"Harry me convidou para ir ao jantar de Natal do Clube do Slugue com ele." – Gina soltou a pilha de livros com um alto baque sobre a mesa.

"Sério? Conte-nos como foi." – Luna pediu.

Gina contou toda a história, desde como Harry tinha a abordado e até o beijo que lhe deu quando ela aceitou. Ela exibia um sorriso tão largo que Valerie teve que se perguntar se os lábios da menina não estavam doloridos.

"Uau! Eu queria ser convidada para o jantar de Natal do Clube do Slugue." – Luna disse folheando casualmente um livro enquanto fazia anotações no pergaminho.

Quem não conhecesse Luna poderia pensar que ela estava deixando uma indireta. Mas não era esse o caso, ela genuinamente estava esperando que Valerie a convidasse e simplesmente expressou isso em voz alta. Essa é Luna Lovegood.

Valerie respirou fundo. Ela não queria desapontar a garota, mas também não estava pronta para a escola inteira saber da situação dela. No final das contas a atitude mais segura era não comparecer ao jantar e ponto final.

"Eu vou procurar algo para comer." – Valerie se levantou de repente. O clima depois do comentário de Luna não estava dos melhores.

"Aonde?" – Luna a perguntou, seguindo seus passos para fora da biblioteca. Ela não só não sabia deixar dicas como também não sabia entender uma deixa.

"Não sei... Na cozinha?" – Valerie respondeu.

"E você ao menos sabe onde é a cozinha?" – Luna perguntou sorrindo.

"Não." – Valerie admitiu derrota, seguindo Luna que agora liderava a caminhada.

"Para futura referência," - Luna disse depois de alguns minutos – "aqui é a entrada para a cozinha." – e apontou para uma pintura com uma tigela de frutas.

Ela fez cócegas na pêra da pintura e ela se transformou em uma maçaneta verde, a qual Luna girou e a porta se abriu. O cômodo era gigante e uma quantidade absurda de elfos domésticos corria para lá e para cá. Valerie percebeu que haviam quatro mesas largas, assim como as do salão principal. Pensando bem, pelo caminho que fizeram deviam estar logo abaixo do salão principal... Então era assim que a comida aparecia magicamente todos os dias? Ela foi tirada dos seus devaneios por uma vozinha fina.

"Senhorita Valerie!"

"Dobby!" – ela gritou ao ver o pequeno elfo a poucos metros de si. Em alguns passos ela encurtou a distância entre eles e se jogou de joelhos no chão o abraçando com força.

"Eu não sabia que você conhecia um elfo doméstico." – Luna apontou.

"Luna, esse é Dobby. Dobby, essa é Luna Lovegood." – Valerie se desfez do abraço e os apresentou.

"É um prazer conhecê-lo, senhor." – ela lhe estendeu a mão.

"Senhor? Dobby gosta da senhorita Luna." – ele disse.

"Eu também gosto dela, Dobby." – Valerie não conseguiu conter um sorriso diante do tratamento que Luna dispensou ao elfo. Vê-lo ser tratado com tanta violência era uma das coisas que sempre a mantiveram desconfiada da moralidade da família de sua mãe. "Dobby trabalhava para a minha família, Luna. Ele esteve várias vezes na nossa casa nos Estados Unidos, quando meus tios iam me visitar. Mas de repente meus tios me disseram que você tinha partido... Eu achei que você tivesse morrido!"

"Harry Potter me libertou, senhorita Valerie. Nunca mais eu precisei me castigar depois disso." – ele disse com orgulho.

"Fico feliz que você seja livre agora. Então você trabalha aqui em Hogwarts? Eu nunca te vi antes!"

"Nós elfos somos instruídos a fazer nosso serviço sem nos deixarmos ser vistos. As senhoritas tem fome?"

"Se não for muito incômodo, poderíamos pegar uns sanduíches?" – Luna pediu.

Dobby correu para o fundo do cômodo, anunciando em tom de voz alto o que estava fazendo. As duas riram. Saíram da cozinha com uma cesta cheia de comida, apesar da insistência de que não tinham tanta fome assim, Dobby fez questão de lhes dar comida suficiente para alimentar cinco pessoas. Luna guiou Valerie para fora do castelo, na direção de onde ficava o cercadinho do pelúcio, agora vazio.

"Se você pudesse ir pra qualquer lugar do mundo, para onde você iria?" – Valerie perguntou atirando bagas de romã na direção da boca de Luna.

"Não sei." – ela apanhou a baga no ar. "Não conheço muitos lugares, então acho que qualquer lugar já seria um começo. Eu fui pra Londres uma vez."

"Uma vez?" – Valerie quase gritou, indignada. "Onde você mora mesmo?"

