Soluço acordou com um suspiro. Estava tão quente que ele não queria levantar, fazia um bom tempo que dormia tão aconchegadamente. Sua cama era sempre tão fria, dura e desconfortável. Ele podia ficar ali deitado por dias e nem se importaria.
Um som grave fez seu corpo tremer, mas não foi desconfortável, muito pelo contrário. Soluço se remexeu, se aconchegando, e algo se moveu contra ele, tocando sua pele quente como uma chama, mas sem queimar.
Soluço se virou, abrindo os olhos levemente e os acostumando com a claridade da manhã. Ele levantou o olhar ao ouvir um ronronar forte e confortável, encontrando dois grandes olhos verdes o observando.
"Hmm... Bom dia, Banguela..." Soluço não conseguiu deixar de sorrir quando o dragão esfregou o rosto contra o dele, soltando um arrulho suave que parecia querer dizer "bom dia". Soluço se inclinou contra o toque do dragão e se sentia tão bem ali que não queria sair do lado de Banguela.
Porém...
Ele se lembrou de tudo que tinha acontecido no dia anterior.
"Pelos deuses, a prova!" Soluço se levantou violentamente, quase caindo no processo. Mas Banguela estava ali para ajuda-lo a ficar de pé. "Ai, meu Thor, eu não acredito que eles querem que eu... Que eu...!" Ele não chegou a terminar a frase.
Tinha tido uma noite tão boa que tinha até esquecido daquilo, da discussão com Biscoito, da escolha na arena e daquela maldita prova viking. Ele não estava surpreso honestamente, já que preferiria que tal coisa nem sequer existisse.
Mas cá estava ele, prestes a voltar para Berk e se preparar para matar um dragão.
Banguela soltou um arrulho baixo, encarando o garoto de modo quase curioso.
Soluço se sentiu tentado a ficar ali com Banguela, ignorando aquela prova idiota, ignorando qualquer coisa que os outros vikings pensassem, o que sua família pensava, e o que fariam com ele. Ele só queria ficar com Banguela. Mas não. Ele tinha que ir. Que outra escolha tinha?
De qualquer modo, ele tinha um plano. Ou melhor, a base para um plano...
"Calma, Soluço... Eu só... Eu tenho que pensar melhor nisso..." Murmurou para si mesmo, andando de um lado para o outro. "O plano é convencer os outros de que podemos viver em paz com os dragões, simples assim! Tenho que falar de um modo que vikings entendam, como eu pensei antes. É, é isso... O bem da ilha, mais segurança para Berk..." Ele se virou para Banguela, que o observava com a cabeça levemente inclinada para o lado. "Companhia..."
Banguela mostrou um sorriso sem dentes, balançando a cauda. O garoto riu do jeito fofo do dragão, mas o som sumiu aos poucos.
"Mas... O dragão..." Soluço balançou a cabeça. "Ai, porque tem que ser bem o dragão que não gosta de mim...?"
Ele se lembrou das vezes em que tentara se comunicar com o Pesadelo Monstruoso, ganhando de resposta apenas o calor da energia draconiana apertando contra a sua, o empurrando para longe. Fora algumas palavras, tudo o que o outro dragão oferecia a ele era uma parede de fogo.
Soluço se perguntava porque os deuses pareciam tão focados em coloca-lo frente a frente com Pesadelos Monstruosos, sempre fazendo seu contato com aquele tipo de dragão ser ou perigoso ou difícil.
Pelo menos o contato com outros dragões era mais fácil...
Banguela choramingou baixo e o garoto reconheceu o que aquele som queria dizer.
"Banguela, está tudo bem, ok?" Ele descansou as mãos em baixo da mandíbula do Fúria da Noite, encarando aqueles olhos brilhantes e preocupados. "Vai dar tudo certo..." Ele afagou a pele escamosa de Banguela, o fazendo ronronar, e quase não notou como estava falando mais para si mesmo do que para o dragão. "É, é, vai- vai dar tudo certo!"
Banguela o encarou de modo estranho, bufando alto, e Soluço sabia que o dragão não acreditava no que ele falava. Honestamente falando, nem ele mesmo acreditava.
Mas tinha que tentar. Mesmo que seu pai não o ouvisse no começo, sua mãe com certeza ouviria, ela sempre ouvia. Era perigoso, mas era o melhor que tinha no momento.
"Eu tenho..." Soluço se afastou do Fúria da Noite, novamente pensando em seus planos. "Eu tenho que tentar falar com ele, antes... É, é, antes de tudo..."
Soluço sentia que muitas vezes, embora o Pesadelo Monstruoso bloqueasse o contato entre os dois, o dragão sempre estava o escutando. Mesmo assim, se Soluço não tivesse sucesso, ele podia muito bem falar com os outros e esses podiam passar a mensagem.
Era um plano. Sim, um plano simples e que ele não sabia se ia funcionar ou não, mas ele sabia que tinha de tentar.
"Eu vou para Berk agora... Mas não se preocupa, Banguela. Eu vou voltar pra você." Soluço sorriu para o dragão, tentando ser um pouco mais positivo sobre aquilo tudo. "E quando eu voltar... Vai estar tudo resolvido..."
Eu espero..., ele não adicionou aquilo em voz alta, mesmo sabendo que dragões pareciam poder ouvir seus pensamentos. Banguela trinou suavemente, se apertando contra seus dedos, e Soluço sentia que o dragão tinha ouvido.
Soluço se despediu de Banguela, que o acompanhou até a saída do cânion, choramingando baixinho, como se pedisse para o garoto ficar. Ele novamente assegurou o dragão de que tudo ficaria bem, e seguiu em direção de Berk mais uma vez.
E a cada passo que dava, mais vontade ele sentia de voltar para Banguela.
Não tinha muita certeza se era por medo do que estava para acontecer na vila, ou se era porque ele só queria passar mais tempo com o Fúria da Noite, mas Soluço não voltou, apenas continuou em frente, passando pelas árvores e as samambaias altas, chegando à aldeia.
A vida em Berk já tinha começado junto com o nascer do sol, e vários vikings já se encarregavam de seus afazeres diários. Soluço tentou passar despercebido, subindo na direção de sua casa. Não encontrou ninguém da família, nem nenhum dos jovens de Berk, o que foi um alivio. E, mais por instinto do que qualquer outra coisa, ele se dirigiu para a porta de trás da casa.
E congelou ao notar que a casa não estava vazia.
"Soluço!" Valka sorriu, sem se virar para o garoto, mantendo os olhos presos nos retalhos que costurava. "Bem-vindo de volta."
