Capítulo Vinte: Destroços de um Sonho Dissolvido
"Hey, Harry."
Harry piscou e acordou lentamente, colocando a mão automaticamente na cicatriz. Havia um leve traço de sangue lá - o que não era surpresa, já que ele havia mais uma vez sonhado com as figuras sombrias se contorcendo de dor e o círculo de sombras se fechando ao redor dele. Ele fecchou a mão cuidadosamente, fazendo parecer que estava enxugando suor em vez de sangue, e então se virou com igual cuidado. Ele estava com cãibra no pescoço por dormir na cadeira ao lado da cama de Draco.
A primeira coisa que ele verificou foi se Draco ainda estava dormindo, sua mão sob a bochecha em um gesto distintamente infantil. Então ele se virou e olhou para Connor. Seu irmão parecia hesitante, seus olhos disparando em várias direções antes de pousarem no rosto de Harry.
"Eu, hum," disse Connor. Ele prendeu a respiração e prendeu o lábio entre os dentes como se o complementasse. "Eu fui e conversei com Sirius e Remus. Eles sabiam que você provavelmente gostaria de saber por que eles não vieram e nos ajudaram quando ouvimos o uivo do segundo lobisomem. "
Harry assentiu com a cabeça, cansado. Os sonhos ainda permaneciam em sua mente, querendo envenená-lo, mas ele se obrigou a deixar de lado o medo. Ele se preocuparia com eles mais tarde. Ele tinha que se preocupar com seu irmão agora.
Connor balançou a cabeça. "Remus foi longe demais na mata. Ele estava se divertindo tanto correndo que não sabia o que o uivo do lobisomem significava. E então Sirius estava com ele, e foi pego na corrida também, e não percebeu que eu havia ficado tão para trás ou em tal perigo." Seus olhos se voltaram para os de Harry e se desviaram novamente. Harry supôs que ele não sabia como se sentir. Esta era apenas a terceira vez que a vida de Connor corria um perigo tão intenso. Apenas Voldemort o havia ameaçado tanto antes.
"Tudo bem", disse Harry. "Mas acho que eles poderiam cuidar melhor de você da próxima vez, se eles vão levá-lo com eles novamente."
Connor assentiu com fervor. "O diretor Dumbledore já os fez prometer que cuidariam de mim."
Então Dumbledore é útil para alguma coisa, pensou Harry, e esticou os braços acima dele, balançando a cabeça levemente para convencer seu cabelo a ficar ajeitado, ou o mais ajeitado possível. Pelo menos posso confiar que ele tomará providências para a segurança de Connor. "Obrigado por me dizer, Connor. Eu estaria me questionando isso." Ele olhou novamente para Draco e sorriu quando viu que suas pálpebras estavam tremendo.
"Harry…"
Harry se voltou para seu irmão. Se Connor não sabia como lidar com o perigo, ele pensou, ele ertamente não devia saber como lidar com seu irmão salvando sua vida. Desta vez, Connor sabia o que havia acontecido. Da última vez, Harry o tinha obliviado.
Ele estremeceu com o pensamento. Jurei que devolveria a Remus suas memórias. O que posso fazer sobre as de Connor? Existe uma maneira de curar sua mente sem fazê-lo me odiar?
Connor prendeu a respiração, depois soltou tudo com pressa e disse: "Obrigado por salvar minha vida. Eu sei que você é bom, não importa o que Sirius diga sobre os Sonserinos. Obrigado." Ele deu quase um pulo para frente e deu a Harry um abraço rápido e apertado, inclinando-se para trás quase rápido demais para Harry poder retribui-lo.
Mas foi apenas quase, e Harry abraçou seu irmão com firmeza. Ele podia sentir um peso, que havia carregado por tanto tempo que mal tinha conciencia dele, cair de seus ombros. Ele tinha a afeição de seu irmão de volta. Não havia nada mais importante, não quando ele estava sendo honesto consigo mesmo.
"Harry?"
Harry se virou e encontrou os olhos de Draco. Draco corou e estava carrancudo. Harry balançou a cabeça quando percebeu que Draco provavelmente estava com ciúmes de Connor e da atenção que estava recebendo de Harry. Parecia que havia muito poucas coisas das quais Draco não teria ciúme, e quanto mais ridículo, melhor. Harry soltou Connor, no entanto, já que era óbvio que seu irmão queria ir embora.
