Soluço estava em silêncio, ainda processando o que tinha acontecido. Ele fechou os olhos, mas ainda conseguia ver os olhares confusos de sua família por trás de suas pálpebras, como se aquela imagem tivesse sido queimada em suas retinas.

Banguela trinou suavemente em baixo dele, chamando sua atenção, e Soluço abriu os olhos, voltando-os para o dragão. Ele conseguia ver as pupilas negras do Fúria da Noite olhando para cima, focados nele.

"Nem comece... Você sabe que isso é culpa sua, não é?" Soluço desviou os olhos, bufando alto, e cruzou os braços. "O que você estava pensando, Banguela? Você- Você apareceu do nada! Você-"

A única resposta que Soluço conseguiu do dragão foi um rosnar alto e um leve movimento de corpo, como se Banguela tentasse derrubá-lo de cima. Mas é claro que não queria fazer tal coisa. Soluço podia não conseguir ouvir Banguela ainda, mas ele tinha uma boa ideia do que aquilo queria dizer.

Soluço suspirou.

"É, tem razão... Se você não tivesse aparecido... Flamejante ia acabar comigo, nem ia pensar duas vezes..." Ele murmurou, se lembrando do modo como o dragão avançou contra ele, mesmo depois de ele tentar acalmá-lo. E então a imagem de Banguela lutando contra o Pesadelo Monstruoso surgiu em sua mente, e ele sentiu um arrepio, se lembrando de como foi ver o dragão tão menor atacar um gigante como aquele. "Desculpe por agir desse jeito, Banguela... Eu só estava preocupado com você..."

Banguela bufou, erguendo a cabeça levemente. Soluço não sabia o que aquilo queria dizer, mas acreditava que tinha algo a ver com ser "capaz de se defender". Ele sorriu, afagando a cabeça do dragão que ronronou levemente.

"Que bom que você está bem, amigão..." Ele disse.

Os dois voltaram a ficar em silêncio, voando sobre o mar.

Soluço desviou a atenção para a água quase infinita que havia em baixo deles, vendo seus reflexos na superfície. E, mais uma vez, Soluço imaginou o que poderia ter feito, se seu plano tivesse dado certo.

"Eu só queria..." Um suspiro. "Eu só queria mostrar para os outros que não precisamos lutar, que podemos- Que usar armas e violência só piora as coisas..." Ele pensou em sua mãe, nas palavras que ela dizia e nas coisas que fazia, e seu coração doeu um pouco. Então pensou no dragão e no que tinha acontecido na arena. "Eu cheguei tão perto!" Soltou mais um suspiro. "É, mas agora é que não dá, não é?" Soluço deu um sorriso sem humor. "Se meu pai não tivesse..." O sorriso sumiu e ele balançou a cabeça com um suspiro pesaroso. "Eu nem sei porque pensei que ia funcionar..."

Banguela trinou suavemente em baixo dele, como se tivesse algo importante para dizer. Soluço encarou o horizonte, vendo como o mar e o céu azul se encontravam. As nuvens brancas no céu eram as únicas companheiras que eles tinham no meio do puro nada. Só havia oceano até onde a vista alcançava.

"Mas a pergunta agora é... Pra onde a gente vai?" Soluço murmurou. "A gente não pode voltar para o cânion, é, com certeza não, né? Agora que a Biscoito sabe que a gente ficava lá... Ela já deve ter levado o pai e os outros pra lá, esperando que a gente voltasse..." Ele balançou a cabeça, se lembrando daquele momento fatídico dois dias atrás. "Em geral, eu acho que Berk está fora de questão, não é, amigão?"

Por um momento ele imaginou como as coisas estavam acontecendo lá em Berk. Talvez Biscoito já tinha contado tudo para Stoico, explicando sobre Soluço e Banguela; talvez Perna-de-Peixe tenha sido interrogado pelo chefe, o pobre coitado; talvez Stoico estivesse preparando os navios para ir atrás do filho, enquanto Valka tentava acalmá-lo...

Soluço não sabia porquê, mas sentia como se essa última opção fosse a mais difícil de ser realidade – com exceção da parte sobre sua mãe.

