Soluço piscou uma ou duas vezes, processando o que via.

Perna-de-Peixe estava no meio do cânion.

Como ele tinha entrado ali? Como ele tinha sequer encontrado aquele lugar? Soluço duvidava que um garoto grande como Perna-de-Peixe conseguiria passar pela abertura apertada do cânion – não sem ajuda.

Não era assim que Soluço esperava que seu segredo fosse descoberto.

Mas aquele era Perna-de-Peixe, não era? Seu melhor amigo. Ele, diferente de todos os vikings de Berk, o intenderia, não é mesmo?

"Perna-de-Peixe!" Soluço sorriu de modo nervoso, apertando as mãos juntas e tentando agir de modo casual. "A-ah! O que- O que você está fazendo aqui?" Ele se manteve entre Banguela e o outro viking, se apoiando levemente contra o dragão. "Como... Como entrou aqui aliás...?"

Perna-de-Peixe não pareceu ouvir nada do que o ruivo tinha dito.

"F-furia da..." Ele repetiu, apontando para o dragão negro com uma mão tremula.

Banguela bufou em resposta.

"É, é! É um Fúria da Noite! Viu? Legal né?" Soluço deu um passinho para o lado, gesticulando para Banguela como se estivesse apresentando uma pessoa de alta importância. O dragão rosnou mais alto do que da última vez e o ruivo conseguiu ver a cor sumir do rosto de seu amigo. "Calma, Banguela, tá tudo bem, o Perna-de-Peixe é amigo..."

Banguela se virou para Soluço, soltando um som estranho e o encarando com uma expressão séria; suas pupilas pareciam um pouco mais relaxadas, mas estavam ainda mais finas que o normal. E Soluço lançou um olhar para seu dragão que pedia por "paciência".

Enquanto isso, Perna-de-Peixe parecia estar aos poucos encontrando sua voz novamente.

"Você- Como- Dragão- O que-?" Mas ele não chegou a terminar nenhuma frase.

"É, é uma longa história, na verdade... Mas está tudo bem! Ele é amigo!" Soluço disse e não sabia se estava falando isso para o amigo viking ou o amigo dragão.

Soluço se voltou para Banguela, acariciando em baixo de sua mandíbula, e o rosnado aos poucos se tornou um ronronar grave. Ele sorriu, se movendo para ficar fora do campo de visão de ambos os seus amigos.

"Olha... Perna-de-Peixe, conheça o Banguela." O ruivo sorriu de um para o outro, esperando que ambos se "comportassem". "Banguela... Perna-de-Peixe..."

"Você deu um nome a ele?!" Perna-de-Peixe exclamou, alto, o que fez Banguela rosnar mais uma vez, as barbatanas coladas contra sua cabeça.

Soluço não conseguiu deixar de sorrir com a reação do amigo. Ele conhecia aquele tom de voz, e sabia que o medo já estava sendo substituído por admiração.

Soluço se lembrou de tudo em que tinha pensado e decidido enquanto voava com Banguela. Talvez ele pudesse começar ali, com seu melhor amigo, uma pessoa que o ouvia e que era tão curioso sobre dragões quanto ele.

"Vem, Banguela." Soluço pousou uma mão em baixo da mandíbula do dragão, dando alguns passos na direção de Perna-de-Peixe. Banguela o acompanhou lentamente, o olhando de modo quase curioso. Soluço ouviu seu amigo fazer um som estranho. "Tá tudo bem, Perna-de-Peixe, tá tudo bem..."

E ele quase riu, ao se ouvir falando daquele jeito com o outro viking, e não para o dragão. Aos poucos ele diminuiu o espaço entre eles, parando e mantendo uma pequena distância entre os três. Soluço estendeu a mão para Perna-de-Peixe, que soltou um som estranho e temeroso, mas ainda assim levantou a mão muito levemente.

"Ok. Já chega."

Soluço sentiu seu sangue gelar ao ouvir aquela voz. Ele se apertou contra o pescoço longo de Banguela, sentindo quando o dragão se aproximou, como que notando o que o garoto sentia. E, lentamente ele se virou, se vendo cara a cara com sua irmã.

Biscoito saiu de onde estava escondida, ao lado de uma pedra perto da lagoa, com o machado bem seguro em sua mão direita. Com a mão livre, ela puxou Perna-de-Peixe para mais perto com facilidade.

