O Conselho da Cidade Sagrada

Cada vez mais selvagem, o vento jogava gotas grossas de chuva contra as paredes da quase radiante Torre Marfim na Cidade Sagrada. Uma das maiores estruturas do local, com seus cento e quarenta metros de altura, era uma das duas principais torres da Cidade Sagrada. Recebia esse nome pois rumores prediziam que toda a estrutura, desde as fundações subterrâneas até os postes das três bandeiras no teto, era feita com o marfim de um há muito tempo perdido rebanho de Mammons na periferia da cidade.

Fossem esses rumores verdade ou não, mesmo eclipsada pela sombra da maior das torres, a escura Torre da Traição, a Torre Marfim ainda parecia brilhar por sua alvura. Servindo como o centro administrativo da Cidade Sagrada, ela era o lar de todos os registros oficiais de tudo que ocorria.

Era no seu topo, no Olho de Cristal, um grande salão que parecia dominar todo o último andar da construção, que o Conselho da Cidade Sagrada se encontrava reunido. Abrigados sob uma gigantesca abóboda de cristal, o local adquiria uma atmosfera umbral, os poucos fachos de luz que conseguiam passar pelas nuvens de chuva não sendo suficiente para iluminar todos os recantos.

Uma grande mesa circular, também de marfim, ocupava quase um quarto do local, separando a grande distância os membros do ilustre Conselho da Cidade Sagrada. Entretanto, nas sombras, era possível ver um grande trono alvo, quase que escondido na parede oposta à adornada porta de entrada.

-Como aquele que fez o chamado, declaro iniciada mais esta sessão do Conselho Sagrado – o mais próximo do trono, Wisemon se encontrava sobre seu grande livro, ainda flutuando. De dentro do seu robe, ele retira um pequeno objeto vermelho e o coloca sobre a mesa – Apresentem suas Chaves de Portão para que possamos continuar.

Mesmo que alguns resmungassem pelo ritual obrigatório, todos repetem o gesto quase que mecanicamente, de tão habituados que estavam.

Sentado em uma cadeira de marfim, Justimon retira a sua de um bolso em seu cinto, sendo a sua Chave de Portão de uma cor próxima ao anil, e a coloca na mesa. Entre ele e Wisemon, um grande buraco no chão preenchido por água era onde se encontra Pukumon. O digimon era um dos que resmungava, arremessando de forma desinteressada sua chave após retirá-la de sua boca, o tom de violeta de seu muco misturava-se com o da própria chave.

-Gosto de fazer isso tanto quanto vocês gostam de presenciar... – ele fala ruidosamente, sem olhar para nenhum dos outros.

-E faz questão de falar isso toda vez... Nós já entendemos isso, cabeça de peixe!

-Retire isso agora mesmo, Minervamon!

A pequena digimon deusa dá uma pequena risadinha antes de retirar sua chave de detrás de seu escudo, um tom amarelo brilhante. Entre ela e Wisemon, Ebemon-X, em silêncio, retira sua chave alaranjada de entre seus tentáculos, provavelmente guardada próximo ao simulacro entregue a ele por Justimon, e a coloca sobre a mesa também.

Também em silêncio, mas muito mais inquieto, Shawujinmon coloca sua chave, um tom profundo de azul, sobre a mesa, olhando efusivamente para Justimon a seu lado.

Por último, Astamon, coloca sua adaga sobre a mesa e a afasta, revelando sua chave verde sobre a mesa. Com a última das chaves colocada sobre a mesa, os sete objetos começam a vibrar enquanto emitiam uma fraca luz. Imediatamente, todos recolhem suas chaves da mesa, as guardando novamente.

-Pois bem; Justimon, eu te dou a palavra.

-Exatamente, Justimon, você tem toda nossa atenção. Agora fala logo o que você quer, eu tenho muito o que fazer – reclama novamente Pukumon, fazendo com que mais água se espalhasse no chão do grande salão.