Connor deslizou até a porta da ala hospitalar e se virou para sorrir para Harry, evitando os olhos de Draco. "Vejo você no café da manhã, Harry."
Harry assentiu com a cabeça para ele, e então se virou e encontrou o olhar de Draco, levantando suas próprias sobrancelhas. "O que?" ele perguntou, quando a carranca de Draco não desapareceu.
"Você quase morreu por ele ontem à noite," Draco disse. "E então ele vem e trata você assim."
Harry piscou. "O que você quer dizer? Ele me trouxe boas notícias. Me abraçou. Isso dificilmente é me tratar mal. "
"Ele deveria estar rastejando," disse Draco. "Não posso acreditar que ele fala umas simples palavrinhas e você simplesmente o aceita assim." Ele estalou os dedos, um gesto que Harry nunca o vira fazer. "Você quase morreu, Harry!"
"Você também," Harry apontou, decidindo suprimir a linha de pensamento que Draco estava formando o mais rápido que podia. Draco não era Snape, e ele provavelmente ouviria a repressão. Harry já estava se arrependendo de ter contado a qualquer um deles sobre o ataque de Greyback. Connor provavelmente não teria dito nada, e nem mesmo Sirius e Remus ou seus aliados puro-sangue. Harry havia prometido ser mais honesto, mas quando as pessoas eram irracionais em resposta às suas revelações, ele poderia ser culpado por esconde-las?
Draco se acalmou com o lembrete, baixando os olhos para as mãos. "Sim", disse ele. "E eu tenho outra dívida de vida com você, Harry."
"Ah, não, você não tem," disse Harry, lembrando exatamente para o que Draco havia usado sua última dívida de vida. "Você não estaria em perigo se não fosse por mim. Acho que alguém estava tentando machucar você para chegar até mim. Então, acabei de salvar a vida que eu coloquei em perigo. "
"Eu posso ter uma dívida de vida com você se eu quiser," Draco disse, parecendo rebelde. Então ele sorriu. "A menos que você se recuse a aceitar, é claro", disse ele. "Ou a menos que você vá me forçar a retirá-la."
Harry rangeu os dentes. "Por favor, Draco", disse ele, "não se vincule a uma dívida de vida comigo."
"Por que não?" Draco inclinou a cabeça para o lado e cruzou os braços. "Estou esperando por um bom motivo, você sabe. O que você fez com a cobra na noite passada foi impressionante pra caralho. "
"Porque me envergonha", disse Harry. "E eu realmente prefiro não ter uma dívida que eu possa me sentir tentado a invocar só porque você está sendo mesquinho."
Draco bufou. "Harry, você é a última pessoa que eu acho que abusaria dos rituais puros-sangues por motivos mesquinhos."
"Você se esqueceu de outras coisas sobre mim", disse Harry, com um leve sorriso. "Eu posso querer que você pare de me aborrecer sobre Connor, ou me deixe em paz, e invoque a dívida para fazer você me deixar em paz em vez de manobrar você para que você tenha tanto dever de casa que precisa parar de me seguir."
"Você é muito sonserino para o seu próprio bem," Draco murmurou, e então se jogou de volta na cama. "Eu tenho que ficar aqui," ele adicionou em uma voz patética quando Madame Pomfrey apareceu. "Eu me sinto trêmulo e vejo a cobra toda vez que fecho meus olhos."
Madame Pomfrey falou imediatamente. "Claro que deve estar, pobrezinho," ela disse. "Não é todo dia que um dos alunos de Hogwarts quase morre." Ela acenou com a varinha e lançou um feitiço que Harry vagamente reconheceu como uma proteção que diria a ela o estado físico e emocional de seu paciente quando ela checasse. "Apenas fique aqui. Vamos garantir que nenhum artefato das Trevas pegue você." Ela foi embora.
Harry balançou a cabeça. "Quem estava falando sobre ser sonserino?" ele perguntou, e recebeu um sorriso presunçoso de Draco. Ele ficou. "Eu tenho que ir para o café da manhã."