O rosnado do Fúria da Noite foi tão alto e forte que Soluço tremeu. E ele ficou com medo de que Banguela reagisse feio à sua irmã. Ela era uma garota intimidadora, fosse pelo tom de voz, fosse pelo olhar sério que tinha ganho de Stoico ou pelo machado que levava consigo. Soluço só esperava que nenhum dos dois tentasse começar alguma coisa, afinal, Soluço duvidava que poderia separar os dois em qualquer situação.

Ele tentou se manter entre o dragão e a garota, ignorando o modo como Banguela continuava tentando envolve-lo com seu corpo maior. Ele estava o defendendo. Soluço não sabia muito bem como se sentir quando a isso, uma vez que estava sendo defendido de sua própria irmã gêmea!

"B-Biscoito?!" Sua voz tremeu levemente ao encarar a expressão séria da outra. "Como- Como você chegou aqui?"

"Você sabe que eu já conhecia esse lugar." Ela disse simplesmente, se colocando ao lado do loiro – exatamente do mesmo modo que Banguela fazia com o ruivo. "Mas eu segui o Perna-de-Peixe. Ele disse que viu você vir aqui ontem à noite."

"Desculpa, Soluço..." Perna-de-Peixe murmurou, a cabeça baixa.

Soluço queria ficar irritado com o amigo, mas não encontrou forças para isso, principalmente com o modo que Biscoito segurava o machado, pronta para lança-lo se necessário.

"Então, Soluço... É aqui que você vem todo dia?" Ela sibilou, contida, mas o garoto conseguia notar como ela estava escondendo um outro sentimento mais forte. "Para experimentar sua 'roupa voadora'?!" Biscoito disse de modo acusador e lançou um olhar mortal para o dragão atrás do garoto. "Ou talvez seja para ficar com seu dragãozinho de estimação?"

O tom de voz da irmã praticamente o cortou por dentro.

E era como se Banguela tivesse percebido isso.

Soluço quase nem registrou o que aconteceu. De repente, Banguela o empurrou com a asa, pulando na direção de Biscoito, enquanto essa empurrava Perna-de-Peixe para longe, erguendo sua arma para se defender.

O ruivo se levantou do chão, vendo o machado sendo lançado para longe graças a uma rabada forte do Fúria da Noite.

Biscoito ficou um pouco atordoada por ser desarmada tão rapidamente, e ela se encontrou frente a frente com olhos verdes e grandes, encarando pupilas finas e irritadas, e dentes afiados e expostos. E ela sentiu seu corpo congelar, se lembrando de um outro momento em que tinha se encontrado naquela mesma posição.

"Não! Banguela, não!" Soluço correu até o dragão, se colocando entre esse e sua irmã. Ele disse com força e até Banguela pareceu surpreso com aquilo, balançando a cabeça e batendo as asas com força. "Não!" Ele repetiu no mesmo tom de antes e o dragão rosnou. Soluço teria sentido medo antes, mas dessa vez, não. E não era só porque ele sabia que Banguela não iria machucá-lo... "Ela é minha irmã."

Banguela não parecia contente, mas com um bufado alto – que quase soou como um suspiro – ele se sentou nas pernas detrás. Soluço sorriu para ele e se voltou para os outros vikings, surpreso com o silêncio repentino que tomou o cânion.

Perna-de-Peixe estava com os olhos arregalados, ainda incapaz de formar uma sentença completa, enquanto Biscoito encarava a cena de modo estranho. Soluço conseguia ler seu olhar, como sempre conseguiu desde pequeno, ela estava com raiva, muita raiva.

"Vem, Perna-de-Peixe!" Biscoito disse simplesmente, agarrando a frente da túnica do loiro e o puxando com ela.

"M-ma-mas...!"

"Sem 'mas'!" Biscoito interrompeu Perna-de-Peixe. "Vamos falar com o chefe."

Soluço sentiu seu sangue gelar ao ouvir aquilo, imaginando o que poderia acontecer caso sua irmã realmente contasse tudo para seus pais. Sim, ele tinha pensado em como iria explicar tudo para seu pai, mas não numa situação como essa. Ele sabia como Stoico iria reagir se Biscoito contasse para ele e, embora Soluço soubesse que haveriam consequências graves para ele, Soluço se preocupava mais ainda com o que aconteceria com Banguela. Ele sentiu uma náusea estranha subir por sua garganta.

Soluço não podia deixar Biscoito fazer isso! Ele não podia destruir tudo que Soluço – e Banguela – haviam criado!

