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*Pov. Kagome*

A voz às minhas costas fez com que todo meu corpo tremesse.

Mesmo que tenha soado baixa e melodiosa, ainda sim me fez ficar em alerta. Imediatamente me virei na direção de quem falara comigo, preparada para me defender de quem quer que fosse.

Porém jamais poderia imaginar que o que eu veria seria uma bela inu-youkai.

Meus olhos se arregalaram conforme eu a olhava atentamente; os longos cabelos prateados estavam presos em duas maria-chiquinha altas, possuía marcas na face em forma de raios, os lindos e curiosos orbes dourados...e aquela lua em sua testa...

Seria do mesmo clã de Sesshoumaru?

Ela estava vestida de forma elegante, o kimono de tons roxo, vinho e branco era para ser algo comportado, mas as curvas de seu corpo a deixavam com um ar sensual.

E não pude deixar de notar que a mesma também fazia uso do mesmo tipo de pelagem que Sesshoumaru, a Mokomoko.

Será que é algo comum do clã?

A youkai limpou a garganta, me fazendo perceber que estava me demorando a observa-la.

Fiquei um pouco envergonhada por meu comportamento, mas não podia evitar, era alguém muito interessante.

Desviei os olhos quando a mesma sorriu me olhando fixamente e podia apostar que estava corada de vergonha.

- Então? Que tormento falava, mocinha? Parecia tão perdida em pensamentos, desculpe se a assustei.

Pisquei algumas vezes, assimilando a pergunta. Não poderia dizer que o Lorde do Oeste seria meu tormento em nosso treinamento, mesmo que não soubesse quem era aquela youkai.

- Ah! Um amigo meu...senhora? - queria saber o nome dela, algo não me cheirava bem.

Um brilho passou por seus olhos e a mesma pareceu erguer levemente a face, como se farejasse o ar.

Merda.

Sua expressão endureceu por alguns segundos, mas o sorriso voltou logo aos lábios, perfeitamente pintados de roxo; que em um rápido e glamouroso movimento foram encobertos por um leque aberto, que só agora eu notava que a youkai carregava.

Vi seus olhos se estreitar em minha direção e outro arrepio me percorreu. Quem é essa, afinal?!

~ Tenha cuidado com essa ai, menina! Ela é podre...da carne aos ossos! ~

Sabe quem é ela? Ora, Hanna, então porque você nã...

Um pigarreo alto quebrou minha linha de raciocínio e voltei a me focar na youkai a minha frente. Ela havia descoberto o rosto do leque e se aproximava de mim, a passos lentos e um sorriso esquisito.

- Mocinha. Me diga, o que é esse cheiro repugnante de sexo que a rodeia? E mais importante. Porque esse cheiro misturado ao seu, pertence ao meu filhote?

~Menina, CORRA! Não a deixe se aproximar de você! ~

Queria perguntar a Hanna o motivo de não ter me avisado antes para correr daquela youkai, ao mesmo tempo que meu próprio corpo parecia me alertar que algo não corria bem.

Mas meu corpo não me obedecia, eu estava paralisada.

Finalmente entendia quem era aquela inu, e o choque de a encontrar tão repentinamente havia me congelado no lugar.

Então...e-essa é a InuKimi-Hime?

Hanna rosnava em minha mente e gritava para eu fugir, mas sua voz parecia tão longe, que não conseguia focar nela nesse momento.

Estava com medo, muito medo.

Meu lábio tremeu. Observei enquanto a inu-youkai se aproximava de mim de forma divertida, como se tivesse encurralado um pobre coelhinho e já saboreasse o gosto do mesmo antes de pegá-lo.

Tive um sobressalto quando o toque gelado de sua mão tocou minha bochecha esquerda, acariciando o local, sua face bem próxima da minha apenas me aterrorizou mais, seus olhos me hipnotizavam, de tão intensos.

- Irei repetir a pergunta, já que a humana parece ter sido incapaz de ouvir atentamente. Porque carrega o cheiro de meu precioso filhote, humana imunda?

Tive um estalo. Imunda?

Ela ainda me sorria, mesmo tendo me ofendido de forma tão baixa.

Encarei os dourados da mãe de Sesshoumaru e respirei fundo, estalando a língua dentro da boca, e retirando sua mão de meu rosto.

Ela apenas continuava a me olhar curiosa, sem se abalar por tê-la afastado de forma abrupta.

Endireitei meu corpo, ficando devidamente ereta, e me afastei alguns passos dela. Pus minhas mãos juntas a frente de meu corpo, em uma posição mais formal, mais séria e segura do que deveria fazer.

- Sou a companheira de seu filhote, minha senhora. Me chamo Kagome Higurashi. - me curvei levemente em respeito e voltei a minha postura anterior, ainda a olhando seriamente. - É um prazer conhece-la. Sinto não termos sido apresentadas formalmente antes.

A outra arregalou os olhos e abriu a boca para dizer algo, porém o que saiu de seus lábios foi o som das gargalhadas que ela dava, como se tivesse ouvido a melhor piada do mundo. Ela apertava a barriga com ambos os braços, se curvando um pouco.

A olhei desacreditada no que estava vendo, até lágrimas saíam de seus olhos.

Por um instante pensei que talvez a mãe de Sesshoumaru não fosse o monstro que diziam, ela ria com muito gosto, o que acabava me contagiando e sorri sem graça diante a cena, visto que eu estava tão séria sobre isso segundos atrás.

Mas a sensação de calmaria se esgotou quando não rápido o bastante eu vi sua mão levantada contra mim; mostrando-me as garras, e eu sabia que ela me desferia um golpe certeiro no lado direito de meu rosto.

Apenas levantei meus braços a frente de minha face e abaixei o rosto, única reação que consegui, dado a rapidez que ela se movia.

Mas o tapa nunca veio.

Abri os olhos lentamente, que haviam se fechado instintivamente, e me assustei quando ergui o rosto para olhar o que tinha acontecido.

Inuyasha segurava o pulso de InuKimi-Hime.

- Como se atreve a me tocar, hanyou imundo?! - gritou ela, puxando seu braço com força das mãos de Inuyasha, que a soltou simplesmente.

Eu soltei o ar de meus pulmões, que nem havia notado ter prendido, e olhei melhor para ele.

Youkai?

