se senta na beirada da janela, inquieto. De lá, ele era capaz de ver toda a Cidade Sagrada, do alto da torre escura que ficava no centro das costas de ElDoradimon; o sol da manhã começando a projetar sombras de casas, prédios e torres sobre a cidade que ainda despertava.
Sentindo uma súbita carga de frustração, ele desfere um soco no batente da janela, rachando vários tijolos. Sentindo uma leve dor se espalhar em seu punho, ele olha para o outro braço. Ou o que sobrara dele...
Flashback
-Eu ainda não entendi por que a gente tem que te aturar, Justimon...
Justimon, dessa vez com seus dois braços orgânicos, estrala seus dedos e solta um longo bocejo. Como se estivesse falando com uma criança, ele repete bem lentamente:
-Callismon, eu já disse. O Conselho não podia mandar vocês sozinhos porque não confiam em vocês nem pra proteger um punhado de pedras, especialmente você; imagina uma missão dessas. – o digimon azul não consegue evitar um sorriso ao ver o digimon urso ranger os dentes perante a piada, sendo logo retrucado:
-Achei que se eles são loucos de confiar em você, comigo seria bem fácil.
Justimon e Callismon, seguidos por Suijinmon, Raijinmon e Fujinmon, andavam calmamente para o ponto de emboscada: uma clareira no meio da Ilha Arquivo, onde eles deveriam atacar os digiescolhidos. Como se apreciasse a companhia de Justimon, Fujinmon avança um pouco e começa a andar ao lado deles, deixando um entediado Raijinmon e um soturno Suijinmon para trás cuidando da retaguarda. Logo após parear com ele, o aborda com suavidade:
-Então, Justimon... Estamos só nós três aqui, me diga... Quem é esse misterioso encapuzado? Que ele disse pro Conselho ao ponto de nós 5 sermos mandados pra cá?
-Fujinmon, você é tão sutil quanto o Suijinmon aqui atrás. Mas sinto informar você que não é da sua conta, é conta do Conselho, e eu, como membro, não posso te contar; e antes que você me interrompa, eu colocaria Callismon muito antes de você como membro.
-Hum... - a expressão de Fujinmon não poderia ser pior se Justimon tivesse lhe dado um soco, mas ele simplesmente dá um sorriso e volta para junto dos outros dois na retaguarda. Callismon não consegue evitar dar uma barulhenta risada ao ver a forma como Justimon reagira.
-HAHAHA! Por isso que gosto de você, Justimon! Mas se inventar de novo de me colocar no seu grupinho de segredos, vou gostar menos... Aqueles três não conseguem aceitar o fato de que o caçula é parte do Conselho e eles só são bucha de canhão, não é?
Justimon acaba rindo do comentário; Callismon já sabia do Plano B, pro caso dos três serem derrotados, e aquele comentário não pode ter sido mero acidente.
-Ah, se Shawujinmon soubesse do uso que vamos fazer para os irmãos dele, com certeza ele estaria menos ansioso por aceitar com o acordo com o Encapuzado... – Justimon coloca seu braço direito sobre o ombro do digimon urso e sussurra com uma gravidade raramente vista nele - Callismon, se você tiver que usar Raidenmon, fuja imediatamente. Não temos ideia do que ele é capaz de fazer, mas não faça alguma tolice como tentar controla-lo. Lembre-se, nossa missão é causar dano e fugir; aqueles três são dispensáveis, você não.
-Hahaha! Você se preocupa demais, Justimon. Somos cinco digimons extremos contra um grupo pequeno que consiste na maior parte em digimons perfeitos. Se eu tiver que soltar o Raidenmon pra cima deles, conto com você pra me tirar dali antes que ele me transforme em um casaco de pele fedorento, hahaha! – é a vez de Callismon de colocar sua pesada mão sobre o ombro de Justimon, tentando relaxá-lo.