"Você poderia ficar aqui comigo," Draco sugeriu. Sua voz era suave e brincalhona, mas seu olhar era intenso. "Eu acho que Madame Pomfrey não iria deixar você sair se contasse a ela o que realmente aconteceu na noite passada. E eu gostaria da companhia. "
Harry suspirou. "Sinto muito, Draco, mas eu realmente tenho que assistir às aulas." Ele estendeu a mão e segurou o braço do outro garoto com força por um momento. Draco virou a mão para cima de forma que ficassem palma com palma. "Por que você não pensa em escrever para seus pais? Eles ficarão frenéticos, tenho certeza. "
"Eu gostaria de poder dizer o mesmo sobre os seus," Draco disse, e então se deitou, seu rosto quase descontente.
Harry deu de ombros e saiu da ala hospitalar. Ele já estava trabalhando para enterrar as memórias do ataque de Greyback. Ele queria ter certeza de que pareceria absolutamente calmo e composto quando encontrasse Snape e conversasse com ele sobre essas novas restrições que seu guardião havia decidido impor.
Eu sei que ele vai ser idiota sobre algumas coisas agora, e ele vai notar qualquer cansaço ou fraqueza que eu demonstre - mesmo que isso venha dos sonhos e não do ataque.
No meio do caminho para as masmorras, para seu aborrecimento, ele teve que desviar para o banheiro e lavar o sangue de sua cicatriz novamente. Pelo menos sua cabeça não estava doendo.
"Você está pronto desta vez, eu acredito?" A voz de Snape era casual, e ele não tirou os olhos das redações que estava corrigindo.
Harry ergueu os olhos do próprio livro e assentiu com a cabeça, uma vez. Ele não via sentido em falar. Ele pensou que sua voz poderia tremer apesar de toda sua preparação.
Eles receberam a notícia três dias atrás que o Ministério pretendia visitar este fim de semana e verificar o "progresso" de Harry. A carta muito educada do Ministério tinha revelado mais do que Amelia Bones talvez pretendesse, e Harry sabia que Kingsley Shacklebolt tinha autoridade para fazer perguntas mais investigativas desta vez. Ele se perguntava se Dumbledore tinha falado com Madame Bones, ou se ela simplesmente tinha ficado impaciente e nervosa com o pensamento de que alguém na imprensa ficasse sabendo da falta de progresso dos Aurores em quebrar o feitiço de seus pais. Não houve mais artigos especificamente sobre ele desde a primeira liberação de sua magia, mas Skeeter estava sempre aproveitando a oportunidade para, de alguma forma ou estilo, direcionar a ele seus outros artigos.
Harry olhou uma vez para o relógio na parede e piscou. Os aurores deveriam ter chegado nos aposentos privados de Snape vinte minutos atrás. Ele mordeu o lábio pensativamente e voltou a ler.
Uma batida forte na porta um momento depois o fez quase deixar o livro cair. Snape se levantou e olhou para ele. "Conforme nos preparamos", disse ele.
Harry concordou. Sua respiração estava acelerada e ele disse a si mesmo para calar a boca e parar de ser ridículo. Ele enfrentou Fenrir Greyback. Era estúpido ficar nervoso perto de Aurores do Ministério que não podiam fazer nada com ele.
Magicamente. Mas eles poderiam tirar a tutela de Snape e forçá-lo a viver com Dumbledore ou Sirius ou seus pais.
Harry não queria isso. Seus sentimentos ainda eram uma bagunça confusa em relação a todos eles. Ele temia que, se passasse muito tempo com eles agora, um deles acabaria gravemente ferido ou morto.
Ele se levantou e esperou o mais calmamente que pôde enquanto Snape abria a porta para os Aurores. Snape fez um único movimento súbito de contração, entretanto, e com esse movimento deixou Harry saber que algo estava errado. Ele balançou a manga e deixou a varinha cair na palma da mão, enquanto ao seu redor sua magia se mexia e abria um olho.
Mas então Snape deu um passo para o lado, o que certamente não faria se os Aurores tivessem chegado com varinhas em punho ou Marcas Negras, e disse: "Esta é uma honra inesperada. Bem-vindo. Eu sou o Professor Severus Snape, Mestre de Poções em Hogwarts, Diretor da Casa Sonserina e guardião de Harry Potter. "
Harry franziu a testa e esticou o pescoço, já que ainda não conseguia ver além da cabeça de Snape. Mandaram alguém novo, que tinha a necessidade de se apresentar novamente? A carta dizia apenas que viriam Shacklebolt e Feverfew.
