N/A: Capítulo final!

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Gambit se esgueirou para fora da mansão e saiu caminhando sem rumo, a passos distraídos e sem ritmo, para longe do som das vozes animadas. Não podia permanecer e desejar algo que nunca desejara antes, permitir que o clima de fraternidade o envolvesse em uma promessa falsa de proteção, se deixar contaminar pela atmosfera heroica que perpetrava a mansão. Sabia que não pertencia àquele lugar. Era poucos anos mais velho que os recrutas, mas havia visto o bastante para uma vida.

Será que aquelas crianças não entendiam que não estavam seguras? Ou será que era ele quem havia se transformado em um cínico? Se ainda não havia se tornado o que era esperado dele, então se esforçava para isso ao lutar contra o que fora ensinado a rejeitar desde que criança quando fora acolhido no cerne do Clã dos Ladrões de Nova Orleans. Faltava pouco para completar sete anos – ao menos foi o que Jean-Luc afirmou ao adotá-lo. Seu aniversário foi comemorado pela primeira vez, três semanas mais tarde, em uma pequena festa com um bolo enorme. A felicidade quase não podia ser contida no peito do garotinho de cabelos desgrenhados. Naquele momento, as dúvidas e aflições nutridas durante as primeiras semanas surreais se dissiparam. Remy se convencera de que não seria expulso daquela casa enorme. Soube que finalmente tinha uma família.

A partir de então sua vida passou a ser moldada em torno das necessidades de seu Clã. Remy fazia o que era necessário sem questionar – fosse por gratidão ou por que acreditava ser o certo era irrelevante. Treinamentos e testes (o que incluía uma prova de iniciação à vida adulta aos doze anos) eram parte de seu cotidiano, e pelos quais ele passava com facilidade, pois era rápido e astuto. Quando seus poderes mutantes se manifestaram poucas semanas após sua iniciação, suas obrigações só se fizeram aumentar, assim como a certeza de que a maneira do Clã era a única maneira. Agora, Gambit percebia estupefato, que algumas semanas no Instituto quase o haviam feito acreditar que talvez o jeito dos X-Men funcionaria.

Contudo as palavras venenosas de Essex voltavam à sua mente com frequência, corroendo seus pensamentos como um vírus: "Temi que se você passasse tempo demais com os X-Men, eles o amaciariam, exporiam as virtudes inerentes que você foi forçado a enterrar". Palavras que soavam como verdades vindas da boca de um monstro, como se o compreendesse, como se o conhecesse intimamente. A cada vez que repassava as palavras de Essex, se convencia de que havia algo mais, algo que este conhecia, algo que Remy ignorava.

Às vezes, quando era mais jovem, em noites insones, ele se pegava imaginando de onde vinha, no que veria ao encarar o rosto de seus progenitores. Desconhecer sua origem era como desconhecer traços inatos de sua personalidade. Perguntou-se se o medo que estava sentindo do que poderia descobrir estivera sempre com ele ou se havia surgido no momento em que havia feito associações com Essex? Tantas hipóteses passando por sua cabeça mais rápido do que conseguia processá-las.

Sem se aperceber dos seus arredores, Gambit circundou a mansão, atravessou a quadra de esportes e contornou a piscina. Retirou o celular do bolso direito da calça do moletom e observou a tela com olhos vazios. Olhou ao redor, avistou a pequena construção que servia de depósito de artigos usados na piscina e decidiu que seria um bom lugar para ficar sozinho. A porta estava trancada, mas ele resolveu isso rapidamente. O ar estava viciado e cheirava a cloro, borracha das boias e resíduo de protetor solar. Não havia espaço para andar, então ele permaneceu em pé próximo da porta.

Soltou um suspiro demorado antes de discar o número do pai. Jean-Luc LeBeau atendeu ao som do segundo toque.

"Filho?"

Havia uma mescla de ansiedade, alívio e carinho na voz do homem. Remy sentiu uma pontada no peito. Demorou alguns instantes para responder.

"Oi, pai. Como você está? E o Henri e a Tante?"

"Estamos bem, filho. A Tante Mattie pergunta sobre você com frequência. Diz que está com saudades."

Remy sabia que aquela era a maneira do pai de mostrar que também sentia a sua falta. Mas Jean-Luc era um homem antiquado que mostrava afeto por meio de ações e não palavras. Remy se ressentia em como o pai adotivo havia usado os seus poderes mutantes em prol do Clã de forma tão objetiva, no entanto, em momentos como aquele, achava que talvez fosse duro demais com o homem que o havia criado como seu próprio filho. Remy esperou qualquer menção a assuntos concernentes ao Clã. Como não veio, ele mesmo puxou o assunto.

"Como estão as coisas entre os Clãs?"

Jean-Luc soltou um suspiro longo e preocupado do outro lado da linha. "Nada bem. A situação fica mais tensa a cada dia. Há discussões e brigas frequentes iniciadas pelos dois lados. Os envolvidos são punidos devidamente, mas não parece estar funcionando para desencorajar mais brigas. A trégua está no fio da navalha."

Remy fechou os olhos, sabendo que se arrependeria de sua próxima pergunta. "O que o senhor quer que eu faça para ajudar?"

"Francamente não sei se a sua presença resolveria alguma coisa, filho. Seu irmão e eu estamos fazendo o possível para que os ânimos se mantenham calmos. Existe algo que estou planejando" Remy sabia, com certo orgulho, o quanto o seu pai era engenhoso e perspicaz, um estrategista sempre dois passos à frente do oponente. Contudo Jean-Luc não daria detalhes, ao menos não por telefone, e Remy não perguntaria. "Quando eu colocar em prática, precisarei de você aqui. As formalidades pedem que meus dois filhos estejam ao lado do pai."

Há algum tempo Remy sentia um crescente desdém por certas formalidades e tradições retrógradas do Clã, entretanto, compreendia os motivos de seu pai em segui-las. "E quando será isso?"