Inuyasha mostrava os caninos, os olhos parcialmente vermelhos e as marcas típicas de youkai em sua face, porém ele parecia plenamente em controle de seus atos, como um verdadeiro youkai.

O que está acontecendo aqui?

O rosnado grave de Inuyasha rompeu meus pensamentos e me foquei novamente no que acontecia diante de mim, Inuyasha deu um passo pro lado, de forma que ficasse completamente a minha frente, de forma protetora.

- Eu que deveria fazer essa pergunta. Ousa mesmo tentar tocar em Kagome? Já não sabe a quem ela pertence?

Nessa hora, dei alguns passos para ficar ao seu lado e lhe fitei, em desaprovação, sendo ignorada pelo mesmo.

- Há! Deve haver algum engano. Meu filho jamais se misturaria a um sangue tão sujo quanto ao dessa garota. - torci o lábio, incomodada com a forma que ela se dirigia a mim, observando ela levantar o nariz, aspirando profundamente o ar. - Por falar em sangue, há algo em seu cheiro que não me é estranho...menina, de onde veio? - a voz dela agora soava hostil.

Engoli em seco, enquanto Hanna gritava para não dizer sobre minha descendência de forma alguma, nem mesmo de onde exatamente eu vinha.

- Eu a trouxe, ela veio do vilarejo de Kikyou. - Olhei confusa para Inuyasha, de onde ele havia tirado isso?

- Fala da morta? Hunf, você mente, hanyou. Mas creio que de onde esse inseto veio, ele poderá voltar, junto com você. Saiam dessas terras, enquanto ainda estou sendo boazinha. - disse, caminhando e atravessando entre nós dois, que prontamente lhe demos passagem.

Encarei Inuyasha, questionando-o de forma muda que diabos fora aquilo, mas o mesmo continuava a olhar para as costas de InuKimi, que antes de sumir de vista, se virou, olhando fundo dentro de meus olhos.

- Mocinha, não fique metida só porque meu filho quis extravasar um pouco de seus desejos carnais com você. Devo admitir que é atraente para uma humana, mas não passaria de uma concubina. - E saiu rindo da minha expressão de ódio.

Tive o ímpeto de ir atrás de InuKimi, quando senti meu braço ser segurado por Inuyasha.

- Não vai querer tornar ela sua inimiga, deixe isso passar, Kagome.

- ACHA MESMO QUE VOU DEIXAR ISSO PRA LÁ? - gritei, me desvencilhando das mãos de Inuyasha, que agora me segurava pelos ombros.

- VOCÊ VAI SIM DEIXAR PRA LÁ! FIQUE LONGE DESSA MEGERA, KAGOME!

Concentrei meu houriki em meus ombros, queimando as mãos de Inuyasha, que me soltou rapidamente, me chamando de maldita.

- Por favor, não me toque! - o asco em minha voz era palpável.

O hanyou se afastou, entendendo perfeitamente porque não deveria me tocar e olhou para o chão, desviando de minha face, já que ainda o encarava com raiva.

- Kagome, sabe...eu...

- Inuyasha! Já não lhe disse que não deve passear pelo castelo? Ainda não terminamos seu treinamento!

Uma youkai de cabelos longos e dourados surgiu e eu fiquei a olhar para ela surpresa pelo jeito espalhafatoso com que ela chegava.

- Oh...olá, Kagome-sama. Me desculpe, não era para se encontrarem ainda. - ela diz, me olhando docemente, enquanto puxava Inuyasha pela orelha.

Ele resmungou algo indecifrável, corando e tirando a mão da youkai de si.

Fiquei a olhar de um para o outro, tentando entender o que acontecia ali.

- Feh! Como se eu precisasse de permissão para alguma coisa! Estarei treinando nos fundos do castelo. Até mais!

Logo, ele sumia pelos corredores e ficamos apenas eu e a jovem, que havia interrompido a fala de Inuyasha.

Ela encarava as costas dele, fazendo um sibilo com a boca, parecendo irritada, e me encarou com seus lindos orbes celestes.

Por um momento me perdi naqueles olhos.

- Me chamo Lucy, sou a curandeira real do castelo. Creio que não havíamos sido apresentadas formalmente antes. Eu cuidei de você quando houve aquela explosão por culpa do cabeça dura ali. - disse, apontando a direção por onde Inuyasha havia seguido e depois segurando uma de minhas mãos, a alisando.

- A-ah, entendi. Obrigada por seus cuidados! Me chamo Kagome Higurashi. Um prazer conhece-la. Eu ouvi algo sobre treinamento, está treinando o Inuyasha? - perguntei, sem real interesse.

Apenas queria desviar de suas mãos, que ainda estavam em um contato invasivo, acariciando a minha.

Um brilho passou pelos celestes da loira, que logo os fechou, abrindo um sorriso ainda mais amável que antes, o que me deixou desconfiada da mulher.

- Ara, sobre isso. Não comente nada com seu companheiro, sim? Estou tendo que tomar as rédeas nessa questão por enquanto e ele não apreciaria. Mesmo eu tendo o alertado que era necessário. E bom, eu não sou a melhor escolha para treinar um inu-hanyou, mas por enquanto, não teve outra opção.

- Uhm...entendi. Também comecei um treinamento, com Hayato-kun. Quero dizer, mais ou menos. - soltei um longo suspiro, ao pensar nas lembranças que o general havia compartilhado comigo. - Logo mais devo treinar com Sesshoumaru.

Vi uma veia saltar na testa da loira, e o rosto dela parecia se contorcer, tentando manter o sorriso nos lábios, o que tornou sua expressão um tanto macabra.

- Oh, é mesmo? Que bom, minha querida. Bem, eu vou indo, pois tenho que conversar com o lorde sobre alguns detalhes. - se apressou, virando as costas e se retirando, penso eu, para o escritório de Sesshoumaru.

Mas de repente, eu precisava saber.

- Lucy-san!

Ela se virou, aguardando por minha fala. As palavras ficaram presas e minha língua se enrolava na boca, me perguntando se realmente queria saber aquilo.

- O...Inuyasha. Como ele está?

Os olhos da curandeira se arregalaram levemente e ela voltou a expressão suave e o sorriso doce. Ato que me acalmou.

- Você o viu, certo? Está aprendendo. Assim como você também vai.

