You calm the storms and you give me rest
You hold me in your hands
You won't let me fall
You steal my heart and you take my breath away
Would you take me in, take me deeper now
And how can I stand here with you and not be moved by you
Would you tell me how could it be any better than this
(Everything - Lifehouse)
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Apesar dos temores de Draco, a viagem foi bastante tranquila. Scorpius ficou chateado, a princípio, quando o pai avisou que viajaria sozinho e só desfez o bico depois que Draco prometeu levá-lo ao zoológico na semana seguinte. Astoria apoiou totalmente a ideia e se dispôs a justificar sua ausência como uma necessidade acadêmica, caso fosse questionada. Ela apareceu na mansão naquela mesma tarde e abraçou-o, os olhos brilhando por algum motivo que escapava ao seu entendimento.
Eles partiram logo depois do almoço e, conforme Potter prometera, ninguém suspeitou das suas identidades. As varinhas não funcionavam muito bem com eles, mas serviram ao seu propósito quando das suas identificações, no Ministério da Magia da Itália, onde a chave de portal os deixou. O Auror utilizou com facilidade uma série de feitiços para alterar sua aparência, algo bem mais complexo e difícil de ser detectado do que um simples Glamour. Assim que fizeram o check in no hotel, entretanto, ele abandonou o disfarce, permanecendo apenas com um glamour para disfarçar a famosa cicatriz na testa. Porém, de alguma forma, as pessoas ao redor deles - trouxas ou bruxos - não pareciam notá-los, a não ser que eles quisessem ser notados.
O hotel, que ficava no topo de uma montanha, prometia conforto e discrição e não deixou a desejar em nenhum dos quesitos. Draco era fluente em francês, apenas, mas as poucas palavras que conhecia do italiano bastaram para se comunicar nas raras ocasiões em que interagiu com um ou outro bruxo de pele branco-avermelhada, tom de voz exageradamente alto e maneiras espalhafatosas. Mas, na maior parte do tempo, era como se eles estivessem sozinhos na praia, longe de qualquer civilização, exceto pelos funcionários do hotel, que não deixavam que seus copos ou pratos ficassem vazios por muito tempo. O cenário era exatamente o mesmo da capa da revista: o mar azul claro, as ondas calmas, barcos passando ao longe, pássaros cantando e as únicas nuvens que apareciam no céu provinham do vulcão Stromboli, recortado contra o horizonte, ao fundo.
Os dias se passaram mais rapidamente do que Draco esperava. Felizmente, tinha levado um estoque suficiente das suas poções, inclusive algumas para prevenir queimaduras de sol, que Draco não fazia questão de economizar. Harry não parecia tão preocupado com aquilo e às vezes tinha que passar um bálsamo à noite para aliviar as queimaduras de sol. Ao contrário de Draco, sua pele logo adquiriu um leve bronzeado. Draco não admitia, mas ficava encantado ao vê-lo sem roupa, a marca da sunga destacando a diferença entre o antes e o depois.
Diferente de Harry, o loiro não ficava desfilando somente de sunga pela praia. Não que estivesse reclamando, afinal a vista era bastante agradável aos seus olhos e não era como se houvesse outros espectadores para apreciar o show. Mas Draco preferia usar calções de banho e algumas camisetas trouxas que Harry lhe emprestara, sem mangas e bastante cavadas. Mesmo estas, Draco somente aceitara usar depois que Harry conseguira disfarçar sua Marca Negra a contento.
Todas as noites, eles faziam suas ligações via Flu para Londres. Harry dava privacidade para que Draco conversasse com Scorpius e Astoria e o loiro retribuía o favor, debruçado contra a sacada do quarto de hotel enquanto o ex-grifinório falava com os afilhados e os amigos. Pela manhã, Harry saía para se exercitar na praia e Draco somente se dignava a levantar da cama quando ele voltava. Ao entardecer, o moreno também saía para longas caminhadas. Draco o acompanhava com os olhos do conforto da sua cadeira de praia até perdê-lo de vista, quando sentia uma pontada de receio por estar sozinho e vulnerável naquele lugar desconhecido. Naqueles momentos, a imensidão do mar parecia assustadora, o vento parecia encobrir passos e sussurros e até o vulcão parecia ameaçador. Mas Harry sempre voltava, sorridente e tranquilo, e Draco relaxava novamente, recriminando a própria tolice.
Durante o restante do tempo, eles ficavam juntos, hora conversando sobre amenidades, hora num silêncio contemplativo e confortável, hora dividindo momentos mais intensos ou apenas se tocando, aproveitando da familiaridade dos seus corpos. Houveram alguns momentos tensos também, porém o assunto logo era abandonado, como se ambos concordassem que aquele não era o momento nem o lugar. Qualquer que fosse o problema, ele poderia ser resolvido em Londres, pois certamente não havia espaço para assuntos sérios naquele ambiente tranquilo.
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Na tarde de quinta-feira, pela primeira vez naquela semana, Draco levou um dos seus livros de alquimia para ler na praia. Colocara uma porção deles na bagagem, antecipando a necessidade de alguma distração daquele tédio, mas acabara adiando ao máximo o momento de tirá-los de dentro do seu malão. Levou também uma Pena de Repetição Rápida e aproveitou o momento em que Harry foi se banhar no mar para dedicar algum tempo às suas pesquisas, ditando alguns trechos que julgava interessante para adicioná-los às suas muitas anotações.
