Oh I'm wishing you were here

But I'm wishing you were gone

I can't have you

And I'm only gonna do you wrong

Oh I'm gonna mess this up

Oh this is just my luck

Over and over and over again

(Shots – Imagine Dragons)

.oOo.

O fim de semana se arrastou, como Draco previra. Qualquer que fosse a causa da sua ansiedade, psicológica ou fisiológica, ele não via a hora de chegar segunda-feira, quando teria sua poção novamente. Percebendo sua inquietação, Tiddy havia tentado persuadi-lo a tomar uma Poção Calmante, porém Draco recusava-se terminantemente a admitir derrota. No domingo à tarde, Astoria levou Scorpius e então não havia mais nada nem ninguém para distraí-lo de si mesmo. Draco chamou Potter via Flu, mas encontrou apenas seu elfo doméstico, que informou que Potter estava no Ministério.

Draco enfiou-se no seu escritório e praticou alguns dos exercícios de respiração que a Dra. Rost o ensinara, sem muita melhora. Recusou o jantar e dispensou a preocupação de Tiddy, dizendo que comeria quando estivesse com fome. Quando um elfo veio avisá-lo que Potter estava na lareira, quase correu até ele.

"Ei. Kreacher disse que você procurou por mim," Harry falou. Pelas roupas confortáveis que ele usava, Draco imaginou que ele já devia ter chegado em casa havia algum tempo.

"Você não mencionou que iria trabalhar este final de semana," Draco acusou, carrancudo.

"Bem, também não me lembro de ter dito o contrário." Harry franziu o cenho.

"Não, mas você disse que tinha fechado aquele caso na sexta-feira, então imaginei que você teria o final de semana livre," Draco justificou-se, porém não sabia dizer com quem estava mais irritado, se com Potter ou consigo mesmo.

"Está tudo bem, Draco?" Potter perguntou, encarando as mãos de Draco, que só então percebeu que estivera mexendo com elas nervosamente.

"Sim, por quê?" Draco retrucou, relaxando os braços ao lado do corpo.

Potter não pareceu muito convencido com sua resposta, mas suspirou.

"Quer vir aqui em casa? Tem algo que quero mostrar para você."

"Estou indo."

Potter assentiu e desapareceu. Draco respirou fundo algumas vezes, arrumando os cabelos antes de seguir pela lareira até Grimmauld Place. O moreno estava sentado no sofá, segurando algumas moedas e indicou que Malfoy se sentasse ao seu lado.

"Pegue," Potter ofereceu uma delas.

Draco engoliu em seco.

"Isto é...?" Ele perguntou, passando o polegar pelas beiradas da moeda, onde ficava o número de série que identificava o duende que a forjara.

"Uma das moedas da Armada de Dumbledore, sim," Harry assentiu. "Sei que não é nenhuma novidade para você, mas imagino que você não tenha mantido as suas próprias moedas..."

De fato, as moedas que Draco usara para se comunicar com Madame Rosmerta no período em que a mantivera sob o Feitiço Imperius haviam sido confiscadas pelo Ministério, mas Draco dificilmente as teria mantido, se não fosse o caso. Não tinha motivos para usá-la como um distintivo, como os amigos de Potter provavelmente faziam.

Ouviu Harry murmurar algo e sua moeda esquentou levemente, os números assumindo a forma de uma pergunta:

'Cadê meu beijo?'

Draco teve que limpar a garganta para que sua voz saísse.

"De quem são estas?"

"Esta é minha." Harry levantou a própria moeda e em seguida apontou para a de Draco. "E essa era de Colin Creevey. O irmão dele me devolveu, alguns anos atrás. Agora é sua. Pedi para Hermione desvinculá-las das demais moedas, assim podemos nos comunicar mais discretamente. Mas você ainda não respondeu à minha pergunta..."