"De- De volta...?" Soluço murmurou e se sentiu nervoso. Tinha passado um tempo tão bom com Banguela que tinha até esquecido que outros sentiriam falta dele. "É, é... 'De volta' de onde mãe?"
Ele se perguntou se Biscoito havia falado algo que não devia e sentiu um frio desconfortável na barriga, pensando em todas as respostas que teria que criar e contar caso sua irmã tivesse aberto a boca. Porém, ele notou como sua mãe estava calma, parecendo mais focada nos fios que trançava.
"Não se preocupe, Biscoito me avisou que você ia passar o resto da noite na casa dos Ingerman." Valka disse simplesmente, sorrindo. "E que você e Perna-de-Peixe estavam conversando sobre plantas e dragões..."
"Ah, é, a gente- a gente passou a noite toda falando sobre plantas. Você sabe, a gente... A gente gosta de falar sobre plantas..." Soluço forçou um sorriso, tentando agir como se nada demais tivesse acontecido no dia anterior.
Ele estava feliz em saber que a irmã não havia aberto a boca sobre Banguela; estava até um pouco surpreso, para falar a verdade, e tal pensamento o fazia se sentir um pouco mal.
Por muitos anos, os dois guardaram segredos só entre os dois, e só diante de muita pressão um deles acabava contando, o que resultava em brigas que normalmente duravam só alguns dias. Como o encontro com a Fúria da Noite quando eram ainda crianças, que ainda era mantido apenas entre os dois desde aquele dia.
Soluço se perguntava quando tinha começado a duvidar da lealdade da irmã... Talvez quando essa começou a odiá-lo por causa de um treino idiota. Ele gostaria tanto que tudo voltasse a ser como era antes...
Valka finalmente se virou para o filho, deixando os retalhos de lado. Soluço reconhecia aquele olhar e sabia que sua mãe estava o estudando em silêncio. Ele se sentiu um pouco desconfortável, mas não tanto como quando era Stoico ou Biscoito fazendo aquilo.
"Soluço, você está bem?" A mulher perguntou.
"Ah, claro! Claro! Tô bem, tô muito bem!" Soluço exclamou, um pouco alto demais, rapidamente tentando acalmar seus próprios nervos para não dar na cara. "Porque não estaria?!" Ele não teve sucesso.
Valka inclinou a cabeça para o lado levemente, quase do mesmo modo que Banguela fazia.
"Está pensando na sua prova, não é?" Ela disse.
E Soluço sentiu as barreiras que estava criando se desmoronarem no mesmo instante.
"Sim..." Murmurou simplesmente.
Valka fez um som suave e deslizou no banco de madeira, fazendo sinal para que o garoto se juntasse a ela. Soluço obedientemente se sentou.
"Soluço." Valka disse, passando a mão pelos cabelos do garoto e afastando as mechas que quase cobriam seus olhos. "Você não precisa fazer isso, se não quiser."
O jovem viking suspirou. Ele devia esperar tal comentário vindo de sua mãe, afinal, eles já tinham falado sobre algo parecido antes; e ela sempre repetia as mesmas coisas. Soluço realmente desejava que fosse assim tão fácil...
"Mãe..." O garoto suspirou mais uma vez. "Eu tenho que fazer isso. É o que... É o que todo mundo espera ver..."
"Mas você não quer fazer isso." Não era uma pergunta.
"Não... Não quero..." Soluço respondeu mesmo assim.
A mão de Valka deslizou dos cabelos do garoto para seu ombro, o puxando para mais perto, e Soluço deixou que fizesse isso, apoiando a cabeça no ombro de sua mãe.
"Soluço, se forçar a fazer algo que você não quer, só porque outros querem não está certo." Ela disse, calmamente, daquele modo que só uma mãe sabia falar. "Eu sei que você quer fazer seu pai orgulhoso, mas eu diria que o melhor modo de fazer isso seria fazendo as coisas que você quer fazer." Soluço abriu a boca para retrucar, mas Valka foi mais rápida. "Soluço, você tem que falar com seu pai e dizer o que pensar. Eu não vou estar sempre aqui para falar com ele por você."
Soluço assentiu e ele sabia que ela tinha razão. Mas era sempre tão difícil falar com Stoico! Seu pai raramente ouvia, e quase sempre quando ouvia era com um olhar desapontado ou nada interessado.
Valka era tão diferente, ela sempre estava pronta para ouvi-lo, dando toda a sua atenção para o garoto, respondendo quando uma resposta era necessária e ficando calada quando o silêncio era a melhor escolha.
Soluço sentia que podia contar tudo para sua mãe, então...
"Mãe, eu quero te contar, erm..." Ele começou, mas não conseguiu achar a coragem para continuar.
"Sim?" Valka inclinou a cabeça para o lado novamente, sorrindo.
Soluço se lembrou novamente de Banguela e um leve frio tomou sua barriga. Ele queria contar para sua mãe, ele sentia que se havia uma pessoa em sua família que o entenderia e ficaria do seu lado, era Valka. Mas, ao mesmo tempo, ele tinha medo. Medo de que sua mãe não levasse as coisas tão bem quanto ele esperava.
Ele sabia que sua mãe nunca machucaria Banguela, mas isso não queria dizer que ela deixaria os dois continuarem sua relação. Ela ficaria preocupada, com ambos os lados, pensando no que os vikings de Berk fariam com o dragão e com o garoto quando descobrisse, o que Stoico faria.
Em instantes, Soluço perdeu toda a confiança que tinha desenvolvido alguns segundos atrás.
"Hum..." Ele murmurou, pensando em alguma outra coisa para falar. E, por um momento, se lembrou da conversa que tinha ouvido entre sua mãe e sua gêmea. "Mãe... Você tem orgulho de mim...?"
"Como não teria?" Valka perguntou e parecia honestamente surpresa com a pergunta. "Um rapaz tão inteligente como você..."
Soluço não conseguiu deixar de sorrir ao ouvir aquilo. É, sua inteligência era a única coisa da qual alguém poderia se orgulhar. Mas ele gostava de ouvir aquilo.
"Não fique se preocupando muito com tudo isso." Valka disse, afagando os cabelos escuros do filho. "Sua prova é só amanhã. Pode tomar esse tempo para pensar no que vai fazer."
Soluço piscou um ou duas vezes. Estava tão nervoso que tinha até confundido a data, mas que surpresa!
"Ah, tá, é claro. Vou pensar." Ele assentiu e sorriu. "Obrigado, mãe."
Soluço subiu em direção de seu quarto, pensando na conversa.
Se desse tudo certo, se ele conseguisse mostrar a verdade para os vikings, ele esperava que sua mãe tomasse seu lado. Ele sabia que ela ia tomar, tinha certeza. Valka sempre esteve do seu lado, e Soluço desejava tê-la ouvido todas aquelas vezes em que ela havia tentado impedi-lo de entrar no treino com dragões.
