Durante o jantar Rhysand e Ruven conversavam amigavelmente, mas tinha conhecimento que apesar das palavras de cortesias havia uma certa tensão entre eles. Ao contrário da recepção, somente havia umas quatro pessoas da corte de Ruven no recinto. Sentia outros guardas nos corredores, mas a feérica loura que Camella havia se tornado não estava presente. Seria muito arriscado deixar minhas sombras percorrerem o castelo parcialmente desconhecido com tantos guardas nos vigiando. Me revirei na cadeira e Melaure acompanhou meu desconforto.
"Gostou do nosso pato assado Azriel?" Melaure se inclinou com um sorriso servindo um pouco mais da carne no meu prato.
"Esta realmente uma delicia. Obrigado" Dobrei a cabeça em agradecimento sem tirar meus olhos dos dela.
"Coma tranquilo, pois depois do jantar discutiremos essa visita inesperada" Apesar do sorriso, seu tom denunciava que não estavam contentes de que o Grão senhor da corte noturna junto com os seus principais aliados foram sem avisar até o continente fazer uma visita de fachada.
E assim como previsto depois que terminamos de comer Rhysand finalmente abordou o assunto das Vheelas. Mas nesse meio tempo ele já havia investigado a mente de Melaure e me deu as cordenadas onde eles a deixavam escondida. "Ruven e seu comandante obviamente estão bem bloqueado, mas Melaure tem uma barreira pouco eficaz" Rhysand me confidenciou ainda conversando com Ruven.
Pedi licença e me encaminhei ao banheiro sendo seguido por um guarda. Dei o comando a minha sombra para investigar a torre que Camella estava trancafiada, voltei ao salão com um pressentimento ruim. Cassian também sentiu.
"É uma pena que não podemos concordar Ruven. Os Vheelas podem ser um ponto crucial nesse conflito. Estamos fazendo o possível para entrar em um acordo sem uma grande guerra, mas ambos os lados não cooperarem, será impossível! Espero que você reconsidere. Por ora eu tenho outros assuntos no continente."
Nosso tempo está acabando, onde ela está? Rhysand me perguntou por pensamento.
Preciso de mais alguns minutos. Meu olhar cruzou com Cassian que entendeu de imediato. Eles estavam com medo e medo não é um bom sentimento para fazer qualquer acordo, faz com que eles tomem atitudes precipitadas como essa de nos cercar com guardas.
"Esta na !" Cassian se levantou e andou até mim esperando por Rhys.
Rhys fez uma leve mensura andando de costas até nós. Não vi, mas sabia que ele tinha um sorriso enviesado no rosto antes de nos desdobrar para fora do castelo.
"Por essa Ruven não esperava. A magia dentro do seu castelo esta enfraquecida, foi difícil desdobrar." Rhys ainda mantinha o sorriso, mas se apagou na segunda pergunta "Encontrou Camella?"
"Não está na torre como eu esperava. Eles mudaram ela de lugar" Minha sombra sussurrou segundos antes de sairmos do salão.
"Ou ela fugiu." Cassian olhou para os lados buscando os guardas de Ruven.
"Já sabe o que fazer Az. Cassian e eu seguimos para floresta." E assim caminhei para o lado oposto dos meus companheiros voltando ao castelo. Se me pegassem espionando essa corte qualquer acordo que Rhys tivesse feito décadas atrás seria quebrado. Era um preço alto, mas Camella era a única pista que tínhamos. Caminhei entre arbustos até a saída do túnel que levava para dentro do castelo, o mesmo que utilizei da última vez que estive aqui. Suspirei olhando o céu com poucas estrelas, o túnel estava em um perfeito breu a porta de ferro abriu com um pequeno ruído que ecoou pelas paredes de pedra, entrei com passos firmes dentro do completo escuro. Minha visão rapidamente se acostumou com a escuridão ainda sim, não conseguia distinguir nada. Ouvi passos e estanquei. Uma fêmea vem nessa direção, sussurros me avisaram. Uma, somente uma. Melaure, ela conhecia esses tuneis. Meu sangue gelou era tarde para voltar sem chamar atenção, então a chama de uma tocha fez meus olhos dilatarem enxergando a terra úmida e o vestido de linho fino com a barra suja.
"Azriel!" Um sussurro de alivio numa voz doce fizeram meus olhos levantarem num susto até o rosto bonito de uma feérica jovem vestida impecável como uma princesa. Não era Melaure. Camella agora na sua verdadeira forma sem as madeixas louras, mas com orelhas pontudas e cabelos lilases me fitava aflita.
"Era você que estava procurando, não temos muito tempo."
"Onde está minha irmã?" Camella me cortou sem se aproximar.