"Ottery St. Catchpole. É uma vila perto de Devon, minha casa não fica muito longe da casa dos Weasley. Ouvi dizer que você passou parte do verão lá." – ela disse agora invertendo os papéis e atirando bagas de romã na direção da menina. "E você? Para onde iria se pudesse?"

"Qualquer lugar do mundo." – Valerie respondeu sorrindo. "Eu sempre sonhei em fazer uma viagem de carro através do território dos Estados Unidos. E depois por toda a América."

"Parece divertido." – Luna comentou. "Quanto você já conhece dos Estados Unidos?"

"Pouco." – Valerie deu de ombros. "Minha mãe foi pra lá comigo quando eu ainda tinha meses de idade então é o único lugar que eu lembro de ter vivido minha vida inteira. Moramos alguns anos em Boston, na costa leste. Quando eu tinha uns seis anos de idade minha mãe se mudou comigo para a Califórnia e vivemos lá até que..."

"Quão difícil é dirigir um carro?" – Luna perguntou sentindo que Valerie não queria se estender naquele assunto.

"É preciso uma licença. Não sei aqui no Reino Unido, mas nos Estados Unidos com dezesseis anos você já pode fazer o teste. Meu padrasto, no entanto, me ensinou a dirigir com onze ou doze anos. Eu tinha que sentar em cima de uma almofada para ver através do para-brisa." – Valerie se lembrou sorrindo.

"Onde ele está agora?"

"Ainda na Califórnia. Minha mãe e ele viviam bem, mas quando meus tios descobriram... Veja bem, ele é trouxa. Não ficaram felizes. Ameaçaram de contar a verdade para ele e minha mãe optou pela saída mais fácil. Terminou tudo com ele."

"Eles não se amavam." – Luna afirmou.

"Honestamente eu não sei... Eles pareciam bem felizes com a vida que tinham."

"Eu iria com você em uma viagem de carro pelos Estados Unidos, se você me chamasse." – Luna disse tranquilamente. "Quanto tempo duraria?"

"Quanto tempo a gente quisesse." – Valerie se permitiu sonhar com o feito. "Meses, anos..."

"O Estados Unidos é tão grande assim? Não seria mais rápido se usássemos aparatação ao invés de um carro?" – Luna questionou.

"Às vezes a jornada é mais importante que o destino final." – Valerie deu de ombros.


"Meu pulso tá doendo." – Valerie choramingou.

"Então troca a varinha de mão." – Draco deu de ombros.

Professor Flitwick diz que devemos ser constantes na mão da varinha a fim de atingir resultados mais rápidos.

"Então para de choramingar. Ou melhor... Silencio!" – ele agitou sua varinha na direção da garota. "Viu como é fácil? E melhor ainda, agora não tenho que ficar escutando suas reclamações."

Draco parecia se divertir com as tentativas frustradas de Valerie em falar sob o feitiço silenciador. Depois de alguns minutos, no entanto, ele desfez o encantamento.

"Não sei pra que diabos eu tenho que aprender isso. Que valia tem um feitiço silenciador para quem está fugindo de Voldemort?" – ela se sentou em um banco e enfiou as mãos dentro dos cabelos.

"Você não deveria chamá-lo pelo nome." – Draco a advertiu olhando para os lados procurando por possíveis testemunhas. Eles estavam praticando em um dos pátios externos, mas a área estava vazia; todos deviam estar no salão principal almoçando. Já tinha virado um hábito nas últimas semanas que Valerie e Draco comessem o mais rápido possível para que pudessem praticar juntos.

No começo Draco não se importou muito, mas com o passar dos dias ele aprendeu a apreciar a presença constante de sua prima. Ultimamente, com tudo que tinha acontecido e com o nome de sua família na lama, as pessoas evitavam passar seu tempo livre com ele. Agora, pelo menos ele tinha companhia. E foi com esse sentimento no coração que ele sentiu a necessidade de dizer:

"Você não precisa fugir do Lorde das Trevas."

"O quê?" – ela perguntou confusa levantando a cabeça.

"Ele não quer te machucar." – ele suspirou, ainda olhando para os lados se garantindo de que ninguém poderia os ouvir.

"Bem, minha mãe está morta e eu fui atacada no meio da rua por uma galera encapuzada. O que ele quer de mim então?" – ela cruzou os braços sobre o peito.

"Fidelidade." – Draco respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

"O que você sabe que eu não sei?" – ela franziu o cenho.

"Muitas coisas." – ele deu de ombros. "Como performar um feitiço silenciador, por exemplo."

A piada não surtiu o efeito esperado, uma vez que ela continuava olhando pra ele intrigada.

