Infelizmente os planos de Soluço não puderam ser concretizados.
O treino na Arena tinha sim sido adiado, mas para o dia seguinte, como se nada tivesse acontecido na madrugada do dia anterior.
Para a surpresa de Soluço, sua esperança de não precisar ir para o treino veio na forma de Biscoito. Sua irmã falou com Stoico, mencionando para o pai que o irmão tinha se machucado durante o último ataque, ou seja:
"É melhor ele descansar e não fazer nada."
Parte de Soluço queria agradecer, mas outra parte ficou incomodado com aquele comentário. Biscoito andava tão focada na competição que havia criado entre eles, que o garoto não conseguia ter certeza se sua gêmea realmente se importava com seu bem, ou só não o queria na arena com ela e os outros.
Mas Stoico não foi movido pelas palavras da filha, sorrindo para Soluço e dando "leves" tapinhas no ombro do rapaz, dizendo que ele estava bem, afinal, ele era um viking! E vikings aguentavam esse tipo de coisa!
Podemos dizer que ambos, Soluço e Biscoito não apreciaram as palavras do chefe.
Quando os jovens vikings estavam esperando pela abertura da arena, Soluço tentou não prestar atenção à conversa entre sua irmã e Astrid, mas conseguiu ouvir um pouco...
"Eu não acredito..." A loira reclamou. "Ele vai mesmo pra arena?"
"Olhe, eu tentei, então cala a boca!" Biscoito respondeu de modo ríspido.
Soluço se afastou, desconfortável com aquele comentário.
Ele suspirou, olhando para dentro da arena, onde Bocão estava, arrumando os "esconderijos" que seriam usados naquele treino. Os vikings já rodeavam as grades no topo da arena, interessados em ver no que ia dar.
"Ei, Soluço..."
"Ah!" O garoto quase pulou quando alguém tocou seu ombro. "Ah, oi, Perna-de-Peixe..."
"Ei, eu soube sobre o que aconteceu ontem..." O loiro disse, seu tom de voz baixo, como se ele quisesse que aquela conversa fosse mantida apenas entre os dois. "Você está bem?"
"Ah, sim, sim, estou bem, Perna-de-Peixe." Soluço forçou um sorriso, embora estivesse feliz em saber que alguém se importava com seu bem estar.
Perna-de-Peixe sorriu, mas o sorriso não permaneceu por muito tempo.
"Aliás, Soluço, eu queria perguntar... Um..."
Soluço esperou, curioso, mas seu amigo não chegou a terminar a pergunta.
"Ei, Soluço!" Cabeçaquente exclamou alto no ouvido do ruivo, que tremeu com o som. "Você vai mostrar pra todo mundo como é que manda!"
"Arrasa com a Astrid e a sua irmã por mim, valeu?" Cabeçadura disse com a mesma animação da irmã. "Isso é, se a gente não conseguir..."
"Você com certeza não consegue, mas eu...!" Melequento disse, flexionando os músculos.
Soluço revirou os olhos bem quando o portão da arena foi aberto. Ele procurou por seu elmo, que Stoico tinha pedido para que ele usasse naquele dia. Até que o encontrou a alguns centímetros de seu rosto, nas mãos de sua irmã.
"Aqui." Biscoito disse simplesmente.
"Ah, obrigado, Bis-!" Ele não chegou a agradecer, quando Biscoito abaixou o elmo e o puxou pela gola da camisa.
"Escuta!" A ruiva praticamente sibilou e Soluço ouviu com atenção. "Fica fora do meu caminho, tá? Dessa vez eu vou ganhar!"
Ela soltou e empurrou o elmo contra o peito do irmão, que sibilou de dor. Ia demorar um tempo para aquele hematoma enorme sumir.
O grupo entrou na arena, ouvindo o alto exclamar dos vikings presentes para assistir o treino. Mas eles não eram os únicos fazendo barulho, pelo menos para os ouvidos de Soluço.
Ele conseguia sentir a energia dos dragões dentro de suas celas. E novamente ele se perguntou porque conseguia ouvir outros dragões, mas não Banguela? As energias que Soluço tinha conhecido no outro dia continuavam as mesmas, o que o ajudava a identifica-las.