Draco se imaginou atirando o objeto de volta para Potter e gritando que não queria aquela maldita moeda, de onde ele tinha tirado aquela ideia ridícula? Mas acabou tocando com a ponta da varinha no objeto, cujas letras mudaram para 'Venha pegar'.

Harry sorriu e inclinou-se para beijá-lo. Draco guardou a moeda no bolso e inclinou-se para facilitar o encaixe das suas bocas, desesperado por mais contato. Tinha intenção de chupá-lo ali mesmo, arrancar as roupas de Harry e fazê-lo gemer seu nome, mas Potter parecia ter outros planos. Ele segurou seu rosto, quebrando o beijo e encarando-o nos olhos.

"Eu devia ter avisado que trabalharia durante o final de semana. Mas queria fazer uma surpresa. Estou de folga durante toda esta semana!" Ele sorriu e arqueou as sobrancelhas sugestivamente, ao que Draco ficou totalmente sem reação. "Pensei que assim nós poderíamos aproveitar melhor. O que acha?"

Draco piscou, sem reação. Potter tinha optado por trabalhar durante todo o fim de semana apenas para que eles pudessem passar a semana seguinte juntos? Draco sabia que devia se sentir satisfeito e, ao mesmo tempo, fingir descaso diante do outro, mas tudo que sentiu foi medo. Medo de estragar tudo novamente.

"Draco, o que há de errado?"

Quando Draco voltou a focar o rosto de Harry, percebeu que seu sorriso havia desaparecido. Tratou de fechar o cenho e desviou o olhar.

"Não há nada errado, Potter. Só estou cansado."

"Sim, eu também," Harry falou, apesar de não parecer convencido. "Venha aqui."

Draco se deixou puxar até estar deitado de lado contra a lateral do tronco do moreno, que também se inclinou no sofá. Imaginou se Harry notaria seu coração acelerado contra suas costelas e engoliu em seco. Desejava poder relaxar, mas simplesmente não conseguia.

"...pensando se você aceitaria," Harry dizia enquanto alisava seu braço direito com a mão esquerda de uma maneira que deveria ser reconfortante. Deveria. "Algum lugar discreto, claro. E de preferência onde ninguém nos conhecesse. No exterior, talvez? O que acha?"

"Não quero conversar sobre isso agora."

Potter suspirou e sua mão parou de se mexer, ainda apoiada sobre a de Draco quase distraidamente, o polegar fazendo círculos suaves. Draco encarou a cicatriz apagada nas costas da mão do moreno.

"Tudo bem, mas vamos voltar a falar sobre isso em breve. Queria aproveitar esta semana para..."

"Espera," Draco se levantou e segurou a mão do outro próxima dos seus olhos, estreitando-os.

"Não é nada..." Harry puxou a mão com certa brusquidão, ao que Draco encarou-o.

"Como não é nada? O que está escrito aí?" Ele havia distinguido as palavras 'devo contar', mas as primeiras e últimas palavras estavam bastante fracas. A reação de Harry só fez com que ficasse mais intrigado, apesar de saber que não deveria insistir no assunto. "Deixe-me ver, Potter."

Harry se endireitou no sofá e coçou a nuca, o cenho franzido.

"Foi Umbridge. Ela me fazia escrever frases nas detenções." Relutante, ele deixou que Draco segurasse sua mão novamente e as palavras pareceram mais claras a cada segundo que se concentrava nelas.

'Não devo contar mentiras'

"Com licença. Tenho que ir," Draco falou, já se levantando e agradeceu internamente por suas palavras terem soado firmes, apesar de suas pernas estarem bambas.

Atravessou a sala em direção à lareira e jogou pó de Flu, ignorando completamente os protestos de Potter. As palavras do Auror não eram mais altas que o barulho ensurdecedor da sua próxima circulação sanguínea e das batidas descompassadas do seu coração. Assim que atravessou para a Mansão Malfoy, Draco apontou a varinha para a lareira e desabilitou a rede de Flu. Caiu no sofá, desabotoando os primeiros botões da camisa numa tentativa desesperada de puxar mais ar para os pulmões.

