When your dreams all fail
And the ones we hail
Are the worst of all
And the blood's run stale
(Demons - Imagine Dragons)
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No dia seguinte, logo que acordou Draco tateou o criado em busca da sua poção antidepressiva, porém encontrou o frasco vazio. Procurou na gaveta, no entanto só encontrou meio frasco de Poção para Dormir sem Sonhar. Grunhindo, ele se sentou na cama e calçou os sapatos.
"Tiddy," chamou e, no instante seguinte, o elfo doméstico apareceu ao lado da sua cama fazendo uma mesura. "Preciso de mais poção antidepressiva."
"Mestre Draco, senhor..." O elfo doméstico torceu as mãos e se balançou nas pontas dos pés, seus olhos se desviando a todo o momento, ao que Draco sentiu o estômago afundar. "Tiddy pede desculpas, mas Tiddy avisou o mestre que era o último frasco da última vez, senhor..."
"Merda," Draco xingou, ao que o elfo deu um pulo para mais longe, lançando um olhar de esguelha para a cômoda, como se cogitasse prender os próprios dedos na gaveta mais próxima. O loiro respirou fundo. "Não é culpa sua, Tiddy. Tinha me esquecido. Vou mandar um pedido hoje via coruja."
"Mestre Draco quer que Tiddy traga a coruja, senhor?"
"Não será necessário, Tiddy. Eu desço num minuto."
O elfo desapareceu com outra mesura. Draco esfregou os olhos e levantou-se para se trocar. Agora era tarde para se lamentar. Normalmente a poção ficava pronta no dia seguinte. Porém, como era sexta-feira, o loiro provavelmente teria que esperar até segunda, a menos que estivesse disposto a ir até o boticário e ameaçar o emprego de alguém. Mas Draco não estava disposto a sair da mansão e não desejava usar das mesmas táticas do seu pai para conseguir o que queria, ainda que isso provavelmente significasse algum retrocesso no seu tratamento.
Em alguns minutos Draco estava descendo para o café da manhã e estranhou a quietude da casa. Scorpius costumava acordar muito cedo e normalmente o alcançava ainda no corredor, fazendo planos sobre como eles passariam o dia. Antes que atingisse a sala de estar, entretanto, Draco viu Effy na porta do aposento, torcendo as mãos da mesma maneira que Tiddy fizera havia pouco.
"Não de novo," Draco murmurou para si mesmo, já convencido de que aquele seria um dia daqueles. "Que foi, Effy?"
Mas o elfo não respondeu, lançando olhares assustados para o outro lado do aposento e Draco descobriu o motivo assim que pisou na sala de estar.
"Surpresa!" Disse Narcissa, adiantando-se para abraçá-lo antes de segurar seu rosto com as mãos por um instante para encará-lo com um sorriso nos lábios e nos olhos. "Ah, estava com tanta saudade, querido. Você parece ótimo, a propósito."
"Mãe..." Draco bufou, livrando-se das mãos da mulher. "Por que vocês não avisaram que viriam?"
"E perder a sua cara de satisfação ao nos ver?" perguntou Lucius, também se adiantando para abraçar o filho. Apesar do sarcasmo, Lucius segurou o ombro do filho e encarou-o nos olhos por mais tempo que o necessário. "É bom ver você, filho."
Aquilo desarmou-o e Draco deixou os ombros caírem.
"É bom ver vocês também. Acredito que não preciso dizer para vocês ficarem à vontade..." ele reparou que o chá já fora servido e dispensou Effy, que pareceu aliviada antes de desaparecer com um 'pop'. Não era a primeira vez que seus pais já chegavam dando ordens aos elfos domésticos e Draco demorara a convencer as pobres criaturas de que eles não estariam infringindo nenhuma regra caso obedecessem aos seus antigos amos. Isto é, desde que as ordens fossem razoáveis.