"Filhote de pelo vermelho..." A energia pontiaguda – que ele acreditava pertencer ao Nadder da Arena – se pronunciou. E, por algum motivo, Soluço corou, sabendo que o dragão estava falando dele.
Ele se perguntava como os dragões conseguiam adivinhar que ele estava por perto. Talvez pudessem sentir seu cheiro, ou então conheciam os seus passos...
"Quem... Sair...?" A energia dupla dançou pelos ouvidos do garoto e, por algum motivo, ela quase soava animada.
A força da terceira energia quase fez Soluço exclamar de surpresa. Era a energia pesada, que ele acreditava ser o Gronckle, se movendo de modo estranho e ainda mais animado do que a outra energia.
"Soluço?" A voz de Biscoito tirou o garoto de seus pensamentos e ele piscou um ou duas vezes. A irmã o encarava de modo estranho, com uma sobrancelha erguida, e Soluço conseguia ver um leve nível de preocupação em seus olhos azuis.
"Ah, o que...?" Soluço perguntou, percebendo ao dar um passo para frente, como seu corpo cambaleou novamente. Ele não podia se distrair com as presenças dos dragões, não num momento como aquele.
Quando Bocão se dirigiu para um dos portões, Soluço sentiu a energia pesada se agitar novamente. O portão de metal foi aberto e a forma grande e gingante do Gronckle saiu de sua cela.
Soluço sentiu a presença do dragão tanto no mundo real quanto dentro de sua mente, a energia parecia tão cambaleante quanto o próprio animal. E ela também passava um sentimento de curiosidade, interesse, ou algo do tipo.
O grupo de jovens se dividiu assim que o dragão começou a bater as asas pequenas. A arena estava cheia de barreiras de madeira, que limitavam o movimento do Gronckle, mas que serviam para a proteção dos jovens vikings. Hoje a aula seria sobre ataques vindos de cima, pelo jeito.
Soluço se escondeu atrás de uma das barreiras de madeira, ouvindo tanto as asas do Gronckle quanto sua presença se movendo ao redor da arena. Ele tentou ignorar o modo como a energia do dragão parecia um pouco diferente, flutuando ao seu redor como ondas no mar, mas como se tivessem um outro motivo, como se seguissem um padrão, ou tentassem encontrar alguma coisa.
O Gronckle rosnou alto e o garoto sentiu como se a energia draconiana tivesse o envolvido em um abraço. E quando ele ergueu os olhos, o dragão estava logo acima dele.
Soluço se levantou assim que o Gronckle veio em sua direção e correu para se esconder ao lado de outra barreira de madeira. O dragão atingiu o chão com um baque alto, quebrando a barreira com seu corpo grande e pesado.
"Sai da frente, Soluço!" Melequento por cima da barreira em que Soluço se escondia, competitivo como sempre, e correu até o dragão com o machado em mãos.
O ruivo se sentiu mal ao saber que o Gronckle tinha sido pego de surpresa pelo viking, embora tenha rapidamente se defendido com um movimento do rabo rechonchudo. Em pouco tempo Soluço ouviu as asas pequenas voltarem a bater.
Escondido, Soluço parou para pensar por um momento, e sua mente automaticamente voltou para Banguela. Ele tinha pensado sobre porque diabos ele não ouvia o Fúria da Noite. Tinha até pensado que tinha de algum modo "bloqueado" a energia do dragão, mas desse modo ele também esperava não ser mais capaz de ouvir outros dragões.
Mas não.
Cá estava ele, capaz de apontar onde um Gronckle estava apenas pela energia desse, mas incapaz de sentir a energia do dragão que havia lhe dado essa habilidade.
Seus pensamentos foram interrompidos quando alguma coisa bateu contra seu lado.
Ele piscou uma ou duas vezes e seus olhos se arregalaram ao encarar outros dois olhos azuis.
"Ah, o-oi, Astri-"
"Fica fora dessa!" A loira sibilou, empurrado o machado do garoto para longe, o deixando desarmado.
Soluço simplesmente suspirou com a reação da garota. Ele se esticou para pegar o machado e ajeitou o elmo, levantando os olhos para os vikings que assistiam o treino.
