– Lumus! – cochichou o menino-que-sobreviveu, apontando a varinha na direção onde ecoou o barulho.
– Quem está aí? – gritou, com a varinha em riste.
– Harry, não foi nada. Talvez seja só o Monstro. – disse Rony, tentando convencer a si mesmo da própria justificativa.
– Não seja medroso, Ronald. – ecoou a voz doce e divertida que emergia da escuridão, revelando uma Hermione sorridente.
– Hermione! – exclamaram ambos, recebendo o abraço da menina.
– O que... como? Você... como chegou aqui? Como sabia? – gaguejou Rony.
– Eu não posso explicar muito, mas preciso que façam uma coisa.
A jovem os instruiu metodicamente, e algo no modo como falava fez com que os dois bruxos inevitavelmente se lembrassem do mestre de poções. Mas bastou Rony fazer um comentário sobre isso para o humor de Hermione vacilar terrivelmente. Pois no fundo, ela sabia que era verdade.
– É uma droga não poder saber como chegaram até aqui e o que farão a partir de agora. – declarou ela, frustrada – Mas estou mais tranquila em saber onde estarão se precisarem de ajuda.
– Você e o Snape... – acrescentou Rony, irritando a bruxa.
– Ronald, você tem que confiar nele. Vocês dois precisam. Por acaso eu estou ferida? Por acaso ele me entregou a Voldemort? Não! Ao contrário, estou aqui facilitando as coisas para vocês. – concluiu, nervosa.
– Ok, ok! Mas você sabe que é difícil acreditar em alguém que sempre duvidamos. – protestou o ruivo, recebendo um olhar de apoio do menino-que-sobreviveu.
– Sim, eu sei Ron. Desculpa... – concordou, enquanto um silêncio pairava sobre o trio de outro. Hermione sabia que os dois meninos ainda não haviam aceito totalmente que ela estivesse ajudando Snape, e que cedo ou tarde o assunto os assombraria de novo, possivelmente levando a uma briga. Mas tudo o que não queriam agora era um desentendimento. Não quando tudo já era incerto por si só.
– Mas me diz, Hermione, como ele dorme? – perguntou Ron, sincero, fazendo Harry e Hermione rirem como se não houvesse nada pra se preocupar.
– Como eu vou saber, Rony! Eu nunca o vi dormir, graças a Merlin! – declarou, ainda entre gargalhadas. Mas no fundo, as gargalhadas tentavam mascarar o que Hermione lutava para esconder. Ela sabia que Snape era um homem como outro qualquer. Ou melhor, não como um outro qualquer. Ele era diferente. Mas ainda assim, homem.
...
– Devo dizer, Granger, que por um momento pensei que seria grifinória o suficiente para quebrar o combinado. – declarou, de modo arrogante.
– Devo dizer, professor, que eu não seria idiota de não seguir com o combinado dessa vez. – objetou, extremando entre ironia e divertimento. Snape, no entanto, não sabia se ficava irritado ou satisfeito em ver como a jovem se comportava diante dele. E antes que pudesse se decidir, ela acrescentou – Estava pensando em cozinhar... – disse, tentando soar indiferente – se quiser me acompanhar... – Hermione não sabia de onde havia tirado coragem para convidar Severo Snape para almoçar, e tentando ignorar as mãos suadas o olhou com uma falsa confiança.
Severo a observava com os olhos semicerrados, avaliando-a, considerando o que responder. Ele já havia desistido de controlar seus pensamentos quando estes o levavam para os olhos e cabelos de Hermione Granger. Quando ela lhe vinha a mente, ele tentava pensar em poções. Mas a menina era brilhante na matéria, e rapidamente o seu rosto surgia entre os ingredientes e caldeirões. Ele também tentava pensar na guerra, mas era aí que tudo ficava pior. A carga já demasiada que ele carregava tornou-se mais íntima, mais direta, mais especial... pois finalmente havia um motivo real de querer continuar vivo. Finalmente havia alguém que ele queria proteger... sem culpas, sem passado, sem profecias. Alguém que surgiu em sua vida e mudou tudo.
– Professor... está tudo bem? – ecoou a voz calma e doce, ficando mais próxima a cada sílaba. Próxima demais...
– Sim, Granger, está. – respondeu, mal-humorado. É que Hermione era real, ao contrário de todos os fantasmas que Snape carregava consigo. E isso o assustava. E quando Hermione se deu conta da súbita mudança de humor, ele já estava trancando o escritório, deixando-a sozinha. De novo.
...
– Contrariando a lógica, saber poções não equivale a conhecimento na cozinha. – murmurou, enquanto observava a mistura indefinida que se formava na panela.
– Pelo céus, Granger, isso está horrível. – declarou Snape, surgindo do nada como sempre.
– O senhor perdeu a oportunidade de opinar quando decidiu não comer da minha comida.
– Sim, comida. Não isso. – declarou, apontando com a cabeça para a panela numa expressão de descaso.