"De maneira alguma," Narcissa falou, voltando a se sentar no sofá ao lado de um Scorpius tímido e rígido e abraçando-o. "Estávamos aproveitando para matar a saudade do nosso neto enquanto você não aparecia. Sente-se, querido."
Draco arqueou uma sobrancelha para a mãe e já ia se sentar em sua poltrona quando percebeu que ela já estava ocupada pelo seu pai. Lucius cruzou as pernas, abriu o Profeta Diário e segurou sua xícara de chá como se nada de extraordinário estivesse acontecendo. Draco fez uma prece silenciosa por paciência.
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A manhã passou sem grandes acontecimentos. Por mais que custasse admitir, Draco sentia falta dos pais. Porém ao mesmo tempo viu-se preocupado com Scorpius, que não ficava nada à vontade na presença dos avós.
Narcissa passara a maior parte da manhã com o neto, pedindo que ele repassasse todos os assuntos que aprendera com sua professora desde sua última visita e tinha sempre uma correção na ponta da língua, embora seu tom fosse mais ameno do que o que costumava usar com Draco, quando pequeno. Não se passavam alguns minutos sem que ela sutilmente corrigisse a maneira de falar de Scorpius, sua postura ou sua atitude. Ela desconversava toda vez que Astoria era mencionada pelo garoto, mas em nenhum momento deixou transparecer sua aversão pela ex-nora. Draco tampouco imaginava que ela agiria de qualquer outra forma.
Scorpius, por sua vez, limitava-se a responder quando era solicitado e não parava de lançar olhares que mais pareciam pedidos de socorro ao pai. Sua postura ereta, o olhar ressabiado e o cuidado que ele tinha com as palavras lembrava a maneira como Scorpius costumava se comportar perto do pai até pouco tempo atrás e aquilo fez com que Draco sentisse novamente o peso de todos os anos em que não fizera por merecer o afeto e a confiança do próprio filho. Toda vez que seus olhos se encontravam, Draco tentava passar o recado para o filho de que estava tudo bem, ele estava se saindo otimamente. Aos poucos, o garoto foi relaxando diante da aprovação do pai.
Enquanto isso, Draco conversou com Lucius sobre política e logo ficou claro que, apesar de estar afastado da sociedade bruxa londrina, Lucius estava muito mais bem-informado que o filho. Obviamente que ele não perdeu a oportunidade de deixar claro o quanto aquilo o desagradava, porém Draco também deixou claro que não tinha nenhum interesse em continuar o árduo trabalho de alpinismo social que Lucius tanto valorizava. Felizmente o ar parisiense parecia ter feito bem ao homem, pois ele não insistiu no assunto e até demonstrou interesse nas pesquisas de Draco e suas novas aquisições para a biblioteca.
Narcissa, entretanto, não se deixou dissuadir tão facilmente. À tarde, Lucius fez questão de ensinar Scorpius a jogar xadrez, o que deixou Draco totalmente à mercê da mãe. Narcissa pediu que ele a acompanhasse enquanto inspecionava os jardins para se certificar que os elfos estavam tomando conta das suas flores a contento. Depois de descrever os diversos eventos e bailes aos quais o casal fora convidado em Paris, Narcissa atualizou o filho sobre a vida social em Londres, fazendo questão de enfatizar os dotes das filhas solteiras das famílias da alta sociedade. Draco deixou que ela falasse, se aquilo fazia com que ela se sentisse melhor.
Ao anoitecer, Draco já estava cansado de bancar o anfitrião. Ainda não tivera oportunidade de se recuperar da visita de Lupin no dia anterior, por isso ficou aliviado quando seus pais informaram que não passariam a noite, alegando terem uma agenda movimentada para o final de semana. Scorpius também parecia exausto, por isso Draco achou melhor colocá-lo na cama logo depois do jantar, dispensando a ajuda de Effy.
