Capítulo 22: Resgates de memórias e de pessoas são igualmente tortuosos

A porta se abriu mas Ginmaru não teve uma recepção amistosa. Pelo contrário, o homem que estava controlando a porta sacou a katana e a apontou para o albino no intuito de intimidá-lo. O jovem Yorozuya revirou os olhos, pois sua apresentação não causara o impacto esperado.

― Se eu falasse "eu sou o filho do lendário Shiroyasha", isso te causaria algum impacto? – perguntou ao homem à sua frente.

― Quem? – o cara não entendeu nada.

― O seu chefe nunca falou dele pra você? Eu sou a cara do meu pai!

― Tá me zoando, pirralho? Nem sei quem é o seu pai! E tenho ordens expressas pra não permitir que ninguém incomode Takasugi-sama!

― Eu não vim incomodar, só quero conversar com ele. Depois ele retoma o sono de beleza, se tiver.

― Como ousa insultar nosso líder?!

― Eu, insultando? – Ginmaru assumiu uma feição entediada, que realçou seu olhar de peixe morto. – Nem chamei o cara de baixinho ou caolho!

― NÃO OFENDA NOSSO LÍDER!

Após gritar a última frase, o homem atacou Ginmaru, que o bloqueou após sacar rapidamente sua katana. O jovem sorriu com ironia:

― Nem conheço o cara direito, como eu o ofenderia? Meu pai é que tem um dicionário bem grande de ofensas pra ele que poderiam até fazer esta fanfic ser reclassificada pra +18!

― Você é um pirralho irritante, sabia?

― Já me chamou de "pirralho" três vezes! – o jovem Sakata continuava a travar firmemente a espada adversária enquanto chegavam mais homens para ver o que ocorria.

― E daí?

Uma veia se estufou no rosto de Ginmaru, que berrou:

― E DAÍ? EU FICO PUTO QUANDO ME CHAMAM DE PIRRALHO!

Ele desfez o bloqueio e, num rápido giro para a direita, fez um poderoso contra-ataque que, ao chocar sua lâmina, desarmou o homem e o jogou contra uma das paredes, deixando-o fora de combate. Os outros homens que viram Ginmaru derrotar o primeiro já se preparavam para o ataque, sendo cerca de dez deles.

― Cara... – ele revirou os olhos. – Eu tenho mesmo que chutar os traseiros de vocês pra falar com o chefão?

As katanas desembainhadas responderam à sua pergunta.

― Tudo bem, vou dar a vocês meu cartão de visitas.

Ele apontou sua katana para os novos adversários, que correram juntos ao ataque. Não aceitavam o fato de que um rapaz recém-saído da adolescência fosse capaz de derrotar um adulto como derrotou. Ginmaru contra-atacou com um potente balançar de espada que gerou uma forte lufada de vento, que fez com que alguns caíssem atordoados. Mais uns quinze homens acorreram ao local onde estava acontecendo toda a confusão naquele grande galpão que se localizava numa parte bastante distante da área mais conhecida do Distrito Kabuki.

Entretanto, o albino estava sendo observado de um mezanino, no qual estavam quatro pessoas.

― E então, o que acha do garoto? Há alguma música no jeito de ele lutar?

― Ele luta num ritmo bem interessante, diria que é um misto de heavy metal com doses de puro caos, Shinsuke-sama. Uma música tão interessante de ouvir como a de seu pai -de gozaru.

― Interessante, hein? – Takasugi deu mais um trago em seu kiseru e liberou a fumaça antes de continuar. – Devo admitir que estou intrigado com a presença dele.

― Por que não acabamos com essa confusão? – Matako questionou. – Ele pode desfalcar ainda mais nosso grupo!

O líder do Kiheitai aparentava certa tranquilidade:

― Não é preciso se preocupar com isso. Ele está usando a espada invertida.

Ginmaru distribuía golpes impiedosos contra os adversários, derrubando dois ou três de cada vez enquanto usava sua katana invertida. Não queria matar ninguém, apenas se livrar daqueles caras e conversar com o chefe. Só isso. Mas os homens do Kiheitai não queriam saber de papo, tentando atacar o albino, que revidava com poderosos contra-ataques, desarmando e derrubando oponentes, até conseguir derrotar o último homem.

O jovem não embainhou a katana de imediato, pois não queria baixar a guarda. Entretanto, passos foram ouvidos em meio ao silêncio que reinava naquele momento no galpão. Não só passos, mas alguns aplausos de uma única pessoa.

Takasugi Shinsuke.

― Pode embainhar sua espada, meu jovem. – ele disse com polidez. – Não pretendo lutar com você. Mas estou bem curioso para saber por que veio me procurar.

Ele cedeu e embainhou a espada, mas com seus olhos rubros atentos em qualquer movimento que aquele homem à sua frente poderia fazer. A fama do líder do Kiheitai o precedia, e isso o fazia se tornar ainda mais cauteloso. Sabia que chegara a um lugar em que estavam pessoas nas quais não sabia ao certo se poderia confiar ou não.

O Kiheitai era bem diferente do Jouishishi e isso se refletia em seus líderes. Enquanto Zura era um líder mais pacífico e moderado, um patriota que desejava o bem do país, aquele homem chamado Takasugi era mais radical. Não bastava derrubar um governo, era preciso destruir o país. Entretanto, aliou-se aos enjilianos para tomar o poder dez anos atrás e depois de uma tentativa frustrada de trair os governantes, foi preso e escorraçado. Depois, veio aquela guerra que engolira seu pai, provocando seu desaparecimento.