Eles realmente haviam enviado alguém novo, alguém que entrou na sala antes de Shacklebolt e Feverfew como se fosse o dono do lugar. Harry ficou olhando. Este homem era mais velho e mancava ligeiramente, o que não fazia absolutamente nada para diminuir seu ar de dignidade ancestral - a marca de alguém treinado nos modos puro-sangue quase desde o primeiro movimento. Ele usava óculos, como James, mas seus olhos eram de um amarelo surpreendente. Ele ergueu a cabeça enquanto acenava para Harry, como se fosse impossível para ele dobrar o pescoço de verdade.
"Sr. Potter," ele disse, em uma voz profunda parecida com o rosnado de um leão. "Meu nome é Rufus Scrimgeour, Chefe do Escritório dos Aurores."
Harry olhou-o com mais atenção. Ele tinha ouvido falar de Scrimgeour, é claro - ele estudou sua família junto com a dos Malfoys e dos Parkinson e todas as outras que poderiam algum dia ser valiosas como aliadas ou inimigas para o sucesso de Connor. Eles estavam entre os mais orgulhosos e prestigiosos dos puros-sangues, sempre selecionados na Sonserina, até que o avô de Scrimgeour colocou na cabeça se casar com uma bruxa Nascida-Trouxa da Grifinória, aparentemente porque ele queria. Seu pai meio-sangue se tornou um Corvinal, e se explodiu em algum experimento louco de Poções enquanto seu filho ainda era bebê. Então Rufus Scrimgeour veio para Hogwarts, foi selecionado na Sonserina, e declarou a intenção de não usar magia da trevas, nunca, quando ainda tinha doze anos. Ele nunca usou.
Os Scrimgeours são uma família muito confusa, Harry pensou, na primeira vez que terminou de estudá-los.
Mas—e isso era o mais importante no momento—Rufus Scrimgeour nunca foi amigo de Dumbledore.
Por que ele estava aqui, por que ele teria sido autorizado a entrar em uma investigação controlada por um Auror da Ordem, estava além da compreensão de Harry.
Então ele teve um vislumbre do rosto furioso de Shacklebolt sobre o ombro de Scrimgeour, e a peça se encaixou no lugar. Shacklebolt ainda estava sob o controle de seu superior, não importando quem ele pudesse servir em segredo. Se o Chefe dos Aurores quisesse se convidar para esse tipo de investigação, Shacklebolt dificilmente estaria em posição de dizer não.
Harry sorriu sinceramente, algo que não pensou que faria durante a visita, e inclinou a cabeça. "Olá senhor. Meu nome é Harry Potter, como tenho certeza que você já sabe, e você já conheceu meu tutor, o Professor Snape. "
Scrimgeour fez um som suave que poderia ou não ter sido uma risada. Seus olhos não haviam deixado o rosto de Harry. Harry se perguntou o que ele estaria vendo ali. "Realmente. Agora. Eu entendo que o Auror Shacklebolt falou com você da última vez? " Harry concordou. "Então eu acho que ele deveria falar com seu guardião desta vez, e eu vou entrevistar você. Sozinho", acrescentou ele, como se tivesse sentido o movimento de Feverfew vindo junto com ele. Feverfew murchou. Harry achava que isso se devia menos ao desejo de ouvi-los - ele ainda não sabia se Feverfew fazia parte da Ordem – e mais ao desejo de evitar ficar com Snape.
"Eu acho que é uma excelente ideia," disse Snape suavemente. "Eu acredito que você não fará ao meu pupilo nenhuma pergunta que esteja fora da linha, Scrimgeour?"
O bruxo mais velho se virou totalmente e encarou Snape, fazendo parecer que seu mancar era uma parte natural de seu andar e não uma enfermidade. Ele também não parecia chateado com a falta de um título. "Não," ele disse. "Claro que não. Que tipo de auror faz isso? " Então ele se virou, encontrou os olhos de Harry novamente e acenou com a cabeça em direção ao fundo da sala, perto das estantes de Snape.