Ouviu vagamente o guincho assustado de um dos elfos, mas gritou "Fora!" com o que pareceu ser seu único resquício de fôlego.

'Respire, Draco, respire,' disse para si mesmo, bloqueando toda a cacofonia dos seus pensamentos, que insistiam em dizer que aquilo era sua culpa e que ele não merecia quaisquer minutos de felicidades roubados, muito menos se eles envolvessem Harry Potter, de todas as pessoas.

Depois do que pareceu uma eternidade, Draco conseguiu se acalmar o suficiente para sorver grandes goles de ar e abraçou as pernas contra o peito, encostando a cabeça nos joelhos como se aquilo fosse suficiente para impedir as lágrimas de escorrerem. Não sabia de quem sentia mais raiva, se de si mesmo por ser tão fraco ou de Potter por ser tão ridiculamente grifinório. Preferia que ele gritasse acusações. Preferia ter que lidar com a dor física de um soco do que com aquilo que experimentava naquele momento. Parte dele queria provocar uma briga entre eles, exatamente como fizera tantos anos antes e acabara quase morto no chão do banheiro destruído de Hogwarts.

Draco jamais teria aguentado tamanho abuso e humilhação de um professor. Se fosse obrigado a tal, seu pai teria derrubado metade do Ministério da Magia para punir os culpados. Harry, por outro lado, tinha passado por muito mais provações do que ele. Infinitamente. E continuava a viver como se nada o tivesse abalado, enquanto Draco tinha que lidar com a própria covardia todos os dias, vivendo a base daquelas malditas poções provavelmente pelo resto da sua vida.

Draco sentiu um formigamento na mão e levantou os olhos, assustando-se com a grande forma prateada que o havia tocado com o focinho. Um veado altivo com uma enorme galhada o encarava com seus olhos enevoados. Draco sabia que era o patrono de Harry antes mesmo que ele falasse, apesar de nunca tê-lo visto antes. Todos os Comensais da Morte conheciam a forma do patrono de Harry Potter.

"Deixe-me entrar, Draco. Por favor..." o patrono falou com a voz de Harry, suave e firme ao mesmo tempo. Como se dissesse que daria um jeito de entrar, caso o loiro não cooperasse. Draco sentia o calor emanar da moeda em seu bolso, mas sabia que ela provavelmente continha a mesma mensagem.

Draco limpou o caminho úmido deixado pelas lágrimas e fungou, encarando o patrono e sentindo algo quente preenchê-lo por dentro. Nunca fora capaz de produzir um patrono, mas aquilo não o impedira de passar em seus N.I.E.M.s, pois boa parte dos estudantes também não conseguia produzi-los depois do que passaram na guerra. Talvez ele já estivesse depressivo na época, sem que soubesse.

Draco esticou a mão para tentar tocá-lo, mas o patrono se desfez como uma bolha de sabão estourando ao ser tocada. Draco se recompôs o melhor que pôde antes de tornar a abrir a rede de Flu e não se passou nem um minuto antes que as chamas fossem acionadas.

"Maldição, Draco," ele ouviu a voz de Harry e podia imaginá-lo passando uma mão pelo cabelo, porém não levantou os olhos da mesa de centro nem fez qualquer movimento para reconhecer sua presença, nem mesmo quando ouviu um elfo doméstico aparatar para recebê-lo.

Draco ouviu os dois conversarem como se estivessem em outro cômodo, as vozes abafadas e indistinguíveis. Acordou de seu torpor quando algo foi colocado diante do seu nariz.

"Beba, Draco," ele ouviu o comando de Harry e bebeu duas doses de poção sem questionar. "Muito bem, agora vamos colocar você na cama."

Draco sentiu-se leve, como se flutuasse e suspirou. Deixou-se ser meio arrastado, meio carregado até o segundo andar, mas devia ter apagado antes de chegar ao seu quarto.

