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*Pov. Kagome*

No trajeto para a parte exterior do castelo, percebi que algumas servas e guardas me olhavam e davam risadinhas ou apenas desviavam o olhar, me deixando ainda mais furiosa e me perguntando o que diabos estava havendo com eles.

Mas revolvi ignorar, quando um novo pensamento veio à mente.

Eu realmente queria ser marcada?

E de onde vinha aquela voz que me mandava o marcar...não era Hanna, era feroz. Animalesca, e de alguma forma reconfortante, como se estivesse sincronizada com meu desejo no momento.

A cada vez que ouvia aquela voz eu tinha mais vontade de perder o controle sobre o daiyoukai. O que poderia ter acontecido se tivesse dado liberdade à minha verdadeira vontade?

Olhei para o céu, timidamente o Sol começava a surgir no horizonte e suspirei, impaciente.

Que droga de treino que precisava de ser tão cedo! Queria ficar mais tempo na cama junto do...eu não estava o xingando?

Cheguei no local de treino e busquei com os olhos aquele que diziam ser meu mais novo sensei. Entediada e cansada demais para me preocupar em chamar por ele, até que avistei alguém, um pouco mais distante, próximo dos limites do jardim do castelo.

E lá estava o culpado de meu mais novo mau-humor matinal.

General Hayato!

Aparentemente não havia notado minha presença pois ainda treinava alguns movimentos com sua katana no ar.

A expressão estava séria e seus movimentos firmes. Fiquei a observar um pouco mais meu mais novo sensei.

— Hey, bela dama. Bom dia! Algo errado com meu rosto?

Vacilei por um momento. Então, ele havia notado minha presença.

— Bom dia só se for 'pra você! O sol nem nasceu direito ainda! Que raios de horário é esse pra treinar, Hayato-kun? E não, não tem nada de errado!

— Hahaha, reclame com seu alfa! Ele é quem estipula os horários para se treinar por aqui.

Hayato parou de falar, me olhando de forma maliciosa.

— Por falar nele. Parece que a senhorita teve uma ótima noite de sono, não é mesmo, Kagome-sama? Sabe...a última vez que saiu pelo castelo com esse aroma erótico, não deu muito certo. Está querendo me provocar, por acaso?

MERDA! Limpei o gozo, mas eu esqueci de tomar um banho antes de vir, porque aquele sádico me jogou para fora da cama, e ficou me apressando. Acabou que nem tive tempo de pensar sobre isso!

— Esqueça isso! — gritei, completamente ruborizada.

Hayato riu com gosto. Inchei minhas bochechas até não conseguir mais, fingindo cara de brava, mas não resisti e o acompanhei nas risadas. Me sentia tão leve!

— Bom, chega de moleza, Kagome-sama! Hoje iniciamos o seu treino. Mas antes...

O vi abaixar os lindos orbes azuis, pensativo.

Um suspiro ruidoso escapou e ele me fitou novamente, com uma expressão dolorosa, mesmo que o sorriso caloroso ainda estivesse ali.

— Estou lhe devendo uma história, não é mesmo? Me desculpe não ser uma história bonita de ninar, ou uma história em que a mocinha e o mocinho acabam bem e juntos, bela dama. Será uma história de dor e de terror.

O olhei de volta.

Eu entendia bem, eu conseguia ver como era doloroso para o youkai a minha frente. Desde que o conheci, me tornei tão próxima, tão ligada a ele que para mim era penoso ter que fazer ele falar sobre o passado, algo que claramente o feria.

Mas eu não poderia voltar atrás. Não mais.

— Eu aguento, Hayato-kun. Por favor, me conte tudo o que sabe.

Um sorriso sem vontade despontou de seus lábios e ele se aproximou de mim. Espera, perto até demais!

O olhei em dúvida e em posição de fuga, enquanto ele ria.

— Porque quer fugir de mim? Eu não mordo, Kagome-sama. — o vi ficar sério. — Apenas...acho que ao invés de contar, seja melhor você simplesmente...ver.

— Como assim, General?

Mais perto ainda.

Sua face agora estava praticamente colada à minha, faltavam poucos centímetros.

Eu teria o empurrado enquanto o xingava, mas aquelas marcas me impediram. Suas marcas youkais brilhavam. Intensas, latejantes. O azul delas brilhava junto aos dos seus olhos.