-Você tem que ter cuidado, se algo acontecer comigo, você é o único em quem confio pra cuidar das coisas por lá... Eu já deixei tudo ajustado com o Conselho nomeá-lo meu sucessor, Callismon. Está mais que na hora...
-HA! Já disse, me coloque lá e eu prometo que aí sim precisarão de alguém para substituí-lo, HAHAHA!
Algumas horas depois
Justimon continuava oculto na floresta ao redor da clareira enquanto a luta entre Callismon e seus subordinados contra os digimons ocorria. Suijinmon e Fujinmon já haviam sido derrotados, e as coisas não pareciam melhores para Raijinmon e Callismon.
-Está chegando a hora de ser o herói...
Estralando os dedos, ele observa Raijinmon ser derrotado, mas o que realmente chama sua atenção é o canhão no braço de Callismon ficando dourado. Ele se prepara para resgatar o companheiro, mas de repente uma dor lancinante toma conta do lado direito de seu corpo.
Antes que pudesse reagir contra a causa, uma súbita pressão parece esmagar todo o seu corpo, o prendendo ao chão. Logo depois, essa misteriosa pressão se assoma a cada centímetro de seu corpo, impedindo-o de se mexer ou mesmo de falar. Entretanto, mesmo no meio de tanta dor, ele ainda consegue focar sua visão para a clareira ao ouvir o resmungo de dor de Callismon ao ser acertado pelo Beauty Shock de Rosemon na perna.
Não era a ameaça de quem quer que tenha lhe atacado por trás que o preocupava mais no momento, nem a estranha presença que o impedia de se mover, nem a dor excruciante que ainda tomava seu corpo que o fez se sentir pior; foi ter visto Callismon olhar na sua direção.
Durou alguns milésimos de segundo, mas Justimon viu cada pensamento que passou pela cabeça do digimon: ele procurou por Justimon para dá-lo cobertura, viu que ele não estava lá e concluiu que também fora usado, da mesma forma que Fujinmon e os outros, sendo abandonado para a morte; apenas isso parecia explicar para Justimon as atitudes que se seguiram.
Como se resignado com seu destino, Callismon foi conscientemente descuidado e apontou na direção dos digiescolhidos. Justimon tentou impedi-lo, tentou se levantar, tentou gritar para que não fizesse isso, desesperado para salvar a vida de seu amigo, desesperado para mostrar que não o traíra e impedi-lo de jogar a própria vida fora, mas nada que fazia permitia que seu corpo se livrasse.
Quando as garras de WarGreymon trespassaram o corpo do digimon urso, Justimon parou de se resistir. Só quando o flagelo de Raidenmon começou a destruir a Ilha Arquivo é que o peso sobre seu corpo cessou, e ele conseguiu virar para compreender tudo que ocorrera.
Justimon não conseguia ver o rosto por trás da máscara de aço, mas algo no interior de seu corpo dizia que ele sorria. O capuz cobrindo todo seu rosto e o manto seu corpo, o Encapuzado continuava a segurar o braço de Justimon, sentado em uma raiz nodosa de uma árvore atrás de si. Ao perceber a gravidade de seu ferimento, o digimon acabou ficando paralisado por alguns segundos, incapaz de absorver o que ocorrera.
-Ah, olá, Justimon! – falando de forma casual enquanto a destruição ficava cada vez mais séria e Raidenmon terminava de se formar, o Encapuzado ergue o braço de Justimon – Sinto muito, mas prometo que isso foi estritamente necessário. Assim como isso...
Usando o próprio braço de Justimon, o Encapuzado o acerta na cabeça com violência, desacordando o digimon instantaneamente. O crepúsculo já começava a se formar no céu quando Justimon recobrou a consciência.