"Em breve" a resposta evasiva fez parecer que Jean-Luc não gostaria de continuar com o assunto. Então mudou o tom da conversa ao perguntar novamente como o filho estava e se estava trabalhando.

"De certa forma" Remy se contentou em dizer como resposta à última pergunta. "A propósito, estou procurando informações sobre alguém que foi nosso cliente há alguns meses e gostaria de ter acesso aos arquivos e registros sobre ele."

"Não mantemos registros dos nossos clientes, filho."

Claro, fazia parte da encenação. O Clã não guardava – ao menos não às claras – quaisquer documentos que pudessem pôr em risco a reputação de seus contratantes. Era repreensível discutir sobre clientes pretéritos, especialmente em uma ligação, mesmo que ela fosse aparentemente segura.

Remy conseguiria acesso apenas pessoalmente, pois não havia registros digitais que pudessem ser facilmente hackeados. Arrependeu-se de não ter consultado os arquivos após Essex os ter procurado pela primeira vez, embora soubesse o porquê. Havia formalidades a serem atendidas, perguntas que ele não queria ou saberia responder. À época encontrou outras formas de obter informações. Duvidava que encontraria qualquer informação valiosa nos dados do Clã, contudo não era essa sua intenção, Remy queria saber o quanto o Clã sabia, o quanto Jean-Luc sabia. Assim se encontrasse o pai, seria o primeiro assunto a tratar.

"Você ainda está em Bayville, filho?"

"Estou" ele respondeu quase distraído, optando por abandonar a ideia de questionar Jean-Luc por telefone; serviria apenas para que seu pai ficasse preparado quando os dois pudessem conversar olho no olho. Apressou-se em terminar a conversa. "Manda um beijo para a Tante e para o Henri."

Jean-Luc respondeu que passaria a mensagem e se despediu com um ar melancólico.


Gambit estreitou os olhos e os ergueu indolentemente, movendo a cabeça apenas o bastante. Indícios de um sorrisinho nos lábios. Ele estava sentado na grama, recostado no chafariz que ficava no meio do jardim frontal da mansão. Sentou-se do lado oposto à porta de entrada da mansão, de frente para o portão, como se o vigiasse. Havia anoitecido há pouco. Ele tinha apenas o anjo de pedra do chafariz para companhia, isto é, até Wolverine brotar ao seu lado.

"Você é difícil de achar" disse o canadense, com os braços peludos cruzados e uma expressão cuja aspereza combinava com a sua voz. Era mentira que havia demorado para encontrar Gambit, pois apenas seguira o seu cheiro até ali. Mas, de qualquer forma, era uma boa maneira de iniciar uma conversa.

"Acha que estou me escondendo?" Gambit perguntou retoricamente, aceitando participar da conversa.

Wolverine grunhiu irritado apenas pela força do hábito. "Vai saber por que um Cajun faz alguma coisa" descruzou os braços e se sentou na borda do chafariz. "Tem um sobrando?" apontou com a cabeça para o cigarro que pendia dos lábios de Gambit.

Gambit ergueu as sobrancelhas exageradamente e, com um sorriso levemente sarcástico e gestos deliberadamente lentos, retirou um isqueiro e um maço quase cheio do bolso do casaco e estendeu o braço na direção de Wolverine. "Achei que você fosse do tipo que fuma apenas charutos cubanos."

"Quem não tem cão..." deixou a voz morrer e acendeu um cigarro, deitando a cartela e o isqueiro ao seu lado. "Fica de bico calado" advertiu em tom de ameaça ao dar o primeiro trago. "Eu deveria estar te punindo por fumar dentro do território do Instituto."

Gambit se surpreendeu não apenas pela falta de hostilidade de Wolverine, mas também por este ter iniciado a conversa. Wolverine não aceitava completamente a presença do Cajun, mas também não parecia mais tão incomodado por ela. Ouvira a voz da razão – que neste caso pertencia à Ororo – e aceitara o papel de Gambit nos últimos acontecimentos. Gambit lhes trouxera informações valiosas e colaborara com as investigações, e mesmo que não tivessem chegado a Sinistro primeiro nem impedido o sequestro dos seus, sem Gambit, sequer saberiam por onde começar. O que escondera não mudara o resultado da equação. Desta forma, Wolverine havia cessado as ameaças e passado a apenas ignorar Gambit, como um problema que esperava que se resolvesse sozinho.

Wolverine acendeu mais um cigarro antes de voltar a falar. "Já ouviu falar do projeto Arma X?"

Gambit ponderou antes de chacoalhar a cabeça. "Non."

"Foram os desgraçados que me agraciaram com estas garras lustrosas" as três lâminas da sua mão direita se estenderam para enfatizar o que dizia. "Os documentos que você trouxe davam a entender que Essex havia sido parte desse projeto. Se não quando fui vítima, em algum momento. As últimas páginas que você recuperou comprovam que ele estava envolvido no mesmo momento que eu. Como se eu já não tivesse motivos o suficiente para querer a cabeça do canalha."

"Por que está me contando isso?"

"Porque é mais uma pista. Porque não vou deixar o canalha escapar da próxima vez. Vou continuar a segui-lo e acredito que você fará o mesmo."

"Está propondo uma parceria?" perguntou Gambit, com traços de um sorriso satisfeito.

"Não entenda a situação errado, Cajun. Eu ainda não vou com a sua cara" mas parecia haver humor na sua voz.

"Acho que isso pode funcionar, já que eu também não vou com a sua" e sorriu abertamente desta vez. Para a sua surpresa, Wolverine retribuiu. Um sorriso levemente sardônico, mas um sorriso mesmo assim.

Wolverine se levantou. "Bico calado" repetiu em tom ameaçador.

"Agora sim" retrucou Gambit em deboche. "Estava com saudades das suas ameaças, Wolvie."

"Vai à merda, Gumbo" retrucou antes de dar as costas e ir embora, mas novamente suas palavras foram em tom de provocação.