De vez em quando, olhava por cima do livro para o moreno, sozinho na imensidão do mar, mergulhando nas ondas ou simplesmente flutuando, longe da rebentação. Às vezes, Draco demorava alguns minutos para localizá-lo e sentia um frio na barriga até que seus olhos pousassem nos cabelos negros espetados e seu coração se desacelerasse, tomado pelo alívio. Nos primeiros dias, Harry insistira várias vezes para que Draco entrasse na água com ele, mas o loiro sempre tinha uma desculpa na ponta da língua. As raras vezes em que Draco cedera, ficara no raso, parado, deixando as ondas virem até ele e recuando sempre que a água ameaçava passar da sua cintura depois de uma onda particularmente alta. Depois de algum tempo, Harry parara de insistir. Provavelmente ao perceber que não se tratava de nenhuma frescura da parte de Draco.
Depois de algumas páginas difíceis, Draco acabou mergulhando na leitura. Estava sentado na cadeira de praia de sempre, com uma água-de-coco enfeitiçada para manter-se fresca e não percebeu a aproximação de Harry até sentir suas mãos geladas nas coxas.
"Ei!" Draco resmungou, abaixando o livro em tempo de ver as mãos de Potter, cheias da areia molhada do mar, se enfiarem por baixo da sua camiseta, sujando seu abdômen. "Não!" exclamou, tentado afastar aquelas mãos imundas e proteger o livro ao mesmo tempo, mas já era tarde. "Seu idiota, o que está fazendo?" Perguntou, levantando-se para manter uma distância segura entre eles.
"Estou tocando em você, oras!" Harry falou, falsamente inocente, embora não conseguisse disfarçar o sorriso maroto. "Você costumava gostar quando eu fazia isso." Ele tentou se aproximar para passar a mão suja pela sua coxa novamente, mas Draco se esquivou a tempo.
"Fique longe de mim, Potter! Você está arruinando minhas roupas," o loiro falou no tom mais ameaçador que conseguiu, o livro ainda seguro numa mão enquanto a pena de repetição rápida o seguia, provavelmente transcrevendo tudo o que dizia. "Maldição, risque isso!" Ele ordenou para a pena, mas teve que se esquivar novamente de outro avanço do moreno. "Potter! Mantenha suas mãos para si mesmo!"
"Mas é mais gostoso quando eu coloco as minhas mãos em você e vice-versa," ele continuou, ignorando todos os sinais de que Draco não estava gostando da brincadeira, por isso o loiro achou melhor ser direto.
"Não estou achando graça, Potter! Pare de escrever!" Ele gritou para a pena, que finalmente o obedeceu. Porém, a distração custou caro a Draco. Ele acabou preso entre os braços de Harry, que passou as mãos sujas pelas suas costas, por baixo da camisa. Ao tentar se desvencilhar, xingando e chutando, Draco acabou perdendo e equilíbrio e caindo na areia seca e fina, que imediatamente grudou em todos os poros da sua pele descoberta, especialmente nas suas coxas.
"Ops!" Harry falou, sorrindo, e saiu correndo antes que Draco se levantasse.
"Potter! Não se atreva!" Draco rosnou, abandonando o livro na areia e correndo para alcançá-lo, ainda que soubesse que não tinha chance nenhuma de chegar até a própria varinha antes de Harry.
O ex-grifinório passou pela cadeira de praia que Draco ocupava até momentos antes e continuou a correr, com Draco em seu encalço, rosnando e ameaçando enfeitiçar suas bolas assim que colocasse as mãos na sua varinha. Harry gritou por cima do ombro que adoraria vê-lo colocar as mãos na varinha e mexer com suas bolas, mas acabou tropeçando numa alga marinha escondida na areia e quase perdeu o equilíbrio.
Draco teve que escolher entre rir da situação ou se aproveitar dela e acabou por alcançar Harry na areia úmida, beijada pelas ondas.
"Onde está minha varinha, Potter?" Draco perguntou, ao notar que o moreno tinha as mãos livres o suficiente para se defender dos seus avanços descoordenados. O fato de Potter não estar usando nenhuma roupa além da sunga também não facilitava nada para Draco, cujas mãos deslizavam pela pele morena molhada.
"Não peguei varinha nenhuma." Harry aproveitou a indignação de Draco para segurá-lo no lugar pela camiseta e dar-lhe uma rasteira.
"Meu cabelo! Você vai pagar por isso!" Draco resmungou ao acabar imobilizado debaixo do corpo de Harry, os dentes cerrados diante da umidade fria do solo.
"Mal posso esperar," Harry falou, os olhos brilhando, o peito ofegante. Ele abaixou-se para lamber a garganta de Draco, provavelmente o único lugar que ainda não estava cheio de areia.
"Filho da mãe," Draco xingou, mas virou a cabeça para o outro lado, oferecendo ainda mais pele para a língua ávida do moreno.
Harry beijou-o e sua boca tinha gosto de mar. Logo Draco havia se desvencilhado das restrições do outro e abraçou-o, passeando as mãos pelas costas cheias de areia do moreno e aproveitando para usar um pouco mais de força, arranhando a pele de propósito. Harry não pareceu se importar, encaixando melhor os seus corpos, segurando seus cabelos e aprofundando o beijo. Em dado momento, Draco encheu as mãos da areia maleável e enfiou-as dentro da parte de trás da sunga do moreno, que xingou e riu ao mesmo tempo.
