Disclaimer: Todos os personagens pertencem a JK Rowling. Esta fanfic é uma tradução autorizada de "Maldición de una serpiente" postada em 2009 no FanFiction por Acarolin95.

Capítulo 18 - Gringotes.

Tinha caído em uma escuridão completa, e mais tarde Harry se encontrava caindo na água, estava se afogando e não tinha nada que pudesse fazer. Seus braços e pernas não respondiam. A falta de ar ia matá-lo e era inevitável que se perdesse no fundo. Antes que pudesse perder os sentidos, caiu sobre algo sólido. Harry entreabriu os olhos, mas voltou a fechá-los ao ver a cegadora luz na superfície, virou seu pescoço até a direita e esquerda e seu conta de que estava deitado sobre areia no fundo de onde estivesse. Então, percebeu-se de que já podia respirar e mover suas extremidades, mas sua túnica continuava flutuando e a roupa pesava. Apesar das queixas de seu corpo, levantou-se da areia e voltou a olhar ao redor, mas algo tinha mudado, uma porta de madeira estava suspensa a uns palmos da areia.

— ...gravemente por magia das trevas — Harry sobressaltou-se, olhou ao redor, mas não tinha ninguém —, destroçaram quase todo o seu braço e tem uma série ferida no estômago — continuou dizendo uma voz feminina que parecia muito familiar.

— Mas tem algum feitiço ou poção? — Harry voltou a procurar ao seu redor mais desesperado, tinha escutado a voz de Sirius, mas não o via.

— Temo, senhor Black, que sei muito pouco de arte das trevas... Mas é que não é todo o problema — dizia a voz da mulher —, não sei como, mas parece que o senhor Potter está preso dentro de sua cabeça, não parece querer sair.

— Acho que disso eu posso me encarregar, Poppy, usarei a... — mas o que Dumbledore fosse dizer, ele não soube, porque naquele momento acabava de cair algo duro na cabeça.

Agachou-se e começou a procurar na areia pelo que tinha caído na sua cabeça. Pelo canto de olho, vislumbrou um reflexo iluminado pelo sol, moveu-se rapidamente e pôde ver uma pequena chave oxidada com uma paleta no final, parecia bastante antiga. Ele pegou a chave, olhou para a porta, indo até ela. Talvez aquela porta o levasse até onde estavam Dumbledore e Sirius. O último que se lembrava era de ter provado sua inocência diante de Crouch e logo depois desmaiou.

— Já deve ter entrado por completo — disse a voz de sua mãe.

Harry decidiu não procurar por ela, porque sabia que como os outros ela não estaria. Então, a água moveu-se violentamente e sentiu que mais alguém estava com ele. Caminhou rapidamente até a porta e com as mãos estremecidas, introduziu a chave na fechadura, mas a porta não cedia e não tinha maçaneta. Quando a água voltou a acalmar-se, a porta finalmente cedeu, entrou rapidamente e fechou-a atrás dele, esperando que o que quer que estivesse do lado de fora, não pudesse entrar. Mas o que viu o deixou paralisado.

Estava em um quarto escuro, mas Harry conseguiu ver um móvel de madeira com um espelho pendurado sobre ele, e diante dele tinha um berço branco e grande com cobertas azuis. De repente, escutou um estrondo no andar de baixo, seguido do som de um grito junto de alguns passos correndo pelas escadas, e antes que pudesse reagir, a porta do quarto abriu-se e entrou uma mulher ruiva segurando um bebê de cabelo preto. Harry entendeu, então, onde estava e o que ia acontecer, não queria voltar a ver, mas não parecia ter outra alternativa porque a porta por onde entrou tinha desaparecido.

A mulher de cabelos vermelhos, sua mãe, colocou o menino dentro do berço e tentou fazer uma barricada na porta, mas não era um obstáculo para Voldemort. Harry tentou fazer alguma coisa quando viu Voldemort entrar no quarto, mas foi em vão... Era como estar diante de uma lembrança, ninguém podia vê-lo ou ouvi-lo. Então aconteceu o que tinha que acontecer, um raio de luz verde iluminou tudo e Lily caiu no chão morta. Voldemort apontou para o menino, que chorava, e outro raio de luz iluminou o lugar, mas ninguém morreu. A forma fantasmagórica de Voldemort ergueu-se de suas túnicas e fugiu, deixando para trás manchas de fumaça que iam até o garoto chorando no berço.

Harry não sabia o que eram aquelas manchas de fumaça que tinham entrado em seu homólogo mais novo, nunca tinha visto algo assim antes, nem mesmo da vez que viu tudo da perspectiva de Voldemort.

Aos poucos, a imagem foi tornando-se tão brilhante que ele teve que cobrir os olhos com a mão. Depois de um tempo, voltou a abrir os olhos, mas agora se encontrava em um cômodo branco com outra parte diante dele. Harry tinha um mau pressentimento sobre aquela porta, mas talvez conseguisse respostas. Lentamente caminhou até ela, deu um empurrão com a mão e a porta abriu-se. Ao entrar, Harry reconheceu o escritório de Dumbledore em Hogwarts.

Ali estava Remus, sentado quieto em seu lugar, e Dumbledore falando e caminhando ao redor dele.

— Neville não deve saber até o último momento, até que seja inevitável. Do contrário, não pode ter a força necessária para fazer o que deve.

— Ao que se refere com "fazer o que deve"?

— Algo que o transformará em uma das pessoas mais bondosas e desinteressadas que existem. De certo modo, Remus, estaria fazendo algo tão grandioso como no dia em que seus pais morreram. Um sacrifício que salvou a vida de Neville e de muitas pessoas para deter Voldemort, exceto que dessa vez não criará uma nova âncora para Voldemort na terra porque naquela noite, um fragmento de sua alma separou-se do resto e se uniu a única alma viva naquele lugar. Por isso, enquanto a alma estiver dentro e protegida por Neville, Voldemort nunca poderá morrer — Dumbledore deu um longo suspiro, enquanto fechava os olhos por alguns segundos.

Harry ficou paralisado onde estava. Não podia acreditar no que os seus próprios ouvidos escutavam, porque na realidade aquela informação valia para ele também. Tinham passado pelo mesmo começo e, embora tiveram uma vida diferente, teriam o mesmo desfecho: a morte.

— Neville tem que morrer? — perguntou Lupin em um sussurro. Estava encostado na cadeira, devastado.

— E tem que matá-lo o próprio Voldemort, isso é imprescindível.

Ficaram em silêncio durante um longo tempo, e por fim Lupin disse:

— E por que diz isso a mim? Não é que não agradeça sua confiança, Albus, mas...

— Sou uma pessoa de idade, Remus, nessa guerra já tenho os dias contados. E como você mesmo disse, Voldemort não se manteve tão tranquilo por nada — disse Dumbledore — e muito menos se agora tem aliados como o senhor Potter.

Remus sacudiu a cabeça com violência.

— O garoto pode ser muitas coisas, Albus, mas não acredito que se una a Voldemort.

Dumbledore continuou dando voltas, sem responder. O silêncio perdurou durante um longo tempo, até que Lupin voltou a romper.

— E então espera que conte isso a Neville para quando não estiver? Não sou uma das pessoas mais indicadas para o trabalho. Além do mais — apressou-se em acrescentar —, todos esses anos o protegendo foram para nada? Não teria sido melhor que tivesse morrido acidentalmente nas mãos de Voldemort, e assim não tivesse que caminhar ele mesmo para a morte?

— Não foi para nada, Remus. Todos esses anos o estivemos protegendo porque era fundamental instruí-lo, educá-lo, permitir que pusesse em prova suas forças — explicou — Como te disse no início: fará algo tão valente e grandioso como o dia em que seus pais morreram.

— Um sacrifício? Neville não vai se sacrificar por ninguém. Ele vai caminhar para a morte para que mais tarde outra pessoa destrua Voldemort.

Harry continuava paralisado ali, mesmo depois que a cena se desvaneceu. Compreendeu, então, a cena anterior e o que era aquela mancha que tinha entrado nele.

E ambos chegamos a mesma conclusão. Mas não está sozinho, não mais pelo menos, e me alegro.

Harry olhou ao redor surpreso, pensando que tinha começado outra lembrança, mas não tinha sido assim. Encontrava-se de novo naquele cômodo branco com outra porta diante dele. Não muito seguro de que quisesse entrar na lembrança seguinte, vacilou alguns segundos e abriu a porta.

Dessa vez, ao entrar, encontrou-se em um compartimento de trem de Hogwarts. Dentro estavam sentados dois meninos de onze anos, um de cabelo preto e olhos verdes, e o outro de cabelo loiro platinado com olhar arrogante. Reconheceu imediatamente o Harry daquele universo, o único que os diferenciava era que seu homólogo não era tão magro quanto ele naquela idade. E o outro garoto era Draco Malfoy, impossível não reconhecê-lo.

— Reconheço que tem razão — disse Harry, fazendo uma careta com a boca —, nunca ninguém tinha me dado esse ponto de vista.

— Mas não disse que era sangue puro? — perguntou Malfoy, franzindo o cenho.

— Sim — exclamou Harry, alarmado —, mas... acho que minha família não dá muita importância se tem trouxas ou não estudando magia.

Draco assentiu com a cabeça lentamente.

— Então espero que vá para a Slytherin, assim posso te ensinar mais — ele disse.

Então abriu a porta do compartimento e entrou uma garota, que Harry reconheceu imediatamente como Hermione, carregava seu baú e parecia aliviada ao ver poucas pessoas no vagão.

— Posso entrar? Os outros vagões estão cheios — reclamou Hermione, e sem esperar por uma resposta, entrou e fechou a porta — Não pude evitar escutar que estavam conversando sobre as casas. Em qual pensam entrar? Eu acho que Gryffindor está muito...