Tive o impulso de tocar seu rosto, sobre aquelas marcações que estavam me fascinando, mas fui impedida, tendo meu pulso segurado.

— Kagome-sama, nunca toque nas marcações faciais de um macho Inu-Youkai — Avisou, com um sorriso travesso nos lábios.

Abri a boca para perguntar o porquê daquilo, mas a lembrança da noite passada me fez entender exatamente o motivo, e corei, fechando a boca.

— Se concentre no que estamos fazendo aqui, bela dama! Chame Hanna! Foque seu youki, traga seu lado youkai para a superfície!

Pisquei sem entender, ainda atraída por aquelas marcações. Balancei levemente a cabeça, precisava me concentrar!

Fechei meus olhos e chamei por Hanna. Tentei me lembrar do que senti quando aquele enorme calor passou por meu corpo, quando precisei dele.

Do calor, da ardência, da sensação de soberania em minhas veias, de controle sobre tudo, domínio de mim mesma.

~Está no caminho certo, minha menina. Assim mesmo!~

A voz de Hanna veio doce e orgulhosa.

Quando abri meus olhos, Hayato me olhava com um brilho diferente nos orbes.

A exaltação óbvia que surgia de seus azuis me fez encarar minhas mãos, novamente estava com aqueles arabescos em minhas mãos, braços, colo...sentia a ardência das marcações por todo meu corpo.

E como pulsavam!

Os riscos rosados brilhavam como nunca! E eu me sentia tão bem que um sorriso, impossível de segurar, surgiu em meus lábios.

Voltei meus olhos para Hayato.

— Eu consegui! Com você aqui, eu consegui!

— Estou vendo, bela dama. Talvez seu sangue tenha reagido mais rápido ao meu, já que agora também clamo por meus antepassados.

— Clama por seus antepassados? É isso o que estou fazendo?

— De certo modo...sim. Consegue sentir a força e o calor, de gerações, dentro de si? Essa é uma habilidade dos Inus do Clã da Lua Minguante.

"O lorde não consegue fazer isso. E pensar que a bela dama o fez tão naturalmente antes, estou surpreso e orgulhoso! Se exige muito da alma para chegar a isso...é preciso uma alma muito...

Hayato me olhou com os orbes arregalados, a boca ainda entreaberta pela frase cortada.

— Uhn? Continua, Hayato! Uma alma muito o que?!

— Antiga! É por isso! Você renasceu em outra Era, muitos e muitos anos à frente! Seu corpo é jovem, mas sua alma...ela é mais antiga que a minha, Kagome-sama!

Ele parecia tão animado que acabei sorrindo. Mas pera...minha alma é mais antiga? Que loucura é essa que ele tá falando?

— OK, Hayato. Mas o que isso...

— Será mais fácil, sendo assim!

Disse sério, se aproximando novamente. Sua face quase encostando na minha.

Podia sentir sua respiração fazer cócegas em meu nariz e instintivamente olhei para sua boca.

Mas que droga de aproximação repentina é essa?!

Senti minhas marcações arderem mais e minhas bochechas aquecerem.

Levantei minhas mãos em direção ao seu peito, para o empurrar, mas ele entrelaçou as suas as minhas. Levantei meu olhar para encará-lo nos olhos.

Que diabos você tá fazendo, Inu-Tarado? — perguntei, com os olhos.

Ele apenas abaixou a face, encostando sua testa a minha. Deixei o ar escapar entre os lábios. Ficara sem reação.

Hayato fechou os olhos, mas não tentou me beijar ou fazer qualquer outra coisa além disso.

Seus dedos entrelaçados aos meus pressionaram minha pele levemente, e nossas marcações invadiram o corpo um do outro, como se estivéssemos conectados.

Marcações rosadas com marcações azuis, dançavam, se entrelaçavam sobre nossa pele e eu fiquei a olhar atônita para aquilo.

Ainda estávamos próximos, com uma testa encostando na outra. Senti o peso do olhar de Hayato sobre mim e o fitei.

Olhos tão intensos!

— Feche os olhos, bela dama. Se concentre no passado. — pediu.

Afirmei com a cabeça, acatando sua exigência e logo fechei meus olhos.

Pude sentir o ar do suspiro do youkai à minha frente em contato com minha pele. Sabia que ele também havia fechado os olhos.

Em segundos, minha mente foi levada, para um lugar totalmente alheio a luz.

