Sentindo-se levemente nauseada, Hermione desceu do Expresso de Hogwarts e se despediu de Harry e Ron que se dirigiram, junto com Gina para onde a Sra. Weasley os esperava na estação. Era a primeira vez que ela desembarcava em King's Cross e não ia de encontro aos seus pais.

Ela tinha toda uma história pronta em sua cabeça, se alguém questionasse o porque de seus pais não a estarem esperando como sempre, mas nenhum deles falou nada. Passava das 4 da tarde quando ela empurrou seu malão, com a gaiola de Bichento em cima, para fora da estação em direção ao ponto de encontro mencionado por Snape. Em menos de dez minutos de caminhada ela encontrou a Antiga Igreja de São Pancrácio, e mesmo para os padrões britânicos, a edificação parecia velha.

Uma placa na porta indicava que a usual missa de terça feira tinha sido cancelada e seria substituída por uma missa de Natal às 10 da manhã do dia seguinte; no entanto a porta de entrada estava aberta. Ela se sentiu meio mal em simplesmente arrastar o malão enorme para dentro do templo. Ela não era do tipo religioso, mas isso não significava que ela demonstraria desrespeito fazendo barulho em um lugar tão silencioso.

Hermione lançou um feitiço de silenciamento rapidamente no malão e enfiou a varinha de volta no bolso. Adentrando o templo ela não conseguiu deixar de pensar em como a sua própria existência como mulher bruxa era um insulto às religiões cristãs. A nave era pequena e estreita e apenas uma pessoa estava sentada nas cadeiras que preenchiam o espaço. Ela sorriu. Nunca antes ela tinha parado para pensar em como Snape, sempre vestido todo de preto, se parecia com um padre.

"Gostaria de compartilhar suas orações?" – ela se sentou ao lado dele.

"Eu não sou do tipo que reza." – ele virou-se na direção dela revelando o rosto por trás da cortina de cabelos negros.

"Uma locação bem peculiar." – ela observou olhando ao seu redor.

"Não imagino que te encontrar na estação de King's Cross seria a escolha mais sábia. Além do mais, quem imaginaria que dois bruxos estariam se encontrando dentro de uma igreja? Não é só peculiar como impossível." – ele esclareceu.

Uma das primeiras coisas que seu pai a tinha ensinado era o preço de uma mentira. "Quem mente carrega consigo o fardo da memória: eternamente ela vai ter que se lembrar da mentira para não deslizar e acabar contando a verdade. Nenhuma pessoa deveria carregar um fardo tão pesado." Na ocasião ela tinha cinco anos de idade e tinha mentido para a professora que esqueceu o caderno com o dever de casa no carro dos pais. A professora ligou para o pai dela lhe dando um puxão de orelha por não ter verificado que a mochila da filha estava incompleta ao deixá-la na escola e ela foi pega no pulo.

Hermione parou por um momento para pensar no esforço hercúleo que se escondia por trás de cada movimento de Snape. Ela pensou em como ela teve que preparar uma história para contar a Harry e Ron se eles lhe perguntassem sobre seus pais ou sobre as férias em si e em como essa história nem precisou ser usada no final das contas. Quantas histórias esse homem teve que criar durante os últimos vinte anos? Quantas delas foram usadas e como ele se lembrava de todas as mentiras que tinha que sustentar?

"Se bem que, pensando melhor, a igreja parece um bom prenúncio do que eu planejei para essa semana." – ele disse a tirando de seus pensamentos.

"É mesmo? Eu finalmente posso perguntar pra onde vamos aparatar?" – ela perguntou se levantando logo após ele o fazer.

"Não vamos aparatar, vamos dirigir. Eu declaro aberta a semana de apreciação do modo trouxa de viver." – ele disse abrindo os braços como se falasse para uma grande audiência.

O carro estava estacionado na rua, saindo pela ala leste da igreja. Hermione não queria ser chata, mas parecia extremamente perigoso que alguém os visse passeando de carro pelos arredores da estação de King's Cross poucos tempo depois do Expresso de Hogwarts ter parado ali.

"Você tem certeza que isso é seguro?" – ela perguntou se encostando no capô do veículo.