Draco aproveitou para empurrá-lo e se sentou, ajeitando melhor a roupa torcida e passando as costas da mão pelo rosto para retirar alguns fios de cabelo que grudavam em sua testa. Porém a brisa marítima jogou alguns ciscos em sua direção.
"Merda, Harry!" Ele cuspiu e piscou seguidamente, os olhos se enchendo d'água. "Estou com areia até nos olhos."
"E, graças a você, estou com areia até na bunda," o Auror falou, bem-humorado.
Draco encarou-o assim que conseguiu abrir os olhos novamente. O moreno se levantara, o corpo coberto de areia, um sorriso fácil nos lábios e a sunga levemente desalinhada, deixando aparecer um pedaço de pele mais clara. Harry estendeu uma mão.
"Venha. Vou lavar você."
Draco planejava ralhar com ele, mas resolveu deixar para depois enquanto o contemplava, achando falta da cicatriz e dos óculos, que ele substituíra por um feitiço complicado que precisava ser renovado a cada duas horas.
"Se você tentar alguma gracinha..."
"Prometo me comportar," Harry falou, colocando a mão direita sobre o coração solenemente.
Draco arqueou uma sobrancelha, desconfiado, mas acabou aceitando a ajuda para se levantar. Eles caminharam em direção às ondas até que o moreno se ajoelhasse, fazendo com que a água ficasse em sua cintura e aproveitou uma onda suave que se aproximava para lavar os cabelos. Draco imitou-o, despindo a camiseta e jogando-a sobre o ombro depois de enxaguá-la. Passou algum tempo lutando para retirar o sal dos cabelos, mas era inútil. Ouviu o riso mal-disfarçado de Potter e jogou água na direção dele.
"Ora, cale a boca, Potter."
Eles logo começaram outra guerra que acabou com Draco sentado no colo de Harry, uma perna de cada lado do seu corpo, num beijo intenso, as ondas baixas ameaçando fazer com que perdessem o equilíbrio, mas nem mesmo isso fazia com que interrompessem as carícias. Muito pelo contrário, o movimento só fazia adicionar à fricção crescente entre os seus corpos. Draco deslizou as mãos pelas costas de Harry e enfiou-as por dentro da sunga com a desculpa de retirar qualquer resquício de areia que tivesse sobrado, enquanto as mãos de Harry alisavam sua cintura e suas coxas, até onde o calção permitia. Pela primeira vez, Draco desejou não estar usando tantas roupas.
Draco beijou o lóbulo da orelha de Harry e seu pescoço, no local em que fizera uma marca na pele clara do moreno na primeira noite daquelas férias. O tempo e o sol já haviam feito com que a marca se atenuasse e Draco conteve a vontade de sugar novamente a pele e acentuar a coloração novamente.
"Hmmm isso está muito bom," Harry suspirou. "Talvez nós devêssemos continuar no hotel..."
"Ótima ideia," Draco concordou, porém não fez menção de se levantar, voltando a beijar a boca do moreno com gula.
Apesar dos momentos em que ambos relaxavam na praia terem se provado razoavelmente confortáveis, Draco gostava mais do tempo em que passavam sozinhos no quarto do hotel, com a porta da sacada aberta para a vista do mar, a qualquer hora do dia e da noite. A viagem teria valido a pena somente por aqueles momentos. Harry nunca demonstrara ter nenhuma reserva quando o assunto era sexo, sempre disposto a tentar qualquer coisa que Draco sugerisse, mas o ambiente parecia tê-lo inspirado ainda mais. Até a geleia do café da manhã virava algo potencialmente sensual nas mãos dele. Draco conteve um arrepio ao se lembrar da noite passada, quando Harry tinha amarrado seus punhos à cabeceira da cama, vendado seus olhos e quase o levara à loucura. Harry também insistira em inverter os papéis algumas vezes e Draco já nem se lembrava mais das suas inseguranças, preparando-o com cuidado e penetrando-o com firmeza.
Apesar do calor das atividades recentes, logo o corpo de Draco esfriou o bastante para que ele se arrepiasse diante da brisa vinda do mar e Harry instigou-o a se levantar. Eles recolheram seus pertences rapidamente com a ajuda das varinhas e aparataram no hall do hotel, já devidamente secos e suficientemente recompostos. Ao chegarem ao quarto, entretanto, havia uma coruja esperando-os. A ave estendeu o pé em direção a Harry assim que colocou os olhos amarelos sobre ele.
"Droga," Harry gemeu, depois de ler a carta e jogou-a para o lado, esparramando-se na cama. Draco lançou-lhe um olhar questionador, ao que ele suspirou. "É Robbards. Ele quer que eu volte amanhã. Disse que houve uma complicação... Porra!" Ele socou a cama, frustrado. Então se sentou de repente, alcançando a pena e o tinteiro ao lado do criado. "Vou responder para ele ir se ferrar, espere só..."
"Não." Draco segurou a mão do moreno. "Pode ser algo importante."
"Não me importo! Nós tínhamos um acordo. O que quer que seja, os outros aurores podem muito bem dar conta do recado..."
"Harry," Draco interrompeu-o, decisivo. "Não quero ter que lidar com você se culpando depois por não ter corrido de volta para Londres! Além do mais," ele continuou, sabendo que só havia um argumento capaz de convencê-lo. "Estou ficando entediado aqui. Já está na hora de ir para casa."