Harry o seguiu. Ele já estava louco de curiosidade. Scrimgeour pode ter vindo apenas para irritar Dumbledore, mas isso significaria que ele já deveria saber algo sobre a investigação e a natureza incomum dela. Harry duvidava muito que o Chefe do Gabinete dos Aurores saísse constantemente e deixasse o Ministério por capricho.
Scrimgeour encostou-se na parede e observou Harry. Harry o observou de volta. Ele percebeu que não tinha ideia do que aconteceria a seguir e ficou bastante feliz com isso. Pelo menos ele sabia que estava lutando contra um oponente que não estava interessado em colocar uma teia de fênix nele.
"Agora," disse Scrimgeour, que parecia gostar dessa palavra. "Eu gostaria das respostas para algumas perguntas honestas."
Harry ergueu as sobrancelhas, deixou um pequeno sorriso brincar em seus lábios e assentiu com a cabeça.
"Por que você escolheu o Professor Snape para adotá-lo?" Os lábios de Scrimgeour contrairam por um momento, em uma expressão tão rápida que Harry não poderia dizer se era um sorriso ou escárnio, e seus olhos fizeram um tour igualmente rápido pela sala. "Eu posso sentir magia das trevas em todos os lugares aqui."
Harry acenou com a cabeça novamente. Scrimgeour tinha caçado bruxos das trevas como modo de vida por mais de trinta anos. O fato de ele ter sensibilidade para esse tipo de magia não surpreendia Harry. "Eu o escolhi porque confiei nele", ele disse. Ele fez uma pausa, então decidiu que, mesmo treinado nos modos puro-sangue como este homem obviamente era, ele não parecia inclinado a executar as danças, e Harry não tinha razão para fazer isso com ele. "E porque pensei que ele poderia me proteger da interferência de Dumbledore."
O olhar de Scrimgeour estava absolutamente preso nele agora. Harry o viu analisar tudo o que Harry havia dito, incluindo a falta de um título para Dumbledore, e então sorriu. Harry piscou. Era um sorriso amplo, aberto e deslumbrante, que transformou todo o rosto do homem em algo acessível.
"Sim, bem, Dumbledore deveria saber que seu bruxo das Trevas domado poderia ser usado contra ele mais cedo ou mais tarde," murmurou Scrimgeour. "E por que você confia em Snape mais do que em seu padrinho?"
Harry hesitou por um longo momento. Ele tinha que dar um passo cuidadoso. Ele tinha poucos escrúpulos em manobrar Dumbledore para uma armadilha; o envolvimento de Shacklebolt aqui apenas provava que Dumbledore ainda estava tentando prendê-lo. Mas ele não tinha o direito de revelar o passado de Sirius.
"Eu não confio nele", ele se contentou em dizer por fim.
Scrimgeour sorriu para ele, uma expressão feroz. "Entendo", disse ele. "E isso teria algo a ver com o legado das Trevas razoavelmente grande que a família Black representa?"
Harry piscou novamente. Scrimgeour estava oferecendo a ele uma maneira de escapar de ser forçado a ficar com Sirius - uma maneira baseada em uma alegação que Scrimgeour saberia ser falsa, mas na qual todos os outros certamente acreditariam, já que sabiam como o Chefe dos Aurores tinha uma visão sombria dos Bruxos das trevas. Claro, algumas pessoas diriam que ele estava sendo irracional, mas tudo bem. Scrimgeour tinha muito mais espaço para obstruir legalmente as coisas do que Harry. Deixe-o entrar para bagunçar as coisas, e a investigação rápida do Ministério ficaria terrivelmente lenta.
"Por quê?" Harry sussurrou.
Os olhos de Scrimgeour foram para o outro lado da sala, onde Snape estava sendo mordazmente educado com Shacklebolt. "Mais um pouco de informação sua", ele disse. "Eu pensei por um longo tempo que Shacklebolt parecia mais apegado a Hogwarts do que o normal. Isso é verdade?"
Obviamente, ser devotado à Luz não o impede de ter um cérebro. Harry assentiu.
Scrimgeour exalou e deu aquele sorriso selvagem novamente. "Eu sabia", disse ele, e então se concentrou em Harry. "Não sei o quanto você sabe sobre os Lordes", ele disse.
"Bastante," disse Harry, pensando na carta de Starborn.