"Bruxos são tão dependentes de magia que eles não entendem como podem ser enganados pelo mais simples dos truques trouxas." – ele rodeou o veículo, abrindo o porta-malas e colocando o malão dela dentro.

"Bichento vai no meu colo." – ela afirmou segurando a gaiola com força.

"Coloque ele no banco de trás e prenda a gaiola com o cinto. É mais seguro assim." – ele disse entrando no veículo.

"Preocupado com a segurança do Bichento?" – Hermione provocou.

"Mais preocupado em ter que limpar a bagunça dele." – Snape zombou.

Eles dirigiram pela autoestrada e conforme os quilômetros iam passando, Hermione sentia os músculos de seu corpo relaxando. Dos dois, Snape era o que tinha mais a perder se alguém os pegasse juntos e ele parecia tranquilo suficiente para permiti-la sentir o mesmo. As horas se estenderam junto com a conversa e ela descobriu que ele tinha alugado um chalé no parque de North York Moors.

"Se algum dia você precisar se esconder de qualquer bruxo, a melhor maneira de fazê-lo é usando métodos trouxas. Dinheiro? Use sempre libras. Transporte? Dirija um carro. Acomodação? Alugue um lugar qualquer, pagando com libras e usando um carro para chegar lá." – Snape lhe disse com simplicidade.

Hermione mal pode ver o chalé por fora quando chegaram, uma vez que já estava escuro, mas o interior da acomodação era aconchegante. Décadas ou até séculos atrás deveria ter sido um estábulo ou um celeiro, julgando pelas paredes de pedra. No entanto uma lareira, a qual Snape estava agachado acendendo manualmente, demonstrava que todas as reformas foram feitas de forma a garantir que os hóspedes tivessem a maior quantidade de conforto possível. O imóvel era um plano aberto, dividido quase que exatamente em quatro apenas pelos móveis: uma sala de estar com espaço de leitura em frente à lareira de um lado, do outro uma cozinha, ao lado desta uma mesa para refeições e no extremo oposto do canto da lareira um quarto com cama e guarda-roupas. Uma porta indicava a existência de um banheiro poucos metros ao lado do guarda-roupas.

"O que você achou?" – ele parecia receoso.

"Encantador." – ela o assegurou de sua aprovação. "A decoração dá mesmo uma ideia de querer esquecer que existe um mundo lá fora."

"Por isso a TV e o videocassete." – Snape riu se levantando.

Hermione tinha visto a TV mas não tinha reparado no aparelho de video cassete. Uma olhada por cima na caixa onde algumas fitas foram colocadas e ela pôde ler alguns títulos: Batman: O retorno, Abracadabra, Jurassic Park, As Tartarugas Ninjas 3. Isso vai ser divertido.

"Eu fiz compras para a semana. Se quiser se familiarizar com o que tem na geladeira e na cozinha, eu vou tomar um banho." – Snape disse passando através da porta ao lado do guarda-roupas.

Ela abriu portas e gavetas por alguns minutos, procurando algo para alimentar Bichento que miava incessantemente rodeando as pernas dela. Em meio a biscoitos, pães e outros tipos de lanche ela encontrou uma pilha de latas de ração para gato. Bichento não era um animal exigente, na maioria das vezes qualquer sobra do prato dela o agradava suficiente. Mas o fato de que Snape tinha parado diante de uma prateleira de supermercado e escolhido comprar algo especificamente para o seu gato...

Mais do que depressa Hermione despejou o conteúdo de uma lata em uma tigela, a qual Bichento atacou imediatamente. E se dirigiu para o banheiro se despindo no caminho, sem se preocupar em pegar as roupas do chão.


Luna – suco de abóbora

Gina – vestido azul

Harry, Ron e Hermione –

Dumbledore – DipNLik

Sr. e Sra. Weasley -

Tia Narcisa –

A tarde do dia 24 de dezembro não estava sendo exatamente divertida para Valerie. Ela tentou se distrair escrevendo uma lista de presentes de Natal para os amigos e família mas a ansiedade ja estava batendo na porta: como deixou tudo para a última hora era bem improvável que ela conseguisse presentes decentes para alguém.

