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*Pov. Kagome*
Minhas pernas doíam.
Eu corria o mais rápido que podia pela mata e a cada investida de Sesshoumaru em sua verdadeira forma, eu fazia um esforço enorme para desviar e contra-atacar com meu poder espiritual. Mas parecia só fazer cócegas no enorme cão, e ele continuava me perseguindo.
Seus latidos e rosnados ecoaram pela floresta e Hanna latia em resposta em minha mente, me pedindo para parar de correr e o enfrentar de frente.
Nada nesse mundo me fará parar de correr agora, Hanna!
~Você não se concentra desse jeito! Está ficando cansada e eu te garanto que ele não terá dó de você até que realmente o enfrente, menina! ~
Eu sabia que Hanna tinha um ponto. Mas eu simplesmente não conseguia forçar minhas pernas a pararem de correr.
E de alguma forma eu estava ficando cada vez mais rápida!
Olhei para trás após saltar um arbusto alto, e olhei para a altura que havia saltado.
Como consegui fazer isso?
Uma pancada do lado direito de meu corpo me fez voar longe, me fazendo atingir uma árvore em cheio e cair ao chão. Gemi quando consegui me mexer, aquilo havia doído pra valer.
– ESTÁ TENTANDO ME MATAR, SEU IDIOTA?! – gritei sem pensar, na direção em que estava a grande fera, que me olhava, se aproximando a passos lentos.
~Não acho que ele iria tão longe, mas garanto que ele está bem sério! Você precisa libertar! ~
Na mesma hora eu pensei: "diabos, mas libertar o que? Infernos!"
A pata de Sesshoumaru destruiu o tronco da árvore em que eu estivera apoiada, no mesmo instante que eu fugi de seus ataques.
Uma raiva subiu pelo meu âmago. Queria devolver todos aqueles golpes na mesma proporção!
Ele saltou à minha frente e eu sustentei o olhar feroz dele, tínhamos voltado a clareira de antes, sem que notasse que havia dado voltas e voltas até chegar ali.
Parecia que Sesshoumaru aguardava por algo. Ele me observava atentamente, ao que eu respondia em posição de defesa, tentando respirar de forma apropriada após tanta corrida desenfreada.
Seus olhos se estreitaram e o ouvi rosnar. Suas patas se moveram velozmente, e eu olhei para cima a tempo de o ver me lançar miasma. Pasma, saltei para trás, quase sem tempo de desviar do veneno.
Merda!
~ Eu disse que ele estava sério! Você só ouve a mim?! ~
Saltei mais duas vezes, desviando de outras bolas de veneno. Sesshoumaru estava realmente obstinado a me irritar!
Droga, Hanna! Mas é claro que só ouço você! Quem mais eu ouviria uma hora dessas?!
Neste momento, assim que meus pés tocaram o solo, um som grave ecoou.
Um rugido, intenso e longo, que fez eu perder o equilíbrio por instantes, dando à Sesshoumaru a oportunidade para me acertar em cheio com uma patada.
Pensei que perderia a consciência, pois fora um golpe forte. Fui lançada para longe, rolando pela grama, até parar aos pés de uma árvore. Me recostei com dificuldade nesta.
Por Kami! Seria realmente a violência a resposta para este treinamento absurdo?!
- Sim... -
Abri os olhos assustada, encontrando o nada ao meu redor. De quem era aquela voz?
– Hanna?
– Estou aqui, menina.
A minha frente, estava alguém muito parecida comigo. Mas suas orelhas eram pontudas, seu cabelo, negro como o meu, era mais comprido, e tinha suas pontas azuladas.
Me lembrava o cabelo de Hayato, que também terminava nessa cor.
Seus olhos eram de um azul mais intenso, brilhante, e o corpo coberto pelos arabescos rosados que também surgiam em mim quando eu despertava o lado youkai.
Seu kimono era predominantemente vermelho, com detalhes em preto. Tinha desenhos de flores em tom de rosa suave, seu obi era roxo. Havia uma espécie de pele em seus ombros, igualmente preta. Me lembrava um pouco Mokomoko, mas só cobria os ombros.
Reparei em suas katanas, três delas. Duas de um lado e uma do outro lado de sua cintura. E só então percebi que não era um kimono comum, não era justo demais ao corpo, o que lhe dava certa mobilidade, pensei.
Nossos olhos se encontraram e ela me sorriu de forma amável. Só conseguia pensar em quanto aquela youkai era linda, até sua voz me alcançar.
– Finalmente estamos nos vendo de forma adequada, menina.
– Hanna! Mas...como?
– Queríamos te ver. O golpe que levou do cachorro azedo ajudou também. Aliás, não recomendo que demore muito aqui, ele não é muito paciente.
– O qu...? Espera. "Queriam me ver"?
E novamente o rugido, alto e profundo, o som retumbou em meu coração.
– Ela está um pouco impaciente também. – disse, se virando parcialmente para olhar algo a suas costas e eu segui seu olhar, mas enxergando apenas o breu se estendendo ao longe.
Uma ansiedade crescia em mim. Eu queria ir lá. Eu precisava ir lá!
– Hanna, quem está lá?
Minha outra metade riu anasalado, virando-se de volta para mim. Havia ansiedade em seus olhos também e uma certa euforia.
– Ara. Você a sente, afinal. Pensei que houvesse se esquecido por completo.
– Esquecido...?
– Você me lacrou em sua infância, mas ela... – fez uma pausa, bufando brevemente, irritada.
– ...ela foi lacrada assim que você foi entregue à feiticeira, quando ainda era um bebê. Banida de qualquer contato. Eu mesma só pude encontra-la depois que meu lacre fora desfeito. E pensar que estava tão próxima... – sua voz ganhara melancolia, conforme seus olhos escureceram.
Outro rugido, agora mais sofrido, ansioso, e eu me via levantando de qualquer jeito, apressada, andando na direção daquele som. Praticamente passei direto por Hanna, que apenas me acompanhou com o olhar e os braços cruzados.