O garoto deu uma olhada para trás. A ilha já havia sumido de vista fazia um bom tempo, tanto que ele nem tinha certeza se estava olhando na direção certa.

Era estranho, talvez um pouco assustador. Soluço já tinha viajado pequenas distâncias para longe de Berk em navios e com sua família, mas nunca tinha ficado fora por tanto tempo, nem tinha ido muito além das áreas guardadas pelos Sentinelas de Pedra.

E cá estava ele, voando para sabe-se lá onde nas costas de um Fúria da Noite.

Enquanto uma parte de Soluço sentia medo e um pouco de nervoso ao estar tão longe de casa, outra parte dele estava animada, curiosa, e desejando saber para onde estavam indo, como se tudo não passasse de uma aventura.

Mas não era uma aventura, aquilo tudo era uma coisa séria.

Eles tinham que ficar longe de Berk, se voltassem tão cedo seria perigoso para ambos – mais para Banguela, algo que Soluço nunca deixaria acontecer.

Mas para onde iriam?

"Pra onde você está me levando, Banguela?" Soluço perguntou finalmente. "A gente tá voando na mesma direção há umas... Sei lá, há umas horas já..."

Banguela bufou, como se estivesse respondendo, mas como Soluço não entendia, de nada adiantava.

Mais cedo, por um momento, Soluço tinha esperado poder ouvir Banguela depois do que tinha acontecido na arena. Ele se lembrava de sentir a energia do dragão apertando contra a do Pesadelo Monstruoso, lutando contra essa. Mas Soluço não conseguiu entender exatamente como era, se vibrava diferente das outas, se era tão obscura e misteriosa quanto o próprio dragão, ele apenas conseguiu sentir sua presença.

E logo depois que eles alçaram voo, a energia sumiu, ficando distante novamente e bloqueada por uma parede invisível e impossível de alcançar.

Conversar com o Fúria da Noite seria tão mais fácil em momentos como esse. Mas Soluço não ligava de não ter um viking com quem conversar, ele não se sentia isolado sem outra pessoa ou ser que falasse uma língua que ele compreendia.

Com Banguela, ele nunca se sentia sozinho.

Soluço se focou no dragão, ainda ruminando todas aquelas informações.

Banguela tinha vindo de longe e Soluço sabia que, mesmo depois de ficar preso em Berk por alguns meses, não havia passado tempo o bastante para o dragão esquecer seu o lugar de onde viera.

Com a cabeça um pouco mais limpa, Soluço finalmente percebeu que tinha uma ideia de que lugar eles estavam procurando.

Um leve arrepio subiu pelas costas do garoto e ele não sabia se era de medo ou excitação.

Ele tinha aprendido que dragões não eram as criaturas diabólicas que os vikings acreditavam ser, então estar em uma ilha cheia de dragões não assustava Soluço como costumava o assustar quando era mais novo.

Mas ao mesmo tempo, pensar naquele lugar, de onde vinham os dragões que atacavam Berk, o lugar tão perigoso que centenas de vikings já morreram tentando encontrar, o deixava um tanto temeroso...

"Banguela... Você... Você não tá me levando paro Ninho dos Dragões, tá?"

A reação foi repentina e inesperada. Banguela moveu o pescoço violentamente, soltando um som alto e estranho, que parecia um guincho assustado. Soluço se segurou contra a sela para não acabar deslizando dela com os movimentos do dragão – era um problema não estar usando o colete de couro que podia ser preso à sela para sua segurança.

"Ah, tá, tá! Tá legal! Nada de Ninho de Dragões! Okay, eu entendi!"

Banguela bufou novamente, balançando a cabeça com força, antes de se calar.

Soluço não entendeu porque o dragão tinha reagido daquele jeito, mas se pôs a pensar. Se não estavam indo para o Ninho dos Dragões, para onde então? Talvez um lugar isolado, longe dos outros dragões. Ou talvez outro lugar, outro ninho...

Qualquer lugar era melhor que Berk no momento.

Ele suspirou, se sentindo mal com tudo aquilo. Talvez fugir fosse mesmo a melhor saída para eles.