Hayato não estava comigo.

Tentei enxergar ao redor, mas não havia nada. Olhei para minhas mãos, eu as enxergava nitidamente.

— Estou brilhando?

— Sim, e maravilhosamente, minha princesa! — uma voz infantil ressoou e eu olhei em volta assustada. - Estou aqui.

Mirei o lugar de onde a voz parecia vir e lá estava aquela menina novamente. Hotaru!

— Hotaru?! O que faz aqui?

Me abaixei para que pudesse ficar em uma altura mais confortável e a olhei mais atentamente.

Hotaru estava com orelhas de gato e uma cauda da mesma cor de seu cabelo. A cauda felpuda balançava de um lado para o outro a suas costas.

Uma hanyou?

~ Um espírito! Mas é claro...como pude me esquecer dessa pobre criatura? ~

Hanna comentou para si mesma, mas eu não pude lhe perguntar do que ela falava.

— Ora, Kagome-sama. Sempre estive com a lady.

Os olhos lilases, que antes pareciam tão distantes e alheios, ganharam vida.

Os finos braços da pequena a minha frente me abraçaram com delicadeza, mas podia sentir a sinceridade naquele toque. Sem saber como reagir direito, retribui o carinho.

~ Hanna, você conhece essa menina, não é? ~

~ Ela é seu familiar, Kagome. Sua aliada, protetora, irmã. Um espírito que vagava solitário e foi atraído por sua luz. ~

Meu corpo pulsou ao fim da fala de Hanna.

No primeiro latejar, minha mente vagou e eu pude ver um bebê. Acabara de nascer e chorava a plenos pulmões. Uma luz o rodeava. Não conseguia ver mais nada ao redor dele, era tudo embaçado. Olhei bem para o bebê e como se eu sempre soubesse, eu realizei que aquele bebê era eu.

Pela segunda vez meu corpo pulsava. E outra visão se formava.

Estava escuro e nevava, uma criança vagava com seu urso nos braços.

Ela usava um vestido branco. Que algum dia fora lindo e cheio de babados, digno de uma princesinha, porém agora estava todo cheio de rasgos, e o pequeno corpo estava todo ferido. Mas ela parecia não sentir.

Os olhos estavam perdidos e alheios a tudo. Senti pena e uma grande vontade de a proteger.

Suas pegadas, manchadas de vermelho, eram encobertas pela fina manta branca que se formava pela neve, e ela olhou para trás por um instante.

Mas nenhum sentimento tocou os orbes lilases.

A suas costas uma luz se intensificou e a menina olhou para aquela direção assustada. Pela primeira vez eu via alguma emoção transparecer em seus olhos.

Agarrando ainda mais firme ao corpo seu grande urso, ela correu naquela direção. Como se tudo dependesse disso, do quanto suas pernas a levariam depressa para aquela luz.

O terceiro pulsar fez com que lágrimas saíssem de meus olhos.

Elas estavam frente a frente, a menina dos olhos lilases olhava com carinho para a bebê. Rios saíam de seus grandes olhos.

Seus joelhos cederam frente ao berço, e seu urso caiu para o lado, rolando pelo chão.

Ela disse algo para a bebê, mas eu não consegui escutar. A bebê a olhou em toda sua inocência, e sorriu, logo gargalhando e esticando seus bracinhos para a menina.

Os lábios da pequena se curvaram em um sorriso torto, pelo choro. E ela foi sumindo, se tornando uma bola de luz, que foi direto para a bebê. Esta por sua vez a aceitou feliz, enquanto a bola de luz adentrava seu corpo.

Por trás do berço surgiu um gato preto e felpudo, que tratou de ir para perto da bebê, deitando em cima do urso que havia caído no chão.

O gato olhava intensamente para o berço.

Pude ouvir a gargalhada do bebê antes da imagem sumir.

Voltei a sentir o abraço de Hotaru, e abri meus olhos. A menina se afastou.

— Lembrou-se de mim, Kagome-sama?

Olhei chorosa para Hotaru e voltei a abraça-la, dessa vez bem apertado.

Eu a chamei! Eu a tornei meu familiar, mas como não me lembrava disso? E como fiz isso sendo apenas um bebê? Hanna!

~ Foi em sua primeira vida, menina. Até mesmo eu havia me esquecido. Até que a vimos naquele dia. A ligação com um familiar é eterna. ~

E porque não me disse nada, Hanna? Eu sei que anda escondendo coisas!