Alguns passos além de Hanna e eu enxerguei as barras de ferro, que pareciam se perder de vista no topo, completamente envolvidas por enormes correntes.
A enorme gaiola estava também bem lacrada por vários selos sagrados, que pareciam velhos, gastos pelo tempo. Mas ainda podia sentir a energia pura neles, e podia dizer com toda certeza que nem mesmo Kikyou teria sido capaz de tamanho feito!
Era poderosa e cálida demais.
Forcei minha vista para tentar ver dentro. As imponentes barras me intimidavam, pois, davam a entender que guardavam algo realmente grande no interior da gaiola. Mas estava extremamente escuro e eu não ouvia mais o rugido.
O som de correntes se movimentando me fizeram vacilar no lugar e minhas costas encontraram o apoio de Hanna, que havia se aproximado. Olhei para ela, esperando alguma explicação, mas ela apenas me devolveu o olhar com um sorriso triste.
Hanna me empurrou levemente na direção das grades e mesmo um pouco hesitante, eu tentei tocar uma das grandes barras de aço. Mas fui repelida de imediato pela energia dos selos.
O choque pareceu ter assustado a criatura, pois outro rangido de metal se arrastando se fez.
Fiquei o mais próxima possível, tentava sentir melhor a presença dali de dentro, mas esta parecia se esconder e eu só enxergava o breu além das barras.
– Hanna... – minha voz saíra trêmula quando olhei para a outra, estava nervosa com tudo aquilo. O que estaria preso ali dentro? E por que?
– Outra parte sua, minha menina.
Respondeu simples. Mas era o bastante, eu havia entendido.
Era a isso que ela se referia que eu deveria libertar.
Quanto estrago poderiam ter feito e com qual objetivo? Realmente era necessário me conter tanto assim? Qual era o medo da miko e da feiticeira?
Olhei para as grandes correntes que envolviam a gaiola, consternada. Quanto mais eu pensava no que foram capazes de fazer para fracionar minha alma, para me afastar de meu tempo, afastar de minha primeira família, mais enfurecida eu ficava.
Senti a mão de Hanna em meu ombro, me apoiando. Sem pensar em mais nada, eu me agarrei a aquela prisão de ferro com as duas mãos e a dor se espalhou por meu corpo enquanto faíscas azuis saiam das barras.
Estavam me repelindo, me queimando.
Trinquei os dentes, sem soltar nenhum grito de dor. Hanna rosnava, também sendo afetada pelo lacre dos selos.
Não podia demorar com aquilo ou nós duas terminaríamos muito feridas. Me concentrei, focando toda minha energia espiritual para desfazer todos os selos.
Um por um.
De olhos fechados, contei cada um que se quebrava. Sentia minhas palmas queimadas e o youki de Hanna no limite, ela se controlava para não se chocar com a minha energia.
– Cinquenta e quatro... – um resmungo por parte de Hanna me recobrou da contagem dos selos.
Olhei para cima, lágrimas já rolando por minha face. Quantos ainda haviam? Dez.
Aqueles que eram quebrados, se desintegravam no ar, enfraquecendo a barreira.
Cinquenta e nove.
Busquei na escuridão da jaula pela presença que eu queria libertar e me deparei com grandes olhos azuis me fitando, bem próximos.
Ferozes e, ainda assim, tão assustados e duvidosos.
Sessenta e dois.
Hanna pôs sua outra mão sobre a minha, que estava em uma das barras, e o contato direto de nossas peles fez nossas energias se chocarem com força. Foi doloroso inicialmente, mas assim como havia acontecido antes, elas se mesclaram, se uniram.
Se tornaram mais fortes.
Não limitamos mais o quanto de energia pura e energia sinistra era liberada.
Sessenta e quatro!
– Eu te liberto! – minha voz saíra num rosnado, enquanto eu forçava os portões daquela prisão para se abrirem. As correntes cederam, indo ao chão, se tornando enferrujadas e sumindo ao pó, tão logo que encontraram o breu do solo.
Uma onda de miasma escapou assim que os portões foram abertos e eu fui compelida a me proteger com uma barreira, forçando passagem para dentro da prisão.
Hanna permaneceu do lado de fora, aguardando.
Havia se escondido novamente. Mas eu ainda podia ouvir o som das correntes se movimentando, se afastando a cada passo que eu dava em sua direção.
– Por favor...eu não vou te machucar. Apareça para mim! – pedi, desfazendo a barreira, visto que o miasma havia se dissipado.
Esperei em silêncio, algum movimento, algum som, que me indicasse para onde ir. Tateei o escuro, em busca de algo em que me apoiar, mas só havia o vazio. Vazio, mas agora havia um som. De sua respiração, contendo um rosnado baixo. Como um aviso para não me aproximar mais.
Sorri, pois agora não se afastava de mim.
– Meu nome é Kagome...
– Eu sei quem tu és. – Me interrompeu, feroz. Mas algo me dizia haver mágoa naquelas palavras.
– Poderia me dizer seu nome?
Dei um passo em sua direção, queria encurtar a distância.
– Não possuo um nome. Monstros não precisam de nomes.
Tive uma fisgada em meu peito com a palavra "monstro". Não sentia maldade naquela criatura e certamente um monstro já teria tentado me matar ou devorar.
Quem havia lhe dito que era um monstro que precisava ser contido? Que não precisava de um nome?
– Ninguém.
Arregalei os olhos com sua resposta.
– Consegue ouvir meus pensamentos?
– Estamos dentro de você, sei tudo o que pensa. – A voz viera mais firme, e eu sabia que ela vinha de cima, provando que realmente era grande. E que estava bem a minha frente.
Mais dois passos.
– Também faz parte de mim. Não é?
Não tive resposta, e ao invés de esperar por uma, me aproximei mais um passo. O bastante para já conseguir sentir que se eu esticasse minha mão, seria capaz de tocar.