Soluço desviou os olhos para o dragão de pelúcia encarapitado em cima de sua cama.
Bem, já que ele tinha um dia a mais, ele podia começar a pôr seu plano em ação...
-o-
Soluço respirou fundo ao entrar na arena. Era como se cada dia ficasse mais difícil andar tranquilamente pela vila, seus "fãs" pareciam brotar de todo lugar, como margaridas! Mas depois de tanto tempo, Soluço sentia que já tinha aprendido como evitar os demais vikings; sua habilidade furtiva estava cada vez melhor.
O que era ótimo, porque ele não queria ter ninguém por perto enquanto visitava os dragões.
Soluço conseguia sentir as energias dançando ao seu redor, estavam fracas e pouco som vinha de dentro das celas, o que queria dizer que os dragões estavam dormindo, ou descansando. Mas não era como se houvesse muito para fazer além de dormir e andar em círculos naqueles buracos apertados e vazios.
Por um momento, Soluço imaginou Banguela preso em uma das celas, e seu coração se apertou. Se pudesse ele libertaria todos aqueles dragões... Ele sabia que podia fazer isso agora, enquanto ninguém estava olhando, seria melhor tanto para os dragões quanto para Soluço – já que sem dragões, ele não teria de fazer a prova. Mas seria perigoso demais.
Mas se seu plano desse certo, os dragões seriam libertos.
"É, isso se der certo, Soluço..." Ele murmurou para si mesmo e apenas aquilo pareceu ser o bastante para chamar a atenção dos repteis voadores.
Soluço sentiu as energias se fortalecendo, se tornando mais atentas ao seu redor, tocando a mente do garoto como se tentassem descobrir quem ele era às cegas. O garoto se surpreendeu ao se sentir bem mais confortável do que esperava, era como se sua mente já tivesse se acostumado com as presenças ao seu redor. A nevoa que o cegava antes parecia quase inexistente agora, ficando mais forte apenas quando os dragões se agitavam demais.
E, sendo honesto consigo mesmo, Soluço achava muito mais fácil ficar cercado por todas aquelas energias diferentes do que ficar cercado de vikings barulhentos.
"O filhote retorna." A energia pontiaguda do Nadder foi a primeira a chegar até ele. Ele sempre era o primeiro, como se fosse o líder do grupo.
Soluço gostava de ser capaz de ouvir as palavras e as informações que vinham com as presenças, embora as vezes ainda fosse difícil ouvir tudo. Ele sabia que a cada contato ficava mais fácil entender o que os dragões tinham a dizer, e se perguntava o que seria capaz de ouvir caso visitasse a arena todo dia.
"É, oi, sou seu..." Soluço disse e ele se sentiu sorrir sem entender porque. "Ah, será que eu posso falar com o... Pesadelo Monstruoso...?"
Os outros dragões se prepararam para responder, mas outra energia os interrompeu, quente e forte, apertando contra a mente de Soluço violentamente; forte o bastante para fazê-lo perder o equilíbrio. E não importava quantas vezes ele entrava em contato com aquilo, Soluço sentia uma onda de medo tomar conta de sua mente.
Pesadelos Monstruosos eram realmente muito intimidadores, de vários modos, mas Soluço ainda conseguia sentir algo de diferente na energia do dragão. Ele tinha entendido aquilo como um blefe típico de Pesadelos Monstruosos, e sabia que devia haver um jeito de passar pelo show de fogos, fazendo contato com o ser verdadeira que existia por trás dele.
"Eu só quero... Eu só quero conversar..." Soluço disse, tentando manter a calma. Mesmo sendo um blefe, era difícil controlar seus sentimentos frente à uma energia tão forte. "Todos vocês... Todos já sabem o que eu vou ter que fazer. O que os outros querem que eu faça..."
"Como outros fizeram antes de você." O Nadder respondeu, sua presença dançando de modo estranho.
"É, exatamente! Mas não! Não! Eu não quero fazer isso!" O pequeno viking disse rapidamente, erguendo as mãos como se o dragão pudesse vê-lo. Ele ouviu um som vindo de dentro da cela com o grande portão de metal, mas a energia continuava queimando longe e nenhum contato foi feito.
"É um humano engraçado..." Outra energia entrou em contato com a de Soluço e o garoto suspirou, se sentindo um pouco menos tenso. Era o Gronckle, que quase sempre parecia ter a presença mais calma, sendo capaz de até acalmar o garoto. "Não machuca a gente..."
"Eu não quero machucar ninguém." Soluço afirmou rapidamente.
"Porque?" A energia dupla se pronunciou, flutuando de um modo, antes de mudar, tomando outra forma: "Você quer alguma coisa em troca né?" E Soluço conseguiu notar como, embora fossem similares, cada parte da energia era diferente. Ele sabia que era o Ziperarrepiante com suas duas cabeças. "Eu sei que eu ia querer!" A primeira disse e a segunda se pronunciou novamente, como se tivessem esquecido a seriedade do momento. "É! Tipo um cardume inteiro de peixes!"
Soluço balançou a cabeça, ignorando aquele dragão. Por um momento sua mente relacionou o Ziperarrepiante com os gêmeos Thorston, eles eram praticamente idênticos. E ele não conseguiu deixar de imaginar tais vikings e o dragão voando juntos, assim como ele e Banguela voavam...
Se seu plano desse certo, talvez tal imagem se tornaria realidade. Ele não sabia se gostava muito da combinação dos gêmeos com um dragão poderoso que cospe fogo, mas...
"Voar em nossas costas..." Uma mensagem atravessou a parede criada entre ele e o Pesadelo Monstruoso e Soluço congelou por um momento, mesmo sentindo o calor da energia do dragão flamejante. "Você quer nos escravizar, é isso..."
Demorou um tempo para Soluço processar o fato de que o dragão estava novamente falando com ele. Era algo tão raro. A energia forte dele ainda deixava o jovem viking desconfortável.
"O que? Não! Não! Eu nunca...! Eu só penso que..." E em poucos segundos a conexão foi novamente cortada entre os dois. Soluço suspirou exasperado, notando que havia perdido sua chance. "Eu só quero que tudo fique bem! Eu sei que a paz entre humanos e dragões pode existir!"
Os demais dragões reagiram às suas palavras, as presenças se movendo com mais interesse, assim como os próprios repteis presos dentro das jaulas. Por um momento Soluço perdeu sua concentração, embrulhando as palavras e as energias que apertavam contra sua mente. Ele não sabia quem era quem mais, mas conseguia perceber que um dos dragões parecia interessado em dar uma chance ao garoto, outro parecia cético, outros pareciam achar que tudo não passava de uma piada, outro parecia confuso – como se tivesse acabado de acordar.