"Não! Não, por favor, Biscoito!" Ele correu até a garota, agarrando seu braço com mais força do que esperava, o que surpreendeu a ambos. Biscoito se virou para ele com o mesmo olhar de antes e Soluço se forçou a se manter forte. "Vamos... Vamos falar sobre isso...! Como irmãos!"

Biscoito olhou de Soluço para o Fúria da Noite. Ela fez um estalar estranho com a língua e soltou a túnica de Perna-de-Peixe, deixando-o para trás e atravessando a passagem do cânion sozinha.

"Ah, Soluço...?"

"Fica com o Banguela, Perna-de-Peixe!" Soluço disse apenas.

O ruivo rapidamente passou pela abertura apertada, feliz ao ver que a irmã não estava correndo para longe, estava apenas marchando com passos fortes e violentos. Era como se quisesse que o irmão a alcançasse.

"Biscoito, por favor!" Soluço chamou. "Só deixa eu explicar para você!"

"Explicar o que?" Biscoito sibilou, mas não chegou a parar ou se virar. "Que você se aliou com o inimigo? Que você virou amiguinho de um dragão?" Ela balançou a cabeça com raiva. "Eu já vi o bastante!"

Ela continuou em direção para a vila.

"Não, não, não, Biscoito!" Soluço rapidamente correu até a irmã, colocando as mãos nos ombros dessa e a fazendo parar. "Não é isso...!" Biscoito o lançou um olhar duro, mas ele tentou não reagir. "Bem... É isso, mas... Espera!" A garota empurrou suas mãos e voltou a andar. "Espera, espera por favor, irmã!"

Biscoito parou mais uma vez, virando-se muito levemente para o irmão. Soluço suspirou, levemente feliz ao vê-la parando para o ouvir.

"Biscoito..." Ele disse calmamente. "Há tanto que os vikings não sabem sobre os dragões..."

"Ah, mas que você sabe, não é?" Biscoito interrompeu, trazendo à tona toda a sua raiva. Sua voz era forte, como a de Stoico. "É assim que você conseguiu se tornar o melhor na arena, não é? Você trapaceou!"

Soluço piscou uma ou duas vezes, surpreso com aquelas palavras.

"Eu trapaceei?! Ah, ugh!" Ele puxou os cabelos, balançando a cabeça. Mas é claro que sua irmã estaria pensando sobre aquilo, o que esperar de um viking? "Biscoito! Isso não tem a ver com a arena! Ou- ou com essa competição ridícula que você criou entre nós!"

Tarde demais, Soluço notou que essas não eram as melhores palavras a dizer.

"Competição ridícula?!" Biscoito praticamente rugiu, se aproximando do irmão com passos pesados. "Essa 'competição ridícula' que você chama Soluço é a minha vida! A nossa vida!" Ela agarrou a frente da túnica de Soluço, o encarando com os narizes a milímetros de distância. "E eu não vou permitir que você arruíne tudo isso!"

"Ah! Espera, Biscoito! Eu-"

Soluço não chegou a terminar aquela frase.

Tudo o que ele conseguiu registrar foi o farfalhar de plantas e o som de algo arranhando pedra e então...

"Ack!"

Com aquele som, Biscoito foi empurrada para longe do irmão, enquanto o garoto era puxado para de encontro com uma forma grande, quente e escura como a noite.

"Banguela!" Soluço piscou uma ou duas vezes, sem acreditar em seus olhos. Banguela não se virou para ele, mantendo os olhos presos na garota, a boca aberta, mostrando dentes afiados enquanto rosnava alto. "Como você...?" Soluço desviou a atenção disso ao ver Biscoito vindo na direção deles. Sem machado, tudo o que ela tinha em mãos era uma adaga longa e afiada. "Não!"

"Como não?! Ele quase me matou!" Biscoito exclamou.

"Não, não! Banguela nunca faria isso!" Soluço disse, tentando acalmar os nervos. Ele desviou os olhos do dragão – que o encarava de modo estranho – e para a garota – ainda irritada. Soluço examinou a irmã com os olhos. "Ele só te afastou! Você... Você está machucada...?"

Biscoito parou por um momento e parecia quase surpresa com a pergunta. Ela abaixou a adaga lentamente e Soluço se perguntou se Banguela tinha mesmo machucado a garota.

A garota hesitou. Ela sabia que estava se colocando em uma posição de perigo perto daquela criatura, mas... Ainda assim, ela tinha que ser honesta consigo mesmo e com seu irmão gêmeo.

"... Não..." Ela disse, suavemente, como se não acreditasse em suas próprias palavras.