– Poderia aparecer para mim? – perguntei para cima, pois sabia que era dali que veria seus olhos se eles se abrissem em minha direção. Me senti ansiosa por ver aqueles grandes orbes azuis selvagens de novo.
A corrente se movimentou, quebrando o silêncio, e sua respiração atingiu minha testa, movimentando meu cabelo levemente. O sopro quente acariciando minha pele.
Forcei minha vista, em vão, ainda não conseguia ver o que estava bem ao meu alcance.
Mas de súbito, um brilho azulado começou a surgir naquele escuro. Uma pelagem tão escura quanto aquela que nos envolvia, mas que em suas pontas se revelavam em um azul luminoso, que hora se tornava lilás, hora se tornava roxo e intensificava em um azul profundo. Sua pelagem brilhava!
Fui captando cada parte daquele ser majestoso. Um grande cão, tão magnífico e belo quanto Sesshoumaru, sua cauda se movimentava de um lado ao outro, robusta. Os olhos, grandes orbes azuis e tristes. Seu semblante me dizia que não apreciava ser incomodado.
Havia pelagens mais rebeldes em suas costas e em suas orelhas, dando quase uma aparência mais de raposa do que de um cão. Estava parcialmente de costas para mim, me olhando de forma desconfiada...e foi então que percebi as enormes correntes, presas em uma coleira de ferro em seu pescoço.
Haviam escrituras no ferro, provavelmente algum outro selamento.
Era como se eu olhasse o céu noturno, com a galáxia a se mover, no corpo de um enorme inu-youkai, e simplesmente não aceitava a ideia de que alguém a selaria de forma tão cruel...por temer sua força.
Era absolutamente linda. E totalmente acuada.
– Akemi.
Seus orbes me encararam e eu lhe sorri, me aproximando, alcançando suas correntes com as mãos. Seu corpo retraiu por um instante, me fazendo parar para lhe olhar diretamente, para que soubesse que poderia confiar em mim.
Segurei as correntes que lhe prendiam, fechando meus olhos e me deixando sentir novamente as faíscas a queimarem minhas mãos, enquanto eu focava em rezar para que aquele lacre se quebrasse.
Logo as correntes, assim como a coleira, se partiam e se desintegravam ao pó. Sumindo no ar.
Abri os olhos novamente, para encontrar os do grande cão a me fitar com curiosidade, seu focinho agora mais próximo de mim. Alcancei sua pelagem numa carícia, passando por entre seus olhos, até ir ao topo de sua cabeça.
Seu nome. Agora seu nome é Akemi.
Ela fechou seus olhos ao ouvir seu novo nome, se deixando ser acariciada.
O cansaço começou a me tomar e percebi que meus olhos se fechavam pesados quando meu corpo pendeu para frente, sendo amparado por Akemi.
– Estamos juntas agora, menina.
Ouvi a voz de Hanna próxima de mim antes de me entregar a exaustão. Akemi era tão quente, acolhedora, que não pude mais resistir ao mundo dos sonhos.
...
Despertei com um sibilo suave próximo, abri os olhos lentamente e senti o calor que provinha de algo encostado em mim, era algo felpudo e branco.
Levantei os olhos para encontrar Sesshoumaru, em sua forma verdadeira. Um grande cão youkai.
Refreei o instinto de pular para longe ao constatar que ele não parecia tão grande quanto antes, e estranhei ainda mais o fato de que seu cheiro era por demais agradável.
E como eu consigo sentir tantos aromas diferentes a nossa volta?
Olhando ao redor, parecia que cada aroma possuía uma coloração diferente, emanava das flores, da grama, árvores, da terra, e até dos animais que eu enxergava ao longe, a cor de seus aromas era nítida a quilômetros.
Mas o que é isso?
Tentei me levantar, mas algo estava errado. Olhei para baixo, encontrando grandes patas negras.
Minhas patas.
Eu tinha patas!
HANNA!
~ Oy oy, tenhamos calma. Essa é sua verdadeira forma youkai, menina. ~
Forma O QUE? Hanna, me diz o que tá acontecendo aqui!
No desespero, sem saber usar bem as quatro patas, tentando ficar em duas, caí para trás, bem em cima de Sesshoumaru, que acordou possesso, rosnando e latindo.
~ Oh, boy... ~
Em resposta, lati e rosnei para ele também, saindo rapidamente de cima e me colocando em posição de alerta, mas acabei por abaixar a cabeça, mesmo mostrando os dentes para ele.
Que diabos, Hanna! Porque estou abaixando a cabeça?! Eu não quero abaixar a cabeça para Sesshoumaru!
~ Ele é um Alfa, mais forte que você, lógico que irá abaixar a cabeça para ele. É seu instinto, não lute contra. ~
Me forcei a acalmar meus nervos e parei de rosnar tão fortemente para o youkai branco a minha frente.
Ainda permanecia em uma posição de defesa e de obediência ridícula, e aquilo me consumia em raiva.
Mas respirei aliviada em ver que minha atitude havia funcionado, e ele parava de agir de forma agressiva.
Sesshoumaru apenas me olhava com curiosidade, em toda sua imponência, me olhando de cima.
Eu e Akemi nos unimos?
~ Sim, quando você apagou dentro de sua mente. Foi bem surpreendente. Sesshoumaru observou seu corpo mudar e cuidou de você durante seu sono, zelou seu descanso durante toda a noite. ~
Sesshoumaru se aproximou e eu sentei de forma passiva, como se aguardasse por algum comando. Por dentro eu rosnava para aquela situação.
Quieta, observei ele dar a volta por mim, em uma análise silenciosa, até parar a minha frente novamente, se sentando também. O peito estufado, o ar de alfa o rondando.
Eu só queria pular nele e dizer quem realmente mandava ali.
- Finalmente conseguiu tomar sua verdadeira forma.
A mandíbula dele não havia se movido nem um centímetro, e eu fiquei perplexa olhando para o youkai, me perguntando de onde sua voz vinha, já que de sua boca era que não tinha sido.