Antes de levar o filho para o quarto, entretanto, Draco guiou-o até a lareira mais privativa do andar de cima para que ele conversasse com a mãe. Astoria costumava aparecer para o chá da tarde nos dias que Scorpius ficava na mansão, por isso, àquela manhã, Draco havia pedido licença aos pais para mandar seu pedido de poções para o boticário e aproveitara para enviar uma coruja para a ex-mulher avisando que tinha visitas, com o intuito de evitar qualquer situação desconfortável.
"Eles ainda vão estar aqui pela manhã, papai?" Scorpius perguntou, já em sua cama, quando Draco abaixou-se para lhe dar um beijo de boa noite.
"Não." Draco sorriu para o filho e sentou-se na cama ao seu lado. "Eles vão embora daqui a pouco, não se preocupe."
Scorpius pareceu envergonhado.
"Não é que eu não goste deles," ele justificou-se. "É só que..."
"Está tudo bem, Scorpius," Draco interrompeu-o. "Sei que eles são um pouco difíceis de agradar, mas eles amam você. Estou realmente orgulhoso de você por ter sido gentil e atencioso com eles, mesmo que eles não estejam aqui o tempo todo, como seus avós Greengrass."
Aquilo pareceu fazer Scorpius relaxar e suas bochechas coraram levemente.
"Se eu contar um segredo, você promete não contar ao vovô?"
"Prometo."
"Achei aquele jogo que ele me ensinou muito chato e..." Scorpius se remexeu debaixo das cobertas. "E não entendi direito aquela história de 'chá mate'."
"Cheque mate," Draco corrigiu.
"Isso mesmo." Scorpius fez bico.
"Não tem problema. Se você quiser, posso explicar melhor para você amanhã."
"Talvez," Scorpius desdenhou e deu um longo bocejo. "Mas só se você prometer jogar duas partidas de quadribol comigo."
"Talvez," Draco devolveu e deu outro beijo no filho antes de desejar boa noite.
A cena que presenciou ao voltar à sala fez com que ficasse um tanto desconfortável. Seus pais estavam sentados lado a lado no sofá, Lucius com um dos braços ao redor dos ombros de Narcissa enquanto ela apoiava a cabeça em seu ombro. Eles pareciam tão entretidos um com o outro que Draco teve que limpar a garganta para ser notado.
"Ah, Draco... Scorpius está cada vez mais parecido com você!" Narcissa parecia emocionada, voltando a se endireitar como se nada de anormal tivesse acontecido.
"Ele é um bom garoto," Lucius concordou, também se endireitando.
Narcissa sorriu e voltou-se para o esposo.
"Você se lembra da nossa primeira visita aos Pucey?" Ela perguntou, ao que Lucius soltou o ar pelo nariz. Narcissa voltou-se para Draco. "Você não deve se lembrar. Devia ter a idade de Scorpius, ou talvez fosse ainda mais novo. Seu pai queria causar uma boa impressão por causa de uma aliança política e conversou seriamente sobre como você deveria se comportar impecavelmente... Então, assim que chegamos, você imediatamente chamou a Sra. Pucey de Sr. Pucey!" Ela riu e Lucius meneou a cabeça.
"Eu não sabia aonde enfiar a cara," Lucius completou. "E você ficou simplesmente me encarando de queixo erguido, orgulhoso de si mesmo..."
"Mas ela tinha bigodes!" Narcissa defendeu o filho. "Qualquer criança no lugar de Draco poderia ter confundido..."
"Felizmente, a mulher achou graça da situação, ao invés de se ofender..." Lucius também tinha um pequeno sorriso nos lábios. "Mas aquele coquetel na casa dos Rosier foi pior. Lembra?" Ele perguntou para a esposa.
"Quando o Sr. Farley rasgou o fundilho das calças?" Narcissa jogou a cabeça para trás numa risada. "Ah, Draco, querido. Você devia ter uns três anos..."