.oOo.

Draco acordou com um barulho ritmado e constante que parecia fora de lugar em seu quarto. Abriu os olhos e comprovou que realmente estava em seu quarto, sozinho em sua cama e que o barulho persistia. Sentou-se na cama e olhou ao redor.

"Potter, o que está fazendo?"

Harry interrompeu suas abdominais para encará-lo, as mãos unidas na nuca e as pernas flexionadas. Ele estava no chão do quarto, vestindo apenas a parte de baixo do pijama, a pele descoberta suada e brilhando à parca iluminação que atravessava as janelas do quarto.

"Malhando." Ele sorriu, os olhos um pouco desfocados diante da falta dos óculos. "Acordei você?"

Draco não se deu ao trabalho de responder, permanecendo encarando-o com o cenho franzido. Harry voltou a fazer suas abdominais e Draco se jogou na cama novamente, virando-se para o outro lado e tornando a fechar os olhos. Não conseguia entender o que motivava uma pessoa a acordar tão cedo e ainda ter ânimo para se exercitar, mas podia ter esperado aquilo de Potter. Ele tinha o hábito de acordar antes mesmo de o sol nascer e costumava fazer caminhadas nos terrenos de Hogwarts. Aquilo certamente explicava o excelente condicionamento físico do moreno e o fato de Draco sempre encontrá-lo de banho tomado pela manhã, quando acordava.

Tentou voltar a dormir, mas não conseguiu. O incômodo em suas entranhas estava bem menos acentuado que na noite anterior, porém ainda se fazia presente, impedindo-o de relaxar totalmente. Lembrou-se de ter tomado algo na noite anterior, por insistência de Potter, e imaginou que fosse uma dose de Poção Calmante combinada com uma Poção para Dormir sem Sonhar do seu próprio estoque. Desejou tomar outra dose da Poção Calmante, mas rejeitou a opção logo em seguida, ciente de que não solucionaria seu problema. Com um pouco de sorte, receberia seus medicamentos pelo correio em algumas horas.

Ouviu quando Potter mudou de posição e desistiu de tentar dormir, virando a cabeça para o outro lado discretamente, ainda de bruços, para observá-lo. Ele estava fazendo flexões, os músculos das costas e dos bíceps saltados conforme ele flexionava e estendia os braços sem aparentar nenhum esforço sobrenatural. Enquanto observava, Draco sentiu qualquer resquício de sono abandoná-lo ao mesmo tempo em que algumas partes do seu corpo se mostravam mais despertas que outras.

Harry levantou os olhos de repente, surpreendendo-o, e sorriu. Draco fechou a cara.

"Você não disse que estaria de folga esta semana?" Draco perguntou, ao que Harry se sentou, limpando o suor do rosto com as costas da mão.

"Sim, mas já estou acostumado a acordar cedo. E não quero perder o ritmo." Ele encolheu os ombros e se levantou, aproximando-se da cama para se servir de água da jarra sobre o criado. Aquilo fez com que sua virilha ficasse na linha de visão de Draco, que percebeu o volume pouco disfarçado pelo tecido fino das calças do moreno.

"Você se importa se eu usar o seu chuveiro?" Harry perguntou, quase inocentemente, depois de flagrar seu olhar.

Draco agradeceu ao fato de ele não ter mencionado os acontecimentos da noite anterior. Já era humilhação suficiente ter que se lembrar daquilo sem que Potter o encarasse com pena ou preocupação. E Draco bem que poderia fazer bom uso de uma distração, no momento.

"Não me importo," Draco respondeu, apoiando a cabeça numa das mãos para poder encarar melhor o corpo do outro, sem se preocupar em disfarçar. "Mas talvez seja melhor eu acompanhá-lo para garantir que você não faça nenhuma bagunça."