Gambit acendeu mais um cigarro e fumou-o até a metade, insatisfeito. Fumar costumava ajudá-lo a relaxar, mas ultimamente não chegava nem perto disso. Ele energizou o que restava do cigarro e arremessou-o. Houve uma explosão minúscula a qual ele assistiu se apagar com olhos abertos e estáticos, sem piscar até que ardessem.

Les yeux du diable.

Olhos singulares que faziam parte de quem ele era, que provavelmente haviam decidido a sua vida desde o nascimento. Muitas vezes Gambit havia se perguntado sobre o porquê de ter nascido com uma característica física mutante ao invés de vê-la se manifestar na puberdade como havia ocorrido com os seus poderes. As suas lembranças mais antigas eram de assustar as outras crianças com seus olhos demoníacos. Poderia ter havido um certo contentamento infantil nisso, caso não o tivesse lhe tornado solitário.

Antes de Jean-Luc adotá-lo, Remy se lembrava de viver órfão juntamente com outros garotos cujos pais estavam mortos ou não os queriam. Eles tinham onde dormir, mas não havia disciplina ou cuidados; passavam a maior parte do tempo nas ruas, aprendendo a roubar e se virar sozinhos. Anos mais tarde, Remy descobriu que alguns daqueles garotos eram filhos de um pai Assassino e de outro Ladrão. Como a rivalidade secular entre os Clãs proibia relacionamentos de qualquer natureza, frutos de uniões indesejadas eram descartados. Havia aqueles poucos que tentavam lutar, outros fugiam, mas todos eram caçados e trazidos de volta para sofrer a punição devida.

Na adolescência, Remy começou a se questionar se essas histórias – independentemente de serem verdadeiras ou apenas histórias para advertir, como eram os contos de fada originais – haviam impulsionado a ele e a filha do Patriarca dos Assassinos a buscar um excitante romance de ficção. Não podia negar que a sua química era explosiva. Eles eram um bom time, bons na cama e havia compreensão mútua. No entanto, em um dia, sem que se dessem conta, acabou tão abruptamente quanto havia começado. Ainda assim, meses de noites roubadas com a garota proibida fora o mais perto de um relacionamento que Remy já tivera, fato que dizia muito a seu respeito. Uma vida de dedicação ao bem comum de seu Clã havia trazido individualismo à sua vida pessoal e o desencorajado a buscar relacionamentos duradouros e honestos.

Entre roubos e romances passageiros, Remy estava sempre em fuga. Aquela mansão era como areia movediça sob seus pés, o engolfando. Desde que pisara ali, planejara ir embora assim que seu trabalho estivesse cumprido. Agora que os X-Men estavam cientes da ameaça de Sinistro, não havia mais nada que ele pudesse fazer para ajudar, cumprira o que havia se auto incumbido. Havia outros assuntos que exigiam a sua atenção. Não havia nada que o prendia ali, não é mesmo?

"Está me evitando, Cajun?"

Ele ergueu os olhos ao inesperadamente ouvir o som daquela voz doce e insolente. De tão absorto nos próprios pensamentos, não a havia ouvido se aproximar (ao contrário de Wolverine, cujos passos soavam como marteladas para os seus ouvidos treinados de ladrão). Foi impossível evitar que seus lábios se contorcessem e formassem um sorriso ao observar aquela silhueta alta cujos contornos ele reconheceria em qualquer situação.

Vampira estava parada na posição que era como sua marca registrada, o quadril empinado para o lado e as mãos na cintura, com seus jeans justos e regata preta, que contrastava com a alvura da sua pele, fazendo parecer que brilhava na penumbra.

Ela se sentou ao lado dele com as pernas dobradas e ele percebeu ao esbarrar no braço dela que Vampira usava uma segunda pele transparente por baixo da regata, cobrindo seus braços, ombros e colo. Olhando-a de perto, havia um pouco de cor no seu rosto, com olhos contornados, bochechas rosadas e lábios lilás. Esta Vampira, que não tinha medo de mostrar quem era pela maneira que se vestia, era confiante e sedutora, complementava perfeitamente seu lado delicado e vulnerável, que apenas ele havia vislumbrado. Deitar os olhos sobre ela era o suficiente para ele desejar tomá-la nos braços.

"Esbarrei com o Logan" ela comentou, já que Gambit não dissera palavra. "Ele disse que você estava aqui. Como ele sabia eu não sei" completou com um sorriso, que ele retribuiu.

"Wolvie e eu tivemos uma conversa civilizada, por mais estranho que isso possa parecer."

Vampira pareceu impressionada. Explicava a atitude de Wolverine, que lhe contou onde Gambit estava sem ela ter perguntado. Vampira lhe lançara um olhar de divertimento como se detectasse aprovação, algo que Wolverine se apressou em negar.

"Por que acha que estou te evitando, chérie?" ele chegou mais perto, deslizou um braço ao redor da cintura dela e deitou a outra mão na sua coxa.

Ela sentiu o cigarro no hálito dele e como seus olhos não combinavam com o sorriso que ele fingia. "Não te vi o dia todo e ontem você sumiu" o tom de brincadeira havia então se dissipado. Engoliu forte como se um calombo houvesse se formado na garganta.

Gambit não respondeu. Depois de falar com seu pai ao telefone, ele havia voltado para o quarto e permanecido lá até a manhã seguinte. Insone, investigou o nome Milbury e encontrou pouco novamente, apenas notícias antigas. Precisaria ir mais a fundo, entrar em contato com pessoas que pudessem encontrar respostas, algo que não conseguiria fazer no meio da madrugada, muito menos em um quarto no Instituto. Caiu no sono quando não faltava muito para amanhecer e só deixou o quarto no início da tarde ao sentir fome. Desceu até a cozinha e a encontrou deserta. Fez um sanduíche, que abocanhou quase sem sentir o gosto.