Soluço suspirou aliviado.

"Viu?" Ele sorriu levemente, pousando uma mão no pescoço de Banguela. "Ele não queria te machucar." Ele esclareceu, feliz ao saber que não tinha que se preocupar com nenhum dos dois. "Ele só quer me proteger."

"Te proteger? É sério?" Biscoito ergueu uma sobrancelha.

O Fúria da Noite rosnou.

"É! É! Muito sério...!" Soluço interveio, se sentindo um pouco mais confiante agora. "Olha..." Ele ergueu a mão para o focinho de Banguela, acariciando-o.

Banguela o encarou por um segundo, como se não acreditasse no que o humano estava fazendo. Soluço sustentou seu olhar, pedindo sem palavras para que Banguela fosse gentil, afinal, aquela garota era sua irmã. E, embora ele soubesse que Banguela possivelmente não ouvia seus pensamentos como os outros dragões pareciam ouvir, ele sabia que Banguela compreendia.

Com um bufar suave, o dragão relaxou em baixo de seu toque.

"Viu? Tá tudo bem..."

Mas se Banguela tinha relaxado – um pouco – o mesmo não podia ser dito de Biscoito.

Soluço sorriu para a irmã, esperando que aquele pequeno gesto transmitisse para sua gêmea o mesmo que ele tinha "transmitido" para Banguela.

"Vem, me dá sua mão..."

Soluço esticou a mão para pegar a da irmã, mas essa a puxou para longe rapidamente.

"Mantenha essa coisa longe de mim!" Ela sibilou e Banguela rosnou no mesmo tom. "Para o bem dele..."

"Biscoito..." Soluço suspirou.

As coisas já estavam indo bem demais, ele devia esperar isso. Mas ele estava decidido a mudar isso. Soluço estava até surpreso consigo mesmo, se sentindo mais confiante naquilo do que em qualquer outra coisa que tinha feito até agora – até mesmo fazer amizade com um Fúria da Noite e voar com esse.

"Biscoito, não está vendo?" Ele disse. "Não precisamos de nada disso. De machados ou de violência... Olha..." Soluço acariciou o pescoço do Fúria da Noite, mas ainda mantinha os olhos presos em sua irmã, vendo como ela reagia. "Eu acredito que... Se eu mostrar para você e para todos que nós não precisamos lutar..." Soluço forçou um sorriso e observou enquanto Biscoito movia o peso de um pé para outro. "Isso pode ser... A solução para os ataques de dragões! Para... Para o futuro de Berk!"

Biscoito continuou calada, como se não tivesse nada para dizer. Mas Soluço conhecia a sua gêmea.

Embora nenhuma palavra estivesse saindo de seus lábios, muitas se passavam em sua cabeça. E Biscoito não conseguia parar de se perguntar se estava imaginando aquilo ou se tudo estava acontecendo de verdade.

"Por favor... Me dá uma chance?" Soluço implorou.

Biscoito hesitou. Ela ainda estava irritada, muito ainda se passava em sua mente, mas ela conhecia aquele tom de voz no irmão. Soluço estava preocupado, assustado. E ela quase se sentiu mal pelo irmão.

Ela suspirou.

"Chance de que?"

"Para te provar..." Soluço desviou o olhar para o dragão, pressionando uma mão contra a cabeça desse. Banguela fechou os olhos por um segundo, antes de abri-los e mantê-los focados na garota. "Pra provar para todo mundo..."

Houve um silêncio entre os dois e Soluço podia jurar que ouvia seu coração bater forte em seus ouvidos.

Biscoito era cabeça dura, como Stoico, e raramente alguém conseguia fazer com que ela mudasse de ideia. Quando colocava uma coisa na cabeça, ela se prendia aquilo. Soluço não se surpreenderia se fosse difícil para ela se livrar de todos os ideais vikings que tinha seguido desde a infância.

A garota examinou a imagem à sua frente, seu irmão e o Fúria da Noite.

O dragão podia estar atrás do garoto, mas Biscoito conseguia ver como a posição do dragão era uma de proteção. Ela não acreditava que um dragão era capaz de se importar com uma pessoa, ou com qualquer outro ser, mas lá estavam aqueles dois...

Biscoito não acreditava nisso, não acreditava em nada que seu irmão tinha mencionado; mesmo que houvesse um Fúria da Noite entre os dois, sendo acariciado por Soluço como um bichinho de estimação. Mas Biscoito conhecia aquele brilho nos olhos de seu gêmeo. Ela sabia que ele tinha confiança no que estava falando.