– Pois eu garanto que o gosto está melhor. – respondeu, levando um braço até a cintura de maneira inconsciente.
– E o que está esperando então? – provocou, incitando-a à primeira garfada. – Pegue o garfo... ou colher, faca, pedra... seja lá o que for melhor para comer isso.
Hermione, que já estava irritada o suficiente, pegou um talher e puxou a banqueta de modo nada sutil, e sem hesitar colocou uma quantidade significativa de comida na boca. Snape, tentando controlar a vontade de rir, levantou apenas um canto da boca, satisfeito. A jovem tentava a todo custo mastigar o conjunto sólido que virou seu jantar.
Enquanto isso, Snape moveu-se de maneira elegante pela cozinha, e acenos com a varinha fizeram surgir ingredientes e talheres que dançavam até alcançar a mesa. Quando finalmente Hermione percebeu que Snape iria cozinhar, não pode conter a boca que insistia em se abrir cada vez mais.
– Eu realmente espero que isso não vire um hábito, e que ninguém saiba deste episódio em especial – disse, de costas para a menina, mas de maneira perigosa.
– O senhor vai cozinhar? – perguntou, entre incrédula e divertida.
– Contrariando as expectativas, Granger, eu posso fazer coisas comuns.
– Qual foi a última vez que fez algo comum?
– Sempre a irritante-sabe-tudo... – murmurou, enquanto picava alguma coisa. Mas seu tom não era malicioso, parecia mais com um suspiro pesado. Quando mesmo havia sido? Nem mesmo ele se lembrava.
– Desculpe, senhor. Só... curiosidade.
– A senhorita, no entanto, fez algo bastante incomum... – provocou ele, sorrindo maliciosamente ao ganhar o olhar espantando da jovem – se embebedou na frente de um professor.
– Um, eu não me embebedei, foi só um copo. – declarou, fazendo com que Snape a olhasse inquisidor por sobre os ombros. – Ok, quase uma garrafa – admitiu, contra a vontade – E dois, o senhor não é mais meu professor. – concluiu, corando inexplicavelmente ao lembrar disso. E desejando contornar o assunto, disparou a primeira coisa que lhe veio à cabeça – Apesar de o senhor conhecer muito sobre Arte das Trevas, ainda o prefiro como mestre de poções.
– Dumbledore pensava a mesma coisa. – soltou, indiferente.
– Quando paro para pensar no diretor, algumas coisas me deixam magoada com ele. Dumbledore manipulou muitas pessoas com seus planos sempre descabidos...
– Culpa da quantidade excessiva de doces, provavelmente. – ironizou – Sim, Granger, eu também tenho senso de humor. – completou, ácido.
– Desde quando? – perguntou ela, incrédula, fazendo Snape balançar a cabeça em negativa. Ela não poderia dizer com certeza, mas ele pareceu sorrir. – Eu não o entendo... Em um minuto está estressado, respondendo minhas perguntas de maneira rude. No outro está cozinhando para mim... Isso é... loucura!
– Primeiro, não estou cozinhando para você. Segundo, não está aqui para me entender. Terceiro, meu humor varia conforme o seu: se está irritante, o que acontece quase sempre, fico estressado. – despejou o bruxo.
– O senhor sabe que pode unir uma oração a outra, não sabe? Digo, não precisa ser tão lacônico. – brincou ela, fazendo-o semicerrar os olhos numa falsa irritação. Era fácil conversar com ela.
Um aceno e mais outras duas panelas surgiram no fogão, enquanto a mesa terminava de ser posta magicamente. Da mesma forma como Snape se concentrava em suas poções, ele se dedicava aos ingredientes a sua frente. Metódico, silencioso e ágil, seguiu cozinhando, enquanto Hermione apenas observava. Admirada talvez não fosse a palavra certa para definir a bruxa naquele momento, pois ela estava muito mais que isso.
– Sua inabilidade é em cozinhar, Granger, mas nada a impede de ajudar. – disse, seco, fazendo-a acordar de seu transe. – Pode picar as batatas e deixá-las em fogo baixo até a água ferver. Depois as distribua no tabuleiro. – apesar de estar falando sobre alimentos o seu tom ainda era professoral, como se a ensinasse a fazer uma poção.
Enquanto Hermione aguardava as batatas cozinharem, perdeu-se observando-o mais uma vez pelo canto do olho. As mãos brancas temperavam a salada com especiarias que ela desconhecia, mas que cheiravam muito bem. Ele parecia tão compenetrado que a jovem achou seguro fitá-lo. Snape, no entanto, não perdeu esse detalhe e rapidamente fez questão de constrangê-la. 'Hábitos sonserinos', pensou, rindo internamente.
– Perdeu alguma coisa, Granger?
– Ér... eu... senhor... – tentou falar, suspirando enfim pela tentativa falha enquanto encolhia os ombros. – É que isso é muito estranho. – Ele ergueu o olhar para finalmente encará-la, deixando de lado o que fazia tão compenetrado. Mas quando ele abriu a boca para respondê-la, o cheiro de alguma coisa queimando substituiu o odor das especiarias que minutos atrás inebriavam o ambiente.