Estranhando o silêncio no domingo, saiu pela porta da cozinha e logo ouviu o som das gargalhadas, os uivos da torcida, os arremessos e rebatidas da partida de baseball. Novamente escolheu se afastar e voltar para o quarto. O dia voou diante dos seus olhos. Sentindo-se sufocado depois que escureceu, desceu pela sacada na intenção de deixar a mansão, mas voltou atrás e se sentou perto do chafariz.

Olhando o rosto dela, Gambit repentinamente foi assolado pela sensação de que não tinha o direito de tê-la daquela forma, tão perto. Vampira disfarçava, mas ele achou que conseguiu enxergar um quê de insegurança nos olhos dela. Afinal, eles nunca haviam conversado sobre o que havia entre eles.

"Eu daria qualquer coisa para ter passado a noite com você" ele disse, sua voz era séria e sóbria, baixa e gutural. Dizia a verdade, mesmo que os motivos para dizê-la fossem egoístas, apenas para convencê-la de que não estava fugindo. De alguma forma, assim que as palavras deixaram seus lábios, ele soube que estava errado. Ele a sentiu enrijecer sob o calor das suas mãos.

Os olhos que se voltaram para ele brilharam úmidos em verde claro; os lábios se partiram, mas não houve som. Novamente, a fragilidade que ela exalava o compelia a querer beijá-la para afastar toda a sua dor.

"É difícil pra mim também" ela disse com a voz miúda.

Os dois sentiam que depois do que havia acontecido seria impossível voltar ao que era. As poucas horas que passaram juntos sem o impedimento dos poderes dela haviam sido como uma fantasia que antes parecia inalcançável. Contudo, saciar sua atração física mútua não serviu para apaziguar o que sentiam, teve o efeito oposto, provando que não era apenas atração efêmera. Havia outros sentimentos, sentimentos mais profundos e inabaláveis.

Ter uma amostra de como era tocar, de como era ser tocada sem hesitação, sem medo, sem questionar estava afetando Vampira mais do que ela era capaz de lutar. "Eu sei que ficar assim não é o bastante."

Ele fechou os olhos apertados em pesar, culpando suas palavras impensadas. "Eu não disse isso, chérie."

"Eu sei... é que..." ela corou, intensificando a cor do blush. "Quando nós... você sabe. Não sai da minha cabeça" e quando olhou no rosto dele, seus olhos estavam semicerrados e molhados.

No mesmo momento ele soube que não importava o que dissesse, não seria o bastante. Apenas demonstrar mudaria tudo. E era a última coisa que ele poderia fazer. Sequer poderia tocar o rosto dela, então lhe acariciou os cabelos. "Da minha também não."

Ela soltou o ar rápido, falhando em abortar um suspiro de incredibilidade. Encolheu-se, segurando as pernas contra o peito, se afastando dele de leve, como se não quisesse acreditar nele, como se se enganar tornasse tudo mais fácil. "Você é experiente" na sua voz havia ressentimento e algo mais que ele não conseguiu identificar. "Eu... foi a minha primeira... talvez a última."

"Você se arrependeu de ter sido comigo?" ele perguntou sem hesitar, as palavras duras e magoadas quase ficaram presas entre os dentes cerrados.

Ela se voltou para ele com os olhos arregalados, odiando vê-lo se depreciar. "Não! É claro que não" se apressou em dizer; sua voz saiu estrangulada e desesperada. Aquilo sequer havia passado pela sua cabeça. Ficar com ele havia significado tudo para ela e o mero pensamento de que para ele pudesse ter sido apenas mais uma noite doía tão fundo que havia impulsionado aquelas palavras amargas. Percebeu, com o coração sangrando ao ver os olhos tristes dele, o quanto havia sido infantil. "Eu estou apa– " ela quase deixou escapar, mas se calou. Tentou engolir o choro. "Eu acho que vou enlouquecer se não puder te tocar de novo."

"Nós podemos ser criativos."

Ela lhe lançou um olhar magoado. "Não é o que eu quero... não assim" ele sabia, tampouco era o que ele queria, e Vampira, de alguma forma, percebeu isso. "Eu quero poder te tocar de novo sem nenhum tipo de barreira."

Mudando de posição, ele deitou os braços dela nos seus ombros, frente a frente, aproximou o rosto do dela. "A falta de controle dos seus poderes não vai durar para sempre, Vampira" afirmou juntamente de um sorriso largo e reconfortante.

Naquele momento, Vampira não compreendeu por que não se sentiu consolada. Apenas mais tarde se deu conta de que Remy não havia se incluído, como se ele não fosse fazer parte do seu futuro. Ela nunca achou que o peito podia doer tanto em angústia. Escondeu o rosto no ombro dele, sentindo os braços dele envolvê-la. Tentava consolá-la enquanto ele próprio parecia em conflito, distante e contemplativo.

Gambit devia acreditar que precisava sofrer em solidão, como sempre fizera. Não aceitava que não estava mais sozinho. Ela se afastou um pouco, acariciou o rosto dele com a mão enluvada, desejando poder sentir a aspereza da fina camada da barba dele sob os dedos. "O que está te incomodando, gatinho?"

Para a sua decepção, Remy escolheu dissimular. Abriu um sorriso enorme. "Nada me preocupa, chère."

Vampira se encolheu novamente. Abordagem direta nunca funcionava com ele. Ela se pôs em pé, pensou em fugir como teria feito no passado, mas tomou a decisão honesta. "Vamos dar uma volta" disse resolutamente, esticando a mão para ele apanhar. Havia se permitido aquele momento de abatimento, mas não poderia continuar lamentando o seu destino. Não podia tocá-lo, mas podia ter sua companhia.

Gambit aceitou, segurou a mão dela e os dois caminharam de mãos dadas, dedos interlaçados, por um minuto silencioso. A noite estava agradável, mas batia uma brisa fria, que fez Vampira esfregar os braços. Ele soltou a mão dela e, no próximo instante, ela sentiu o peso do casaco dele sobre os ombros. Ela vestiu as mangas, que eram longas demais, assim como o comprimento que chegava aos seus calcanhares. Sentiu o cheiro da pele dele no tecido, misturado a perfume, e tabaco quase imperceptível.