Demorando um pouco para que sua consciência voltasse a ficar fixa, Justimon se levanta lentamente, olhando ao redor. Após alguns momentos, ele percebe que estava no meio da clareira onde ocorrera a luta algumas horas antes, o chão quase que totalmente destruído pelo violento embate que ocorrera e pela devastação causada por Raidenmon. Enquanto sua consciência retornava, ele vê duas silhuetas sentadas ao redor de uma fogueira próximo de si, e ele decide se aproximar.
Ele tenta ergue seu braço direito para tampar a luz da fogueira e poder distinguir quem eram aqueles indivíduos, mas estranhamente a luminosidade não diminui. Ao olhar para seu flanco e ver que tudo que sobrara fora parte do ombro, ele solta um angustiante grito.
-Ah, vejo que você acordou, Justimon! Venha, se junte a nós na fogueira.
Ainda que não fosse capaz de enxergar normalmente, Justimon não precisou de nada mais do que a voz para identificar e atacar o Encapuzado, sem ligar quem era a pessoa sentada ao seu lado. No meio do caminho, ele pula no ar e mira na parte detrás do pescoço daquele que arruinara seus planos, que transformara aquela simples missão em um grande desastre:
-Justice Kick!
O poderoso chute de Justimon acerta em cheio o alvo, arremessando o Encapuzado vários metros adiante, capotando contra o já bem destruído chão. Quem o acompanhava pareceu não se importar com isso, continuando sentado sem reagir à agressão.
Justimon olha fixo para o local onde o Encapuzado aterrissara violentamente, esperando a qualquer momento que ele se erguesse. Quando julgou seguro, ele decidiu olhar para quem estava próximo de si, e a surpresa o toma com violência.
-A digiescolhida da Luz?! Que você está fazendo aqui?
-Haha! – "Kari" sorri de forma debochada, então se vira para o Encapuzado, ainda caído – Eu disse que sou bom no que faço!
-Sim, de fato, Metamormon – o Encapuzado responde enquanto começava a se erguer, fazendo com que Justimon volte novamente toda sua atenção a ele – Seus serviços são inestimáveis para nós – falando com a mesma indiferença de quando arrancou o braço de Justimon, ele para um segundo para estralar o pescoço e anda calmamente em direção à fogueira. O digimon aleijado imediatamente se prepara para o confronto, mas o estranho indivíduo simplesmente pega um toco de madeira e se senta ao lado de Metamormon.
Após alguns segundos, o misterioso indivíduo se vira novamente para Justimon e aponta para o pedaço de madeira no qual estava sentado anteriormente.
-Não vai se sentar à fogueira? A noite está fria, venha se aquecer conosco. – após alguns segundos de silêncio, ele acrescenta, com o mesmo tom casual de sempre – Ah, se você se sente mal por isso – ele apontou para a parte detrás do pescoço – Não se preocupe, eu meio que te devia isso por causa do seu braço.
-MEU BRAÇO?! VOCÊ ME IMPEDIU DE SALVAR MEU COMPANHEIRO! SE NÃO FOSSE POR VOCÊ, CALLISMON ESTARIA VIVO!
-Ah, teve isso também. Bom, eu acreditava que como você estava confortável em sacrificar os outros, a morte de Callismon não seria nada demais...
-VOCÊ TEM QUE ESTAR DE BRINCADEIRA COMIGO!
O tom simples de falar e a forma como ele encarava a situação fazia com que Justimon sentisse uma ardente fúria dentro de si que mascarava quase que por completo a gélida sensação que aflorava em seu coração com a forma como seu Justice Kick era simplesmente ignorado daquela forma.
-Olha, sei que você ficou chateado por tudo isso, e sei que essa situação toda é desagradável pra você, mas peço que se acalme. Agora, por favor, sente-se.
Justimon não se mexeu um centímetro sequer, continuando a observar o Encapuzado com uma clara intenção de continuar a "luta".
-Eu disse, sente!