"Você é quem sabe." Harry saiu em direção ao banheiro e Draco não demorou para se juntar a ele debaixo do chuveiro.

Harry fez questão de ensaboá-lo inteiro, enxaguando-o em seguida e terminou empurrando o loiro de frente para a parede fria do banheiro, ajoelhando-se atrás dele e segurando suas nádegas afastadas enquanto o lambia, chupava e penetrava com a língua. Passado o choque inicial – ninguém nunca havia feito aquilo com ele antes -, Draco deixou-se levar pelas sensações causadas pela boca e pela mão do Auror, que estimulava seu membro com a ajuda de um pouco de sabão até pintar a parede do banheiro com seu sêmen.

"Aonde você aprendeu isso?" Draco perguntou, ofegante, olhando por cima do ombro para o moreno, que tornou a ficar em pé e virou-o de frente para encará-lo com os olhos verdes desfocados e os lábios avermelhados.

"Numa revista que Hermione me deu." Aparentemente, Harry estava indeciso entre ficar envergonhado ou orgulhoso do que acabara de fazer.

"Quer que eu retribua?" Draco perguntou, encantado com o rubor que se espalhou do rosto para o pescoço do moreno.

"Eu não me importaria... Quero dizer, se você também não se importar, é claro..."

Draco sorriu e inverteu as posições, pressionando o rosto de Harry contra a parede fria do banheiro. Lavou-o cuidadosamente enquanto beijava-lhe a nuca e os ombros, como o ex-grifinório havia feito com ele, aproveitando para massagear seu ânus, usando um pouco do seu condicionador de cabelo para facilitar o deslizar.

"Está gostando?" Draco perguntou junto ao ouvido de Harry, ao deslizar um dedo para dentro com facilidade, ao que o moreno que acenou afirmativamente. "Quer que eu continue?"

"Sim, por favor, sim," Harry ofegou e Draco aquiesceu, adicionando mais um dedo, deslumbrado com a receptividade de Harry.

Draco enxaguou o condicionador do corpo de Harry e ajoelhou-se no chão do banheiro, substituindo os dedos pela língua. O moreno estremeceu e gemeu e tocou a si mesmo enquanto se empurrava de encontro à boca de Draco até gozar com um grunhido.

.oOo.

Assim que saiu do banheiro com apenas uma toalha enrolada na cintura, Draco deparou-se com o decrépito elfo doméstico de Potter balançando-se nos próprios pés e segurando alguns frascos de poções.

"Senhor Malfoy, senhor," o elfo crocitou, fazendo uma reverência exagerada.

"Ah, Kreacher! Que bom que você conseguiu," Harry falou, passando por Draco, igualmente pouco vestido.

Draco tentou dizer a si mesmo que não tinha motivos para se sentir envergonhado, afinal até os elfos domésticos mais rebeldes consideravam uma falta de decoro compartilhar qualquer detalhe da vida íntima de seu amo até mesmo com os demais elfos. Porém não pôde evitar o rubor que lhe cobriu as faces.

"Obrigado, Kreacher." Harry havia instruído o elfo a depositar os frascos na escrivaninha de Draco e dispensou-o logo em seguida.

"O que significa isso?" Draco perguntou, reconhecendo imediatamente as poções.

Potter coçou a cabeça.

"Tomei a liberdade de pedir que Kreacher fosse buscar seu pedido no boticário..." ele explicou e Draco limitou-se a encará-lo, incrédulo. Potter mudou o peso do corpo de um pé para o outro. "Talvez eu tenha falado para ele madrugar na porta da loja e não sair de lá enquanto não conseguisse, o que imagino que seja o motivo de não ter demorado tanto, afinal. Kreacher sabe ser insistente, quando quer."

"Você mandou o seu elfo doméstico..." Draco começou, falando as palavras o mais baixo e lentamente possível numa tentativa de conter a própria irritação.