Abri a minha própria, tentando responder, mas o que saiu foram apenas uns uivos curtos e baixos, e alguns sons típicos de cachorro, fazendo com que o youkai me olhasse de forma engraçada e rosnasse.
- Se concentre! Apenas mentalize o que quer me dizer e fale! Chega desses sons ridículos!
Uma veia formigou em minha testa, saltada, e eu trinquei as presas com a vontade que eu tinha de realmente pular em cima dele e mostrar quem realmente, mandava.
~ Segura essa vontade aí, não cai matando não! ~
Bufei com o comentário de Hanna, procurando me focar no que o outro havia ordenado, e descobrindo que era mais fácil falar do que fazer. Ainda cometi o erro de fazer os sons de silvos de novo, quando ele me alertou novamente com seu rosnado.
- Se fosse tão fácil assim, eu já teria te mandado para o quinto dos infernos, Sesshoumaru!
Fora um pensamento tão espontâneo, que nem percebi que havia saído com a minha voz, irritantemente bem audível, me rendendo outro rosnado por parte do lorde.
- Vejo que sua insolência permanece inabalável, miko. Mas pelo menos alcançou o objetivo. Venha, tenho muito o que te ensinar.
Dito isso, se pôs a caminhar para a direção contrária, me dando as costas, e por pouco sua cauda quase abanando meu focinho no processo, o que me deixou ainda mais ensandecida com o comportamento dele.
Que bicho o mordeu?
~ Ele ainda deve estar com raiva daquela sua mentirinha... ~
Suspirei com a informação. De fato deveria ser isso mesmo o que estava deixando-o com um humor tão insuportável.
Tentando ignorar o quão estranho era andar em quatro patas, o segui em silêncio, um pouco animada por estar vendo o mundo de um jeito diferente. Tudo era muito interessante, mais colorido, e os sons, os cheiros, as presenças!
Talvez aquele treinamento pudesse ser divertido!
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*Pov. Autora*
Kikyou saíra do vilarejo de Kaede, decidida a esquecer Inuyasha de uma vez por todas.
Havia o esperado por tempo demais, e ela não disponibilizava de tempo para sonhar acordada. Estava morta, precisava da Jóia e de sua alma por completo, a parte que Kagome carregava consigo.
Não fora seu desejo voltar ao mundo dos vivos, e muito menos fora seu desejo reencontrar aquele que havia a traído.
Mesmo após todas as explicações, dentro dela ainda havia traição por parte dele. E ela sabia que também o havia traído, por não ter confiado plenamente em seu amor.
Como fora tola! Pensou.
Já estava bem longe de onde havia sido seu lar no passado, e começava a pensar em como deveria agir a partir daquele ponto. Iria para o castelo do Lorde do Oeste buscar o que lhe pertencia? Ainda havia um grande fragmento com a miko do futuro. E também desejava ter sua alma em sua plena forma.
Mordeu o lábio, impaciente. Perdera tantas oportunidades de tomar o que era seu.
A parte da floresta por onde passava era tenebrosa, mas não havia sentido nenhuma energia maligna a sua volta. Não até aquele momento.
– O que quer, Naraku? – perguntou ao nada, parando de andar e se recostando a uma árvore que havia ali, aparentando uma calma que não lhe convinha.
O ar se tornou pesado com a presença do babuíno branco, que se aproximou repentinamente, saindo das sombras e se postando a frente da miko de barro e ossos.
– Kukuku. Vejo que abandonou o grupo de Inuyasha, Kikyou. O que houve? Talvez eu possa lhe consolar em um momento tão solitário.
Kikyou riu com gosto.
O hanyou já havia sido absurdo de muitas maneiras, mas aquela era a primeira vez que ele tentava lhe ser gentil de alguma forma. E claramente era algum tipo de artimanha do youkai aranha.
Ser repugnante!
– Não me lembro de alguma vez ter precisado de sua ajuda para algo. Naraku, diga para que veio de uma vez, não estou com vontade para suas brincadeiras hoje.
O meio-youkai riu e retirou a parte de cima de sua vestimenta de babuíno, revelando a aparência bela do corpo que ele havia roubado.
Um homem muito bonito, que passaria despercebido por um humano, não fossem seus olhos de um vermelho vivo.
A miko analisou-o por alguns instantes, desistindo logo de encontrar algum significado que fosse nos rubis do outro, que pareciam em chamas a cada parte que sua visão alcançava. Não entendia essa paixão tola que a parte humana do hanyou tinha por si.
– Acho que agora que não está mais junto daquele cachorro, podemos nos unir em um objetivo em comum. A Jóia de quatro almas e uma certa jovenzinha intrometida.
Kikyou semi-cerrou os olhos, pensando nas palavras dele.
Ela realmente queria a Jóia para si e também almejava sua alma. Mas seria boa ideia se unir a aquele que a matou? E como a proposta dele poderia vir em tão boa hora?
– Kagome tem atrapalhado seus planos, querido Naraku? – ela riu divertida ao ver que sua pergunta causara um desconforto.
– Não diria que ela me atrapalha, mas veja. Ela não sai de perto daquele irmão de Inuyasha. Sabes que a espada que ele carrega é poderosa demais e consegue dar fim em minhas partes, é um risco grande demais.
A miko gargalhou com ainda mais vontade que antes. Então havia um motivo para ele ter vindo buscar sua ajuda, afinal. Ele apenas queria usá-la, para que de alguma forma afastasse um do outro.
– Você é um tolo, Naraku! Não vejo como posso ajuda-lo nisso. A garota provavelmente percebeu o quão inútil era continuar sentindo algo por Inuyasha e agora que está com seu irmão...o que eu poderia fazer? Nem mesmo Inuyasha tem mais interesse por mim. Não tenho mais nada a ver com essas bobagens.
Disse, ríspida, já lhe dando as costas.
– Oh, mas existe algo que você pode fazer, minha querida Kikyou!
