Mais algumas semanas se passaram e nenhum dos dois trocou sequer uma palavra. Esbarravam-se as vezes, mas nada que gerasse alguma conversa.

Nos poucos minutos em que Snape se permitia cochilar, vencido pelo cansaço, sonhava com as mãos de Hermione percorrendo seu corpo, enrolando os dedos em seus cabelos, sussurrando palavras carinhosas em seu ouvido, roçando os pés finos e graciosos nos seus, sentindo as mãos delicadas percorrerem caminhos em suas costas largas, enquanto ele beijava seu pescoço, murmurando alguma coisa que a fazia dar uma de suas gargalhadas deliciosas. E acordava suando, desejando-a. E era sempre o mesmo vazio de acordar sozinho, olhando para a sala fria e a lareira apagada, somente com ecos da voz dela em sua cabeça.

– Isso não pode ficar assim! – bradou ele, levantando-se – Ela tem que falar comigo em algum momento... – e rumou decidido para as escadas. No entanto, a marca ardeu em seu braço e ele não teve escolha senão deixá-la. Por algum motivo que ele desconheceu no momento, sentiu a necessidade de deixar um bilhete avisando que havia sido chamado. Mas ao rabiscar as primeiras palavras sentiu-se tolo.

Granger,

– Não, melhor Senhorita Granger.

Senhorita Granger,

Fui chamado pelo Lord...

– Não.

Senhorita Granger,

Precisei sair... Não sei quando volto.

– Argh! Pareço um adolescente! – e amassou o pergaminho, fazendo-o virar cinzas.

...

Um dia, dois, quatro, uma semana e nada de Severo Snape. Hermione alternava entre raiva e lágrimas, e não sabia o que fazer para encontrá-lo. Inúmeras loucuras passaram pela sua cabeça, mas ela sabia que só podia piorar tudo.

Ela o amava, e agora tinha certeza disso. E prometeu a si mesma que quando ele voltasse, faria de tudo para deixá-lo feliz, e só se afastaria se ele realmente não a quisesse. Novamente adormeceu na poltrona, sentindo-se aconchegada com o cheiro dele, desejando que ele estivesse ali, embalando-a, acariciando-a. E foi mentalizando a sua presença que Hermione adormeceu.

Horas mais tarde e um barulho a fez saltar da poltrona. Quando pode pensar novamente, visualizou o homem à sua frente. Severo estava fisicamente normal, mas sua expressão era de um cansaço extremo. Ela queria correr para abraçá-lo, dizer que tudo o que sentia, no entanto, conseguiu fazer justamente o contrário quando os olhos começaram a marejar.

– Como você pode?! – ela gritou, fazendo com que Snape arregalasse os olhos tamanho o susto com a explosão da jovem.

– O que? – perguntou, confuso.

– Como você pode, Severo Snape? UMA SEMANA! Uma semana sem notícias! Você sumiu! – ela gritava, furiosa, enquanto ele apenas a mirava abismado – Não vai falar nada? Não vai se justificar? Se desculpar?

Ele não sabia o que dizer. 'Ela quer que eu peça desculpas por ter sumido por uma semana?!', pensou ele, confuso. Ele não pensou em nada que não fosse Hermione em todo esse tempo, mas achou que ela pouco se importaria.

– Snape! Estou esperando! – ela ainda estava furiosa.

– Granger, a senhorita sabe muito bem onde eu estava. E o tempo que eu demoro só diz respeito a mim. – ele respondeu, do jeito de sempre, embora não desejasse respondê-la assim.

O olhar que a bruxa o direcionou foi o mais intenso que ela poderia ter direcionado a qualquer outra pessoa na vida. No entanto, não era um olhar que transbordava bons sentimentos, mas uma fúria capaz de assustar o homem à sua frente. Hermione também não era conhecida pelo seu gênio fácil, e oras intempestiva poderia colocar Snape no lugar se bem quisesse.

Depois do que pareceu uma eternidade para ele, a bruxa ainda o fitava com ódio, e Snape simplesmente não sabia como agir. Ela parecia paralisada naquela posição, até que finalmente falou – ou melhor, gritou:

– Não poderia ter deixado um bilhete? Não poderia ter falado que se ausentaria? Eu pensei que tivesse acontecido algo! Pensei que estivesse ferido ou... – ela hesitou, e por alguns segundos seu olhar não transbordava ódio, mas preocupação – ou morto. Você pode não se preocupar com nada além dos seus próprios motivos, mas EU me preocupo. Então seria pedir muito o MÍNIMO de consideração? – e sem esperar resposta, ela se virou bruscamente e seguiu para o quarto, batendo a porta.