Só faltava uma energia, que ainda não estava dando informação alguma ao garoto.
Soluço se sentiu nervoso, ao mesmo tempo com medo e com irritação.
"Eu não quero matar você, eu não quero matar ninguém!" Ele exclamou, um pouco alto demais, sua voz quase reverberando pela arena vazia. E as energias flutuaram ao seu redor, perdendo a intensidade. Soluço se recompôs. "Por favor, só... Só me escuta...!"
Mas o dragão continuou ignorando o garoto, formando o que parecia ser uma parede de chamas ao redor de sua energia. Era diferente da parede que havia entre Soluço e Banguela, essa parecia mais próxima, tanto que Soluço sentia que, se esticasse um pouco mais a mão, poderia encostar no fogo.
Era um dragão teimoso. E Soluço tinha medo que tal teimosia acabasse se tornado perigosa para ambos os lados.
"Será que, hum, algum de vocês pode então falar com ele...?" Soluço murmurou para os outros dragões.
"Ele não vai ouvir." O Nadder soltou um arrulho alto, que podia ser ouvido muito bem através do portão de metal de sua jaula.
"Mas a gente tenta." A energia do Gronckle dançou ao redor do garoto, muito mais gentil, muito mais aconchegante e amigável.
Soluço suspirou e sorriu. Ele gostava daquele dragão e por um momento ele pensou em como Perna-de-Peixe se daria bem com aquele dragão; ambos eram grandes e fortes, mas tinham um coração doce – sem contar que Gronckles era o tipo de dragão que Perna-de-Peixe mais gostava.
Um dia, talvez...
"Obrigado..." Soluço murmurou.
"Virando amiguinho do Pesadelo Monstruoso?"
O garoto pulou quase um metro ao ouvir aquelas palavras, bem mais reais do que as que ouvia vindo dos dragões. Ele ergueu os olhos para o alto, vendo sua irmã escorada contra as barras no topo da arena.
"Biscoito..." Soluço sentiu seu rosto corar e ele se sentiu embaraçado, como se fosse pego em um momento muito pessoal. Ele não sabia porque estava se sentindo assim.
Biscoito deu a volta no topo da arena, se dirigindo até a entrada.
"O que está planejando dessa vez?" Ela disse enquanto andava.
"Eu só..." Soluço se perguntou se devia falar sobre aquilo com sua irmã.
Ele conseguia sentir a energia dos dragões se movendo ao seu redor, ficando novamente agitadas e tensas. Era por causa de Biscoito, ele sabia. Os dragões não gostavam dela, assim como provavelmente não gostavam de mais nenhum outro viking de Berk.
Soluço deu as costas para as jaulas, se dirigindo para a entrada para encontrar a irmã ali. Por algum motivo ele não queria que ela entrasse na arena, talvez para não deixar os dragões mais estressados do que já estavam.
"Eu só queria que ele soubesse que eu não vou fazer o que querem que eu faça..." Ele explicou, notando que não tinha porque mentir, embora não estivesse contando todos os fatos. Sua irmã não precisava saber que ele podia se comunicar com dragões, do mesmo modo que conseguia se comunicar com outros vikings.
"E?" Biscoito cruzou os braços.
"E ele não está me escutando." Soluço suspirou.
Biscoito assentiu, examinando o irmão com os olhos.
"Controlar dragões então não é tão fácil quanto você esperava...?" Ela mencionou.
Soluço não gostou daquele comentário, não só pelas palavras usadas, mas também pela insinuação; afinal, se o garoto que domou um Fúria da Noite não podia domar outros dragões, como outros vikings poderiam fazer o mesmo?
"Eu não controlo os dragões, Biscoito." Soluço disse, um pouco mais ríspido do que ele esperava. Biscoito ergueu uma sobrancelha. "Eu... Eu falo com eles."
O garoto só notou o que tinha dito alguns segundos depois e se sentiu congelar. Ele imaginou o que sua irmã faria se soubesse sobre aquilo, se soubesse também sobre a marca de mordida que enfeitava seu ombro pequeno. E por um momento ele começou a formular como explicaria tudo aquilo.
Mas tudo o que Biscoito fez foi soltar um leve "hummm" do fundo de sua garganta.
"E pelo jeito nem todos escutam." Ela deu de ombros.
Soluço suspirou. De um modo ou de outro, a garota estava certa.
Ele não sabia como lidar com aquele dragão, e isso o preocupava. Mas não importava se ele conseguia fazer contato ou não, os dois iam se encontrar cara a cara naquele mesmo lugar no dia seguinte. E Soluço iria tentar, de novo. Ou então ia virar churrasco...
Biscoito estralou a língua, tirando o garoto de seus pensamentos.
"Bem, boa sorte com isso." Disse antes de dar as costas para Soluço. "Você tem até amanhã para fazer amizade com ele."
E ela parecia genuinamente desejar sorte ao irmão. Era como se toda a inimizade daqueles últimos meses tivesse desaparecido, mesmo que só por alguns segundos.
"Biscoito..." Soluço chamou e Biscoito se voltou para ele. "Ah, eu só queria dizer... Obrigado." Ele sorriu. "Obrigado por não contar pra ninguém sobre... Você sabe, sobre tudo."
Biscoito pareceu tomar um momento para pensar, como se não esperasse por aquelas palavras.
Ela mostrou um sorriso torto, que parecia ao mesmo tempo perigoso e amigável, se tal coisa era possível.
"Você pediu por uma chance, não pediu?"
E, dizendo isso, Biscoito se retirou da arena, deixando o irmão para trás.
Soluço não sabia exatamente como se sentir com as últimas palavras da irmã, mas decidiu ficar contente. De algum modo, ele conseguia sentir algo naquela frase, algo amigável, algo típico entre os dois irmãos. Fazia um tempo que ele não sentia isso... Podia ser uma boa notícia.
Soluço ficou na arena por mais de tempo, tentando fazer contato com o Pesadelo Monstruoso, ganhando Perna-de-Peixe como plateia em algum momento. Mas ainda assim não conseguiu nada. Ele ainda era mantido para fora das paredes de fogo. É, aquela parte do seu plano não estava indo como ele esperava...
O jeito era esperar até o dia seguinte, até o momento em que os dois estariam sozinhos dentro da arena, quem sabe lá Soluço tivesse algum sucesso. Ele tentou pensar de modo otimista e ignorar o modo como sua mente insistia em imaginá-lo como nada a não ser uma pilha de cinzas.