A ideia para o presente de Luna veio quando a garota se despediu dela antes de ir para a estação pegar o trem para casa. Ela lhe disse que sentiria falta da bebida tradicional da escola durante as férias e embora Valerie planejasse lhe mandar o presente no dia seguinte... o gesto deveria contar alguma coisa. Dobby ficou mais do que contente em lhe arranjar algumas garrafas.

Gina em mais de uma ocasião tinha mencionado o quão lindo era esse vestido azul que Valerie tinha em seu malão mas que nunca havia usado. Ela mesma não era muito fã da peça e não lhe faria falta no guarda-roupas, ainda mais se significasse que faria sua amiga feliz. Seu pai havia lhe mencionado uma vez a afeição exagerada que Dumbledore tinha por doces trouxas então quando ela encontrou alguns pacotes de DipNLik no fundo de sua mochila, pareceu-lhe o presente perfeito.

Em relação à Harry, Ron e Hermione ela já não tinha tanta certeza. Eles estiveram sim próximos dela durante o verão, mas desde que chegaram em Hogwarts eles mal se viam, com exceção de Harry. Valerie suspeitava que isso se devia mais ao fato de ele agora estar namorando Gina e mais do que obcecado com o comportamento de Draco do que a qualquer outra coisa. Talvez ela não devesse se preocupar com um presente, um cartão escrito à mão já seria mais do que suficiente. O mesmo valia para o Sr. e a Sra. Weasley; desde que tinha saído d'A Toca eles não tinham se comunicado.

Narcisa, no entanto, claramente pensou muito nesse vestido que enviou para que Valerie usasse na festa de Natal do Clube do Slugue. E se sua mãe tinha lhe ensinado alguma coisa era que a etiqueta mandava que ela ao menos lhe enviasse uma nota de agradecimento junto com o cartão de Natal. Então foi com esse pensamento que ela se dirigiu para o pátio quase escondido onde Draco passava a maior parte de seu tempo livre, sozinho.

"O que você acha que eu devo mandar para a Tia Narcisa de Natal?"

"Eu acho que é meio tarde pra isso. Nenhuma loja vai entregar a tempo." – Draco deu de ombros. "Eu encomendei uma caixa de chocolates finos há alguns dias. Se você me pedir com carinho eu te deixo assinar o cartão que vai junto."

"Com que idade as pessoas começam a presentear os próprios pais no Natal?"

"E porque você iria querer saber?" – ele desdenhou.

"Foi uma pergunta retórica." – ela respondeu com raiva. "Vai deixar eu assinar o cartão ou o quê?"

"Depende. Qual é o meu presente de Natal?" – ele cruzou os braços se aproximando dela.

"A minha paciência pra lidar com o seu ego enorme deve ser o suficiente." – ela cruzou os braços também.

"Você sabe que nós devemos nos casar, certo?" – ele perguntou receoso.

"Um dos motivos que me faz quere pular da torre mais alta desse castelo de merda." – ela desviou o olhar. "Eu não sei que tipo de sociedade exatamente é essa em que casamento entre primos não só é normal como encorajado, mas..."

"Não me entenda mal," - ele levantou as mãos – "eu também não faço a mínima questão. Mas ultimamente eu tenho questionado o que são minhas escolhas de fato e o que são as coisas que eu só faço porque eu tenho algum dever para com o nome da família."

"Por falar nisso... Algum progresso? Você me prometeu que até o final do ano..."

"Eu te prometi que ia tentar." – Draco rosnou.

"Se você falar pra eles que temos intenção de prosseguir com o casamento, mas que eu quero discutir isso pessoalmente, talvez eles concordem com um encontro." – Valerie parecia enojada só de falar sobre.

"Não sei... Meus pais parecem ter medo de Snape. Acho que depois do que aconteceu no lago ele deve ter falado alguma coisa para eles."

"Snape não está na escola! Ele me disse que não tem planos de retornar nossas aulas particulares até o começo do próximo trimestre então agora é a oportunidade perfeita. Ele não vai ficar sabendo se a gente sair do castelo e se encontrar com seus pais por algumas horas."


Notas da autora:

DipNLik era um doce bem famoso nos anos 80 e 90, se você cresceu nessa época, joga o nome do Google que com certeza você vai lembrar disso. Saudades, infância!

Como sempre, deixem seus comentários! Eu adoro saber o que vocês estão pensando e se estão gostando da história ou não. Beijos!