"Como estou?"

Ele riu genuinamente pela primeira vez em dias. "Como uma criança em roupas de adulto."

Ela simulou cara de ofendida. "Eu gostei" enfiou as mãos nos bolsos, encontrou os cigarros. "Isto aqui é nojento e vai te matar um dia" seu tom era parte debochado, parte verdadeiro. No outro bolso encontrou a fotografia que ele insistia em carregar consigo.

Vampira fez um movimento brusco para cima com as mãos e as mangas compridas desceram. Segurou a fotografia com as duas mãos perto do rosto e estreitou os olhos, que logo mostraram surpresa com o reconhecimento. "Este é...?" Remy fez que sim com a cabeça.

"Eu encontrei junto dos outros papéis antes do lugar explodir."

Vampira observou as pessoas na foto. Pareciam irreais, como bonecos de barro inexpressivos; só poderiam mesmo pertencer a outra época. Essex tinha olhos perspicazes, inteligentes. Não se assemelhava ao monstro que se tornaria. "Por que você guardou?" não havia acusação nas suas palavras, pelo contrário, sua voz era doce.

Remy deu de ombros. "Pode vir a se tornar uma pista no futuro."

Contudo, não era apenas isso. Gambit estava intrigado por Essex ter guardado aquela foto por tantos anos. Por tudo o que Jean revelara, era um ato que não parecia fazer sentido. Essex abrira mão de sua humanidade em troca de longevidade anormal, de se tornar algo mais. Talvez aquela fotografia não passasse de um símbolo de algo que não existia mais. Talvez representasse uma vida de fraquezas que Essex não mais repetiria.

Vampira abanou a cabeça em compreensão e se aproximou de Gambit. Ele voltou a falar, agora sem rodeios ou meia-verdades, embora houvesse certo constrangimento na sua voz. "Algumas coisas que o Essex disse não saem da minha cabeça. Ele insinuou que sabe mais de mim do que eu mesmo, Vampira, que sabe de onde eu venho, sobre meus pais verdadeiros. Sempre achei que tivesse sido abandonado pelos meus pais por causa dos meus olhos, mas Essex pode saber alguma coisa, ele pode até ser responsável por isso. Você viu como ele controlou a infância do Scott e tentou fazer o mesmo com a Jean. E se ele controlou a minha também?" Vampira o abraçou apertado, em silêncio. Ele se curvou na direção dela, encolhido, se aconchegou vulnerável, o rosto no ombro dela. "Eu preciso saber."

Havia decisões que Gambit precisava tomar e tinha medo de dar esse passo.


A explosão da gargalhada de Hank encheu os ouvidos de Remy de forma agradável. Não achou que seu comentário sarcástico de observação estilo Seinfeld seria tão bem recebido. Kitty deu risadinhas e até mesmo Kurt não conseguiu esconder um sorrisinho.

Era um fim de tarde tranquilo, os recrutas haviam retornado do colégio e então se dedicavam aos seus afazeres, espalhados em quartos e na biblioteca.

O quarteto havia se reunido horas antes para dar os toques finais nos novos e aprimorados sistemas de segurança nos quais Hank e Kitty haviam trabalhado. Tanto empenho havia resultado em um trabalho excelente. Kurt usou seus poderes de teletransporte para procurar pontos cegos enquanto o conhecimento furtivo (por assim dizer) de Remy ajudou a aparar algumas poucas arestas soltas. Ele se mostrou genuinamente impressionado com o trabalho da dupla. Agora até mesmo ele teria trabalho para invadir a mansão. Se as estimativas de Hank se mostrassem corretas – o que era muito provável – mais uma tarde de trabalho e tudo estaria perfeito. Eles marcaram o horário para o próximo dia.

Gambit, no entanto, acabou com o clima de cumplicidade ao declinar o convite para tomar algo com o grupo. Ninguém mais parecia culpá-lo por ter ocultado parte dos documentos, nem mesmo Ciclope – Remy acreditava que a sensatez de Jean tivesse algo a ver com isso. Até mesmo Kurt passou a ser gentil com ele. Havia observado Gambit com atenção e começava a entendê-lo. Acreditava que o exterior impetuoso de Gambit encobria um interior íntegro, uma fachada presunçosa para ocultar um olhar triste.

"Doutor, Kitty-Kat, Elfo" Gambit disse acenando com a cabeça na direção de cada um deles. Enfiou as mãos nos bolsos do casaco longo e saiu caminhando calmamente, como se não houvesse preocupações quando na realidade uma nuvem de melancolia pairava acima de sua cabeça. Gambit detestava hesitar, detestava permitir que o peso de suas apreensões prendesse seus pés ao chão até que não pudesse sair do lugar. Matutar na inércia nunca o levava a lugar algum e continuar zanzando pelos arredores da mansão também não traria resultados. Passou tanto tempo em introspecção, naqueles últimos dias, ruminando sem obter respostas, que não havia sequer notado que seu corpo estava lânguido e fraco.

Girando nos calcanhares, Gambit seguiu para a academia. Não houve injeção de ânimo no ato, apenas a expectativa de que lhe faria se sentir melhor. Chegando à academia, encontrou um trio de recrutas já de saída. Retirou o casaco, pendurando-o em uma armação qualquer, e apanhou halteres pesados. Não usava roupas apropriadas – estava de calças jeans – mas não importava, precisava apenas liberar parte da energia presa. Se apenas levantar peso não funcionasse, ele poderia arranjar uma sessão na Sala de Perigo. Explodir coisas era a melhor maneira de descarregar energia, um hábito que ele trazia desde que seus poderes surgiram. Quando se sentia sobrecarregado, fugia para alguma área isolada do bayou e voltava horas mais tarde, sujo, fedido, muitas vezes com arranhões e os dedos duros de dor, levava broncas da Tante Mattie, mas parecia sempre valer a pena. Ele voltasse leve, com os pensamentos em ordem, com as preocupações em perspectiva, tornava tomar decisões mais fácil. Talvez fosse exatamente disso que precisava, Gambit pensou consigo mesmo, lembrando daqueles momentos da infância com carinho.