Snape ainda estava sem fala. Ninguém havia falado com ele assim antes. 'E ela estava preocupada?', sussurrou ele. Fitando para o lugar vazio antes ocupado por ela, ele permitiu-se sentir um pouco de felicidade. Tentara demonstrar que estava brava com a ousadia da menina, mas ele não estava. Ao contrário disso, ele tinha gostado. E muito.

...

– Droga! O que foi isso? Como vou olhar pra ele agora? – ela se perguntou, assustada com a própria atitude – Eu realmente confessei estar preocupada com ele? Eu realmente gritei com ele? O que eu fiz?

Sentada na cama, Hermione respirava ofegante enquanto decidia o que estava sentindo: raiva ou alívio. 'Talvez os dois', pensou. Mas ambos os sentimentos demonstravam o quanto ela se importava come ele, então decidiu que ignorá-lo seria a melhor alternativa.

...

E assim a jovem conseguiu fazer nos três ou quatro dias que se seguiram. Trancou-se no quarto para estudar e só ia a sala de poções quando sabia que Snape estava no escritório. Ele, no entanto, estava ficando incomodado com a atitude dela e decidiu confrontá-la. 'Uma hora ela vai ter que comer', ele disse a si mesmo.

– Eu não estou com fome – sussurrou Hermione enquanto sua barriga gritava o contrário. E repetia a frase como se fosse um exercício.

Descendo as escadas lentamente, ela olhou em volta. 'Sem sinal dele', e seguiu para a cozinha. Em dúvida sobre o que comer e querendo comer de tudo, lembrou-se de Rony. Sorrindo, ela decidiu pegar tudo o podia e seguir para o quarto.

– Então é assim que tem se alimentado, Granger? Fazendo um estoque no seu quarto? – ele disse, irônico, olhando-a com os olhos semicerrados.

Hermione queria ignorá-lo. Mas não conseguia ser indiferente quando ele estava tão perto. Vê-lo ali, parado na sua frente, com as mãos cruzadas sobre a capa preta, a fez sentir raiva. Raiva por ele não demonstrar o mínimo de sentimento. Raiva por ele permanecer com a mesma postura ereta, com o mesmo sorriso irônico. Mas o que ela queria que ele demonstrasse, afinal? Reunindo seu autocontrole, ela optou por não respondê-lo e fez menção de ir embora. Ele, no entanto, com apenas um movimento lateral a impediu.

– A senhorita está... me ignorando? – ele perguntou, tentando conter a voz que saía carregada demais pra quem tentava parecer indiferente.

– Não, senhor.

– Está fugindo de mim? – ele estava ficando realmente nervoso.

– Não. Estou apenas querendo comer, posso? – e tentando passar pelo outro lado, foi impedida novamente.

Com um aceno em sua varinha e tudo que Hermione carregava sumiu, fazendo-a assumir uma expressão indignada. Mas antes que ela pudesse falar, o mestre de poções interrompeu:

– Granger, o que está acontecendo?

– Nada, senhor. Apenas me deixe passar.

– Não. Não até que me diga o que está acontecendo. É porque fiquei uma semana fora? Por favor, Granger! Não tem o controle de seus amigos e quer descontar em mim?

– Não é por isso! – ela respondeu, um pouco aflita.

– Então o que é? – ele perguntou de volta, revelando toda a sua impaciência.

– Você bem que poderia me falar sobre seus planos, não pode me deixar no escuro!

– E que diferença faz pra você? Porque isso importa?

– Porque você vai ser meu marido e eu vou ser sua mulher! – gritou de volta, se contorcendo depois pelas palavras ditas. E finalmente passou por ele, que parecia colado ao chão. Novamente Hermione bateu a porta do quarto, fazendo-se ouvir por toda a casa. Em questão de segundos Snape já estava de pé em frente ao quarto dela, sem saber ao certo o que estava fazendo, e antes que pudesse se controlar já estava chamando-a.

– Abra a porta, Granger. – ordenou, com a sua voz grave.

– Porque? – a bruxa respondeu, num tom mimado.

– Só... – ele começou, estressado, mas suavizou – abra a porta.

– Não! – massageando as têmporas e pedindo a Merlin paciência, ele tentou mais uma vez.

– Por favor... Hermione.

Ela hesitou, e por um momento Snape achou que a bruxa não abriria. Porém, o som do trinco fez seu coração pular por um motivo que ele não entendia totalmente, e uma Hermione encostada próxima a janela se revelava.

– Se continuarmos nesse ritmo, não haverá porta no seu quarto até o fim da guerra. – ele disse, soando divertido sem fazer nenhum esforço e ganhando o sorriso de Hermione, que sem tirar os olhos da escuridão por trás da janela pronunciou calmamente.

– Desculpe. Eu só... – ela hesitou, ponderando se falava ou não, mas decidiu pelo sim, olhando-o confiante – eu só estava preocupada com o que podia ter acontecido. E com raiva por saber que a minha presença não faz a mínima diferença para o senhor.