Ela parou de andar, olhando-o por sobre o ombro. O que mais ela poderia fazer afinal? Estava curiosa, por algum motivo. Nunca havia se deixado levar por tais sentimentos, mas ali estava ela, ansiosa por uma oportunidade de se provar.
– E não só você, também possuo um aliado poderoso para alcançar nossos objetivos.
Atrás de Naraku, ela pôde ver a sombra de alguém.
Sua presença era tão forte que a deixava apreensiva em ficar de costas e, imediatamente se endireitou, ficando de frente para eles, colocando uma mão para trás para que pudesse alcançar uma flecha de sua aljava.
– Quem é ele, Naraku?
Saindo da escuridão das sombras, surgiu um youkai belo de madeixas douradas e olhos cor de esmeralda.
Sua aparência deixara Kikyou sem palavras, mas o que realmente a deixava estarrecida era a frieza do olhar daquele youkai e o quanto ele emanava ódio.
– Me chamo Orochi. – Um sorriso despontou dos lábios dele, o que arrepiou a pele das costas da miko.
Kikyou abaixou a mão que se preparava para agarrar uma flecha e direcionou seu olhar para Naraku, que observava divertido suas reações perante o youkai serpente.
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*Pov. Hayato*
Um mês depois...
Acertou uma árvore quando desviei de sua investida com força, fazendo com que se espalhasse uma chuva de pedaços de madeira pela grama do campo de treinamento.
Eu realmente gostava daquela árvore, pensei.
Mas sem tempo de lamentar, me defendi de uma bola de veneno que Kagome lançava em minha direção, sem esperar que me recuperasse da última investida.
Depois que Vossa Alteza a instigou a se transformar em sua forma youkai, muitos treinamentos com ela eram assim, para que ela pudesse controlar melhor sua fera, agora já liberta.
E eu não reclamava, longe disso.
Era ótimo poder me soltar também e correr pelos campos com uma bela youkai.
Outra bola de veneno, dessa vez passando de raspão do meu lado esquerdo. Fora por pouco, ela estava ficando boa nisso!
- Nada mal, franguinha!
Ela rosnou e saltou em minha direção, certa de que me pegaria. Mas eu não era o general das terras do Oeste por nada e não seria tão fácil assim para uma recém youkai despertada chegar ao meu nível.
Rapidamente lhe devolvi a bola de miasma que ela havia me lançado antes. Esta que ela não conseguiu desviar, sendo jogada para trás, atingindo outra árvore.
– Se continuarem nesse ritmo, irão acabar com todas as árvores de meu campo, General.
A voz de Sesshoumaru-sama atravessou todo o espaço, me fazendo parar meu próximo movimento.
Logo agora que estava ficando interessante.
Pelo tom do lorde, estava na hora de parar o treinamento por hoje.
Olhei para a fêmea negra que ainda estava se levantando, alguns estilhaços da árvore caindo de seu corpo e seu olhar assassino me dizia que ela não estava feliz com esse desfecho.
Quis rir da forma como ela encarou Sesshoumaru-sama, por ele ter interrompido, e resolvi que era melhor voltar a forma humana. Assim ela não se sentiria tentada a ignorar o óbvio comando que ele dava com os orbes.
A ouvi bufar quando já estava em minha forma humanoide e sorri para ela.
– Não vai voltar a sua forma também, Kagome-sama?
- Não.
Ri sem graça da resposta curta e grossa da lady, que apenas se sentou e virou a face para o outro lado quando Vossa Alteza se aproximou de nós.
Fêmeas podem ser extremamente teimosas, mesmo perante seu alfa.
Desde o primeiro dia de treinamento com Sesshoumaru-sama, que eles estão se tratando de forma estranha. Me pergunto se a visita de Inu-Kimi naquele dia teria algo com isso, mas nenhum dos dois parece querer conversar sobre o assunto, então preferi não me intrometer.
– Daqui eu assumo, general. – A frase era para mim, mas o olhar era todo em Kagome-sama, que agia como se ele nem estivesse ali.
Dei de ombros. Passara a manhã toda em treinamento intenso, focado em ataque e defesa, sem parar para conversas; então estava mais do que pronto para ir comer algo e descansar, já que ainda teria de me reunir com os outros generais depois.
Me afastei, mas ainda tive tempo de vislumbrar o lorde em sua forma youkai correr atrás de uma inu-youkai muito brava e impaciente. Nessas horas queria ser uma mosquinha para ver o que rolava entre eles.
Adentrei os corredores do castelo e assim que passei pelas portas do escritório de Sesshoumaru-sama, um aroma inconfundível invadiu minhas narinas, fazendo um sorriso surgir sem que eu quisesse realmente.
Já havia passado alguns passos da sala, mas assim que percebi de quem se tratava, minhas pernas deram meia-volta, e antes que eu tivesse alguma ideia do que estava fazendo, já havia adentrado o escritório e avistado quem eu esperava ver.
Takeshi-san.
O ancião segurava um pergaminho em uma mão e na outra parecia estar pegando um livro de uma prateleira alta.
Ele olhou por sobre o ombro para ver quem adentrava a sala, mas pela expressão de desgosto, eu imagino que ele já sabia antes mesmo de eu abrir a porta.
Aos poucos, Takeshi-san se tornara meu passatempo preferido. Irritar o ancião era uma das coisas que eu mais amava fazer e ansiava pela próxima vez que poderia instigar os olhos do Inu-Youkai brilhar em fúria.
Chegava a caça-lo pelo castelo, nem que fosse para apenas chama-lo de baixinho ou de ancião. Coisas que o outro odiava.
– Mais uma pesquisa sobre o passado, ancião? – um brilho passou por seus olhos após minha pergunta.
Mas logo voltou a sua expressão de tédio de sempre, se virando, com o livro já em mãos e depositando o pergaminho sobre a mesa.
– Não poderia simplesmente ter ignorado que eu estava aqui, general Hayato? Soube que o treinamento com Kagome-sama exige bastante de você, deve estar cansado.