Scrimgeour assentiu com a cabeça. "Dumbledore é um Lord da Luz. Você-Sabe-Quem é um Lord das Trevas. Eu não gosto deles. Nenhum deles. É por isso que trabalho para o Ministério. O Ministério é ineficiente, simplório e mesquinho e escolha qualquer outro adjetivo que quiser, mas é um lugar normal. Ele dá aos bruxos normais a chance de mudar as coisas, uma vez que nem todos temos o poder de um Lord. Em um dia normal, nós equilibramos as coisas. Eu não gosto de Lords mexendo com meu Ministério. Dumbledore está fazendo isso agora. " Ele olhou diretamente nos olhos de Harry. "Agora, talvez você se torne um Lord, e se for assim, então lutarei contra você tanto quanto lutei contra os outros. Mas, até que você se torne, você é outra pessoa que Dumbledore está tentando controlar e, além disso, alguém que poderia lutar contra ele de forma muito mais eficaz do que outras pessoas poderiam, se você pudesse se livrar de algumas das barreiras em seu caminho. Eu farei minha parte com as barreiras legais. Você pode me retribuir não se tornando um maldito Lord e dando ordens às pessoas sobre como o resto deles faz. "
Harry sentiu seu coração aumentar de admiração. Scrimgeour era confuso e contraditório, um sonserino devotado à luz, um puro-sangue que falava como um Nascido-Trouxa, e parecia que gostava de ter a liberdade de ser assim. Harry estava inclinado a respeitar alguém assim. Ele assentiu. "Eu posso fazer isso."
"Então você não confia em Sirius Black porque ele é um bruxo das trevas", disse Scrimgeour, parecendo profundamente interessado. "E quanto aos seus pais? Essa foi a magia das trevas lançada sobre eles. Eu soube no momento em que os vi. "
A respiração de Harry ficou presa na garganta. Scrimgeour olhou através dele. Ele sabia, ele tinha que saber, que foi Harry quem lançou o feitiço Fugitivus Animus em seus pais.
"É magia das trevas," disse Harry, pisando com cuidado. "Eu-eu não quero voltar para eles ainda."
Scrimgeour inclinou a cabeça. "Assustado?"
"De mim mesmo", disse Harry honestamente.
O Auror assentiu bruscamente. "Claro," ele disse, um pouco mais alto. "Você é apenas uma criança, afinal, com todo o seu poder. É claro que um bruxo de treze anos teria medo de uma casa onde a magia das trevas fosse usada. "
Harry não pôde deixar de sorrir.
"A coisa mais natural do mundo," Scrimgeour continuou suavemente. "Posso ver que você vai querer ficar aqui porque pelo menos aqui você sabe de onde vem a magia das Trevas, e é claro que você não tentaria aprender por conta própria por causa desse medo, ah não. E é claro que você confia no seu diretor de casa. Pode ser uma casa das Trevas, mas você sabe o que esperar dela. E não é essa a maior necessidade de filhos em crescimento, afinal? Estabilidade, segurança e paz? "
Harry pensou que teria dado tudo para estar na sala quando Scrimgeour fizesse os mesmos argumentos, em um tom de absoluta e completa calma, para Amelia Bones e o resto do Departamento de Execução das Leis Mágicas. Ele definitivamente soava como se acreditasse em si mesmo, e se alguém pudesse tirá-lo de sua máscara de calma razão, Harry não sabia quem seria.
"Eu sei que eu preciso de muita estabilidade, segurança e paz", ele conseguiu dizer, mantendo seu tom deplorável.
"Eu sei que precisa."
Harry se contorceu. Scrimgeour estava olhando para ele de novo, e vendo demais. Sorte que o homem iria embora em pouco tempo, ele pensou com fervor.
Depois daquele olhar penetrante, Scrimgeour assentiu e se afastou dele. "Já vi tudo o que precisava ver aqui", anunciou ele imperiosamente. "Shacklebolt, Feverfew. Vamos. Estou bastante satisfeito que o lugar apropriado para o menino é com o guardião que ele escolheu."
Shacklebolt empalideceu. "Mas, senhor-"
"Agora não," disse Scrimgeour. "O fedor de magia das trevas aqui está me deixando doente." Ele caminhou até a porta. "Vamos conversar sobre tudo no caminho de volta para o Ministério, não é, Kingsley?"
