I don't know
I could crash and burn but maybe
At the end of this road I might catch a glimpse of me
So I won't worry about my timing I wanna get it right
No comparing
Second guessing
No, not this time
(Sober - Kelly Clarkson)
.oOo.
"Mestre Malfoy," Draco foi recebido na sua própria casa por um elfo que torcia as mãos nervosamente. "A senhora Malfoy está procurando o mestre Malfoy. Desde ontem à noite. Ela fica aparecendo de quinze em quinze minutos..."
"Merda..." Draco passou a mão pelos cabelos ajeitando-os. Depois alisou a roupa e ajeitou a gola da camisa. "Estou apresentável, Tiddy?"
"Sempre, mestre Malfoy, mas... Se o mestre permitir, Tiddy vai..."
"O que foi? Rápido, diga o que há de errado!" Draco impacientou-se diante da incerteza do elfo.
"Um fio de cabelo, senhor... Aqui," o elfo apontou para o próprio ombro e Draco puxou a camisa do ombro direito, encontrando um fio curto de cabelo preto, destacando-se contra o tecido impecavelmente branco.
Draco largou o fio de cabelo assim que ouviu um 'whosh' na lareira.
"Isso é tudo, Tiddy," Draco falou calmamente antes de se virar para o rosto desconfiado de Narcissa Malfoy. "Mãe," ele cumprimentou mantendo o tom de voz equilibrado e o rosto despido de qualquer emoção. "Aconteceu alguma coisa?"
"É bom ver você também," Narcissa reprovou analisando-o atentamente. "E por acaso eu preciso de alguma desculpa para querer ver meu filho?"
"Claro que não. Mas meu elfo mencionou algo sobre a senhora estar um tanto impaciente."
"Se você estivesse tentando falar com o seu filho desde a noite anterior, também estaria impaciente às dez horas da manhã."
Internamente, Draco repreendeu-se por não ter dado ordem aos elfos para oferecerem alguma desculpa plausível sobre sua ausência. Externamente, limitou-se a suspirar e sentar-se em frente à lareira.
"Estou um pouco grandinho para a senhora ficar cuidando da minha vida, não acha?"
"Ah, Draco... Você nunca será grande o bastante," ela meneou a cabeça. "Mas vai entender isso com o tempo. Logo será Scorpius quem vai desdenhar da sua preocupação e então você terá uma ideia do que tenho passado durante todos esses anos."
Draco conteve a vontade de rolar os olhos diante da dramatização.
"Então. O que é tão importante?" Draco instigou-a, porém Narcissa limitou-se a arquear uma sobrancelha.
"Não vai me dizer onde estava?"
"Não."
Eles se encararam por algum tempo num familiar jogo de influências, porém Draco se manteve estoico até que Narcissa desistiu.
"Chamei ontem à noite porque estava com saudades do meu neto," ela encolheu os ombros. "Posso vê-lo agora?"
"A senhora sabe que ele não está."
"Aparentemente, ele nunca está," Narcissa desdenhou.
Draco teve que respirar fundo para não perder a paciência. Era sempre assim. Narcissa sabia que Scorpius passava uma semana na casa dos Greengrass com a mãe e outra com o pai, mas insistia em aparecer justamente quando o garoto não estava, como forma de acusá-lo de deixar o filho com a mãe por tempo demais e distanciá-lo dos avós paternos. Ela achava que o estava punindo com aquela atitude quando, na verdade, estava apenas privando a si mesma de passar mais tempo com o neto, na opinião de Draco. E se ela pretendia fazer com que ele se sentisse culpado, sua estratégia estava totalmente equivocada.
"Ele esteve aqui até o último domingo," Draco respondeu por fim. "E estará de volta no próximo. Portanto sugiro que tente novamente na próxima semana."
"Isso é tão humilhante..." Narcissa resmungou. "Ter que marcar hora para falar com meu neto, enquanto aquela desclassificada da Evelyn Greengrass passa semanas com ele!"
"Ninguém obrigou a senhora e o papai a se mudarem. Se vocês tivessem ficado, a senhora também teria uma semana com seu neto."
Não que Draco tivesse ficado triste quando seus pais se mudaram, logo que Draco se casou com Astoria. A mansão era grande o bastante para os quatro sem que eles precisassem ficar se trombando o tempo todo, porém Draco sabia que não teria liberdade nenhuma sob o mesmo teto que os pais e provavelmente seu casamento teria durado muito menos caso eles tivessem permanecido.
"Uma semana não seria suficiente para fazer Scorpius desaprender todas as malcriações que os Greengrass o incentivam a fazer." Narcissa crispou o lábio superior em desdém. "E não é como se sua ex-mulher não tivesse condições de arcar com as despesas de morar sozinha depois de se apropriar de metade da fortuna da família. Se você tivesse ao menos me ouvido, Scorpius estaria..."
"Se eu a tivesse ouvido, não teria sequer me casado com Astoria e Scorpius não existiria," Draco impacientou-se, satisfeito ao ver a mãe fechar a boca apesar de manter o queixo altivamente erguido.
"Por falar na sua ex-mulher..." Astoria comentou e Draco esfregou os olhos, preparando-se para o que viria a seguir. "Soube que ela não está perdendo tempo, sendo vista com o jovem herdeiro dos Blishwick e com o próprio Harry Potter!"
"Ela é solteira agora, pode fazer o que bem entender."
"Ela é divorciada. E mãe do herdeiro dos Malfoy. Devia se dar mais ao respeito. Além do mais, duvido que Potter fosse querer ficar com a sua sobra..."
"Mãe..."
"... Ela só vai conseguir ficar mais falada do que já é, recebendo cavalheiros desse jeito..."
"Basta, mãe," Draco elevou a voz num tom gélido e cortante. "Não admito que fale de Astoria desse jeito."
"Quem me dera fosse somente eu, querido..." Narcissa não pareceu perturbada com a reação do filho, entretanto. "Isso é o tipo de coisa que a sociedade bruxa inteira comenta. Se os rumores chegaram até mim na França, você pode começar a ter uma ideia. Felizmente, você precisaria de muito mais que um divórcio para ficar mal falado e nunca agradeci tanto pela nossa cultura falocentrista. Na verdade, recebo correspondências quase diariamente de famílias respeitáveis com filhas solteiras que adorariam estreitar os laços com a nossa. Posso mencionar alguns nomes para você..."