E sem ao menos esperar uma segunda pergunta, ela foi-se embora.

~ Youkai esperta, essa Lucy. ~

E o que isso supostamente significa? Poderia ter me alertado que a mãe de Sesshoumaru estava a minha frente!

~ Você está bem, não está? E não significa nada, foi apenas um elogio. ~

Rosnei internamente, minha paciência com Hanna por um triz.

~ Na hora você não me ouvia, foi sorte aquele hanyou estar te seguindo. ~

Estava me indo para a sala de refeições e precisei parar após a fala de Hanna.

Inuyasha estava me seguindo? Como eu não senti isso e você sim?!

~ Sua mente já está cheia de coisas, e eu tenho o dever de estar sempre alerta ao que acontece a sua volta...isso não importa! O que importa é que ele estava te observando desde cedo. ~

Desde cedo...Inuyasha viu meu treinamento com Hayato-kun?!

~ Yeah, foi algo bem constrangedor mesmo, devo dizer. Pfft...hahah ~

Isso não tem graça, Hanna!

~Claro que tem! Imagine se fosse o Lorde te vendo tão próxima de seu general? Eu quase vejo a fúria em seus olhos e ele sacando sua katana para fatiar o pobre general.~

Sua sádica...

~ Lembre-se que sou uma parte sua, minha criança. ~

Disse divertida e eu estava prestes a xingá-la, quando passei por um enorme vaso de flores, que possuíam um cheiro enjoado, fortíssimo.

Precisei tampar o nariz, mesmo que não houvesse nada no estômago para ser vomitado e um pensamento me ocorreu.

Ei, Hanna. Sesshoumaru teria sentido o cheiro de meu medo, certo? Naquela hora. Porque ele mesmo não veio correndo?

~ Não percebeu? Enquanto aquela serpente lhe seduzia com os olhos e se aproximava de você, ela levantou uma espécie de barreira em volta das duas, por isso seu cheiro não foi sentido por ninguém do castelo. Aquele hanyou só lhe resgatou pois ele estava próximo e viu o que estava prestes a acontecer. ~

Ah...entendo.

Eu entendia, mas mesmo assim não deixava de estar um pouco desapontada por não ter sido salva por Sesshoumaru.

E inu-youkais podem usar esse tipo de habilidades, Hanna?

~Menina, em que mundo você tem estado a sonhar? É claro que podem! InuKimi tem domínio das artes da magia. Graças a aquela serpente...~

Que serpente...?

Um silêncio se estendeu e eu detive meus passos, que havia reiniciado em direção a cozinha. Arqueei uma sobrancelha, aguardando a resposta de Hanna, que estava se demorando demais.

~Falo de InuKimi, é claro! Mas ouça, menina. Não dependa de outros para ser salva! Se salve você mesma. Eu entendo que tenha ficado surpresa e seu corpo congelou, mas não deixe que isso aconteça de novo. Poderia ter perdido sua vida, caso ela se empolgasse após destruir seu lindo rosto.~

Engoli em seco, entendendo onde Hanna queria chegar.

É para isso que irei treinar.

...

Encontrei com Sango, Miroku, Shippou e Rin, todos estavam aproveitando a refeição e acabei por me juntar a eles, preferindo as frutas que estavam em uma tigela no centro da mesa.

Não sabia ao certo se deveria mencionar que encontrei a meger...digo, minha futura sogra aos dois, ainda mais com as crianças perto, era um assunto bem sério.

Com o nervosismo, acabei por atacar as frutas, uma a uma, e um certo daiyoukai voltou a brotar em meus pensamentos.

- Será que Sesshoumaru ainda está em seu escritório? - perguntei baixo, mais para mim do que para os outros, já que não percebia sua presença por perto, enquanto devorava um caqui.

Caramba, as frutas dessa Era são realmente muito mais gostosas que na minha!

- Está se sujando toda, Kah! - disse Sango se fingindo de brava e limpando o canto de minha boca que escorria o suco da fruta.

Dei de ombros, terminando de mastigar e pegando uma maçã em seguida.

- Bem, seu Alfa provavelmente está cuidando de suas responsabilidades, não? O que há? Já com saudades? Sabe...o castelo todo ouviu vocês. - disse Sango, em tom bem mais baixo no final.

Engasguei com a maçã que eu havia acabado de morder, sendo ajudada por Miroku de imediato, e olhei atônita para a exterminadora depois de conseguir engolir.

O castelo todo, O QUE?

Olhei para Rin e Shippou que pareciam entretidos numa conversa entre eles do outro lado da mesa, completamente alheios ao resto do mundo, e voltei para os olhos chocolates de minha amiga.

- Do que está falando, Sango? - cochichei, olhando de canto para as crianças, para ter certeza de que não estariam prestando atenção.

- Não se preocupa, o Miroku colocou uma barreira de som em volta deles, estão nesse grude desde que se encontraram. De todo modo, não ouviram nada.

Soltei um silvo, em alívio, e tratei de pegar uma jarra, enchendo meu copo de água e já bebericando o líquido.

- Foi bem selvagem, huh? - cuspi toda a água num jato.

Me virei para Miroku, que me encarava com malícia, um sorriso desdenhoso nos lábios.

Maldito.

~ Hahah, estou adorando seus amigos! ~

Contive um rosnado, enquanto me certificava que novamente as crianças não tinham ouvido. Olhei ensandecida para o monge.

- Isso...não é da sua conta, monge tarado!

Meu amigo apenas riu, enquanto bebia um pouco de saquê e eu levantei uma sobrancelha, pois ele parecia se divertir bastante.

- Sabe o que é, Kah...? - me virei para Sango, aguardando-a terminar. - Os sons que vinham de seus aposentos, haviam muitos rosnados, e não eram apenas do Lorde. - arregalei os olhos, tendo ciência de que ela estava falando que os rosnados eram meus.

- Ficamos até um pouco preocupados, mas o Inuyasha disse que era algo normal e nos impediu de ir até lá.

- Inuyasha ouviu também?! - levantei abruptamente, apoiando as mãos na mesa e fazendo algumas coisas tremerem.

O que acabou fazendo Shippou e Rin olharem pra mim, um tanto surpresos.

- Ouviu o que, Kagome? - Shippou me olhava com uma sobrancelha erguida e eu corei até as orelhas.