Stoico estava lá, como costumava estar em todos os outros treinos, e ele sorria em baixo do bigode grande e vermelho. Valka estava com ele, e Soluço conseguia ver como ela desviava a atenção do filho para a filha; seu rosto estava sério, mas quando seus olhos encontraram o de Soluço, ela sorriu.
Soluço sorriu de volta, desconfortável com a dualidade de seus pais.
Ele voltou a pensar no Gronckle ao ouvir as asas passando não muito longe de onde ele estava. A energia do dragão continuava agindo de jeito estranho, como se estivesse procurando alguma coisa; e, por algum motivo, ela parecia animada, muito mais animada do que alguém iria esperar de um animal em cativeiro, cercado por vikings armados.
Um rugido alto chamou sua atenção e ele notou que o dragão havia o visto, se escondendo atrás de uma das barreiras.
Soluço ergueu o escudo quando a barreira de madeira foi explodida por uma bola de fogo.
O tiro não o acertou, mas outra coisa sim.
"Raio - ganhou carinho!" A energia agitada e surpreendentemente pesada veio até ele antes mesmo do próprio dragão, empurrando contra sua mente e o deixando atordoado momentaneamente. Foi tão de repente que Soluço nem conseguiu ouvir algumas das palavras "Eu - carinho!"
"O-o que?" Mas o garoto não teve tempo para processar.
De repente o Gronckle estava se lançando na direção dele e Soluço instintivamente se cobriu com os braços, como se aquilo pudesse o salvar do peso do dragão. Ele sentiu o chão tremer em baixo de seus pés, mas nada o esmagou.
Os vikings vibraram alto.
Soluço abriu os olhos e abaixou os braços lentamente.
O Gronckle estava deitado de lado, os olhos fechados e a língua para fora. Ele reconhecia aquela posição, já tinha visto Banguela fazer aquilo antes. O dragão estava se apresentando para receber carinho. Agora as palavras faziam sentido.
"Mas o que?!" A voz de Biscoito parecia ainda mais alta que as das outras pessoas.
Soluço se voltou para as últimas duas vikings na arena com ele, notando que nenhuma delas estava feliz. Honestamente, se olhares pudessem matar, Soluço já estaria morto e enterrado.
Ele apontou para o dragão e ergueu as mãos em sinal de inocência. Afinal, ele não tinha feito nada, tinha sido tudo coisa do Gronckle!
"Não! Seu filho de Troll! Balde de-!" Astrid quase atirou seu machado para o outro lado da arena.
Soluço engoliu em seco, não gostando tanto daquela reação quanto da frieza nos olhos de sua irmã. O silêncio de Biscoito era muito pior que os gritos de Astrid.
"Ah, então até mais né..." Ele rapidamente deu as costas para as vikings, se dirigindo para o portão. Mas alguma coisa o agarrou, o impedindo de continuar.
"Ah-ah-ah! Pode esperar!" Era Bocão e seu gancho no lugar de mão.
"Mas é que... E-eu tô atrasado pra- Ah!"
O garoto se calou quando um machado foi pressionado contra seu pescoço, descansando pesado sobre sua clavícula. E ele reconheceria aquele machado em qualquer lugar.
"Pra quê?! Atrasado pra quê?!" Biscoito praticamente rosnou. "Pode me dizer?! Talvez seja a sua 'roupa voadora' que o deixa tão ocupado assim?!"
Soluço engoliu em seco. Biscoito nunca tinha o encarado daquele jeito. Ele conseguia ver uma chama poderosa queimando por trás daqueles olhos azuis que uma vez o encaravam com alegria.
Mas ele não chegou a responder quando a voz de Stoico calou a todos.
"Muito bem! Silêncio!" O chefe disse. "A anciã decidiu!"
Biscoito puxou o machado para longe de Soluço e o garoto rapidamente se afastou da irmã.
Soluço ergueu o olhar e suspirou, vendo Gothi ao lado de seus pais. Ela examinou os jovens na arena, sem desviar os olhos para os outros quatro que tinham sido eliminados do treino muito cedo.
Bocão levantou o gancho, mantendo-o em cima de Astrid. A garota encheu o peito. Gothi simplesmente balançou a surpresa. Os olhos da loira se arregalaram e, pelo som do público, ela não era a única surpresa.