Feverfew praticamente saiu correndo porta afora. Shacklebolt demorou um momento e olhou para Harry e Snape.
"Este não é o fim", ele falou.
"Claro que não", disse Scrimgeour bem atrás dele, fazendo Shacklebolt pular um metro no ar. "Venha, Kingsley. Ainda há papelada para arquivar." Ele fez soar como se estivesse ansioso por isso. Harry sentiu um tipo horrível de admiração crescer dentro dele. Droga, ele é bom.
Shacklebolt se arrastou, parecendo envergonhado, frustrado e furioso além da conta. Scrimgeour casualmente fechou a porta atrás deles.
Harry desatou a rir no momento em que teve certeza de que os aurores estavam longe o suficiente no corredor para não ouvi-lo. O rosto de Snape exibiu um sorriso malicioso quando ele se acomodou em sua cadeira e puxou a pilha de redações em sua direção novamente.
"Isso foi ... interessante", ele disse.
Harry se jogou no sofá ao lado de seu livro e sorriu para ele. "Por que, de todos os lugares, nós temos aliados no Ministério?"
"Nós não," disse Snape, olhando para ele. "Você."
Harry piscou, então pegou seu livro. As pessoas pareciam ter o hábito de desconcertá-lo hoje.
Lucius Malfoy estava tendo um colapso nervoso.
Era a única maneira de identificar seu comportamento atual. Seu olhar disparou para frente e para trás continuamente entre a última carta que recebeu daqueles exigindo que ele declarasse lealdade a Lord Voldemort, e Hogwarts. Ele atualmente estava na borda externa da Floresta Proibida, não muito longe da cabana daquele Meio-Gigante nojento, com as mãos brancas onde seguravam a carta.
Ele sabia que não tinha escolha a não ser seguir o caminho que veio tomar aqui. Isso não significa que tinha que gostar.
Lucius tentou endireitar os ombros e colocar a máscara de Malfoy de volta. Não funcionou. Não funcionava desde o momento em que recebeu a primeira carta ameaçando a vida de Draco, e todas as que seguiram, sussurrando segredos que ninguém poderia saber sobre Draco a menos que estivessem dentro de Hogwarts.
Ele havia pensado em mostrar as cartas para Narcissa, mas sabia que ela não teria entendido as complicações da situação. Ela estava cegamente apaixonada por Harry Potter, certa de que o garoto iria salvar todos eles. Ela teria lhe dado apenas um olhar severo e dito para se juntar ao lado de Potter na guerra. Ela já confiava em Potter além de qualquer razão, simplesmente por salvar a vida de Draco - do jeito que ele deveria fazer, aparentemente.
Além disso, diga a Narcissa que seu filho estava em perigo e ela faria algo cego e estúpido.
E…
Lucius olhou para a carta em sua mão novamente. Duas linhas se destacavam para ele, assim como em sua primeira varredura apressada.
E você sabe uma coisa interessante sobre sangue, Lucius? Pode ser usado como espelho.
Lucius não conhecia nenhum feitiço que podia fazer isso, e ele tinha certeza de que era experiente o suficiente em magia das Trevas para ter ouvido falar de um. Obviamente, as pessoas que ameaçavam seu filho tinham acesso a artefatos mágicos das Trevas (como se o ataque a Draco com a cobra não tivesse provado isso!) E Lucius não tinha ideia do que eram, nem para o que serviriam em seguida.
Isso também significava que eles poderiam estar vigiando ele agora, mas como ele não tinha ideia se estavam ou como saber se o artefato das Trevas estava focado nele, ele tinha que agir como se tivesse uma chance de sucesso.
Olhe para aqueles mais próximos de você, Lucius. Um deles não é tão dedicado quanto você parece pensar.
Esse foi o outro motivo pelo qual ele escolheu não mostrar a carta para Narcissa. O autor da carta provavelmente estava mentindo, tentando encorajar Lucius a desconfiar de sua esposa, mas no caso... apenas no caso...