- N-nad...

- Ah, eu já sei! - Me interrompeu a Rin, entusiasmada e juntando as mãozinhas.

Olhei assustada para ela, com medo do que vinha a seguir e mudei o foco para o monge que assobiava, disfarçando.

Você me paga, Miroku! Cadê a porcaria da barreira?

- O tio Inu ouviu o treinamento de você com o papai, não é isso? Foi o que ele nos explicou ontem, sobre o que eram os rosnados e outros sons estranhos. Levamos um susto, mas depois que tio Inu explicou, entendemos bem.

Treinamento? Oi?

Olhei estranhada para Sango que escondia uma risada com a mão e virava a face para o outro lado, e acabei por encontrar os olhos de Shippou sobre mim. Ele não parecia convencido com essa história.

Engoli seco.

- Mas...porque estavam treinando em seus aposentos? Acho que a área externa é melhor para isso, tem três campos de treinamento nos fundos, eu até fui lá hoje mais cedo...

Meu pequeno perdeu um pouco a fala, ficando corado e virando a face e eu quase tive um treco ao imaginar o filhote assistindo meu treino com general Hayato.

- Shippou, deixa eu explicar, é que...

- É que o Lorde Sesshoumaru precisava ensinar coisas secretas que só dizem respeito aos Inus, por isso foi preciso ser em seus aposentos. - fui interrompida por Mayu, que entrava na cozinha, acompanhada por Mizuki.

A última fixou os grandes olhos dourados em mim e sorriu docemente.

- Mayu! - sorri para ela em alívio. Salva pelo gongo!

~ Eu não comemoraria tão cedo, menina. Teehe. ~

- Kagome-sama, se esqueceu de seu treinamento com Sesshoumaru-sama? Ele não gosta de esperar, você sabe. - disse ela, me olhando com malícia e divertimento.

Será possível que todos sabem?! Ah, claro...tem o cheiro também.

- Caramba! Ele vai me matar! - exclamei, botando as mãos na cabeça.

- Ele vai querer explicações sobre seu recente encontro. A senhorita está bem? - Mayu perguntou, em um tom que apenas eu, ela e Mizuki pudéssemos ouvir, já que estávamos um pouco afastadas dos outros.

Na mesma hora entendi sobre que encontro ela se referia. Inu-Kimi Hime.

- Sim. Estou bem. - respondi, olhando de soslaio para os outros e me voltando para ela. - Não comente nada com eles, não quero preocupa-los.

Mayu e Mizuki concordaram com a cabeça e eu sorri para elas.

- Obrigada...bem, então, até mais tarde...se eu ainda estiver viva! Hahah.

Me afastei rapidamente, indo ao encontro do Lorde carrasco que me faria me arrepender de ter nascido, durante o treino. Eu tinha certeza disso!

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*Pov. InuKimi*

A caminho do escritório, pensei sobre o encontro com a menina que cheirava a meu filho e a contato carnal.

Sentia raiva, mas mantive meu sorriso estampado na face enquanto guardas e outros servos me cumprimentavam tremendo em suas bases.

O cheiro de medo que os rodeava me inebriava e logo lembrei do cheiro de medo da menina abusada.

Se não fosse aquele hanyou eu estaria desfrutando do doce sangue da jovem miko e o aroma maravilhoso de uma presa prestes a ser devorada..., mas eu não tenho pressa! Oh não...irei aguardar, no momento propício irei provar do líquido viscoso de suas veias.

Mas antes, acho que preciso de mais informações...aquele filho insensível não me dirá nada sobre sua concubina, muito menos aquela criatura verde que sempre o acompanha; é tão fiel que morreria antes de responder minhas perguntas.

Virando o corredor, uma adorável serva gato aguardava em uma posição de respeito, a cabeça baixa, os olhos ao chão, as mãos juntas e próxima a parede, de forma que eu tinha o corredor livre.

Parei a sua frente, olhando-a pelo canto dos olhos e a pobre criatura sobressaltou. Sorri perante o aroma doce de seu terror à minha presença.

- Tens medo de sua senhora? - perguntei, acariciando a face da serva, que de imediato levantou seus olhos para mim.

Estava feito, só precisava disso. Agora terei todas as respostas que ela puder me dar, sem nenhum esforço.

Fiz o mesmo com outras servas e guardas, e a cada vez que me diziam algo novo, eu pensava que meu estúpido filho tinha mesmo se tornado tão irresponsável quanto seu pai.

Mas eu não o deixaria ir tão longe, dessa vez eu não perderia algo precioso para outra!

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*Pov. Sesshoumaru*

Terminava de assinar mais um dos documentos que haviam ficado pendentes, haviam se acumulado, e eu tinha pressa em termina-los e poder me concentrar no treinamento da miko pelo resto do dia.

Larguei a pena e olhei para a porta do escritório ao ouvir os passos apressados e pesados, junto do aroma de ervas.

Achei mesmo que ela estava demorando a dar o ar de sua graça.

Lucy entrou em um estrondo ao chutar a porta de madeira, por pouco não a arrebentando e eu a acompanhei com os olhos, até a mesma parar em frente a mesa apoiando suas mãos na mesma.

Estava óbvia sua insatisfação e a ver nesse estado me divertia mais do que poderia imaginar.

- O que você tinha na cabeça colocando Hayato para treinar Kagome-sama?! Eu não lhe disse que o indicaria quem mais a treinaria além de você? - soltou de uma vez, dando um tapa na madeira e eu olhei para o guarda que estava de prontidão à porta.

Entendendo minha ordem, imediatamente o mesmo fechou as portas e eu me voltei para a curandeira real.

- Não recebo ordens suas, Lucy. Julguei que Hayato seria uma melhor escolha que qualquer uma que você tivesse feito. Afinal, eles pertencem ao mesmo clã e somente ele poderia dividir o conhecimento deste com ela...

- Ela não está pronta! - me interrompeu, elevando a voz.

Me perguntei pela centésima vez o motivo de ainda a manter viva e me levantei lentamente, desistindo de quaisquer documentos que ainda houvesse para assinar.

- Não possuo tempo para seus ataques. De fato, você mesma não possui tempo, ainda não terminou de treinar aquele bastardo. Ele sim será um desafio, visto que você não é uma Inu pura.