"Bem, não é como se eu pudesse dar ordens aos seus elfos domésticos, apesar de eles certamente concordarem com a ideia." Potter passou a mão pelos cabelos, a incerteza de antes substituída por sarcasmo. "Qual é, Draco, as pessoas não costumam prestar muita atenção neles. Eles provavelmente assumiram que era um dos seus elfos, ou não teriam entregado o pedido, para começo de conversa. Agora pare de ficar procurando motivos para descontar a sua frustração em mim, sim?"

Draco engoliu uma resposta enviesada antes que ela saltasse da sua boca e respirou fundo, servindo-se de uma dose caprichada das suas poções. Sabia que aquilo não compensaria o tempo passado sem o medicamento, mas sentiu-se melhor ao fazê-lo. Apoiou os braços na escrivaninha e fechou os olhos enquanto o líquido assentava em seu estômago. Sentiu o alívio percorrê-lo conforme grande parte da sua inquietação se dissipava num passe de mágica. Sentiu dois braços fortes enlaçando seu tórax e deixou-se ser abraçado.

"Melhor?" Harry perguntou próximo ao seu ouvido e beijou seu ombro nu após Draco assentir com a cabeça. "De nada," ele falou, maroto, e se afastou antes que o loiro pudesse reagir.

Draco voltou-se para o moreno, apoiando o quadril na escrivaninha e cruzando os braços enquanto observava o ex-Grifinório se trocar.

"Vai a algum lugar?" Draco perguntou, ao mesmo tempo desapontado e aliviado com a perspectiva. Tinha horário marcado com a Dra. Rost às nove horas da manhã e definitivamente não gostaria que Potter estivesse por perto enquanto se consultava. Porém tampouco gostaria de passar o restante do dia sem vê-lo.

"Tenho que resolver algumas coisas no Beco Diagonal," o moreno falou, vestindo uma camiseta com um símbolo desconhecido por cima das calças de um tecido azulado que Draco costumava ver alguns alunos nascidos trouxas usarem em Hogwarts. As calças eram mais justas que as sociais que ele costumava usar e Draco conteve a vontade de demonstrar qualquer descontentamento quanto àquele fato. Harry abaixou-se para calçar um sapato de aparência igualmente incomum e encarou-o enquanto atava os cadarços. "Eu perguntaria se você gostaria de me acompanhar, mas..." Ele fez uma careta.

"Tenho uma consulta dentro de alguns minutos," Draco falou, sentindo-se consideravelmente mais calmo.

"Ah, certo..." Harry se levantou. Colocou os óculos e aquela monstruosidade que ele chamava de relógio. "Tem planos para o almoço?"

"Sim. Estou planejando almoçar em casa hoje, como tenho feito há alguns anos." Draco assistiu enquanto o moreno pegava a varinha de cima do criado e olhava ao redor para ver se não estava se esquecendo de nada. O elfo devia ter recolhido sua roupa do dia anterior e seu pijama sem que Draco percebesse. "Mas você pode se juntar a mim, se quiser."

Aquilo fez com que Harry levantasse os olhos e sorrisse antes de atravessar o quarto para selar os lábios de Draco com os seus.

"Ao meio-dia em ponto," Draco completou, ganhando outro beijo rápido.

"Estarei aqui." Harry piscou um olho enquanto se afastava de costas. Ele abriu a porta, espiando para os dois lados antes de sair em direção à lareira do segundo andar.

.oOo.

"Bem..." a Dra. Rost suspirou, fazendo suas anotações. "Infelizmente, isso vai fazer com que retrocedamos alguns passos na sua reabilitação, mas não é o fim do mundo. Acredito que você saiba o que fazer enquanto isso, para ajudar a dormir e..."

"Sim, sim," Draco falou, impaciente. "Pode pular essa parte."

Longe de parecer contrariada, a Dra. Rost limitou-se a retirar os óculos para encará-lo.