Bocão deu de ombros e deslizou o gancho para a filha do chefe. Biscoito simplesmente esperou, encarando Gothi com sérios olhos azuis. A anciã pareceu pensar um pouco, examinando a garota em silêncio, antes de balançar a cabeça.
Soluço podia praticamente ouvir quando a irmã cerrou os dentes com força.
O ferreiro ergueu uma sobrancelha, lançando um olhar confuso para a anciã ao levar o gancho até Soluço. O garoto se encolheu e fechou os olhos, desejando poder desaparecer naquele mesmo instante.
Ele não viu, mas pelo que ouviu, pode ter uma ideia do que Gothi havia feito quando o gancho estava acima dele.
"Você conseguiu! Você venceu, Soluço!" A mão grande de Bocão o agarrou, junto com seu gancho, o balançando para os lados como se ele fosse um boneco de palha. "Você vai matar um dragão!"
"O-o que?!" Soluço sentiu seu corpo congelar ao ouvir aquelas palavras e, de repente, o chão sumiu em baixo de seus pés. "Ah! Não! Não, pera aí!"
Perna-de-Peixe sorriu para o amigo, o erguendo em seus ombros sem a mínima dificuldade. A celebração dos vikings era ensurdecedora, mas ainda assim a voz alta de Stoico cortou por entre as outras vozes:
"Esse é o meu garoto!" Ele gritou, levantando um punho no ar, o outro braço em volta da cintura de sua esposa. Valka apenas sorriu para o filho, batendo palmas lentamente, quase como se não soubesse o que mais deveria fazer.
E novamente Soluço se sentiu mal ao ouvir aquelas palavras vindo de seu pai.
Agora ele era o garoto de Stoico. Agora.
"É...! Hehe, eu sou...!" Ele murmurou, tentando forçar um sorriso, tentando forçar sua animação.
Ele desviou os olhos para a outra ruiva na arena. Biscoito ainda o encaravam com raiva, o elmo que o garoto usava e tinha derrubado mais cedo, estava em sua mão; e Soluço podia jurar que, se a irmã apertasse a madeira e o metal com um pouco mais de força, ele arrebentaria em baixo de seus dedos.
"Eu mal posso esperar para... Matar meu primeiro... Dragão..."
Um arrepio desceu por suas costas ao se ouvir falando aquilo.
Não, ele não queria isso. Ele nunca quis isso.
Tudo não passava de uma mentira. Ele não era um "matador de dragões", nunca foi. Tudo o que ele tinha pra mostrar na arena eram "truques" que havia aprendido com Banguela, um dragão!
Ele não tinha automaticamente se transformado num guerreiro viking, que guerreiro viking seria amigo de um dragão? Então não, ele não era o herói que Berk achava que ele era, que seu pai achava que ele era. Ele não era a competição que Biscoito via nele.
Em pensar que alguns anos atrás Soluço queria isso, queria a gloria, queria ser conhecido como algo mais do que "Soluço o Inútil".
Ele ainda queria ser mais do que isso, mas não do jeito que outros queriam que ele fosse.
Que tipo de viking era ele?
Ele deixou que os vikings o levassem até o Grande Salão, onde comida já esperava por eles uma vez que já era hora do almoço. Deixou também que o colocassem em uma cadeira e lhe oferecessem um prato de comida, mas tudo passou como um borrão e Soluço nem identificou quem fez essas coisas.
Ele não podia matar um dragão... Ele não tinha conseguido fazer isso antes, não iria conseguir nem se quisesse. Soluço pensou em Banguela, e no medo que tinha visto nos olhos desse quando estava caído, amarrado e imobilizado. E então ele pensou em Banguela, no cânion, sorrindo para ele sem dentes, pulando para lá e para cá como uma criança animada.
Não. Ele não podia matar um dragão, não importava o tipo.
"O que foi, Soluço?!" A voz de Melequento tirou o garoto de seus pensamentos. "Não está feliz? Você conseguiu o que todos nós queríamos!"
"Ah, não, não, é claro que estou! É só..." Soluço forçou um sorriso. "É só... É muito pra processar, sabe como é, né?"