Quem sabe o que poderia ter acontecido na arena se Banguela não tivesse aparecido? E aliás, quem podia comprovar que os vikings iriam simplesmente aceitar as palavras de Soluço? Mesmo sendo as palavras de alguém que eles admiravam como um grande "guerreiro" contra dragões, vikings não eram do tipo que paravam de fazer as coisas que já fazem há sete gerações com facilidade.

Prisão ou banimento para Soluço. Morte para Banguela.

Talvez, desde o começo, o plano de Soluço devesse ter sido ir embora enquanto as coisas ainda estavam calmas; assim como Banguela queria fazer alguns dias atrás, mas o garoto havia impedido.

Soluço sentiu seu coração apertar em seu peito ao pensar naquilo. Stoico faria aquilo, não faria? O prenderia, ou o baniria sem pensar duas vezes. Afinal, ele podia ser seu pai, mas ele também era o chefe da tribo, e as leis da tribo deviam valer para todos, até mesmo seu filho.

E agora cá estava Soluço, fugindo de seu pai.

Doía pensar nisso.

Soluço amava seu pai, mesmo depois de todos os comentários que já tinha feito sobre ele – de qualquer modo, ele estava certo – mas Soluço sabia que não poderia conviver com ele do modo que era, não depois de entender os dragões como mais do que vilões alados.

Stoico era muito persistente, ou melhor dizendo, teimoso; seria difícil convencê-lo de qualquer coisa que fosse contra o que ele acreditava. Soluço sentia que, de qualquer modo, seu plano na arena não funcionaria se fosse pelo chefe da aldeia.

O garoto iria sentir falta dele, não do chefe Stoico o Imenso, mas de seu querido pai, que cuidou dele e o protegeu desde pequeno.

Também sentiria falta de sua irmã e de sua mãe...

Soluço fez uma careta, notando como estava pensando como se nunca mais fosse ver sua família.

Talvez eles não quisessem mais ver eles depois do que aconteceu...

Por algum motivo Soluço sentia como se, de fato, não veria mais sua mãe, seu pai, sua irmã ou seu melhor amigo por um bom tempo...

Um arrulho de Banguela tirou Soluço de seus pensamentos e ele desviou os olhos para baixo, encontrando dois olhos seriamente preocupados o encarando. E Soluço notou que sua visão estava embaçada.

"Ah, não... Não se preocupa, amigão, eu tô bem..." Ele afastou as lágrimas, não gostava de chorar na frente de outros, dragões ou vikings.

Banguela fez um som suave e, mesmo sem entende-lo, Soluço sabia que o dragão estava tentando confortá-lo. Ele sorriu simplesmente, afagando a cabeça do dragão.

Não, não queria pensar assim, ou pensar naquilo. Ele iria voltar um dia. Quem sabe ao voltar conseguisse convencer os demais vikings...

"É claro, Soluço, continua pensando positivo, porque com certeza vai acontecer, oh, se vai..." Ele murmurou para si mesmo, fazendo uma careta ao notar que era seu próprio sabotador naquele momento.

Soluço suspirou, decidindo que não queria mais pensar naquilo, não queria mais pensar em nada. O que era difícil com uma cabeça agitada como a dele...

Ele desviou os olhos para o dragão em baixo dele e decidiu se focar em estudar Banguela e seus movimentos.

Soluço conseguia sentir o movimento dos músculos em baixo dele, enquanto as longas asas se moviam, eles eram fortes, poderosos. Soluço também conseguia sentir a pulsação de Banguela contra suas pernas, próximas ao pescoço grosso e forte desse; e tinha se focado tanto naquilo, que podia jurar que seu coração estava batendo no mesmo ritmo que o de Banguela.

Dragões eram criaturas incríveis, mas Banguela era o mais incrível na opinião de Soluço. Queria tanto que os demais vikings pudessem ver o que ele via...

"Uuugh..." E lá estava ele, voltando a pensar naquilo. Banguela arrulhou em baixo do garoto e esse suspirou simplesmente, acariciando o dragão.