Hanna se silenciou e Hotaru se soltou de meu abraço. Mirei aqueles grandes olhos e acariciei o rosto daquela criança. Que tipo de dor aqueles lilases carregavam?

— Não se preocupe, isso é passado, minha lady. — disse, pegando minhas mãos e depositando um beijo ali. — Estás aqui para ver o passado, né? Eu te mostro o caminho! — exclamou animada e logo estava me puxando.

Concordei com a cabeça e a segui. Tantas perguntas que eu gostaria de lhe fazer.

Mas precisava me concentrar no que tinha vindo em busca.

Conforme andávamos, ao nosso redor se formava um ambiente. Um lugar.

Parecíamos estar nos corredores de um grande castelo, e Hotaru aparentava conhecer bem o caminho.

Branco e azul. Eram as cores que predominavam as paredes, cortinas, tapetes e decorações. Tentei não me distrair com o que via, mas era tudo tão bem feito e fazia exatamente o meu gosto que estava difícil não olhar para os lados.

Haviam quadros com pinturas lindas de família. Mas seus rostos estavam todos embaçados. Por quê?

Passamos por um enorme portal e adentramos um grande salão.

Haviam pilastras até o teto, dando uma aparência ainda mais grandiosa, e olhando um pouco mais à frente, pude identificar escadas que levavam para um trono magnífico e um outro um pouco mais singelo, porém igualmente bonito e bem desenhado ao lado.

Fora os tronos, as cortinas, decorações e os tapetes, não havia mais nada ali, nem mesmo quadros.

Fiquei a pensar quem se sentava naquele trono, quando meus pensamentos foram interrompidos por passos rápidos. Olhei para trás e quase caí no chão.

Alguém vinha direto para mim.

Rapidamente me desvencilhei, mas o ser pareceu não se importar com minha presença. Como se não tivesse sequer me visto.

— São apenas memórias, minha lady. — Hotaru disse em uma voz triste e arrastada enquanto apertava minha mão com seus pequenos dedos.

A fitei por alguns segundos, logo restringindo minha atenção para onde a mesma olhava. Ela olhava para quem havia quase me atravessado.

Meus olhos se arregalaram com o que viam. Ele se parecia tanto com o Hayato!

Mas olhando bem, ele tinha uma mexa azul em sua longa franja. Aliás, Hayato não tem um cabelo tão longo e nem mesmo feições tão sérias.

Mas os olhos...sim! São exatamente como os de Hayato, gentis. E são azuis também.

Me perdi um tempo olhando para aquele homem. Ele possuía marcações na face. Youkai? Suas vestes eram ricas em detalhes, branco e azul com detalhes em preto.

Ele se sentou em um dos primeiros degraus das escadas, de forma desleixada e eu tive vontade de rir da postura que não condizia com sua aparência elegante.

— Hiroshi-sama! HIROSHI-SAMAA!

Uma voz estridente gritava e olhei para onde achava que vinha a voz.

Um pequeno e gordo tanuki vinha da mesma direção que o outro viera.

— Aí está o senhor! O procurei por todo o castelo!

— O que quer, Gokuhi?

— Esteve novamente no Norte, não esteve? Sabe bem que o lorde, seu pai, é totalmente contra sua relação com a filha do lorde de lá. Minha função é aconselha-lo, meu senhor. Ouça o que digo, fique longe de Kayo!

— E porque eu deveria? Ela não fora marcada. Além do mais, a princesa parece estar finalmente caindo aos meus encantos!

— Da última vez que os vi juntos, ela lhe prendeu em uma árvore com as flechas dela, meu senhor. Não parecia exatamente caindo aos seus encantos, muito pelo contr...

POFT

Um galo cresceu na cabeça do tanuki caído, enquanto seu senhor caminhava para longe dali.

Fiquei olhando para as costas do youkai.

Kayo, filha do lorde do Norte. Ele conhece minha mãe?

Tentei seguir por onde aquele homem ia, mas Hotaru me impediu, segurando minha mão mais firme.

Olhei sem entender para ela. Ela balançou a cabeça em negação, e começou a se encaminhar para outra direção, me puxando.

— Temos outras coisas a ver, lady.

E novamente o ambiente mudava ao nosso redor.

Estávamos próximas de um lago de águas cristalinas. O atravessando de um lado ao outro, havia uma ponte de madeira, belamente construída.