Ele a considerou por longos segundos, tentando entender o que ela acabara de falar e pensando se também respondia com sinceridade.

– Eu ia escrever um bilhete... mas me senti idiota. Achei que não faria diferença para...

– Não faria diferença? – ela o cortou – Prova de que não me conhece... Eu me importo com as pessoas!

'Com as pessoas... Sim, claro. Não com você, idiota.', ele pensou, desapontado. E querendo encerrar aquilo de uma vez por todas, ele voltou a frieza habitual.

– Sinto, senhorita. Verei o que posso fazer na próxima vez... – completou, irônico.

– Argh! Nossa! Não era Hermione? Eu sou uma idiota por me preocupar com você.

– Mas a senhorita se preocupa com todo mundo, não é mesmo? – disse, nervoso.

– Com você é diferente! – gritou ela, fundindo a vermelhidão nas bochechas: o que antes era vermelho de raiva agora era de vergonha.

Ambos percebendo que haviam acabado de declarar a importância que um tinha para o outro em meio a briga – não podia ser diferente com os dois – se olharam, imóveis.

Virando-se de costas para ele, tentando esconder as mãos que tremiam, ela disse quase num sussurro – Estou cansada... se importa de me deixar sozinha? – e sem responder, mas parecendo hesitar, ele apenas assentiu, fechando a porta com cuidado atrás de si.

Depois que ela se certificou que Snape havia saído, suspirou aliviada e abismada. Abismada com tudo o que tinha acabado de acontecer. Deixando seu olhar pousar sobre Bichento, que a olhava impassível, ela sussurrou:

– Eu o pedi pra sair... Fiz o certo, não? Digo, ele não disse nada, Bichento! – e o gato continuou fitando-a, parecendo dizer 'Estúpida!'. – Droga! – praguejou a bruxa, correndo atrás dele.

– Snape! – chamou, vendo-o descer as escadas lentamente. O bruxo apenas parou e, no outro chamado, se virou, franzindo o cenho. – Eu... – começou, sentindo seu coração bater acelerado e as mãos suarem – Bem... É que é difícil! – declarou ela, gesticulando com as mãos nervosamente enquanto descia os degraus.

Como a bruxa não fazia mais nada além de gaguejar, Snape subiu mais um degrau, de modo que Hermione ficava quase na mesma altura que ele. O ex mestre de poções não tinha ideia do que estava fazendo, mas também não se importava.

Aproximou-se ainda mais dela, vendo-a estremecer e fechar os olhos. Foi o limite. Em questão de segundos sua boca já estava passando pela bochecha de Hermione, roçando até alcançar o canto dos lábios.

'O que você está fazendo?', questionou o homem enquanto avançava ainda mais em seus movimentos.

Enquanto isso, as mãos da menina involuntariamente passaram para a nuca do professor, perpassando a ponta dos dedos por dentro da gola até alcançar a pele, de modo inexperiente.

'Merlin!', praguejou Snape.

Tudo parecia coreografado, e o tempo parecia estagnar. Os dedos de Hermione passaram então para o pescoço de Severo, até alcançarem a lateral do rosto, fazendo-o olhá-la.

'Já fui longe demais! Não vou parar agora.', disse Hermione para seu próprio corpo e mente desejosos.

O homem ergueu seu olhar apreensivo para a jovem, temendo ter ido longe demais. Mas a bruxa o incentivou sussurrando em seu ouvido: - Me beija. O pedido foi intenso, carregado, quase suplicante. E foi o suficiente para todas as barreiras caírem. Beijaram-se ali, na escada, desejando apenas que o momento durasse para sempre.

Hermione então o abraçou, com força, como se temesse que ele fosse embora. Snape apenas fechou os olhos, afundando o rosto nos cachos da jovem que tinha acabado de fazê-lo perder uma batalha para os seus sentimentos. E ele estava feliz.

– Por favor, não se afasta de mim. – ela pediu, ainda o abraçando.

– Hermione, eu... – ele não queria mesmo se afastar, mas como aquilo poderia dar certo?

– Não! – ela pediu, olhando-o – Não faça isso com você, Severo. – ela disse, firme.

'Severo... Como era bom ouvi-la sussurrando meu nome. Como era bom ouvi-la sussurrando qualquer coisa.'

– Não sabe o que está falando, menina. – sibilou, tentando manter algum traço de frieza. Falhou. Sua voz só transparecia desejo. Mas quando Hermione ameaçou beijá-lo mais uma vez, Severo agarrou-se ao seu último fio de sanidade, afastando-a. Afastando-se...

Hermione ficou parada na escada até que o vulto negro sumiu na escuridão do chalé. Ainda inebriada pelo beijo, ela não chorou. Mas vê-lo se distanciar doeu, deixou um vazio. Tudo seria muito pior agora.