— Desculpa, quem te deu permissão para entrar? E quem é? — perguntou Malfoy, olhando-a com desprezo.

— Oh! Me desculpe, eu sou Hermione Granger...

— Granger? Nunca ouvi esse nome antes. Não é sangue pura, não é? — Malfoy a interrompeu grosseiramente.

— Se se refere a ser filha de bruxos, não. Há apenas alguns dias descobri que sou bruxa — disse Hermione sorrindo amplamente, enquanto se sentava do lado de Harry — e estudei quase todos os livros, quero estar preparada, não sei se é o suficiente...

— Você cala a boca em algum momento? — rosnou Malfoy — É tão...

— Estudou todos os livros? — perguntou Harry assombrado, mas depois que Hermione assentiu feliz, Harry soltou uma gargalhada — Nota-se que todos os filhos de trouxa deveriam ir para a Ravenclaw... Ah não! Disse que queria ir para a Gryffindor? Isso é melhor ainda! Depois de tudo, os que roubam e mentem são dessa casa.

— Eu nunca roubei! — exclamou Hermione, ofendida.

— Pois na Gryffindor vai começar bem, conheço muitos grifinórios que traíram seus amigos. Além do mais, todos os sangues ruins acabam sendo uns grifinórios que são puro estudo e muito músculos. Se quer minha opinião, é melhor voltar para casa — disse Harry com um pequeno sorriso nos lábios.

— Exatamente o que eu ia dizer. Faria um bem para a sociedade voltando para casa e devolvendo a magia que roubou.

— E se é muito cabeça dura, é melhor ir para Ravenclaw, é inteligente, já na Gryffindor, vão te marcar e odiar por ser uma filha de trouxas.

— Grifinórios são valentes, inteligentes e leais. Tudo o contrário do que disse! — gritou Hermione, levantando-se em um pulo.

— Também queria que fosse assim, mas Remus Lupin foi um Gryffindor e terminou dando as costas para os meus pais, e Peter Pettigrew é um covarde, bom, mas covarde e ainda assim terminou na Gryffindor. O que pode dizer sobre isso?

Hermione ficou parada com os punhos cerrados, mas sem saber o que responder. Harry não gostava nada disso, estavam convencendo Hermione a mudar de ideia sobre a Gryffindor.

— Escolha uma casa melhor antes que seja muito tarde. Eu, por exemplo, tenho que ir para a Gryffindor porque toda a minha família esteve lá e não serei exceção, infelizmente — Harry deu de ombros e continuou — Acredite, Ravenclaw é melhor para você.

Hermione franziu os cenhos e, dramaticamente, pegou o seu baú e saiu do vagão, batendo a porta com força ao sair.

— Não deveria ser tão delicado com ela — disse Malfoy.

— Por quê? Eu nem a conheço...

— Ser uma filha de trouxas não é suficiente? — ele arregalou os olhos.

— Sinceramente? — Malfoy assentiu — Não. Só estava ajudando para que não entrasse na Gryffindor, teria feito isso com qualquer pessoa. Não tenho nada contra ela.

— Tem tanto a aprender — disse, negando com a cabeça.

A lembrança se desvaneceu e em vez de chegar um cômodo em branco com uma porta, voltou para o fundo daquele mar na areia. Harry segurou sua cabeça com as mãos, ainda afetado por aquelas lembranças. Então, Harry percebeu que cada uma daquelas recordações vinha de pessoas diferentes. O primeiro era seu, de seu subconsciente, o segundo era de Dumbledore ou de Remus, e o último ainda não sabia de quem era, apesar de ser o dono daquela vez. "E ambos chegamos a mesma conclusão. Mas não está sozinho, não mais pelo menos, e me alegro". Embora isso realmente importava? Talvez parecia estranho que só umas palavras bastassem para fazê-la mudar de ideia sobre a Gryffindor e ainda mais se era Hermione, mas o importante era que levava uma horcrux em seu corpo e precisava morrer. E outra vez, aquelas palavras repetiram-se em sua cabeça: "Mas não está sozinho, não mais pelo menos, e me alegro".

De repente, vislumbrou pelo canto do olho uma luz branca e ao levantar a cabeça, percebeu que era uma bolinha de luz branca que rondava uns metros longe dele. Levantou-se, hipnotizado pela luz e caminhou até ela. Depois de uns metros, começou a nadar até em cima e, quando sua cabeça tocou a superfície, sua visão ficou escura.

Quando voltou a recobrar os sentidos, sentiu-se encostado em algo suave e coberto por algo quente e pesado. Lentamente abriu os olhos e viu as macas brancas ao seu redor, deu um suspiro ao perceber que estava na enfermaria de Hogwarts.

— Acordou! — gritou Sirius ao seu lado — Disse que Dumbledore ia ajudar, Lily.

— Sirius, eu não disse... — começou a dizer sua mãe, que estava sentada ao seu lado — Não importa. Como se sente? A sua barriga dói? — perguntou, tocando a sua testa e rosto com carinho.

— O que aconteceu? O diadema... Dean... — murmurou Harry com a voz baixa.

— Tranquilo, senhor Potter — sorriu Dumbledore, que tinha entrado no cômodo — O diadema já foi destruído e conseguimos informação de Bellatrix — Harry abriu a boca, mas foi interrompido — Sim, temos uma nova pista, Harry.

Lily franziu o cenho e deu uma olhada para seu marido, mas ele estava tão perdido quanto ela. Pegou a mão de Harry com firmeza e disse:

— Já chega! Seja lá o que for essa pista, pode esperar, Albus. Harry ainda está mal e a última coisa que quer é escutar o nome dessa... dessa coisa. Agora, como se sente?

Harry a olhou abestado por alguns minutos, a única pessoa que tinha o tratado assim era a senhora Weasley, mas se sentia mais feliz de saber que na realidade era sua mãe. Era como um pequeno formigamento no corpo em ver que realmente se preocupava por ele.

— Acho que vou chamar Pomfrey — disse a voz de seu pai, estava muito pálido e desde que Harry tinha acordado, não tinha dado sinais de estar ali.

— Não precisa, já estou aqui — disse Madame Pomfrey, saindo de outro cômodo — Como está, Potter?

Harry deu de ombros. Depois de ter escutado a resposta de Crouch, tinha caído na escuridão pela dor e depois... esteve no fundo do mar com portas, embora não deveria me estranhar, afinal sempre acontece algo impossível ou estranho comigo, pensou Harry. Olhou para Dumbledore, que o olhava com aquele estranho brilho nos olhos, e percebeu que aquela lembrança realmente tinha acontecido.

— ...tenha feito efeito — não se deu conta de que Madame Pomfrey continuava falando.

— O que foi que aconteceu? — perguntou Harry, sem prestar muita atenção na enfermeira.

— A louca da minha prima, com isso te digo tudo — respondeu Sirius com o cenho franzido — Parece que seu amo esteve ensinando-a muito bem as artes das trevas. Deve ser algo novo, porque nunca tinha visto antes... mas não importa, o que importa é que esteja são e salvo.

— Pensei que fosse Sectumsempra — murmurou Harry.

Todos os presentes viraram-se para observá-lo com surpresa, e alguns com medo. Percebeu que para a maioria ainda era difícil não pensar nele como o Harry dali.

— Como sabe? — perguntou seu pai, que continuava pálido e irrequieto.

— No meu universo, essa maldição não é mistério faz tempo — respondeu, dando de ombros — Snape a inventou e não duvido que tenha feito aqui também, quero dizer, a ferida encaixa com a descrição... embora isso signifique não poderei me recuperar — ele completou, ao lembrar-se da orelha ensanguentada de George, não conseguiram curá-la.

— Quê? — gritaram seus pais e Sirius. Olharam para Madame Pomfrey, esperando uma explicação.

— Era o que eu temia — Pomfrey suspirou enquanto movia a sua cabeça — Tentei com muitas poções e feitiços que conhecia e nada suturou... Se me deixar ver, Potter — Harry assentiu rapidamente. Ela caminhou até o outro lado de Harry, tirou algumas bandagens manchadas de sangue, mostrando uma horrível e profunda ferida na barriga. Perguntou-se como não podia sentir dor, só sentiu uma coceira quando tirou as bandagens, mas nada mais. Madame Pomfrey estalou a língua, negando com a cabeça, pegou bandagens novas e cobriu a ferida com cuidado — Parece estar pior, a maldição está o comendo internamente, como se tentasse ocupar espaço.

— Mas vai poder fazer algo, não é? — perguntou Lily enquanto apertava com força a mão do filho.

O resto da tarde passou lentamente, todo o dia esteve deitado na cama bebendo qualquer poção com sabores horripilantes. Seus pais e Sirius estiveram com ele em todos os momentos, inclusive quando o professor Dumbledore e Madame Pomfrey se retiraram, ficaram animando-o e apoiando-o, seu pai já tinha a sua cor de volta e parecia mais decidido em mostrar-se forte diante dele. De vez em quando, James e Sirius saíam da Ala Hospitalar para buscar comida, mas nunca ficou sozinho, coisa que realmente agradecia porque depois de saber que precisaria morrer, queria gastar cada segundo com seus parentes.

Quando o sol já tinha se escondido, Dumbledore reapareceu.

— Boa noite, perdoem-me, mas tenho que falar com Harry — ele disse expressamente, olhando para seus pais e padrinho.

— Seja o que for, pode dizer diante de nós, somos sua família — disse Lily — Não quero que haja mais segredos, Albus. Me desculpe, mas não.

— Entendo perfeitamente, mas é caso de vida ou morte. Tenho certeza de que Harry tem muitas perguntas e tem direito de ter suas respostas e se informar das últimas notícias — respondeu com tranquilidade — Prometo que Harry não terá que sofrer força física, só falar.

Lily e James foram protestar, mas Sirius, que já tinha entendido que era sobre horcruxes, os arrastou para fora da sala, não sem antes receber um tapa de Lily e uma azaração de James, mas no final estavam fora.