"Olha pelo lado bom, Soluço..." Perna-de-Peixe disse. E Soluço não conseguiu deixar de sorrir levemente ao ver o amigo também tentar ser otimista, mesmo que não conseguisse encontrar nenhum "lado bom" naquela situação.
Soluço retornou para casa quando já era tarde, fugindo de seus fãs do melhor jeito que conseguia. E se surpreendeu, do mesmo modo que de manhã, ao encontrar alguém esperando por ele em casa.
"Ah, aí está o nosso matador de dragões!" Soluço segurou uma careta ao ouvir a voz ribombante de seu pai e se forçou para sorrir. "Pronto para amanhã, Soluço?"
"Ah, sim, sim, é claro!" Ele tentou imitar a animação do pai, quase caindo para trás quando esse lhe deu tapinha nas costas. "Mais pronto impossível...!"
Stoico riu alto e começou a falar sobre alguma coisa relacionada a vikings, dragões e vikings matando dragões. Soluço se desconectou de tudo aquilo, sem vontade de ouvir histórias sobre guerreiros antigos, nem mesmo sobre seu pai e o teste de treinamento desse. Por sorte Valka e Biscoito estavam ali para desviar a atenção do chefe de seu filho por alguns minutos.
Soluço pensou em todas as suas opções sobre o que fazer em relação à sua prova. Ele podia cuidar do dragão, mesmo sabendo que ele era muito teimoso e também perigoso, mas e quanto aos vikings? Ele tinha um "roteiro" em sua mente, mas vikings eram tão imprevisíveis quanto dragões...
Quando Soluço voltou à realidade, seu nome estava sendo chamado por alguém.
"Soluço?"
"Ah, quê?" O ruivo balançou a cabeça, erguendo os olhos para sua família, cujos olhos estavam todos voltados para ele.
"Mais cedo, você disse que queria falar alguma coisa pro seu pai." Valka disse docemente e Soluço demorou um tempo para processar.
"Ah, é mesmo?" Stoico limpou a barba e se virou em sua cadeira para poder encarar melhor o filho. "Vá em frente filho."
Um leve pânico tomou conta de Soluço. Ele lançou um olhar nervoso para sua mãe que apenas sustentou seu olhar. Ele sabia que ela só queria ajudar, mas aquilo realmente não era o que ele esperava!
"Ah, bem, eu, erm..." Soluço gaguejou, incerto, se sentindo pequeno debaixo do olhar curioso de seu pai. "Sabe, eu só queria dizer..."
"Sim?"
Tinha muito que Soluço queria falar, queria explicar para o pai o que sentia em relação a tudo aquilo e o que ele queria fazer. Queria que o pai soubesse como ele se sentia quando o chefe mencionava o quão orgulhoso estava de seu filho, algo que Soluço raramente ouvia antes de entrar para o treino com dragões; queria falar como acreditava que houvesse um método muito melhor de lidar com dragões; queria perguntar para o pai se ele teria orgulho de seu filho mesmo sem ele ser um matador de dragões ou um grande guerreiro como sua irmã...
As palavras vieram até a sua boca, mas não chegaram a sair.
De qualquer modo ele sabia que Stoico não ia voltar atrás agora, ele não ia simplesmente falar "ah, sim, claro, pode parar com o treino", afinal amanhã era sua última prova! Era tarde demais.
Soluço tinha um plano e se ele funcionasse, talvez ele pudesse falar sobre aquilo para seu pai... Depois.
"Obrigado..." Ele disse finalmente, forçando um sorriso. "Por me deixar entrar pro treino e, tudo o mais..."
Stoico piscou uma ou duas vezes, como se não soubesse como reagir. Mas então sorriu, descansando uma mão no ombro do filho e balançando levemente.
"Você vai me encher de orgulho, Soluço, eu sei disso." Ele disse de modo mais suave se comparado com o tom anterior.
"É, eu vou..." Foi só o que o garoto conseguiu falar.
Soluço desviou a atenção para sua mãe que o olhava de modo levemente desapontado. Ele esperava que seus olhos dissessem tudo o que ele estava pensando e sentindo no momento. De qualquer modo, Valka assentiu levemente, fazendo sinal para que o garoto não se preocupasse com aquilo.
O garoto queria fugir durante a noite para ficar com Banguela, mas decidiu não fazer tal coisa, já sabia muito bem que sua família podia achar aquilo estranho e não estava com vontade de criar novas desculpas, ou colocar a segurança de Banguela em perigo.
Então ele teve que se contentar com a tabua de madeira que era sua cama.
-o-
Soluço grunhiu ao acordar. Não tinha dormido direito, tanto por causa de seu nervosismo sobre o dia seguinte, quanto por causa de sua cama. Ela era tão dura, tão desconfortável e fria... O que ele não daria para poder dormir do lado de Banguela novamente...
Não queria levantar, não queria fazer nada a não ser ficar ali. Mas ele não iria conseguir tal graça...
"So-luço." A voz de Biscoito o fez abrir os olhos finalmente e ele encarou a irmã parada no lado da porta. Ela estava séria, o encarando com um brilho indecifrável no olhar. "Acorda. Hoje é o dia."
Soluço grunhiu novamente, apertando o rosto contra o travesseiro duro. Ele não viu, mas ouviu quando a irmã desceu a escadaria, deixando-o sozinho novamente. Com um suspiro, ele se forçou a se levantar, esticando as costas doloridas.
"É hoje..." Ele murmurou para si mesmo, desgostoso.
Tinha hora marcada. Quando o sol estivesse à pino, ele iria enfrentar o Pesadelo Monstruoso. Tinha a manhã inteira para ficar pensando e se preocupando com aquilo.
Ele suspirou, colocando suas botas e o colete de pelos.
Soluço se virou para descer as escadas e tomar o café da manhã, dando de cara com grandes barbas vermelhas.
"Ah! Pai! Que-que surpresa! Eu não te ouvi subindo!"
"Desculpe." Stoico disse de modo suave, sorrindo. "Eu só vim... Eu só vim te desejar boa sorte, filho."
"Ah, obrigado, pai." Eu vou precisar..., ele não chegou a adicionar aquela parte.
"Não que você precise, não é?" E Stoico riu alto, sem saber que aquilo era exatamente o que tinha se passado pela mente de seu filho. Ele deu um 'leve' soco no ombro de Soluço – que segurou um exclamar – e envolveu o garoto com um braço. "Está sentindo, Soluço?" Ele sorriu e Soluço tentou forçar um sorriso também. "O sangue de guerreiros corre em suas veias! Em nossas veias!"
"É, é... Pai, tá me esmagando... Uff..." Ele respirou fundo quando foi solto.