Draco mais observou do que ouviu enquanto seus pais relembravam cenas da sua infância com saudosismo. As poucas lembranças que tinha eram mais aterrorizadoras que divertidas, uma vez que Draco tinha que encarar a fúria de Lucius toda vez que chegava em casa depois daqueles eventos desastrosos, quando tudo que fazia era tentar agradá-lo. Era difícil guardar ressentimento dos pais, porém, ao vê-los tão tranquilos e felizes. Draco perguntou-se se seus pais tinham pesadelos sobre as coisas horríveis que presenciaram na guerra. Imaginou se também se sentiria mais leve e propenso ao riso caso tivesse se mudado de Londres como eles, para longe de todas as lembranças ruins do seu passado.
Para longe de Harry.
Draco não tivera muito tempo para pensar no moreno durante todo aquele dia, mas ele sempre parecia se infiltrar nos seus pensamentos nas horas mais impróprias. Naquele momento, por exemplo, Draco se imaginou contando aos pais que estava se encontrando com Harry Potter. Imaginou o divertimento de ambos dando lugar ao espanto e em seguida ao olhar reprovador que já estava tão acostumado receber, principalmente de Lucius...
O barulho da lareira fez com que Narcissa se interrompesse no meio de alguma história e Draco sentiu o sangue lhe fugir do rosto ao ver a cabeça de Potter flutuando nas chamas, como se convocado diretamente dos seus pensamentos.
"Oh..." Potter parecia tão surpreso quanto os três Malfoys que o encaravam. "Er... Boa noite."
"Sr. Potter!" Narcissa exclamou, recuperando-se primeiro do choque. Ela olhou de Potter para o filho e de novo para Potter.
"Hm... Sinto muito. Não tinha intenção de interromper, eu... Não imaginava..."
"Ora, não se preocupe," Narcissa manifestou-se novamente, lançando outro olhar de esguelha para o filho. "É um prazer vê-lo, Sr. Potter. Não sabia que o senhor e meu filho mantinham contato depois de todos esses anos..."
"Mãe, a senhora já sabe que nós trabalhamos juntos em Hogwarts no último ano..." Draco falou, assim que recuperou a voz, evitando olhar para o pai, que se mantivera quieto até aquele momento.
"Ah, claro, claro," Narcissa assentiu. "Tem razão. Aliás, não imaginava que teria mais motivos para agradecê-lo, Sr. Potter, mas obrigado pelo que fez pelo nosso neto. Não é mesmo, Lucius?"
Lucius limpou a garganta.
"De fato, Sr. Potter, de fato. Peço desculpas pela falta de educação do meu filho, mas o senhor não gostaria de se juntar a nós para um chá?"
"Ah, não, não, obrigado..." Potter falou, lançando um rápido olhar na direção de Draco. "Eu só chamei para... Bem..." ele ajeitou os óculos e Draco amaldiçoou em pensamento. "Só chamei para saber se meu afilhado não esqueceu o... hm... a vassoura aí, ontem. Draco?"
Draco piscou.
"Não, ele não esqueceu," falou, simplesmente.
"Certo." Potter assentiu. "Ele deve ter deixado nos Weasley, então. Sabe como as crianças são com essas coisas... Bem, tenho que ir. Sr. e Sra. Malfoy, foi um prazer vê-los. Draco..." Ele deu um aceno curto com a cabeça antes de sumir novamente.
Draco encarou os dois pares de olhos que o encaravam, questionadores. Suspirou. Bem, poderia ter sido pior. Potter poderia não ter pensado numa desculpa e continuado gaguejando até engasgar com a própria língua, por exemplo.
"Scorpius vem se correspondendo com Potter desde o ano passado," Draco esclareceu, mantendo o tom monotonamente entediado. "Ele descobriu que é primo do afilhado de Potter, Eduard Lupin, e não sossegou enquanto não chamei o garoto para passar a tarde aqui em casa, ontem."
"Lupin?" Lucius perguntou, olhando para a esposa. "Filho daquela sua sobrinha esquisita com aquele..."