Dumbledore convocou uma cadeira e sentou-se ao lado dele.

— Suponho que se pergunta se está certo sobre a sétima horcrux, ou me equivoco? — ele inclinou-se para a frente.

— Não, senhor. Tudo foi estranho, como um sonho, caí no fundo do mar e então me encontrei com uma porta e uma chave... O que era tudo isso?

— Mar? Interessante que veja seu subconsciente como o fundo do mar — o diretor sorriu levemente — A porta foi uma das suas primeiras lembranças, uma em que continuava sendo um garoto inocente, e a chave foi a senha para abrir sua mente para você mesmo e para mim — Harry o olhou com o cenho franzido, sem entender — Te mostrou uma de suas lembranças mais terríveis de infância, uma que decidiu não voltar a se lembrar e enterrar no seu subconsciente. Eu mesmo me encarreguei de que visse porque queria que entendesse como aconteceu, embora sinto que tenha tido que reviver aquelas mortes — Harry negou rapidamente com a cabeça e indicou para que ele continuasse — Agora, sei que deve ser muito difícil fazer isso, mas é a sua escolha. Se decidir não fazer, encontraremos outra maneira.

— Não — disse Harry categoricamente —, eu vou fazer, não posso ficar de braços cruzados enquanto vejo meus amigos morrerem, quando sei a forma de destruí-lo.

Os olhos de Dumbledore brilharam mais do que o normal, assentiu com a cabeça e lhe dedicou um sorriso.

— Sinceramente, Harry, é uma pessoa muito boa, uma das melhores e estou orgulhoso, como tenho certeza que seus pais também estarão — disse, abaixando o olhar — Tomou a melhor decisão, filho, não acho que eu mesmo pudesse fazer isso.

Harry ficou calado, observando suas mãos sobre a coberta branca, sentindo seu rosto queimar.

— Eu acho que sim, o senhor também fez muito pelo mundo bruxo e é uma das melhores pessoas que conheci, professor Dumbledore.

— Me comove, Harry, mas cometi muitos erros quando tinha sua idade. Mas não vamos falar sobre mim — fez um gesto com a mão sem importância — Acho que também se interessa pelo que aconteceu com Bellatrix — ele assentiu — Primeiro quero parabenizá-lo por ter encontrado o diadema tão rápido, e como já disse, o diadema está destruído. Agora, consegui que Bartemius me deixasse fazer algumas perguntas a Bellatrix sobre alguma outra horcrux, e me alegro de ter conseguido respostas. Temos a seguinte horcrux, a Taça de Hufflepuff, em Gringotes.

— Significa que tenho que entrar em Gringotes? E como é a taça?

— Não, dessa vez não estará sozinho. Entrar em Gringotes é muito difícil, alguns da Ordem e eu mesmo te acompanharemos e faremos os planos para entrar. Além do mais, tenho a sensação de que Voldemort já sabe.

— Então realmente sente quando um pedaço de sua alma é destruído?

— Não acredito, alguém com uma alma tão danificada e sem conhecimento do amor não sente nada, mas não se preocupe, é só um pressentimento.

Dumbledore levantou-se da cadeira, mas Harry voltou a falar:

— Mas, professor, o que acontece com a última lembrança? A que veio?

— Ah! Então era isso. Nos perguntamos o porquê demorou tanto para acordar. Depois da lembrança sobre mim e Remus conversando, saí de sua mente, mas continuava sem voltar, como era suposto. Mas disse que teve outra lembrança, qual era?

— Era sobre meu homólogo e Draco Malfoy quando tinham onze anos e estavam no expresso de Hogwarts. Acho que quem me mostrava era alguém que queria me explicar o porquê Hermione Granger acabou indo para a Ravenclaw em vez da Gryffindor — disse Harry rapidamente.

Dumbledore concordou com a cabeça enquanto passava os dedos por sua longa barba prateada.

— Poderia ser uma conexão que teve com seu homólogo, devem ter estado em uma situação semelhante para que a conexão se formasse, porque depois de tudo, você e seu homólogo são a mesma pessoa. Agora, tenho que ir antes que sua mãe ou Poppy me matem. Cuide-se e espero que não seja um inconveniente que comecemos a planejar amanhã.

— De modo algum.

Dumbledore saiu da Ala Hospitalar, ao mesmo tempo em que seus pais e Sirius entravam desesperados para sentar-se perto dele. Falaram durante alguns minutos, mas sua mãe insistiu que devia descansar e acabou indo dormir antes das onze da noite.

De manhã, agradeceu ter adormecido cedo, porque pela manhã sentiu-se devastado, doíam partes do corpo que nem sabia que existiam. Madame Pomfrey passou as primeiras horas da manhã dando-lhe mais poções e anotando sobre suas feridas e dores. Pelo menos, ao meio dia, seu pai e Sirius conseguiram tirá-la de cima de Harry e tomar café da manhã juntos.

Na metade da tarde, enquanto Harry, Sirius, James e Lily brincavam de snap explosivo, Harry continuava pensando sobre a suspeita de Dumbledore. Tinha aprendido que o bruxo sempre tinha razão quando suspeitava de algo, então não queria ser tomado de surpresa, o problema era o que fazer com seus pais.

— Dumbledore contou algo sobre Gringotes? — perguntou Harry, olhando para suas cartas, como se não fosse nada.

Seus pais deixaram o que estavam fazendo, olharam para ele e então entre si, sem saber o que dizer. Mas Sirius falou:

— Sim e vou contigo, já disse a Dumbledore, não vou te deixar por sua conta e risco.

— Nós também decidimos — disse seu pai, assentindo firme —, não estou feliz que tenha que ir, mas vamos te ajudar.

— Obrigado, mas... também queria dizer que Dumbledore... — Harry engoliu saliva, mas sentia um nó na garganta — me disse que arrumou a forma de...

Sua voz foi abafada quando a porta da Ala Hospitalar foi aberta. Por ela entrou Dumbledore junto com um pequeno grupo de pessoas atrás dele. Quando aproximaram-se mais de Harry, percebeu quem era: Neville, Bill — sem nenhuma cicatriz no rosto — e Charlie Weasley, Fleur Delacour — ou talvez Weasley —, Kingsley Shacklebolt — com seu brinco na orelha — e Olho-Tonto Moody, tão deformado quanto no seu universo.

Dumbledore chegou cumprimentando jovialmente seus pais e Sirius, como o resto do grupo. Os Weasleys não tiveram nada contra, talvez Fred e George já tivessem contado algo, Fleur já não era mais Delacour e sim Weasley como seu universo, e os únicos que foram um pouco bruscos com ele foram Shacklebolt e Olho-Tonto, mas de Olho-Tonto ele não esperaria outra coisa. Pouco depois, Dumbledore começou a explicar primeiro fariam um pequeno plano e depois veriam a posição de cada um nele. Era estranho tudo isso, normalmente ele fazia os planos com Hermione e Rony, e era a primeira vez que trabalhava com a Ordem, levando em conta que a última vez a senhora Weasley tinha ficado histérica com a ideia de dar informações sobre as reuniões da Ordem. Embora sua mãe de vez em quando protestasse que ele era jovem demais, James, Sirius e ele conseguiam tirar esse pensamento de sua cabeça por um longo tempo.

Os primeiros dias de planejamento foram muito entediantes, ele só tinha que sentar na cama, escutar as notícias sobre Gringotes e de vez em quando intervir. Não foi até cinco dias depois que as coisas melhoraram.

A reunião começou mais cedo que o normal, mas nem seu pai nem Shacklebolt puderam ir por causa do trabalho no Departamento de Aurores. No entanto, duas pessoas novas se uniram e Harry sabia o porquê não apareceram nas reuniões anteriores.

— Ah! Fico feliz que tenham podido vir, principalmente você Nymphadora, não esperava que aparecesse — disse Dumbledore, antes de começar a reunião.

— Foi o que eu disse — Remus se via muito mais feliz e jovem que o normal. Harry realmente agradecia que esse Remus aceitasse a gravidez de Tonks, lhe fazia muito bem —, mas é teimosa, então decidimos...

— Não, você decidiu, Remus — disse Tonks com um tom irritado, mas o seu sorriso a denunciava. Estava, para não dizer gorda, muito grávida e assim com Remus, a gravidez lhe fazia muito bem.

— É, eu decidi que só nos ajudasse no planejamento — sorriu Lupin, aproximando-se com sua esposa até a cama de Harry, onde também estavam Bill, Fleur, Charlie, Sirius, Lily, Olho-Tonto e Dumbledore — Como está, Harry?

— Bem, obri...

— Chega de cumprimentos e carinhos, deixem isso para depois — rosnou Olho-Tonto, fazendo barulho com sua perna de pau — Agora, o que há de novo, Weasley?

— Consegui averiguar que a câmara ancorada dos Lestrange está bem próxima do cofre dos Blacks e Potters — disse Bill, tirou um pergaminho amarelado e desdobrou na cama, era um pequeno mapa feito a mão — Parece que puseram muito mais segurança, o que nos garante que a arma está lá. A câmara está mais ou menos aqui — Bill indicou um quadrado que dizia "Lestrange", estava em um dos cantos do pergaminho —, é um dos andares mais baixos que tem. E, se não estou errado, aqui está o cofre Potter — Bill indicou outro quadrado em outro canto paralelo ao quadrado dos Lestrange.

— Um pouco longe, não acha? — disse Sirius, sem desviar o olhar do mapa.

Nah, só os separa uma interseção. Se souber a hora certa de ir por outro caminho, não se perderá — disse Fleur com seu forte sotaque, muito séria.

— Como se aqueles carrinhos não fossem rápidos — debochou Tonks — Mas disse que também estava próximo do cofre dos Black? — dirigiu-se ao ruivo.

Bill assentiu enquanto dava de ombros.