"Sei que você entende muito bem o processo que envolve os medicamentos, Sr. Malfoy. Entretanto, tenho que reforçar a respeito da parte prática do tratamento. Receio que o senhor não esteja se esforçando o suficiente, se realmente quer melhorar em pouco tempo..."

Foi a vez de Draco suspirar, rolando os olhos. Deixou a mente vagar para os acontecimentos daquela manhã enquanto fingia ouvir as baboseiras da mulher sobre a importância do estreitamento dos relacionamentos familiares para sua recuperação.

"Estou me encontrando com uma pessoa," Draco interrompeu-a, fazendo com que a bruxoterapeuta o encarasse, momentaneamente confusa.

"Ah..." A Dra. Rost piscou algumas vezes, como se processasse a informação. "Sério?" Ela tornou a colocar os óculos, preparando a pena para fazer mais anotações. "Isso é ótimo, Sr. Malfoy. Há quanto tempo?"

"Algumas semanas," Draco falou, dolorosamente consciente de cada um daqueles vinte e poucos dias, que mais pareciam uma eternidade.

"Quer falar a respeito?" Ela perguntou, olhando-o por cima dos óculos, ao que Draco limitou-se a encará-la. "Você tem consciência de que me paga muito bem para ouvi-lo, não tem?"

"Pagaria até mais apenas pelas prescrições, se tivesse a opção," Draco desdenhou, ao que a bruxa meneou a cabeça.

"Eu diria que fico mais aliviada com o fato de você ter alguém para se abrir agora, mas suspeito que o senhor não facilite muito as coisas para ela, tampouco." A bruxa terminou de fazer suas anotações. "De qualquer forma, considero essa novidade muito promissora e espero que sua namorada tenha mais sorte do que eu nesse sentido."

.oOo.

Alguns minutos depois, Draco estava em seu escritório quando ouviu batidas à porta e levantou os olhos para encontrar Potter parado na porta com um sorriso preocupante nos lábios.

"Atrapalho?"

"Certamente." Draco afastou o livro que lia, numa permissão silenciosa.

"Tenho uma proposta para você," Harry falou, se aproximando e colocando o que parecia ser uma revista de turismo bruxo sobre a mesa, com uma foto de uma praia paradisíaca estampada na capa, com ondas suaves e a brisa sacudindo as folhas dos coqueiros.

"Salazar me ajude," Draco falou, olhando da revista para o homem sorridente à sua frente. "O que significa isso?"

O moreno arrumou melhor os óculos no rosto e se sentou na cadeira em frente à sua escrivaninha, juntando as mãos avidamente.

"O que você acha de viajar comigo?"

Draco encarou uma íris verde após a outra.

"Do que você está falando?"

"Férias! Pensei numa praia, mas podemos ver algo diferente, se você preferir. Você gosta de praia?" Ele apontou para a revista.

"Potter..."

"Draco, espera," Harry interrompeu-o, colocando uma mão sobre a do loiro. "Me escute até o final, está bem? Pense num hotel na beira de uma praia praticamente deserta, você e eu sentados debaixo da sombra de coqueiros olhando para o mar azul claro; lá no horizonte, um vulcão adormecido; alguns barcos passando lentamente; o sol deixando a gente preguiçoso..." Ele descreveu exatamente a imagem da capa até que Draco o interrompeu.

"Potter, por acaso eu tenho cara de alguém que gosta de sol?"

"Tudo bem, então esqueça a praia," Harry continuou, aparentemente inabalado. "O que você prefere? Um passeio turístico pela Espanha, uma imersão histórica na Grécia, um circuito gastronômico pela Europa Bruxa... Qualquer coisa. É só você dizer que eu providencio."

"E quem disse que eu quero viajar, Potter?"

"Estou pedindo para você considerar, Draco. E é Harry," ele insistiu. "Por favor, Draco, apenas pense a respeito com carinho..."

"Por que me dar ao trabalho? Mesmo se eu quisesse viajar com você, o que as pessoas vão dizer? Ou você se esqueceu que é uma celebridade?"