"Você não me parecia entediado alguns minutos atrás," Potter falou, sarcástico, porém passou as mãos pelos cabelos e suspirou. "Está bem. Acho melhor arrumarmos as coisas..."
Draco concordou, apesar de não ter certeza se estava aliviado ou pesaroso pelo final abrupto do passeio. Estava com saudades de Scorpius, mas tinha um pressentimento de que sentiria falta da companhia de Harry depois de todos aqueles dias juntos.
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Alguns dias depois, Draco viu-se num restaurante trouxa, de frente para Harry, saboreando um surpreendentemente delicioso vinho trouxa, Ornellaia Bolgheri, safra 2001. Draco fizera questão de memorizar o nome do vinho para uma possível ocasião futura. Aparentemente, os trouxas tinham até mesmo uma profissão específica onde a pessoa ficava encarregada de elaborar a carta de vinhos do restaurante de acordo com o cardápio, segundo Harry explicara antes de chamar o maitre para pedir uma sugestão de bebida. Enquanto Draco se deliciava com sua taça, o moreno tagarelava sobre a partida de Quadribol que ele assistira com os Weasley.
"... e então, quando finalmente parecia que eles iam marcar, um dos batedores se desequilibrou da vassoura e caiu bem em cima de um das balizas do adversário. Ele conseguiu se segurar a tempo, mas acidentalmente chutou a goles antes que ela passasse pelo aro. Ficou lá, pendurado, até que o juiz parou de dar risada para interromper o jogo." Harry riu. "Foi hilário! Tenho tudo gravado no meu ominióculo. Posso mostrar para você depois, se quiser."
"Honestamente, não entendo como uma pessoa pode continuar torcendo pelos Chudley Cannons." Draco meneou a cabeça.
"Bem, acho que entendo. É uma questão de lealdade." Harry encolheu os ombros. "E Ron sabe ser bastante leal com aquilo que acredita."
Draco conteve a vontade de rolar os olhos. Como se não bastassem todos aqueles anos em que o ruivo viveu sob a sombra do grande Harry Potter, ainda havia a forma do seu patrono para denunciar a verdadeira extensão da lealdade de Weasley.
Naquele momento, um garçom apareceu para retirar os pratos sujos e Draco novamente estranhou o fato de o homem não utilizar um feitiço para tanto. Não estava muito certo de como concordara com aquele jantar, mas tinha consciência de que aquilo estava acontecendo com certa frequência, ultimamente. Harry fazia todos os planos e, de alguma maneira, o convencia a sair de casa para algum programa que soava muito duvidoso aos seus ouvidos.
Potter tinha até escolhido a roupa que Draco poderia usar para não chamar atenção - uma camisa de abotoar, calças de alfaiataria, nada de capa e definitivamente nenhum chapéu. Draco não tinha problema algum quanto ao chapéu - afinal não costumava usá-lo, exceto em eventos tradicionais bruxos -, porém se sentia completamente despido sem sua capa. Sem contar que encontrava certa dificuldade em entender como suas vestes poderiam causar espanto quando os trouxas usavam as roupas mais bizarras que ele já vira. A caminho do restaurante, Draco tinha passado por algumas pessoas usando cabelos coloridos, penteados esdrúxulos, roupas rasgadas e alguns até mesmo em vários estágios de nudez. As pessoas no restaurante estavam mais bem-vestidas, porém Draco não conseguia se impedir de encarar um rapaz com um furo numa das orelhas pelo qual o gargalo da garrava de vinho poderia passar facilmente.
Enquanto encarava o rapaz novamente, a atenção de Draco foi chamada para um casal que entrava. O homem parecia bastante comum, mas a mulher usava um vestido que deixava seus ombros à mostra. Draco instintivamente levou a mão à varinha, porém foi impedido de retirá-la pela mão de Harry.
"O que foi?" Harry perguntou, seguindo a direção do olhar de Draco.
"Aquela mulher tem uma marca rúnica no ombro," Draco sussurrou, sem despregar os olhos da possível bruxa e imaginando onde ela poderia ter escondido sua varinha, com um vestido tão justo como aquele, porém estreitou os olhos ao ouvir a risada de Harry.
"Aquilo é uma tatuagem, Draco." Ele explicou, soando divertido. "Algumas pessoas têm desenhos, símbolos ou palavras tatuadas em todo o corpo."
"Quer dizer que elas fazem isso consigo mesmas?" Draco crispou o lábio superior em desgosto.
"Sim. É bem comum, entre os trouxas."
"E qual é o propósito disso? Para que essas coisas servem?"
"São meramente decorativas," Harry encolheu os ombros. "Aquele símbolo deve ter algum significado para essa mulher, mas não tem nenhum poder mágico ou algo do tipo. Não para ela, de qualquer modo."
Draco massageou o braço esquerdo inconscientemente. Não entendia como uma pessoa poderia escolher ter o corpo marcado permanentemente sem nenhuma finalidade específica.
"É um jera," Draco se surpreendeu falando. "Um ciclo. Significa movimento, mudança. Caso você não saiba," acrescentou, apesar de saber que Potter não tinha escolhido estudar Runas Antigas em Hogwarts. Imaginou se a própria mulher sabia do verdadeiro significado daquilo que carregava no peito.
"Já escolheram a sobremesa, senhores?" O garçom retornou e Harry retirou a mão que mantinha no pulso de Draco diante do olhar furtivo do homem.
