Eu perdi a noção do tempo na caverna escura, a única iluminação que ganhávamos era quando os guardas se aproximavam fazendo ronda segurando uma tocha e nem mesmo as rondas eram lineares. Não havia como contar quantas vezes eles vinham na minha câmera, mas podia dizer que não eram muitas. A comunicação entre os prisioneiros se tornou impossível entre eu, Trax e os demais, Samu foi a escolhida para o primeiro julgamento e cortou o elo de comunicação. Trax ouvia a voz do próximo, mas sem distinguir exatamente as palavras.

Eu mantinha meus olhos fechados na maior parte do tempo, tentando não pensar em comida e lembrando das minhas aulas de voo, do sorriso de Azriel que fazia meu coração aquecer. Qualquer lembrança boa e recente me ajudava a não pensar na fome que assolava meu corpo já enfraquecido. O carcereiro me dava água, não com tanta frequência como eu gostaria. Trax me dizia que enquanto me dessem água eu devia ficar feliz, queria dizer que me queriam viva, nem que fosse para me matar no julgamento. O pensamento rondava ora sim ora não na minha mente aflita.

E com esse sentimento me lembrava da minha infância afortunada ao lado da minha irmã, dos meus treinamentos da guarda, das poucas vezes que consegui uma interação mais calorosa com outro vheela. Por que eles eram assim? Tão frios e austeros? Nunca saberia. Eu mesma me sentia diferente, pois pelo menos com minha irmã eu podia ser eu mesma, coisa que eu duvidava que os outros tinham a mesma facilidade entre família.

Como eu gostaria que as coisas fossem diferentes! Nessas horas eu queria ter tido mais tempo em Velaris, que eu tivesse mais momentos com todos os amigos que fiz e que eu devia ter demonstrado mais aquilo que eu tinha no meu íntimo, principalmente a Azriel. Se eu tivesse dado a devida atenção para meus sentimentos, talvez eu tivesse me dado conta que existia o laço de parceria e certamente tomaria uma outra atitude desde o momento que coloquei meus pés em Prythian.

"Você acha que eles a salvaram? "A Voz de Trax interrompeu meus pensamentos divagando sobre Samu. Depois que retiraram Samu da sua câmara ele falava mais do que antes, uma atitude de desespero pela falta de comunicação. Eu agradeceria, mas Trax não estava preocupado comigo, era só instinto.

"Acredito que sim. Samu era uma boa feérica". Eu sabia que ela tivera algum envolvimento romântico com o meu irmão, mas não saberia dizer se ainda ela tinha e se ele ficaria aliviado em saber que ela foi a primeira a ser julgada, mas provavelmente seria poupada.

"Então nós temos chances! Ela no mínimo será imparcial. Acho que o próximo julgamento vai demorar para acontecer." Trax dizia taxativo como se palestrasse sobre o funcionamento de julgamentos. Na verdade, ele não sabia de coisa alguma.

"Por que você acha? Não temos ideia de quanto tempo já passou". Falei desanimada.

"Diz isso por que você está desnutrida e passa a maior parte do tempo dormindo. Sua sorte é que eu estou ainda aqui, eles me alimentam e ainda tenho consciência." Trax me contou que recebeu pão algum tempo atrás. "Deve ter passado 1 mês talvez 2 no máximo desde que estou aqui."

"Se você diz..." Eu não acreditava tanto nos cálculos de Trax, as vezes ele também ficava desacordado, principalmente depois dos guardas aparecerem para dar algo a ele. Eu desconfiava que era alguma poção e não água.

"A corte só está ganhando tempo para não interferir com os outros feéricos. Sabemos que cada dia que passa nossa magia está enfraquecendo e isso tem conexão com a muralha. Talvez eles se dão conta logo e fazem um julgamento coletivos em que todos saem vivos, ou bem...quase todos. Ou talvez vamos ficar aqui pra sempre porque eles nunca vão admitir que tínhamos razão e todo povo vheelas perderão. " Trax sempre falava isso, eu já estava cansada de ouvir o mesmo discurso.

"Existe formas de estabilizar a muralha ou pelo menos a barreira que nos protegia. Mas pra isso todos precisam trabalhar em conjunto até mesmo Vheelas."

"Você diz por causa dos seus amiguinhos da corte noturna? " Trax sempre falava com tom de deboche. "Eles são como todos os outros, dizimaram uma corte completamente! Feérico como nós! Olha só o que eles fizeram com Hybern. Eles só querem mais poderes, não se iluda Liz."

"Não foi por isso que eles lutaram contra Hybern!" Respondi ríspida.

"Ah não? E no fim eles não fizeram uma aliança? Não ganharam mais território? A queda da muralha foi efeito colateral e mesmo assim eles estão tomando vantagem nisso. Rhysand é um grão muito astuto, talvez o mais inteligente de todos em Prythian. Se juntou a uma humana e agora tem uma conexão para barganhar com o outro lado. "

"Você fala como se soubesse mais do que eu que estive lá! Por que não acredita na minha versão dos fatos? " Eu estava do lado deles, como vheela e ainda sim Trax achava que eu podia ser uma traidora.

"Porque é isso que eles querem que nós acreditamos. " Trax disse resoluto.

"Você soa como os conselheiros. " Sabia que aquilo iria abrir seus olhos.

"Não é porque eu acredito que devemos tomar partido e sair do esconderijo que vou acreditar em qualquer corte. Historicamente eles sempre gostaram de nos manipular. " Trax se referia as cortes antigas antes do nosso "desaparecimento".