— Suponho, mas não tenho certeza. Estive procurando a localização, mas não achei nada e então pensei que talvez estivesse próximo. Depois de tudo, as duas são famílias antigas e das trevas, não é?

Considerando que era importante saber a localização, Sirius deu a chave para ele. A informação de Bill era quase pouco confiante, porque como era possível lembrar-se de todas a voltas que o carrinho dava, ninguém sabia.

A reunião não se estendeu muito, Sirius e Charlie deram uma pequena informação de quem eram as pessoas que mais visitavam Gringotes e quais famílias usavam o mesmo duende. Além disso, Dumbledore encomendou a Tonks o trabalho de ajudar Lily com a busca dos duendes que foram afetados pela guerra e quais estavam do lado de Voldemort. Harry se deu conta de que seria difícil, porque a maioria dos duendes eram rancorosos e preferiam não participar de guerras.

No final, os únicos que ficaram foram Lily, Lupin e Tonks. Sua mãe e Tonks rapidamente começaram a conversar, deixando-o a sós com Lupin.

— Então conseguiu abrir os olhos de Crouch, hum? — começou Lupin, nervosamente.

Harry deu de ombros. Ele realmente não tinha feito nada, apenas justiça e se defendeu, porque quando que ele tinha ficado de braços cruzados? Nunca.

— Eu queria perguntar sobre essa arma, mas tenho a sensação de que não dirá nada.

— Não, sinto muito — disse Harry, esboçando um sorriso — Não disse nem aos meus pais. Aliás, parabéns pelo bebê a caminho.

— Ah obrigado — Lupin sorriu nervoso e por um momento Harry sentiu as dúvidas dele sobre o seu filho, assim como o Remus de seu universo — Era disso que queria falar...

— Não vai abandonar Tonks e o bebê, não é? — ele rosnou com o cenho franzido.

— Quê? — exclamou surpreso — Não! Eu não faria isso, já passei pelas dúvidas e já esqueci — assegurou — Queria perguntar se não gostaria de ser padrinho do Teddy, meu filho e da Tonks.

Harry ficou encarando-o por um longo tempo até conseguir processar a informação. Padrinho! pensou com felicidade e sem pensar duas vezes, respondeu:

— É claro! Eu adoraria! — mas não pôde evitar perguntar o motivo, não que quisesse ser grosso — Mas por que eu?

— Bom, acho que seria um grande padrinho, mesmo se algum dia tiver que voltar, e é uma forma de me desculpar pela forma como te tratei — deu uma piscadela — Se algo acontecer comigo e com Dora, você seria a pessoa indicada.

— Bom, obrigado — sentiu o rosto arder —, farei o meu melhor, mas tenho certeza de que não vai precisar.

Remus sorriu agradecido e depois de conversarem um tempo sobre Ted Remus Lupin, ele e Tonks saíram da Ala Hospitalar, voltando a deixá-lo com sua mãe.

— Realmente fico feliz que esse menino não tenha nenhum problema — disse sua mãe, aproximando-se da cama — Harry, querido, eu preciso ir, mas seu pai deve chegar logo. Vai ficar bem sozinho?

— Vou, mamãe, você se preocupa demais — disse sorrindo — Não vou ficar tanto tempo sozinho, Madame Pomfrey com certeza vai aproveitar para me revistar.

E assim foi, depois que sua mãe saiu, Pomfrey entrou correndo até onde estava para revisar suas feridas e, para alívio de Harry, não demorou muito tempo.

As horas se passaram e recebeu visita de Rony e Luna, como costumavam fazer cada vez que a Ordem e seus pais não estavam. Mas quando seu pai chegou, Rony e Luna o deixaram com uma pilha de deveres, os NIEMs se aproximavam e nenhuma guerra ia impedir os professores de aumentar os deveres e trabalhos, mas pelo menos estava feliz por sua visita.

Depois de alguns dias, teve outra reunião onde Bill e Fleur já tinham conseguido localizar o cofre dos Blacks, que infelizmente estava mais longe do que o dos Potter, e Charlie confirmou os boatos sobre dragões em Gringotes. Ele não estava nada feliz com isso, parecia que o dragão estava trancado debaixo da terra e sendo maltratado.

— Juro que se encontrar um dragão, vou tirá-lo dali — rosnou — Cada vez mais odeio esses duendes. Como podem ser tão cruéis? Não sentem pena dos pobres dragões? Com certeza o mantém amarrado e assustado com algum dos truques de duende. Um dragão precisa de espaço e sol, como qualquer outro animal, são seres vivos!

— Charlie — interveio Tonks, pondo uma mão em seu ombro —, entendemos a sua raiva, mas se falar com Hagrid, vai se sentir melhor — ele concordou com a cabeça, mas sem tirar sua expressão de mau humor.

— As probabilidades de encontrarmos um dragão dependem de como vão ser as coisas — disse Bill depois de um longo silêncio — Se descobrirem que estamos ali, com certeza vai aparecer um dragão, por ser uma família antiga e protegida, no menor sinal de perigo estaremos perdidos.

— Não seja tão otimista, Bill — disse sarcasticamente James — Se mantivermos as portas e os duendes bem vigiados, tudo vai acabar bem.

Ficaram calados durante outro longo tempo. Neville que não tinha falado ou intervindo desde a primeira reunião, há uma semana, parecia nervoso porque, como Harry, tinha se dado conta de que a invasão a Gringotes se aproximava.

— Não se subestime tanto, Potter, essa é uma missão muito importante, devemos dar tudo de nós, nossa máxima concentração e sacrifício, se alguém morrer — Shacklebolt revirou os olhos e James, Sirius e Tonks riram baixo.

— Não comece, Moody — reclamou Shacklebolt — Temos toda a informação que precisamos para garantir uma entrada segura, um domador de dragões e dois funcionários de Gringotes. Se continuar dizendo que Voldemort vai aparecer em Gringotes, eu te garanto que ele vai aparecer.

Moody rosnou e então Shacklebolt e James começaram a discutir com ele, mas Harry não se importava. Estava absorto em pensamentos e o irônico era que Moody pensasse na aparição de Voldemort em Gringotes como Dumbledore e ele. Se só o resto acreditasse ou se Dumbledore dissesse algo, mas era pouco provável que ele dissesse algo sem ter certeza. Mesmo se Voldemort aparecesse ou não, não afetava a Harry no sentido de sua própria vida, mas sim de sua família e da Ordem.

Quando conseguiram acalmar a briga, organizaram a posição em que cada um ia ficar e para desgosto de Harry, Sirius teria que ficar fora com o resto do grupo, se encarregariam de vigiar os duendes ou algum sinal de Comensais. Ao final, decidiu-se fazer o movimento para a semana seguinte, segunda-feira por ser o dia em que poucos bruxos iam banco e porque as poções já estariam prontas. E quando a tarde caiu, o grupo moveu-se para fora da enfermaria para sua casas ou trabalho, exceto seus pais e seu padrinho.

— Ainda não acredito que vamos invadir Gringotes — comentou Sirius, sentando-se aos pés da cama de Harry.

— Eu sei, a primeira vez que entrei em Gringotes quando criança, pensei que seria uma loucura roubá-lo e o que me surpreende que tenhamos feito os planos tão rápido — disse James — O que me irrita é que Lupin tenha... Harry? Tudo bem?

Harry estava apenas escutando a conversa, continuava pensando nas palavras e na forma de contar aos seus pais que não voltariam a vê-lo. De repente, sentiu uma fisgada na cicatriz, ao mesmo tempo que doeu o estômago, sua visão foi borrada por alguns minutos e sentiu ódio dentro de seu corpo: Voldemort sabia.

— Harry! Harry!

Quando abriu os olhos, viu um borrão vermelho, que identificou como sua mãe, e outros dois borrões escuros que deviam ser seu pai e Sirius. Eu desmaiei? Não tinha certeza, mas já tinha acontecido antes, então não era estranho. Harry tentou levantar-se, mas a dor no estômago o impediu.

Então, outro borrão aproximou-se, era branco e estava agitado. Supôs que fosse Madame Pomfrey quando ela tirou as bandagens e começou a ver a ferida. Era a primeira vez que doía tanto, inclusive o ar do ambiente ardia a pele e a ferida, e quando Pomfrey tentou tocá-lo, encolheu-se como um animal assustado, não deixou-se ser tocado até que a curandeira teve que adormecê-lo e isso foi o último que ele foi consciente.

— Já acordou — sussurrou a voz de James ao seu lado.

Harry tentou mover-se, sentia as pernas pesadas e talvez era por um peso que sentia nos pés. Moveu as pernas com brusquidão, mas no mesmo segundo arrependeu-se por ver que era Almofadinhas, tinha adormecido em seus pés durante a noite.

— Desculpe, Almofadinhas — sussurrou Harry, voltando a encostar a cabeça contra o travesseiro.

Almofadinhas transformou-se em Sirius, que parecia cansado e preocupado e não para menos, depois de ver seu afilhado colapsar de dor na noite, justo quando Pomfrey tinha dito que ele logo começaria a melhorar e que dentro de alguns dias teria que entrar em ação, não era o melhor. E tanto era assim para Sirius quanto para seus pais ou talvez pior.

— Não importa — murmurou Sirius, caminhando até o lado de James — Como se sente?

Harry deu de ombros, não queria preocupá-los, e se não estivessem bem, não o deixariam ir a Gringotes.

— Pomfrey disse que não tinha nada a ver com a maldição — disse James, pondo uma mão sobre sua testa até chegar na cicatriz. Foi uma sensação estranha, ninguém além dele e Voldemort tinham tocado a cicatriz, o tato de seu pai mandou um formigamento por todo o corpo que não era ruim, parecia acalmá-lo — Dumbledore e Sirius disseram que é a cicatriz. O que você acha?