Ele passou os dedos pelas placas que subiam pela cabeça grande do Fúria da Noite, examinando as barbatanas que serviam para aumentar sua capacidade auditiva – ele não sabia para que as demais barbatanas serviam, talvez servissem para atrair uma companheira, muitos animais tinham coisa desse tipo...

Banguela era um dragão bonito, Soluço não teria duvidas de que ele conseguiria uma companheira sem muito problema... Se bem que o garoto não tinha a mínima ideia do que era "atrativo" para Fúrias da Noite fêmeas; ele pessoalmente achava Banguela um dragão bonito.

Agora de onde tinha vindo esse pensamento...?

Banguela soltou um trinar suave e estranho em baixo do garoto e esse sentiu suas bochechas esquentarem consideravelmente. E, embora não soubesse se Banguela podia ouvir seus pensamentos, ele sentia que aquela era uma possibilidade naquele momento.

"É, é melhor não deixar isso subir sua cabeça, seu réptil inútil...!" A única resposta que ele conseguiu de Banguela foi aquela sua estranha risada que soava humana demais. Soluço não sabia se ria junto ou se sentia mais embaraçado – embora não entendesse porque se sentia assim! "Ora, cala a boca e continua voando, Banguela..."

O dragão se moveu levemente, balançando a cabeça como um cachorro molhado, e bateu as asas. Soluço moveu a barbatana para ajudar e os dois seguiram como se nada tivesse acontecido.

-o-

Soluço bocejou e desviou os olhos para o céu. O azul já estava menos claro que antes e o sol parecia estar a apenas alguns metros de tocar o horizonte.

Ele estava começando a se sentir cansado e com fome, lutando com todas as forças contra o peso de suas pálpebras. Não podia dormir, se dormisse não ia poderia voar com Banguela, e os dois cairiam no mar.

"Banguela..." Ele falou, ouvindo sua voz tão sonolenta quanto se sentia. Uma das barbatanas do dragão moveu, mostrando que escutava. "Vai demorar muito pra chegar... Onde quer que você tá me levando...?"

Banguela respondeu com um sibilo baixo, balançando a cabeça para a frente, fazendo Soluço desviar sua atenção.

Ao longe, uma nevoa branca cobria o horizonte, e era tão densa que mais parecia uma ilha coberta de neve.

Soluço se lembrou do que tinha ouvido sobre o Ninho dos Dragões, sobre como era cercado por uma névoa densa e escura, que praticamente cegava todos os vikings que entravam nela, os levando para sua morte.

Mas Banguela já tinha mostrado que não, eles não estavam indo para o Ninho.

"O que tem pra lá, Banguela?" Soluço perguntou, mesmo sabendo que não ia entender a resposta. Ele deu uma olhada para trás, novamente vendo apenas água e mais água. "Eu me pergunto quão longe estamos de Berk..."

Banguela fez um som estranho, batendo as asas com mais força e Soluço moveu a barbatana levemente para que pudessem se mover mais rápido.

Ele se focou na nevoa, observando como essa começava a ficar maior e maior.

De repente uma energia tocou a mente de Soluço o fazendo se arrepiar de surpresa. Era suave, distante e um pouco difícil de definir, como se houvesse uma barreira entre ele e a energia; mas não uma barreira como a que havia entre Soluço e Banguela, nem uma barreira de fogo falso feito por um dragão; era mais uma barreira material, que existia de verdade e não só em suas mentes.

Banguela soltou um arrulho e um som veio de baixo. Ele sentiu a energia pressionar contra a sua de modo mais forte, como se a barreira tivesse sumido; era úmida e diferente, maior e mais pesada que um Pesadelo Monstruoso, e parecia dizer o mesmo que um simples "boa tarde".

Soluço se inclinou levemente para o lado, sendo capaz de ver algo verde surgindo no meio das ondas, antes que Banguela virasse o corpo um pouco para o lado, fazendo o garoto instintivamente mover a barbatana da cauda.

Soluço não entendeu de onde tinha vindo o movimento repentino, nem qual era seu motivo, mas não mencionou, voltando a olhar pelo lado de Banguela.

O que quer que estivesse lá em baixo tinha sumido, talvez indo para águas mais profundas. Mas o viking já tinha uma ideia do que era.

