Hermione estava nervosa, e isso só a deixava com mais dificuldade para se concentrar. Ela não gostava de fugir a um desafio, e queria a todo custo provar a Snape que ela conseguia bloquear a mente. E de fato, ela conseguia. As aulas eram apenas uma desculpa para passar mais tempo com ele, e talvez Severo também soubesse. Não dos motivos, claro, mas por imaginar que ela só queria que ficasse perfeito.

Só que estava ficando perigoso. Hermione seria capaz de bloquear a mente até mesmo para você-sabe-quem, mas para o homem que tanto a intimidava era muito mais difícil. E era isso que ela temia.

E foi com esses pensamentos que ela caminhou lentamente até o laboratório, para chegar e ver o homem debruçado sobre a bancada analisando uma poção, que ela reconheceu depois de um tempo como sendo a Felix Felicis. Ele não se deu ao trabalho de olhá-la, apenas murmurou algo dizendo para ela esperar.

– Vamos começar, Granger. – disse, surpreendo-a. – Prepare-se – mas ela não estava preparada, e antes que ela pudesse dizer Snape já serpenteava pela mente da menina. Hermione queria gritar para que o professor parasse, mas o medo era maior que sua vontade do concentrar-se, e ele então viu o que ela tanto temia.

Era um sonho em que Snape chegava ao chalé com ferimentos por todo o corpo, e Hermione corria para ajudá-lo, visivelmente atordoada... Hermione andava de um lado para o outro da sala, preocupada com ele... A bruxa adormeceu na poltrona, acordando com Snape a cobrindo... Hermione conversava com Gina, declarando que ele a salvou... Hermione admitia para si mesma através de um sussurro que...

– Para! – gritou ela, furiosa – JÁ CHEGA! Eu digo quando as aulas acabam, e é AGORA. – e saiu batendo os pés, tremendo um pouco tanto pelo nervosismo quanto pela falta de energia.

Snape não tinha reação. Ela realmente se preocupava com ele... E tinha alguma coisa que, antes do pensamento ser concluído, Hermione bloqueou. 'O que era?', perguntou ele para si mesmo, intrigado. Severo não estava entendendo mais nada. Mas apesar da obviedade dos fatos, a única conclusão que ele chegou foi a que ela 'provavelmente pensou algo muito ruim sobre mim e não quis que eu descobrisse'.

Mais semanas se passaram e a relação deles voltou a piorar. Hermione não saía do quarto nem para comer, evitando-o a todo custo. E Snape, orgulhoso que era, não a procuraria. As coisas em Hogwarts começaram a piorar também, já que os alunos organizavam revoltas contra a nova direção. Voldemort dobrou os ataques, e Snape ia cada vez menos para casa. Mesmo preferindo não se encontrar com ele, Hermione sabia exatamente quando ele chegava e saía, e sua tormenta só piorava em saber que ele corria ainda mais riscos.

Certa madrugada ele chegou, urrando de dor, e Hermione não se conteve. Quando percebeu já estava ao seu lado, tentando ajudá-lo. Ele ia dizer algo para afastá-la, mas a bruxa foi mais rápida.

– Eu não vou deixá-lo nesse estado, Severo. – disse, olhando-o firmemente. Ele não tinha forças para discutir, sentia estar perdendo a consciência, e com muito esforço conseguiu sentar-se. Hermione foi ágil e num segundo tudo o que ela precisaria para cuidar dos ferimentos estava na mesa central. Sem pensar duas vezes, seus dedos pararam nos botões da capa negra que parecia encharcada de sangue para abri-la. Mas quando Snape percebeu o que ela ia fazer, tentou recompor-se.

– O que está fazendo? – perguntou, arfando e um pouco rouco, mas ainda sim com a voz perigosamente arrastada.

– O óbvio! – disse, impaciente – E nem pense em me impedir. – declarou, desabotoando os quatro primeiros botões. Snape estava em pânico. 'Ela está realmente tirando a minha roupa?', pensou, sem saber como agir. Reunindo toda sua força, então, ele tentou se afastar. Mas ela o impediu mostrando a varinha. – Tente sair e eu o deixo inconsciente. Por céus! Deixa de ser teimoso... Eu só quero ver o que está sangrando tanto! – exclamou, alcançando enfim a última blusa. Esta, por sua vez, estava rasgada e ainda mais suja de sangue. Por um segundo a bruxa deixou o pânico transparecer ao ver a gravidade dos ferimentos. Mas tão logo recuperou-se e continuou.