"Vheelas a encontraram em Prythian, levaram Liz para julgamento. Sabe onde a levaram? " Perguntei no desespero do momento. A mão livre tapou sua boca e seus olhos arregalaram ainda mais.
"Ruven...ele não me disse nada! Ele disse que eles desistiram. Eu sabia que eles não iam desistir de nos procurar! Eles nunca desistem, não importa quantos anos passam é questão de honra. Fomos suicidas! " Lagrimas caiam do rosto dela e seus lábios tremiam. "Mataram ela!"
"Ela está viva, eu sinto! Onde ela pode estar? Camella, vão matá-la se não encontrarmos ela antes do julgamento!" Minha paciência de semanas estava por um fio.
A feérica me olhou me estudando ainda com lagrimas nos olhos. Vi sua batalha interna antes de me responder pouco confiante.
"Na caverna, eu suponho. "
"Onde é essa caverna? " Lembrei dos meus sonhos.
"Ela gostava de você, mas EU não sei se posso confiar. Vocês não a protegeram como Ruven fez comigo. " Sua mão fechou em punho ao lado do seu corpo. Ela tinha razão.
"Não, não a protegemos, fomos imprudentes. Ela era livre, totalmente livre no nosso território como nunca fora em lugar nenhum. E é isso que qualquer feérico merece, é o que Liz merece! É por isso eu estou aqui, é por isso que estou arriscando tudo para liberta-la. " Respirava fundo, a indicação da onde Liz se encontrava estava tão perto. Eu precisava de um sinal.
"Por favor Camella, onde é essa caverna?" Perguntei mais uma vez. Ouvia passos e vozes longe no túnel de pedras.
Ela parecia ter ouvido o mesmo, pois seu rosto virou em direção ao barulho. "Eu posso ir com vocês. Eu escapei de qualquer forma..."
"Não, é perigoso para você. Esta salva aqui. Só me diz a direção. " Se ela fosse eles poderiam captura-la também e Liz não me perdoaria, ela falava com muito carinho da irmã.
"Me leva junto, eles vão me trancar novamente! Não aguento mais, agora é minha vez de ajudar Liz. Eu sabia que tinha algo errado! Eu sabia!" Camella pedia em suplicas caminhando na minha direção.
Minha mente trabalhava rápido, ponderando todas as alternativas e lembrando do que Rhys me pediu, em hipótese nenhuma tirar Camella de Ruven, ela estava segura lá e enquanto fossemos aliados seria melhor manter ela sob sua proteção. Se ela vivia em cárcere nessa corte como eu desconfiava, seria um bom motivo para tira-la daqui.
"Onde é a caverna? " Perguntei pela última vez, pronto para correr dali e enfrentar a fúria de Ruven.
Não sabendo disso Camella me olhou seria e disse em meia voz "Fica no centro do continente. Há somente uma entrada e saída. Se você a tirar de lá estará declarando guerra contra os Vheelas."
Engoli em seco. Até onde mais eu poderia ir para salvar Liz? Um estalo magico dentro de mim respondeu: até o mundo dos mortos. Vamos salvar ela Azriel! Não perca tempo. Minhas sombras sussurraram.
"Eu nunca estive lá. Eh tudo o que eu sei." Camella se afastava em direção as vozes "Eles não sabem que você esteve aqui." E então ela correu e eu também. Nossos passos sincronizados levavam em direção opostas e assim que atingi a noite pouco iluminada respirei pela primeira vez em meses vivo e confiante. Liz está no centro do continente presa numa caverna.
"Estamos a caminho." Rhys me respondeu em pensamento. A vontade que eu tinha era correr, mas não podia. Me arrastei novamente entre os arbustos o mais rápido que podia, meus pés me levavam para longe da cidade e assim que a adentrei a floresta estiquei minhas asas para voar ao desconhecido centro do continente.
Rhys era o único que conhecia o continente de cabo a rabo, ele tinha lutado aqui séculos atrás e seria o nosso guia, não tínhamos a menor noção onde podia ser a entrada dessa tal caverna, mas pelo menos eu tinha um espaço delimitado para buscar, tinha agora mais informação dos meses de investigação. Eu só podia confiar que Camella queria tanto salvar a irmã como eu. Camella estava arriscando sua vida em me passar referências onde os Vheelas estavam.
A situação de Camella era também outro assunto a ser discutido, Ruven estava mantendo ela protegida trancafiada numa torre, possivelmente ninguém sabia da sua existência não somente por esconder sua aparência Vheela se transformando em uma feérica comum, mas porque era uma prisioneira de luxo do grão senhor de Neldor. E pela facilidade que ela me disse onde encontrar a caverna Vheela, podia imaginar que tipo de informação Neldor não tinha sobre eles. Algo me dizia que eles sabiam mais sobre o que estava acontecendo no continente do que aparentava.