Era outro dragão. Um dragão aquático, talvez um Escalderível.

"É, pode não ser o Ninho... Mas tem bastante dragão por aqui..." Soluço murmurou para si mesmo, como se quisesse ter certeza do que tinha acontecido.

Fora aquele vislumbre, Soluço nunca tinha visto um Escalderível de verdade. E foi só o que bastou para que se sentisse animado novamente, curioso para saber que tipos de dragões haviam por ali.

A névoa começou a se tornar mais densa e quando Soluço ouviu o som de outro dragão, ele não conseguiu ver de onde vinha, ficando cego no meio da brancura da névoa. Ele manteve seus ouvidos atentos, esperando ver alguma outra forma voando perto deles a qualquer momento.

No meio da névoa a forma de uma coluna de pedra escura surgiu na frente deles. Os dois desviaram sem muito problema e continuaram para além dela, desviando de outras formações rochosas.

Isso queria dizer que estavam chegando perto de terra firme.

Ele suspirou, esperando poder deitar e descansar em algum momento. Seu corpo parecia mais pesado do que antes. Sua barriga roncou, e Soluço decidiu que seria melhor comer algo antes de dormir, se fosse possível.

Havia silêncio no meio da névoa que parecia não ter fim até que...

O som veio de modo lento, crescente, ficando mais alta a cada segundo, e demorou um tempo para Soluço notar que não eram simplesmente sons, mas energias.

Elas dançavam em suas orelhas, transmitindo informações que ele não conseguia transcrever muito bem, mas que de um modo ou de outro, lembravam o falatório aleatório de vikings vivendo sua vida em Berk.

E Soluço se sentiu mais confortável ao fazer aquela ligação...

A névoa começou a dissipar e o garoto teve de cobrir seus olhos da luz do sol quando finalmente saíram da escuridão.

Haviam chegado à uma ilha, era grande, coberta de árvores de vários tamanhos; ela se erguia em uma montanha solitária, enquanto o resto do solo se levantava cá e lá em montes menores, abaixando aos poucos para criar terras mais planas e uma praia de areia quase tão branca quanto a neve, cercada por paredões de pedras e ilhas menores.

E mesmo de longe, Soluço podia ver como não ficariam sozinhos naquela ilha. Dragões voavam acima das árvores e por entre os montes de pedra, sumindo e aparecendo dentro da névoa que cercava o lugar.

Banguela soltou um arrulho suave, virando o corpo em direção da montanha, e Soluço moveu a barbatana mais uma vez. Os dois voaram calmamente e sobre a ilha e o pequeno viking se pôs a admirar os dragões que voavam com eles.

Ele já tinha visto algumas daquelas espécies, mas outras ele só tinha visto em desenhos no Livro dos Dragões. Ele conseguia reconhecer alguns, como o Tambortrovão, o Machadrago (bem maior do que ele esperava), o Transformasa...

Os dragões pareceram notar que havia um Fúria da Noite voando entre eles e Soluço observou suas reações, erguendo a cabeça e rugindo, arrulhando e guinchando em sua direção. Era difícil distinguir as presenças, já que eram muitas, mas Soluço conseguia sentir a energia desses tocando sua mente, embora estivessem focadas apenas em Banguela.

Eles repetiam a mesma mensagem do Escalderrível, dando "boas-vindas" ao Fúria da Noite.

Por um momento Soluço se perguntou se havia outras Fúrias da Noite por ali, talvez a família de Banguela, e seu corpo, antes cansado, se encheu de curiosidade e energia.

Eles voaram sobre as árvores, aos poucos descendo em direção ao chão e Soluço ouviu o guincho de Terrores Terríveis. Ele virou para trás, vendo um pequeno grupo de dragõezinhos seguindo logo atrás da cauda de Banguela; pareciam curiosos com a barbatana falsa que esse tinha.

E Soluço riu levemente com a curiosidade desses, momentaneamente se lembrando de quando ele e Banguela tinham sido interrompidos num momento de descanso por um grupo igual àquele.