"Lobisomem, isso mesmo," Draco completou, irritado. "Neto da minha tia deserdada por se casar com um trouxa. Algum problema?"
"Nenhum, absolutamente," Lucius falou, com uma expressão estranha no rosto. "Na verdade, sua mãe tem se correspondido com sua tia, recentemente."
"Sério?" Draco encarou a mãe, que lhe ofereceu um sorriso tão suspeito quanto a expressão do seu pai. Bem, aquilo certamente explicaria o motivo de Andromeda Tonks ter se mostrado tão receptiva ao seu convite.
"Querido, qual é o sentido em guardar rancor depois de tudo que passamos?" Narcissa perguntou e abaixou os olhos para o próprio vestido, alisando-o. "Nós somos uma família, afinal. Perdi uma irmã para a guerra, mas acabei recuperando a outra." Ela tornou a levantar os olhos e Draco percebeu-os mais brilhantes que o normal.
Mas era a expressão do seu pai que mais o intrigava. Ele parecia... satisfeito.
"Há algo que queira dizer, pai?" Draco perguntou, desconfortável.
"Nada, absolutamente," Lucius fingiu desinteresse. "Querida, o que acha de irmos embora?"
"Acho que Draco já nos aguentou por tempo suficiente," ela concordou e eles se levantaram para se despedir.
"Tem certeza que não preferem passar a noite?" Draco perguntou educadamente.
"Não se preocupe, querido." Narcissa abraçou-o e, em seguida, tornou a segurar seu rosto, encarando-o nos olhos. "Fico feliz que esteja bem, filho. Confesso que fiquei preocupada quando conversamos, algumas semanas atrás. Achei que você parecia mais magro e com olheiras, mas fico feliz por ter me enganado."
"Eu disse à sua mãe que você sabe se cuidar sozinho, mas quem disse que ela me ouve?" Lucius também se despediu com um aperto nos ombros do filho. "Deixe-nos saber se precisar de algo, está bem?" Ele virou-se para acompanhar a esposa através da lareira.
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Draco esperou alguns minutos antes de jogar pó de Flu na lareira. Encontrou Potter deitado no sofá com uma mão sobre o rosto, que ele retirou para encará-lo e gemeu.
"Qual foi o tamanho do estrago?" O ex-grifinório perguntou, se levantando.
"Nada grave."
"Sinto muito, eu não devia ter mencionado Teddy. Espero... O que você disse?" Ele se interrompeu, confuso.
"Eu disse que não foi nada grave. Não se preocupe."
"Ah... Certo." Harry ajeitou os óculos. "Eles ainda estão por aí?"
"Não, graças a Deus." Draco esfregou os olhos tentando dissipar um pouco do cansaço. "Para quê você me chamou?"
"Bem, imaginei que Scorpius já devia estar na cama uma hora dessas e pensei em perguntar se você gostaria de companhia, mas..." Ele encolheu os ombros e Draco percebeu pela sua postura curvada que ele também parecia exausto. "Acho que nós dois poderíamos fazer bom uso de um descanso hoje."
Draco sentiu a ansiedade que estivera rodeando-o durante todo o dia ameaçar tomá-lo e falou, antes que se impedisse.
"Não vejo nenhum problema em descansarmos juntos, então."
"Oh..." O olhar de Harry se acendeu e Draco relaxou um pouco da tensão dos próprios ombros.
Não sabia se seu desconforto era consequência direta da falta da sua dose diária de medicamento ou se era apenas seu emocional que estava fazendo com que se sentisse inquieto, mas a perspectiva de ficar se revirando na cama sozinho era ainda pior. Além disso, a maneira como seus pais haviam se comportado durante todo aquele dia, como se estivessem numa segunda lua-de-mel, fizera com que Draco se sentisse ainda mais solitário.
"Me dê alguns minutos e venha pela lareira do segundo andar. Traga seu pijama."