"Não perca seu tempo," Draco cortou-a secamente. "Já disse que não pretendo me casar novamente."
"Você é tão novo ainda..." Narcissa meneou a cabeça. "Entendo que esteja encantado com a ideia de estar solteiro novamente. Aproveite sua liberdade, querido. Vai se cansar dela logo, logo."
Draco percebeu que a mãe havia concluído que o filho passara a noite na farra, mas achou melhor não corrigi-la. Que ela pensasse o que quisesse.
"Manterei isso em mente," Draco disse, deixando o cansaço transparecer na própria voz. E pensar que a Dra. Rost vivia encorajando-o a falar mais com seus pais. Se ao menos ela soubesse...
.oOo.
Draco visitou Potter na sexta-feira e no sábado após o jantar, porém não passou a noite, uma vez que o Auror avisou que teria que trabalhar durante todo o final de semana. Eles não haviam trocado muitas palavras naquelas ocasiões, utilizando-se dos cinco sentidos para se comunicarem durante seus breves e intensos encontros.
No sábado, Draco avisou que não poderiam se encontrar na semana seguinte, já que Scorpius estaria aos seus cuidados. Quando Scorpius chegou, porém, no domingo, todo empolgado por ser o aniversário de Harry Potter, Draco amaldiçoou a si mesmo por ter se esquecido.
Durante todos aqueles anos após a guerra, o último dia de julho era um dia deprimente para Draco, que imaginava o Salvador do Mundo Bruxo rodeado por pessoas que o amavam e com quem ele se importava, sem sequer se lembrar da existência de Draco Malfoy. No dia seguinte, o loiro ainda tinha que ler reportagens e mais reportagens sobre manifestações em toda a Londres Bruxa em homenagem ao Auror. No ano anterior, aquele dia havia se provado a maior das suas provações, uma vez que eles tinham acabado de se separar. Porém não havia desculpas para Draco deixar de mandar um recado para Potter naquele dia.
Por isso, pela primeira vez ofereceu-se para escrever a carta de Scorpius. Depois de escrever as palavras ditadas pelo filho, Draco instruiu o menino a assinar como "Scorpius Malfoy e Papai" em sua caligrafia infantil e irregular.
"Ele vai adorar isso!" Scorpius falou inocentemente e eles enviaram o presente que o próprio Scorpius havia escolhido, uma caixa dos bombons preferidos do garoto.
Quando a resposta chegou, àquela noite, Draco tentou não parecer tão ansioso quanto o filho ao abrir o pergaminho selado.
'Muito obrigado pelo presente, Scorpius. Foi o melhor que já recebi, mas não conte para ninguém ou meu afilhado vai ficar enciumado. Agora sei o que você quis dizer com 'os melhores bombons do mundo'. Eles realmente são maravilhosos! Mas, melhor ainda que o presente foi vocês terem se lembrado. Obrigado, de todo meu coração. Harry.'
Havia ainda um Post Scriptum que Draco optou por não ler em voz alta. Dizia simplesmente 'Senti sua falta', mas de algum modo Draco soube que aquelas palavras não eram direcionadas ao seu filho.
.oOo.
Por mais que Scorpius fizesse com que os dias da semana voassem, as noites se provaram dolorosamente lentas e Draco simplesmente não aguentou a espera. Convidou Harry na quarta-feira, depois de ter colocado o filho na cama. Para tanto, reabriu a lareira da sala de estar mais próxima do seu quarto dando instruções específicas para que Harry evitasse a sala de visitas e os demais quartos do segundo andar.
Potter não pareceu muito animado com a perspectiva de ter que se esgueirar até o quarto do loiro, mas não reclamou e foi embora antes de amanhecer, utilizando-se da mesma lareira. Entretanto, antes que pudessem fazer daquilo uma rotina, Potter resolveu surpreendê-lo com um convite para jantar em Grimmauld Place na semana que se seguiu.
O convite enviado via coruja no meio da tarde dizia que não seria nada muito elaborado, por isso Draco não se preocupou em vestir-se para a ocasião. Levou dois tipos de vinho, já que Potter não se incomodara em adiantar o menu.
"Ah, não precisava," Harry falou ao recebê-lo, antes de fechar a Rede de Flu, como era de praxe. "Mas, já que você trouxe... Venha!"
"Harry..." Draco chamou antes que o moreno se afastasse. "Somos só nós dois, certo?" perguntou, só para garantir, ao que o moreno piscou, confuso.
"Claro. Quem mais?"
"Bem, você disse algo sobre seus amigos saberem sobre nós," Draco elaborou ligeiramente impaciente.
"Ah, sim..." Ele sorriu. "Mas eu teria avisado caso os chamasse, sabe?"
"Não, eu não sei," Draco torceu o nariz.
"Não se preocupe, Draco. Acho que está um pouco cedo para tentarmos juntar vocês. Quem sabe numa próxima?"
"Longe de mim apressá-lo, Potter."
Harry riu e Draco seguiu-o até a cozinha sentindo-se mais aliviado, porém não totalmente.
"Sente-se," Harry ofereceu sacando a varinha para levitar algumas travessas até a mesa, que já estava parcialmente posta. "Coloquei pratos simples, mas se você fizer questão tenho um aparelho de jantar dos Black..."
"Assim está ótimo." Draco abriu o vinho tinto ao checar as travessas de assado e serviu duas taças. "Não foi trabalhar hoje?"
"Fui. Mas consegui sair mais cedo, por isso fiz o convite. Senão não teria tempo de cozinhar. E sei que não precisava fazer isso," ele completou, interpretando corretamente a contrariedade de Draco. "Mas não fiz por obrigação. E fico feliz que você tenha aceitado."
Draco evitou responder, servindo-se de carne, legumes cozidos e yorkshire pudding. Havia ensaiado recusar o convite por várias vezes durante as últimas horas, mas se segurara a tempo. Quando aceitara voltar a se encontrar com Potter, sabia que estava aceitando embarcar num relacionamento, ainda que o moreno estivesse cumprindo sua palavra sobre não pressioná-lo. Pelo menos até aquele momento. Draco dissera para si mesmo que só ficaria para aquele jantar caso os amigos de Potter não tivessem sido convidados e se contentava em estar cumprindo com sua palavra, por ora.