"Ah, hmmm..." Harry resmungou, relanceando o cardápio. "O que você sugere?"
"Os clafoutis de cereja são uma ótima pedida, senhor," o trouxa falou polidamente.
"Ótimo. Vamos querer um desses."
"Só um?" O garçom perguntou, depois de encher suas taças de vinho novamente, olhando para Draco.
"Duas colheres, por favor," Draco respondeu, arqueando uma sobrancelha para o homem, como se o desafiasse a fazer algum comentário.
"Certamente. Num instante. Com licença, cavalheiros." Ele se afastou, visivelmente incomodado.
"Idiota," Draco murmurou para as costas do homem e Harry suspirou.
"Não ligue para ele..."
O ex-grifinório havia explicado com antecedência que os trouxas não encaravam a homossexualidade da mesma maneira que os bruxos e, embora as leis trouxas garantissem o tratamento igualitário para todas as pessoas, algumas delas poderiam se mostrar um tanto reprovadoras ou até mesmo agressivas.
Aquilo não fizera exatamente com que Draco melhorasse sua opinião sobre os trouxas, mas tinha que admitir que não acontecera nada de extraordinário até aquele momento, até porque Draco tinha certeza que Harry usava aquele truque de passar despercebido durante a maior parte do tempo. O próprio garçom apenas notara a presença deles depois que Harry o chamara.
"Como você faz isso, aliás?" Draco perguntou, curioso.
"O quê?"
"O que quer que você faça para as pessoas não nos notarem."
"Ah..." Harry arrumou melhor os óculos no rosto. "É uma variação do Feitiço de Desilusão que aprendi no Quartel. Funciona melhor quando as pessoas estão distraídas. Se elas não esperam me encontrar em algum lugar, por exemplo, dificilmente irão me notar, a menos que estejam particularmente atentas. Não funciona muito bem quando estou com Ron e Mione, por exemplo, porque as pessoas estão acostumadas a verem nós três juntos, então não são tão facilmente enganadas a menos que eu use o feitiço em nós três. Já com você..."
"Entendi," Draco cortou-o, dando um gole generoso em seu vinho.
"Os trouxas são naturalmente distraídos," Harry continuou sua explicação. "Por isso funciona melhor com eles. Sem contar que eles dificilmente me reconheceriam e qualquer bruxo que pudesse se misturar a eles não esperaria nos encontrar num restaurante trouxa."
Draco assentiu. Algumas vezes o próprio Draco se distraia tanto com os próprios pensamentos que se assustava ao perceber o moreno ao seu lado no momento seguinte, como se ele tivesse acabado de aparatar ali ao invés de ter estado naquele mesmo lugar o tempo todo. E, se o feitiço funcionava até em Draco, não havia motivo para os demais trouxas desavisados repararem neles.
"Posso ensinar você, se quiser," Harry sugeriu e Draco encarou-o, desconfiado.
"Por acaso você está se oferecendo a ensinar um feitiço de Aurores para um ex-Commensal da Morte?" Draco falou, sarcástico. "O que seu chefe diria se soubesse?"
Harry encolheu os ombros.
"Certa vez, Dumbledore me contou que Grindewald sabia fazer um Feitiço de Desilusão tão poderoso que nem precisava de uma Capa da Invisibilidade para ficar invisível."
"Grindewald? O segundo maior Bruxo das Trevas de Todos os Tempos?" Draco crispou o lábio superior. "Salazar, isso não tem como ficar melhor."
"Não é isso que eu quis dizer," Harry rolou os olhos. "Qualquer um poderia aperfeiçoar um Feitiço de Desilusão, se quisesse. Não é como se fosse uma Imperdoável. Mas tudo bem, se você não quer aprender..."
"É claro que eu quero," Draco cedeu e Harry deu um curto aceno com a cabeça.
"Os Tornados vão jogar na semana que vem," Potter falou depois de algum tempo, enquanto bebericavam o vinho e aguardavam o garçom retornar com a sobremesa. "Quer ir?"
"Não, obrigado," Draco falou automaticamente. Qualquer que fosse a mágica que Potter estivesse fazendo para convencê-lo, aquilo tinha que acabar. Uma coisa era concordar com passeios clandestinos na Londres Trouxa, outra completamente diferente era um encontro no mundo bruxo, que provavelmente resultaria numa edição extra do Semanário das Bruxas.
"Draco, o fato de sermos vistos juntos não significa que as pessoas vão assumir que estamos juntos, sabe? Amigos e ex-colegas de escola costumam se encontrar simplesmente para jogar conversa fora. Poderíamos fazer parecer casual..."
"O nome Rita Skeeter significa algo para você?" Draco perguntou, sarcástico. "Se você não se lembra, pouco mais de um ano atrás ela escreveu sobre o nosso caso sórdido sem ter nenhuma evidência. Uma foto nossa seria um prato cheio para ela."
"As pessoas já se esqueceram disso, Draco."
"A resposta continua sendo não, Harry."
Harry suspirou.
"Está bem, mas..." Potter começou e Draco lhe lançou um olhar de aviso que ele fingiu não ver. "Tudo bem se eu convidar Scorpius?"
Draco suspirou. Já fazia algum tempo que Scorpius insistia em torcer pelos Tornados de Tutshill. Ele já afirmara torcer para os Corvos de Montrose durante algum tempo, provavelmente por influência de Astoria, e depois passara um tempo aficionado pelas Vespas de Wimbourne, porém a fase dos Tornados estava durando mais tempo.