Alguns minutos depois, Draco estava terminando de vestir o pijama quando viu pelo reflexo do espelho a porta do seu quarto se abrir e fechar sozinha. Continuou abotoando a camisa tranquilamente enquanto Potter saía debaixo da sua Capa da Invisibilidade, já vestindo seu pijama. O moreno lançou alguns feitiços de privacidade na porta antes de se aproximar, segurando seus ombros e beijando seu pescoço. Draco virou a cabeça para encará-lo por sobre o ombro e Harry aproveitou para beijar seus lábios suavemente antes de enlaçar sua cintura e apoiar o queixo na curva do seu pescoço.
"Senti sua falta," o moreno sussurrou conforme eles se encaravam através do espelho.
A semana fora movimentada para ambos, por isso não haviam se encontrado até o dia anterior, quando tinham roubado alguns beijos e carícias escondidos de Scorpius e Lupin. Mas nada se comparava à tranquilidade e ao conforto da privacidade que tinham naquele momento. Draco desconfiou que sua voz falharia caso tentasse responder, por isso limitou-se a apertar os antebraços de Harry antes de se afastarem.
"Então? Como foi o seu dia?" Harry perguntou, se acomodando do seu lado da cama depois de retirar os óculos e observando com olhos míopes enquanto Draco terminava de dobrar as próprias roupas e guardar seu calçado com alguns acenos de varinha.
"Longo. E o seu?" Draco debateu consigo mesmo se deveria tomar uma poção para dormir, mas acabou optando por tentar passar sem ela. Deitou-se de frente para o moreno, que tinha a cabeça apoiada num dos braços, o cotovelo sobre o travesseiro.
"Longo também, mas produtivo. Conseguimos fechar um caso antigo, cujas pistas já haviam esfriado há algum tempo. Não sei se você se lembra de ter lido a respeito..."
"Você não precisa me contar," Draco atalhou, soando mais irritado do que realmente se sentia. Eles tinham um acordo tácito àquele respeito: quando perguntavam sobre o dia um do outro, era mais por educação do que pura e simplesmente curiosidade. Uma resposta abrangente era suficiente, não havia necessidade de entrar em detalhes. Como quando Potter perguntava sobre suas pesquisas e Draco perguntava sobre o trabalho do Auror.
"Tudo bem," Harry assegurou, encolhendo os ombros. "Vai sair amanhã no Profeta, de qualquer forma."
E ele pôs-se a contar sobre o sumiço de um artefato de valor inestimável do Museu Britânico da Magia. Draco ouviu com metade da sua atenção, enquanto a outra metade se concentrava no tom cadenciado da voz do moreno, suas expressões faciais, a cicatriz aparecendo por entre uma fenda em sua franja, o brilho nos seus olhos, mesmo na penumbra do quarto...
"Agora é sua vez," Harry falou, despertando Draco do seu transe.
"O quê?"
"Me conte como foi a visita dos seus pais."
Draco rolou os olhos.
"Eu poderia resumir em uma palavra: entediante."
"Prefiro a versão estendida." Harry sorriu e passou o polegar delicadamente pelo queixo do loiro, que fechou a cara.
"Se eu soubesse que você ficaria querendo jogar conversa fora, teria preferido alguma atividade mais rápida e menos cansativa. De preferência que envolvesse menos palavras e mais ação." Ele fez menção de levar a mão à frente das calças do pijama de Potter, mas foi impedido antes que tivesse tempo de registrar mais que a maciez da flanela.
"Qual é, Draco. Estou curioso," disse Harry, ainda segurando seu pulso firmemente para impedir qualquer avanço. "Vai me dizer que os seus pais não acharam nada estranho eu aparecer na sua lareira tarde da noite?"
"É óbvio que eles acharam estranho." Draco desvencilhou-se do aperto do outro e virou-se de barriga para cima, encarando os dosséis da sua cama.
"E o que você disse?"
Draco soltou o ar pelo nariz e contou sobre a reaproximação da sua mãe com a irmã, Andrômeda Tonks, ao que Harry também pareceu surpreso.