Harry voltou a dar de ombros, esquivando o olhar, sentia-se enojado de ter gostado daquele contato, era como sentir a alma de Voldemort dentro dele sendo mórbida.

Sentiu o toque de sua mãe no queixo, levantou-o e o obrigou a olhá-la nos olhos verdes iguais aos seus.

— Harry, querido, precisamos saber para te ajudar — implorou sua mãe.

Harry moveu a cabeça até o outro lado, tirando a mão de seu queixo e então assentiu. Contou o que aconteceu, mas depois se arrependeu, estavam mais preocupados do que antes.

— Acha que a maldição fez uma conexão com Bellatrix Lestrange? — perguntou seu pai a Sirius.

— Não sei — disse, encolhendo os ombros —, espero que não...

— Por que ia ter uma conexão com Bellatrix? — perguntou Harry alarmado. Não posso ter outra horcrux no meu corpo, não é? Quando pensou nisso, sentiu um calafrio.

— É que depois que te... desmaiamos, Dumbledore entrou na enfermaria dizendo que Crouch deixou Bellatrix escapar — rosnou James.

— Quê? Como? — exclamou Harry, erguendo-se na cama, ignorando a dor — Que idiota! O quê? Quase me custou uma passagem só de ida para Azkaban capturar aquela filha da...

— Harry! — sua mãe o repreendeu — Sei que essa mulher é muitas coisas, mas... não quero que as diga. E sim, Crouch é um idiota, mas agora está no St Mungos. Pelo menos Draco continua sob vigilância.

— Significa que... Voldemort já sabe — ele engoliu com dificuldade.

Os mais velhos olharam-se entre si, mas Harry não conseguiu ler nenhuma expressão. Dessa vez diria o que ia acontecer mesmo que entrassem pessoas ou tivessem uma emergência, não queria ir sem contá-los e mesmo que em algum momento descobrissem o que realmente aconteceu, ele não estaria ali. Então tomou um ar e começou.

— Eu preciso dizer uma coisa, há alguns dias tentei, mas tivemos a primeira reunião e depois eu esqueci — disse, envergonhando-se de si mesmo — No dia que acordei depois da maldição de Bellatrix, Dumbledore e eu estivemos conversando, primeiro sobre a arma e depois sobre meu retorno — se deteve ao olhar a expressão de sua família, mas só descobriu que não entendiam — Meu retorno ao meu universo — dessa vez teve diferentes reações, sua mãe ofegou e o olhou horrorizada, seu pai estava pálido olhando para suas mãos, e Sirius tinha se levantado de uma vez e começado a caminhar — Dumbledore acha que encontrou uma forma de eu voltar, no começo não tínhamos certeza, mas como ele sempre está certo, queria estar preparado. Então eu senti a fisgada na cicatriz e confirmou tudo. O mais seguro é que eu retorne ao meu universo quando enfrentar Voldemort em Gringotes.

O silêncio caiu na sala como gelo. Ele não se atrevia a olhá-los por medo de suas reações, sabia que estaria magoando-os ao dizer que não voltariam as e ver, mas era melhor do que dizer que ia morrer, primeiro porque não deixariam enfrentar e deixar-se ser morto por Voldemort.

— O que tem Voldemort a ver com tudo isso? — perguntou Sirius com a voz tensa.

Harry fez uma careta com a boca, não tinha planejado que surgissem mais perguntas. Levantou a cabeça, olhou ao redor da sala, pensando em uma mentira rápida.

— Dumbledore acha que...

— Não me interessa o que Dumbledore acha! — rosnou Sirius, dando um soco na cama — Quero saber o que é certo, o que te faz ter certeza de que Voldemort estará ali e que vai voltar, Harry.

O garoto o olhou durante alguns segundos surpreso, ele nunca tinha visto gritá-lo daquela forma, sabia que não estava o repreendendo, mas o afetava a sua forma de expressar a dor. Depois de um momento, decidiu dizer a verdade.

— Como disse antes, senti uma fisgada na cicatriz e então ódio, esse ódio foi de Voldemort quando descobriu que íamos atrás da arma, descobriu quando Bellatrix escapou e foi até ele para contar o que sabíamos — Harry respirou e continuou — Voldemort vai para Gringotes para nos impedir de pegar a arma, é importante para ele mantê-la a salvo e se eu for, não vai pensar duas vezes — Sirius abriu a boca para retrucar, mas ele o interrompeu antes, ainda não tinha terminado — Dumbledore conseguiu informação de universos paralelos, onde o retorno consiste em uma luta com alguém que tem a varinha do mesmo núcleo e do mesmo universo. Se o Priori Incantatem acontecer, criará uma grande potência de energia que não é desse universo que fará que, esse mesmo universo, nos retorne ao nosso como modo de proteção.

— Então não enfrente Voldemort, não terá nenhum Priori Incantatem e não terá que voltar — disse sua mãe, voltando a sorrir, mas não era tão fácil.

— Não posso ficar de braços cruzados enquanto Voldemort enfrenta outros, quando sou eu quem ele procura. A profecia diz isso, mamãe — disse Harry, estava dizendo a verdade, não podia ficar parado quando deveria morrer para parar a guerra — Se eu for, significa que vão poder voltar a ver o meu homólogo, voltar a começar e ajudá-lo. Depois de tudo, ele não era mau. Não querem isso?

— Harry — disse Lily, que tinha desfeito o sorriso e agora continha as lágrimas, mordendo o lábio inferior —, é claro que eu quero voltar a vê-lo, mas não significa que eu queira que você vá. Se fosse por mim, eu manteria os dois aqui comigo porque não quero que nenhum dos dois sofra. Para mim, Harry, durante todos esses dias, foi como ter outro filho, não era a substituição do nosso Harry, eu continuo o amando tanto quanto a ti. Se só pudesse ficar mais... se só ficasse seguro aqui, mas é tão corajoso e teimoso como seu pai e eu não posso negar, por isso eu estou tão orgulhosa de você — Lily, ao terminar, deixou cair as lágrimas pelas bochecha e inclinou-se para abraçá-lo com força.

Foi como da primeira vez, tão lindo e tão triste que Harry não sabia o que fazer. Quando sua mãe separou-se dele a contragosto, percebeu que também tinha lágrimas nas bochechas. Antes que pudesse dizer algo, seu pai foi abraçá-lo também e disse:

— Eu gostaria de dizer algo, mas sua mãe já disse tudo. Não gosto que tenha que fazer isso, mas com o pouco tempo que te conheci, sei que nada vai te impedir de fazer o bem e por isso estou orgulhoso — Harry apoiou a cabeça no peito de seu pai, escutando as batidas do coração — Quero que quando chegar no seu universo, termine com essa coisa e que nunca, nunca nos esqueça e espero que, quando pensar em nós, seja uma lembrança feliz. Eu te amo e sempre estaremos contigo, um universo não é um obstáculo para os Potters. Okay?

Harry riu, enquanto se afastava de seu pai e limpava o rosto com o dorso da mão. Nunca tinha pensado que aquele momento fosse ser tão agradável e tão triste, porque seu pai estava certo, ele voltaria com eles a uma nova aventura. Harry, então, passou a olhar seu padrinho, esperando por algo que não fossem gritos de nostalgia e dor.

— Não espere que eu diga que te amo como seu homólogo porque não é verdade — Lily olhou para Sirius horrorizada, mas ele não a deixou responder — Não é que eu tenha algo contra o garoto, Lily, mas eu amo mais esse Harry, o meu Harry — ele franziu o cenho, mas não pôde evitar sentir um formigamento — Te conheci por pouco tempo, mas já bastou. Harry, para te amar mais e eu vou sentir sua falta, mas tem muito o que fazer no seu universo e ali tem muitas pessoas que você deve sentir falta. Espera a sua outra família, sua família de coração, e não de sangue — Sirius sorriu levemente — Eu me sinto sortudo de ter tido a oportunidade de te ver outra vez e te conhecer mais.

Harry sorriu e inconscientemente inclinou-se para a frente, pedindo que o abraçasse, sendo prontamente atendido. Depois de alguns segundos abraçados, Sirius bagunçou seu cabelo e afastou-se.

— O grande Sirius Black está chorando? — perguntou Lily com os olhos ligeiramente vermelhos e com um pequeno sorriso nos lábios.

— Hã... Sim — disse Sirius, depois de comprovar com sua mão — Acho que é meu ponto fraco, Harry.

Sorriu diante do comentário enquanto sentia as lágrimas rolarem por sua bochecha e a visão borrada.


Ao sentir uma fisgada no estômago, o mundo deu voltas diante de si e, antes de sentir os pés contra o chão, estava no meio de um mar. Por um momento, pensou que Hermione os aparatou na praia, mas percebeu que não era o único ali. Além de uma porta flutuante, soube que não estava em lugar algum. Soou estranho quando pensou, mas não tinha outra explicação.

Depois de um tempo, caminhando de um lado ao outro, tentando abrir a porta, rendeu-se e sentou-se na areia do mar, quando escutou vozes atrás da porta. Em um pulo, levantou-se e encostou a orelha na porta na tentativa de escutar melhor. O único que conseguiu foi pedaços de conversas que, para ele, não faziam sentido até escutar duas frases reveladoras: "Alma dentro de Neville", "Melhor que morra nas mãos de Voldemort [...] caminhar ele mesmo até a morte". Estavam falando sobre a horcrux dentro de Neville e como devem terminar com ele.

Então uma bolinha de luz apareceu do nada e dirigiu-se até ele, tentou dar um passo para trás, mas a porta estava justo atrás. O estranho foi que sentiu outra presença com ele no mar que reconheceu como ele mesmo. Então, sorriu e soube que suas mentes tinham se fundido ao ser a mesma pessoa, mas diferentes.

— E ambos chegamos a mesma conclusão. Mas não está sozinho, não mais pelo menos, e me alegro.