Por ora, o exercício pesado fora o suficiente. Felizmente, Gambit não foi interrompido, e parou apenas quando seus músculos reclamaram. Seus braços e pernas tremiam, espasmando com o esforço excessivo após dias de imobilidade. De fato, já se sentia mais leve. Apenas mais tarde perceberia que não tinha exatamente a ver com o esforço físico, mas sim porque havia tomado uma decisão importante.

No caminho para o seu quarto, ele passou despercebido pelo corredor que levava à sala de estar e, por acaso, viu quando Jean se sentou ao lado de Scott segurando um balde de pipoca. Ele envolveu os braços ao redor do ombro dela. Eles trocaram algumas palavras e ela deitou a cabeça no ombro dele. Gambit foi tomado por uma tristeza arrebatadora. Não tinha a ver com o casal em si, mas por eles exibirem tão naturalmente algo que Gambit achava que nunca teria, sequer desejava ter. Embora fossem mutantes e vivessem uma vida totalmente fora dos padrões, eles eram, sem esforço, o rei e a rainha do baile de formatura. O tipo de pessoa de quem Gambit caçoava pela ingenuidade. E, mesmo assim, juntos, eles eram imbatíveis. Até mesmo o louco do Sinistro percebeu sua compatibilidade, mesmo que apenas pelo seu potencial genético.

Gambit tentou deixar de lado, mas aquela cena estranhamente mexeu com ele. Talvez porque soubesse que para ele as coisas nunca seriam assim não simples. Fosse pelas circunstâncias ou por ele mesmo, aquela era o tipo de felicidade a qual ele dificilmente teria acesso. No entanto, mesmo estando ciente disso, Gambit subia as escadas sem intenção de ir para o próprio quarto. Seguiu pelo corredor oposto e bateu à porta do quarto de Vampira. Era atraído por ela de uma forma que não conseguia racionalizar tampouco queria resistir.

Gambit entrou mesmo sem ela ter respondido. Se Vampira não estivesse ali, iria procurá-la em outro lugar. Ao entrar, viu a luz do quarto acesa e a porta do banheiro entreaberta. Sentou-se na cama dela, curvado para a frente, com os pés impacientes batendo no chão. Apenas então se deu conta de que havia esquecido o casaco na academia. Os exercícios haviam aumentado muito a sua temperatura corporal, e agora que estava parado, sentia o suor esfriar na pele e a umidade no couro cabeludo. Ele se moveu um pouco e viu que havia abarrotado a cama impecavelmente arrumada. Tentou consertar afofando o travesseiro, sentiu o cheiro do perfume dela impregnado na fronha e no lençol, e engoliu em seco. O ruído do chuveiro cessou e, pouco depois, Vampira saiu de regata e calcinha, e o cabelo seco e preso em um coque no alto da cabeça.

"Que susto!" ela disse, rindo. "Achei que eu tivesse trancado a porta."

"Você trancou" ele respondeu com uma expressão que saiu errada. Devia ter sido em tom de brincadeira, mas pareceu séria. A boca secou quando os olhos passaram pela alvura do colo e braços dela, pelos seios através do tecido fino, e se demoraram demais nas pernas.

Vampira se apressou em vestir a calça e a blusa de pijama. Em outras circunstâncias, encontrá-lo ali teria sido excitante. Lutar contra a vontade de se jogar nos braços dele era exaustivo. Não era do seu feitio ter devaneios romantizados, mas encontrá-lo na sua cama fazia as borboletas no seu estômago farfalharem.

"Ao que devo a honra de você ter invadido o meu quarto?" ela brincou ao se sentar na cama, com as pernas cruzadas e a postura retesada, um tanto artificial.

Ele retribuiu o sorriso debochado dela. Sentiu o corpo relaxar ao ver o rosto claro e limpo dela. Estranhou a sensação. "Achei que a gente pudesse sair. Não deixamos essa mansão desde que voltamos" mas ele havia hesitado antes de falar, como se quisesse lhe contar outra coisa, mas se acovardara na última hora e improvisara.

Vampira não respondeu de imediato, titubeou observando as mãos sobre o colo, percebendo que havia se esquecido de vestir suas luvas. "Estou muito cansada, Remy" falou sem olhar no rosto dele. "Passei o dia cuidando de afazeres dos recrutas e tive treinamento VIP com o Logan" não emendou que poderiam sair outro dia.

"Não deve ser fácil. Aquele nanico é marrento."

Vampira se permitiu rir. "Ele é."

"Ele pegou pesado com você?"

"Você nem imagina. Meu corpo todo dói."

Gambit cogitou sugerir comerem ali mesmo, apenas passar um tempo juntos, mas a imagem do casal na sala veio à mente e o fez mudar de ideia antes de perguntar. Aquilo não era para eles, mesmo que o físico não se mostrasse um impedimento. Tudo o que eles tinham eram promessas e momentos roubados.

Vampira voltou a falar. "O Professor me chamou pra conversar hoje de manhã. Ele teve uma ideia sobre os meus poderes. Ele acha que eu não tenho controle porque os meus poderes não se desenvolveram como deveriam. Não é um problema físico e todas as psiques foram apagadas" ela se encolheu ao lembrar o quanto esse processo havia sido dolorido "Então vamos continuar trabalhando na minha mente até encontrar as respostas. Palavras dele. Vamos tentar nos encontrar todos os dias."

Gambit se inclinou na direção dela, segurando-se para não tocá-la, como queria fazer. "Você não parece tão animada."

Ela encolheu os ombros. "Já foram tantas promessas que não levaram a lugar nenhum. Eu quero acreditar que vai dar certo em algum momento, mas não posso me deixar levar, não posso colocar todas as minhas esperanças nisso, sendo que talvez não dê certo."

