Hermione estava cada dia mais se apaixonando pela Cidade do Cabo. Não era como se Snape e ela visitassem qualquer outro lugar da cidade além do beco onde usualmente aparatavam e os restaurantes da marina, mas toda vez que pensava na localização, sentia um quentinho no coração. Snape lhe deu dicas de como aparatar com sucesso para distâncias tão longas como aquela: eram os detalhes.
"Aquele tijolo quebrado," - ele apontou a base de um prédio – "aquela janela com a pintura descascada, aquele poste com a lâmpada sempre piscando... São nessas coisas que eu penso quando aparato para cá. Porque eu sei que são únicas, nenhum outro lugar do mundo tem essa mesma porta pintada pela metade." – ele apontou para cada uma das coisas enquanto anunciava.
Isso lhe permitiu uma nova abordagem sobre aparatação e ela estava confiante de que conseguiria sua licença sem dificuldades quando chegasse a hora.
"Antes que eu me esqueça," - Hermione disse assim que se sentaram à mesa do restaurante – "precisamos remarcar o encontro de amanhã."
"Aconteceu alguma coisa? "
"Na verdade, não. Apenas é o único horário disponível que o Professor Firenze tinha para me atender."
"Eu estava sob a impressão de que você não estava fazendo Adivinhação esse ano." – ele comentou casualmente.
"Desde quando você sabe da minha grade horária?" – ela provocou.
"Desde que eu preciso adequar os meus horários ao seus." – ele respondeu e ela corou.
"Preciso tirar umas dúvidas com ele sobre Magia da Terra. A culpa é totalmente sua por me incentivar."
"Se eu soubesse que o resultado seria você desmarcando nossos encontros eu não a teria incentivado." – ele brincou. "Você é horrível e incapaz de Magia da Terra. Ainda podemos nos ver amanhã?"
"Eu não disse desmarcar, eu disse remarcar." – ela riu. Jamais ia se acostumar com o fato de Severo Snape ter um senso de humor. "Aqueles livros da biblioteca de Hogwarts são horríveis, você tinha razão em dizer que estão extremamente datados. Mas tem uma parte interessante sobre os quatro elementos e como os signos do zodíaco afetam a capacidade de canalização da Magia da Terra. Achei que valia a pena ter uma conversa sobre isso com alguém que entendesse do assunto. O problema é que diferente de um certo professor que sabe ser extremamente desagradável em sala de aula a ponto de espantar qualquer aluno interessado em tirar dúvidas fora do horário de aula, o Professor Firenze tem uma agenda cheia."
"Eu te garanto que o motivo do centauro ter uma agenda tão cheia deve-se pouco à sua simpatia, e mais aos seus cabelos prateados e olhos azuis." – Snape respondeu em um tom quase magoado.
"Ele me pediu para preencher um formulário com o motivo do meu pedido de encontro... Então suponho que você tenha razão. Para mim, faz pouca diferença." – ela deu de ombros. "Cabelos loiros e olhos claros não fazem o meu tipo."
"Façamos assim, então: sem jantar amanhã. Porém você pode me encontrar em meu escritório depois de conversar com Firenze."
Hermione fez uma cara provocativa.
"Somente para conversar!" – ele levantou as mãos. "Eu estou genuinamente interessado em Magia da Terra, caso não tenha notado."
"Senhorita..." – Firenze procurou o nome no topo do formulário – "Granger. Em que posso te ajudar nessa tarde?"
"Professor Firenze." – Hermione cumprimentou. "Desde já eu te agradeço por dispor de seu tempo para tirar as minhas dúvidas."
"Astronomia." – ele ainda consultava o pergaminho. "Não imaginava que uma aluna tão pouco entusiástica sobre Adivinhação como a senhorita se demonstrasse interessada no assunto. Ainda mais agora que você pode escolher o que estudar para os NIEMs."
"Então," - ela corou levemente – "minhas dúvidas são sobre astronomia, mas não sobre Adivinhação, por assim dizer."