Melequento simplesmente assentiu e continuou falando sobre sabe-se lá o que. O garoto se forçou a tentar comer um pedaço de pão para não receber mais atenção.
Soluço não queria ficar ali. Ele queria ir embora, queria espaço e silêncio para pensar. E sabia de um lugar em que podia fazer isso.
Só tinha que sair dali sem os outros vikings notarem...
Soluço olhou em volta. Os vikings no Grande Salão conversavam entre si e, por um momento, era como se não estivessem prestando atenção ao filho do chefe. Talvez esse fosse seu momento. Mesmo assim, ele precisava de um plano para manter todo mundo distraído...
Ele desviou os olhos para seu prato, desviando o olhar para Melequento, do outro lado da mesa, falando com alguém – possivelmente se gabando de alguma coisa.
Soluço pegou a carne em seu prato do modo mais imperceptível, e o atirou no outro viking.
Melequento foi pego de surpreso, soltando um som alto, até notar que o que tinha o atingido era um pedaço de carne.
"Ei?! Quem fez isso?" Ele se virou para o outro lado da mesa.
Soluço fingiu surpresa, apontando para Cabeçadura sentado a seu lado.
Em resposta a isso, Melequento pegou seu próprio prato e o lançou contra o loiro. E foi o bastante. Em segundos a mesa e boa parte do Grande Salão foi virado do avesso em uma guerra de comida.
Soluço aproveitou a distração e deslizou pelo banco de madeira, engatinhando em baixo da mesa até conseguir alcançar as portas abertas.
E, uma vez no lado de fora, ele correu na direção da floresta. Se alguém o viu ou tentou chamar sua atenção, ele ignorou.
Ele seguiu o caminho que conhecia bem, até chegar na passagem perfeitamente escondida.
Por um momento ele parou, dando uma olhada para ter certeza de que não tinha sido seguido, feliz ao notar que estava sozinho entre as samambaias.
Soluço passou pela entrada e respirou fundo, se escorando contra uma pedra coberta de musgo. Ele ficou em silêncio por um momento, ouvindo nada além dos sons da floresta, os pássaros cantando e o som da água da lagoa. Era bem melhor do que a cacofonia dos vikings de antes.
Ele desceu até o centro do cânion, vendo Banguela enrolado em uma bola negra do outro lado da lagoa.
"Banguela...?"
O dragão correu até ele, a língua balançando ao lado da boca, que mostrava um sorriso sem dentes. E só encarar aquela expressão amigável e animada, fez Soluço se sentir ainda pior.
Banguela pelo jeito notou que o humano não dividia sua animação, diminuindo o passo ao chegar perto e soltando um arrulho baixo, questionador.
Por algum motivo, aquele som foi o bastante para fazer Soluço chegar ao seu limite.
"Banguela...! Ai, Banguela, você não sabe que coisa horrível aconteceu hoje!" Ele exclamou, passando as mãos pelos cabelos, forte o bastante para arrancar mechas inteiras.
Banguela inclinou a cabeça para o lado de modo curioso e Soluço quase se sentiu mal por contar aquilo para o dragão – especialmente agora, sabendo que Banguela o compreendia tão bem quanto qualquer humano.
"Eles querem que eu mate um dragão, Banguela... É o rito de passagem dos vikings..." Banguela bufou violentamente balançando a cabeça como se não acreditasse no que ouvia. "É, meus sentimentos exatos! Mas que-! Mas que rito de passagem mais idiota!" Soluço exclamou, chutando uma pedra dentro da lagoa. Banguela choramingou baixinho. "E não tem como eu dizer não! Não! Como eu vou fazer isso? 'Oi, pai, eu não quero matar um dragão', é com certeza meu pai vai levar tudo isso numa boa!"
O garoto se calou quando uma cabeça grande apertou contra seu lado, o ronronar forte e grave do dragão fazendo seu corpo vibrar junto com o desse. Ele suspirou, sentindo tanto seu corpo quanto sua mente relaxarem com aquele contato.
"Obrigado... Pelo menos eu tenho você aqui pra me ouvir, não é?" Soluço sorriu para o dragão, mas o sorriso ficou ali por pouco tempo. "Enquanto isso, eu ainda não consigo te ouvir..."