O inu não havia levantado seu olhar do livro recém-aberto quando falou, e aquilo me irritava.
Faziam uns três dias que ele conseguia de algum jeito escapar de se encontrar comigo pelo castelo e eu estava intrigado com aquele afinco em me evitar.
Vendo que ele não me daria a devida atenção, fui em sua direção, já que eu ainda estava parado em frente a porta, apenas o observando em silêncio.
O inu estava compenetrado em sua leitura, Takeshi havia se sentado em uma das poltronas da sala com o livro em mãos e me ignorar estava no topo de sua lista, aparentemente.
Me sentei no braço da poltrona e me inclinei para ver o que ele lia.
Takeshi-san levantou o olhar, parecendo um pouco zangado pela invasão de espaço pessoal. Dei de ombros e li um trecho de seu livro.
Era algo sobre as terras do Norte e sobre seu antigo lorde. Koji Shimizu.
Lembrava pouco dele, apenas que era muito reservado e levava as tradições a sério. Talvez por isso tenha tentado unir sua filha a aquela serpente traiçoeira. Bem, eu nunca o entendi bem e aposto que Kayo também não.
Ouvi Takeshi-san limpar a garganta de forma forçada e sorri por finalmente ter chamado sua atenção. Ele realmente odiava invasões de espaço e eu estava perigosamente perto dele, interrompendo sua leitura.
– Sabe que esses livros são inúteis. Porque não pergunta direto na fonte o que deseja saber, ancião? – ofereci, me inclinando um pouco mais e apoiando minha mão no outro braço da poltrona, passando por detrás de suas costas. O senti se encolher quando me encostei propositalmente nele.
– General, você e Vossa Alteza realmente tem mais em comum do que gostariam de admitir. Me chamar de algo que considero irritante não me fará te dar mais atenção. – respondeu, fechando o livro e se levantando.
Minha mão se fechou em punho no braço do móvel quando o inu se afastou, guardando o livro em seu devido lugar. Mas mantive um sorriso nos lábios perante o olhar frio do youkai mais velho a minha frente.
Ele não parecia em nada com um ancião, suas feições eram delicadas demais, sua pele parecia porcelana e aquela cicatriz em seu olho me intrigava, o que a fazia ter uma aparência tão recente?
Os cabelos brancos a escondiam parcialmente, ele devia deixar a franja grande de propósito com esse objetivo. Infelizmente acabava por esconder os olhos também e eu realmente queria ver os dourados brilharem.
Ele parecia me estudar por detrás da mesa de Sesshoumaru-sama, como se dali fosse seguro me encarar sem uma aproximação surpresa.
Me endireitei, pulando para o assento e cruzei os braços, já que ele havia desistido de me encarar e voltado sua atenção para o pergaminho de antes que estava em cima da mesa.
– O que o faz pensar que estou tentando chamar sua atenção, Takeshi-san? – fizera a pergunta após alguns momentos pensativo.
Eu realmente parecia assim para ele?
O inu levantou os olhos do documento com uma sobrancelha erguida, talvez se perguntando da demora para eu perceber o que ele havia dito antes.
– E não está?
– É claro que não. Estou apenas matando o tempo.
O outro sorriu minimamente e voltou os olhos para baixo, voltando a ler. Aquele convencido!
Trinquei os dentes dentro da boca, contendo um rosnado. Estava óbvio que ele não acreditara em minha resposta e estava se sentindo vitorioso. Mas eu não deixaria as coisas assim.
– E você, Takeshi-san. Por qual motivo tem fugido de mim esses dias?
Desgosto. Era incrível o quanto a expressão do ancião podia mudar facilmente com poucas palavras, ou quem sabe, eu tinha o dom de o irritar com facilidade.
– Se engana se pensa que tem tal importância para mim ao ponto de estar o evitando, General. Apenas não disponho de tempo para lhe paparicar. Não sabia que era tão carente, Hayato. Seria isso uma consequência dos treinos com Inu-Kimi-Hime?
Aquele nome tinha um resultado ruim em mim quando o ouvia e nem percebi quando havia chegado até o ancião, lhe agarrando o queixo com uma de minhas garras, a outra amassando o pergaminho que ele lia sobre a mesa.
Sua face impassível me irritava. Aquele olhar que mostrava o quão entediado ele estava.
Estávamos próximos. Me segurava para não deixar as garras ferirem a pele do inu, enquanto minhas presas se mostravam e um rosnado ecoava pelo escritório. Takeshi apenas me olhava, sem demonstrar nem mesmo arrependimento.
Maldito.
– ...uh...hah...hahah... – ri da situação com uma diversão sombria.
Estava claro que o ancião estava tentando me irritar pois não se sentia confortável em minha presença.
– Qual a graça, general?
– Você.
Seus olhos finalmente tinham alguma reação, se arregalando um pouco após minha sentença. E logo semi-cerraram, em impaciência, desviando o rosto de minha mão.
– Se já acabou o que tinha a fazer aqui, eu gostaria de terminar minha pesquisa em paz, Hayato.
Ele tinha a intenção de puxar o pergaminho que eu ainda amassava, tirando-o de minha mão, mas fui mais rápido, jogando o documento longe, para o outro lado da sala, acertando as portas e indo ao chão.
Takeshi me olhou insano.
– O que pensa estar fazendo, general?!
– Conseguindo sua atenção.
Deveria ser a raiva em seus olhos, o brilho que emanava dali me enfeitiçava, pois no segundo seguinte eu estava puxando sua mandíbula para que sua boca se encontrasse com a minha.
O inu me fitou sem reação, seus olhos demonstravam algo novo, extasia.
Me deliciei sob seus lábios; eram surpreendentemente macios, se encaixaram tão bem à minha boca que eu me sentia tentado em explorar um pouco mais, porém ainda não conseguia tirar o foco dos dourados que tremiam perante os meus olhos.
Ele resmungou, sua expressão querendo se tornar mais dura, e eu me aproveitei desse movimento para aprofundar mais o contato, calando de vez o outro.