Harry puxou conversa sobre as pesquisas de Draco e persistiu mesmo diante das primeiras respostas monossilábicas do seu convidado. Este logo se viu com a língua mais solta, apesar de que o álcool provavelmente estivesse sendo mais eficiente que a persistência de Potter. Draco contou sobre sua dificuldade em encontrar alguns livros raros e Harry se mostrou bastante interessado a respeito dos títulos, dizendo que conhecia algumas pessoas que poderiam ajudá-lo com aquilo. Draco duvidava que tais pessoas se mostrariam dispostas caso seu nome fosse mencionado, mas achou melhor não discutir a respeito.
Quando terminaram de jantar, Harry convidou-o para irem até a sala e eles levaram a segunda garrafa de vinho. Então foi a vez do auror falar sobre sua própria vida que aparentemente resumia-se ao seu trabalho ultimamente. Ele descreveu alguns dos colegas do Quartel General dos Aurores e as políticas que norteavam os relacionamentos entre eles e os demais departamentos. Draco ficou feliz ao descobrir que a ex-namorada do moreno não era mais uma Auror, tão feliz que puxou o moreno para um beijo um tanto desajeitado, ao que Potter riu e pediu licença para lhe lançar um Enervate.
Draco sentiu um pouco da névoa se desvanecer dos seus pensamentos, mas continuava se sentindo inebriado pela proximidade do outro.
"Você nunca fica bêbado?" Draco perguntou percebendo a irritação na própria voz.
"Claro que fico." Ele lançou o feitiço em si mesmo e seus olhos pareceram subitamente mais focados conforme ele puxava Draco para outro beijo mais exigente. Eles estavam agarrando as roupas um do outro no sofá quando algo prateado assustou-os.
"Merda," Draco se levantou de um pulo, apontando a varinha para o cão prateado que pairava a frente de ambos, porém Harry abaixou sua varinha, encarando o animal fantasmagórico.
"Oi! Harry!" Disse o cachorro na voz de Ronald Weasley. "Tem algum problema com a sua rede de Flu? Estou tentando falar com você há horas!"
"Droga..." Harry falou, arrumando os óculos tortos.
"O que foi isso?" Draco perguntou, ainda mantendo a varinha firme na mão, apesar de o cão ter se dissipado no ar depois de dar seu recado.
"É o Patrono de Ron. É um velho costume da Ordem da Fenix," Harry explicou, cansado. "Draco, sinto muito. Tenho que falar com Ron ou ele vai dar um jeito de mandar o Quartel General inteiro a minha procura..."
"Não é culpa sua, Potter," Draco cortou-o, já se afastando. "Estarei no andar de cima."
Potter soltou o ar dos pulmões e Draco ouviu o rugir das chamas enquanto subia as escadas até o quarto do moreno, abrindo os primeiros botões da camisa para ficar mais à vontade. Deitou-se na cama do moreno e aspirou o cheiro dos lençóis, fechando os olhos e tentando não pensar no quão patético era aquilo.
"Sinto muito," a voz de Harry sobressaltou-o e Draco levantou a cabeça para ver o moreno entrar e fechar a porta.
"Alguma coisa errada?" Draco fez menção de se levantar, mas Potter chutou os próprios sapatos e engatinhou sobre ele, forçando-o a se deitar novamente.
"Não, não... Ron queria jogar conversa fora e ficou preocupado quando não conseguiu falar comigo. Mas eu disse a ele que tinha companhia e de repente ele tinha um monte de coisas para fazer." Harry se abaixou até seus narizes quase se tocarem, o rosto já livre dos óculos. "Onde é que estávamos mesmo?"
"Acredito que você estava sugando a minha língua," Draco respondeu, a respiração subitamente entrecortada diante da imensidão daqueles olhos verdes.
"Hmmm. Assim?" Harry abaixou-se, finalmente, encaixando suas bocas de modo a alcançar mais fundo enquanto terminava de desabotoar a camisa do loiro e passeava as mãos por seu peito e pescoço, acariciando seus mamilos com os polegares até que eles ficassem rígidos.
Draco murmurou sua aprovação contra a boca do outro, que logo passou a beijar a área mais sensível do seu pescoço, próximo à orelha.
"Você não está mais usando o colar de Luna," Harry comentou.
"Ele não funcionou quando eu mais precisava," Draco falou, antes que pudesse filtrar as próprias palavras e Harry levantou os olhos para encará-lo.
"Você está se saindo muito bem sem ele," Harry sussurrou alguns segundos depois.
Harry estava inspirado àquela noite. Ou pelo menos mais que o normal. Ele fez Draco gemer e implorar, xingar e amaldiçoar antes de fazê-lo ficar de quatro e tomá-lo vigorosamente, murmurando roucamente em seu ouvido o quanto gostava quando Draco falava palavras sujas. Quando terminaram, Draco estava exausto, mas satisfeito, sentindo um calor no peito que nada tinha a ver com a intensidade do seu orgasmo.
"Você não fica dolorido?" Harry perguntou debruçado sobre ele, segurando a cabeça com um dos braços apoiado na cama.
"Um pouco," Draco deu de ombros, a respiração ainda um pouco alterada. Pensou em dizer que ficaria especialmente dolorido na manhã seguinte, mas não queria desencorajá-lo a repetir a dose. "Mas não o suficiente para me arrepender no dia seguinte. Só algo para eu me lembrar."
Harry sorriu e seus olhos pareceram ainda mais brilhantes.
"Você se importaria em ficar por cima algum dia desses?" Ele perguntou tão casualmente que Draco demorou a assimilar a implicação daquilo.
"O quê?" Draco perguntou apenas para ter certeza de que não era algum tipo de brincadeira.
"Estou curioso." Harry deu de ombros.
"Eu gosto de ser passivo, Potter. Você não tem que..."
"Eu sei, eu sei..." O moreno rolou os olhos. "É óbvio que você gosta. Por isso estou perguntando se você se importaria."
Foi a vez de Draco de dar de ombros, apesar de a proposta lhe causar sensações ambíguas. Imaginava que seria interessante, mas ao mesmo tempo tinha medo de travar ao se lembrar das vezes em que se forçara a ter relação com Astoria.
"Acho que podemos tentar."
