– E como está a senhorita Granger? – perguntou a voz rouca vinda do quadro.
– Bem. – respondeu laconicamente o homem de vestes negras, sem levantar os olhos do pergaminho. De fato, as coisas iam muito bem. Mas Snape não admitiria isso.
– Eu fiz a mesma pergunta todos os dias, e a resposta era: 'irritante como sempre', ou 'não me pergunte sobre esse plano maluco', ou apenas um bufo seco. Mas agora... – incitou o diretor, com os olhos brilhando.
– O que quer dizer, Alvo? – perguntou Snape, impaciente, deixando de lado o que fazia para fitar o quadro.
– Que agora suas respostas estão evoluindo... – provocou Dumbledore.
– Por Merlin, Alvo. Você nunca vai me deixar em paz? O que quer que eu responda?
– Que gosta da companhia dela, é claro!
– Por favor, Dumbledore... – grunhiu o homem, enfurecido – Não diga bobagens.
– Vamos, admita!
– Estamos em guerra, você me incumbiu – para não dizer 'obrigou' – a direção de uma escola para proteger esses pirralhos, tenho que ficar de olho no idiota do Potter, servir de espião duplo e tudo o que quer saber é se gosto da companhia dela?! – disparou. 'É claro que eu gosto da companhia dela!', pensou, controlando-se para não vacilar a expressão.
– Não seja tão dramático, Severo! – exclamou ele, calmo – Eu sei de tudo o que está acontecendo lá fora... Mas não sei o que se passa na sua cabeça conturbada, infelizmente. – declarou o diretor, divertindo-se com a irritação de Snape. Vendo que ele voltara sua atenção para o pergaminho decidido a ignorar suas investidas, o diretor continuou despreocupadamente – O aniversário dela é hoje... É uma pena que ela não poderá comemorar com os amigos ou família. – o olhar de Dumbledore não perdeu um só detalhe da expressão de Severo, que vacilou por alguns nano segundos antes de voltar a habitual frieza.
– E? – perguntou, soando indiferente, o que fez Dumbledore rir abertamente.
– Não precisa mentir para mim, Severo... Conheço você a bastante tempo. Ela mexe com alguma coisa aí dentro – disse o ancião, apontando o dedo indicador para a cabeça e depois para o coração de Snape.
– Já chega, Alvo! – indagou o bruxo, furioso, levantando-se bruscamente e saindo a passos largos do escritório.
Snape
– Aquele velho! Quem ele pensa que é para fazer suposições desse tipo?! – bradava na minha sala vazia, tentando convencer a mim mesmo que as palavras de Dumbledore eram absurdas.
Mas eu já sabia que não eram... Começou com a preocupação em vê-la segura, passando pela impossibilidade de ficar indiferente a ela ou qualquer coisa que a dissesse respeito, chegando até o momento em que Hermione Granger não me saía da cabeça, a ponto de dificultar minha concentração para praticar oclumência.
Conversar com ela era absolutamente agradável, e sua voz melodiosa preenchia todos os meus sentimentos ruins. Parecia tão certo voltar para casa e encontrá-la estudando em frente a lareira... Não importava a hora que chegasse, eu sabia que ela estava me esperando. E eu nunca havia imaginado viver algo assim. Sabia que ela não nutria nenhum sentimento por mim, que era só o seu jeito de se preocupar com as pessoas, mas de qualquer forma eu gostava. Era o mais perto que tinha de um sentimento recíproco.
E também já sabia que era seu aniversário, mas não havia nada que eu pudesse fazer para tornar o dia melhor ou mais agradável.
Decidindo que já havia pensado demais, rumei de volta para o escritório escolhendo ignorar qualquer provocação vinda de Dumbledore. 'Mesmo um retrato dele consegue me irritar', bufei. Mas algo no caminho me impediu de continuar.
– O que está fazendo aqui? – perguntei, sombrio, para a menina ruiva que me olhava assustada.
– Ér... senhor, eu... bem...
– Eu não tenho o dia todo, senhorita Weasley. – disparei, fazendo-a parar de gaguejar.
– Bem... – começou, depois de um suspiro – Eu gostaria de falar com o senhor... – disparou num só fôlego. Considerei seu pedido por um momento e, sem responder, passei por ela, dando as costas. Mas algo me fez parar...
– É sobre Hermione... – ela gritou por sobre os ombros. 'Garotinha esperta...'