- Espera...sabia que eu o estava treinando? E olha aqui! Eu ser uma Koma-inu em nada me atrapalha! Meu pedido para que o treine se deve ao que eu já expliquei: vocês são irmãos, filhos do mesmo pai! Coisas relacionadas aos Taishos, só você poderia ensinar!

- Se é dentro de meu território que treinam, claramente eu saberei. E eu já recusei seu pedido. - me direcionei as portas, desviando da áurea, que me encarava ensandecida e logo se postava a minha frente.

- Pelo menos deixe que Mizuki a treine antes de Hayato. Seu lado espiritual entrará em conflito e... - mordeu o lábio, sem terminar sua frase.

Era atípico da youkai a minha frente demonstrar nervosismo, por isso aguardei que ela terminasse sua fala, o que, no entanto, não aconteceu.

- Tenho certeza que Kagome não terá problemas com seu lado sacerdotisa. Porém, concordo que seria benéfico seu treinamento com a feiticeira.

Lucy me encarou parecendo mais aliviada, abrindo um sorriso.

- Claro que, ela continuará seus treinos comigo e com o General. Irei organizar em que dias ela terá o treino com cada um, para não a sobrecarregar. - nesse momento, Lucy perdeu o sorriso.

- Hayato irá mostrar a ela tudo o que ele lembra!

- O objetivo é esse. - a curandeira se preparava para outra discussão e eu a adverti com os olhos, o que a fez se calar no mesmo instante.

- Ela precisa saber. Lucy, não sentiu a presença nefasta daquele ser?

A youkai petrificou, arregalando os olhos e quando abriu a boca para falar, seu lábio tremeu levemente. Abriu um sorriso, tentando disfarçar o nervosismo.

- Que brincadeira de mau-gosto, Sesshoumaru. Não sabia que fazia esse tipo de piada!

- Se não sentiu, não há necessidade de discutir esse assunto com você.

Mais uma vez desviei de Lucy, mas fui impedido pela mesma, que segurou meu pulso.

- A Hime está pelo castelo.

Olhei-a pelo canto dos olhos, a Koma-inu tinha o olhar fixo em algum momento do passado e parecia haver chamas nos azuis celestes.

- Eu sei.

Saí do escritório rumo ao exterior do castelo, sem nem me preocupar em encontrar minha mãe no caminho.

Ela provavelmente já estaria me procurando, após terminar sua pequena investigação sobre a miko, e certamente iria ao escritório primeiro.

Era tão fácil prever seus passos.

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*Pov. Autora*

O local onde o haviam selado era de difícil acesso. Até mesmo para os jovens Inus se tornava uma árdua tarefa chegar ao lugar.

Porém mesmo que levasse dias para acercar-se da grande árvore, os dois mantinham um grande entusiasmo por seu pai ter lhes confiado essa missão.

A floresta era repleta de youkais extremamente ariscos; para chegar, eles precisaram enfrentar alguns.

Outros respeitavam a família de Inus e apenas os deixavam passar.
O problema mesmo era a distância e o caminho cheio de subidas e descidas, seria simples se eles pudessem apenas usar sua velocidade youkai.

- Por quanto tempo teremos que ocultar nossa presença e caminhar nessa cautela toda? Estou entediado. - o mais velho quebrara o silêncio, curvando a cabeça para trás ao bocejar.

- Shh! Cala a boca, elas estão por perto! - a outra, que caminhava mais a frente, se voltou rapidamente, tapando a boca do irmão e o empurrando para trás dos arbustos.

O corpo abaixo do seu se remexeu e ela o olhou furiosa, constatando que isso o fizera aquietar-se.

Voltou sua atenção ao céu, onde se podia ver uma pena passar rapidamente por ali. Era Kagura.

- Onde estará a porcelana ambulante? - perguntou para si mesma, ignorando os novos protestos do irmão.

- HMM!?

- Oh, desculpe. - disse, apenas tirando sua mão da boca do mais velho, que tossiu ao recuperar o ar. Ele a encarou, possesso, enquanto ela se afastava pensativa.

- Mas que droga, Kiyomi! Você esquece a força que tem! Como que pode ser mais forte que seu irmão mais velho, diaba?!

Uma flecha passou raspando pela bochecha do Inu, que engoliu em seco.

Com o arco em posição, colocando uma nova flecha, a mais nova lhe sorriu, zombeteira.

- É pra compensar essa sua língua grande, as vezes tenho dúvidas se é mesmo meu irmão. Me chama de diaba de novo, preciso de um motivo para lançar essa.

O Inu se levantou, limpando as vestes e acomodando sua lança nos ombros, enquanto mantinha uma face risonha, os caninos aparentes.

- Heh! Deixe de besteiras, temos que fortalecer logo o lacre antes que o encontrem. - ele riu, mas seus olhos mostravam a seriedade com que ele falava.

A mais nova se ajeitou, guardando a flecha em sua aljava, os olhos buscando por algo na floresta ao redor.

- Fique atento, Akira. Sinto que estamos sendo seguidos, mas não consigo definir quem ou onde está.

- Eu sei. Faz um tempo já. Provavelmente a bonequinha que você estava se perguntando onde estaria. Ela não possui cheiro nem presença. Se não fosse essa habilidade bizarra de sentir os vivos, não a teríamos sentido.

- Ela não está exatamente viva, apenas existe. - disse, se virando, em direção do caminho que estavam seguindo anteriormente.

Akira apenas deu de ombros, seguindo sua irmã floresta a dentro, mais atento aos ruídos e presenças da floresta a volta deles.

Não podia permitir que ninguém chegasse à árvore sagrada.

...

Viajaram por um tempo em silêncio, o caminho se tornando mais sombrio, o dia já dando sinais de que daria lugar a noite.

Quanto mais adentravam naquela direção, mais densa se tornava a floresta, e eles precisavam fazer uso de suas garras para liberar passagem.

Estavam demorando mais do que gostariam e era evidente em suas faces a impaciência, mas felizmente, após quebrarem alguns galhos que estavam no caminho, já se era possível avistar o topo da gigantesca árvore, que algum dia já fora a mais bela da região, mas por guardar dentro de si um ser vil, acabou se tornando obscura.