O moreno pareceu satisfeito com a resposta, levando a mão até o peito de Draco e traçando linhas imaginárias nele.
"Antes eu me perguntava se você tinha cicatrizes daquele nosso duelo no banheiro da Murta que Geme..."
Draco engoliu em seco ao se lembrar do episódio.
"Snape me curou antes que eu recuperasse a consciência." Draco percebeu o pesar na própria voz. Caso tivesse a chance, provavelmente teria pedido para manter as cicatrizes.
"Fico feliz por isso." Harry deu um último beijo em seus lábios antes de limpá-los e apagar a luz.
Draco suspirou e se deixou relaxar embaixo dos lençóis, sentindo o calor reconfortante que emanava do corpo de Harry, próximo ao seu. Estava quase dormindo quando se assustou, abrindo os olhos de repente. Percebeu que estivera tenso durante toda a noite, esperando pelo momento em que algum deles arruinaria tudo causando outra discussão, porém aquilo não havia acontecido.
"Shhh..." Harry deu tapinhas em seu peito, provavelmente imaginando que Draco tivera outro pesadelo. "Está tudo bem, Draco. Pode dormir. Estou de folga amanhã," ele murmurou, a voz carregada de sono, e Draco se permitiu relaxar novamente.
.oOo.
Na manhã seguinte, Draco estava no banheiro da suíte de Potter terminando de se arrumar quando ouviu batidas à porta.
"Está aberta," ele falou e encarou o reflexo de Potter através do espelho.
"Ei," Potter sussurrou, passando a mão nervosamente pelos cabelos ainda molhados do banho.
"Que foi? Por que você está sussurrando."
"Teddy está no cômodo ao lado."
"O quê?" Draco virou-se para encará-lo, incrédulo.
"Shh... Sinto muito," Potter continuou sussurrando exasperadamente. "Ele não deveria ter chegado antes das dez, mas Andrômeda disse que tinha um compromisso agora de manhã e eu não poderia negar sem ter que dar explicações. Mas me dê alguns minutos. Vou mantê-lo na cozinha, assim você pode sair sem ser notado. Draco... sinto muito..."
Draco estava prestes a desdenhar das desculpas do outro quando eles ouviram a porta do quarto se abrir. Potter fechou a porta do banheiro rapidamente.
"Harry?" chamou o garoto cuja voz estava mudando, nem aguda nem grave e ligeiramente desafinada.
"Ei, Teddy," veio a voz abafada do moreno e Draco xingou enquanto olhava ao redor e cogitava se esconder atrás do box, caso necessário. Se Potter continuasse soando tão artificialmente animado, acabaria levantando suspeitas no garoto.
"Você estava falando com alguém?" A pergunta do garoto soou desconfiada.
"Ahm..." Potter pareceu pensar por um momento. "Sim! Com Kreacher. Ele deixou algumas roupas sujas no banheiro e eu quase tropecei. Ei, você já tomou café da manhã?"
"Tomei."
"Bem, eu ainda não tomei. Mas tenho certeza que você não rejeitaria um pouco de torrada com feijões, rejeitaria?" Draco ouviu passos pelo quarto indicando que Potter se afastava em direção ao corredor.
"Claro que não... Mas eu bem que preferiria suas panquecas... Você faz?" O menino soou empolgado.
"Só se você me ajudar... Venha."
"Legal! Vovó nunca me deixa chegar perto da cozinha dela. Ela diz que minha mãe a deixou traumatizada... O que ela quis dizer com isso?"
A risada de Harry e sua resposta foram abafadas pela porta do quarto se fechando e Draco se permitiu respirar aliviado. Então amaldiçoou Potter, seu afilhado e a si mesmo por ter se colocado naquela situação degradante de ter que se esconder como um amante surpreendido pelo retorno antecipado do marido traído. Marcou cinco minutos no relógio antes de sair, tomando cuidado para não fazer barulho. Até aquele momento, não tinha reparado em como o assoalho daquela casa rangia. Acabou tendo que lançar um Muffiato nos próprios pés para abafar qualquer ruído.
Das escadas, podia ouvir a conversa animada de Lupin e Potter mesclada com o barulho de panelas batendo. Quando estava na metade das escadas, ouviu algo metálico ser derrubado seguido por um breve silêncio, durante o qual Draco paralisou, medindo a distância até a sala.
"Não acredito nisso!" Veio a voz de Potter, que parecia conter a própria irritação.
"Desculpa, Harry! Escorregou!" Lupin soou arrependido.
"É claro que escorregou! Não acabei de falar para você segurar com as duas mãos?"
Draco recomeçou a andar rapidamente, aproveitando a discussão, porém ainda não atingira a sala quando ouviu Lupin novamente.
"Sinto muito, Harry... Bem, talvez seja melhor eu esperar no meu quarto..."
"Não, Teddy, volte aqui... Teddy!"
Mas era tarde demais. O garoto já havia saído para o corredor e estacou ao pé da escada, arregalando os olhos para Draco.
"Teddy..." Harry alcançou-os, usando seu avental e um guardanapo numa das mãos. Então ele também paralisou.
"Potter," Draco falou fechando a cara e terminando de descer os degraus tranquilamente. "Seu elfo disse que você estava no andar de cima."
"Ahm... Hmm... Ele já não está batendo muito bem da cabeça, sabe." Harry olhou de Draco para o afilhado.
"O que ele está fazendo aqui?" Lupin dirigiu-se ao padrinho como se Draco não pudesse ouvi-lo.
"Ele... Ahm..."
"Vim buscar aquele livro que você ficou de me emprestar, Potter," Draco continuou e nem precisou fingir estar irritado. "Eu disse que precisaria para esta manhã, não disse?"
"Claro, Claro..." Harry desamarrou o avental e arremessou-o para dentro da cozinha antes de olhar para o garoto, que permanecia encarando Draco com os olhos estreitados, os cabelos num tom de vermelho vivo. "Teddy, por que você não vai para o seu quarto terminar de arrumar suas coisas? Quando o café da manhã estiver pronto eu chamo, está bem?"
"Tudo bem..." Lupin concordou a contragosto e subiu as escadas de dois em dois degraus, passando por Draco sem encará-lo.
Uma porta do andar de cima se fechou com estrondo e Draco encarou a expressão contrita do seu anfitrião.