– Por Merlin, garota, não diga isso em voz alta! – falei, fazendo sinal para que ela entrasse em minha sala. A ruiva, embora temerosa, parecia decidida. 'Infinitamente melhor que qualquer um dos Weasleay's ou todos eles juntos', pensei.
– O que quer? – perguntei, ríspido.
– Saber como ela está. – respondeu, direta.
– Viva. Satisfeita? Pode sair... – resmunguei, virando as costas.
– Senhor, só quero saber como ela está... Já não basta o Rony ter sumido e Jorge ter se machucado, preciso saber que minha amiga está bem. – pediu ela, suplicante. E ao citar o ferimento do irmão – o qual eu havia provocado – senti a necessidade de responder o que ela queria.
– Ela está bem. Segura, se é o que quer saber. – respondi, ainda sem olhar para ela.
– Não estou duvidando da segurança dela, Hermione disse que o senhor a salvou... – disparou a menina, fazendo com que eu me virasse bruscamente para encará-la. Ela havia falado sobre mim? De repente me senti um adolescente.
– O que quer saber então? – controlei para a voz continuar fria.
– É que... – hesitou ela.
– Pelos céus menina! Pergunte logo...
– É sobre o Bichento... – disse finalmente. E no meu olhar interrogativo ela continuou – o gato de Hermione...
– Eu sei o que ele é. – respondi impaciente – Quero saber porque um gato veio parar nessa conversa sem sentido.
– Bom, talvez Hermione gostaria de tê-lo por perto no aniversário.
– Está sugerindo que eu aparate com um animal alaranjado no colo, senhorita Weasley? – perguntei, me aproximando perigosamente dela, fazendo-a recuar – Por acaso acha que estamos de férias naquela casa no meio do nada?
– Não, senhor... Claro que não. Eu apenas...
– Já basta! Foram bobagens suficientes hoje... Saia!
– Sim, senhor... Peço desculpas. – murmurou ela, saindo apressadamente da sala.
No momento em que a menina saiu minha cabeça começou a fervilhar. Primeiro, com o que Dumbledore havia dito; segundo, com o fato da Weasley ter revelado que ela e Hermione haviam conversado sobre mim; e terceiro, com a audácia dela em sugerir que fizesse um agrado para a amiga! 'Em que momento me tornei menos perigoso para ela?', indaguei mentalmente.
Ainda mais estressado, saí da sala rumo ao escritório torcendo para que ninguém aparecesse na minha frente, já que seria capaz de lançar uma cruciatus no primeiro que surgisse. Mas meus pedidos não foram atendidos, já que virando o corredor avisto justamente a bola de pelos laranja que Hermione chamava de gato.
– A namoradinha do Potter está me testando, então... – murmurei, vendo o gato caminhar elegante. Sabia que ele não tido ido parar nas masmorras sozinho, mas tampouco entendia como a menina ruiva havia driblado os Irmãos Carrow para chegar às masmorras. Anotei mentalmente que não deveria subestimá-la.
Ignorando o felino, continuei meu trajeto depois de desviá-lo, e alguma coisa me fez parar. Um lampejo do sorriso de Hermione me fez pensar como ela ficaria feliz em ver o animal, e imaginei que ela merecia isso. Contudo, senti-me idiota no momento seguinte e bufei com o rumo dos meus pensamentos. 'Era só o que me faltava...'.
...
Hermione
Não sabia se era pelo fato de ser meu aniversário, ou se pela falta de companhia, ou se a soma de todas as coisas que estavam de cabeça para baixo na minha vida, mas desejei que ele chegasse a tempo. Ri do meu pensamento absurdo e os expulsei para continuar minha leitura. Mas a verdade é que no fundo eu sabia; queria que fosse ele independente das circunstâncias... Preocupava-me a cada minuto que ele demorava além do normal... Ansiava pelos momentos em que dividíamos o mesmo ambiente. Podíamos até não falar nada, mas era suficiente saber que ele estava ali.
Todas as noites que Snape não passava em casa era uma batalha para o sono chegar, e quando vinha, era uma outra batalha contra os pesadelos. E acabou virando rotina adormecer na poltrona em frente a lareira, já que era o mais próximo de sua presença. No dia seguinte, como tradição, uma coberta me cobria, e então eu sabia que ele tinha chegado.
Oclumência não era algo tão difícil, e Snape exigia bastante. Só que não era isso que me incomodava, mas o fato de temer que de alguma forma, por um momento de distração, ele conseguisse ver os pensamentos errados. Os meus pensamentos em relação a ele, que ficavam cada dia mais frequentes e... intensos. Não sonhar com ele era impossível. Ou eu acordava chorando porque algo de ruim lhe acontecia, ou acordava chorando porque o que acontecia de bom nos sonhos não eram – e nunca poderiam ser – reais.