A passos firmes, eles se aproximaram dela, buscando sua entrada e parando a frente da grande fenda que havia em seu tronco. A inu-youkai mais nova olhou para cima da entrada.

Haviam apenas cipós e folhas em abundância, mas ela sabia que não era só isso e um sorriso despontou de seus lábios.

- Boa noite, tio Aoi! - cumprimentou a vegetação com certa alegria na voz.

Atrás de si, Akira revirou os olhos, desviando sua atenção para algum ponto qualquer.

Um silvo atravessou a floresta e um vento circundou a árvore, balançando as vestes e cabelos dos visitantes, e onde haviam folhas e cipós, acima da fenda, foi se formando algo.

A principio parecia ser apenas as folhas se remexendo, mas logo surgia a cabeça de um cão branco, seus olhos de um azul cristalino se voltaram para baixo, para encarar quem o chamava.

- Ora, mas se não é minha querida sobrinha, Kiyomi! Quanto tempo não tenho o prazer de sua visita. Mas sabe que não deve vir a este lugar! O que a trás aqui? - a voz do cão era grave, rouca e se sentia o carinho que ele tinha pela jovem.

- Infelizmente muito tempo que não o vejo, faz muita falta! Eu sei que não devemos vir aqui, só que veja, é que o papai nos mandou par...

- Quanta enrolação! Viemos fortalecer o lacre, velho. Libera aí a kekkai para terminarmos logo isso.

Grosseiramente, Akira os interrompeu, dando alguns passos a frente e apoiando sua lança no chão.

Kiyomi olhou-o por sobre o ombro, queria lhe dar uma resposta pela forma como havia sido interrompida, mas sabia que o irmão estava certo, não poderiam perder tempo.

O guardião do lacre voltou seus olhos para seu outro sobrinho, ponderando por alguns segundos, o que fez os irmãos se entreolharem. Antes que algum deles pudesse pronunciar algo, o cão pigarreou, semicerrando os olhos.

- Vejo que ainda possui um comportamento "exemplar", jovem Akira. - foi usado um tom de ironia, fazendo o jovem inu rosnar para o mais velho.

- Hahah! Não precisa se irritar! Vieram em boa hora, o lacre precisa de fato de reforço. Ele parece estranhamente agitado nos últimos dias, é melhor não duvidar de sua capacidade de quebrar o lacre.

- Por isso viemos, Oyakata-sama está preocupado com um certo hanyou, chamado Naraku, que quer tomar posse do poder dele. Seria desastroso! - Kiyomi disse, já se aproximando da entrada, mas sendo repelida pela kekkai. - Ouch! Tio Aoi!

- Sinto muito, minha querida, mas creio que terão que se livrar dos convidados indesejados antes. - desculpou-se o cão, olhando em direção da floresta às costas dos mais novos, que imediatamente se viraram, a tempo de desviar de várias rajadas de vento.

Pousaram nos galhos da árvore, com suas armas em posição de ataque, esperando que seu inimigo se revelasse; e assim fizeram.

Dentre os arbustos, surgiram Kagura e Kanna. A primeira tinha seu leque fechado, encostado ao queixo, um sorriso nos lábios vermelhos junto do olhar debochado fazia o sangue dos Inus ferver. Kanna apenas os olhava sem emoção, segurando seu habitual espelho.

- Então é aqui que Orochi está escondido? - a voz viera como um sussurro, horripilante, e os Inus olharam em volta, sem conseguir identificar de onde vinha.

Até que Kanna dá alguns passos a frente, suspendendo seu espelho, de forma que pudessem vê-lo.

Uma sombra estava refletida no objeto, podia-se sentir a energia demoníaca escapando pelas beiradas, um cheiro podre invadindo as narinas dos presentes.

- Ku ku ku...Aquele velho tolo realmente pensou que poderia me impedir mandando suas crias? - e então, ele se revelou. Naraku.

Retirou-se do espelho, com os tentáculos se espalhando, em busca de encurralá-los.

- Não pense que será tão fácil passar por nós, hanyou! - Akira estava decidido a não recuar. Avançou contra os tentáculos, cortando-os facilmente, sua lança brilhava em tons de vermelho e negro, o youki o circulando livremente.

- Tch... - visivelmente irritado pelo título, Naraku desferiu um golpe pelas costas do Inu, o jogando contra as árvores.

- Akira-nii! - rapidamente, Kiyomi lançou três flechas contra Naraku, uma delas conseguindo ferir o hanyou aranha de raspão, em sua têmpora.

Por um breve momento os olhos de Naraku se expandiram em surpresa, logo voltando ao semblante confiante de antes. Seu sorriso desdenhoso aumentando ainda mais a fúria da Inu mais nova.

- Nada mal para uma pirralha. Mas agora chega de brincadeiras!

Sem aviso, Naraku lançou em grande velocidade um de seus tentáculos, em direção ao coração de Kiyomi. Desprevenida, ela apenas arregalou os olhos, petrificada.

Mas o golpe nunca veio, um grande cão negro despedaçou o tentáculo. Não era tão grande quanto seu Oyakata-sama, mas ainda sim era grande o bastante para enfrentar de igual a aranha.

- Akira! - a alegria na voz de Kiyomi fez com que o cão lhe desse um breve olhar, logo voltando sua atenção ao seu oponente.

Enquanto seu irmão lutava contra Naraku, Kiyomi buscou com os olhos Kagura e Kanna, e percebendo que nenhuma das duas se encontrava onde estavam antes.

Temendo o pior, ela se voltou para a entrada na árvore sagrada, constatando seus temores. Seu tio, já fora do tronco da árvore, ao chão, sem se mover.

- Merda! Tio Aoi! - ela se aproximou, agachando e sacudindo o corpo do cão branco. - Roubaram a alma dele!

Sem perder tempo, a Inu adentrou o buraco, descendo pela escadaria cheia de musgo e outras plantas. Elas não deveriam estar longe!

Não demorou muito para encontrar as duas crias de Naraku.

Era uma grande sala oval. No fim dela estava o altar com o objeto que lacrava o pesadelo do clã dos Inus.

Kagura tentava se aproximar da jarra, onde a criatura estava selada, inutilmente, já que havia uma barreira impedindo que ela a tocasse.

Kanna observava quieta, talvez estudando uma forma de concluir sua missão.