"Se você disser que 'sente muito' de novo, Potter, juro que nunca mais apareço aqui."
Potter suspirou deixando os ombros caírem e foi ao seu encontro, entrando na sala e fechando a porta.
"Maldição..." Potter amaldiçoou passando as mãos pelos cabelos.
"Ele ficou desconfiado, não ficou?"
"Não é à toa que ele foi parar na Corvinal," Harry falou sarcástico. "Ele sabe que tem alguma coisa mal contada nessa história, mas duvido que desconfie do que realmente aconteceu. De qualquer forma, ele não vai sair por aí espalhando histórias, eu garanto."
Draco não tinha tanta certeza daquilo e sua incredulidade devia ter transparecido em sua expressão, já que Harry sorriu pousando uma mão asseguradora em seu ombro.
"Não se preocupe."
Eles se encararam por algum tempo e Draco percebeu que Harry tinha farinha no nariz. Teve que se conter para não dar um passo para frente e limpar seu rosto, ou beijá-lo. Não poderiam correr ainda mais riscos. Felizmente o moreno parecia ser da mesma opinião, pois limitou-se a dar um aperto no seu ombro antes de soltá-lo.
"Amanhã?" Harry perguntou.
"Veremos," Draco respondeu e deu-lhe as costas. Jogou Pó de Flu na lareira e avançou para as chamas.
.oOo.
"Por favor, papai... Porfavorporfavorporfavor..."
"Scorpius." Draco falou em tom de aviso e o menino deixou os ombros caírem, derrotado. "Você recolheu seus brinquedos?"
"Não, mas..."
"E alimentou sua Bola de Natal?"
"Sim!" Scorpius estufou o peito, porém Draco não se deixou enganar.
"Quando?" Draco perguntou e Scorpius tornou a desanimar.
"Ontem."
"Então vá fazer suas tarefas antes de me pedir alguma coisa."
"Isso quer dizer que você vai pensar a respeito?"
"Scorpius," daquela vez foi Astoria quem falou, pousando sua xícara de chá na mesinha de centro, "não abuse da paciência do seu pai. Ande logo."
"Está bem, está bem..." Scorpius falou e deixou a sala, levando seu mini-pufoso consigo.
"Draco..."
"Não comece você também, Astoria," Draco avisou pegando o jornal e se escondendo atrás dele.
"Mas já faz tempo que ele está pedindo por isso e as férias terminam em duas semanas..."
"Então por que você não convida o garoto, se está tão preocupada? Scorpius não fica só na minha casa, sabe?"
"Sim, mas..." Astoria suspirou. "Você sabe que estou na casa da minha mãe como hóspede, ainda que ela insista que a casa também é minha. Eu já a havia convencido a aceitar, mas então Daphne fez o favor de abrir aquela boca enorme e dizer que o pai do menino era um lobisomem, então você já pode imaginar o que aconteceu." Ela soou amarga.
"Eu honestamente não entendo como você aguenta isso," Draco falou irritado. Apesar de não concordar com a maior parte da opinião de Narcissa, tinha que admitir que não aprovava o fato de Astoria ter voltado para a casa da mãe quando poderia muito bem estar morando sozinha com Scorpius num apartamento confortável, num bairro nobre de Londres.
"Melhor ter a companhia dos meus pais do que viver sozinha novamente, obrigada," Astoria retorquiu sarcástica e Draco sentiu a alfinetada quase que fisicamente. Astoria tinha passado a maior parte do casamento de ambos sozinha naquela mansão imensa por sua causa. "De qualquer forma, o menino é seu primo," ela continuou.
"De segundo grau," Draco completou, ao que Astoria rolou os olhos.
"Que seja. Ele é seu parente. Qual é o problema em chamá-lo para passar uma tarde? Vai dizer que você se importa com essa história da família da sua mãe ter cortado relações com a sua tia?"
"Claro que não," Draco defendeu-se. "Mas com que cara vou chegar agora para minha tia - com quem nunca conversei, aliás - e pedir que ela deixe o neto passar uma tarde comigo?"
"Ora, você pode muito bem fazer o convite por intermédio de Harry, se é isso que o está incomodando."
Draco abaixou o jornal para encará-la com uma sobrancelha arqueada.
"E desde quando ele é Harry para você?"
"Desde o nosso último encontro, onde trocamos juras de amor. Eu não contei para você?" Ela deu um tapa no braço do ex-marido. "Não fuja do assunto, Draco. Scorpius ficaria muito feliz em ver o primo, você sabe disso. E você pode ter uma desculpa para passar uma tarde com Harry."
"Ah, seria mesmo muito divertido," Draco zombou. "Nós poderíamos nos sentar, conversar e rir juntos, como os velhos amigos que somos. Não seria nem um pouco desconfortável."
"Tudo bem, então não faça isso por si mesmo. Faça somente por Scorpius!"
Draco fungou, mas acabou cedendo.
"Está bem. Vou falar com Potter."
"Isso!"
Draco e Astoria voltaram-se para o corredor, de onde viera a comemoração de Scorpius e o loiro empalideceu.
"Scorpius!" Astoria chamou a atenção do filho. "Quantas vezes eu já disse que é falta de educação escutar a conversa dos outros!"
"Desculpe, mamãe." Scorpius surgiu do corredor e correu até o pai, atirando-se em seu pescoço. "Obrigado, papai! Você é o melhor pai do mundo! Agora prometo que vou guardar meus brinquedos e dar comida para Amora!"
O garoto correu de volta para o corredor, sua saída tão abrupta quanto a entrada, e Draco só percebeu o quanto seu próprio choque estava estampado em suas feições quando Astoria riu.
"Não se preocupe. Você não disse nada incriminador."
Draco xingou sob a respiração.
.oOo.
Potter aprovou a ideia após se certificar de que a avó de Teddy não se opunha à visita, mas avisou que não teria nenhuma folga naquela semana, por isso teriam que deixar para a próxima. Mais tarde, naquela mesma quinta-feira, o auror chamou-o via Flu novamente para avisar que havia encontrado uma maneira. Andromeda Tonks se dispusera a levar o neto pela manhã e Potter passaria no final da tarde para buscá-lo, após o expediente.