"Você realmente acredita nisso?" Ela perguntou mesmo assim. "Nessa... 'paz'...?"

"Biscoito... Por favor..."

A garota tomou mais tempo para pensar.

Biscoito já havia ouvido Soluço falar sobre coisas surpreendentes, malucas, mas nunca algo como aquilo. Mas ela conhecia o tom de voz do irmão, ela conhecia – mesmo que pouco – como as coisas funcionavam na cabeça de seu irmão. E ela sabia que, mesmo sendo bem diferente dos outros na vila, Soluço era um viking. E vikings eram conhecidos por sua teimosia.

Biscoito suspirou, exasperada.

"Soluço, você é maluco..."

Soluço não sabia como responder tal comentário. Ele já tinha ouvido isso de algumas pessoas, até de sua irmã algumas vezes. Mas quase todas as vezes que Biscoito falava aquilo era com boas intenções, como que aquilo fosse um detalhe admirável da personalidade de seu irmão.

Soluço esperava que ela ainda pensasse daquele modo...

"Tudo bem." Biscoito disse por fim e Soluço sorriu. "Uma chance!" Ela adicionou rapidamente e Soluço assentiu. "Se você falhar... A cabeça do seu amiguinho aí vai acabar empalhada em cima da porta da nossa casa."

Soluço se encolheu ao ouvir aquilo e Banguela rosnou como se tivesse entendido. O garoto fez sinal para o dragão parar e esse o obedeceu.

"Obrigado..." Soluço sorriu para a irmã.

Biscoito assentiu, desviando os olhos para sabe-se lá o que, quase parecendo encabulada. Ela segurou a adaga com força e ergueu os olhos para o dragão e seu irmão.

"Boa sorte."

Então deu as costas aos dois e se dirigiu para a vila.

Soluço suspirou, sentindo seu corpo sem energia depois de toda aquela conversa. Banguela trinou para ele, apertando o corpo grande e escuro contra seu lado, o mantendo de pé. O garoto sorriu, feliz por ter o dragão com ele.

"É... Uma chance é melhor do que nenhuma, não é, Banguela...?" Ele murmurou.

Soluço não esperava que sua irmã concordasse. Sim, ela tinha dito algumas coisas horríveis, mas o garoto estava feliz em saber que ela ainda estava pronta para lhe dar uma chance.

"Nós vamos mostrar para ela, para todo mundo, certo, Banguela?" Soluço coçou em baixo da mandíbula do dragão que simplesmente ronronou, fechando os olhos e apreciando o carinho.

O garoto riu levemente. Era incrível como Banguela podia mudar de uma fera poderosa para um gatinho manhoso; e vikings não eram tão diferentes, como sua própria irmã podia comprovar.

Ele imaginou como seria um mundo com vikings e dragões vivendo juntos, como havia imaginado antes. Não ia ser fácil, ele sabia, mas se todos olhassem para além das diferenças, dos dentes pontiagudos, das garras longas...

Soluço esperava que um dia Biscoito pudesse ver os dragões do modo que ele os via.

Banguela trinou novamente, tirando Soluço de seus pensamentos.

"Estou bem, amigão." Ele disse simplesmente. "Vamos de volta para a- Aliás, como, pelos deuses, você conseguiu sair da campina, Banguela?!" Soluço exclamou, ainda um pouco surpreso pelo repentino aparecimento do dragão. "Eu lembro que você já tentou escalar, mas não teve sucesso..."

Banguela fez alguns sons baixos, como se estivesse tentando falar como humanos faziam. E mais uma vez Soluço se sentiu desapontado por não entender o Fúria da Noite.

"Bem, você devia voltar..." Soluço disse assim que o dragão se calou, sem vontade de interrompê-lo. Banguela soltou um trinar suave, virando a cabeça para o lado. "Antes que alguém veja você."

O dragão bufou, virando-se levemente e abaixando o pescoço, e Soluço já sabia o que aquilo queria dizer. Ele subiu nas costas do dragão, e os dois caminharam por entre as árvores até chegar num lugar mais aberto, onde Banguela poderia esticar as asas sem problemas e voar novamente.

Os dois pousaram dentro do cânion, assim como tinham feito mais cedo.

Perna-de-Peixe ainda estava parado perto da entrada, esperando por eles.