A verdade é que eu estava me apaixonando por Severo Snape. O quão ruim isso poderia significar? Eu nem sequer poderia calcular. Era de longe a maior bobagem que poderia ter deixado acontecer, porque sabia que era impossível a reciprocidade. Já era muito Snape falar comigo e agir de maneira agradável... Mais do que qualquer pessoa poderia exigir dele, com certeza. E o amor que ele sentia por Lílian era tão grande, tão leal, tão intenso e tão verdadeiro que eu jamais poderia competir. E isso me atingiu de uma maneira que nunca cogitei sentir. Que na verdade nem sabia que existia.
O relógio marcava cinco para meia-noite quando resolvi subir para o quarto. Estava decidida a não me preocupar mais com ele – como se isso fosse algo que se resolvesse tão simploriamente – quando ouvi um miado. 'Como se não bastasse, estou ouvindo coisas...', murmurei, balançando a cabeça enquanto entrava no quarto. Minutos depois e um vulto saltou diretamente para a minha cama. Era Bichento.
– Bichento?! – murmurei para o escuro, ainda em dúvida, e um ronronado me fez ter certeza – Bichento! O que... como? Sua bola de pelos, como veio parar aqui? – e o abracei ainda mais forte que da última vez. E em meio a sorrisos e miados, estremeci. O homem dos meus sonhos estava parado na soleira da porta, com os braços cruzados e os olhos negros brilhando.
– Porque o senhor trouxe Bichento até aqui? – perguntei, num misto de curiosidade e felicidade. Por um momento imaginei que era uma forma de agrado.
– Não tive escolha, Granger. Claro, ele jamais faria isso para me agradar. Estúpida! A sua amiga Weasley foi pega pelos Irmãos Carrow, e eles ameaçaram matar o gato. Ou eu o trazia ou ela faria algo estúpido para impedir. – declarou, indiferente. Estava explicado então. Mas de qualquer forma ele havia protegido Gina e Bichento, então não tinha motivos para ficar frustrada. Ou tinha? Não, mas eu estava. É claro que estava aliviada por Gina, mas queria realmente que houvesse sido um agrado por parte dele.
– Bom, obrigada então. – murmurei – Por salvá-los. – completei, mais firme – O que Gina estava pensando? – perguntei retoricamente, ficando brava por ela ser tão determinada. – Acho que agora entendo como grifinórios tendem a ser estúpidos as vezes. – declarei, fazendo-o abrir um meio sorriso.
Bichento, que estava no meu colo, pulou para perto dele, encostando a cabeça em suas pernas como se dissesse: 'Obrigado'. E se Bichento gostava de Snape, então eu não poderia ter dúvidas quanto ao seu caráter. Severo apenas levantou uma sobrancelha enquanto observava em desagrado, e eu achei que não seria muito prudente testar sua paciência. Peguei Bichento no colo no mesmo instante em que o meu antigo mestre se virou para sair. Queria que ele ficasse, queria desesperadamente que ele não saísse, então disparei o nome dele sem ter ideia do que falar depois.
– Professor Snape! – e ele parou, ainda de costas. Desejei que ele ficasse assim, seria mais fácil pensar em algo para falar. Mas para minha 'sorte' ele se virou, e encará-lo me deixava completamente desconcertada.
Um turbilhão de pensamentos passou por mim, e todos os sonhos e desejos povoaram a minha mente: o medo de perdê-lo, a vontade de abraçá-lo, o desejo de beijá-lo...
– Granger! – chamou ele, me acordando dos meus delírios – Qual o seu problema? Estava parada me olhando há minutos... – disparou ele, me fazendo agradecer aos céus pela escuridão do quarto, ou ele veria meu rosto vermelho.
– Desculpa, senhor... Só estou cansada. – menti.
– O que ia dizer? – perguntou, curioso.
– Nada. – respondi, rapidamente.
– Granger, não me faça perder a paciência. Podemos testar sua oclumência agora se quiser... - continuou, divertido com a minha expressão de pânico.
– Não! – gritei, e na expressão curiosa dele, consertei. – Quero dizer, não será necessário. Eu... eu só ia dizer que quero interromper as aulas de oclumência. – Eu não queria, claro, mas também não podia arriscar que ele descobrisse...