Ele estava absolutamente constrangido, e Hermione notou isso. Tentando não deixar a situação ainda mais estranha, ela tirou a blusa dele com um feitiço e evitou encará-lo, concentrando-se nos machucados. Ela nem sequer cogitou observar as cicatrizes antigas do professor, pois queria afastar-se o mais rápido possível.

Com um pano úmido a jovem tirou o excesso de sangue e o viu arrepiar-se perante o toque. Ela podia ter feito com magia, mas seria muito impessoal. Hermione queria senti-lo, queria tocá-lo, queria cuidar dele... talvez este seria o momento mais próximo que teriam juntos.

A medida que os ferimentos iam se fechando e Snape se recuperava, seus olhos ainda permaneciam fechados. E então a bruxa demorou-se mais nos movimentos, enfim apreciando o que estava sob suas mãos: um corpo demasiado branco e machucado, com cicatrizes que se espalhavam pelo peito e barriga até um pouco abaixo do umbigo. Mas apesar do corpo marcado, ela não pode deixar de notar que era bonito. Não era forte, mas os ombros largos a fizeram imaginar como seria sumir no seu abraço, e o peitoral com alguns pelos negros a fizeram desejar encostar a cabeça e roçar as mãos em sinal de carinho.

Perdida em seus pensamentos ela sentiu os olhos dele em si. Desconcertada, ela levantou-se bruscamente murmurando algo sobre pegar uma poção e seguiu correndo escada acima.

Snape estava extasiado pelas mãos que corriam pelo seu corpo, cuidando de cada mínimo detalhe carinhosamente. Ele chegou a fechar os olhos para aproveitar a sensação, mas logo que se lembrou das suas inúmeras cicatrizes sentiu vergonha. Hermione era jovem e bela, e ele pensou erroneamente que seu corpo seria só mais um motivo para ela afastar-se mais. Como ela levantou-se bruscamente, ele só imaginou que era uma confirmação a sua teoria, e reunindo a pouca energia que lhe restava, fez uma garrafa levitar até ele, abrindo-a e bebendo no próprio gargalo. E com um pouco de dificuldade, cobriu-se rapidamente com a capa suja antes que ela retornasse.

– O que significa isso? – perguntou a bruxa, ao ver a cena – Você acabou de chegar aqui banhado em sangue e está se embebedando? Pelos céus, Snape! – ela estava furiosa, e sem esperar que ele respondesse tomou-lhe a garrafa.

– Mas... o que? – gaguejou ele, pasmo.

– Sem mais... – cortou ela, impaciente – Agora toma isso.

– Quem você pensa que é para me dar ordens? – a pergunta a magoou. Ela não era ninguém importante para ele.

– Ninguém, Snape! – gritou, em meio as lágrimas. E no minuto seguinte já estava afundando em sua cama, deixando um Snape atordoado olhando para onde ela estava segundos atrás.

...

Mais algumas semanas se passaram e nenhum dos dois trocou sequer uma palavra. Esbarravam-se as vezes, mas nada que gerasse alguma conversa.

Nos poucos minutos em que Snape se permitia cochilar, vencido pelo cansaço, sonhava com as mãos de Hermione percorrendo seu corpo, enrolando os dedos em seus cabelos, sussurrando palavras carinhosas em seu ouvido, roçando os pés finos e graciosos nos seus, sentindo as mãos delicadas percorrerem caminhos em suas costas largas, enquanto ele beijava seu pescoço, murmurando alguma coisa que a fazia dar uma de suas gargalhadas deliciosas. E acordava suando, desejando-a. E era sempre o mesmo vazio de acordar sozinho, olhando para a sala fria e a lareira apagada, somente com ecos da voz dela em sua cabeça.

– Isso não pode ficar assim! – bradou ele, levantando-se – Ela tem que falar comigo em algum momento... – e rumou decidido para as escadas. No entanto, a marca ardeu em seu braço e ele não teve escolha senão deixá-la. Por algum motivo que ele desconheceu no momento, sentiu a necessidade de deixar um bilhete avisando que havia sido chamado. Mas ao rabiscar as primeiras palavras sentiu-se tolo.

Granger,

– Não, melhor Senhorita Granger.

Senhorita Granger,

Fui chamado pelo Lord...

– Não.

Senhorita Granger,

Precisei sair... Não sei quando volto.

– Argh! Pareço um adolescente! – e amassou o pergaminho, fazendo-o virar cinzas.