"Aquele dragão não tem chance alguma com você!" Stoico continuou a falar, sem notar que seu filho não dividia sua animação. "E quando você acabar com ele, vamos montar a cabeça sobre a porta de entrada, ah, poderoso Thor!" Ele socou o ar, sorrindo de orelha a orelha. "Seu primeiro troféu!"
"Ah, é, é, meu primeiro troféu...!" O garoto fingiu estar animado, se perguntando se, caso Soluço conseguisse um troféu em qualquer outra coisa a não ser matar dragões, seu pai ficaria tão alegre assim ou não.
"Bom, vá tomar seu café da manhã e se preparar para o grande momento!" Stoico parecia estar tentando conter sua animação, sem sucesso. "Estarei te esperando na arena!" Ele deu as costas para o garoto, mas se virou mais uma vez. "Ah! E não se esqueça do seu elmo!" Stoico sorriu para o garoto antes de descer as escadas cantarolando alguma música viking.
Soluço suspirou, se sentindo desconfortável.
Ele examinou a adaga do lado de seu elmo, se lembrando que tinha ganho a arma de presente de sua mãe. A adaga de seu avô, que nunca foi usada contra humano ou dragão. Ele ia manter seu legado, esperando nunca ter que usá-la. Mas, por segurança...
Ele pegou a adaga, a escondendo junto como colete, em baixo do manto de pelo. Se ia levar o elmo que ganhou do pai, podia levar também a adaga que ganhou da mãe.
Desse modo, Soluço estava pronto.
-o-
Soluço não estava pronto.
Ele segurou seu elmo com força, se escondendo no corredor rebaixado que levava à arena, ficando numa área em que não podia ser visto totalmente pelos incontáveis vikings que cercavam a arena. Ele tinha certeza de que toda a Berk estava ali para vê-lo.
"Sim, meus amigos! Apareço novamente em público com a cabeça erguida!" A voz de Stoico se elevou sobre o som dos vikings animados e todos gritaram. "Se alguém me dissesse que em poucas semanas Soluço deixaria de ser... Bem, ah... O Soluço!" O povo riu da piada e o chefe riu com eles antes de continuar falando. "Para ser igual a sua irmã e o melhor no treino com dragões, eu teria amarrado ele num mastro e mandado para longe por ser doido varrido!"
"Stoico!" Valka sibilou para Stoico. "Não fale assim do nosso filho!"
"Ah, Valka, é só uma piada, não se preocupe." Stoico riu levemente, afagando o ombro da esposa com um sorriso, antes de se voltar para seu povo mais uma vez. "Mas aqui estamos! E ninguém está mais surpreso ou mais orgulhoso do que eu!"
Soluço novamente não sabia como se sentir ouvindo o pai falar aquelas coisas sobre ele.
"Hoje meu filho se torna um viking! Hoje ele se torna um de nós!" Stoico terminou seu discurso e o povo vibrou.
A barriga de Soluço se embrulhou e ele grunhiu, tentando ignorar o sentimento. Ele passou a mão sobre o elmo, repassando por sua cabeça o plano pela vigésima vez só naquela hora.
"Soluço..." A voz de Perna-de-Peixe acalmou Soluço um pouquinho.
"Oi, Perna-de-Peixe..." Ele tentou sorrir para o amigo, mas não teve sucesso.
"Cuidado... Com o dragão..." Perna-de-Peixe murmurou.
Soluço suspirou.
"Não é com o dragão que eu estou preocupado..." Ele desviou os olhos para o chefe e sua esposa, caminhando até o "trono" de pedra colocado acima da arena, com a melhor vista. Biscoito estava com eles, se inclinando contra as barras do mesmo modo que tinha feito no dia anterior.
"O que você vai fazer?" Perna-de-Peixe perguntou.
"Vou dar um jeito nisso." Soluço disse, se sentindo determinado. "Ou pelo menos tentar..." E o medo tomou conta dele mais uma vez quando seus olhos se prenderam aos de Biscoito por alguns segundos. Ele se voltou para o amigo, se sentindo mal com o que ia dizer em seguida. "Perna-de-Peixe... Se alguma coisa der errado... Não deixa que ninguém pegue o Banguela..."
A expressão já preocupada de Perna-de-Peixe pareceu ficar ainda pior, mas ele assentiu.
"Ah, tá bom..." Disse suavemente, antes de levantar olhos preocupados para o amigo. "Mas... Promete que não vai dar nada errado?"
Soluço não queria dar falsas esperanças para o amigo, já que ele não tinha ideia do que ia acontecer naquele lugar quando fosse colocado cara a cara com um Pesadelo Monstruoso. Mas ele não chegou a falar.
"Tá na hora, Soluço!" Bocão sorriu para o garoto. "Quebra tudo!"
Soluço suspirou, sorrindo para Perna-de-Peixe quando esse murmurou um silencioso "boa sorte". Ele colocou o elmo e o portão foi fechado à suas costas.
Soluço entrou na arena, suspirando ao ser capaz de ouvir tanto os vikings ao redor da arena quanto os dragões nas celas fechadas.
"Olá, filhote." O Zipperarrepiante foi o primeiro a encontra-lo dessa vez.
"Boa sorte." O Gronckle arrulhou em seguida.
"Flamejante, seja legal com o filhote." O Nadder adicionou.
Soluço não conseguiu ouvir a resposta do dragão maior, mas não se demorou nisso. Ele empurrou o calor que vinha do Pesadelo Monstruoso e se focou no "show" que tinha que dar para os vikings.
Soluço se dirigiu às armas em display, escolhendo um escudo não muito pesado. Ele passou a mão pelo colete de pelo, sentindo a forma de sua nova adaga por baixo. Ele não queria ter de usar a arma, sentia que seria uma má ideia sequer tirá-la de sua cintura. Mas ele precisava de uma arma, se não escolhesse nenhuma, seria um pouco suspeito para os demais vikings.
Havia outra adaga pequena pendurada entre os grandes machados e espadas, e ele a escolheu como sua arma.
Ele respirou fundo, dando uma olhada em si mesmo. Um elmo, adaga e escudo em mãos. Ele parecia um viking, como os outros. Seu estômago revirou levemente. Em pensar que ele queria tanto estar naquela posição quando era mais novo...
"Estou... Pronto..." Ele disse simplesmente e os vikings vibraram.
Soluço sentia a energia do dragão dentro da cela, se movendo, se remexendo, quente, perigosa, irritada.
O tronco grosso e reforçado por placas de metal foi erguido e, com um movimento violento, as portas da jaula foram abertas, revelando uma bola de puro fogo.