Gambit balançou a cabeça de leve, mas não disse palavra. Não acreditava que havia sido a intenção dela, porém as suas palavras pareciam refletir o que os dois tinham. A maturidade com a qual ela aprendera a lidar com os seus poderes de certa forma a ajudaria a lidar com o ele estava prestes a lhe dizer. Novamente ele titubeou, novamente incapaz de dizer.

Vampira o observou de perto. Remy tinha aquele olhar de quem queria contar algo e não conseguia. Ela fingiu um bocejo. "A gente se vê amanhã?"

Ele assentiu com um olhar tristonho, que ela fez de tudo para não ver. Ele entendeu que ela sabia e que tentaria tornar a decisão inevitável dele mais fácil.


Os próximos dias se dissiparam. Gambit sentiu a areia movediça chegar aos seus joelhos, e, ainda assim, continuava a adiar o inevitável.

Era uma manhã lenta e tranquila. Após uma conversa animada com Ororo, ele esperava por Vampira do lado de fora do escritório do Professor. Estava apoiado em uma parede, passando um maço de cartas de uma mão para a outra, ouvindo o sincronismo do ruído satisfatório que cinquenta e duas cartas faziam ao se encaixar. Esperou em torno de quinze minutos até ouvir o som da maçaneta e o leve rangido da porta.

Vampira deixou o escritório levemente cambaleante. Gambit se apressou para ampará-la, enrolando o braço ao redor da cintura dela para que não perdesse o equilíbrio. Ela sorriu ao vê-lo, mesmo que soubesse que ele estava à sua espera. Parecia ser o único momento em que ela não escondia sua vulnerabilidade e se deixava cuidar por ele naqueles últimos dias. Durante o resto do tempo, Vampira parecia evitá-lo sutilmente. Gambit havia se apercebido disso, mas não diria a ela.

"Estou bem. Apenas um pouquinho tonta" ela disse sem que ele perguntasse, pois conhecia o olhar de preocupação que ele achava que conseguia esconder. Seus encontros com o Professor envolviam esforço físico, mas o esforço mental era extremamente cansativo, exauria suas forças pelo restante do dia. "O Professor está pegando pesado comigo" ela disse com leveza, falhando em conter a excitação. Lutava contra o otimismo, contudo centelhas de esperança sempre pareciam encontrar o seu caminho até ela. Esta fora sua quarta sessão e era a primeira vez que Vampira comentava algo com Gambit. Nos três dias anteriores, ela falou pouco e ele não insistiu, pois sabia que contaria quando se sentisse confortável.

"Algum progresso a caminho?" ele indagou já que Vampira havia mostrado que queria falar.

"Ainda não" ela se contentou em dizer. O Professor acreditava ter encontrado a origem do problema, mas ainda estava buscando formas de concertá-lo. Ela agradecia pela sinceridade dele, por nunca ter prometido uma solução milagrosa. Sempre deixou claro que, independente de como ela obteria controle, seria por meio de trabalho duro, foco e paciência. Vampira estava decidida em fazer por merecer.

Gambit a levou até o quarto, mas como caminhar a fez se sentir melhor, decidiram sair para almoçar. Já que o dia estava claro e fresco, Vampira sugeriu um lugar que daria para ir andando da mansão. Caminharam por aproximadamente quinze minutos, a maior parte do tempo em silêncio. Não do tipo de silêncio embaraçado e constrangedor, e sim daquele em que há compreensão mútua, entre duas pessoas que se conhecessem e sabem que não precisam preenchê-lo com frases feitas e conversa banal.

No entanto, o silêncio persistiu durante a refeição. Vampira notou que Gambit olhou no rosto dela várias vezes e fugiu. Nunca o havia visto tão ansioso. O hematoma abaixo do olho direito havia praticamente sumido, entretanto ele tinha olheiras. Parecia exausto como se não dormisse direito há dias. A julgar pela barba dele, também não se barbeava há alguns dias.

"Eu acho que sei que você quer me dizer alguma coisa" Vampira disse de repente. Estava cansada demais para continuar fingindo que nada iria mudar.

As suas palavras chamaram a atenção dele, que olhou na sua direção movendo a cabeça rapidamente. Ele confirmou com um meneio de cabeça, mas continuou a hesitar. Era incongruente como a última coisa que queria era magoá-la, e, ainda assim, estava prestes a fazer isso novamente. Fazia um ótimo trabalho ferindo as pessoas que amava.

"Você vai embora" ela disse, em um suspiro. Embora viesse se preparando para aquele momento, não tornou mais fácil.

Ele baixou a cabeça, começou a falar como se tivesse decorado um discurso ou o tivesse repetido para si mesmo vezes demais. "A missão que me trouxe aqui acabou. Eu prolonguei meu tempo aqui, mas... tem coisas que tenho que saber e não vou conseguir fazer isso aqui."

"Eu sei, Remy" ela disse sem vacilar. Compreendia que ele precisava buscar respostas sobre o seu passado.

Mesmo após terem escapado das garras de Sinistro, o vilão ainda conseguia fazê-lo sofrer, Vampira pensou com amargura, alcançando a mão dele do outro lado da mesa.

Ele apertou a mão enluvada dela e finalmente a olhou diretamente nos olhos. "Eu pensei muito, Vampira. E... eu esperava não ter que voltar para casa sozinho."

Ela demonstrou surpresa. "Você quer que eu vá com você pra Nova Orleans?"

"Você? Não, eu estava pensando em convidar o Scott. Você acha que ele toparia?"

Ela soltou uma gargalhada genuína apesar de tudo, jogou guardanapos de papel nele. "Remy, você não pode simplesmente aparecer comigo a tiracolo. Não vou dizer que sei o que se passa por trás das cortinas do seu Clã, mas parece complicado. Eu só iria atrapalhar."