Ele abaixou o pergaminho e franziu o cenho.
"Eu tenho todo o respeito pela área," - ela se apressou em se justificar – "apenas não é algo do meu interesse imediato."
"Está tudo bem, senhorita Granger." – o centauro apontou para uma cadeira ao lado da janela. "Eu estava apenas puxando a conversa, sem julgamentos."
"O que me trouxe aqui," - ela disse sentando-se na cadeira indicada – "foi... Veja bem, eu nem sei por onde começar. Então organizei meus pensamentos em forma de perguntas. Você se importaria?" – ela disse desenrolando um pergaminho que trazia consigo.
Ele balançou a cabeça, a incentivando.
"Quanto a posição das estrelas na data do nascimento de uma pessoa influencia em suas habilidades mágicas?"
"Senhorita Granger, a Astronomia e a Adivinhação em si não são ciências exatas. Talvez por isso não lhe agrade tanto." – ele sorriu bondosamente. "Você tem uma fama entre os professores de ser uma aluna mais do que dedicada aos estudos e uma fome voraz pelo conhecimento através dos livros. Eu temo que talvez minhas respostas não sejam tão esclarecedoras quanto você espera. A posição das estrelas influencia muito ou nada nas habilidades mágicas dos seres."
Hermione suspirou.
"Qual a relação dos signos do zodíaco com os elementos da natureza?" – ela prosseguiu para a próxima pergunta no pergaminho.
"É uma divisão muitas vezes mais categórica do que prática. São doze os signos do zodíaco e são quatro os elementos da natureza. Doze é um número divisível por quatro, então os signos são atribuídos em grupos de três a cada um dos elementos. Mas assim como a resposta à sua dúvida anterior, isso influencia muito ou nada na natureza dos seres."
Sentindo que ele não ia lhe dar as respostas necessárias ela pulou várias das perguntas seguintes e foi direto ao ponto.
"Pessoas nascidas sob signos atribuídos ao elemento terra têm mais chances de canalizar Magia da Terra?" – ela leu uma das últimas perguntas do pergaminho.
"Hmmm..." – ele ponderou cruzando os braços sobre o peito. Essa é de fato uma pergunta interessante. "Qual é o seu conhecimento sobre Magia da Terra?"
"Pouco, estou apenas começando meus estudos nessa área. Eu topei com as definições de signos e elementos no que diz respeito à canalização da Magia da Terra e fiquei perdida. Por isso pedi uma reunião com o senhor."
"Fez bem, senhorita Granger. Acho que o têm te confundido é o termo 'canalizar'. Eu presumo que a sua curiosidade tenha surgido porque você nasceu sob um signo da Terra e tem tentado canalizar a Magia da Terra. Estou correto?"
Ela acenou afirmativamente. Sabia que poderia entrar em apuros se alguém descobrisse que ela estava estudando Magia da Terra depois de uma negativa do Ministério da Magia sobre o assunto, mas ela teve a impressão de que Firenze não fazia o tipo fofoqueiro. E mesmo que ele fizesse, quem no Ministério daria ouvidos a um centauro? Ela não tinha esse preconceito, mas o tratamento que Dolores Umbridge tinha dispensado à manada de centauros na Floresta Proibida ainda no começo desse ano lhe deixou bem claro qual era a política do governo em relação a essas criaturas.
"Então vejamos se eu posso te ajudar a esclarecer seus pensamentos. Sim, você que nasceu sob um signo da Terra tem Magia da Terra em si. Assim como todos os outros organismos da Terra."
Ela franziu a testa em confusão e Firenze sorriu.
"Todos os outros organismos?" – ela perguntou confusa.
"Todos eles. Desde não humanos como centauros, duendes, gigantes até animais como cães e gatos. Desde plantas da menor das ervas a mais alta das sequóias. De bruxos e bruxas até trouxas."
"Trouxas tem Magia da Terra em si?"