Lucius ergueu o olhar de volta para o castelo e balançou a cabeça. Ele havia enviado a carta declarando lealdade à causa do Lord das Trevas porque não tinha escolha, e isso significava que o melhor momento para se mover era agora, enquanto os seguidores do Lord das Trevas pensavam que ele era um deles. Ele tiraria Draco de Hogwarts, para que ninguém pudesse ameaçá-lo novamente. Ele o enviaria para Durmstrang. Os Malfoys tinham amigos poderosos lá, bruxos que protegeriam Draco e lhe ensinariam magia das Trevas, e que não se importariam com o Lord das Trevas até que ele realmente voltasse e os estivesse ameaçando. E Lucius não contaria a Narcissa até que o assunto fosse realmente resolvido.
Era ela quem queria que Draco fosse para Hogwarts, Lúcio se lembrou. Ela poderia ter sabido, mesmo naquele momento...?
Então ele afastou esse pensamento, porque algumas suspeitas eram paranoicas demais até para ele, lançou um Feitiço de Desilusão sobre si mesmo e seguiu em frente. Ninguém olhou para ele, embora vários alunos estivessem voando acima do campo de quadribol. Lucius curvou o lábio. Ineficiente. Se eu fosse o Diretor da escola, teria proteções que detectariam tais Feitiços em operação.
Ele conseguiu entrar em Hogwarts sem que ninguém percebesse, esperou um momento para se certificar de que não estava deixando um rastro de pegadas lamacentas no chão e então se moveu lentamente em direção às masmorras da Sonserina. Mesmo daqui, ele podia sentir um eco oco, batendo em sua cabeça como um tambor, que sinalizava uma dor de cabeça próxima.
Isso seria Harry Potter, então.
Lucius não tinha dúvidas de que o pirralho era poderoso; ele havia sentido quando Potter estava no Solar durante o verão. Lucius também não tinha dúvidas de que o pirralho era incapaz de derrotar o Lord das Trevas. O Lord das Trevas havia estudado por décadas, e tinha experiência e magia nas costas que Harry Potter não poderia igualar. Força bruta e indomável não tinha utilidade contra a crueldade do Lord das Trevas.
Era isso que Narcissa não entendia, embora Lucius tivesse tentado discutir o assunto com ela em termos abstratos. Ela insistia que Harry Potter seria capaz de protegê-los, que Lucius simplesmente não entendia a força de sua magia. Claro, ela também insistia que Draco era totalmente devotado ao garoto - outra coisa que Lucius tinha sido capaz de ver por si mesmo naquele verão - e que ela queria que eles continuassem aliados de Potter pelo bem de Draco mais do que por qualquer outro motivo.
Lucius deu um sorriso escarnecedor. Ela não parece ter considerado a possibilidade da magia de Potter estar chamando Draco, e o deixa tão diferente de um Malfoy, ao tirar parte de sua personalidade.
Lucius conhecia os sintomas e sabia que quando Draco fosse afastado da presença de Potter por um longo período de tempo, ele se recuperaria. Essa era outra razão para libertar seu filho de Potter, para que Draco pudesse fazer uma escolha real que ele nunca faria com aquele tipo de magia dominando-o.
E, é claro, havia o fato de que o orgulho Malfoy não permitiria que Lucius curvasse seu pescoço totalmente para ninguém além de um Lord. Esta criança não era um Lord. Ele era apenas uma criança, alguém que de alguma forma influenciou o filho de Lucius e sua esposa.
Lucius sabia que teria uma luta nas mãos depois de tirar Draco de Hogwarts, mas esperava que seu filho entendesse. Narcissa exigiria um pouco mais de esforço. Mas eles teriam que se unir em face de quaisquer ataques que Lucius enfrentaria dos escritores das cartas. Narcissa escolheria a lealdade familiar em vez de quaisquer princípios exigentes que ela tivesse. Ela sempre escolheu.
Lucius sorriu quando parou na porta da sala comunal da Sonserina e esperou um aluno sair para que pudesse entrar. Era perfeito, realmente. Assim que seu filho estivesse fora de perigo, sua mente pararia de se turvar de pânico e ele poderia enfrentar seus inimigos com a fúria que esperava, fervendo, por trás do pânico.
A parede se abriu. Lucius se preparou para entrar, e então parou, olhando, enquanto Harry Potter saía da abertura -
E olhou diretamente para ele, a magia fluindo em torno dele como ondas em um lago, como tambores dolorosos, como asas.
"Sr. Malfoy, "disse Potter calmamente," Eu não sei o que você está fazendo aqui, mas você terá que passar por mim se quiser machucar Draco."