A presença física do dragão foi acompanhada por sua presença mental, atingindo Soluço como um soco na cara. Ele se forçou a ficar de pé e não desviar os olhos do dragão. Sua mente foi tomada por uma névoa quente e abafada, que ele já conhecia bem, mas com a qual ainda não sabia como lidar muito bem.
O Pesadelo Monstruoso parecia não ter visto o garoto, escalando as paredes e as barras de segurança da arena, marcando a pedra e o metal com seu fogo forte. Ele se voltou para os vikings, lançando fogo na direção deles, os forçando a se afastar, e escalou as correntes com uma rapidez tremenda.
Soluço observou, notando algo por trás daquela energia forte e dos movimentos violentos e poderosos. Era um show. Flamejante – como Soluço descobriu ser o nome do dragão – estava mostrando seu poder, que não pensaria duas vezes antes de queimar todos os vikings presentes. E pelo modo como ele corria pelas barras de metal, era como se procurasse um modo de sair de lá.
O Pesadelo Monstruoso queria estar ali tanto quanto o garoto...
E finalmente o dragão pareceu se lembrar que não estava sozinho na arena. Sua cabeça abaixou primeiro, se voltando para o pequeno viking, que se encolheu em baixo daquele olhar poderoso. O dragão desceu para o chão e rugiu.
"O humano de pelo vermelho..." Ele examinou o garoto de cima, seus olhos dourados e reptilianos pareciam encarar a alma de Soluço.
Um arrepio subiu pelas costas de Soluço e ele sentiu sua cabeça girar levemente. A "voz" do Pesadelo Monstruoso era diferente dos outros, mais séria e forte. Parte dele queria fugir dali o mais rápido possível, mas outra queria ficar. E ele sabia que devia concordar com essa.
Flamejante era poderoso e forte, como qualquer Pesadelo Monstruoso, mas Soluço tinha que lembrar que a força de sua energia não passasse de um truque, como quando alguns animais abriam as asas para parecerem maiores.
"É, oi... Flamejante..." Soluço murmurou suavemente, baixo demais para os vikings ouvirem, mas fácil de ser captado pelos ouvidos potentes de um dragão.
"Não me chame pelo nome, humano." Flamejante rosnou. Ele se moveu de lado, e o garoto se dirigiu na outra direção, lentamente. "Eu ouvi sobre você. Você não vai se aproveitar de mim como fez com os outros..."
"Eu não quero me aproveitar de você..." Soluço disse simplesmente, baixando o escudo e a adaga que segurava.
Ele deixou que sua única arma e sua única defesa caíssem ao chão. O Pesadelo Monstruoso observou, se movendo lentamente. E Soluço conseguia sentir a energia vindo dele, parecia confusa e curiosa ao mesmo tempo. Já era um pouco melhor do que antes.
"Eu não sou como os outros..." Soluço ergueu as mãos.
"Humanos são todos iguais..." Flamejante pensou consigo mesmo, rosnando enquanto se aproximava do garoto.
O comentário surpreendeu o garoto e ele tomou alguns segundos para pensar, se lembrando das palavras de seu pai de apenas alguns minutos atrás. Ali Soluço estava se tornando um viking, um deles, um matador de dragões.
Soluço desviou os olhos do dragão para os vikings no alto. Stoico observava de seu trono de pedra com um sorriso no rosto; Valka, ao seu lado, ainda mostrava uma expressão estranha; enquanto Biscoito estava escorada sobre a arena, observando com interesse.
Ele ergueu as mãos lentamente, ignorando o modo como o Pesadelo Monstruoso rosnava e o modo como a energia desse o queimava sem deixar marcas. Soluço pegou seu elmo e o examinou por um momento.
"Eu não sou um deles..." E com um movimento rápido, ele lançou o elmo para o lado.
Soluço ignorou a reação dos vikings, se focando no dragão à sua frente.
Flamejante parecia surpreso, desviando os olhos do garoto para o elmo, sem se mover mais do que o necessário. Ele cheirou o ar, como se tentasse entender o que estava acontecendo, virando os olhos novamente para o pequeno humano.
E Soluço suspirou, sentindo a névoa quente diminuir levemente, clareando sua mente. A energia do dragão estava curiosa e Soluço ficou feliz em ver as pupilas, uma vez finas, agora dilatadas e interessadas nele. Era sua chance.
"Parem a luta." Soluço chegou a ouvir a voz de seu pai, ela saiu baixa, grave, mas ainda reverberou pela arena.
"Não! Eu preciso que vocês vejam isso." O garoto retrucou, estendendo uma mão para o focinho do dragão. Flamejante se aproximou, sua energia ainda se movia com velocidade, mas agora era mais calma, mais curiosa e confusa do que qualquer outra coisa. "Isso, viu? Eu não quero te machucar..."
Flamejante bufou, ainda encarando Soluço de modo suspeito, mas com as pupilas bem dilatadas.
Os vikings assistiam em choque, e um silêncio pesado, entrecortado por poucos murmúrios, caiu sobre a arena.
"Tudo o que sabemos sobre eles está errado..." A voz de Soluço, embora suave, foi facilmente ouvida por todos presentes. "Não precisamos matá-los..."
Soluço ignorou os vikings, se focando no dragão e em sua energia. Ele conseguia sentir a energia dos outros dragões ainda presos em suas celas. Estavam surpresos, animados, curiosos, em sua maioria por que, Soluço, de algum modo, havia feito contato com Flamejante, o dragão mais teimoso dentre eles. Até mesmo Soluço estava surpreso.
"Filhote..." Ele ouviu Flamejante transmitir uma mensagem, mas o garoto não chegou a ouvir.
"Eu disse PAREM A LUTA!" A voz alta de Stoico fez Soluço tremer dos pés à cabeça e ele ouvi o som de pedra batendo violentamente contra metal.
"Stoico!" Valka chegou a falar.
E de repente, era como se uma explosão tivesse atingido Soluço. A energia do Pesadelo Monstruoso o queimou violentamente, o empurrando para longe e o garoto viu quando os olhos do dragão se apertaram em fendas finas.
Soluço pulou para longe quando a bocarra cheia de dentes se abriu e se fechou na sua direção, quase pegando seu braço. O garoto gritou, correndo para longe, quando um jato de fogo veio em sua direção.
"Não! Não, Flamejante, calma!" Ele tentou chamar pelo dragão, mas esse não o ouvia, respondendo como dragões normalmente respondiam ao medo e ao perigo, com rugidos e longas e perigosas rajadas de fogo.
E pensar que estava indo tudo tão bem!
"Soluço!" Ele ouviu a voz de Biscoito e por um momento conseguiu ver que ela tinha entrado na arena em algum momento, ele quis correr até a irmã, mas não queria levar o problema até ela, não que ele tenha tido alguma escolha.