– Granger, você me perturbou para ter essas aulas e agora quer interromper? – perguntou, impaciente – Não é para te agradar que estou ensinando a você, é para prepará-la. – enfatizou – Não tem essa opção de interromper. Não até que esteja boa o suficiente. – finalizou, categórico.
– Mas senhor... – tentei argumentar.
– Sem mais, Granger. Amanhã no laboratório, depois do almoço. – e foi embora, farfalhando a capa atrás de si.
– Droga! – xinguei, afundando na cama. Ele jamais poderia saber...
...
Snape
Como havia previsto, Hermione ficou muito feliz em ver o animal de estimação. Depois de cruzar com o gato no corredor, amaldiçoei mentalmente a Weasley, a Hermione, ao Dumbledore e, principalmente, a mim mesmo. Antes que os Irmãos Carrow pudessem ver o felino passeando pelas masmorras, o peguei e escondi no escritório. Porque ele me importava? Porque era dela. E também porque não suportaria saber que mais uma vida – mesmo que a de um animal – havia sido tirada sendo que eu poderia impedir.
Passei o resto dia encarando o gato e ele a mim. Ele me fazia sentir próximo de Hermione. Ri da minha estupidez. 'Um velho idiota, é o que eu sou', disse para o animal. Mas por mais ridículo que fosse, a noite chegou e eu estava aparatando com ele no colo. Exatamente como tinha dito que não faria.
O gato rapidamente subiu as escadas e seguiu direto para o quarto de Hermione. Precisava vê-la, então rumei silencioso pelo mesmo caminho. Ela o abraçava tão fortemente que imaginei que o animal pudesse estar sufocando. Demorou um pouco até que ela notasse minha presença, e quando ela me olhou tive que me segurar para não estremecer; ela ficava mais linda a cada dia.
– Porque o senhor trouxe Bichento até aqui? – perguntou, curiosa.
– Não tive escolha, Granger. – menti. Eu jamais admitiria que era por ela. Então rapidamente pensei em alguma história que poderia facilmente ser verdadeira. Vantagens da experiência. – A sua amiga Weasley foi pega pelos Irmãos Carrow, e eles ameaçaram matar o gato. Ou eu o trazia ou ela faria algo estúpido para impedir. – declarei, tentando parecer indiferente. Por um momento imaginei que sua expressão mudou, algo para... frustrada?
– Bom, obrigada então. – disse com sua voz doce e baixa – Por salvá-los. O que Gina estava pensando? Acho que agora entendo como grifinórios tendem a ser estúpidos as vezes. – disse ela, divertida. E eu não contive a vontade de sorrir também.
O animal laranja decidiu se aproximar e roçar em mim, e ela rapidamente aproximou-se para pegá-lo, ficando muito perto... Então antes que pudesse me entregar demais, virei para sair. E sua voz me faz parar.
– Professor Snape! – ela gritou. Como eu desejei que ela me chamasse. E lentamente me virei para voltar a encará-la, mas Hermione ficou estática. Ela estava começando a me assustar quando decidi chamá-la um pouco mais alto, e ela finalmente pareceu acordar do transe. Desejei como nunca saber o que ela estava pensando naqueles minutos.
– Qual o seu problema? Estava parada me olhando há minutos... – pude sentir que sua respiração mudou, ficando mais pesada.
– Desculpa, senhor... Só estou cansada. – ela era péssima mentirosa.
– O que ia dizer? – perguntei, curioso.
– Nada.
– Granger, não me faça perder a paciência. Podemos testar sua oclumência agora se quiser... - eu adorava vê-la desconcertada.
– Não! – a reação dela foi, no mínimo, estranha. O que ela estava escondendo? – Quero dizer, não será necessário. Eu... eu só ia dizer que quero interromper as aulas de oclumência. – Por essa eu não esperava. Hermione Granger abandonando uma chance de aprender algo útil e sublime?
– Granger, você me perturbou para ter essas aulas e agora quer interromper? – estava impaciente por não saber o motivo da sua reação – Não é para te agradar que estou ensinando a você, é para prepará-la. Não tem a opção de interromper. Não até que esteja boa o suficiente.
– Mas senhor... – ela tentou.
– Sem mais, Granger. – a cortei – Amanhã no laboratório, depois do almoço. – e saí, furioso. 'Ela quer se afastar de mim...', pensei. 'Tudo bem, também não faço questão', menti, 'mas aprender oclumência continua não sendo uma escolha'.