Draco suspeitava que aquela última mudança era culpa sua. Quando criança, Draco costumava torcer para os violentos Falcões de Falmouth, quando ainda se interessava por quadribol. Depois do fim da guerra, Draco perdera todo o entusiasmo pelo esporte, mas descobrira que os bruxos - principalmente os do sexo masculino - tinham certa dificuldade em compreender como alguém poderia não se interessar por quadribol, por isso Draco adotara a resposta de que torcia para os Tornados de Tutshill puramente para evitar olhares atravessados e longas explicações, apesar de não fazer ideia de qual era a posição do time nos campeonatos, ultimamente.
"Espera..." Draco estreitou os olhos para Harry, subitamente desconfiado. "Você chegou a mencionar isso para Scorpius, não foi? Eu não acredito!" Ele continuou, interpretando o levantar de sobrancelhas do ex-grifinório como uma expressão de culpa. "Ele tem me enchido a paciência por causa desse jogo há semanas...!"
"Não, calma," Harry interrompeu-o. "Eu não mencionei nada, mas acho que sei quem foi. Teddy torce pelo Catapultas de Caerphilly e já faz algum tempo que prometi levá-lo, já que essa é a última semana de férias... E ele e Scorpius têm trocado correspondências..."
Draco gemeu e passou uma das mãos pelos cabelos, implorando por paciência.
"Draco, seja razoável," Harry falou e Draco teve vontade esganá-lo por soar exatamente como Astoria. "Eles são primos! Não há nada de errado nos dois serem vistos juntos."
Draco aproveitou a volta do garçom para tomar mais alguns goles generosos do seu vinho.
"Vou conversar com Astoria," Draco concedeu assim que o garçom deixou-os com a torta de cereja e as duas colheres.
"Ótimo." Harry colocou a mão sobre a de Draco e apertou-a, sorridente.
Draco fechou a cara. Bem, pelo menos ele não tinha se deixado convencer a ir junto, daquela vez.
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"Se você não for junto, eu vou," Astoria falou, taxativa.
Draco encarou-a com descaso. Eles estavam sentados na sala da mansão enquanto Scorpius brincava com os primos, sobrinhos de Astoria. Era sábado, portanto as crianças não tinham aulas e aproveitavam a tarde de outono na casa da árvore, seus gritos e risos chegando até eles através das janelas abertas.
"Ora, pois fique à vontade!" Draco devolveu. "É a sua cara que vai sair estampada no Profeta, não a minha."
Astoria rolou os olhos.
"Sim, e posso garantir que os tabloides vão marcar até a data do meu casamento com o Salvador do Mundo Bruxo. Mas, quer saber? Isso ainda é melhor do que dizerem que nós dois somos pais irresponsáveis, deixando nosso filho aos cuidados dos outros." Ela meneou a cabeça, inconformada. "E isso provavelmente vai fazer com que Tommy fique com ciúme. Ele não gostou nada da última vez que me encontrei com Potter. Mas quem se importa?"
Draco enterrou o rosto nas mãos.
"É claro que, se você fosse, as pessoas dificilmente levariam para esse lado," Astoria continuou, inabalada. "E não é como se o seu namorado fosse ficar enciumado, de qualquer forma..."
"Está bem, já entendi," Draco interrompeu-a. "Eu vou a esse maldito jogo..."
"Se você prefere..." Astoria deu de ombros, escondendo um sorriso presunçoso atrás da sua xícara de chá.
Draco encarou-a, incrédulo. Considerou a possibilidade de Potter estar pagando alguma comissão à sua ex-mulher pelos serviços prestados.
"Você não presta mesmo," ele falou, por fim.
"Mas você me ama de qualquer jeito." Astoria mostrou a língua para Draco, irritantemente divertida.
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O jogo foi um pesadelo para Draco. A começar pela sua chegada, quando Draco foi encarado de cima abaixo por um dos seguranças antes que ele permitisse sua entrada no camarote VIP de Harry, sem dúvida rancoroso por não poder ao menos confiscar sua varinha antes. O camarote em si estava repleto de grifinórios, em sua maioria Weasleys. Apesar disso, Draco supunha que aquilo ainda era melhor do que ficar nas arquibancadas lotadas e barulhentas logo abaixo.
Draco tomou um lugar perto da porta de saída e deixou que Scorpius corresse até a fileira da frente, juntando-se a Lupin, que usava os cabelos vermelhos com mechas verde-claras, combinando com a camisa do time.
Assim que viu Scorpius, Potter interrompeu sua conversa com um Weasley e olhou para trás, sorrindo para Draco antes de cumprimentar o garoto recém-chegado.
"Draco! Aqui!" Draco demorou a reconhecer a pessoa que o chamou, apontando para um assento ao seu lado. Luna Scamander estava vestida inteiramente das listras verticais verde-claras e vermelhas do Catapultas de Caerphilly. Sentada ao lado do marido, ela também tinha pintado o rosto e feito trancinhas coloridas nos cabelos.
Draco aceitou o convite, cumprimentando o casal. Rolf Scamander foi muito cortês e simpático, chamando um garçom para servir o recém chegado. Draco aceitou uma cerveja amanteigada e fingiu interesse no jogo, ignorando as tentativas de Harry de chamar sua atenção.
"Que bom que você veio, Draco," Luna falou, animada. "É bom vê-lo novamente."