"Meu pai me falou." – ele disse em um sussurro quase inaudível.

"Você disse que não sabe onde seu pai está. Para o governo e para a imprensa." – ela retrucou.

"Acredite se quiser, pra mim não faz diferença." – ele se levantou. "Seu pulso está melhor?"

Ela acenou afirmativamente com a cabeça.

"Então vamos continuar praticando, ainda temos meia hora antes do início das aulas."


A cabeça de Valerie vivia em um estado constante de meditação. As palavras de Draco não saíam de sua cabeça. Voldemort queria sua fidelidade. E que valor a fidelidade de uma menina de quinze anos teria para o maior bruxo das trevas que já existiu?

Ela queria perguntar para Draco diretamente se seu tio tinha, de fato, assassinado sua mãe. A imprensa foi mais do que rápida em condená-lo sem maiores provas além do fato de que ele tinha fugido da cadeia poucas horas antes do ocorrido. Mas a imprensa também dizia que a família Malfoy não sabia do paradeiro de Lúcio e Draco garantia que estava em contato com seu pai.

No dia seguinte ela estava certa de que faria a pergunta sem rodeios, mas, ao olhar nos olhos de seu primo, desistiu. O pior não era a pergunta em si... era a resposta que receberia. E se fosse verdade? O que ela faria? Seu pai lhe garantira que Voldemort não havia compartilhado com ele seus objetivos em relação a ela, e que ele não poderia perguntar demais sem levantar suspeitas.

"Eu acho que verde ficaria lindo com a cor dos seus cabelos. Você não concorda, Valerie?" – Luna a tirou de seus devaneios.

Gina e Luna estavam debruçadas sobre uma pilha de revistas de vestidos formais. De novo esse assunto do jantar de Natal do Clube do Slugue.

"Sim, verde ia ficar legal." – ela respondeu mal olhando para a revista.

"Eu acho que prata ficaria bem em você. Ou rosê." – Luna comentou tentando trazer a atenção de Valerie para o assunto mais uma vez.

Ela somente grunhiu em resposta, ainda olhando além do pátio até o lago congelado.

"Você já sabe se vai sozinha ou acompanhada, Valerie?" – Gina perguntou e ela percebeu em seu tom que ela queria uma resposta específica.

"Na verdade, eu nem sei se vou." – Valerie cruzou os braços sobre o peito.

"Eu posso ir com você, se você quiser ir comigo." – Luna disse. E dessa vez ela não tinha aquele tom casual de sempre, ela estava de fato se convidando para ir como par de Valerie.

"Não podemos ir juntas, Luna." – isso atraiu a atenção de Valerie para a conversa.

"Por que não?" – Luna abaixou uma das revistas.

"Porque as pessoas iriam falar, Luna." – Valerie respondeu como se fosse óbvio.

"E qual é o problema se as pessoas falarem?" – Luna deu de ombros.

"Eu não sou como você, eu não consigo aguentar mais fofocas sobre mim." – Valerie começou a folhear as revistas sem de fato olhar as páginas.

"Harry, Rony e Hermione sabem e nada mudou." – Gina tentou argumentar.

"E eu ainda não estou feliz com o fato de você ter contado para eles. Você não tinha o direito." – Valerie sentia uma raiva gigante crescendo dentro de si.

"Eles não vão contar pra ninguém." – Luna tentou a acalmar.

"Gina também não ia contar pra ninguém, não é mesmo? É cansativo ter que discutir com você. Todo mundo acha bonitinho esse seu jeito de acreditar em tudo e em todos, mas será que você não entende o inferno que a minha vida vai ser se formos juntas para essa droga de jantar? Para uma Corvinal você consegue ser bem burra às vezes." – Valerie explodiu.

"Valerie..." – Gina sussurrou assustada.

Luna abriu e fechou a boca umas duas vezes antes de se levantar e marchar determinada para dentro do castelo sem dizer uma palavra.

"Ela sabe que eu não quis dizer isso assim." – Valerie disse mais para si mesma do que para Gina.


Notas da autora:

Esse capítulo foi extremamente doloroso de escrever, espero que seja igualmente doloroso de ler. *risada maquiavélica*

Uma pequena observação: Valerie menciona ter morado em Boston na primeira infância. Algumas pessoas ficaram em dúvida se a mulher com quem Snape conta para Hermione que foi praticamente casado era de fato Cecília... Boston fica a 30 minutos de carro de Salém (e um *pop* de aparatação). Snape completou seus estudos na Universidade de Salém antes de lecionar em Hogwarts (na minha história). Espero que isso responda a dúvida de vocês.

Me digam o que estão achando da história nos comentários, adoro saber a opinião de vocês! Bjos!