Finalmente o tom se altera para algo parecido com raiva, mas quando ele se prepara para o combate, Justimon sente que todo seu corpo é puxado para baixo pela mesma estranha pressão que o impedira de se mover e salvar Callismon mais cedo. Ao ver a confusão no rosto do digimon, "Kari" sorri e se estica para trás, fitando a conversa com grande diversão.
-Ótimo, então, podemos conversar que nem indivíduos racionais...
Flashback off
Os pensamentos de Justimon são interrompidos por uma batida na porta. Se preparando pra dispensar novamente Cannonbeemon, ele é surpreendido por alguém muito mais peculiar.
Uma enorme cabeça entra seguida por uma pesada corcunda, inúmeros tentáculos mecânicos se espalhando pelo chão e pelas paredes, como se ajudasse a tatear os lugares. Tendo bastante dificuldade pra fazer com que as várias estruturas de suas costas passassem pela porta, Ebemon-X se aproxima lentamente de Justimon. Sua pesada voz eletrônica se assemelhava à estática causada por um rádio defeituoso:
-Fico feliz que tenha voltado, Justimon... Sua segurança nos é muito querida...
-Cale a boca, sua lata de sardinhas. Você nem deve saber o que "feliz" quer dizer.
-Sempre tão virtuoso...
Um tenso silêncio se instalou no quarto. Mesmo que os olhos de Ebemon-X não se mexessem, Justimon sabia muito bem que ele deveria estar focado em seu braço faltante.
-Que foi? Se estiver com inveja, posso tirar um de seus canhões de você.
-Admito que acharia isso muito desconfortável... É que eu possuía a crença de que você tinha "algo" para mim... De um amigo em comum...
-Hahaha! Tinha que ser você, seu maldito cretino!
Justimon se levanta e pega o pequeno simulacro circular que o Encapuzado lhe entregara de um dos bolsos de seu cinto. Ele o deposita em um dos tentáculos de Ebemon-X, que abre o pequeno recipiente e permite que seu conteúdo caia sobre outro, e mesmo seus olhos robóticos parecem brilhar momentaneamente:
-São ainda mais interessantes do que supunha...
Sem de fato tocar o tentáculo mecânico de Ebemon-X, as três pequenas esferas, nas cores dourado, vermelho e verde, flutuavam em um constante movimento circular entre si, como se orbitassem um sol invisível que as mantinha juntas.
-Mesmo depois de tantos anos, ainda será a primeira vez que eu trabalharei com Diginúcleos... Acredito que Shawujinmon ficará feliz em ver que os irmãos continuam no mesmo plano que ele, mesmo após o fiasco de Raidenmon.
Recolocando as três esferas no simulacro circular, Ebemon-X os traz para junto de seu corpo, fazendo com que o misterioso pacote desaparecesse entre os tentáculos do robô.
-Você deveria estar grato por isso, Justimon... Você é o maior beneficiado por tudo isso, não só pelo que será produzido para você, mas também pelo prestígio que você receberá quando tudo acabar.
-Apenas faça sua parte – agora Justimon não escondia mais seu desprezo, olhando fixamente para a porta.
-Como desejar...
Indiferente ao desprezo do digimon, Ebemon-X se vira e lentamente se afasta. Quando quase saía, entretanto, Justimon o questiona:
-Ele está vivo?
-Quem? – Ebemon-X para na porta, olhando para Justimon.
-O Cannonbeemon que estava na porta. Você deixou ele vivo pelo menos?
-Fufufu... Eu creio não saber do que você está dizendo, Justimon. Só temos nós dois aqui...
Ebemon-X finalmente se retira, descendo a escadaria em caracol que levava até o quarto do digimon amputado, mas Justimon teve certeza de ouvir uma pequena risada no ponto em que ele devia estar passando pelo pouco que sobrara do Cannonbeemon.
-Maldito sádico...
"Mas ele está envolvido no que aconteceu comigo e com o Callismon... Ebemon-X, eu prometo, antes que tudo acabar, você implorará que eu apenas arranque seu braço".
Continua...