Takeshi fechou os olhos com força e eu me vi na dúvida se parava o que estava fazendo ou continuava. Mas sua mão que havia se agarrado ao meu peito foi todo o sinal de que eu precisava, para continuar, e foi o que fiz.
Me inclinei mais em sua direção, nos aproximando, e acariciei sua nuca ao mesmo tempo que minha língua instigava a sua. Ele parecia não saber o que fazer com a própria, apenas seguindo os meus movimentos.
Suas bochechas estavam ficando vermelhas, e eu quis come-lo ali mesmo, pois o cheiro que o mesmo emanava me inebriava.
– Caham...interrompi algo? – a voz de Lucy ecoou pelo escritório e Takeshi me empurrou com força, quase me jogando para a poltrona que estava antes.
Olhei para a porta, onde se encontrava a curandeira com um sorriso diabólico nos lábios. Junto dela estava Mizuki, que permanecia impassível, de olhos fechados, com sua serpente lhe envolvendo os ombros.
– Não, Lucy, eu já estava de saída. – respondeu o ancião, raspando o antebraço pela boca e me olhando com fúria, antes de se dirigir rapidamente à saída, sumindo pelos corredores.
Resolvi não ir atrás dele por hora, talvez tenha sido um pouco agressivo demais. Mesmo assim, é estranho que eu não tivesse notado aquelas duas presenças tão próximas.
– O que querem aqui? – perguntei para Lucy, observando-a e Mizuki adentrarem mais o escritório, indo direto para uma prateleira próxima da janela.
– Ara. Aqui também é uma biblioteca, eu sou a curandeira e venho constantemente consultar alguns livros...algum problema, Hayato? – respondeu, pegando um grande e antigo livro do móvel empoeirado.
Mizuki parecia estar apenas a acompanhando.
Ficara desconcertado com o significado a mais naquela pergunta, carregado de malícia. Lucy conseguia ser uma víbora as vezes, mesmo sendo em parte um youkai leão. Uma Koma-inu.
– Problema nenhum. – Me limitei, coçando a nuca e já me encaminhando para fora dali, antes que ela resolvesse fazer perguntas desnecessárias.
– General Hayato, por algum acaso não teria visto Vossa Alteza?
A pergunta viera de Mizuki. Olhei para ela, aqueles grandes olhos dourados que pareciam enxergar no fundo da alma me causavam arrepios. Encarei Lucy, que deu de ombros, voltando sua atenção ao livro de outrora.
– Agora pouco, era a vez de ele treinar Kagome-sama, então me retirei e os deixei no campo de treinamento dos fundos. – Ela assentiu, Lucy mordeu os lábios.
– Aquele imbecil continua forçando o treinamento youkai nela! Já faz um mês! Um mês que ele me enrola para que Mizuki possa dar início aos treinos com ela!
– Bem...pelo menos não tive que mostrar mais nenhuma lembrança para a bela dama.
– Sabe que é questão de tempo até ela pedir ou ele pedir para que a mostre o resto, Hayato! Nós dois sabemos disso! Não mostre mais nada até que Mizuki possa fortalecer a parte espiritual dela!
Eu não precisava que ela me lembrasse disso, sabia bem as consequências de uma alma se partir. Era estritamente necessário que ela fortalecesse essa parte antes de poder visualizar mais alguma coisa de minhas lembranças.
Pisquei com força, as mãos em punho. As coisas estavam indo rápido.
– Devo te agradecer por ter conseguido afastar InuKimi-Hime do Oeste daquela vez, Lucy. Ela estava em uma espécie de caçada por informações dentro do castelo e eu evitei a todo custo encontrá-la. Saber que ela ameaçou de alguma forma a bela dama fez com que Sesshoumaru-sama quase arrancasse a cabeça dela, ele mesmo.
Mizuki suspirou, se afastando. Lucy bufou e me olhou, largando o livro que lia sob uma mesinha que jazia ali perto.
– Foi sorte. Ela não se deixaria ser atacada pelo filho e tenho certeza que um certo ancião não ficaria parado vendo sua ex Lady ser morta, mesmo que pelo atual Lorde. Veja, eu só fiz o que fiz para evitar mais sangue desnecessário. Ela estando bem longe, deu tempo para que o lorde acalmasse sua fera e com ele concentrado em treinar Kagome-sama, não havia tempo para se preocupar em matar a inconsequente da mãe dele.
– Que seja. O que disse para que ela desistisse tão fácil de permanecer no castelo?
O olhar de Lucy escureceu e ver aqueles orbes de azul cristalino escurecer era algo muito triste de se observar. Aguardei ela terminar de umedecer os lábios, para continuar a falar.
– Disse a ela que um velho amigo dela havia conseguido se libertar de seu lacre. Ela foi embora feliz no mesmo instante. – Havia um tom sombrio em sua fala.
– Você só não esperava que ele realmente conseguisse se libertar do lacre, não é mesmo, Lucy?
Ela me encarou com raiva e eu dei de ombros.
– Eu disse à Sesshoumaru-sama que aquela cobra deveria ser vigiada! Ele nunca deu ouvidos!
– Desde quando Vossa Alteza lhe dá ouvidos, querida Lucy? Deixe de fantasiar coisas. E além do mais, eu tenho certeza que ele teve seus motivos para nunca ter mandado alguém para aquela terra abandonada vigiar a cobra.
– Uhn. Sim, você tem um ponto, de fato Sesshoumaru-sama sempre foi confiável. Mas seus métodos me dão nos nervos!
Ri de sua conclusão, saindo de vez do escritório do lorde. Precisava mesmo comer algo e descansar. E um certo inu não saía dos pensamentos por nada.
Porque eu havia o beijado, afinal?
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*Pov. Sesshoumaru*
- Precisamos conversar! – a voz de Kagome irrompeu pelo campo e eu dirigi meu olhar a ela.