"Ora, não exagere. Não é como se o mundo todo..."

"Não estou exagerando. Estou sendo realista, Potter. Sua fama não se restringe ao Reino Unido. E, mesmo que se restringisse, existem bruxos ingleses em todos os lugares da Europa! Antes que você se desse conta, já estaríamos estampados na página inicial do Profeta..."

"Será que você poderia me dar algum crédito, por favor?" Harry irritou-se, por fim, deixando-se cair contra o encosto da cadeira. "Você realmente acha que eu ainda não aprendi a passar despercebido quando quero? Ou você pensa que eu deixo de viver a minha vida para evitar as manchetes dos tabloides?"

"E quanto a mim?" Draco cruzou os braços, desafiador.

Potter suspirou e retirou algo do bolso interno da capa, jogando sobre a mesa nada delicadamente. Draco reconheceu os documentos como passaportes bruxos, além de duas varinhas completamente desconhecidas. Abriu o passaporte, que trazia o nome Daniel Marvel e nenhuma foto. Olhou para Potter, que encolheu os ombros.

"Privilégios de auror. Mas admito que as iniciais foram pura coincidência." Ele retirou outro passaporte do bolso e abriu-o para que Draco lesse. "Já eu, não tive tanta sorte."

O documento mostrava uma foto de uma pessoa muito parecida com Harry Potter, porém com um nariz mais longo e olhos castanhos, sem óculos, que supostamente atendia pelo nome de James Spike. O homem da foto coçou o nariz e ensaiou um sorriso tímido que não deixou dúvidas de que era Potter na foto, apesar da aparência estranha.

"Por que isso agora?" Draco perguntou, sem disfarçar seu aborrecimento.

"Porque eu quero passar algum tempo com você," Harry falou, debochando das próprias palavras. "Tenho que preencher algum formulário e aguardar ser chamado, ou algo assim?"

Draco sentiu um peso no estômago ao comparar aquela reação final com a alegria com que Harry havia entrado no seu escritório, poucos minutos atrás. Baixou os olhos para a revista, e por um instante ficou mesmerizado pelo movimento suave das ondas do mar. A última vez que estivera numa praia, Draco tinha oito ou nove anos. Seus pais não gostavam do mar. Lucius preferia grandes cidades, centros comerciais, pessoas bem vestidas e apressadas passando por eles a caminho de grandes negócios. Narcissa detestava os efeitos da maresia sobre sua pele e preferia lugares frios, pessoas elegantes, vitrines cheias de estilo...

"Tudo bem, esqueça..." a voz derrotada de Harry despertou-o do seu devaneio. O Auror se levantou, recolhendo as varinhas e o passaporte. "Foi uma ideia idiota. Talvez eu deva..."

"Quando?" Draco interrompeu-o, ao que Harry encarou-o com o cenho franzido. "Quando você estava pensando em ir?"

"Ah..." Harry piscou. "Na verdade, não sei quando terei outra oportunidade de tirar folga..."

"Esta semana?" Draco perguntou, perplexo.

"Hoje, na verdade." Potter teve a decência de parecer envergonhado, mudando o peso de um pé para outro. "Só volto a trabalhar na próxima segunda, mas nós poderíamos interromper a viagem a qualquer momento. A agência de viagens fornece chaves de portal autoativáveis."

"Que horas partimos?"

Harry arregalou os olhos, mas recuperou-se rapidamente, umedecendo os lábios.

"Para onde?"

"A praia." Draco apontou para a foto.

"Tem certeza? Não quer dar uma olhada nos outros pacotes de viagem?" Harry perguntou, ao que Draco negou com a cabeça, reparando em como o moreno lutava para disfarçar a surpresa, olhos brilhando de entusiasmo. "Tudo bem. Podemos sair lá pelas três da tarde? Vou precisar de uma foto sua."

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