-E admito que todos nós ficamos bem curiosos com o que você trouxe para nós... – Astamon se curva sobre a mesa, apoiando sua cabeça sobre as costas de sua mão – Acreditava que sua missão era matar digiescolhidos, não mantê-los como mascotes.

A voz de Astamon podia ser suave e até refinada, dando uma sensação de segurança e ainda assim de escárnio para quem a ouvisse, mas Justimon não dá muita atenção para isso. Ele espera que todos façam silêncio para então se levantar.

-A missão para eliminar os digiescolhidos foi um fracasso; Callismon, Fujinmon, Suijinmon e Raijinmon estão mortos!

O tumulto se instaura imediatamente. Shawujinmon se levanta imediatamente, gritando insultos e exigindo explicações, Minervamon começa a questionar a seriedade dos atos, Pukumon fazia comentários indecentes sobre a habilidade dos falecidos; Wisemon tenta controlar os ânimos, fracassando miseravelmente. Apenas Ebemon-X e Astamon parecem imunes à notícia, esperando que Justimon continue.

-Silêncio.

Como se criasse um vácuo na sala, uma voz que outrora fora poderosa, mas que perdera parte de sua imponência há muito tempo, interrompe a discussão. Não se era possível ver quem falava, mas ninguém se arriscaria a questionar sua ordem.

-Justimon, continue.

-Muito obrigado, mestre – Justimon se curva levemente, recomeçando – Os digiescolhidos conseguiram virar a situação, recebendo logo depois reforços que não esperávamos. E tenho mais... Recebemos novas ordem do Encapuzado.

-E o que nosso benfeitor deseja dessa vez? – pergunta Astamon, se interessando cada vez mais na conversa e prestando cada vez menos atenção no braço faltante de Justimon.

Sentindo cada vez mais a dor em seu ombro faltante, Justimon solta um longo suspiro. "Não faz sentido adiar o inevitável...".

-Guerra... Ele traz a guerra para nós.

...

Se abrigando contra a chuva, os digiescolhidos e seus parceiros se encontravam dentro de uma cabana de madeira e palha abandonada. Além da água, os ventos e os raios tornavam perigoso demais que eles continuassem viajando no topo de Qinglongmon, os forçando a parar. Aquela parada, no entanto, era muito bem aceita por vários deles, mesmo que ninguém anunciasse em voz alta. Mesmo muito rústica, ela era uma perspectiva de descanso muito bem vinda após horas viajando nas costas do Grande Guardião do Leste.

O imenso dragão acorrentado partira fazia quase uma hora, anunciando que iria encontrar ElDoradimon e trazê-lo para mais perto deles. Parados do lado de fora da porta, Andromon e Centalmon faziam guarda, enquanto que Igamon estava parado sobre o teto da cabana, sem se incomodar com a chuva.

Já no interior, Meramon fizera novamente uma fogueira, mas dessa vez, ela não fora o suficiente. Isso fez com que os digiescolhidos tomassem turnos para se secar perto das chamas de seu corpo, o que o deixava um pouco constrangido, mas ele não questionou.

-Ah, ainda bem que você está aqui, Meramon! Sinto que eu ia morrer de frio se não fosse por você!

-Sim, sim, não sei que faríamos sem você!

Apesar de bem intencionado, os comentários de Mimi e Palmon não deixam de incomodar Yukidarumon, que se encontrava num canto afastado dos outros. Yolei, que estava se secando também, aponta com a cabeça para o digimon deprimido, fazendo com que elas percebessem o que acabaram de falar.

-Não que não estejamos felizes por você estar aqui, Yukidarumon! – as duas imediatamente tentam compensar pelo comentário, mas era óbvio que não houve muito sucesso.

Ignorando a conversa, Digitamamon mexia uma desgastada colher de pau no interior de um grande caldeirão de sopa pendurado sobre as chamas, uma grande veia pulsando sobre sua testa conforme ele mexia com dificuldade para misturar os poucos ingredientes que conseguira reunir naquela região árida.

-Hey... Digitamamon... A comida tá ficando pronta?