A princípio, Draco ficou apreensivo quanto à visita de sua tia, mas a mulher se mostrou bastante simpática e em nenhum momento demonstrou qualquer tipo de ressentimento pelo histórico familiar. Ela recusou educadamente o convite de Draco para um chá e admoestou o neto a se comportar, instruindo o sobrinho a avisá-la imediatamente caso o garoto o desobedecesse.
Entretanto, Lupin não ousou desobedecê-lo. Na verdade, o garoto o encarava de modo desconfiado e temeroso toda vez que Draco se aproximava e por vezes o chamara de Professor. Draco não se deu ao trabalho de corrigi-lo ou encorajar qualquer tipo de liberdade por parte do menino, preferindo o respeito pelo temor à falta de respeito. Potter havia garantido que o afilhado não tocara no assunto do quase-flagrante da última semana, mas Draco às vezes surpreendia o garoto encarando-o com olhos astutos e se perguntava se Harry não estava sendo ingênuo ao subestimá-lo.
Assim que chegou, Lupin se mostrara bastante contrariado, como se estivesse fazendo um favor aos adultos, ficando de babá de um pirralho de cinco anos. Afinal, a diferença de idade entre eles era grande e um adolescente de treze anos dificilmente se daria bem com alguém que não fosse da sua idade. Scorpius, por outro lado, estava tão deslumbrado com seu visitante que sequer pareceu perceber a atitude esnobe do primo e acabou por amolecê-lo. Logo Scorpius estava fazendo com que Lupin o seguisse pela mansão enquanto apresentava os cômodos como um perfeito anfitrião.
Draco deixou-os à vontade depois que algumas regras foram estabelecidas: nada de voar sem sua presença, nada de correria ou gritos pela casa. Algumas alas da mansão foram expressamente proibidas e outras somente eram permitidas sob a supervisão atenta de um elfo doméstico. Os horários das refeições deveriam ser respeitados e Draco inspecionaria suas mãos pessoalmente antes de permitir que se sentassem à mesa.
O loiro não estava acostumado com aquela situação e viu-se preocupado com a responsabilidade que caiu sobre seus ombros. E se Lupin fizesse alguma brincadeira de mau gosto com Scorpius? E se algo acontecesse ao rapaz enquanto ele estivesse sob seu teto? Draco não conseguiu se concentrar em seus estudos durante a maior parte da manhã, acompanhando as brincadeiras dos dois meninos de uma distância segura. Lupin estava deslumbrado com as proporções da mansão e Scorpius estava deslumbrado com as habilidades do primo de mudar a própria aparência, imitando animais. As brincadeiras pareceram bastante inocentes, portanto Draco se permitiu relaxar um pouco.
Em dado momento, depois de se distrair por alguns minutos com o livro que lia, Draco aguçou os ouvidos e percebeu algo fora do comum. Ouviu uma voz aguda no cômodo vizinho, onde os dois meninos estavam jogando Snap Explosivo alguns momentos atrás. A princípio, Draco pensou ser algum elfo. Pelo menos até distinguir as palavras.
"...aqui, Scorpius, seu lindo! Vou pegar você de jeito, você vai ver!"
"Não!" Veio o grito desesperado de Scorpius. "Fique longe de mim!"
Draco correu até a porta do cômodo ao lado e abriu-a, fazendo com que dois pares de olhos voltassem em sua direção. Scorpius estava encurralado num canto do cômodo, de olhos arregalados, atrás de um sofá, de onde uma menina de cachos dourados se debruçava tentando pegá-lo.
"Mas que diabos..." Draco exclamou, porém a menina transformou-se diante dos seus olhos, voltando às feições conhecidas de Lupin, que soltou Scorpius e afastou-se rapidamente, espalmando as mãos.
"Foi ele quem provocou," o rapaz se justificou em seu timbre desafinado. "Ele disse que eu não conseguiria!"
Então Scorpius explodiu em risadas e Draco respirou fundo, tentando recuperar a calma.
"Eu disse para vocês não gritarem, não disse?"
"Sinto muito, papai. Não vai acontecer novamente," Scorpius falou se esforçando para ficar sério, mas ameaçando voltar a rir toda vez que olhava na direção do outro.
"E nada de fechar as portas dos cômodos," Draco adicionou terminando de abrir a porta, cuja maçaneta ainda segurava com força. "Entendido?"
"Sim, senhor," Lupin assentiu com seriedade, ainda parecendo um pouco envergonhado pelo flagrante anterior.
"Ei, Teddy! O que acha de uma partida de quadribol?" Scorpius convidou e guiou o primo para fora, assegurando-o de que tinha uma vassoura extra para emprestar.
No instante seguinte, Draco viu-se sozinho com Effy, o elfo que tomava conta de Scorpius desde que ele era bebezinho.
"Mestre Draco não deve se preocupar. Effy está de olho. O menino é levado, mas tem bom coração."
Draco suspirou.
"Está bem, Effy. Me avise imediatamente caso veja algo suspeito."
"Sim, Mestre Draco. Com licença, Mestre Draco." Ela desaparatou com um pop e Draco tentou voltar a se concentrar em sua leitura.
O almoço foi outra provação. Os dois garotos haviam se limpado a contento depois das brincadeiras ao ar livre e se apresentaram pontualmente à sala de jantar, porém Lupin aparentemente não tinha ideia do que fazer com seus talheres.
"Para quê tudo isso?" Ele perguntou examinando sua faca de peixe como se nunca tivesse visto algo parecido na vida.
Entretanto, Scorpius pareceu se divertir com aquilo.
"Não se preocupe. Olha só, é bem simples..." Ele tentou explicar para quê servia cada item, como se não tivesse conseguido permissão para utilizar o aparelho de jantar havia apenas alguns meses, após algumas exaustivas aulas de etiqueta. Depois de algum tempo, Scorpius acabou desistindo diante da expressão confusa do primo. "Apenas faça o que eu fizer," ele acabou dizendo e Draco conteve a vontade de corrigir a maneira como o filho mantinha os cotovelos excessivamente altos. Aquilo certamente arruinaria sua tentativa de se passar por maduro.
A dica funcionou apenas até Lupin se atrapalhar ao cortar sua carne e fazer com que metade dos legumes do seu prato voassem pela mesa. Draco teve que segurar um palavrão enquanto Scorpius se acabava de rir e Lupin não se decidia entre ficar envergonhado ou juntar-se às risadas do mais novo.