A vegetação e a floresta ao redor do lago lhe traziam uma aparência de paz. O sol estava a pino e uma brisa passava, deixando o ambiente ainda mais agradável.

Olhei ao redor e novamente não via ninguém. Fitei Hotaru ao meu lado, precisava lhe perguntar.

— Hotaru-chan, se essas visões são lembranças...de quem elas são? Eu não poderia ter visto essas coisas. Certo?

A menina dos olhos lilases piscou e voltou-se para mim, apontando com a outra mão para o lado dela.

Me movi, afim de olhar para onde ela apontava, e me surpreendi por ver um menino ali, agachado, atrás de arbustos.

Cabelos negros, olhos azuis, bochechas rosadas. Tão fofo!

— A lady não havia o notado antes? Ele estava naquele salão também...atrás de uma pilastra. Essas lembranças são dele. É preciso se conectar a alguém para ver as lembranças dessa pessoa, Kagome-sama.

— H-Hayato-kun?! Esse menino é o general?

Hotaru afirmou com a cabeça e voltou sua face para frente. Segui para onde seus olhos miravam, logo notando duas presenças indo para a ponte, não muito longe.

Um era o youkai que eu havia visto antes, o tal de Hiroshi. O outro...se parecia muito com Inuyasha e Sesshoumaru.

Os cabelos eram prateados, os olhos dourados, aquelas marcas em seu rosto. Diferente deles, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto.

Achei lindo e fiquei imaginando como Sesshoumaru ficaria se prendesse seu cabelo daquela forma.

— Preste atenção, Kagome-sama. — a voz de Hotaru quebrou minha linha de raciocínio e eu parei de admirar e imaginar coisas, voltando minha atenção para os dois na ponte.

Estavam com um semblante sério.

— Ela é a prometida do Leste, Hiroshi.

— E...? Sabe que nada está acima da lei dos youkais quando se refere a marcação. Se ela me aceitar, se aceitar minha marca, não há nada que o Leste e sua corja possa fazer, além de aceitar.

— Eles podem iniciar uma guerra, para mata-lo e se apossar dela. A marca some com a morte de um dos dois. Isso é sério, Hiroshi! Você envolveria todos os reinos nessa guerra!

— O que o Oeste teria com isso, afinal?

— Sabe que eu não ficaria apenas assistindo...

— Ah sim. Havia me esquecido que também a ama. Mas não tem coragem de se confessar, não é mesmo? Não tem coragem de ir contra as vontades de seu reino.

Um sorriso debochado surgiu nos lábios dele e eu começava a ligar os pontos em minha cabeça.

Não é possível!

— Como está aquela sua prometida...? Inu-Kimi Hime? Tem certeza de que é uma inu como nós? Ela mais se parece uma serpente...talvez tenha parentesco com o Leste.

O youkai dos olhos dourados fechou mais a expressão, mas se manteve calmo e eu pensei como se parecia com Sesshoumaru.

— Ao contrário de você, Príncipe do Sul, eu sei meu lugar e meu dever para com o Oeste. Meu coração, minhas vontades, não devem sobrepor o bem de meu povo.

— Deixe de ser estúpido, Toga! De que adianta uma união sem amor? Vai me dizer que sente algo por aquela serpente?!

— Você não amadureceu nada, pelo visto. — disse, virando-lhe as costas e me dando uma melhor visão de sua face. Exatamente como o Sesshoumaru!

— Deveria aprender mais com seu irmão. E por falar nele...

O youkai deteve seus passos e olhou em nossa direção de forma dura.

Tremi nas bases, me perguntando se nos enxergava ali, olhando para os lados, quando ouvi um movimento ao nosso lado, me fazendo lembrar do garotinho. Do pequeno Hayato.

— Droga! - ouvi o pequeno resmungar e travar no lugar, amedrontado. Então você foi pego no flagra espionando, hein, Hayato-kun!

Olhei para frente e me assustei com a proximidade dos dois youkais. Quando que vieram pra cá?!

— Esteve ouvindo nossa conversa, baixinho?

Hiroshi perguntou, de forma debochada, enquanto se agachava para ficar frente a frente com o menino. Tive vontade de me colocar a sua frente e protege-lo, de tanto que ele tremia.

— Há! Eu estava aqui primeiro! Vocês que chegaram com a língua solta!