"Você não atrapalhou da última vez, Vampira. Pelo contrário, você me ajudou mesmo depois de saber que eu tinha mentido pra você. Teve uma parte sincera no meio daquela merda de encenação. Eu achei... eu realmente achei que você não iria voltar com o X-Men e... talvez eu pudesse te convencer a ficar comigo por mais um tempo."

"Mas não seria como da outra vez, né?" ela perguntou de forma retórica, mas ao mesmo tempo esperava uma resposta. Remy ficou em silêncio. Ambos sabiam que nunca mais seria o mesmo depois de tudo que viveram. Antes não havia bagagem para carregar.

Pouco antes de serem atacados na mansão, quando Gambit planejava ir à procura de Carrascos, para tentar encontrar Essex, Vampira estivera disposta a ir com ele, em verdade, havia insistido em acompanhá-lo. No entanto, seria apenas em uma missão. Agora, quando Gambit falava em voltar para Nova Orleans parecia definitivo. Por mais que não significasse que não fossem mais se ver, os dois sentiam que nunca mais seria a mesma coisa.

Vampira queria poder ajudá-lo a encontrar respostas, estar ao seu lado quando as encontrasse, consolá-lo caso fracassasse. Entretanto, não poderia dar as costas aos X-Men e partir sem saber quando voltaria. Havia ainda a sua falta de controle, uma espécie de assunto inacabado que a prendia ali, assim como procurar suas origens o impelia a partir.

"Posso pedir permissão para o Professor" ela disse. "Convencê-lo de que seria para uma missão e passar alguns dias com você" mas mesmo enquanto falava, ela sabia que era apenas ilusão.

Gambit fez que não com a cabeça ao se lembrar dos encontros dela com Xavier. Percebeu o quanto estava sendo egoísta. Vampira tinha uma vida ali. Não poderia pedir para que abrisse mão de nada por ele. "O seu lugar é com os X-Men, Vampira."

Um sorriso triste se formou nos lábios dela. "Foi o que você me mostrou naquela noite quando estávamos ensopados no meio do bayou após quase termos sido atingidos por metralhadoras e devorados por jacarés" ela riu um pouco, mas logo seu voltou à austeridade. "Tem uma coisa que você falhou em ver. Eu acho que o seu lugar também é aqui."

"Eu sou um ladrão" ele afirmou como se era o que precisava dizer, não como se sentia.

"E daí? Eu roubo poderes. Também sou ladra, 'de um certo ponto de vista'."

Ele fez uma careta e sorriu. "Você não vai me ganhar citando Star Wars."

Ela sorriu novamente e desta vez pareceu um pouco menos triste. "O que estou tentando dizer é que dá pra ser os dois. Ladrão e herói. Talvez este não seja o momento certo pra você se tornar um X-Man, assim como deixar os X-Men não foi para mim."

Ele tentou esboçar um sorriso, mas seus olhos estavam tristes. "Eu não posso prometer que vou voltar, Vampira, não pra ficar. Uma vez que eu estiver de volta, vou ser sugado pelos problemas do Clã. Foi por isso que parti da primeira vez e vim parar aqui. Para fugir. Mas não importa o quanto eu me afaste, não consigo dar as costas ao meu pai, ao meu irmão. Eu sei que não tenho o sangue dos LeBeau, mas eles são a minha família."

Era desnecessário dizer que os X-Men eram a dela.


Gambit partiria na manhã seguinte. Conversou com o Professor, resumindo-se a dizer que precisava ir. Mesmo sem oferecer detalhes, Xavier pareceu entender, disse que Gambit seria bem-vindo caso escolhesse voltar. Despediu-se dos mentores e veteranos brevemente e sem sentimentalismos recebeu comentários contidos de surpresa. Todos se mostraram gentis – até mesmo Wolverine se contentou em dizer: "Espero nunca mais ver essa tua cara feia, Gumbo", o que para ele era quase o mesmo que dizer que sentiria a sua falta. Passou o entardecer com Vampira, aconchegados na cama dele. À noite, ela voltou para o próprio quarto.

"Achou que ia escapar sem se despedir de mim?" Vampira disse em tom de provocação.

Gambit terminou de amarrar a mochila na moto antes de se voltar para ela, com um sorriso largo. "Estava esperando por você, chère."

"Eu tenho uma coisa pra você" ela disse meio sem jeito, tirou uma carta meio amassada do bolso de trás do jeans e entregou a ele.

Ele apanhou a carta com uma expressão de surpresa. Era a Dama de Copas. A mesma carta que, meses antes, ele havia depositado na mão dela, como um gesto de despedida, para que ela não o esquecesse. À época tudo o que tiveram foram algumas horas em um trem de carga, mais algumas andando por Nova Orleans em pleno Mardi Gras e o resgate de seu pai.

"Você a guardou" ele disse, tocado.

Vampira encolheu os ombros. Não saberia explicar o porquê. No começo, a carta foi um lembrete de que não deveria confiar em ninguém. Havia sido levada sob falsos pretextos, e tentou odiá-lo por mentir e usá-la daquela forma, por fazê-la acreditar que havia se importado com ela, mas nunca conseguiu odiá-lo realmente. O tempo a fez ver os acontecimentos daquele dia sob novas perspectivas e a carta se tornou apenas um souvenir esquecido no fundo de uma gaveta de meias. Até ele voltar.

"Achei que pudesse me trazer sorte" ela disse remetendo à conversa no trem de carga.

"Funcionou?"

"Não" ela negou com uma gargalhada. "Não estou te dando, Cajun. Você me devolve quando a gente se vir de novo."

Ele guardou a carta no bolso do casaco com cuidado e envolveu os braços na cintura dela. "Até lá, vai sentir a minha falta, chérie?"

"Nenhuma" ele disse com um sorriso, que ele retribuiu.

Olharam nos olhos um do outro antes de se abraçaram. Um abraço longo e apertado.

"Isto não é um adeus" ela afirmou com a voz abafada pelo peito dele.

"Non, não é mesmo" ele murmurou, roçando os lábios no cabelo dela.

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Glossário:

Les yeux du diable – Olhos de diabo