"Sinto muito," Lupin disse por fim, fazendo menção de recolher a comida espalhada.
"Deixe isso comigo," Draco atalhou, retirando a varinha das vestes e limpando a sujeira da mesa. "Scorpius, já chega. Sr. Lupin, você precisa de ajuda com sua comida?"
"Não, senhor," Lupin abanou a cabeça corando.
"Ótimo. Scorpius!" Draco voltou-se para o filho, que ainda ria a ponto de quase cair da cadeira. Os talheres e a louça começaram a trepidar ruidosamente.
"Legal!" Lupin exclamou, observando enquanto as taças de suco de abóbora começaram a flutuar.
"Scorpius!" Draco elevou o tom de voz e as risadas pararam abruptamente, fazendo com que a louça se aquietasse e as taças caíssem. "Maldição!" Ele sumiu com o conteúdo das taças com outro gesto de varinha antes que o suco se espalhasse pela mesa.
"Ah... Desculpa, papai." Foi a vez de Scorpius corar.
"Ei, isso não foi nada," Lupin dirigiu-se ao primo em tom consolador. "Uma vez eu fiz o caldeirão de sopa de beterraba virar no colo da vovó. Odeio beterraba."
"Legal!" Scorpius exclamou, já totalmente curado do seu embaraço.
Draco pressionou a ponte sobre o nariz e implorou por paciência. Seria uma longa tarde pela frente.
.oOo.
Quando a lareira explodiu em chamas verdes, Draco consultou o relógio de pulso.
"Está atrasado, Potter," ele constatou antes de fechar o livro que lia e encará-lo.
"Sinto muito." O moreno passou a mão pelos cabelos, sem graça. "Esta semana tem sido bastante movimentada no QG".
"Sente-se," Draco falou ao que Potter se acomodou na poltrona à sua frente. "Aceita um chá?"
"Adoraria," Potter devolveu no mesmo tom casual da pergunta, porém seus olhos se encontraram por tempo suficiente para que os pelos dos braços do loiro se arrepiassem e uma quantidade considerável do seu sangue se concentrasse em determinado ponto da sua anatomia. Potter parecia sofrer do mesmo mal, a julgar pela maneira como ele umedeceu os lábios, o verde dos seus olhos escurecendo rapidamente...
O momento foi quebrado pelo som distante de risos e Draco suspirou antes de convocar um elfo para servi-los.
"Então... Como foi o dia?" Potter perguntou, bebericando seu chá. Ele parecia cansado, apesar de tentar disfarçar suprimindo um bocejo.
"Por onde devo começar?" Draco perguntou sarcástico, ao que Harry gemeu, apesar de parecer divertido.
"Eu sei, eu sei... Teddy sabe ser maroto quando quer. Ou seja, a maior parte do tempo." Ele sorriu, encaixando melhor os óculos no rosto. "Onde é que eles estão, a propósito?"
"Brincando no jardim. Não se preocupe, eles estão sendo supervisionados."
"Bem, se você está dizendo para eu não me preocupar..." Potter espalmou as mãos e recostou-se melhor na sua poltrona, apoiando o calcanhar direito sobre o joelho esquerdo e se desculpando pelo bocejo que não conseguiu conter daquela vez. "Na verdade, fiquei surpreso por ele ter durado a tarde toda aqui. O que foi que ele aprontou?"
"A pergunta correta é: o que foi que ele não aprontou?" Draco rolou os olhos. "Eu achava que Scorpius era hiperativo até esta manhã. Lupin parece estar constantemente sob o efeito de uma poção energética. E não sei qual é a graça, Potter."
"Desculpa, desculpa!" Harry tentou controlar o riso. "Mas o fato de você achar que o Scorpius é hiperativo é muito engraçado. E olha que você ainda não viu Teddy depois de tomar refrigerante ou comer chocolate. O que mais ele aprontou?"
Draco não fazia ideia do que era aquele tal de refrigerante, mas achou melhor não perguntar. Contou sobre as peripécias dos dois garotos e, aos poucos, sua irritação foi cedendo, contagiado pela diversão do seu interlocutor. Quando contou sobre o episódio em que Lupin se transfigurara numa menina, Potter caiu na risada novamente.
"Ele já fez isso antes," o Auror explicou. "Andromeda recebeu uma coruja de McGonagall no começo do ano a esse respeito. Ele se disfarçou de menina para espiar o banheiro feminino, mas foi desmascarado quando abusou da sorte e tentou entrar no dormitório das meninas também. Achei que ele tinha aprendido sua lição depois de ter sido caçoado pelos colegas ao ser cuspido pelas escadas de acesso." Ele meneou a cabeça. "Ele definitivamente tem para quem puxar."
Draco franziu o cenho.
"Não imaginava que minha prima fosse tão levada."
"E quem disse que é dela que estou falando?"
Draco encarou o moreno por alguns longos segundos.
"Lupin?" Draco perguntou, incrédulo.
"O próprio!"
Harry pôs-se a contar histórias antigas sobre pessoas que já não existiam mais e Draco viu-se cada vez mais desconfortável. O fato de estarem falando sobre pessoas que tiveram suas vidas interrompidas quando ainda jovens por causa da guerra fez com que um gosto amargo subisse em sua garganta, apesar de Potter não demonstrar nenhuma tristeza ao relembrar todas aquelas histórias sobre seu próprio pai, seu padrinho e seus melhores amigos.
"Ei... Está tudo bem, Draco?" Potter perguntou, seu sorriso saudoso morrendo subitamente e Draco repreendeu a si mesmo por ter deixado transparecer seu tumulto interno.
"Claro." Draco consultou o próprio relógio. "Bem, a menos que você queira ficar para o jantar, acho que é melhor levar seu afilhado antes que minha tia apareça querendo saber o que eu fiz com o neto dela."
Potter suspirou, mas levantou-se.
"Obrigado pelo convite, mas é melhor eu ir..."
"Tudo bem." Draco se levantou sentindo um misto de alívio e decepção. "Por aqui, Potter."
"Está tudo muito diferente do que me lembro," Potter falou olhando ao redor antes de segui-lo. Draco tentou não pensar na única ocasião em que o moreno estivera na sua sala de estar, porém falhou miseravelmente.