"Igualmente," Draco devolveu, sentindo-se estranhamente reconfortado perto da antiga colega. Era estranho pensar em Luna como uma amiga, mas ela fora a única pessoa além de Astoria com quem Draco confidenciara durante um longo tempo - apesar do fato que as técnicas da mulher para fazê-lo falar fossem um tanto controversas e envolvessem uma generosa quantidade de álcool. Eles tinham perdido o contato desde o nascimento dos gêmeos, mas ainda trocaram cartões de Natal.
"Você parece bem," Luna sorriu, examinando-o atentamente, de um jeito que sempre o deixava desconfortável.
"Você também," Draco devolveu, polidamente. "Onde estão os bebês?"
"Com meu pai," Luna esclareceu. "Eles ainda são muito pequenos para virem. Mas também estão torcendo pelo Catapultas como o pai, não é mesmo, Rolf?"
O homem deu um sorriso amarelo e Draco se perguntou se Luna tinha fantasiado os filhos algo parecido com o que fizera em si mesma.
"Você não torce para o Catapultas, então?"
"Ah, não," ela retirou um cordão de dentro do vestido, onde se via um brasão com uma garra dourada num fundo verde escuro. "Torço pelas Harpias! VAI HARPIAS!" Ela gritou, fazendo com que todos os ocupantes do camarote olhassem na direção de ambos.
Draco bebeu sua cerveja, tentando disfarçar seu embaraço diante do olhar divertido de Harry e do escrutínio desconfiado do Weasley com quem ele conversava. Draco reconheceu-o como o gêmeo sobrevivente, dono da loja de logros.
O jogo logo começou e Draco aproveitou a empolgação de Luna com a partida para prestar atenção nos demais ocupantes do camarote. Havia uma bruxa negra vagamente familiar, que Draco imaginou ser esposa do Weasley. Ela tinha uma garotinha no colo e passava a maior parte do tempo chamando a atenção de um garoto inquieto de pele morena e cabelos castanhos, porém cujas sardas não negavam seu sobrenome. Havia ainda outro Weasley que Draco sabia trabalhar no Ministério da Magia, que interrompia sua conversava com outro bruxo de aparência oficial para vibrar pelos avanços dos Tornados e uivar sempre que o time adversário se aproximava dos aros, olhado para trás com cara feia diante da torcida efusiva de Luna pelo Catapultas. Ele também lançava olhares especulativos na direção de três meninas que se sentavam logo na frente dos meninos, duas de cabelos ruivos e a mais velha de longos cabelos loiros e aparência esnobe.
Scorpius tinha se sentado ao lado de Lupin, mas Draco logo percebeu que havia algo errado pela postura rígida do filho. Não demorou a perceber o motivo. Lupin e o garoto moreno estavam empenhados em infernizar a vida das meninas, principalmente a loira, que não parava de se virar para ralhar com eles. Os meninos então remendavam a maneira afetada como a garota jogava os cabelos para trás dos ombros e sua fala arrastada, com um leve sotaque francês. Eles pareciam entretidos demais para dar atenção a Scorpius, desprezando as tentativas do menor de entrar na brincadeira.
Draco estava prestes a chamar o filho e levá-lo embora quando Potter também pareceu perceber o desconforto de Scorpius e chamou-o para se sentar ao seu lado, oferecendo seu onióculo. Aquilo fez com que o rosto de Scorpius se iluminasse e Draco fez um muxoxo.
"Ele se parece muito com você," Luna falou, despertando-o de sua contemplação.
Draco perguntou-se se ela se referia à aparência do seu filho ou à maneira como ele parecia gravitar ao redor de Potter. Quando se tratava de Luna, era difícil ter certeza.
"Sinto muito pelo fim do seu casamento," a bruxa falou, durante um intervalo na partida.
"Não sinta," Draco suspirou. "Foi melhor assim."
"Scorpius parece estar lidando bem com tudo."
"Sim, ele é um garoto especial."
Eles observaram em silêncio enquanto Harry e Scorpius reviam alguns dos lances do jogo através do onióculo. Draco sentiu certa satisfação ao ver como Lupin parecia tentar disfarçar o próprio ciúme diante da proximidade de ambos, dividido entre continuar a importunar as garotas ou se intrometer na conversa do padrinho com o primo.
"E ele parece se dar muito bem com Harry," Luna falou, contemplativa. "Bem, mas assim são todas as crianças. Harry tem um dom com elas. É uma pena que não tenha tido filhos ainda. Ele seria um ótimo pai."
Draco não se dignou a responder, levando a garrafa de cerveja aos lábios enquanto olhava para as arquibancadas lotadas do lado de fora, sem realmente enxergá-las. Em seguida ficou girando a garrafa vazia nas mãos.
"Você ainda tem feito poções?" Luna mudou de assunto depois de um silêncio desconfortável, na opinião de Draco.
"Não. Perdi o acesso à maioria dos ingredientes."
"Ah, entendo..." Ela pensou por um momento. "Estou pensando em voltar a viajar com Rolf, em breve. Se você precisar de alguma coisa, é só escrever."
"Obrigado, Luna," Draco agradeceu e soou sincero aos próprios ouvidos.
"Papai, papai, olha só o que o Harry gravou!" Scorpius correu até o pai, acenando com o ominióculo diante do nariz de Draco. "Eu nem tinha percebido. Alguém das arquibancadas jogou uma botina no apanhador do Catapultas e ele rebateu direto no nariz do bruxo!"