Soluço ainda não sabia bem como se sentir em relação ao amigo. Em parte ele queria ficar irritado. Se Perna-de-Peixe não tivesse contado para Biscoito que sabia para onde Soluço tinha ido, ele não teria tido toda essa discussão com sua irmã. Mas, quem sabe não foi para o melhor? Biscoito o tinha dado uma chance, ela tinha parado e ouvido o que ele tinha para dizer.

E, honestamente, Soluço se sentia cansado demais para ficar brabo com o amigo.

"Soluço..." Perna-de-Peixe falou timidamente e rapidamente se calou quando Banguela o lançou um olhar sério.

"Oi, Perna-de-Peixe..." Soluço murmurou sem forças, afagando o pescoço de Banguela.

"Me desculpa, eu não queria que..."

"Tá tudo bem, Perna-de-Peixe, deixa quieto..." Soluço se sentiu mal por interromper, mas não estava com vontade de ouvir as desculpas de seu amigo.

Houve silêncio entre eles. E Soluço puxou levemente a sela do dragão, come se decidindo se a removia ou não para a noite. Banguela não se moveu, como costumava fazer para brincar com o viking, ele devia estar tão cansado quanto o viking.

"Então era por isso que você estava falando sobre domar dragões..." Perna-de-Peixe se pronunciou novamente. "Você domou um Fúria da Noite?"

Por algum motivo, Soluço não se sentiu confortável com aquela palavra, "domar". Agora que ele sabia que dragões eram tão inteligentes quanto humanos, era estranho pensar que Soluço daquele modo. Não, ele não havia "domado" o dragão, ele havia virado amigo de um.

"Digamos que sim..." Soluço deu de ombros. Banguela soltou um arrulho baixo, encarando o humano com olhos curiosos, como se perguntasse se ele estava bem. Soluço apenas sorriu.

Perna-de-Peixe deu uma risada baixa.

"Incrível...!" Ele exclamou e Soluço riu, se sentindo um pouco melhor com a animação do amigo; mas o sentimento durou por pouco tempo. "Mas... Soluço... E o treino? Você vai... Hum..." Perna-de-Peixe seu uma olhada no dragão, antes de cobrir a boca para escondê-la da vista de Banguela, sussurrando para o ruivo. "Matar o dragão?"

Soluço sentiu seu estômago virar com aquela palavra. E ele sabia que Banguela tinha ouvido, uma vez que soltou um som estranho, abaixando as barbatanas no topo da cabeça.

"Não." Ele disse, decidido. "Não, eu nunca mataria um dragão."

"Então... O que você vai fazer?" Perna-de-Peixe perguntou. "Se não matar um dragão, você vai ser... Banido!"

"É, eu sei, Perna-de-Peixe, eu já pensei em todas as possibilidades..." Soluço se virou para o amigo finalmente. "Eu quero mostrar para os outros, Perna-de-Peixe, que a gente pode viver em harmonia com os dragões."

Banguela apertou a cabeça contra o lado do garoto, arrulhando e pedindo por atenção e carinho. Soluço riu levemente, fazendo como pedido.

Ele notou como Perna-de-Peixe observava a cena, um sorriso em seu rosto e os olhos brilhando. E Soluço se lembrou do que tinha tentado fazer mais cedo, antes que sua irmã intervisse.

"Perna-de-Peixe, você quer...?" Soluço estendeu a mão para o amigo.

"E-eu posso...?" Perna-de-Peixe gaguejou e dava para notar a animação em sua voz.

"Banguela, seja legal." Soluço disse para o dragão, que soltou um som grave do fundo de sua garganta, mas se manteve parado, encarando Soluço com um olhar estranho. "Aqui..."

Ele estendeu a mão para o amigo como havia feito antes e Perna-de-Peixe permitiu que Soluço segurasse seu pulso.

"Isso, agora espera ele vir..." Soluço instruiu e Perna-de-Peixe assentiu, ficando parado.

Banguela ficou parado, observando os dois pequenos vikings. Ele desviou os olhos da mão gorda estendida na sua direção, e para o ruivo. Soluço apenas sorriu, assentindo com a cabeça na esperança de que Banguela fosse em frente.

Soluço não era bobo, ele conseguia notar que Banguela ainda não parecia confortável com outros humanos, apenas com ele. Mas pensar em seus dois melhores amigos se dando bem era algo que Soluço não conseguia ignorar e ele esperava que Banguela entendesse.

Após mais alguns segundos de silêncio e imobilidade, Banguela fechou os olhos e se aproximou, apertando a ponta do focinho contra a palma da mão do viking.