"Minha mãe mandou redecorar a maior parte da mansão," Draco respondeu evitando encará-lo.
"Ela fez um ótimo trabalho."
Eles atravessaram a sala de estar até o hall e Draco levou a mão à maçaneta da grande porta de madeira maciça, mas foi impedido de abri-la pelas mãos de Potter, que o puxou para si. Draco cambaleou para trás diante da força do beijo do moreno, mas este segurou-o firmemente até que recuperasse o equilíbrio.
"Você ficou louco?" Draco murmurou, quebrando o beijo e olhando ao redor. Eles estavam parcialmente protegidos pelas paredes do hall, que impediriam a visão caso alguém aparecesse pela lareira e a única maneira de serem vistos era se algum elfo doméstico aparecesse ou alguma das crianças entrasse. Porém, ao mesmo tempo, Draco sabia que os elfos domésticos não representavam nenhuma ameaça e eles teriam tempo suficiente para se afastarem caso os meninos entrassem, por isso não ofereceu maior resistência quando Harry voltou a beijá-lo, daquela vez mais delicadamente, segurando seu rosto no lugar.
"Você me deixa louco, Draco," ele murmurou contra seus lábios e Draco deslizou as mãos pelas vestes do outro, agarrando um punhado do tecido conforme a língua de Potter explorava sua boca avidamente até que ambos precisaram se afastar em busca de oxigênio. "Eu queria poder..." Potter soltou o ar dos pulmões e encostou suas testas enquanto eles recuperavam o fôlego, deixando a frase incompleta flutuando entre ambos.
Draco debateu consigo mesmo sobre a prudência de incentivá-lo a terminar a frase, mas acabou não aguentando a própria curiosidade.
"O que você queria poder fazer?"
"Às vezes você parece tão distante." Harry afastou-se para encará-los nos olhos, uma expressão preocupada no rosto. "Queria poder saber o que se passa na sua cabeça nesses momentos. Ou então beijar e segurar você até me certificar de que você está aqui comigo de corpo e alma."
Draco abriu a boca para dizer que ele provavelmente não gostaria de saber tudo que se passava na sua cabeça, mas foi interrompido pelo som de risos do lado de fora. Eles se afastaram relutantemente.
"Posso vê-lo mais tarde?" Harry perguntou e Draco fez uma careta.
"Não hoje," ele disse, apesar do seu corpo todo implorar para que dissesse 'sim'. Não estava no melhor dos humores e o moreno também parecia estar precisando de algumas horas de descanso. Sabia que Potter faria questão de negar o próprio cansaço, portanto não ofereceu maiores explicações ao dar as costas a ele novamente. Alisou as próprias vestes antes de abrir a porta para o jardim.
O sol já se pusera e as lamparinas do quintal estavam acesas, atraindo algumas mariposas. Os dois meninos estavam brincando de esconder no labirinto de sebes e seus risos foram acompanhados pelo bater de asas de um dos pavões albinos que alçou voo com um canto indignado.
"Achei você!" Gritou Scorpius, em seguida.
"Essa não valeu!" Lupin reclamou. "Esse pavão estúpido me denunciou."
"Teddy!" Potter chamou.
"Harry!" Scorpius exclamou, entusiasmado, e eles ouviram o barulho de passos apressados.
"Potter, a gola da camisa," Draco murmurou por entre os dentes após uma rápida olhada para o moreno.
"O quê? Ah..." Ele alisou a gola da camisa bem a tempo. No instante seguinte, Scorpius saiu correndo detrás das sebes e abraçou uma das pernas do moreno, que riu. "Ei! É bom ver você também!"
"Que bom que você veio!" Scorpius exclamou. "Você tem que conhecer meu quarto. Papai, posso mostrar a casa para ele?"
Draco foi poupado de responder quando Potter se adiantou, abaixando-se para encarar o menor.
"Sinto muito, Scorpius. Hoje não posso ficar. Vim apenas buscar o Teddy." Scorpius começou a se lamentar, mas Harry não cedeu. "A avó de Teddy deve estar preocupada. E se ela ficar zangada não vai deixá-lo vir novamente. Você não quer isso, quer?"
Aquilo pareceu encerrar o assunto.
"Prometo que da próxima vez não saio antes de conhecer seu quarto, está bem, Scorpius?" Potter assegurou diante do bico do menor, que se suavizou diante da perspectiva de uma próxima visita.
Lupin finalmente juntou-se a eles arrastando os pés, as mãos enfiadas nas calças largas que deixavam à mostra boa parte da sua roupa de baixo. Draco imaginou se o garoto não sabia usar um cinto ou se era preguiçoso demais para colocá-lo.
"Vamos?" Potter chamou, ao que Lupin respondeu com um encolher de ombros entediado.
Draco acompanhou-os em silêncio de volta para o interior da casa rumo à lareira, sem realmente ouvir às tagarelices excitadas de Scorpius.
"... e Teddy disse que nunca tinha visto um campo de quadribol tão grande quanto o de Hogwarts. Ou tantos elfos domésticos, não é verdade, Teddy?" Ele falava, ao que Lupin respondeu com um grunhido desinteressado. "Papai emprestou a vassoura para ele, mas da próxima vez ele vai trazer a dele. É verdade que ele tem uma Golden Star 4S? Papai disse que vai me dar uma vassoura nova ano que vem... Ah, e o Teddy também nunca tinha visto uma casa na árvore!"
"Você tem uma casa na árvore?" Harry perguntou tentando compensar a falta de animação do afilhado, que parecia ter regredido ao status de adolescente esnobe em que chegara, como se simplesmente se recusasse a admitir que se divertira com um garoto de cinco anos.
"Sim!" Scorpius continuou. "Teddy disse que é do tamanho da tenda que vocês usaram na última Copa de Quadribol. É verdade que vocês foram ver a Bulgária jogar? É verdade que ele conheceu Viktor Krum pessoalmente?"
Scorpius só parou de falar quando eles chegaram em frente à lareira. Depois de uma cotovelada de Harry, Lupin agradeceu aos seus anfitriões educadamente e pulou para dentro das chamas verdes. Harry bagunçou os cabelos de Scorpius carinhosamente antes de segui-lo. Então Scorpius se pôs a relatar a versão estendida e comentada dos acontecimentos do dia.
Aquele dia parecia não ter fim.
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