Draco deixou que Scorpius encaixasse o objeto em seu rosto e permitiu que os cantos de seus lábios se repuxassem para cima ao assistir à cena. Em seguida, encontrou o olhar convencido de Harry, que se aproximava com as mãos nos bolsos, e tratou de fechar a cara.
"Aceita suco de abóbora? Tenho um sobrando!" Rolf Scamander ofereceu a Scorpius. Ele tinha as bochechas rosadas, apesar das garrafas vazias que se amontoavam aos seus pés não passagem de cerveja amanteigada.
Scorpius lançou um olhar questionador ao pai, que assentiu seu consentimento.
"Sim, obrigado!" Scorpius se aproximou de Rolf, encarando Luna com espanto. "Legal a sua fantasia."
"Posso me sentar aqui?" Potter perguntou, como se todos os demais ocupantes do camarote não tivessem que agradecer a ele por estarem ali.
"Harry, segura!" Rolf arremessou uma garrafa de cerveja que Harry apanhou no ar sem nenhuma dificuldade. Em seguida, Rolf arremessou outra para Draco, cujos reflexos não eram nem de longe tão rápidos quanto os do ex-grifinório. No breve instante em que a garrafa pendeu no ar, Draco entrou em pânico. Se não fosse por Harry, ela teria se espatifado no chão.
"Sinto muito por Teddy," Harry cochichou ao entregar-lhe a cerveja, aproveitando-se da distração de Scorpius. "Ele fica impossível quando se junta com os Weasley."
Draco limitou-se a lhe lançar um olhar de esguelha, sentindo o rosto quente de embaraço enquanto disfarçava com um longo gole de cerveja. Surpreendeu um olhar desconfiado de Lupin antes que o garoto se voltasse para o campo novamente.
"Prometo que vou ter uma conversa séria com ele, quando chegarmos em casa," Potter continuou, inabalado. "E obrigado por ter vindo."
"Harry, eu vi o pomo passando!" Scorpius comemorou, se sentando entre ambos e apontando para o campo, onde os jogadores continuavam reunidos com seus treinadores, definindo as estratégias do time. "Papai, olha!" O garoto apontou para a única vassoura que sobrevoava o campo enquanto as pessoas logo abaixo gritavam e jogavam coisas. Estranhamente, seu ocupante não usava o uniforme de nenhum dos times e parecia rumar diretamente para eles.
"Teddy!" Harry exclamou, levantando e levando a mão até a varinha enquanto se colocava na frente de Scorpius para protegê-lo do que quer que fosse. Vários outros ocupantes do camarote puxaram as varinhas enquanto a bruxa negra forçava as crianças a se abaixarem. Havia gritos e vaias nas arquibancadas logo abaixo. Draco também ficou em pé com a varinha em punho, porém teve que olhar por cima do ombro de Potter para conseguir ver alguma coisa. Antes que algum feitiço fosse lançado, entretanto, o camarote inteiro foi iluminado por um flash seguido de vários outros.
O que se seguiu foi um pandemônio. Os dois Weasley esbravejaram e xingaram, lançando feitiços que o fotógrafo evitava, continuando a pressionar o dedo furiosamente na máquina fotográfica. Lupin e o garoto negro gritavam e atiravam coisas no invasor que pareciam acertar o alvo onde os feitiços falhavam e, pelo cheio, Draco logo descobriu serem bombas de bosta. Tarde demais, Draco percebeu também que Scorpius se juntara a eles e vibrava a cada explosão. Potter tinha se aproximado da beirada do camarote e se esforçava para restabelecer a ordem, tentando impedir as crianças de jogarem mais mísseis fedorentos e pedindo que os adultos deixassem os seguranças tomarem conta daquilo.
Em seguida, dois bruxos fardados se aproximaram com suas vassouras, embora torcessem os narizes diante do fedor, e imobilizaram o fotógrafo.
"Ei, isso foi divertido!" Luna sorriu, seus olhos permanentemente arregalados observando enquanto os ânimos se acalmavam. Rolf tinha coberto o nariz com o próprio chapéu e levantou uma sobrancelha para Draco, sem dizer nenhuma palavra.
"... e ainda acabou com nosso estoque de bombas de bosta," reclamou Lupin.
"É verdade, nós estávamos guardando o melhor para o final!" O garoto Weasley também resmungou, cruzando os braços.
"O quê? Vocês pretendiam jogar isso nas arquibancadas?" Exasperou-se a mãe do garoto e então olhou para o marido, que tentava conter o riso. "George! Que tal me dar algum apoio aqui?"
"Sinto muito pela bagunça," Harry se desculpou para Scorpius, que o acompanhou de volta ao fundo do camarote, sentando-se novamente ao lado de Draco. Lupin e o garoto Weasley foram colocados de castigo, um de cada lado do camarote e ostentavam expressões injustiçadas idênticas.
"Tá brincando!" Scorpius falou, ainda deslumbrado. "Foi o melhor jogo que já assisti!"
"Mas a partida ainda nem acabou," Harry falou, divertido. "E se os Tornados perderem?"
Scorpius refletiu por um momento antes de se decidir.
"Bem... Acho que terá valido a pena."
Harry riu e bagunçou seus cabelos. Draco desviou os olhos, tentando não pensar nas palavras que Luna dissera havia pouco. E falhando miseravelmente.
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