"Sim." – ele respondeu simplesmente.
"Desculpe-me, Professor. Mas meus pais são trouxas e por mais que eu os ame... Eu sei reconhecer magia quando a vejo. E eles não tem nenhuma."
"Sua mãe não te gerou no ventre dela, com o auxílio de seu pai? – ele perguntou em um tom cauteloso."
"Sim, mas..."
"E como exatamente isso aconteceu?" – ele a interrompeu.
Hermione corou mais uma vez. É claro que ela sabia como isso aconteceu, mas não significava que ela queria ter a conversa sobre de onde vêm os bebês com um professor.
"Assim como uma semente que é plantada em solo fértil e gera um broto, assim as pessoas são geradas no ventre de suas mães. Responda-me, senhorita Granger: se uma semente for plantada em solo fértil na estação errada, ela brotará?"
"Dificilmente."
"E da mesma forma, uma semente plantada no ventre de uma mulher na época errada dificilmente gera um fruto. Longe de mim tentar te fazer parecer apenas um receptáculo onde um homem deposita sua semente, ou um objeto incapaz de algo além de gerar outro ser dentro de si. Mas existe um motivo para as mulheres humanas serem mais bem sucedidas na canalização da Magia da Terra. Você tem todas as ferramentas necessárias para tal feito. Só lhe falta a prática."
Demorou alguns segundos para Hermione perceber que ele não ia falar mais nada, então ela partiu para a próxima pergunta de sua lista:
"Existe alguma relação de interação entre os signos do zodíaco? De pessoas, eu quis dizer." – ela complementou quase que imediatamente. "É possível que pessoas em conjunto possam colaborar na canalização de Magia da Terra?"
"Sim, é possível. Mas como funciona ainda é muito debatido. Há quem diga que pessoas do mesmo signo tem mais facilidade de interação, outros dizem que pessoas de signos que estão sob o mesmo elemento interagem melhor. E também há quem diga que quatro pessoas unidas, com diferentes signos um sob cada elemento da natureza, conseguem alcançar feitos quase milagrosos."
"Como alguém domina os elementos da natureza e canaliza a Magia da Terra?" – parecia uma pergunta idiota. Tão idiota que ela nem estava escrita no pergaminho, mas Hermione sentiu necessidade de perguntar.
"Todos gostaríamos de saber, não é mesmo?" – Firenze sorriu. "Qualquer pessoa que afirme ter ciência do método exato de dominação dos elementos e canalização da Magia da Terra estará mentindo. Da mesma forma que as folhas de uma árvore, por maior que seja a sua quantidade, não são iguais umas às outras, assim são as pessoas. E por não serem iguais, jamais obterão os mesmos resultados diante das mesmas práticas. Por isso Magia da Terra, embora extremamente poderosa e útil, não pode ser ensinada em uma sala de aula. Nenhum professor, por mais habilidoso que seja conseguiria ensinar exatamente alguém a canalizar e dominar algo tão cru e inerente dos seres como Magia da Terra."
Hermione passou bons minutos apenas absorvendo tudo que Firenze lhe disse. Sua cabeça parecia rodar diante de todas as possibilidades.
"Vejo que a minha 'ajuda'" – ele gesticulou aspas no ar – "levantou mais perguntas do que lhe deu respostas."
Ela sorriu sem graça.
"Se a senhorita tem de fato interesse em se descobrir eu sugiro que entre em contato com os elementos. Ande descalço sobre a grama, tome banho de chuva, sinta a brisa soprar a copa das árvores e, com todo o cuidado devido, observe o fogo. Meu melhor palpite é de que essas atividades lhe darão mais repostas do que eu jamais poderia lhe dar."
Snape estava sentado em sua escrivaninha corrigindo os trabalhos do quarto ano Corvinal. Ele odiava ensinar, principalmente os corvinais. Ao contrário da crença popular de que eles eram extremamente inteligentes e dedicados a verdade é que eles distorciam tudo com o objetivo de enlouquecê-lo; essa era a única explicação.