Exclamou, com um sorriso tão debochado quanto o do outro, tirando uma coragem de não sei onde, apontando o dedo na cara do youkai maior e eu senti um tique nervoso na sobrancelha.

Hayato sempre fora abusado e sem modos algum.

— Ora, seu moleque! Nem seu tio você respeita! Eu vou te ensinar uma li... — Ele já se preparava para bater no menino, o levantando pelas vestes, enquanto eu botava as mãos na cabeça, por não ser capaz de fazer nada.

— Hiroshi! Coloque o menino no chão, sua criação não lhe diz respeito, mesmo que seja seu tio. — O prateado praticamente rosnou, me assustando.

O youkai dos orbes azuis apenas o olhou de canto, largando de uma vez as vestes de Hayato, que caiu com tudo no chão e tinha os olhos cheios de lágrimas.

Assisti enquanto o Príncipe do Sul se afastava coçando a cabeça, resmungando algo que não dava para compreender e voltei minha atenção ao prateado, que agora se abaixava e fazia uma carícia na cabeça de Hayato, o acalmando.

A cena me aqueceu por dentro.

— Ainda assim, seu pai não deve saber dessa conversa. Sabe que ele e seu tio brigariam feio por isso. Você gosta de Kayo também, não gosta? Isso poderia deixa-la triste.

O menino fungou e limpou as lágrimas rapidamente, com força.

Fazendo uma careta zangada, concordou com a cabeça e virou a cara para o outro lado, um pouco corado.

— Obrigado, pequeno príncipe. — O youkai dos olhos dourados sorriu amavelmente e se levantou, tomando seu rumo, enquanto que o menino encarava suas costas.

Eu queria segui-lo. Estava curiosa sobre quem eram aqueles youkais...eles conheciam minha mãe!

E mais importante, o pai de Hayato é irmão de Hiroshi? Então havia mais de um príncipe no Reino do Sul.

Senti a mão de Hotaru me puxar mais uma vez. Suspirei, preocupada sobre o que mais iria descobrir e a deixei que me conduzisse.

Vários pensamentos circulavam minha mente. Toga era o Príncipe do Oeste? A conversa deles deixou isso subentendido...então, ele é o pai de Sesshoumaru e Inuyasha?!

— Kagome-sama, não perca o foco! — Hotaru me advertiu, me trazendo de volta das perguntas que me circulavam e olhei ao nosso redor, percebendo estar em um lindo jardim de hortênsias azuis.

Ao fundo um imponente castelo branco se destacava com o céu azul.

— Que lindo! — admirei, boquiaberta, me perdendo naquela paisagem.

Mas o aperto da pequena mão na minha me fez olhar para os orbes lilases novamente.

— Olha! — disse, apontado para o lado.

E lá estava Hayato novamente, escondido atrás de uma árvore esplendorosa. Esse menino está sempre aprontando alguma coisa!

Contendo a vontade de rir da forma como ele se escondia, desajeitado. Me aproximei, sendo acompanhada de Hotaru.

Me movi, para a frente dele, afim de enxergar o que ele olhava tão fascinado, e o que meus olhos capturaram me tirou completamente o fôlego.

Imediatamente meus olhos lacrimejaram e Hotaru olhou para mim, parecendo entender o que eu sentia, mas se manteve em silêncio.

Era ela, eu sabia que era.

Repousando sob a sombra de uma árvore com os olhos fechados, a face passava um ar de tranquilidade.

As vestes azuis com detalhes em branco e preto me lembravam muito aquele youkai, o Hiroshi, ele também gostava de usar essas cores.

Os longos cabelos negros se espalhavam a sua volta, lhe dando um ar quase etéreo, e por pouco não notei que ao seu lado, na relva, haviam uma katana, um arco e uma aljava repleta de flechas.

Por ter reparado em suas armas, voltei a olhar para ela com mais atenção e tomando ciência de que suas vestes eram de uma guerreira, e seu cabelo estava parcialmente preso no alto. Ela era linda!

— Sei que está aí. — a voz dela veio suave, graciosa.

Dei um sobressalto quando ela se moveu, abrindo os olhos.

Acinzentados, mas tão claros que beirava ao branco na luz.

Um ruído me fez voltar os olhos para o pequeno Hayato, que saía envergonhado de trás da árvore, sem olhar diretamente para a mais velha.