Os Terrores Terríveis deviam ter ouvido a risada do viking e guincharam alto em resposta, arregalando os olhos amarelos e parando no meio do ar. Soluço não gostou daquela reação, nem do que tinha sentido vindo da energia dos dragões pequeninos. Como se tivesse notando o que estava acontecendo, Banguela rugiu alto, o que fez com que o grupo debandasse.

Mas o estrago já tinha sido feito.

Uma a uma as energias ao redor começaram a mudar, perdendo o tom calmo e ficando agitadas, como galinhas num galinheiro invadido por um predador.

E, com Soluço conseguia entender muito bem, era tudo por causa dele.

Soluço se apertou contra o corpo de Banguela, como se pudesse desaparecer fazendo isso. Mas os dragões já estavam alertas à sua presença, virando os olhos pra o Fúria da Noite e soltando sons surpresos, com a energia vibrando violentamente, chamando a atenção de ainda mais dragões.

"Ah... Banguela... Você tem certeza que esse lugar é seguro, sabe, pra mim?" Ele sussurrou para o dragão.

Banguela não respondeu, mas rosnou alto para o Nadder que voou perto deles, fazendo com que se afastasse.

"Há um humano em suas costas!" O Nadder rugiu para o Fúria da Noite e aquilo pareceu ser o estopim do fogaréu.

"Humano?!"

"Viking!"

"Matador!"

"Junto com o Sombra da Noite!"

Soluço piscou um ou duas vezes ao ouvir um guincho alto vindo de Banguela.

"Banguela!" O Fúria da Noite perdeu controle sobre seu voo quando a mente do garoto foi tomada pela energia furiosa dos demais dragões, e a barbatana havia sido esquecida.

Os dois caíram e foi tão rápido que Soluço nem teve tempo de processar. Ele tentou colocar o pé no pedal e mover a barbatana no último segundo, mas sem sucesso. E os dois atingiram o chão da caverna.

Sem cabos para segurá-lo à Banguela, Soluço foi lançado das costas do dragão, rolando no chão como um pedregulho e batendo a cabeça contra uma pedra proeminente.

Ele sibilou com a leve dor, se sentindo tonto, mas não teve tempo de se recuperar.

Os dragões o rodeavam na caverna de pedra, rosnando, guinchando e rugindo para o pequeno humano. Soluço ficou imóvel, como se tivesse sido transformado em estatua frente à todos aqueles olhos reptilianos.

"Humano!"

"Vamos matar!"

"Como chegou aqui?!"

"Inimigo!"

As informações se uniam todas à um zumbido alto em seus ouvidos, o que piorava sua tontura. Ele queria mostrar para os dragões ou explicar que não estava ali para machucá-los, que não era um perigo para ninguém, mas não conseguiu encontrar as palavras, já que sua cabeça já estava cheia demais.

Soluço tentou formar a mesma barreira que tinha criado durante o ataque dos dragões, e estava tendo sucesso quando...

Um rugido alto e violento fez seu corpo inteiro tremer e ele sentiu o controle sobre sua mente sumir. A barreira se desfez em pedaços o transformando novamente no alvo de todas aquelas presenças diferentes.

Tinha tantos dragões e tantas energias diferentes, algumas eram tão fortes que só um leve toque delas podia fazer o garoto perder seu equilíbrio; outras eram suaves, curiosas, tocando sua mente como penas; algumas era temerosas e volúveis, outras irritadas e violentas. Ele conseguia ouvir o ranger de dentes no meio das "palavras" que se embaralhavam em uma apenas e o som de gás flutuando, além de faíscas sendo acesas.

Era tanto, era muito, ele não sabia de onde tudo aquilo vinha. Os dragões o queimavam, o pinicavam, o perfuravam, o mordiam, sem sequer chegar perto. E Soluço se sentiu perdido no meio de todos aqueles sentimentos, incapaz de saber o que era real e o que não era, o que ouvia de verdade e o que vinha de sua cabeça.

O mundo girou em cores e formas e ele se sentiu enjoado.

Conseguiu ouvir um rugido conhecido, mas Soluço não se viu encarando dois olhos verde-amarelados, mas sim outros, alaranjados, sérios e, de algum modo, violentamente quentes.

E então tudo ficou escuro.