Se não fosse por isso, como uma redação com o título de "A importância dos defletores de azaração" poderia conter tanta baboseira sem nexo quanto os pergaminhos à sua frente?
"Uma azaração não precisa ser defendida se for bem executada"
"Defender uma azaração é apenas postergar para amanhã um problema que deveria ser resolvido hoje"
"A melhor defesa é um bom ataque"
Essas eram apenas algumas das frases contidas nos trabalhos que ele se estressava em corrigir no momento. Uma leve enxaqueca começava a se formar na área atrás de seus olhos. Ele decidiu naquele momento que para a Corvinal a partir de agora nada mais de redações: apenas testes de múltipla escolha. Ele não tinha a sanidade necessária para se colocar nessa situação durante um ano inteiro.
De repente a porta de seu escritório abriu com uma alta batida e Hermione Granger adentrou o cômodo. Ela se jogou no sofá na parede lateral e colocou o braço por cima dos olhos, posando como se estivesse prestes a começar uma sessão de terapia.
Ninguém jamais ousaria entrar em seu escritório sem ao menos bater na porta antes. Ninguém além de Hermione Granger. Era a metáfora perfeita para o que eles estavam vivendo agora: ela entrando sem cerimônias em sua vida e se deixando descansar na presença dele como se fosse a coisa mais natural do mundo.
"Como foi a conversa com o centauro?" – ele começou a juntar os pergaminhos. As redações poderiam esperar.
"Minha cabeça dói." – ela gemeu.
"Conversas com centauros geralmente têm esse efeito. A única pessoa que eu conheço que consegue ser tão evasiva quanto eles ao conversar é Dumbledore."
"Esse negócio de Magia da Terra está me esgotando. E olha que eu nem comecei a praticar ainda, tudo isso é apenas pesquisa de campo. Acho que eu vou precisar mais de livros de filosofia do que de magia para fazer o conceito penetrar de fato na minha cabeça." – ela pressionou os olhos com o polegar e indicador.
"Eu tenho alguns volumes sobre relativismo que posso lhe emprestar." – ele provocou. "Você pode ler no seu tempo livre."
"Tipo nas férias de Natal?" – ela perguntou esperançosa.
"Eu não vou te falar pra onde vamos, e ponto final." – ele sorriu.
"Odeio não saber das coisas e não poder planejar..."
"Você está se ouvindo? Um minuto atrás você estava reclamando de que tudo é demais e quando eu te poupo do fardo da preocupação você reclama também?"
"Eu só estava me perguntando que tipo de roupas eu devo colocar na mala." – ela fingiu inocência.
"Faça suas malas como se estivesse indo para a casa de sua família." – dois podem jogar esse jogo, ele pensou.
"Se eu estivesse indo para a casa dos meus pais eu não precisaria de uma mala, pois tenho roupas lá."
"Boa tentativa. Faça suas malas como se não tivesse roupas na casa de seus pais." – ele entrelaçou os dedos das mãos e as levou para a nuca, inclinando a cadeira levemente para trás.
"Eu tenho um gato, e ele vai comigo para casa nas férias. Esse lugar para onde você vai me levar é adequado para um bicho de estimação?"
"Quão inconveniente é a criatura?"
"Tão inconveniente quanto um gato pode ser." – ela deu de ombros.
"Não era a resposta que eu estava esperando." – ele cruzou os braços sobre o peito.
"É a verdade. Não serei responsabilizada por suas expectativas." – Hermione comentou sufocando um bocejo.
Isso estava ficando perigoso demais. Não só pela velocidade com que Hermione Granger estava ficando à vontade em sua presença, mas pela velocidade em que ele estava ficando à vontade na presença dela também. Isso vai ser uma bagunça enorme quando eles precisarem terminar. Porque Severo Snape sabia que a verdade era essa: independente de quão divertido fosse, uma hora iria terminar. Como tudo na vida dele.