- Parem já aí! Devolvam a alma do meu tio! - Kiyomi gritou, apontando uma flecha para elas.

Em resposta, Kanna se moveu, ficando a frente de Kagura, que ainda tentava se aproximar da jarra, se queimando todas as vezes.

- Droga! - praguejou a youkai dos ventos.

- Não vou permitir que libertem essa criatura vil! - lançou uma flecha contra Kanna, que apenas levantou seu espelho, absorvendo a flecha e logo a retornando a sua dona, que por pouco não conseguia desviar.

- Maldita!

Quando ia lançar outra flecha, um tentáculo passou por ela, quase atravessando Kanna e Kagura, indo direto para a jarra, quebrando a barreira que a circundava, e por consequência, quebrando o objeto que guardava Orochi.

Kiyomi deu um grito mudo quando seu corpo fora lançado para trás, tamanha a força demoníaca que escapou da jarra, em uma explosão.

Kagura já havia se afastado, juntamente de Kanna. Apenas a jovem inu e Naraku presenciavam a soltura do youkai lacrado.

- Finalmente, estou livre... - uma voz viera do centro do caos. E ao abaixar da poeira, pode-se ver longos fios dourados, que o trançado não conseguiu conter, espalhados pelo vento que o youki acabava por criar.

Um youkai extremamente belo, em trajes finos, de tons variados de roxo, lindamente desenhado, estava logo à frente dos dois.

A pele clara destacava os olhos esmeraldas, que encararam a inu que ainda se encontrava ao chão, quase como se visse um fantasma no lugar da jovem youkai.

Apenas quando este lhe apontou sua katana, é que Kiyomi saíra da hipnose que a imagem daquele ser criara em si, saltando para longe do alcance de um golpe que ele a desferia.

A espada brilhava em um vermelho sangue e parecia vibrar junto de seu possuidor.

Cada golpe que ele tentava dar em si, era com rapidez e grande pressão, parecia cortar o ar e isso assustou a jovem inu, que apenas conseguia se esquivar precariamente dos golpes.

Naraku apenas observava com um sorriso zombeteiro, se divertindo em ver a velocidade em que Orochi atacava, e apreciando a pressão que o poder daquele youkai fazia naquele lugar.

E tudo aquilo seria seu!

Assim ele pensava. Que logo o iria absorver, e fazer daquele poder somente seu.

Mas por enquanto, Naraku apenas queria assistir a jovem inu desviar desesperadamente dos ataques que Orochi insistia em lhe direcionar.

- ...esse cheiro! Você é filha daquele infeliz Príncipe do Sul. Cria de Hiroshi! - ao ouvir a forma como ele falava de seu pai, Kiyomi se enfureceu, contra-atacando o youkai usando as próprias garras, encharcadas com seu veneno.

- Mais respeito ao falar de Oyakata-sama! Pra você é Lorde Hiroshi, sua serpente engarrafada! Irei lacrar você novamente! - exclamou, desferindo outro golpe com suas garras, que prontamente foram detidas pela mão do outro, que a segurou pelo pulso, se aproximando de seu corpo.

- Não tens o necessário para me lacrar novamente, garotinha, nem você e nem aquele Príncipe tolo! - e terminado sua fala, a jogou para longe; ela tem sua queda amortecida por Akira, ainda em sua forma de cão, bastante debilitado por sua luta com Naraku.

Nii-san!

Akira, não aguentando a dor de seus ferimentos, acaba por ir ao chão logo após ter salvo sua irmã, que o chama em desespero, não notando a aproximação do youkai serpente a suas costas.

Orochi levantou sua katana, já pronto para ceifar a vida da jovem inu, a qual apenas o cheiro despertava seu mais profundo ódio à raça.

- BASTA! - a ordem viera de Aoi.

O inu-youkai já estava com sua alma recuperada, e se colocava entre seus sobrinhos e o youkai serpente, que apenas riu, em puro deboche.

- É o que veremos, cachorro velho! - ele estava obstinado a acabar com os inus, porém, Naraku tinha outras intenções, e assim iniciou seu plano de o absorver, pouco a pouco o encurralando com suas partes, de forma cautelosa e pacientemente esperando uma hora de distração.

- Não pense que esqueci de sua presença asquerosa, hanyou!

E com isso dito, Orochi saltou para longe dos tentáculos de Naraku, que apenas o olhou com uma visível insatisfação. Ele sabia que não era páreo para o youkai serpente, e por isso precisava desesperadamente daquele poder para si.

- Irei conseguir o que quero, Príncipe Orochi. Apenas uma questão de tempo... - zombou.

Orochi o fitou por alguns segundos e depois olhou de volta para os Inus.

Kiyomi tentava ainda reanimar seu irmão, enquanto que Aoi se postava de forma protetora a frente dos dois, pronto para dar sua vida se assim fosse necessário.

- Estou livre, então não faltarão oportunidades para terminar de liquidar essa raça de pulguentos. E quanto a você, hanyou, não sei quem é, e não me importa, a próxima vez que ousar se aproximar de mim, será seu fim.

E com isso, a serpente se foi, num piscar de olhos. E junto dele, a pressão do youki devastador. Naraku e suas crias sumiram juntamente, provavelmente em busca daquele que vieram libertar para se apoderar.

- Tio Aoi! Não consigo acordar o nii-san! E como recuperou sua alma? - se lamentou a inu, carregando Akira apoiado em seu ombro, tendo seu tio ao seu encalce, que a encarou após a pergunta.

- Seu irmão, assim que as crias de Naraku saíram, ele quebrou o espelho que prendia minha alma, e veio correndo lhe ajudar. Ele se feriu bastante lutando contra aquele hanyou. Vamos leva-lo de volta, não há mais nada que eu deva cuidar aqui, falhei em minha missão.

Kiyomi apenas pôde concordar, se pondo em alta velocidade junto de seu familiar.

Rezava para que seu irmão ficasse bem e em seu íntimo jurava vingança, contra Naraku e contra Orochi, que mais uma vez prejudicava sua família.

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*Pov. Kagome*

Estava nervosa.

É claro que eu estava nervosa!

Não era comum que Sesshoumaru se atrasasse. E isso significava um péssimo humor, pois algo havia interrompido seus planos, e claro, eu seria aquela que pagaria o pato!