— Menino, deveria parar com esse costume de se esconder para espiar. Sabes que ainda não domina a arte de se camuflar, não sabes? Seu cheiro e presença estavam tão óbvios!

— N-não foi minha intenção, eu estava apenas passando, Senhorita Kayo! — se explicou, corado, apertando suas vestes com as mãozinhas ao lado do corpo.

A mais velha lhe sorriu doce e eu quase solucei em meio as lágrimas, por uma saudade que nem imaginava ter!

Eu amava minha mãe, que me criou. Amava minha família, o vovô, o Souta, e mesmo que tivesse poucas lembranças de papai, ainda sim eram preciosas e eu o amava também.

Mas esse sentimento, ele era profundo, doloroso, saudoso. E eu não fazia ideia de onde isso vinha.

Apenas que doía saber que nunca mais poderia vê-la de verdade.

— Kagome-sama, deseja parar?

A voz de Hotaru invadiu meus pensamentos e eu a olhei brevemente, antes de limpar as lágrimas e respirar fundo para me acalmar.

Neguei com a cabeça para a pequena que me olhava aguardando uma resposta e voltei a focar nas duas figuras da lembrança de Hayato.

Sorri quando a Princesa do Norte acariciou a cabeça do menino e lhe indicou o lugar ao seu lado para se sentar.

Eles pareciam conversar sobre coisas triviais e meus ouvidos pareciam zumbir. Não conseguia prestar atenção ao que falavam, apenas conseguia olhar para ela e desejar muito abraça-la e chorar em seu colo.

— Precisamos ir. — Hotaru sussurrou e eu a olhei assustada.

— Espera! Não! Me deixe ficar mais um pouco aqui!

— Ele está sofrendo... — Ela respondeu, fechando os olhos, e tudo a nossa volta se tornou branco.

E seguidamente, a luz se apagou.

Sentia meus membros doloridos e o coração pesado.

Abri os olhos, encontrando a face de Hayato ainda a minha frente. Sua testa ainda colada a minha e seus olhos ainda fechados.

Nossas mãos ainda estavam unidas, mas não havia mais sinal de nossas marcações unidas. Parecia que toda aquela energia havia apenas cessado.

Ouvi um soluçar e voltei meus olhos para o General.

— Hayato? Está tudo bem?!

De seus olhos, as lágrimas simplesmente transbordavam. De repente seus joelhos cederam, indo ao chão, quase me levando junto consigo visto que nossas mãos ainda estavam unidas.

— Sinto muito, bela dama. Mas por hoje, esse é o meu limite. Queria lhe mostrar até o fim..., mas não sou capaz...

Então, ele estava visualizando as lembranças junto comigo.

Ao que me pareceu ele era muito agarrado a Kayo quando pequeno. Me achei uma pessoa horrível por fazer ele passar por algo tão doloroso e me ajoelhei a sua frente, o abraçando da melhor forma que podia, deixando que chorasse em meu colo.

— Não precisa se forçar a me mostrar tudo de uma vez, Hayato-kun. Está tudo bem...

...

A caminho da cozinha, me pus a pensar em tudo que havia visto, naquelas lembranças.

Após aquilo o General me dispensou, se desculpando por não prosseguir com o treinamento e que continuaríamos no dia seguinte.

Não queria deixa-lo sozinho, mas não tive forças para teimar com ele após ver o olhar que ele me lançou. Parecia precisar mesmo de um tempo para si.

Virei num corredor e algo me acertou na barriga rapidamente, o que me fez perder o ar por alguns segundos, e olhei para baixo, encontrando os fios negros. Tive minha cintura abraçada por pequenos bracinhos.

— Hotaru-chan!

— Sim, minha lady! Estou tão feliz que tenha finalmente se lembrado de mim! Heh — me curvei para olhar melhor para ela e apertei seu nariz, a fazendo rir.

— E nunca mais irei esquecer! Porque nunca apareceu antes?

A menina deu de ombros, me soltando do abraço e se afastando, logo correndo para algum canto, mas não sem antes se virar para me olhar.

— A senhorita ainda tem um treinamento hoje. O almoço está servido! — disse, sumindo no próximo corredor e um calafrio subiu a espinha por lembrar que ainda tinha o treinamento com Sesshoumaru.

— Talvez seja mesmo melhor comer alguma coisa antes de passar por esse tormento.

— Que tormento, mocinha?

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