Era a enésima vez que Agumon perguntava isso, e a cada vez que ele perguntava, parecia que seu estômago ouvia e concordava com um sonoro ronco, e aquele incômodo gradualmente penetrava nos ouvidos de Digitamamon cada vez de forma mais impertinente.

-Hey... Digita-

-SIM, ESTÁ, PODE PULAR DENTRO! – Digitamamon finalmente explode e começa a correr atrás de Agumon, ameaçando jogá-lo no caldeirão.

Dando uma pequena risada, Izzy deixa Tentomon secando também às chamas de Meramon e vai em direção à porta. Ele anda até fica apenas um passo do lado de fora, ainda protegido pela madeira que fazia o teto da cabana, ficando bem entre os dois digimons de guarda.

Percebendo o estranho silêncio do digiescolhido, Centalmon vira seu rosto para ele, curioso.

-Algo o perturba, criança escolhida?

-Centalmon, você tinha muito contato com o Gennai. Ele chegou a comentar algo com você sobre o nosso inimigo? – o digiescolhido evitava fazer contato visual com o digimon, fixando seu olhar no horizonte chuvoso.

-Qinglongmon me fez a mesma pergunta, Baihumon e Zhuqiaomon depois dele. E darei a mesma resposta que dei a eles na ocasião, criança da Sabedoria: desde que as Pedras Sagradas foram destruídas, não tive muito contato com Gennai. Nós percebemos o quão perigoso as coisas ficaram, então todos evitamos comunicação para não nos tornarmos alvos.

-Hum... Ele falou mais algo?

-Não... Só para que eu tomasse cuidado, e que ele tentaria contatar vocês o quanto antes. Devo dizer que fiquei bem surpreso que demorou tanto para vocês vierem...

-Como assim? – finalmente ele olha para Centalmon, estranhando o comentário do digimon.

-Faz pouco mais de um mês que as Pedras Sagradas foram destruídas, e desde então Gennai vem tentado entrar em contato com vocês.

-Mas... Mas nós só ficamos sabendo disso quando ele... Isso não faz sentido... Por que ele só conseguiu entrar em contato quando foi atacado?

-Acredito que não tenho essa resposta para você... Isso só reforça a teoria de Gennai de que algo estava tentando bloquear a comunicação entre vocês. Ele ficou cada vez mais cauteloso nos contatos comigo, até que ele finalmente foi derrotado.

-Isso... Não faz sentido...

Mesmo que não houvesse nada que poderia ter feito a respeito, saber que Gennai estava tentando contatá-lo há tanto tempo o fez se sentir culpado pela morte de seu melhor amigo e mentor. Ele se limita a baixar a cabeça e voltar para próximo do fogo, com seu coração ainda mais frio.

...

-Querido, isso está muito chato! Queria fazer algo agora!

A quase 200 metros de distância, no topo de um planalto a distância, um par de olhos cobiçosos observavam os digiescolhidos. Mesmo com a súplica de sua companheira, ele sabia que não podia se permitir agir apressadamente. Respirando profundamente, ele pega carinhosamente na mão dela e afirma:

-Minha querida, entendo sua frustração, mas aguardemos... Não é o momento ainda.

Mesmo sob a pesada chuva, KingChessmon não era um que permitiria molhar-se; nem a ele nem a sua querida amada, QueenChessmon. Muito menos eles se permitiriam sentar no chão, lamacento e escorregadio pela pesada chuva. Não, eles estavam sentados em seus tronos feitos de ouro e adornados por pedras preciosas, estofados de verde e escondidos da chuva pelo que pareciam nodosos e grossos galhos de árvore.

-A gente ainda perdeu tempo em dar aquela cabana pra eles... – QueenChessmon resmunga, balançando seu cajado de um lado para o outro no ar, procurando o que fazer para acabar com o tédio.

Ao olhar de canto de olho para KingChessmon, ela dá um intenso beijo em sua bochecha, pegando-o desprevenido. Aquilo o faz perder um pouco sua compostura, mas ele aceita com carinho o beijo e coloca a mão na nuca dela afetuosamente.