Olhei mais uma vez para o caminho que levava para o castelo, em busca do prateado, mas mais uma vez, nada.

O campo estava vazio, e já começava a escurecer, ele não estava brincando quando disse que eu deveria descansar para o treino à noite.

Esse tipo de coisa não seria melhor durante o dia?

- Já sem foco em pleno treino. Será mais desafiador lhe treinar do que pensei, miko. - A voz viera por trás, a centímetros de minha orelha e por pouco meu coração não saía pela boca junto com o grito que dei.

Me virei rapidamente, para ver que Sesshoumaru exibia uma carranca inédita, nunca o havia visto com uma expressão tão desgostosa antes, o que me fez olhar para os lados após o susto, me perguntando se havia algo que pudesse explicar.

Mas só havia nós dois, então o olhei de volta, sustentando o peso daqueles dourados que eram seus olhos a me fitar seriamente.

- Algo de errad...?

Nem mesmo havia conseguido terminar minha pergunta, já tinha o lorde me segurando em seus braços, um de seus braços passando por minha cintura, enquanto sua outra mão segurava minha nuca, me puxando para si; de forma que tivesse livre acesso ao meu rosto, que ele cuidadosamente aspirou, arrepiando minha pele e me causando uma sensação gostosa por onde sua respiração passava.

- Ela lhe fez alguma coisa?

Sua pergunta me pegara desprevenida. Eu deveria ter tomado cuidado com o cheiro que ficara em mim após o encontro com Inu-Kimi.

Como sou idiota!

Desviei de seu olhar inquisitivo, incomodada com a questão.

O que deveria lhe dizer? Que sua mãe quase havia me machucado? Que se não fosse por InuYasha, só Kami sabe o que poderia ter me ocorrido? Não! Eu não poderia dizer algo assim.

- N-não, ela só me fez algumas perguntas, só isso.

Sesshoumaru se afastou, sem quebrar o contato visual, enquanto que eu engolia em seco, pois sabia que nunca poderia enganá-lo. Onde eu estava com a cabeça? É claro que ele ia sacar a mentira!

O lorde piscou algumas vezes, calmamente, enquanto me analisava.

Suor escorreu por minhas costas ao ser observada tão atentamente, eu podia sentir seu youki se alterar minimamente.

Eu sabia que ele estava irritado, mas sua expressão impassível não deixava claro se ele estava irritado por minha mentira ou pelo fato de ter me encontrado com sua mãe e não o procurado após. Talvez as duas coisas o deixavam bravo.

- Muito bem. Então comecemos o treino. Depois conversamos sobre seu óbvio problema em contar mentiras para este Sesshoumaru.

E assim, me virou as costas, começando a rumar para dentro da floresta que cercava o castelo e que fazia parte de seu imenso território. Mas parando para me olhar por sobre o ombro.

- Também espero uma explicação para o cheiro daquele bastardo em você, miko. Não aceitarei mentiras e nem meias verdades. - E se pôs a continuar andando.

Merda...

Bufei contra seu comentário, porém não haviam argumentos, desde o começo eu sabia que ele não acreditaria em minha mentira mais do que óbvia, afinal, ele é um daiyoukai.

E além do mais ainda tinha o cheiro de Inuyasha em mim. Eu realmente preciso aprender a ocultar esses aromas, pelo bem da saúde mental do lorde e a minha.

Suspirei pesarosamente e me pus a segui-lo, pensando em alguma forma de contornar aquele clima que havia se formado.

Teria ele se irritado tanto assim? Por longos minutos não houve uma conversa e ele apenas adentrava cada vez mais na mata.

Já estava escuro e apenas a lua nos fazia companhia.

Ele parou em uma clareira. O vento movia a grama alta de um lado para o outro e eu observei deslumbrada a luz do luar iluminar o local. Era apenas grama a se mover, mas com aquela luz, parecia um oceano, com suas ondas indo e vindo.

- Que lindo... - minha voz saiu em um sussurro, sem que eu percebesse.

Sesshoumaru me olhou por sobre o ombro por um instante, antes de continuar andando para o centro da clareira, em um pedido mudo para que continuasse a segui-lo, o que eu fiz de prontidão após terminar de admirar a paisagem.

- Sua primeira lição será o controle de seu lado youkai, irei lhe ensinar a libertar por completo. - anunciou, parando no centro da vegetação.

Estagnei as suas costas, perplexa com o que ele havia dito.

- O que disse...? Você quer que eu liberte algo que eu não saberei controlar? Ficou doido Sesshoumaru?! - Tive um rosnado grave como resposta e me encolhi.

Sim, ele estava muito bravo.

Por dentro Hanna dava uivos de alegria, era claro como o dia sua felicidade.

Torci o lábio, um tanto insatisfeita com aquilo, não era bem o que eu queria para a minha primeira lição, sem falar que não tinha a menor ideia de como conseguir isso.

- Tem certeza disso? Quero dizer, não seria melhor me ensinar como sentir diferentes aromas e presenças? Talvez me ensinar um pouco de luta com espada? Seria tão maravilh...

- Nada disso faz sentido se não souber controlar sua besta, Kagome. E não falo apenas de Hanna. Para isso, você vai precisar de um pequeno impulso.

Um bolo se formou em minha garganta, enquanto que Hanna se calava. De repente um zumbido se instalava em minha mente, ao mesmo tempo que Sesshoumaru se virava em minha direção.

Seus olhos começavam a se tornar vermelhos e suas presas exigiram espaço, se tornando maiores, assim como suas marcas e suas garras.

De repente, um medo se tornava bem real e um tremor se apossava de meu corpo.

- O que isso quer dizer...o que está fazendo, Sesshoumaru? - um rosnado foi tudo o que consegui que ele me respondesse, antes de se tornar um grande cão branco. O mesmo que sempre me fazia tremer até a alma toda vez que aparecia.

Ele deu um passo à frente, latindo, e eu dei um passo para trás, sem entender bem o que deveria fazer. Ainda era o Sesshoumaru, certo? Não precisava ter medo dele!

Mal o pensamento me rondou, o grande cão avançou contra mim, por pouco não me abocanhando, já que eu havia me jogado para o lado, rolando pelo chão.

~ Menina, eu acho que o que ele quis dizer, é que vai te treinar à força! CORRE! ~

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