Estava descansando sob uma árvore, aguardando que ela terminasse sua caça. Que obviamente ela não havia conseguido capturar, já que estava limpa.
Sempre ficava deslumbrado pela sua forma youkai. Parecia haver um universo em sua pelagem durante a noite e agora, durante o dia, era aquela pelagem escura com pontos brilhantes e rajadas em azul. Ela era um enigma para mim, nunca havia visto uma inu com uma aparência tão diferente.
Desde que ela havia conseguido libertar sua fera, estávamos praticamente sempre nessa forma youkai, em treinamento, seja comigo ou com general Hayato. Raramente voltando para o castelo.
Se passou um mês, e ela ainda não conseguia dominar certos instintos, o que era um problema para darmos seguimento em outras partes.
Ela me encarava, aguardando por uma resposta e eu bufei, me levantando de onde estava, sentando a sua frente e aguardando que a mesma seguisse meu exemplo.
- O que você precisa, é aceitar as ordens de seu Alfa. Volte a focar na caça. Sua pressa em atacar fez com que sua presa fugisse mais uma vez, não é mesmo?
- Eu não estou com fome! Até quando vai agir assim?
- ... – virei o focinho para o outro lado. Havia um cheiro diferente cercando meu território fazia um tempo. E eu sabia de quem era.
- Ora, Sesshoumaru! Não pode me tratar assim para sempre, está fugindo do assunto de novo. Eu já pedi desculpas, quer que eu peça de novo? Me desculpa por mentir!
- Por hoje já basta, iremos voltar para o castelo por um tempo. Irá treinar com Mizuki a partir de amanhã. – Queria evitar encontrar aquela criança nessa forma. Caso nos atacasse, não conseguiria ser misericordioso e duvido muito que Kagome em seu lado youkai consiguisse se conter sabendo que seus filhotes poderiam estar em risco também. – Fique um pouco com Rin e Shippou o resto do dia.
A ouvi rosnar em desaprovação e resolvi que seria melhor ignorar o comportamento teimoso da fêmea.
Ela não tinha controle direito sobre como agir em sua forma Inu e na certa se esquecia que deveria ter mais respeito para com o lorde do Oeste.
Virei-lhe as costas para retornar ao castelo, mas fui derrubado logo em seguida. Estava satisfeito que o treino estivesse dando resultados e ela já fosse capaz de o fazer sem que eu notasse sua presença previamente.
Porém, ainda me irritava toda vez que ela o fazia.
- Saia. - Rosnei quando ela mordiscou minha orelha e forcei minha saída de debaixo de seu corpo. Rapidamente me afastei, saltando para longe. Mirei para onde Kagome estava acomodada, simplesmente sem nenhum arrependimento na face.
- Não quero voltar ainda. Vamos! Brinque um pouco comigo, Sesshy!
Kagome abaixou o torso e abanou o rabo animada. Eu não gostava dessas brincadeiras, e ela sabia bem que eu não me sujeitaria a isso.
Mas era curioso como ela sempre tentava, pulando ao meu redor, tentando me instigar a correr atrás dela.
Me sentei, esperando que ela acalmasse seus ânimos, tentando ignorar a todo custo as pequenas mordidas que ela dava rapidamente em meu pescoço e logo se afastava, na espera de que eu a perseguiria em seguida.
Respirei fundo quando ela me acertou com o focinho pela milésima vez; parecia um filhote e eu realmente não possuía paciência para aquilo.
- Caramba, você é realmente um estraga prazeres, não é mesmo Sesshoumaru-sama?
- Apenas tenho noção de que postura devo ter e você deveria começar a perceber a sua também, como futura Lady do Oeste.
Notei que minha fala a deixara incomodada, quieta, e entendi que ela ainda não havia se decidido sobre isso. Contive um suspiro de cansaço e me virei para voltar ao castelo.
- Fala a verdade, Sesshy. Está se sentindo velho e decrépito demais para uma pequena brincadeira? Achei que lordes poderiam fazer o que tivessem vontade em suas horas livres...é, deve ser apenas uma desculpa sua para evitar a fadiga.
Trinquei as presas e me voltei rapidamente, perseguindo Kagome que correra assim que havia terminado de falar, já sabendo que sua provocação funcionaria.
Me condenei mentalmente por cair em sua lábia, mas já era tarde, eu a faria ver quem era o velho!
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*Pov. Autora*
[Oeste. Floresta, arredores do castelo.]
– Oy, Kohaku!
O rapaz olhou para baixo.
Kagura lhe fitava com um sorriso convencido aos pés da árvore. Ele tentava não pensar em nada a cada vez que precisava interagir com ela ou com qualquer uma das crias de Naraku, e principalmente com ele, mantinha a mente vazia.
– Você já foi capturado uma vez, tente não ser morto por Sesshoumaru durante sua vigia. Naraku não ficaria nada contente se algo como aquilo se repetisse.
O irmão mais novo de Sango apenas meneou a cabeça, concordando.
Kagura suspirou, pois o taijiya nunca lhe respondia mais do que uma ou duas palavras. Mas ela também não era de querer conversar, tinha outros planos, planos que envolviam um certo youkai de cabelos prateados.
– Bem, eu só vim para lhe dar este aviso. Continue de olho nas coisas por aqui. Tome cuidado com aqueles anciões intrometidos, logo Naraku nos dará novas ordens.
Tendo dito isto, Kagura alçou voo em sua pena, não sem antes lançar um olhar divertido para Kohaku, que mantinha sua face impassível perante a cria de Naraku.
O jovem acompanhou com os olhos a retirada de Kagura e bufou quando esta já se encontrava longe.
– É claro que tomarei cuidado. Aqueles quatro quase conseguiram me matar...se não fosse o fragmento da Jóia... – mordeu o lábio com a mínima lembrança de quando os quatro o interrogaram.
Em um salto, logo ele sumia floresta a dentro.
Porém, uma pequena raposa havia ouvido a conversa do jovem taijiya e a cria de Naraku.
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