De repente um martelo de pedra atingiu Flamejante no lado da cabeça, e Soluço sentiu quando o foco das chamas mentais do dragão desviou dele para a sua irmã, e ele ainda teve de se abaixar para não ser atingido pela cauda longa do dragão. Mas não importava o quão longe o dragão estava dele, Soluço ainda sentia a presença do dragão o envolvendo violentamente.
"Soluço! Biscoito! Por aqui!" Stoico abriu o portão da arena com um movimento rápido e sem dificuldade.
Soluço e Biscoito fizeram como mandado, tentando fugir do dragão e seus jatos de fogo. Biscoito, sendo uma melhor corredora que seu irmão, alcançou seu pai mais rápido. Stoico se colocou na frente da filha de modo protetor, estendendo as mãos largas para o filho que ainda estava para trás.
"Ah, não vai não!" Soluço ouviu o rugido do Pesadelo Monstruoso e parou de correr, sentindo que sabia o que ia acontecer logo em seguida.
Um jato de fogo atingiu a parede de pedra da arena, quase atingindo tanto o garoto quanto sua família. Era perigoso demais. Soluço deu meia volta correndo para o centro da arena mais uma vez, embora não houvesse para onde ir.
A energia de Flamejante o tocou antes do próprio dragão, o fazendo perder o equilíbrio. E quando Soluço notou, ele estava preso em baixo das garras do Pesadelo Monstruoso.
"Você quase me convenceu, pequeno mentiroso!" Flamejante rosnou na cara de Soluço e o garoto se sentiu paralisado em baixo daquele olhar sério e reptiliano.
Quando, de repente...
Um som parecido com o que apito ecoou por seus ouvidos e Soluço sentiu seu corpo relaxar quase automaticamente.
E com uma grandiosa explosão azulada, as barras de metal da arena foram arrebentadas. Fumaça negra tomou conta do ar e Soluço sentiu seus olhos arderem, enquanto a energia do Pesadelo Monstruoso parava de queimá-lo de dentro para fora.
A pata do dragão foi levantada e Soluço rapidamente se ergueu, correndo para longe do caos às cegas.
Mas ele não precisava ver para saber quem estava ali, quem havia mais uma vez saltado pelas pedras do cânion, e quem havia pulado nas costas do dragão quase três vezes maior que ele mesmo.
"Banguela...!"
Soluço observou enquanto a fumaça se dispersava, vendo Banguela mordendo o dragão e desviando de suas mordidas, dando-lhe patadas enquanto tentava afastá-lo de perto de Soluço.
O garoto podia não ouvir ou sentir a energia de Banguela como sentia a dos outros dragões, mas ele conseguia sentir algo pressionando contra as chamas de Flamejante, era forte, poderosa e que parecia maior do que a energia do Pesadelo Monstruoso, embora viesse de um dragão bem menor.
Banguela chutou o inimigo para longe, se colocando na frente de Soluço, abrindo bem as asas e rugindo alto o bastante para fazer o chão tremer.
"Sombra da Noite! É um humano!" Soluço ouviu as palavras entre os rosnados de Flamejante.
Banguela respondeu com seus próprios rosnados, entrando na frente do Pesadelo Monstruoso sempre que esse tentava encontrar uma brecha pela proteção de Banguela.
Sombra da Noite... Seria esse o nome de Banguela...?
Soluço afastou aquele pensamento, se lembrando que não devia se distrair naquele momento.
Flamejante tentou passar por Banguela mais algumas vezes, sem sucesso, e Soluço suspirou, se sentindo grato por ter seu amigo para protege-lo.
"Isso não terminou aqui!" Ele chegou a ouvir a informação vindo junto com o sibilo depreciativo de Flamejante, antes que esse praticamente fugisse para dentro de sua cela novamente.
Banguela havia ganho a batalha.
Mas não era hora de celebrar.
Soluço se levantou, ignorando a leve dor de cabeça causada pela presença do Pesadelo Monstruoso, e correu até o dragão.
"Banguela! Você tem que sair daqui, agora!" Ele exclamou, empurrando o dragão para longe, ignorando o choramingar baixo de Banguela, que provavelmente ainda estava preocupado com ele.
Soluço observou em pânico quando os vikings passaram pela nova abertura no topo da arena, entrando com machados e martelos em mãos.
"Vai! Vai!" Ele tentou convencer o dragão voar só para lembrar que... Banguela não podia voar sozinho. O som de um grito de guerra vindo de uma voz conhecida surpreendeu o garoto e ele se voltou para a entrada da arena, vendo seu pai correndo na direção deles com um machado em mãos, rápido como um tiro de catapulta. "Não! Pai, ele não vai te machucar!"
Banguela notou Stoico também, rugindo alto e afastando os vikings que vinham em sua direção com rápidos e violentos movimentos de cauda. Stoico não foi intimidado.
"Pai, você só está piorando as coisas!" E lá estava aquela frase novamente.
"Stoico! Pare!" Valka gritou, juntando-se aos gritos de seu filho.
Banguela abriu as asas e pulou, se lançando para cima de Stoico e o jogando no chão como se ele não fosse nada. Soluço sentiu seu sangue gelar, observando enquanto duas das mais importantes pessoas de sua vida lutavam violentamente, punhos calejados contra garras e dentes afiados.
Ele sabia que ambos só queriam protege-lo, mas...
"Não! Banguela, para!" Soluço gritou e quase sentiu seu coração parar de bater ao ver o Fúria da Noite erguer a cabeça, abrindo a boca e se preparando. "NÃO!"
Banguela engoliu o fogo para o fundo da garganta, se voltando para Soluço com olhos surpresos e confusos. Soluço suspirou, feliz que o dragão havia o ouvido.
Banguela pulou de cima de Stoico, o empurrando para trás com as pernas traseiras, correndo até Soluço mais uma vez, desviando por pouco das armas e dos demais vikings. Stoico tentou agarrar o dragão pela cauda, mas Valka, que havia descido para a arena, agarrou-lhe o braço, o puxando de pé.
Banguela pulou na direção de Soluço, abaixando a cabeça, pedindo sem palavras para que Soluço subisse em suas costas.
Soluço não sabia o que havia tomado conta de seu corpo, mas quase instintivamente ele pulou nas costas de Banguela, praticamente enfiando o pé no pedal da barbatana de qualquer modo. E, em segundos, os dois se lançaram na direção do céu.
"Soluço!" Ele chegou a ouvir a voz de sua irmã, mas os dois continuaram voando para longe, deixando Berk e o caos na arena destruída para trás.