-Eu também te amo, minha querida... – ela se afasta e se ajeita em seu trono, e KingChessmon fala com afeição para ela – Querida, não faça isso na frente deles... Você sabe como eles ficam sem graça... Especialmente nosso convidado...

No mesmo instante, um relâmpago ilumina rapidamente o planalto onde eles estavam, revelando mais sobre o local. Não havia árvore alguma naquele planalto, mas o que protegia KingChessmon e sua amada eram seis digimons, sendo três brancos e três pretos. Dois deles eram enormes, seus corpos robustos e braços musculosos eram capazes de parar grande parte da chuva; sobre estes, mais dois se colocavam, suas capas selando a parte superior e posterior do abrigo; por último, mais dois, altos e um pouco menos musculosos, fechavam as laterais, impedindo que uma gota sequer caísse sobre o casal enquanto permitiam a visão da cabana.

-Ah, você se preocupa demais, meu querido – tanto KingChessmon quanto QueenChessmon pareciam alheios ao fato desses digimons estarem expostos aos elementos naturais de tal forma que parecia ser algo simplesmente natural, algo corriqueiro. KingChessmon simplesmente sorri para QueenChessmon e depois volta sua atenção para a cabana dos digiescolhidos.

-Mas esse é o dever de um rei, minha rainha: garantir que tudo está certo para permitir que seus súditos possam viver felizes para sempre... Não sei que eu faria se eu perdesse qualquer um de vocês...

-Ah, mas é pra isso que ele está aqui – QueenChessmon se vira para o vão entre os tronos, para espaço escuro formado pela sombra dos grandes digimons – Não é, ceifador-chan?

Um par de esferas amarelas surgem flutuando a quase dois metros e meio de altura, olhando através da planície abaixo analisando e vasculhando cada centímetro, cada ser vivo e suas almas lamentavelmente presas a seus corpos, e se limita a dizer com uma voz vinda do submundo:

-Sim, minha alteza...

...

Passos. Simplesmente passos.

Passos ecoavam por toda a extensão de uma luz infinita. Uma luz sem começo e sem fim.

Passos ecoavam no interior da Torre de Luz.

Passos ecoavam no interior da Torre de Luz, passos de um homem e uma mulher, andando em direção um ao outro.

Os passos se silenciam. Homem e mulher se olhavam nos olhos, ele estava mortalmente sério, enquanto ela tinha um pequeno sorriso no rosto.

Ele usava um sobretudo escuro, seus cabelos negros escorridos ocultavam em parte suas orelhas, uma pequena gravata preta perfeitamente presa em seu pescoço.

Ela usava um vestido branco sem desenhos nem gravuras, uma simples peça de roupa branca que cobria todo seu corpo, contrastando em muito com seus longos cabelos pretos como a mais escura das noites.

-Fico feliz que você tenha aceitado em me encontrar... – diz a mulher com firmeza mas com graça, olhando nos olhos dele não apenas sem medo ou vergonha, mas sim com força e certeza.

-Acredito que você tenha ciência do quanto estou arriscando não só por ter te encontrado, mas em sequer considerar sua ideia...

-Vamos, você sempre gostou de aventuras... Tenho certeza que você dividia o prazer de descobrir coisas novas com seu amigo, Hiroki.

-Isso não é tanto uma aventura quanto suicídio assistido – mesmo tentando manter sua voz séria, ele não conseguia deixar de se admirar com a forma como ela sorria mesmo propondo algo tão louco.

-Bom, não é como se pudéssemos morrer de novo... – ela expande ainda mais seu sorriso, estendendo um de seus braços para ele – Bom, você pode me acompanhar nesse vazio infinito enquanto conversamos, aquele que se sacrificou para restaurar a luz do Digimundo, Yukio Oikawa?

-Você pode não estar tão louca assim... – ele aceita o braço dela, entrelaçando o seu nele – A antiga portadora do Brasão da Inocência, a primeira humana no Digimundo, Tsuyoka Muzaira...

Continua...