– Por Merlin, Granger! Como você pode fazer poções de maneira tão exímia e ser um desastre na cozinha?! – estourou Snape, alcançando a panela à passos largos.
– O senhor me elogiou?
– O que? – perguntou, ainda distraído, sem se dar conta do que tinha falado.
– O temível professor de poções, diretor da sonserina, acaba de elogiar uma grifinória? – brincou ela, feliz por ouvir o que desejava desde os seus onze anos.
– Não seja tola, Granger. – revidou, tentando soar ríspido. Mas qualquer coisa que ele dissesse naquele momento não tiraria o sorriso no rosto da bruxa.
– Espero ouvir um elogio do senhor há anos... – admitiu.
– Minha opinião é tão importante assim para a senhorita, Granger? – disparou o homem dos cabelos negros, levantando uma sobrancelha em divertimento por vê-la corar.
– Não é a sua opinião, professor – revidou – era mais uma questão de ego... – admitiu, ficando séria de repente. – E isso tudo parece tão distante agora...
– Tenho certeza que quando a guerra acabar poderá terminar seu último ano ainda mais irritante. – Hermione riu diante a clara provocação do ex professor, e a conversa fluía suave, como se não houvesse Voldemort, ou guerra, ou morte. – A questão é que nós sempre vamos nos preocupar com alguma coisa, Granger. Agora, por exemplo, minha preocupação é que o almoço não fique pronto hoje... Um passo meu e você dá dois para trás.
– Desculpe, senhor, não vou atrapalhar... – disse a jovem, em meio a um sorriso. – Acredita que meu bicho papão era a professora McGonagall dizendo que fui reprovada em todas as matérias? – revelou ela, rindo, o que levou Snape a bufar.
– Minerva não a reprovaria nem se implorasse por isso. É a favorita dela. – disse ele, indiferente. – Por falar na bruxa intrometida... – começou ele, recebendo um olhar faiscante de Hermione – ela quer conversar comigo amanhã. Alguma ideia do que possa ser, Granger? – perguntou, deixando as cebolas de lado para encará-la.
– Não, senhor... Como eu poderia saber? – respondeu ela, enrijecendo a postura.
– Você mente muito mal. Vai precisar melhorar isso, Granger. O que exatamente pediu a ela?
– Nada demais, senhor. – disse, dando de ombros.
– Ainda não chega perto de ser boa o suficiente em oclumência para me bloquear, então eu sugiro que me conte.
– Eu só pedi a ela que o aconselhasse a não tornar nossa convivência insuportável... Apenas isso. – murmurou, fitando o chão.
– Apenas isso?! – repetiu ele, massageando as têmporas – Agora ela não vai me deixar em paz, Granger. – a castanha franziu a testa, temerosa. Queria dizer que Minerva não precisava intervir, queria admitir que conviver com ele não era ruim (na verdade, estava se tornando bastante agradável), mas a coragem de sua casa simplesmente falhou. O que foi decisivo para não colocá-la na Corvinal estava tendendo a sumir quando estava na presença de Snape.
– Senhor, eu...
– Deixe, Granger... já estou acostumado com tarefas desagradáveis. – disparou, lançando um olhar lascivo para Hermione. No entanto, não era para magoá-la ou atingi-la, era só mais um comentário digno de Severo Snape.
– Não ofendeu, se quer saber... – revidou, abrindo um sorriso convencido.
E assim os dois seguiram as duas horas seguintes, ora silêncio, ora comentários irônicos, ora uns sorrisos... De vez em quando falavam sobre poções ou sobre livros, e vez ou outra Snape dava uma pitada maliciosa em alguma fala, só para vê-la sorrir ou se irritar. De um jeito ou de outro ele saía ganhando, já que estava se decidindo em qual das ocasiões a bruxa ficava mais adorável.
Com o passar das semanas a relação deles começou a melhorar. Snape ainda tinha os seus lampejos de culpa e raiva, e vez ou outra disparava comentários ácidos e grosseiros. Mas Hermione aprendia a cada dia mais sobre o homem com quem dividia a casa, e sabia lidar com ele.
Embora a jovem não se submetesse às suas grosserias, sabia sempre o que falar. Com jeitos e trejeitos, os dois bruxos de temperamentos fortes estavam enfim aprendendo não só a conviver um com o outro, mas a gostar da companhia mútua. Os almoços, as aulas de oclumência, as leituras silenciosas, as conversas e até mesmo as brigas, começaram a fazer parte de uma rotina que tanto Snape quanto Hermione apreciavam, já que seus gostos eram muito parecidos. Ambos metódicos e dedicados ao estudo, disciplinados. Ambos geniosos e firmes em suas escolhas e decisões. Ambos felizes na presença um do outro. Hermione estava começando a considerar as palavras de Gina, que ecoavam em sua mente mesmo quando ela tentativa fugir.