"Oh!" Perna-de-Peixe exclamou, praticamente quase saltando no lugar, desviando os olhos do dragão para seu amigo, que sorria também. "Ohoho! Isso é... Incrível!"

Depois disso, não demorou para Perna-de-Peixe encher Soluço de perguntas.

Soluço contou para o amigo sua história e a de Banguela, e Perna-de-Peixe rapidamente ligou os pontos sobre todas as coisas "estranhas" que ele tinha visto o amigo fazer, tanto fora quanto dentro da arena. Agora tudo fazia sentido.

E Soluço se sentiu mais leve, talvez por estar finalmente contando um segredo que já estava guardando por muito tempo, talvez por simplesmente dividir aquelas informações com alguém que o entendia, que tinha tanto interesse sobre aquilo do que ele. Soluço agradecia aos deuses por ter Perna-de-Peixe desde quando era criança e tinha quase nenhum outro amigo, e ele continuava agradecendo.

E, para a alegria de Soluço, Banguela pareceu relaxar mais na presença de Perna-de-Peixe, até deixando que ele tocasse a ponta de sua asa quando mostrou interesse.

Ainda assim, Soluço não mencionou a mordida ou a habilidade de falar e entender dragões. Ele sentia que, mesmo que Perna-de-Peixe tivesse a mente bem aberta quanto ao resto, aquilo seria um limite.

De qualquer modo, por algum motivo, Soluço sentia que aquilo era algo muito... Pessoal. Algo que devia ser mantido só entre ele e Banguela – e os outros dragões da arena que já sabiam disso, é claro.

Quando os dois pararam de conversar – e de dividir informações sobre dragões, principalmente sobre Fúrias da Noite – já era tarde, e o céu já estava pintado com as cores do crepúsculo.

"Boa sorte na arena, Soluço." Perna-de-Peixe disse ao se levantar.

Soluço sentiu sua barriga revirar ao ser lembrado daquilo e toda a alegria de alguns minutos atrás sumiu. Banguela pareceu notar isso, se apertando contra o humano como se pudesse retirar esses sentimentos dele.

"Valeu, Perna-de-Peixe." Soluço disse com um sorriso mesmo assim.

"Mostra pra todo mundo o que você descobriu!" O loiro sorriu.

"É, eu... Eu vou tentar..."

"Eu vou indo... Ah, acho melhor levar o machado da Biscoito..." Perna-de-Peixe foi até o machado de Biscoito, que havia sido esquecido por todos até o momento.

"É, é melhor... Tirar isso daqui..." Soluço assentiu quando Banguela soltou um som estranho, encarar a arma com olhos sérios.

"Tá. Tchau, Soluço!" Mas antes de ir embora, Perna-de-Peixe se virou mais uma vez, sorrindo de orelha a orelha. "Ah, e tchau, Banguela!"

Soluço se voltou para o dragão que desviou os olhos para ele por um segundo, desinteressado. O garoto ergueu as sobrancelhas e Banguela bufou, fazendo uma careta e revirando os olhos. Ainda sem se virar para Perna-de-Peixe, Banguela soltou um arrulho, movendo a cabeça na direção do loiro.

Perna-de-Peixe soltou mais uma risada animada antes de acenar uma última vez e correr para a entrada.

"Viu? Não foi tão ruim, não é?" Soluço sorriu para Banguela, que apenas bufou.

"Ah... Soluço...?"

Perna-de-Peixe estava preso na entrada do cânion. Soluço segurou uma risada e foi ajudar seu amigo.

E assim que Perna-de-Peixe estava do outro lado da passagem, ele acenou mais uma vez para o amigo antes de retornar para a vila, enquanto Soluço retornou para Banguela.

"Ah...!" Ele se surpreendeu quando a cabeça grande do dragão apertou contra suas costas, o fazendo se virar. "Ei, o que foi, amigão?" Banguela soltou um trinar suave, quase tímido, encarando Soluço com olhos grandes e brilhantes.

Soluço não sabia o que se passava por trás daqueles olhos tão inteligentes, mas ele tinha uma ideia.

"Não se preocupe, Banguela. Vai ficar tudo bem." Ele disse, passando as mãos pela cabeça do dragão, apertando com as unhas do jeito que ele sabia que o dragão gostava. Banguela ronronou em resposta. "Nós já temos Perna-de-Peixe do nosso lado e... Talvez a Biscoito também..."

Banguela bufou e balbuciou de modo estranho, revirando os olhos. Foi uma reação tão cômica que Soluço quase riu.