Deixou a sua mente vagar, como uma vez Bellatrix o ensinou, e esperou que o subconsciente de Harry desse as respostas de suas perguntas. E antes que se desse conta, estava sendo expulso de sua mente de volta a realidade.

Recebeu o retorno a realidade com um golpe na frente quando ergueu-se no que parecia ser uma cama, ao mesmo tempo escutou um grito e escutou passos aproximando-se dele.

— Está bem? Não devia ter levantado tão rápido — repreendeu a voz de Hermione —, está fraco por causa da aparatação, mas é sua culpa por não ter feito caso de...

— Acho que vi o seu Harry — ele interrompeu, olhando para o teto de sua beliche.

Não teve nenhuma resposta da parte de ambos os amigos e Harry não se interessou em olhar suas expressões, só tinha dito aquilo para calar Hermione. Quando o tempo passou e nenhum dos dois tinha falado, Harry voltou a incorporar-se lentamente e palmeou as mãos, fazendo eles reagirem quando falou:

— Acho que devemos começar a planejar como devemos entrar em Gringotes, quero dizer, não é o lugar mais fácil de entrar, mas devemos apressar-nos com isso. Pensei em irmos primeiro para Gringotes, depois Hogwarts e então esperaremos até que você-sabe-quem apareça...

— Espera. Já pensou se você-sabe-quem aparece em Hogwarts? Entende o perigo que isso supõe? Tem milhões de alunos que estariam em perigo... E... E... Como assim viu o nosso Harry? — disse Rony rapidamente, irritado que Harry tomasse as rédeas do grupo como se nada tivesse acontecido — Explique-se.

Harry soltou um longo suspiro e começou a contá-los o que tinha acontecido quando tinha desmaiado, percebeu que enquanto contava o ocorrido, Hermione e Rony não pareciam acreditar muito. Quando terminou de falar, voltou ao tema anterior, as horcruxes e Gringotes.

— Para! Não podemos entrar assim do nada em Gringotes, Harry — reclamou Hermione — Não sabe nada do cofre dos Lestrange e do sistema de segurança, ou inclusive como vamos enganar tantos duendes para que nos levem até lá. Gringotes é um dos lugares mais seguros, depois de Hogwarts quando Dumbledore era diretor — nessa última parte, a voz dela estremeceu, mas continuava reta e segura.

— Bah! Deixa isso comigo — disse Harry, sem dar importância — Quando estive na segunda vez na casa dos Malfoy, escutei uma conversa entre Bellatrix e Lucius, onde falavam que por culpa de um erro dele, teriam que reforçar a segurança do cofre com um dragão — Rony e Hermione iam dizer algo, mas ele os impediu e continuou falando — Eu acho que a melhor maneira de entrar é aparatar por ali.

— Isso é ridículo — Hermione conseguiu dizer — Gringotes é um dos lugares que, como Hogwarts, está muito bem protegido, não dá para aparatar dentro ou fora do edifício, nem mesmo nas escadas. Como pretende fazer isso? Olha, deixe comigo e com Rony planejar isso, está bem?

— Não — disse Harry, negando bruscamente com a cabeça — Se tem uma maneira de aparatar em Hogwarts, como tem em Gringotes, é com magia de elfo. Lembro que uma vez Bibil foi dar um recado para meus pais e eu a acompanhei, e sei que aparatamos dentro do prédio.

— Pretende usar um elfo? — gritou Hermione, levantando-se furiosa da cadeira.

— Não é usar — ele retrucou —, o elfo ficaria feliz de nos ajudar e não é como se fôssemos usá-lo como refém para que o dragão o coma ou sofra as consequências, só nos ajudará a aparatar em Gringotes. Assim que chegarmos, ele vai embora — explicou com tranquilidade.

Passaram vários dias para que, finalmente, conseguisse convencer Hermione e Rony, ele não entendia qual era o problema, ele não estava dizendo nada de errado e muito menos ia maltratá-los. Quando era mais novo e não era manipulado, ele queria e respeitava muito a Bibil, nunca pensou nela como inferior, pelo contrário, achava que era uma criatura incrível e muito mais poderosa que os bruxos, e que merecia o mesmo respeito. Tinha tentado fazer Rony ver primeiro, que concordou com ele depois de várias tentativas, e então tentou com Hermione, que lhe deu mais dor de cabeça por seus gritos e insultos, mas as coisas melhoraram. Durante os dias seguintes, se dedicaram a planejar as coisas e enquanto ele ficava sozinho repassando os planos, percebeu que Hermione e Rony não gostavam de sua companhia tanto como ele gostava deles, e por um momento sentiu ciúmes de seu homólogo, estava claro que ele no seu universo não tinha muitos amigos.

A manhã que tinha planejado ir a Gringotes chegou antes do esperado e por mais que tentasse escondê-lo, sentia-se muito nervoso. Hermione e Rony já estavam acordados e cochichavam entre si, mas quando Harry aproximou-se, ficaram quietos, decidiu ignorá-los.

— Como disse que vamos chamar o elfo? — perguntou Harry, sentando-se ao lado de Rony.

— Chamando. Dobby é um elfo muito especial — disse Hermione friamente, olhando-o fixamente —, mas é melhor que seja você, tem a mesma voz do nosso Harry e Dobby estaria aqui em um segundo. Mas estou te avisando, se fizer algo a Dobby...

Harry levantou-se da mesa, ignorando o que ela ia dizer, já tinha escutado mais de mil vezes. Ao sair da tenda de acampamento, decidiu chamar nesse momento Dobby, quanto antes informasse os planos, seria melhor. O problema de sua personalidade era o menos importante naquilo tudo.

— Hã... Dobby! Pode me escutar? Preciso da sua ajuda, se pudesse vir... Por favor! — pediu Harry.

Dobby não respondeu por um longo tempo, tinha começado a caminhar pelo bosque até se perguntar se talvez a liberdade dele afetava seus poderes. Ele nunca tinha escutado sobre um elfo livre, eles morriam servindo suas famílias, então talvez seria por uma boa razão. Correu de volta a tenda, gritando os nomes de Hermione e Rony, mas ao entrar, encontrou uma pequena criatura sentada na mesa. Não tinha como confundir um elfo.

Sem perguntar como tinha chegado, começou a explicar os planos que tinham pensado e, para seu alívio, Dobby parecia muito animado em ajudar. Por isso, ao meio dia, Hermione guardou a tenda na sua bolsinha de contas e tirou a capa da invisibilidade, entregou a Harry e, quando estavam todos prontos, desaparataram.

Aparataram com um estalo em um lugar fechado, com raízes no solo e cheio de estalagmites e estalactites, justo em frente a uma grande porta com abertura para a mão do duende. Com outro estalo, Dobby voltou a desaparata, deixando-os a sós, esperando que ele conseguisse um duende para entrar no cofre. Quando Dobby explicou que ao não servir mais a família Black, a sua entrada era limitada pela segurança da família, mas não tinha nada a ver com seus poderes, e sim com o fato de uma simples aparatação dentro do cofre os alertasse.

Estiveram em um silêncio incômodo até que Dobby voltou com outro estalo, parecia agitado e nervoso, mas com um duende desmaiado no seu encalço.

— Devemos nos apressar, senhores, Dobby pensa que foi visto enquanto buscava o duende Gabbon — ele disse, abrindo seus olhos como bolas de tênis.

Os três garotos assentiram com a cabeça. Harry e Rony pegaram o duende e puseram sua mão na abertura da porta, nesse instante ela desapareceu, revelando uma abertura cavernosa, cheia até o teto de moedas e taças de ouro, armaduras de prata, peles de estranhas criaturas, poções em frascos com jóias incrustadas e uma caveira que ainda tinha uma coroa posta. Ele não lembrava de ter visto aquele cofre antes, mas não era de se esperar que os Lestrange confiassem tanto nele para levar ao seu cofre. Sem perder mais tempo, entraram na câmara.

Tinha descrito a Taça de Hufflepuff, mas não sabia se era como ele lembrava porque isso de passar muito tempo e com tantos problemas com suas lembranças, ele era pouco confiável. Começaram a caminhar pelo monte de objetos que os rodeavam sem tocar nada, já tinha os alertado sobre a maldição flagrante e gemino, não sabia pelos Lestrange, mas pela sua própria família. Apenas tinham alguns minutos procurando, quando Rony empurrou com o pé uma espada e apareceram várias delas, Rony deu um pulo porque seu sapato queimou com o contato com a espada ardente.

— Foi mal.

— Não importa — negou Harry —, fica quieto e só olhe.

Caminharam pela câmara com cuidado para não roçar nas montanhas de relíquias. Mais de uma vez, Harry e Hermione esbarraram em algo, uma vez foi uma armadura e na outra foi um capacete de ouro. Não demorou muito para que visse uma pequena taça de ouro com um texugo gravado no meio e duas asas.

— Achei!

Hermione e Rony viraram-se para onde ele apontava, para comprovar.

Accio copa! — gritou Hermione, que tinha se esquecido do aviso dele durante os planejamentos.

— Lembra que isso não adianta — gritou Harry — Dobby, pode fazer algo?

Dobby, que até então tinha ficado à margem, assentiu tão forte que suas orelhas ondularam. Apenas pôs um pé dentro do cofre e escutou-se um rugido de longe, que vinha do dragão que Harry tinha tanto avisado. Bom, talvez não avisei muito, mas nunca pensei que isso fosse acontecer, pensou com urgência. Dobby assustou-se e olhou indeciso para os três, mas rapidamente espantaram suas preocupações.

— Quando Dobby pegar a taça, vamos desaparatar o mais rápido possível — Harry deu um passo para trás e olhou para fora do cofre.