"Porque sempre fomos fáceis de manipular. " Respondi sem pressa.

Trax demorou para replicar. "Aprendemos muito com os nossos ancestrais. Não vamos cometer os mesmos erros, não responderei a nenhum grão senhor! Não participarei de nenhuma tirania. "

Em vez de responder minha mente vagava pela falta de comida, água e uma posição confortável pois meus braços viviam formigando. Não poderia mudar completamente as ideias de Trax, mas pelo menos já tinha tentado explicar minha experiência na corte noturna. Ele duvidava que eles se preocupassem tanto comigo, embora concordasse que o acordo de Rhysand para que eu fosse julgada fosse uma atitude benevolente e arriscada. Sentia meu corpo se esvaindo aos poucos, os guardas estavam sendo mais cruéis comigo, como eu já imaginava.

No início pensava formas de fugir, mas virou somente um sonho, então procurava sonhar com a grama verde num dia de sol, no ar puro e quando via eu estava realmente sonhando. Acordava assustada no breu que era a caverna e chorava baixinho. Quanto tempo mais eu iria aguentar? Eu não queria me afundar em remorso e repensar em tudo que nós, eu, Camella e Kristian fizemos, não queria lembrar das palavras de Azriel em relatar que nós éramos parceiros. Az estaria preocupado e com certeza estaria sofrendo, assim como eu mesmo sem entender essa ligação entre a gente, mas seria mais fácil para ele. Mais fácil ainda se eu morresse, assim ele ficaria livre de novo para Mor ou qualquer outra pessoa.

Eu conseguia imaginar ele lidando com amargura pelos cantos o fato de eu ter sido capturada e também consigo imaginar ele suprimindo o sentimento de solidão e desespero assim como ele suprimiu o laço. A ruptura com sua parceira era dolorosa, uma dor física. Mas eu simplesmente não conseguia! Não consegui não sentir, não lembrar. Nunca tinha me sentindo abandonada como agora, eu estava sozinha no mundo, na caverna, escondida da luz, dos meus poderes mágicos. E mesmo que Camella estivesse preocupada ela não poderia fazer nada, nem Rhysand, nem com o acordo, ele não sabia onde estaríamos. Nada podia ser feito! E a dor no meu peito era tão forte que ficava difícil respirar. Por vezes soluçava alto, mas logo me recompunha, mesmo que a dor não cessasse. Eu tinha que ser forte.

Azriel sentiria! Sentiria que eu estava sofrendo como um diabo e a vergonha e meu ego não deixavam que eu mostrasse isso pra ele, eu não queria mostrar como ele me afetava, como a sua recusa me abalava. E eu no fundo também não queria que ele sofresse por algo ou alguém que não tinha mais solução. Era melhor Az seguir com a vida dele, por que não facilitar?

A última informação que obtive do meu irmão era que deveríamos continuar firmes com as nossas crenças mesmo depois do julgamento, isso queria dizer que ele não desistira tão fácil de mudar o concelho e isso só fazia com que ele ficasse mais tempo preso. E por alguma razão eu achava que ele estava querendo isso mesmo, na realidade eu via a minha morte sendo usada por ele como mártir depois de solto.

Kristian tinha um plano e por mais louco que pudesse ser, os outros que foram presos com ele continuavam seguindo. Eu tinha esperança que no final eles de fato pudessem mudar o concelho, pelo menos minha morte não seria em vão. A única coisa que no momento não poderia admitir é perder minha vida para calar uma rebelião sem alterar nada! Então me lembrava de Camella e todo calor de felicidade preenchia meu ser, sabendo que ela devia estar viva com seu querido grão Senhor e que tudo tinha valido a pena.

Ouvi a voz de Trax me chamando ao longe, talvez eles tivessem o levado para julgamento ou mudado de lugar. Não sei dizer, pois meu corpo estava muito fraco, não sabia mais o que era real e o que minha mente atormentada criava.

Mãos seguravam gentilmente meu rosto, sentia um hálito quente bater na minha pele fria mas a caverna ainda estava escura. Tentei abrir meus olhos, mas eles estavam muito pesados, pela minha pálpebra eu vi uma luz se aproximar e ouvi uma voz feminina falando. Era a voz de Camella, ela conversava com alguém, ela parecia chorar. A outra voz era grave, masculina e parecia tão aflita como a dela. Azriel! Queria chamar seu nome, mas nada saia das minhas cordas vocais, era muito esforço.

Meu coração batia rápido, sentia que em instantes iria explodir em lágrimas. Meu nariz queimava e minha mente flutuava relembrando da voz de Azriel, parecia séculos a última vez que ouvi meu nome em seus lábios. Quase uma outra vida pude ver seu rosto sério, mas com olhos astutos estudando cada um dos meus movimentos, como aquilo fazia meu corpo arrepiar em antecipação. Antecipação do que ele faria, do que ele estava pensando. Por que os pensamentos mais pecaminosos surgiam quando sentia seu olhar quente pela minha pele.

Estaria ele ali perto? Por que eu sentia a sua presença, mesmo que fantasmagórica? Um puxão no meu peito quase que físico me fez acordar do meu torpor, algo estava acontecendo. Eu percebia. O laço permanecia, forte, intocável. Eu não poderia morrer, não quando outra parte de mim vivia do outro lado do laço e me dava sinais.