Banguela trinou suavemente, olhando para Soluço com aqueles grandes olhos verdes. O garoto encarou seu dragão. E ele conseguia sentir a energia do dragão em algum lugar, pressionando contra as paredes que mantinham os dois divididos. Ele queria tanto que aquela muralha não existisse... Talvez ele pudesse perguntar para os dragões da arena sobre aquilo...
"Vamos voar, amigão. Eu prometi que faríamos isso, não prometi?" Soluço ofereceu e sorriu ao ver os olhos do dragão se iluminarem. "E também, isso pode me ajudar a pensar um pouco sobre... Sobre tudo isso..."
Banguela dançou no lugar, parando alguns segundos depois e abaixando o corpo para que o garoto pudesse colocar a sela em suas costas. Soluço estava sem o colete de voo, mas só uma voltinha calma pela ilha não podia ser muito perigoso, não é?
Os dois alçaram voo, se dirigindo para o alto, para o céu azul e coberto de nuvens brancas. E Soluço suspirou, sentindo o vento no rosto. Era disso que ele gostava. Se pudesse viveria no céu. Estar ali com Banguela era melhor do que qualquer outra coisa.
E, sobrevoando a bela ilha de Berk, sentindo o sol contra seu rosto e os músculos fortes do dragão em baixo dele, Soluço sentiu sua mente mais limpa e calma, lhe dando mais chance de pensar sobre o que tinha acontecido naquele dia.
"Eu não posso matar um dragão... Eu nunca vou fazer tal coisa..." Murmurou para si mesmo. "E não é como se eu já tivesse conseguido fazer isso, não é...?" Ele afagou a cabeça do dragão que trinou em baixo dele, se remexendo levemente. Soluço riu, mas a risada logo se tornou um suspiro pesaroso. "Mas se eu não fizer isso... Minha 'reputação' já era, assim como a do meu pai, honestamente... Ou quem sabe talvez eu morra na arena..."
Banguela rugiu, balançando o corpo de modo violento, forçando o garoto a se segurar na sela com força o bastante para deixar seus dedos brancos.
"Calma, calma, Banguela! Desse jeito a gente vai cair!" Soluço exclamou, um pouco mais alto que esperava, e o dragão pareceu se acalmar. Banguela soltou um bufar alto, virando a cabeça levemente de lado e encarando o garoto com aqueles grandes olhos verdes. Era fácil ver todos os sentimentos por trás daquelas pupilas negras. "Desculpa, Banguela, eu não vou mais falar sobre morrer, tá bem?"
Ele afagou a cabeça do Fúria da Noite e esse virou a cabeça, bufando mais alto. Soluço não conseguiu deixar de se sentir um pouco lisonjeado, feliz ao saber que Banguela se importava com ele.
"Eu posso falar com os dragões então, talvez..." Soluço voltou a pensar naquilo ignorando o leve rosnado do dragão. "Ai, se bem que eu vou ter que lutar o Pesadelo Monstruoso, o último teste é sempre com um Pesadelo Monstruoso... E, cá entre nós, eu não acho que aquele goste muito de mim..."
Soluço se lembrou das outras vezes que entrou em contato com a energia do Pesadelo Monstruoso na arena. Ele raramente respondia com "palavras" discerníveis, tudo o que fazia era se mostrar grande, queimando Soluço de dentro pra fora – metaforicamente falando – e usando disso para mostrar que não queria relação alguma com um humano.
"Talvez se eu não participar da luta eu só acabe... Banido... É, é melhor que morto..."
E novamente, Banguela se remexeu em baixo do viking.
"O que? Ah, Banguela! O quê que foi?" O dragão trinou, tentando se mover no ar.
Confuso, o garoto virou a barbatana postiça, permitindo Banguela a seguir em outra direção, só para Soluço notar que estavam se afastando mais de Berk e das áreas que normalmente sobrevoavam, e ele entendeu o que o dragão estava fazendo.
"Não, Banguela, eu não posso simplesmente ir embora!" Soluço puxou a sela, forçando Banguela a parar com um rosnado alto e desgostoso.
O Fúria da Noite ergueu os olhos para o humano e por um momento o jovem viking se sentiu estranhamente contente. Banguela se importava com seu bem estar, e Soluço conseguia ver que o dragão estava tentando descobrir um modo de ajuda-lo.