Infelizmente, o duende acordou antes que Dobby pudesse agir. Olhou-os com os olhos arregalados e como um raio, levantou-se para começar a correr. Harry tentou segurá-lo com qualquer feitiço, mas então aconteceram várias coisas de uma vez: no momento em que saiu correndo atrás do duende, uma espécie de água caiu em cima, depois o duende começou a dar gritos de ajuda e Harry apenas gritou para que seus companheiros saíssem correndo. Apareceu um imenso grupo de duendes, junto com um dragão segurado por alguns duendes que, ao vê-los, lançou uma chama. Ele agachou-se rapidamente, ao mesmo tempo em que soltava o duende.

Quando Dobby conseguiu pegar a taça, depois de muitas tentativas falhas, Hermione e Rony saíram em busca de Harry.

— Vão com a taça! — ele gritou, ao mesmo tempo em que foi lançado pelo rabo do dragão até uma das paredes. Os duendes o rodearam e não soube o que aconteceu com os dois.

Depois de lutar para tirar de cima os duendes e sem nenhuma melhora, recebeu ajuda de Dobby, Hermione e Rony, e sentiu-se feliz por não terem o deixado para trás. Então o teto começou a cair sobre eles e os gritos dos duendes começaram, mas Harry não sabia o que acontecia. Enquanto ele lutava para salvar seus companheiros, outra chama de fogo saiu pela boca do dragão e antes de saber o que realmente acontecia, viu Dobby ser atingido e como foi impulsionado para frente, enquanto seus olhos dilatavam de medo e depois sem vida. Harry quis correr até ele, tinha prometido a Hermione que nada aconteceria com ele e ia cumprir, mas dois braços fortes o impediram.

— Temos que sair daqui, Harry! Sinto muito — disse Hermione com os olhos encharcados — Os duendes devem ter avisado Bellatrix.

Apenas escutava o que dizia, mas bastou para recuperar as forças ao mesmo tempo em que prometia ao seu homólogo cuidar de seus amigos. Com uma brilhante ideia de como escapar dali, se desfez dos braços de Rony e pegou ele e a Hermione, arrastando-os até o dragão, esquivando das chamas.

— Subam no dragão! Eu vou pegar Dobby!

— Quê? Harry! Não! — gritou Hermione assustada.

Rony a pegou pela mão e a arrastou sobre as costas do dragão. Percebeu que Rony também não parecia animado em deixá-lo assim, não sabia se ele não gostava porque era o homólogo do Harry ou porque sua personalidade grifinória não permitia. Esquecendo aqueles pensamentos com uma sacudida de cabeça, começou a estuporar cada duende que via, até chegar onde estava o corpo morto de Dobby, o pegou com delicadeza entre seus braços e correu até o dragão.

— Harry! — gritou a voz de Rony sobre sua cabeça.

Ao ver a mão estendida de Rony, que tinha que controlar o dragão, a pegou com rapidez e antes do esperado, o dragão moveu-se fora do edifício de Gringotes.


Na manhã de segunda, Harry se encontrava mais nervoso do que da vez que entrou no Ministério da Magia, apesar de Madame Pomfrey ter confirmado que sua ferida não era grave e que poderia entrar em ação, sentia que as coisas iam dar muito errado. Seguia pensando na sua morte, nas palavras de sua família e nos planos de Gringotes.

O que importa se me sinto mais fraco quando estiver em Gringotes? pensou Harry quando viu Pomfrey entrar com quatro poções asquerosas, faria as coisas mais fáceis para Voldemort, não? Terá um motivo para minha morte. Quando terminou de dar uma longa conversa sobre o que devia fazer se sentia mal ou fraco enquanto lutava, a curandeira foi, deixando-o sozinho para que continuasse pensando em seus problemas. Mas seu tempo não durou muito.

— Querido, está acordado? — disse Lily, pondo a cabeça pela janela — Seu pai e Sirius devem estar chegando, vão te ajudar a levantar caso tenha problemas.

Harry assentiu, suspirando. Ontem mesmo Madame Pomfrey tinha informado que sua saúde estava tão estável que já podia se levantar, coisa estranha vindo dela, mas ainda assim tentaram. Tinha sido quase caso perdido, as primeiras dez tentativas a ferida ardeu como o inferno, as seguintes doze tentativas foram melhores, mas ainda continuava fraco, não foi até a noite cair que Harry conseguiu caminhar de cima abaixo na enfermaria sem reclamar. Esperava que hoje não tivesse tantos problemas porque não tinha tempo para praticar.

Seu pai e Sirius não demoraram para chegar, pareciam um pouco agitados.

— Tudo bem, Harry — começou seu pai ao chegar até ele —, temos alguns minutos antes de sair, caso aconteça algo.

Assentiu com a cabeça, decidido a caminhar mesmo que a ferida doesse. Quando James e Sirius o pegaram pelos braços e costas, impulsionando-o até adiante e, respirando fundo, sentou-se na cama. Contaram até três e Harry desceu com cuidado, até que seus pés tocaram o chão. Esperou durante alguns segundos com olhos fechados, caso algo acontecesse, mas quando sentiu-se ainda firme e sem dor, voltou a abrir os olhos. Viu o rosto alegre de seus pais e Sirius olhando-o.

— Acho que deveria andar um pouco para esticar as pernas antes de irmos, Harry — disse Lily, empurrando-o suavemente.

Apenas deu uma volta ao redor da Ala Hospitalar, o grupo chegou com exceção de Bill, que já devia estar a postos em Gringotes.

— Vamos começar antes que fique tarde — rosnou Moody antes que todos começassem a falar entre si — Os primeiros a ir serão Tonks e a senhorita Delacour, lembrem-se de agir com naturalidade.

— A gente já sabe, Olho-Tonto — disse Tonks, revirando os olhos.

Quando os planos avançaram muito, Tonks animou-se mais e ao sentir-se um pouco fora da ação, falou com Lupin para implorar que deixasse atuar pelo menos em um dos postos mais entediantes do plano. Depois de vários dias, Tonks chegou, como sempre sem Lupin, e avisou que ela também estaria em ação, mas tiveram que dar-lhe um dos postos menos importantes e mais seguros.

— Eu prometo que vou ficar em um canto se acontecer algo, Remus — disse Tonks. Tinham se afastado do grupo para se despedir e para que ela o tranquilizasse sobre sua segurança e de Teddy. Harry também não gostava da ideia de que ela se envolvesse, mas não podia fazer muito, era só o padrinho de um menino que nem tinha nascido ainda.

Quando Tonks transformou-se em uma idosa gorda e suja, vestida em farrapos, saíram da enfermaria e entrou nesse momento Bellatrix. Harry esteve a ponto de amaldiçoá-la até o esquecimento, até que se lembrou que era o professor Dumbledore.

— Sua voz, Black, Shacklebolt — continuou Olho-Tonto, sem reagir diante da chegada de Bellatrix. Tirou duas garrafas de sua túnica e entregou a eles — Lembrem-se que são Thorfinn Rowle, Sirius, e Selwyn, Shacklebolt.

Os dois tomaram a poção em um só gole, cada um fazendo caretas de nojo ao terminar de beber e aos poucos, suas feições foram se deformando e borbulhando. Sirius esticou-se e o cabelo clareou até o amarelo, enquanto que Shacklebolt encolheu-se um pouco e começou a brotar um cabelo castanho do seu crânio nu. Ao terminar sua transformação, cada um tirou uma máscara de prata com fendas e as puseram no rosto. Até o momento, Harry não tinha se dado conta de que ambos vestiam túnicas pretas com capas da mesma cor, e se não soubesse quem era, poderia jurar serem verdadeiros comensais. Os dois e Lupin não esperaram pela permissão de Moody para saírem da enfermaria com passos rápidos.

— A sua, Weasley — estendeu outra poção a Charlie.

Dessa vez, Charlie mudou suas feições aos de um homem rechonchudo e de longa barba castanha, era aquele homem que Sirius tinha mencionado, o que passava muito por Gringotes e nunca fazia nada. Charlie moveu-se até onde estava Bellatrix e esperou até que tivessem que fazer o movimento.

— Sua vez — disse Olho-Tonto, indicando James, Lily e Harry — Lembrem-se...

— Agir com naturalidade, já sabemos — disseram James e Harry ao mesmo tempo, sorriram um para o outro e caminharam para fora do cômodo.

Ao chegar fora de Hogwarts, próximo de Hogsmeade, cada um desaparatou com um estalo e, depois de um sentimento estranho e doloroso, aparatou no Beco Diagonal. Harry teve que apoiar-se em seus joelhos, respirar fundo para diminuir o enjoo. Sentiu uma mão nas costas e, assustado, ergueu-se rapidamente.

— Tranquilo — era só sua mãe, suspirou aliviado e voltou a descansar — Você está bem? Devia imaginar que isso ia ser difícil, devíamos ter ido por flu e chegar no Caldeirão Furado...

— Só tenho que respirar, mamãe — tentou acalmá-la, voltando a respirar fundo.

Depois de alguns segundos perdidos, acalmando seus pais, moveram-se até Gringotes com passos longos e apressados, esquivando das pessoas que passavam pelo Beco nas primeiras horas da manhã. Quando chegaram na frente do branco edifício, onde estava uma velha suja sentada nas escadas de mármore, como o planejado, agiram com naturalidade, ignorando o seu pedido por dinheiro. Como tinham sido informados, o Ministério tinha tomado as rédeas de Gringotes e os duendes que antes vigiavam a entrada foram substituídos por bruxos, ou comensais, capazes de utilizar qualquer feitiço se tivessem uma suspeita, mas aquilo já tinha sido resolvido por eles. Subiram as escadas e ignoraram os bruxos mascarados, que imitaram o mesmo movimento. Ao passar pelo umbral, encontraram-se no enorme saguão de mármore do banco.

Harry olhou ao redor, comprovando que não tinha muita gente. Os duendes estavam sentados em altos bancos diante de um mostrador, que atendia a poucos clientes. Os Potters foram até o mostrador, onde um duende examinava uma taça de ouro com o selo de uma antiga família. Bastou que o duende os olhasse para que prestasse atenção e deixasse a taça de lado.