"Ei!" Ele colocou as mãos na cintura, fingindo irritação. "Eu não sei o que você disse, mas ela é minha irmã, tá bom?"

Banguela soltou o mesmo bufado de antes, cutucando o garoto com a pata, como se tentasse empurrá-lo com um toque suave. E Soluço riu, empurrando o dragão do mesmo modo, que praticamente não se moveu.

Era incrível como minutos atrás ele estava tenso, nervoso e preocupado, mas agora era como se ele nem tivesse presenciado tais sentimentos. Mas não era realmente uma surpresa, ele sempre se sentia assim quando estava com Banguela.

"Foi muito legal você ter deixado o Perna-de-Peixe se aproximar assim, Banguela." Soluço sorriu, afagando acima do focinho do dragão. Banguela soltou um arrulho grave, mexendo o focinho e bufando baixo. "Que tal a gente ir pegar uns peixes pra você, hein?"

Banguela colocou a língua para fora e dançou no lugar como um cachorrinho animado e Soluço riu de seu dragão.

Os dois tiveram sorte de encontrar um pequeno cardume de peixes distraídos perto da costa da ilha, e quando retornaram para o cânion, tinham peixes o bastante para tanto o dragão quanto o humano. Soluço havia desenvolvido um gosto por peixe desde que havia conhecido Banguela, e ele se perguntava se tinha algo a ver com uma das primeiras interações entre eles – mas ele ainda não gostava de peixe cru, principalmente regurgitado, eca.

E quando os dois se sentaram frente à uma pequena fogueira – acesa por Banguela – era como se nada demais tivesse acontecido naquele dia, como se tudo não passasse de mais um dia comum para Soluço e Banguela.

Soluço desviou os olhos de seu peixe, observando Banguela enquanto esse comia. Era só o peixe ser pego entre os dentes da Fúria da Noite e esse logo desaparecia goela abaixo.

Era incrível como Banguela as vezes agia como um humano, as vezes agia como um animal, era como se ele vivesse dividido entre os dois estados. Soluço se perguntou como ele nunca havia notado isso antes. Não que ele conseguisse, uma vez que ao se ver cara a cara com um dragão, o mais normal para ele fazer era correr. Mas não agora.

E mais uma vez Soluço se pegou imaginando como era a "voz" de Banguela, como sua energia iria sentir, se ela ia ser forte e incisiva, ou calma, suave; se seria mais "humana" ou mais "animalesca". Ele queria tanto poder ouvir o que Banguela tinha a dizer a ele, seja lá o que fosse.

"Banguela..." O dragão engoliu um último peixe antes de dar ao garoto toda a sua atenção. "Você acha que um dia eu vou conseguir ouvir você?" Banguela balançou a cabeça levemente, soltando um arrulho alto. E Soluço não conseguiu segurar um sorriso. "Eu vou aceitar isso como um 'sim'. E eu concordo com você." Ele deu de ombros. "Bom, eu espero, né?"

Banguela soltou um choramingar baixo, apertando o focinho contra o ombro do garoto, bem onde as cicatrizes ainda marcavam sua pele. Soluço não sabia o que aquilo queria dizer, mas queria tanto entender.

Ele suspirou, e sentiu um arrepio descer por seu corpo e ele tremeu com o frio da noite que chegava.

Banguela fez um som, chamando a atenção do humano. Soluço não chegou a se mover, apenas observou enquanto Banguela se movia para ficar mais perto de Soluço, envolvendo-o com seu corpo como um escudo vivo.

Soluço sentiu quando o corpo forte e musculoso de Banguela apertou contra suas costas e, por algum motivo, ele sentiu suas bochechas esquentarem um pouco.

O dragão soltou um arrulho feliz, virando a cabeça de lado e mostrando um sorriso banguela.

"É, obrigado, Banguela." Soluço não conseguiu deixar de sorrir, notando que não estava mais tremendo. Uma asa de repente foi colocada acima dele. "Ah! Banguela!" O dragão apenas riu daquele modo meio humano dele e se voltou para sua pilha de peixes. "Seu réptil bobo..."

Mesmo assim, Soluço se aconchegou em baixo da asa do dragão, se sentindo muito mais confortável do que ele esperava.

Soluço sentiu suas pálpebras pesadas, sentindo o calor do corpo do dragão sendo transmitido para o seu, o envolvendo do mesmo modo que Banguela fazia com uma asa. E ele nem chegou a terminar de comer seu peixe, embalado pelo calor e o leve tremor do ronronar de Banguela.