E Soluço não conseguiu deixar de imaginar como as coisas seriam se ele fizesse isso mesmo. Como seria... Ficar sozinho com Banguela, em uma ilha qualquer, longe de Berk. Honestamente, passar o dia inteiro com Banguela já era uma das coisas que Soluço mais adorava no mundo, sem duvidas ele adoraria viver assim. Longe de todos e tudo em Berk...
O sorriso que Soluço sentiu se formando em seu rosto, desapareceu.
"Olha, eu entendo, Banguela... Seria bem mais fácil só ir embora, tirar uns diazinhos de férias, longe de Berk, e tudo o mais. Mas..." Soluço hesitou. "Isso seria a mesma coisa do que ser banido... Quem pode dizer que iriam me deixar voltar depois disso?" Ele suspirou. "E de qualquer jeito... Pra onde a gente iria...?"
Banguela bufou e soltou um choramingar baixo e, embora Soluço não pudesse ouvi-lo como ouvia aos outros dragões, ele conseguia entender que Banguela não estava feliz, mas que concordava com o que tinha dito.
Espere...
"Talvez... Eu devesse ir para a arena." Banguela reagiu, balançando a cabeça violentamente e rosnando alto. "Não, não, não! Banguela, me escuta! E se eu for lá e... E seu conseguir mostrar para a tribo que... A gente não precisa lutar?" A barbatana-orelha direita do dragão tremeu, mostrando que ele prestava atenção, e Soluço sorriu. "Eu- Eu não luto nem mato o dragão, mas e se eu conseguir acalmá-lo na frente de toda tribo? Desse jeito nem eu nem ninguém mais vai precisar matar dragões! É! É isso! E então todos nós viveríamos em paz!"
Banguela trinou alto, bufando em seguida ao balançar a cabeça mais uma vez.
"O que, não acredita em mim, é?" Soluço ergueu uma sobrancelha, embora não tivesse a mínima ideia do que o dragão queria dizer. "É, talvez eu tenha que falar de um jeito que os vikings entendam melhor..." Ele pensou. "Sem guerra entre dragões e vikings, sem ataques de dragão! Com paz entre dragões e vikings, mais defesa, viagens mais rápidas entre ilhas..." Banguela trinou em baixo dele e ele sorriu, afagando a cabeça do dragão. "Simplesmente ter um dragão como amigo!"
E pensar que apenas algumas horas atrás ele estava morrendo de medo do que tinha que fazer. Agora Soluço tinha um plano. Ele não tinha a mínima ideia se iria funcionar ou não, mas ele tinha que ter esperanças.
Ele imaginou um mundo em que dragões e vikings vivessem em paz e não conseguiu deixar de sorrir. Banguela era uma criatura incrível, assim como eram todas as criaturas, ele sabia que não seria o único que praticamente ficaria apaixonado por aquelas criaturas depois de... Entendê-las melhor.
Banguela soltou um arrulho baixo em baixo do garoto e Soluço sentiu suas bochechas esquentarem por algum motivo. Ele ignorou aquele sentimento.
"Vamos, Banguela. Vamos voltar." Soluço moveu a barbatana e o dragão seguiu na direção de Berk sem reclamar. "Eu tenho que pensar mais nisso..."
Os dois desceram para o cânion, ainda iluminado pelo sol que aos poucos descia de seu ponto mais alto.
"Valeu, amigão." Soluço disse quando pousaram e Banguela respondeu com um som gutural e curioso. "Esse voo foi bem mais produtivo do que eu imaginava..." Ele pulou das costas do dragão, afagando o pescoço desse no processo, o fazendo ronronar. Dois grandes olhos de dragão se voltaram para o garoto e ele sorriu. "Valeu..."
Mas de repente, as barbatanas de Banguela apertaram contra sua cabeça, e ele rosnou alto, as pupilas uma vez dilatadas, agora eram finas como pequenas fendas.
"O que foi, amigão?" Soluço perguntou, confuso.
"F-Fúria... D-da... N-no-n-noite...!" Uma voz conhecida gaguejou não muito longe deles e Soluço sentiu seu mundo congelar.
"Perna-de-Peixe?!"