Uma década depois, ele e o Kiheitai estavam ajudando a derrotar as forças de Kasler na Batalha do Terminal. E agora ajudaram na batalha para defender Kabuki.

Não tinha como tirar qualquer conclusão sobre a confiabilidade deles.

― Ainda bem que vim com minha katana, não é mesmo? – Ginmaru ironizou enquanto pousava sua mão esquerda cautelosamente na bainha à cintura. – Nem em meus trabalhos como Yorozuya encarei um comitê de recepção tão ruim.

Takasugi deu um novo trago em seu kiseru e liberou calmamente a fumaça num leve e prolongado sopro.

― Seu pai é tão ressentido que não veio ele mesmo me agradecer pela ajuda na batalha de ontem?

― Ele nem sabe que vim aqui... E não vim meramente para agradecer. Quero saber se posso confiar em você.

― Nosso desempenho ontem não foi suficiente?

― Não. Um momento heroico não faz de um vilão um herói e todos sabemos disso.

― Então você me considera um vilão?

― Não sou capaz de opinar.

― Gintoki não vai com a minha cara.

― Mas o Zura confiou em você, mesmo que com ressalvas. E eu quero fazer meu próprio julgamento.

O filho de Sakata Gintoki era arisco, Shinsuke pensou. Ele não era bobo e aparentava saber a seu respeito, mesmo que fosse pouca coisa. Sinalizou para que Bansai, Matako e Henpeita saíssem enquanto seguia a conversa.

― Sabe, você poderia fazer parte da nossa facção.

― Zura me fez a mesma oferta, mas política não é para mim. Não me considero patriota. Não vou abandonar a Yorozuya Gin-chan por uma aventura política. – seus olhos avermelhados encararam o olho verde-oliva do mais velho. – Eu luto para proteger tudo aquilo que me importa e é só.

― Posicionamento interessante, Sakata-kun. Não insistirei na oferta.

― Não vim procurar nenhuma oferta. Quero que me conte como dois amigos de infância e discípulos de um mesmo sensei começaram a se odiar tanto. Não vem ao caso como sei disso, apenas quero a sua versão da história.

Takasugi arregalou o olho, surpreso ao ouvir o que o jovem albino dissera. Como ele ousava tocar num assunto tão difícil como esse? E por que estaria tão interessado em um fato ocorrido trinta anos atrás? Era doloroso demais até para se recordar do que ocorrera. Uma parte de si ainda sangrava por tudo aquilo... E a outra se ardia de ódio e ressentimento.

Os olhos de Ginmaru remetiam aos olhos de Gintoki. Ele era praticamente idêntico ao antigo Shiroyasha naquela guerra.

― Como você ficaria se visse seu amigo matar o sensei de ambos?


Mais dois homens de farda branca correram para acudir o companheiro que era encarregado daquele setor da carceragem. Porém, este estava sendo amparado pelos homens que estavam fazendo uma visita – que, na verdade, eram Gintoki e Shinpachi que continuavam disfarçados.

― Ah, pois é... – o Yorozuya tentava imitar os trejeitos de Hijikata, que observava tudo de dentro da cela. – Parece que ele teve uma queda de pressão, mas está bem.

Com a mão que estava por trás do outro homem, puxou-lhe o cabelo para fazê-lo assentir de modo afirmativo, o que aparentemente convencera os outros dois.

― Podem nos dizer onde fica o banheiro? Acredito que ele queira dar uma lavada no rosto.

Outra mexida de cabeça feita pelo Yorozuya, como se o homem desmaiado concordasse. E conseguiram engambelar perfeitamente bem os dois. Ele pegou o lenço branco do uniforme do Shinsengumi, rasgou-o ao meio e amarrou o pé esquerdo do homem ao seu pé direito, e o pé direito do homem ao pé esquerdo de Shinpachi.

― Gin-san – o Shimura cochichou, questionando seu chefe sem entender o que estava acontecendo. – O que é pra gente fazer?

― Vamos fingir que nosso amigo desmaiado está andando. Como ele usa óculos escuros, podemos disfarçar o desmaio dele, ir ao banheiro e o Hijikata-kun vai logo atrás, pra nos encontrar lá.

Shinpachi ainda tinha dúvidas. Ainda mais pelo fato de o homem estar numa posição bastante esquisita, pendendo para o seu lado devido à diferença bastante evidente de altura entre ele e o albino.

― Tem certeza de que vai dar certo...? Você é bem mais alto do que eu, isso daria mais certo com o Hijikata-san.

― Aí dariam de cara com dois Mayoras! Não daria certo!

O garoto suspirou, pois Gin-san tinha razão. Teria que ser daquele jeito mesmo e contar com a sorte. Os dois acertaram o passo de forma a ter sincronia para que parecesse que o homem desmaiado estaria caminhando.

― E...? – disseram em uníssono e começaram a caminhada até o banheiro.

Hijikata, atrás da grade destrancada de sua cela, deu um facepalm e pressentia que aquela ideia de jerico do Yorozuya poderia acabar em uma grande furada.