— No que posso ajudá-los?

— Queremos entrar no cofre dos Potters — disse seu pai, tirando um pergaminho e o entregou ao duende. Revisou por alguns minutos e então o devolveu — Antes de ir, também queríamos que um de seus trabalhadores nos ajudasse com um objeto que temos na câmara, acreditamos estar amaldiçoado — o duendo os olhou com o cenho franzido, mas assentiu com a cabeça.

— Eswald! Traga o bruxo que chegou cedo e leve os Potters até o seu cofre — disse o duende, chamando outro duende de rosto decrépito, que estava alguns bancos distante.

Não demorou muito quando Eswald chegou com Bill Weasley, mas como o planejado, nenhum deles agiu como se conhecesse ou fossem amigos.

— Por aqui, por favor — disse o duende.

Encaminharam-se depressa até uma das muitas portas pela qual acabava o saguão. Harry deu uma olhada sobre seu ombro e localizou Lupin, parado conversando com um dos guardas que vigiavam a entrada, então supôs que Dumbledore, Neville e Charlie já deviam estar a caminho. Ao entrar pela porta, caminharam por um corredor de chão e paredes de pedra iluminados por tochas. Então Eswald fez aparecer na escuridão o carrinho que avançou lentamente para trás, subiram nele, deixando Eswald e Bill na frente, e os três atrás. Harry consultou seu relógio de pulso e assentiu para seus pais, o grupo já devia ter chegado.

O veículo arrancou lentamente, mas a medida que iam descendo entre os labirintos de pedra, foi ganhando velocidade. Com tantos movimentos bruscos e sacudidas, Harry teve que fechar os olhos e respirar profundamente, não entendia o que isso tinha a ver com sua ferida. Seu pai, que estava ao seu lado, passou um braço pelo seu ombro e o inclinou até ele. Depois de um tempo recebendo mimos, conseguiu sentir-se melhor, mas ainda não chegavam. Harry não se lembrava de ter demorado tanto para chegar ao seu cofre quando tinha onze anos, mas rapidamente afastou esses pensamentos ao lembrar-se que o maior cofre estava protegido, só deram a ele uma parcela da verdadeira fortuna de seus pais. Quando voltou a abrir os olhos, viu diante de si uma cascada que caía e, antes de poder reagir, a água caiu em cima, entrando na boca e encharcando seu cabelo. Ao sair da cascata, o carrinho seguiu seu rumo sem problemas.

— O que foi isso?

— A queda do ladrão — respondeu Bill com tranquilidade, mas quando virou-se para olhá-los, viu preocupação nos seus olhos.

O coração de Harry deu um pulo, sabia que ia acontecer algo, sabiam que a Bellatrix Lestrange que estava lá não era a verdadeira e iam se apressar em chega ao cofre dos Potters.

Depois de mais algumas voltas, detiveram-se diante de uma porta de madeira, mas antes de porem os pés para fora do carrinho, escutaram um rugido distante de um dragão. Harry olhou ao redor, assim como os outros. Tinham sido descobertos.

— Inferno sangrento — rosnou Bill, desceu do carrinho e saiu correndo por onde antes o carrinho tinha descido — Sigam-me, precisamos chegar o mais rápido possível.

— Não é melhor usar o carrinho? — perguntou James, correndo atrás dele, depois de ter estuporado Eswald —, entendo que antes não usássemos, mas já nos descobriram.

— Não! Devem ter trancado o caminho até a câmara, e se chegarmos sem ninguém descobrir, teremos uma vantagem — respondeu Bill, virando a uma esquina.

Mais de uma vez, ele teve que consultar e começar outra vez a correr ou voltar, mas pelo menos os rugidos cessaram, o que informava que pelo menos Charlie teve sucesso. Quando Bill disse que estavam para chegar, apareceu uma figura enorme e prateada, um lince que falou com a voz de Shacklebolt:

— Fomos descobertos. Voldemort e seus comensais já estão aqui.

Os quatro paralisaram durante alguns segundos, então voltaram a correr mais rapidamente, ao mesmo tempo em que pegavam suas varinhas e ficavam alertas ao mínimo movimento.

Quando chegaram ao corredor onde estava o cofre Lestrange, ficaram petrificados observando o que acontecia. A porta tinha desaparecido e por ela saía fumaça, Bellatrix estava lutando contra Bellatrix, Charlie lutava contra Severus Snape e Neville não estava a vista. Os quatro apressaram-se em chegar até ali e se livrar de Snape e da verdadeira Bellatrix. Quanto mais lutavam, mais comensais chegavam, e Harry já estava sentindo-se esgotado, quando sentiu alguém puxá-lo pelo braço, ao levantar a cabeça encontrou-se com Bellatrix.

— Harry, ajude Neville a encontrar a taça e eu me encarregarei de Voldemort — Harry ficou olhando até que reagiu e saiu correndo para dentro do cofre.

O som de luta continuava, mas quando Harry olhou pelo ombro, percebeu que Sirius, Olho-Tonto, Shacklebolt e Lupin chegaram para lutar — reconheceu Thorfinn Rowle e Selwyn como os seus quando começaram a lutar ao lado de seus pais. Virou-se para as montanhas de ouro e relíquias dos Lestrange, procurando entre tanto resplandor a Taça de Hufflepuff, tinha apenas recebido uma descrição de Dumbledore e para ele isso não era suficiente. Ali tinha todo o tipo de taças com selos estranhos em relevo. De repente, uma cascata de armas caiu sobre ele, queimando-o em carne viva, foi para trás tentando livrar-se.

— Desculpe — disse a voz de Neville. Estava atrás de uma das montanhas e parecia também ter se queimado — é que... fiquei nervoso.

Assentiu com a cabeça e continuou com a busca, quando sentiu uma dor pulsante na testa. Por um momento pensou que tinha caído uma moeda, mas a medida que a dor aumentava e sentia fúria dentro dele, entendeu que Voldemort se aproximava. Com os olhos lacrimejantes, captou um reflexo, fazendo das tripas coração, manteve-se erguido e gritou:

— Neville! Encontrei! Ali! — tinha visto a taça, aquele selo de texugo a delatou.

Neville girou sobre si mesmo, esquecendo-se de tomar cuidado de não esbarrar em nada pela euforia e então uma montanha de moedas caiu sobre ele, tampando sua visão da taça. Como se o destino quisesse ser mais cruel, escutou um grito atrás de si, ao mesmo tempo em que sentia o mundo cair. Fechou os olhos e com seus últimos esforços, levantou-se do chão e viu Neville nadar até a taça. Harry virou-se para a batalha, garantindo-se de que sua família continuava sã, o teto tinha caído e tudo estava cheio de poeira e rochas, mas no meio de tudo capturou o raio verde que ia direto a Dumbledore.

Tudo aconteceu com uma estranha lentidão, o raio verde tinha atingido as costas de Dumbledore sem que pudesse se defender e a memória de Dumbledore caindo da torre mais alta inundou seus pensamentos. Harry gritou com todo o seu pulmão, enquanto corria até ali, determinado a acabar com Voldemort e antes que pudesse chegar, ele lançou uma explosão... que como uma onda, o lançou com força até a parede.

O som era surdo, seus olhos estavam encharcados, mas isso não bastou para que não percebesse que seus pais tinham começado a duelar contra Voldemort e Harry decidiu fazer o que tinha planejado.

Protego! — exclamou, mantendo-os separados. Não deixaria que ninguém voltasse a machucá-los, mesmo se ele não podia voltar a vê-los em vida.

Seus pais o olharam com olhos arregalados enquanto Voldemort virava-se para enfrentá-lo. Harry abaixou a varinha e o olhou com determinação, enquanto escutava de longe os gritos desesperados do grupo. Isso doía mais nele do que nos outros, a última coisa que queria era magoar seus entes queridos.

— Não os machuque, é a mim que você quer.

Voldemort fez uma careta, que devia ser um sorriso sinistro, levantou a varinha e disse:

Avada Kedavra!

Os gritos ressoavam em sua cabeça, enquanto fechava os olhos à espera da maldição. Mas nunca chegou. Através de piscadas, viu um resplandor branco cegador e o último que escutou foi seu nome, gritado por tantas pessoas que o amavam.

Deixou-se levar e ser abraçado pela escuridão diante de si, esperando o melhor para si, esperando poder ver de novo aquelas pessoas que o amavam.

Mas a aventura tinha acabado de começar. Talvez foi a isso que se referia Dumbledore, depois de tudo quem não disse que poderia estar em algum dos universos que existiam. Ninguém sabia.


Harry sentiu o ar frio chocar contra seu rosto, segurando Dobby com um braço e com o outro agarrando firmemente o dragão. Já estavam há um longo tempo montados e ainda não sabiam o que fazer se o dragão decidisse descer, por enquanto mantinham silêncio por Dobby. Então, o dragão começou a descer e os três garotos se olharam.

— Acho que deveríamos descer antes que ele perceba que estamos com ele — disse Rony.

— Quê? — exclamou Hermione escandalizada — Como pretende pular dessa altura?

— Quando for a hora, nós pulamos — Harry concordou com Rony.

Quando estava sobrevoando um lago a uma escassa altura, decidiram pular. Harry apertou Dobby contra seu peito e saltou, sentindo o cabelo em cima e escutando o grito de Hermione não muito longe dele. A queda não foi muito longa, mas o estranho foi que não sentiu o seu corpo bater contra a água.

As coisas ao seu redor desapareceram, assim como o corpo de Dobby em seus braços e aos poucos se deixou levar pela escuridão. Não entendia o que estava acontecendo, mas por mais que tentasse lutar, nada acontecia e, no que pareceu segundos, perdeu a coincidência de tudo.

Sem saber, tinha aprendido o que precisava para sobreviver.