"Andrômeda não comentou nada comigo," o moreno estranhou. "Bem, imagino que não seja da minha conta. Mas fico feliz por saber disso. Eu..." Ele se interrompeu, pensando se deveria terminar a frase. "Acho que aprendi a admirar sua mãe. Ela é uma mulher muito forte."
"O sentimento é mútuo." Draco rolou os olhos. "Ela não esconde o fato de que adora você."
"Sério?" Harry pareceu ao mesmo tempo incrédulo e assustado com a perspectiva. "Ela disse isso?"
"Não precisou," Draco falou, sarcástico. "Eu deduzi pela quantidade de vezes que ela mencionou o seu nome nos últimos anos, depois da guerra."
"Ah..." Harry franziu o cenho, mas acabou sacudindo a cabeça. "E quanto ao seu pai? Como foi que ele reagiu?"
"Meu pai provavelmente acha que a minha aproximação com você faz parte de algum plano para voltar aos círculos sociais em grande estilo, ou algo do tipo," Draco desdenhou. "Ele não consegue entender como uma pessoa pode não se preocupar em colecionar relacionamentos úteis, nem que seja para a eventualidade de precisar de algum pequeno favor no futuro. Como se eu fosse o maldito Slughorn."
Harry riu.
"Não tem graça, Potter. Faz só um mês que voltamos e já quase fomos descobertos duas vezes! Se continuarmos descuidados desse jeito, daqui a pouco vamos sair no Semanário das Bruxas como o casal do ano."
"Bem, não é como se tivéssemos sido tão cuidadosos da última vez, em Hogwarts. Astoria que o diga..."
"É sério, Potter!" Draco voltou-se para o moreno novamente, irritando-se com a casualidade com que ele tocava no assunto.
"Eu sei, Draco." Harry ergueu o tronco e sustentou seu olhar, todos os vestígios de divertimento abandonados. "Não se preocupe, prometo que vou embora antes de amanhecer. E vou dar um jeito de nos comunicarmos mais discretamente. Confie em mim, está bem?"
Draco grunhiu em resposta e Harry inclinou-se para beijá-lo, primeiro languidamente, depois com mais entusiasmo, até que suas respirações ficaram alteradas.
"Você parece um pouco tenso," o moreno falou, quase inocentemente. "Desse jeito não vai conseguir dormir. Precisa de uma mãozinha para relaxar?"
"Filho da mãe," Draco xingou e Potter jogou a cabeça para trás numa gargalhada antes de voltar a beijá-lo ao mesmo tempo em que enfiava uma mão por baixo cós da sua calça de pijama.
Logo eles estavam nus e ofegantes, esfregando-se um de encontro ao outro como dois adolescentes desesperados por alívio. Não demorou muito para que gozassem, esparramando-se na cama a uma distância segura até que seus corpos voltassem à temperatura normal, os pijamas jogados no chão e esquecidos. E então, no silêncio que se seguiu, perturbado apenas pelas suas respirações ruidosas, Draco viu-se ansiando por algum contato dos seus corpos e odiando-se por isso, ao mesmo tempo. Era uma noite quente e eles estavam suados. Quão idiota pareceria se Draco se aconchegasse a ele? Não seria a primeira vez. Em Hogwarts as camas eram mais estreitas e eles costumavam ter que se apertar mais nelas. Mas em todas as outras vezes a iniciativa partira de Potter, que às vezes o abraçava ou o puxava para junto de si.
Draco percebeu que o silêncio havia se aprofundado e olhou para o lado. Harry tinha o rosto virado para o lado contrário ao seu e seu peito subia e descia tranquilamente. Draco fechou os olhos e amaldiçoou a própria carência. Levantou-se com cuidado para não perturbar o sono do outro, serviu-se de uma dose de Poção Para Dormir Sem Sonhar e voltou a se deitar de costas para o moreno até que a poção fizesse efeito.
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